Catimbau: poesia entranhada na pedra e na alma



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CATIMBAU: POESIA ENTRANHADA NA PEDRA E NA ALMA
RIMBAUD

RESUMO DO LIVRO


Poemas resultantes de viagem ao vale do Catimbau no sertão de Pernambuco que refletem imagens e costumes de um povoado que reúne misticismo e fé, tradição e riqueza cultural, e sobrevive no limite de suas forças naturais em embate com a modernidade e o descaso político. Vale encantado e protegido como área de preservação ambiental, onde habitam remanescentes indígenas, adeptos do beato Meu Rei, católicos e protestantes, e visitantes universitários, e de ONG paulista que promovem a cidadania. Alí a pedra está entranhada na alma, como no poema de João Cabral de Melo Neto; o tempo é amigo, demora a passar; a natureza é farta e ajuda a enfrentar o calor e a falta de água. A diversidade ambiental e a força do sertanejo inspira quem visita o povoado que parece parado no tempo, e para quem fica, vai se mostrando aos poucos: a noite estrelada, a feira, os onze templos religiosos, o castelo de Meu Rei, as inscrições rupestres, a imensidão do vale, as formas nas pedras, os animais, o caju, a louca, os odores e sabores. A poesia reina na natureza, basta desligar a percepção urbana, e deixar-se intuitivamente experimentar o universo ao redor. Os poemas com formatos variados, porém em versos livres, captam e refletem esse universo, frágeis e eternos como a pedra.

I

Sonhos são voláteis como éter



Mais leves que fumaça

Leves como o pensamento

Como a palavra pensada e não dita

Mas podem pesar como as palavras malditas

Sonhos flutuam dentro de nós

Falam por nós

Falam de nós

Cegos


II

A criança que fui um dia

Feliz

Às vezes me aparece em sonhos



Pareço flutuar

Pareço andar nu

Pareço não conseguir sair do lugar

Pareço saborear uma indescritível talhada de melancia

E inalar o mais puro e invernal ar de roça

Nesses dias acordo sorrindo

E cantando como um Bem-te-vi

III


Em sonhos já vi a face medonha do diabo

Chamam a isso de pesadelo

Já experimentei uma sensação de quase morte e

Acordei sobressaltado e chorando

A isso a psicologia chama de angústia

Por isso mesmo já tive medo de dormir e

Não entender e

Perder-me na escuridão

Medo de não poder voltar

Medo de encontrar

Tateando as paredes gelatinosas da angustia

A culpa na sua forma original

À espera

IV

Orquestra na cozinha e feira no quintal



Panelas e galinhas tagarelas

Conversam sobre café, bolos e pães fresquinhos

Convidam a aspirar a pureza da manhã

A devorar o dia

V
Asas de nuvem passageira

Asas ligeiras de colibri

Asas do sim e do não

Asas do carcará e do bem-te-vi

Ensinem-me a sorrir com a força de um furacão

Asas da língua mensageira

Asas da xícara, do bule, do vinho, do chá

Explodam-me os limites do paladar

VI

A mais bela imagem da infância: ovinhos de passarinhos. O primeiro êxtase, a primeira epifania. Delicados demais para tê-los nas mãos sem o risco de quebrar por pressão demais dos dedos ansiosos e curiosos ou por deixar escapulir. Por demais delicados repousando em miniaturas de ninhos de galinhas, protegidos apenas pela altura ou pelos espinhos de árvores estrategicamente escolhidas pelos páissaros. Multicoloridos, salpingados de azul, amarelo, vermelho, em combinações tão belas como as cores nas telas de Van Gogh, de Manabu Mabe, ou dos sonhos de Akira Kurosawa. Cresci com estas imagens de beleza protetora contra as cinzas da grande cidade e da metamorfose juvenil e adulta. Ainda hoje me protegem com sua promessa de criação de canto, cores e asas em liberdade. No sertão é crença de que não se deve tocar nos ovinhos e menos ainda nos filhotes dos passarinhos, e se não se pôde evitar tocar deve-se cuspi-los para afastá-los da peçonha das cobras. Creio que as crianças do sertão têm sido atingidas pela peçonha de políticos de forma letal há cinco séculos.



VII

Por onde você andou filho?

Levitando pai.

Más, não te fiz nada!

Por isso levito, sem gravidade.

Por que me evitas?

Levito pai, não lhe evito.

Eita menino inteligente!

VIII
Vale do Catimbau, vale encantado, vale da imaginação onde impera uma saudade geológica, uma nostalgia pré-histórica. Diante da grandiosidade do vale, do chapadão, do cânion, do céu, do tempo que tudo forjou, uma imaginação fóssil se nos apodera para tentar explicar e conviver pacificamente com o espanto diante de tamanha beleza. Sem nuvens para devanear é nas pedras que o sertanejo projeta seus sonhos, desejos, enxerga com olhos de criança, pelo avesso, o que já não existe, o que lhe falta, o que tem pouco ou gostaria de ter. Foi nas pedras que o índio gravou o mistério de seus rituais. Por todos os lados a pedra se impõe, reclama o olhar e uma pitada de imaginação. Uma natureza de pedras vivas, ou animais petrificados? Uma verdadeira megafauna de pedras salta aos olhos e exige recapitulação, um esforço de memória para nomear tudo que se vê. Aprendo a lição dura das pedras e desenvolvo uma imaginação fóssil e um olhar criativo. Logo encontro tartarugas gigantes, leões, galinhas, águias, cachorros, perus, peixes, serpentes, jacaré, tudo frágil, tudo por um fio. Suspensas e ancoradas umas nas outras, pedras de arenito desfazem-se, lentamente, ao sol e ao sereno, com a carícia do vento e da chuva. O fio do tempo parece que irá romper a qualquer instante e tudo irá desabar e revelar as entranhas de um passado que teima em se fazer presente em novas formas na pedra e na imaginação. Aos poucos a lição da pedra é aprendida. Nas trilhas do vale o encantamento transforma-me em índio, em pedra, em frágil bloco de arenito, em inscrição, sujeito às agruras do tempo. Para aprender a lição da pedra, é preciso fazer-se pedra como o sertão, como o sertanejo. Neste universo mítico de pedras à beira do abismo em que me reconheço tudo parece ansiar pelo vôo, pela corrida, pela escalada, pela palavra que desfaça o encanto, pela vida.

IX

Com os braços abertos em direção ao céu



O mandacaru

Implora piedosamente por chuva

Por verde

Por ninhos

Por festa

Por companhia

No espinho mais comprido espeto meu coração

Deixo sangrar para dar vida à pedra


X
ÂMBAR

Fóssil vivo

Minha linguagem é a tradição oral

Meus costumes são mistérios rituais

Adoro os deuses da mata

O tempo é um Deus, o maior

Minha escrita é rupestre

Meu tempo é marcado pelas estações, pelo dia e pela noite

Minha casa é o mundo que desbravo

Vou onde é preciso ir, quando a necessidade ordena

Nômade, guio-me pelas estrelas

Habito, em copas de árvores, em locas e cavernas

Acasalo na primavera

Agasalho-me com folhas

Curo-me com ervas e raízes

Grato à natureza, com ela me irmano, um animal entre tantos

Não tenho nome nem idade

A ciência não me conhece

Disfarço-me com seus disfarces


XI

No vale do Catimbau as pedras e montanhas desfazem-se com o hálito do tempo, a caricia dos ventos, o beijo úmido do orvalho e das chuvas irregulares, com o toque suave e curioso de mãos viajeiras, com a força das pisadas caminhantes. Quase tudo no Catimbau é transitório e se dissolve ou se refaz constantemente em novas formas. Quase tudo é arenito impregnado de óxido de ferro e líquens, esqueletos do tempo, de cores e formas oníricas e de ficção. Sertão de arenito! O sol a pino empresta-lhe um certo aspecto de deserto pré-histórico. Sinto-me transitório, e a dissolver-se minha razão arenítica. Como uma estátua viva esculpida em areia sinto meu corpo de certezas desfazendo-se em pó enquanto ando, até ser apenas caminho.



XII

As cores são mais belas nos sonhos

Na arte

Na imaginação



As coisas também

A natureza é a inspiração

E também a natureza das coisas

XIII


Acordo cada dia menos humano

A cada instante me torno o que desconheço

Um silencio

Um vestígio

Um desejo

Um trejeito

Quase um ovo

Quase uma intenção

Quase um casal

Quase uma programação

Quase um final

Quase uma flauta de osso

Uma falta

Uma falha


XIV
DESAPEGO

Não quero ser sorriso de criança

Núvem que passa, instante de paixão

Quero ser um supercomputador do futuro

De memória infinita

Autoreparante

Autoreplicante

Sem data de validade

Acoplado a uma nave espacial

Que me poupe de tantas leituras

E das lacunas da memoria

Que me poupe da criptomnésia

E da superficialidade dos textos de auto-ajuda

Que me faça de uma vez por todas o farsante do milênio

A mais bela escrita

A síntese perfeita

Das cadavéricas e enfadonhas citações acadêmicas


XV

Moro no fim do mundo



Significa que moro distante, muito longe

Que sempre haverá caminhantes em busca deste lugar

Ou quem sabe este é um canto esquecido por todos

Significa que já cheguei?

Tenho então um passado e uma memória para me fazer companhia

Caminhos para refazer

Entre o rio

O sertão


E o mar

XVI


DUELO

No silêncio mais eloquente

O grito é suspenso no espelho da navalha

No exato momento do toque

No preciso movimento do corte
Na tessitura da ira

A vida por um fio

Desfeita no frio

Do aço


XVII
A FEIRA

Expostos pendurados

Desejos, destinos, presságios

À escolha

XVIII

CATIMBAU
Pernambucólica paisagem:



Tarde de ar quente e tremuloso

Arfa um cão sedento

A louca do povoado grita palavras sem nexo

E cobre-se de areia

Os cabelos desgrenhados

As vestes surradas

Os pés descalços

Estátua viva de mestre Virgulino

A xilogravura que J. Borges ainda não imprimiu

XIX
PANÓPTICO

Nem uma cidade

Nem mil almas

Somente a feira permite escolhas

A ira de onze templos disputa

Vigia

Controla



Ameaça

O tempo da finitude humana

Com as algemas da fé

XX
O POÇO

Da órbita escavada na terra seca brota

Mais precioso e raro que o diamante

Cristalino e tímido o fio

De lágrima

Escorre do poço que sustentará

A magreza do gado

A resistência secular do vaqueiro

A altivez resignada da agricultora

O olho cego mira piedoso

O olho ciclópico do sol inclemente

XXI

Pés de silêncio ensombrando



Margens de veredas

Cantos de quintais

Costumam frutificar

Carregados nadas

E coisas nenhumas.
De pés de nadas

Também desabrocham

Perfumadas flores macambuzias

E inodoros segredos

XXII
O vento costuma criptografar lençóis estendidos em varais

Assobiar segredos entre raízes e no oco das pedras

Assustar com cantigas de frio
Respondo eriçado

Ao seu apelo


Árvores falam a língua oculta dos ventos

Pergunto ao umbuzeiro qual o sentido da vida

O que ele responde devolvo ao vento

Somente a ele

XXIII

Sertão é lugar de partidas



Asas

Lenços


E saudades infinitas

XXIV


Minha alma é um sertão com pancadas de chuvas

No verão


E floradas temporãs

Um corpo sempre à espera

XXV

CREPÚSCULO



Cortei os pulsos da paisagem

A tarde desmaiava cedo

Enquanto

O sol extinguia sua brasa

Em cinza e negro

Morria o dia

XXVI

CAJUEIRO


Senhora com largo vestido verde espraiado

Brincos, e pingentes no colo e nos longos braços

Do fruto que não parece

E cru nem a todos apetece

Más, antes duro

Escondido como diamante

Permanece à espera

Que o fogo liberte

Tão somente a beleza e o sabor

De sua alma edulcorada

Do estágio híbrido de semente: fruta – flor

XXVII


Com que facilidade esmago uma formiga

Eu mesmo uma formiga

Para os sem lei

E para aqueles que a criam!

XXVIII
A GALINHA

Não me choca

A galinha morta

Se viva


Menos morta não estaria

De medo


Morta viveria

A contemplar a panela

Tumular

À espera


Vazia

XXIX
ÓCIO

Gosto de não fazer nada

De retirar-me do mundo

De contrariar expectativas

De não ter que dizer coisa alguma

E consagrar-me à inutilidade do ócio
Faz-me bem cozinhar esquecimentos

Com os gravetos dos minutos

Fazer sabão com as cinzas das horas

Repousar na teia de uma aranha bêbada

Viajar de carona no redemoinho de um saci amigo

E rodar ao contrário dos dias

Até desfazer-me

Virar brisa morna

Canto de grilo

Ou seiva


XXX
SINESTESIA

A cor mais sonora

Reparte o dia ao meio

Reparte-se em metades de sabor

Desperta estalidos na língua

Converte-se em flor e pássaro

Em ária

De canário



XXXI

Sertão é amplidão

Redundância de vazios

Sertão não é falta

É eco de silêncio primordial

Excesso de céu

Tempo e infinito ao dispor

XXXII


No sertão a solidão é feita de redundâncias e

Previsibilidades

O silêncio é preenchido por vozes da natureza

E até as pedras falam

Na cidade grande a solidão é feita de avessos e

fugacidades

XXXIII

O AMOR


Brincar de Deus:

Colher o barro na margem do leito seco da memória

Em algum canto esquecido da infância ainda flui um rio

Amassar como Vitalino

Giacometti

Rodin


Soprar para dar vida

Desejo


Movimento

Liberdade

XXXIV
Poesia sertaneja?

E apois!


Chuva no sertão é ligeira

Como contar dois mais dois






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