Casa dos mortos



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RECORDAÇÕES DA CASA DOS MORTOS DOSTOIEVSKI

·- ~ #


W)

I, cl.)


F. M. DOSTOJEVSKI

Por V. C. Peroy, artista russo (retrato de 1872)

COLEQµ0 FOCOS CRUZADOS

50

DOSTOIEVSKI



RECORDA€OES DA

CASA DOS MORTOS

ROMANCE

O

Traduvao de



RACHEL DE QUEIROZ

Xilogravuras de

OSVALDO COELDI

Prefacio de

BRITO BROCA

Capa de SANTA ROSA

1945

'Livraria JOSÒ OLYMPIO Editora



Ouvidor, 110, Rio - Gusmões. 104, S. Paulo #

D

Deste livro foram tirados, para- bibli¢filos. cento e cinquenta



exemplares em papel Bouffant extra, creme, em grande for-

mato, numerados de 1 a 150.

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NOTAS SOBRE

"RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS"

Poi& BRITO BROCA

A id‚ia de Dostoievski condenado por crime pol¡tico ao mais

duro degredo na Si-beria, tem levado o p£blico pouco infotrmado

sobre a vida do escritor a imagin -lo um revolucionario. . o erro

em que vinha incorrendo muita gente, entre n¢s, antes da vulgari-

za‡ão de biografias do romancista e do incremento dos estudos dos-

toievskianos de alguns cmos para c , no Brasil. Dostoievski nunca

foi revolucionario no sentido pol¡tico e social, e sua obra, nesse plano,

‚ meMo a de um reacionario e conformista. Somente no terreno

literario, art¡stico, ou mais propriamente psicol¢gico, podemos consi-

der -lo revolucionario. Nesse, terrewo,, ‡im, Dosfoievski revolucio-

nou o conceito de romance indo de encontro ... psicologia cl ssica, e

abrindo caminho para os abismos do inco-nciente, onde mergulharia,

mais tarde, Preud, como um escafandro. O romancista russo iniciou

a descida aos infernos a que se refere um dos bi¢grafos do sabio

vienense.

Mas quais foram, na realidade, as circunstancias que levaram

Dostoievski ... pris"o? Uma injusti‡a, podemos dizer. O romancis-

ta na-da fez que merecesse t"o duro castigo - a punicõo tremenda

infligida aos implicados na pseudo-consPira‡ão Petradevski., Veja-

mos a historia. Petrachevski era um funciovario do MNister¡o do

Interior, descontente com o regime - a tirania (Ia tzar Nicolau 1,

que sempre nos aiparece com as cores mais negras, embora tantos

historiadores tenham procurado ateviM-la , eXPUcando-a em face

das wndi‡õe:, especial¡ssimas da vida russa. O inicia do governr,1

do Izar foi, como se. sabe, as,~ina?,7(lo pela insurrei‡ão dos "decem-

bristas" - um movimento de nobres, exigindo reformas pol¡ticas e

sociais. Os conspiradores pagaram a audacia na forca, e no exilio.

Mas o ambiente ficou, carregado e o esp¡rito do tzar tern¡veIm ente

prevenido. Ali s, o descontentamento continuou em ebul~Põo sub-

terranea, principalmente entre a pequena burguesia e os intelectuais.

Petrachevski era dos que achavam que havia muita coisa errada,

ou antes, tudo estava errado, embora não possuisse id‚ia n¡tida e #

- X -

definida do que Seria preciso fazer para modificar aquilo. COM



menor nitidez ainda se esbo‡avam as id‚ias no esp¡rito dos intelec-

tua£. A Europa vivia em plena efervescencia romƒntica, em pleno

s~ libertario, o por toda parte surgiam as exalta‡ões m¡sticw do

sooWlinno ut¢pico. ' Os intelectuais russos liam, como tanta gente,

pourier, Saint-Simon, os romances socializantes de George Sand

e im&ginavam as maneiras de aplicar aquelas teorias na Russia -

na Russia, esse mundo diferente, isolado do resto da Europa. De

que maneira concretizar tais principios numa realiza‡ão pr tica e

positiva? Era o que winguem sabia, mesmo porque os russos ainda

~ que fazer a "revolu‡ão francesa", vencer essa grande etapa,

para chegar aos ideais de Fourier e Saint-Simon. Na Russia ainda

havia servos, como no apogeu do feudalismo, e sem a medida prelimi-

nar de abolir a servidõo nada seria possivel. Eis um dos problemas

capitais que se discutiam em casa de Pe,trachevski. Discussão sem

consequencia, sem nenhum inicio de a‡ão, mesmo porque os interlo-

cutores divŠrgiam em seus pontos de vista. O destino de Dostoievski

levou-o a frequentar essas reuniks. Como intelectual, pensava tarn-

bem na sorte da Santa Russia, na miseria do povo e na arrogancia-

dos nobres. Lera os utopistas, admirava enormemente George Sand

e perdia-se em confabula‡ões. Bastariam essas cireunstaneias para

fazer dele um revolucionario? Certamente não. Havia em Dos-

toievski o anseio de harmonia e (le justi‡a comum. a quase todos os

intelectuais. Por que tanta gente a gemer na servidão? Por que

tanta dor, tanta queixa? Ah! era preciso suprimir esses males! E

as palavras de Cristo a ecoarem em seu cora‡ão: "Amai-vos uns

aos outros". Teria isso alguma coisa com a id‚ia de pegar em armas,

rebelar-se contra o poder, derrubar o tzar? Não. Dostoievski tem

confian‡a no tzar e acha que do proprio soberano devem partir as

medidas reformadoras. No fundo, o que o exalto, ‚ o iJeal de um

mundo perfeito. Temperamento nervoso, tem, entretanto, os seus

instantes de arrebatamento. Imvreca, contra os abusos da nobreza, a

intolerancia do clero, fala em revolta. Não nos esque‡amos de que

se trata de um epil‚tico. Seria absurdo Julg -lo por essas expan-

sJes passageiras. Dostoievski est longe de ser uma das figuras prin-

cipais,nas reuniões de Petralchev‡W: h outros que falam e se excedem

mais do que ele, embora tão ivocuos quanto o romancista., no terreno

pr tico. A fatalidade leva-o ai distinguir., entre todos, o £nico pe-

rigoso - o estranho Spechnev, com o qual se liga em -intima caniara-

dagem. Spechnev ‚ o tipo d( conspirador vato: vasceu para isso r

parece prelibar a volupia do martirio. Acabar w forca, ele bem o

sabe, e todos os seus passos o encaminham, dia a dia, para esse desti,

no inevitavel. Dostoievski sofre a influe?~eia irresistivel do compa-

nheiro, do anjo mau. Talvez houvesse uma inten‡ão literaria -nessa

- X, -


aproxima‡U. O roma"tai veria em gpechnev um bom tipo~ um

estranho exemPlar humano. E a propria maneira de referir-se ao #

companheiro, chamando-o Mefist¢feles, trai literatura.

Descontente com aquelas reuniões, onde muito se discutia, sem

cuidar de agir, Speehnev pensa numa conspira‡ão mais efioiente,

para a qual seduz Dostoievski. Essa conspira‡ão, na verdade, tam-

bem não chegou a efetivar-se, mas a, influencia de Specƒnev teria con-

tribuido_para que o romancista tomasse atitudes mais exaltadas na

casa de Pet~evski.

Enquato isso, a Terceira Sec‡ão trabalhava. Certo Antonelli,

espião estipendiado pela policia, tomava parte nas reuniões, fazendo

detalhados relatorios de tudo que presenciava. Por maior que fosse

o seu empenho, entretanto, não conseguia reunir provas capazes de

comprometer Petrachevski e. os amigos. Era preciso esperar, ter

paciencia. A&3 poucos a realidade da eonspira‡jo havia de concre-

tizar-,se. As expansões iam-se tornando cada vez mais graves. E

num banquete em homenagem a Fourier, no qual, ali s, Dostoievski

não tomou parte, o ¡mpeto subversivo do pequeno grupo alinge o

limite almejado por Antonelli. O chefe de policia Orlof alarma-se

com, o rei‡atorio. Aqueles jovens palradores, que pareciam inofensi-

vos, transformam-se, de um momento para outro, em perigosos rebel-

des aos olhos das autoridades. A lembran‡a do movimento "Decem-

brista" continuava bem viva no esp¡rito de todos; urgia abafar a

intentona com a maior rapidez pdssivel. Da¡ o resultado que o

leitor j conhece: a prisão de Petrachevski e dos companheiros,

inclusive Dostoievski e o seu ir~ Andr‚. O romancista estava

dormindo, quando a policia chegou, e ficou duplamente espantado,

porque não contava com aquilo. Que fizera para ser preso? Con-

versara, discutira entre os amigos. Mas o aparato da escolta indicava

a g , ravidade do caso. Bem depressa lhe fugiram as esperan‡as de

que as coisas se esclarecessem rapidamente, sem maiores misequen-

cia3. Era um conspirador perigoso e assim o tratava a polida,

encerrando-o na fortaleza Pedro e Paulo, onde deveria aguardar o

desenvolvimento do processo. As acusa‡ões contra ele estavam longe,

porem, de ser convimentes. Ter frequentado reuniões onde se ala-

cavam o absolutismo e a Igreja ortodoxa; ter assistido ... leitura de

uma -novela dissolvente, mesmo sob o regime de Nicolau, I, não

bastavam para justificar uma condena‡ão, se as autoridades não

e,stivessem, empenhadasno prop¢sito de condenar de qualquer forma.

DoistUevski ‚ submetido a interrogatorios capciosos, fazem tudo

Para arrancar-lhe respostas comprometedoras e o romancista resiste

de tal maneira que chega a 4i-itar os membros da comissão de i*-

quˆrito. Nega de p‚s firmes qualquer intuito subversivo, repele as #

Z

X111 -



Xil

id‚ias socialistas e protesta sua$ convic‡ões de patriota. ---Nãoimpor-

ta: ora preciso condenar. E, a condena‡ão -vem finalmente. Uma

segunda junta de inqu‚ritd, composta de membros oiv¡s e militares,

profere a mais rigorosa senten‡a: deporta‡ão e fuzilamento. O ve-

redictum sobe a nova instancia, ficando a pena para todos reduzida

a trabalhos for‡ados. O tzar limita a, senten‡a de -Dostoievski a

quatro anos, devendo o romancista, depois, ser transferido para o

ex‚rcito, como simples pra‡a de pr‚.

Mas a puni‡ão ainda ia revestir-se de um detalhe diab¢lico:

os criminosos deviam ser conduzidos para o posto de fue¡lamento,

e^ se tivessem sido condenados ... morte, viria o padre, diriam a

£ltima vontade, todo o aparato sinistro da praxe, e quando houves-

sem experimentado, em seu indescritivel horror, essa sensa‡ão terrivel,

ouviriam a leitura da v‚rdadeira senten‡a: o tzar, na sua infinita

misericordia, transformava a pena de morte em exilio na Si-beria.

A comedia foi desempenhada ...s maravilhas. Os - condenados não

duvidaram um s¢ momento de que iriam morrer. Dostoievski nunca

mais esquecer essa hora tremenda: de olhos vendados esperava, a

morte. Como podia ser aquilo? Sentia-se forte, jovem, ViSUe e

sete anos ardentes de vida, em perfeita mude, a vida dorrendo no

seu sangue e, de repente, a mortel Ah! como não soubera defen-

der-se melhor contra ela? como não cuidara de apegar-se ... existencia?

S¢ agora, naquele instante supremo, compreendia o que poderia

fazer na vida. O mundo seria seu! Que for‡a extraiordinaria e

nunca pressentida lhe palpitava nas arterias1 No entanfo. a morte,

al¡ a dois passos, implacavel, irremovivel, irremediavel. Ouvia car-

regarem os fuz¡s. A morte, coisa estranha, inconcebivel. Dois se-

gundos ainda, um apenas. E o tiro não vem... Em lugar disso

arrancam-lhe a venda dos olhos e o romancista, ao lado dos outros

companheiros, ouve a leitura (Ta verdadeira senten‡a. Depois da

sensa‡ão da morte, a sensa‡ão da vida ‚ qualquer coisa de demasiado

forte para a capacidade nervosa de um ser humano. Dostoievski

exulta de alegria - uma alegria hist‚rica e- quase tr gica. No fundo,

compreende que j ‚ outro homem, algo de si mesmo j morreu.

Agora, s¢ lhe resta o caminho: "a Casa dos Mortos". A escolta est

a postos. Na noite gelad..., de um luar nevado, essas tristes noites da

Bussia, os conjurados vão partir para a Siberia.

Quatro anos num presidio perdido nas solidões das estepes, entre

oriminosos vulgares, condenados de toda esvecie.  o inferno. 

mais do que o inferno - ‚ a morte. Urgia dar testemunho ao

mundo dessa dura, d s

sa terrivel experiencia. E da¡ as Rf,,corda‡ões

da Casa dos Mortos, publicadas em 1863, livro que inicia a segunda

fase da obro de Dostoievski, ou ales, a sua grande fase, aquela em #

que atinge as fronteiras da ge alidade. Logo depois de sair da

prisão, inspirando-sˆ __ tentimental pessoal, Dostoievski es-

creve Humilhados e Ofendidos. O romance foi depr‚ciado pelos

cr¡ficos e o proprio autor lhe reconheceu defeitos graves, embora

hoje a obra não nos pare‡a tão fraca assim e muita gente chegue mes-

mo a admir -la sem reserva. Mas talvez Dostoievski sentisse a impos-

sibilidade de produzir um grande romance, enq uanto não contasse ...

humanidade o que vivera e assistira na "Casados Mortos". Esteera

um livro que precisava ser escrito quanto antes, uma esPecie de

catar-se, de depura‡ão. Saira do c rcere rodeado de fantasmas e

tinha que libert -los de qualquer maneira. Mais tarde, ele definir

o romancista como um individuo que se livra dos seus fantasn~as.

Entretanto, como conseguir essa liberta‡ão? Escrever a obra, con-

tarado toda a verdade., não lhe seria dificil; mas devia public -la,

divulgar pelo mundo a verdade terrivel, e aqu¡ teria que esbarrar

nas restri‡ões rigorosas do censura tzarista. Naquela ‚poca a pro-

priq palavra Siberia era um voc bulo tab£ - diz Melchior de Vog‚.

Em"li,nguagem jur¡dica usava-se at‚ de um eufemismo pitoresco para

não se falar em Siberia: o reu era condenado ... deporta‡ão "em lu-

gar muito distante". Urgia, pois, vencer tamanha barreira por meio

de um artificio, de uma transposi‡ão engenhosa. Antes de tudo,

não dar ao livro o carater de memorias e não falar em condenados

pol¡ticos. Tratar-se-ia de um romance, onde as cenas, os episodios,

tremendamente ver¡dicos, podiam correr por conta da fantasia do

autor. Nenhuma acusa‡ão direta; tudo transposto para o terreno do

ficcionismo. Afim de tarnar a situa‡ão mais romanesca - segundo

a praxe de mistifica‡ões literarias muito em voga na ‚poca -

Dostoievski informaria ao p£blico de que estava simplesmente di~

tWgando o manuscrito de um tal Alexandr Petrovitch Goriantchikov,

`tex-nobre, proprietario na Russia, condenado a trabalhos for‡ados

da segundo categoria por haver assassinado a mulher". Crime

passional/ Excelente tipo de criminoso para o caso. Goriantchikov

contaria todos os horrores, como personagem de romance, tendo,

apesar de tudo, o cuidado de observar que aludia a uma ‚poca bem

distante. Atualmente j não devia dar-se o mesmo. A adminis-

tra‡ão decerto fora substituida. Relatava, portanto, costumes de

outros tempos - esclarecia, com toda a cautela - coisas h . muito

abolidas. Depois, a obra não evidenciaria nenhum intuito revolu-

~rio. O autor mostrava a atrocidade do castigo, mas não o

JWgava, injusto. Se para uns era excessiva a disciplina, havia

muita gente m que a merecia. Enfim, essa pintura do c rcere em

cores t¡lo vivas devia incutir no esp¡rito do povo maior horror ao

2

I #



- X1V -

crime. Gra‡as a semelhante subterfugio, o livro p"de aparecer. Um

funcionario da Censura - informa-nos Troyat - ainda quis objetar,

impondo modifica‡ões no texto. A Dire‡ão Central contentou-se

com a omissão de algumas expressões obcenas. A obra apareceu,

alcan‡ando, de pronto, um ˆxito formidavel. Toda a Bussia vibrou

de emo‡ão ante aquelas p gi nas dantescas, pois o j~aralelo com o

inferno de Da-nti se tornou Nevitavel.

A caminho da Siberia, numa das etapas da jornada, Dostoievski

o seus companheiros, j . de cabe‡a raspada, recebem a visita das

'esposas de alguns decembristas, mulheresWnobres, que, abdicando o

lu--o e, a comodidade, haviam acompanhado os maridos ao degredo.

procuram elas confortar aqueles novos condenados pol¡ticos, exor-

tando-os a suportar, com resigna‡ão ‡ristã, os sofrimentos que os

esperavam. E dão a cada um deles um Evangelho, o £nico livro,

ali s cuja leitura era permitida na, prisão. O cristianismo de Dos-

toievski j se havia manifestado antes do degredo, mas s¢`no c rcere,

na medita‡ão constante dos vers¡culos do 7_7,vangelho, esse sentimento

o absorve, por completo.. dando-lhe uma visão diferento dos homens

o do mundo. Andr‚ Gide lembra o efeito radicalmente oposto que

produziu o mesmo livro no esp¡rito de Nietzsche. O autor de Hu-

mano, demasiado humano rebela-se contra Cristo e, para vingar-se

Dele escreve o Assim falava Ziratustra, no mesmo tom evang‚lico e

messiƒnico. Dostoievski con forma-se admiravelmente aos ensinamen-

tos de Cristo, descobrindo neles o verdadeiro segredo da Vido. A

dor, as humilha‡ões, a ii·quidade do castigo, a prisão - tudo se

reveste de um novo sentido aos olhos do condenado. Como rebelar-

se? Como culpar os hoinens? Como desesperar-se? Pois se o cas-

tigo lhe parece agora fndispensa-vel, util, precioso. Que seria da

sua existencia, sem essa terrivel prova‡ão? A vaidade, o orgulho,

a euforia de, uma existencia tranquila haviam de embotar-lhe a

alma. E bem mesquinha lhe pareceria esta, sem a condena‡ão da

dor. J quando fora ele preso.. embora não prevendo o arremate

do processo, dissera, em carta ao irmão que, afinal de contas, era

melhor assim. os dias lhe corriam mon¢tonos, preferia o choque, o

traumat¡smo. Sua tendencia cristã ansiava pelo estado ag"nico, que

a condena‡ão levaria ao paroxis,~. Depois, aquela sev‡a‡õo irolvi-

davel e terrificante da morte a, dois passos. Passara o perigo. A

-vida *continuaria, mas o fermento da morte fi~ia para sempre na

alma de quem j a defrontara, uma vez. '0 Evangelho trouxe a

solu‡ão para esse conflito. Na morte encontra-se o caminho da

ressurrei‡ão, o proprio segreclo da vida. Se o grão morre - diz a

G

- XV -


par bola de Cristo - ent nasce o trigo. Dostoievski confessa

que, no c rcere, *sentia ...s ãfzes o cora‡ão bater com for‡a ante o #

pressentimento da liberdi te murmurava consigo onesmo: "A li-

berdado'- a ressurrei‡ão dos mortos]" Entretanto, bem depressa

se acalmava. Era preciso aprender a amar o sofrimento, a compra-

zer-se na dor - aprender a "morrer". Sem isso, jamais poderia

alcan‡ar a gra‡a da ressurrei‡ão. No Evangelho de. São João, Cristo

anuncia a Nicodemus: " - Em verdade vos digo que aquele que

não nascer novamente, não ver a meu Pai". Dostoievski aceita a

tdmorte" para nwcer novamente. Lˆ a Biblia e procura fazer com

que os companheiras a le~am..

Mas trata-se de uma injusti‡a - qirão os que apreciam o dra-

ma do romancista, de fora -, de um castigo iniquo; Dostoievski

não chegou a conspirar, não tinha nenhum plano de revolu‡ão. Co-

ma deixar de rebelar-se contra essa senten‡a absurdo? Ante tais

palavras o romancista responder , da mesma maneira por que res-

pondeu, mais tarde, a um amigo: "Não; a senten‡a foi justa e o

povo nos t" condenado; eu o sent¡, l na prisão. Depois - quem

sabe? - talvez tudo isso fosse designio do Alt¡ssimo, para que eu

aprendesse o essencial, sem o que não podemos viver, se-não nos de-

vorarmos uns aos outros.- e para que eu levasse o essencial aos meus

semelhantes, tornando-os melhores, ainda que em, pequeno n£mero.

S¢ isto justificaria minha ida ... prisão."

Como ge vˆ, o Evangelho baniu do esp¡rito de Dostoievski a

*id‚ia de injusti‡a. O verdadeiro cristão nunca julgar iv justo nem

protestar contra o sofrimento, que lhe vem trazer a purifica‡ão ne-

cessaria: o essencial. No conceito cristão, o homem veio ... terra para

explar~ os seus pecados - são "os degredados filhos de Eva, neste

vale de l grimas" - e cumprir tanto melhor o seu destino, quanto

mais completa for a expia‡ão. Interessante, porem, ser notar como

Dostoievski estabelece -no plano social e pol¡tico uma correspondencia

direta para a necessidade do castigo. Pelos designios cio Alt¡ssimo,

afim de encontrar o essencial, teria ido para o c rcere; mas est

certo, ao mesmo tempo, de que o povo o condenaria. Reconhece-se

culpado perante Deus o perante, o povo. Pois se, no c rcere, encon-

trou a verdade cristã, encontrou igualmente o povo russo no que

este tem de essencial, na sua predestina‡ão m¡stica. Em carto a

Maikov, em 1855, ele diz: "A infelicidade me ensinou muita coisa;

a experiencia teve grande influencia sobre mim e gra‡as a ela me

Mio cada vez mais rUSSO.  a confissão da sua eslavofUia. Como



se sabe, Dostoievski foi uma c?" maiores figuras da 'mentalidade

estav¢fila, que considerava os russos completamente diferentes dos

europeus, com fim destino Proprio, alheio aos imperativos da cultura

ocidental. E antevia um glorioso futuro para a Russia, na medida #

I

- XV1 -


em que esta se preservasse de influxos estranhos. "Possui-mos uma

superioridade sobre os senhores - dizia ao Visconde de Melchior

de Vog‚ _: ‚ gue os outros povos não nos compreendem, enquanto

n¢s os compreendemos a todos". Na prisão, em contato direto com

a a¡ma popular, Dostoievski sente o quanto o russo se distancia dos

ocidentais o as gra‡as que lhe estão reservadas se ele se mantiver fiel

a si mesmo. Pois bem, aquelas id‚ias de conspira‡ão, de rebeldia,

bafejada por doutrinas europ‚ias, sem consultar as verdadeiras as-

pira‡ões da Santa Russia, lhe parecem criminosas e bem dignas de

c¡astigo. Pecara contra Deus e contra a Buss¡a. O povo o conde-

n¡u-ia - estava.certo disso. O romancista identif a a natureza das

dum culpas, pou sua conotenci . a cristã se conf und om o sentimento

eslav¢filo. Por esse motivo, ainda, em lugar de ~Oar odio ao tzar

,Yicolau I, que o fizera condenar inocente, chega a louv -lo mais

tarde, com entusiasmo. Não recebia de Deus o tzar o poder absoluto

para governar os russos?. E o povo não se habituara a cham -lo

de "Paizinho"?

1 , Aqu¡ nos tenta uma, interpreta‡ão freudiana - aventura em que

%U nos abalan‡amos, afiInde evitarmos mais um abuso de psican lise

Uteraria. Limitamo-nos a alguns pontos de ref erencia. Para) Freud,

o crime ‚ muitas vezes a resultante de um sentimento de culpa

inconciente: o individuo, sente a necessi...ade de puni‡ão e o ¡mico

meio de obtˆ-la - quando não consegue sublimar o complexo ou

dar-lhe um outro derivativo - ‚ violar as leis. Em Dostoievski, a

especie de alivio que ele experimenta, logo ao ver-se encerrado no

calabou‡o, e o reconhecimento de uma falta, que na realidade não

cometeu, podem ser atribuidos igualmente ...quela no‡ão inconciente

de culpa, cuja origem seria encontrada.. talvez na infancia, nos

traumas morais do romancista.' Os conflitos cristão e eslav¢filo

t~se-iam, então, as demonstra‡ões de, um drama inconciente, que

s¢ a psican lise lograria desvendar. LŠmbremos a particularidade

do tzar representar para o povo russo qualquer coisa de semelhante

ao super-ego do esquema freudiano.  a personifica‡ão do pai, o

"Paizinho". As conspira‡ões tomariam, pois, na Russia, mais do

que em qualquer outro lugar, certo carater de parricidio, entron-

c~do-se no, famoso conflito do complexo de dipo. Estas indica-

‡Oes vdo, porem, aqu¡ apenas a t¡tulo de curiosidade. Dostoievski

de h muito que vem sendo assunto de psican lise e o proprio Freud

Prefaciou o livro de Ana Grigorievna sobre o marido.

Das Recorda‡ões da Casa dos Mortos sairam, por assim dizer,

os maiores romances de, Dostoievski, nos quais se debate, angustiosa-

O

fr.



#

- XV11 -


mente, o problema do bem o do m . al, da culpa e do resgate. Crime e

Castigo chega quase a ser um corolario das Recorda‡ões. Antece-

dendo Nietzsche e tornando-se deste verdadeiro precursor, Dosto~e-

vski pretendeu fazer de Raskoz',nikov um super-homem,. capaz de

sobrepor-se ao bem e ao mal, ao imperativo da moral humarsa. Mas,

depois de cometido o delito, a conciencia cristã do estudante reage

e ele não sossega enquanto não confessa a culpa, que o levaria,

o omo ao romancista, ao degredo da Siberia. Nos Demonios e nos

Irmãos Karamazov, o escritor continua a reconstruir as experiencias

da prisão: são livros de criminosos e pecadores. Os problemas tˆm

sempre um aspecto moral e outro psicol¢gico, sendo que ambos se

conjugam, com efeitos rev¡procos. O aspecto moral se apresenta da

seguinte maneira: o homem precisa sofrer para resgatar suas culpas.

E o lado psicol¢gico com estas interroga‡ões angustiantes: Mas em

que consiste a culpa? Num ato dp maldade? Que ‚ a maldade?

Que sabemos dos nosos sentimentos? O amor leva a monstruosi-

dades. - O homem bom, s¢ experimenta muitas vezes impulsos maus.

E quanta inocencia podemos encontrar num pecador! Um senti-

inewto bom possue, frequentem ente, o seit reverso mau. Na l¢gica des-

concertante da alma humana 2 e 2 nem sempre são quatro. E ainda

aqu¡ teria sido a "Casa dos Morto0 a grande escola de Dostoievski.

Não vira ele como as almas de algumas bestas-feras, de bandidos

inveterados, imprevistamente se expandiam com tal riqueza de sen-

timento e cordialidade, com uma compreensão tão viva dos sofrimen-

tos alheios e dos proprios, que pareciam feitos de ternura e purezal

E não percebera, por outro lado, como um homem f ino ,, culto ...s

vezes desconcertava pela barbarie, por um cinismo verdadeiramente

repugnante? Sim, foi a prisão que inspirou ao romancista as bases

do seu sistema psicol¢gico; al¡, no trato com os criminosos, aprendera

ele que 2 e 2 nem sempre são quatro. "Dostoievski, a ~mica pessoa,

que me ensinou alguma coisa em psicologiall' - dissera Nietzsche.

pes da Casa dos Mortos

Q~ando Dostoievski Publicou as Recorda‡

ainda repercutia na Europa a profunda impressão causada pelo

livro de Silvio Pellico: Minhas Prisões. E não faltou quem com-

parasse a obra do romancista russo a esta £ltima. De fa`to, alem de

constituirem ambos memorias de criminosos pol¡ticos, refletem uma

atitude semelhante: a aceita‡ão cristã da dor. Silvio Pellicd foi,

como se sabe, um poeta italiano, que conspirou contra o jugo aus-

triaco, filiando-se ... sociedade secreta dos "Carbonari", depois de j

ter manifestado os anseios de liberdade em verso, na imprensa e em

pe‡as teatrais. Detido em outubro de 1831, esteve primeiramente

1

#

a #



~f

XV111 XIX -

na famosa prisão "Piumbi", de Veneza, de onde o transportargm

para a fortaleza de Spielberg, na Moravia. Nove anos sofreu as

agruras do c rcere, sendo afinal indultado em 1840. Narrando seu

martirio, Silvio Pellico não se revolta nem se desespera; longe de

acusar os algozes, sua alma se ~fesmancha em perdão e conformidade.

Eis como explica ele o livro: "Teria es.~rito estas memorias pelo sim-

ples prazer de falar de mim mesmo? Desejo que assim vão seja;

e na medida em que podemos julgar os -nossos proprios atos, parece-

me que fui levado pela melhor das inten‡ões: a de contribuir para o

alivid de alguns infelizes com a narrativa dos males que sofr¡ e das

consola‡ões que, por minha experiencia, reconhec¡ ser possivel iar

no ¡nfortunio - a de afirmar que, no meio dos meus tormentos Ço

achei a humanidade tão injusta, tão indigna de indulgencia, tão , s-

provida de nobreza moral, como costumamos represent -la -a. de

exortar os cora‡ões nobre~ a amar sempre e nunca odiar; não ter odio

irreco,nciliavel sendo pela mentira, covardia e toda especie de avil-

tamento - a de repetir uma verdade, proclamada h muito tempo,

mas sempre esquecida: de que a religião e a filosofia recomendam;

uma e outra, a vontade en‚rgica e o julgament~ imparcial, pois

sem estas duas condi‡ões, não poder haver nem Justi‡a, nem dig-

nidade, nem principios certos".

Tamb‚m Silvio Pellico, como Dostoievski, lia a Biblia',n-ã prisão,

haurindo nas suas p ginas o conforto para todas as penas. Entre-

tanto, apesar dessas semelhan‡as, a d¡stancia que sepaTa os dois

livros ‚ bem grande. Silvio Pellico não passa de um escritor secun-

dario. O que interessa em Mei Prigiorti ‚ principalmente o assunto

- assunto humano, palpitante, emocionante por natureza, capaz de

falar sempre ao cora‡ão dos homens. Nas Recorda‡ões da Casa dos

MorItos, pelo contrario, h a descoberta de um mundo por um esp¡rito

verdadeiramente genial. A obra contem em si muitos romances.

Não basta o interesse do assunto: o talento - a genialidade, se qui-

serem - evidencia-se na maneira pela qual o tema foi explorado,

pelos efeitos extraordinarios que Dostoievski dele conseguiu tirar.

. Dois decenios, mais ou menos, depois do aparecimento das Re-

corda~ da Casa dos Mortos, dava entrada na prisão do Reading,

na Inglaterra, um escritor cujas pe‡as tinham encantado o p£blico

londrino, o artista requintado de Dor¡an Gray - Oscar Wilde. A

porta, fechou-se, e l ficou, nas suas vestes de for‡ado, sob uma rude

dis&iplina, o aristocr tico frequentador dos salões e do "hall" dos

hot‚is de luxo; o sibarita, habituado a vinhos finos e a perfumes

raro$, 40 Nbo de dois anos de tr gica reclusão, toma ele da pena

ot,


para escrever uma carta ao amigo niam q

prolonga por muitas, p ginas, vindo a form

intitulado De Profundis. Tambem o prision #

acentos de agonia na voz e tambem ele tra

da "Casa dos Mortos". Wilde teria lido

nas do De Profundis h um comovente esfor‡

O poeta declara que quando sair do c rcere

Francisco de Assis. Onde estiverem a dor

e o lutO al¡ estar ele

para consolar'e chorar com os aflitds. Refere-se, num transporte

~tico, ao prazer da renuncia - essencia do Cristianisnjto - falando

do sacrificio de uma maneira que faz lembrar a "religião do sofri-

mento", preconizada, por Dosto.ievski. Alguns dos pensamentos mais

belos sobre Cristo, n¢s o encontramos nessa longa e pungente ep¡s-

tola a Lord Douglas.

Entretanto, depois de deixar a prisão, o poeta não pode rea-

lizar os seus. altos'projetos de vida espiritual. Falta-lhe inteiramente

ú voca‡ão cristã. Antes, parecera desejar o c rcere; esquivara-se

ú (odas as insinua‡ões de fuga; no fundo, ningu‚m duvidara de

que ele quisera ser condenado; de que procurara o castigo. Re-

conhecia-se culpado e o c rcere, seri . a a £nica solu‡ão para a angustia

inco,ncUnte que torturava o homem, aparentemente tranquilo e

seguro de si mesmo: o vitorioso "rei da vida". Mas depois do casti-

go, o sofrimento awiquila-o, arrasa-0, e o poeta, apesar das elevadas

aspira‡ões, não consegue reconstruir a existencia em bases cristãs.

Porque era visceralmetite um pagão, um romano da decadencia, como

ele proprio confessara a Frank Harris. A ¡ndole pagã não encontra,

geralmente, beleza nem sublimidade no sofrimento e por meio da

dor jamais poder engrandecer-se. Em U~gar de assemelhar-se a

São Francisco de Assis, o ]Vilde de post-c rcere torna-s‚ apenas

um bˆbado, mal arranjado, pedindo dinheiro emprestado aos ami-

gos. Para ele, a liberdade não fora, conto para Dostoievski - ¡ndole

profundamente cristã - a ressurrei‡ão dos mortos. Bem expressivo,

portanto, nos parece o t¡tulo da sua dram tica mensagem do Rea-

ding: "De Profundis". Quando as portas do c rcere se fecharam,

Wilde ficou d(,finitivamente sepultado.

O cristão vˆ, parem, na dor, o ponto mais alto da existencia.

Nunca DoPtoievski sitbiu tanto, como no momento em que o encer-

raram na prisão. Em £ltima a~7i¢lise, quem ai figitrou contu r‚u

foi a propria humanidade. Pois os grilhões hão de cair por terra,

as grades hão de romper-se, e o prisioneiro, aureolado de luz, numa

miraculosa ascensão, ultrapassarã os kwiros da cidadela (aquele mu- #

- XX -

ro- a que se refere o her¢i da Voz Subterr anea), para atingir a supre-



t~a revela‡ão do Misterio.

"Em verdade em verdade vos digo que aquele que não nascer

de novo não ver a meu Pai".

Rio de Janeiro, julho ae -1945.

#1

N. -No que se refere ... conspira‡ão Petrachevski,



fomos obrigados a restringir-nos ...s informa‡ões

do conhecido livro de Troyat e ao "Dostoiewsky

- Sa vie et son oeuvre", de Serge Persky.

i&

N1



3

i

O



I

IV,*


I ntrodugio

a nas remotas regiões da Siberia, por entre a este-

pe, as montanhas e as florestas impenetraveis, encon-

fra-se aqui e alem um povoado. Mal tˆm umas duas mil

almas, constando cada um apenas de feias casinho , Ias de

madeira e duas igrejas, uma no centro, outra no cerniferio.

Parecem mais um simples arruado dos arrabaldes de Moscou,

que uma cidade. Em geral, e bem sortida de ispiravniks,

assessores, e demais funcionarios subalternos (1). Por mais

fria que seja a Siberia, o servi‡o publico sempre nos aquece

bem, no seu rega‡o. Os habitantes são almas sing~las e

bem intencionadas, seus costumes são patriarcais, consagra-

dos por seculos de tradi‡ão. Os funcionarios que, com

razão, representam realmente a nobreza local, ou são si-

berianos da gema, ou russos que, na maioria, vem direta-

mente das capitais, a+saidos pelos altos vencimentos, pelas

generosas ajudas de custo para despesas de viagem, ou por

belas perspectivas de futuro. Entre esses éltimos, os mais

espertos, os que sabem resolver o problema da vida, agra-

dam-se da terra e nela se fixam definitivamente. Depressa #

conseguem fortuna e posi‡ão. Mas os outros, os esfouva-

dos que nada entendem do enigma da exis+encia, moem-se

de nostalgia, e vivem a perguntar, desde a chegada: "Que

diabo vim fazer na Siberia?" E cumprem com impaciencia

(1) A policia distrital era entregue a um capitão-ispravnik eleito pela nobreza.

Esse magistrado presidia o tribunal da policia rural, o qual se ccmpunha de dois cam-

poneses nomeados pelo poder central e dois assessores. eleitos pela nobreza.

(N. de H. M.) #

2 DOST~111EVSKI RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS 3

os +rˆs anos obrigaforios do servi‡o, pedem remo‡ao e reiri-

fegram os peria+es dizendo da Soiberia c¢bras e lagartos.

Todos laboram em erro. Pois, excUndo-se mesmo as van-

fagens que traz ... carreira funcional, e a Siberia, por todios

os respeitos, a +erra da promissão. O clima e magnifico.

La se enconfram comerciantes riqu¡ssimos, no+aveis pela hos-

pi+alidade; as raparigas são coradas como rosas e honestas

como vesfais. A ca‡a corre pe~as ruas e vem s,9 atirar aos

pes'do ca‡ad6r. O champanhe e bebido em abundancia, o

caviar e delicioso, 9 trigo, em cerfas. zonas, d colheitas de

quinze por um ... Em resumo, a +erra e de uma feracidade

assombrosa, mas carece que a saibam explorar. E os si-

barianos sabem explora-ia.

Numa dessas cidadezinhas alegnes que se bastam a si pro-

prias e cuja amavel popula‡ão me deixou na lembran‡a uma

recorda‡5o enfernecida, +Favei amizade com um ex-fidalgo

e pomechfchik (2) russo, Alexandr Petrovi+ch Goriantchi-

kov, condenado aos trabalhos for‡ados de segunda catego-

ria (3) em puni‡ão ao assassinato da sua esposa. Finda a

pena, depois de dez anos de presidio, instalara-se discrefa

e placidamenfe na cidade de K ... (4). Oficialmente. deveria

residir numa das comunas suburbanas, mas ‚ que em K. ele

ganhava a vida como mestre-escola. Professores dessa casta

não são raros na Siberia, e ninguem os menospreza. Ensi-

nam principalmente a lingua francesa, indispensavel a quem

fem ambi‡ões sociais, - e sem eles,*ninquem, naqueles fins

de mundo, poderia ter do francˆs a menor no‡So. A pri-

meira vez em que me avis+ei,com Alexandr Pefrovi+ch, foi

em casa de um fchinivnik (5) lvan Ivani+ch Gvosdikov, ve-

(2) Proprietario rural. (N. de R. Q)

(3Y Quer dizer, "trabalhos for‡ados numa fortaleza". Edificava-se então na

Siberia uma linha de fortins destinados a prevenir os levantes, sempre possiveis, pro-

v~ pelas questões raciais. A primeira categoria, a mais dura, eram os "trabalhos

de minas" e a terceira, os "trabalhos de usina". Os trabalhos for‡ados, em geral, in-

cluiam a pena de exilio perpetuo na Siberia. (N. de H. M.)

(4) Provavelmente Kuznetsk, na provincia de Akrnolinsk, onde em fevereiro de

1857 Dostoievski contraiu o seu primeiro casamento, com Maria Dmitrievna issaiev.

(N. de H. M.)

(5) Funcionario p£blico, (N. de R. Q. 1

4 .

lho burocrata honrado e bospifaleiro, pai de cinco filhas que



sugeriam lindas esperan‡as. Alexandr Petrovitch ia 16 qua-

fro vezes por semana, dar li‡ões as raparigas a razão de

trinta copeques de prata (6) por hora. Seu aspecto ex+e-

rior me interessou. Era um homenzinho fra'nzino, +errivel-

menfe palido e magro, mas ainda mo‡o, e vestido sempre #

com esmero, a moda europeia. Quando a gente lhe falava,

ele nos fixava com um olhar de fixidez exfraordinaria, e

acompanhava com escrupulosa cortesia cada uma das pala-

vras que se lhe cl~ia, como se lhe propusessemos um enigma

ou quisessemos vi'~"~ar seus segredos. Respondia depois com

algumas frases rapidas e claras, tão ponderadas, +ão cir-

cunspecfas, que a gente imediatamente se sentia mal, e não

desejava senao acabar a conversa.

Logo que pude, interroguei Ivan lvanitch.a respeito do

homem. Soube que Gorianfchikov vivia de modo irrepre-

ensivel. sem isso ele não lhe confiaria a educa‡ão das

filhas, mas muitissimo re+raido. lns+ruidissimo, lendo

muito, fugia do convivio social, e falava tão pouco, espon-

taneamente, que ninguem conseguia travar com ele uma pa-

lesfra demorada. Alguns o supunham louco - porem não

viam nisso um defeito grave. Os magnatas da cidade, na

sua maioria, o viam com bons olhos. O homem lhes pres-

fava, as vezes, servi‡os importantes, redigindo peti‡ões, por

exemplo. Suspeitavam-no de pertencer a uma familia de

relevo, de alta posi‡ão, talvez, mas sabia-se +ambem que,

depois da deporta‡ão, corfara +odas as rela‡ões com os

seus - em resumo, prejudicara-so muito. Todo O mundo,

ali‚is, lhe conhecia a historia: logo no primeiro ano do casa-

menfo, mafara a -esposa, levado pelo ciume, depois enfre-

gara-se voluntariamenfe ... justi‡a - o que lhe proporcionara

as circunsfancias atenuantes. Em geral esses crimes s‚io en-

carados como desgra‡as, e os seus autores despertam pie-

(6) O rublo-prata valia quatro vezes mais que o rublo-papel. Salvo indica‡ões

em contrario, as referencias a rublos, neste romance, serão sempre a rublos-prata.

Como se sabe, 9 ~~j~!q tem cem copeques. (N, de H. M.) #

‚l

4



O

DOSTOIEVSKI

dade. Entretanto, este excˆntrico se enterrava no seu janto,.

e dele não saia senão para dar aulas.

A principio não lhe ~ediquei aten‡ão espe‡ial; mas,

sabe Deus por que, pouco a pouco fui me interessando por

aquela enigm tica criatura. NSo consegui fazˆ-lo pales+rar.

Respondia direito as minhas interpela‡6es, parecia ate con-

siderar um dever fazˆ-lo, porem sua maneira de replicar me

provocava um constrangimento +ão intenso que eu não ou-

sava repetir as perguntas, vendo-lhe o rosto carregado de

fadiga e -sofrimento. Numa linda noite de verão, lembro-me

ainda, saimos juntos da casa de Ivan Ivani+ch. Convidei-o

repentinamente a vir a minha casa fumar um cigarro. Não

consigo reproduzir o pavor que se pintou nos seus olhos. Des-

concertado, balbuciou algumas palavras sem nexo, e de su-

bi+o, com . os olhos tumidos de odio, p"s-se a correr na- dira-

‡ão oposta. Fiquei imovel, at"nito. Desde então, sempre

que me encontrava, ele me olhava de r-eves, medroso. Mas

eu não me satisfiz com isso: havia algo que me impelia para

Gorianfchikov, e um mˆs depois, sem pretexto plausivel,

dirigi-me a sua casa. Confesso que esse gesto era insensa-

+o e pouco delicado. Ele morava no extremo da cidade,

em casa de uma velha cuja filha, uma pobre fisica, lhe dera

uma netinha bastarda, garota de uns dez anos, risonha e

mimosa. No momento em que entrei no quarto de Ala-

xandr Pefrovi+ch, ele, sentado junto a pequena, lhe ensinava

a ler. Avisfando-me, per+urbou-se como se eu o houves-

se apanhado em flagrante delito, levantou-se precipitada-

mente, e fitou am mim os olhos assustados. Afinal, sen-

famo-nos. Seu olhar, figo sobre o meu, me interrogava com

insis+encia, como se farejasse em mim as piores inten‡ões

secretas. Adivinhei que sua desconfian‡a chegava quase a

loucura. Encarava-me com hostilidade tão evidente, Elue

quase me perguntava: "Sera que não +e vais embora?" Falei

da nossa cidadezinha, das novidades: e ele mal me respondia,

esbo‡ando um sorriso irritado. Depressa descobri que igno-

rava os acontecimentos mais no+orios, e, mesmo, que nenhum

deles o interessava. Falei-lhe depois do nosso pais, das suas

O

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS



5

#

necessidades: ele me escutava sem replicar, com o mesmo



olhar de fixidez +ão estranha, que acabei lamentando ter

iniciado a conversa. Mas quase consegui fira-lo do seu torpor

quando lhe ofereci, ainda infac+os, os livros e revistas que

acabara de receber no correio. Lan‡ou-lhes um olhar avido.

porem imediatamente se conteve, e os necusou, alegando falta

de tempo. Despedi-me afinal, e, ao sair, senti-me aliviado

dum peso insupor+avel. Parecia-me vergonhoso, parecia-me

absurdo, ir atormentar um bom-em cujo principal cuidado era

se manter o mais possivel afastado do convivio social. Mas

a tolice estava feita. Eu observara que ele possuia muito

poucos livros: então não era verdade que lesse muito. Duas

vezes, entretanto, passando de carro, muito +arde, defronfe

as suas janelas, avistei luz acesa. Que faria ele assim acor-

dado ate madrugada? Escreveria? e se o fazia, que cousas

escreveria?

Fui obrigado a me ausentar durante alguns meses

uns +rˆs. Quando voltei, no rigor do inverno, soube que Ale-

xancir Pe+rovitch morrera durante o outono, em absoluta so-

lidão, sem nem uma vez ter consultado o medico. Ja o ha-

viam -esquecido quase completamente. Seu alojamento ficara

vago. Fui sem tardar visitar a senhoria, e a interroguei acerca

dos afazeres do defunto., Dei-lhe uma moeda de vinte cope-

ques, e ela me entregou em troca uma cesta cheia de papeis,

confassando-me, contudo. que ia des+ruira dois daqueles ca-

dernos. Era uma velha taciturna, Mal encarada. que nada

me confdu de novo sobre o finado loca+ario. Segundo ela,

o homem não se ocupava nunca em quase nada, e levava

meses sem - tocar num livro ou numa pena. Passava noites

inteiras a andar pelo quarto, mergulhado nas suas cismas,

falando sozinho. Adorava a garotinha, Kafia - principal-

mente depois que lhe soubera o nome. Todos os anos, no

dia de santa Kaferina, mandava dizer uma missa por alma

de uma pessoa que usara esse nome. Não tolerava visitas,

não saia senao para dar aulas, -e ate a velha olhava com maus

olhos, quando, uma vez por semana, ela lhe vinha arrumar um

pouco o quarto-, durante os trˆs anos em que fora seu inqui- #

6

DOSTOIEVSKI



lino quase nunca lhe dirigira a palavra. Perguntei a'Kafia se

tinha saudades do professor. A pequena me olhou sem

responder, depois, voltando-se para a parede, pos-se a chorar.

Assim, pois, apesar de tudo, aquele homem conseguira fazer-

se amarl

Apanhei os pap‚is e passei um dia inteiro em casa, Orde-

nando-os. Tres quartas partes deles eram rascunhos sem

imporfancia, temas de aula corrigidos. Enfim, descobri um

caderno volumoso, coberto por uma calilrafia fina; estava,

porem, inacabado, abandonado decerto por seu autor: era a

narrativa dos seus dez anos de presidio. Nessa narrativa

incompleta se intercalavam fragmentos estranhos, recorda‡ões

abominaveis evocadas desordenadamente, convulsivamente,

como num desabafo. Li-a, reli-N, e chequei quase a conclusão

de que havia sido redigida numa crise de loucura. Mas as

notas sobre o presidio, aquelas "Cenas da Casa dos Mortos"

como o proprio Alexandr Petrovi+ch as inti+ula em certo

trecho do seu manuscrito, não me pareceram falhas de infe-

resse. O mundo dos decaidos, mundo absolutamente novo,

at‚ hoje impenetravel, a estranheza de certos fatos, algumas

observa‡ões bizarras, cativaram-me a aten‡ão e a curiosi-

dade. Todavia, talvez eu me engane quanto ao valor da

obra. Publico, pois, aqui, algurir capi~ulos dessa narrativa:

o publico julgar6.. .

9

PRIMEIRA PARTE #



a

10.


C~'

II

A casa dos mortos



onosso presidio ficava nos limites da fortaleza, iun+o

ao baluar~e. Quando, afraves das fendas da pali-

‡ada, procuravamos avistar o mundo, en+reviamos

apenas uma -nesga estreita de c‚u e um alto barranco de

ferra, invadido pelo mafo alfo, noite e dia percorrido pelas

sentinelas. E n6s pensavamos locio que não adiantava passa-

r-em-se os dias: veriamos sempre, olhando por aquelas fendas,

a mesma muralha, o mesmo soldado. a mesma nesga de ceu,

- não o c‚u da fortaleza, mas um oufro,-um ceu mais lon-

gincluo, um c‚u livre.

- Imaginai um vasto patio de duzenfos passos de compri-

menfo e cento e cinquenta de largura, com a forma dum

hex6gono irregular. Uma pali‡ada feita de altos moirões,

profundamente encravados no solo, forfemenfe ligados um

ao outro, e falhados em penfa - rodeava por todos os lados

3 #


lo

DOSTOIEVSKI

o nosso presidio. Num dos lados da pali‡ada um portão,

sempre fechado, sempre guardado por uma sentinela, não

se abre sendo a vista -de uma ordem afim de dar passaqem

aos presidiarios que vão para o trabalho.

' Alem desse portão, havia o mundo luminciso da liber-

dade. E, de dentro, aquele mundo nos parecia como u m

conto de fadas, como uma miragem. O nosso mundo noda

tinha de analogo com esse outro! eram leis, costumes, habUs

carafer¡sticos, uma casa morta-viva, uma vida a parte c~

homens a parte. E e esse recanto quˆ desejo, desc.rever.

Quando se -penetra no recinto, distinguem-se Ia diversas

,consfru‡6es.- Dos dois lados do grande patic, se erguem

amplas- constru‡ões de madeira de um s6'andar. ~ão s

casernas. L6 vivem os for‡ados, separados em c~ate orias.

1 9 ---

No fundo do patio seeleva uma edifica‡ão do mesmo genero,



a cozinha, dividida em duas pe‡as, e, mais afr6s, um barra¡-

cão que, sob o mesmo feto, abriga a adega, a despensa

e o celeiro. O centro do pafio forma uma especie de pra‡a

ampla, nua e plana. Os de+en+os Ia se reunem para a chama-'

da, pela manhã, ao meio-dia e a +arde, e, ...s vezes, afˆ'

ex+emporaneamen+e quando os soldados da guarda são des-~-,

confiados ou gostam de fazer contas. Entre as cons+ru‡õe~s',

e a pali‡ada ainda ha um espa‡o consideravel. Nesse frech'ƒ'

e que, nas horas de descanso, alguns defentos sombrios, poucO,

sociaveis, vão passear, e, longe de todos os olhos, mergulham

nos seus pensamentos. Quando eu os encontrava no decorrer

dessas passeios, gostava de lhes perscrutar os rostos som-

brios e estigmatizados, a lhes imaginar as preocupa‡ões. Um

deles passava o seu tempo livre a contar as estacas da cerca‡

Eram quinhen+as, contudo ele as conhecia de cor. Cada uma

das estacas lhe significava um dia. Descontava uma di ria-

mente e, assim, contando as que restavam, podia com um

olhar calcular o tempo que ainda passaria -nos +rabalh¢s.

Quando terminava um dos lados do hexagono, nao escondia

a sua alegria, res+ava-lhe ainda mais de um ano de espera:

mas o presidio e uma boa escola de paciencia. Assisti ce~

vez um presidiario, !iber+o ap¢s vinte anos de pena, despe- #

O

4

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS



13

dir-se dos colegas. Alguns ainda lhe recordavam a chegada,

quando jovem, descuidoso, não se preocupava com o crime

nem com o castigo. E ei-lo que partia agora com a cabe‡a

grisalha, um rosto sombrio e triste de velho. Passou silen-

ciosamente por nossos seis alojamentos: quando penetrava

em cada um deles, murmurava uma ora‡ão diante do icone;

depois, fazia uma reverencia profunda, ate a cintura, diante

dos de+en+os, pedindo-lhes que não guardassem de si, uma

lembran‡a rtia. Lembro-me +ambem de um preso, um cam-

ponˆs siberiano, que fora abastado. Uma tarde, chamaram-

no a porta. Seis meses antes ele soubera, magoado, que

sua mulher +ornara a casar. Agora, era ela propria que o

mandava chamar para lhe dar*uma esmola. Conversaram

dois minutos, , rebentaram em pranto, e despediram-se para

sempre. Ainda lhe veio o rosto quando voltou ... caserna ...

Sim, realmente o presidio ‚ uma boa escola de pac¡encia.

Quando chegava o crepusculo, fechavam-nos, todos, nas

nossas casernas. E nunca me deixou de ser penoso sair do

patic, para o alojamento. Candeias de sebo espalhavam uma

luz ba‡a pela sala comprida, baixa, sa+urada dum odor

nauseabundo. Não consigo compreender, hoje em dia, como

pude passar, ali, dez anos. Na especie de tarimba que ser--

via de leito comum a trinta de nos, todo o meu dominio se

reduzia ao espa‡o de +res fabuas.

Quero crer que naquela sala toda variedade de cr¡mes

se achava representada. A maior parte dos deten+os se

co‡npunha de condenados civis. Esses individuos, privados

para sempre dos seus direitos de cidadão, membros ampu-

+ados da sociedade, tinham o rosto marcado com. ferro em

brasa, estigma eterno do reprobo. Demoravam de oito a

dez anos no presidio, depois eram mandados na qualidade

de colonos pqra qualquer recanto esquecido da Siberia.

Havia +am bem 'criminosos vindos do ex‚rcito; mas, segundo

o costume das "companhias correcionais", esses conservavam

os seus direitos civis. Condenados por um lapso de tempo

bastante curto, uma vez cumprida a pena, reintegravam o

seu posto num batalhão siberiano. Muitos dentre eles não

4

11 #


DOSTOIEVSKI

tardavam a reaparecer, apos novo crime grave - mas

por vinte anos, dessa vez. Formavam a se‡ão dos "reinci-

dentes", que fambem não eram privados dos seus direitos

civ¡s.

No inverrro. ~echavam-nos muito cedo: passavam-se pelo



menos quatro horas antes que todos dormissemos. E, afˆ

então, quantos gritos, quantas risadas, quanto palavrão! o

retidir das grilhefas, o cheiro imundo, a fun~arada espessa, as

cabe‡as raspadas, as caras marcadas com ferro em brasa, as

roupas em farrapos, tudo nessumava vergonha, infamial. . :

A1 o home`rn tem a vida bem rija! "Um ser que se habi-

tua a tudo" e, segundo o ‡reio, a melhor defini‡ão que se

possa dar do homem.

Nosso presidic, reunia uma media de duzentos e cin-

quenfa defenfos: uns chegavam, outros sa¡am, outros mor-

riam. Quanta gente havia Ia! Cada provincia, cada re-

gião da Russia, creio bem que tinha ali o seu representante.

Viam-se afˆ alguns nativos das montanhas do C6ucaso.

Eram todos classificados de acordo com a gravidade e a

dura‡ão da pena. Havia, enfim, uma ultima se‡ão, bas-

tante numerosa, a dos veteranos do crime, na maioria mili-

+ares ... Era chamada a "se‡ão especial". Para 16 envia-

vam criminosos de toda a Russia. Ignorando o limite da

sua pena, consideravam-se a si proprios condenados ... pri-

são perpetua. Segundo a lei deveriam fornecer um fraba-

lho duplo ou friplice. Eram mantidos no presidio, enquanto

esperavam a organiza‡ãc, de trabalhos for‡ados particular-

mente penosos. "Vocˆs es+So aqui por algum tempo, di-

ziam ‚les aos outros presidiarios; nos estamos para a vida

infeira". Segundo ouvi dizer, essa se‡ão foi suprimida:

teriam mandado embora todos os datidos civis, conservando

apenas os militares. Mudan‡a de administra‡ão, C 16gico.

O que descrevo, portanto, são cousas de outrora, praticas

abolidas, fatos ia h6 muito esquecidos.

Sim, ia h6 muito tempo. Tudo isso hoje me parece

um sonho. Recordo minha chegada ao presidio. Era -uma

tarde de dezembro: a noite ia cair, os presidiarios volta-

a

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS



15

vam da tarefa diaria, preparavam-se para a chamada. Um

sub-of¡c¡al de-grandes bigodes abriu-mŠ a porta daquela es-

tranha moradia onde eu deveria passar tantos anos, suportar

emo‡ões de tal ordem, que seria incalwz de compreendˆ-las

se as não experimentasse. Por exemplo, não poderia conce- #

ber nunca o tormento espantoso de não la*er ficar so - um

minuto que fosse - durante os dez anos em que estive preso.

No trabalho - uma escolta - na prisão,---a companhia

de duzentos outros presos - e nem uma vez a solidão! E,

de qualquer modo, tinha que me afazer a isso!

Havia Ia assassinos ocasionais e matadores de profissão,

malandros e capitães de bandidos. Havia gatunos, batedo-

res de carteira, vagabundos, cavaleiros de inclus+ria e viga-

ristas- Havia +ambem alguns deles que nos deixavam per-

plexos.- por que estariam ali? Contudo cada um tinha a

sua historia, hisforia tão perturbada e confusa quanto o ama-

nhecer apOs uma noite de bebedeira. Alias, eles pouco fa-

lavam do passado, não gostavam de o narrar, procuravam

ate nao o rememorar . Jamais. Conheci entre os presidia-

rios alguns assassinos, tão satisfeitos, +ão descuidosos, que,

nunca, (pode~~se-ia apostar com seguran‡a) a ~conciencia

os atormentara um s0 instante. Mas havia tambem outros

de rosto sombrio, quase sempre mudos. Em resumo, quase

ninguem falava sobre a vida pre+eri+a, e a curiosidade não

pertencia nem aos costumes, nem as regras da casa. Toda-

via, de tempos em tempos, um defen+o que queria desabafar

confiava um segredo qualquer a um vizinho, que o ouvia fria-

mente, de cara fechada. Ninguem, ali, poderia causares-

11

panfo a n¡nguem. "N6s ca sabemos ler e escrever 1 diziam



os presos com uma especie de c¡nica satisfa‡ão.

Lembro-mo que um dia um bandido, bebedo (arranja-se

bebida algumas vezes, no presidio) se pos a contar como as-

sassinara um garoto de cinco anos: seduzira-o com um brin-

quedo, depois levara-o para um galpão e Ia o degolara. A

caserna inteira, qXe a principio rira das suas pilherias, soltou

um brado, e o homem foi obrigado a calar a boca: aquele

brado unƒnime não era um sintoma de indigna‡ão. Significava #

16 DOSTOIEVSKI

RECORDA€OES DA CASA DOS MORTOS 17

apenas que não se devia falar "naquilo", que falar "naquilo"

era inadmissivel. Devo observar, ali s, que aquela genfe de nada. Viviam apenas peICS

aparencias. Mas muitas

(4 vezes, com esparifosa rapidez, a cara mais insolenfe cedia

tinha alguma instru‡ão, no sentido literal da palavra. Pelo lugar a uma expressão de chapada covardia. Havia por

menos a mefade dentre eles sabia ler e escrever. E onde, 16 homens naturalmente forfes; eram Simples e sem rodeios.

na Russia, em qualquer agrupamento popular, se enconfrarão Porem, coisa estranha, alguns davam mosfras de umaikidade

.duzentos e cinquenfa individuos metade dos quais saiba ler quase doentia. A gloriola, a exferioridade, tinham prio-

e escrever? Soube, depois, que alguem concluiu, segundo ridade sobre tudo. A maioria deles era apavorantemente

esses dados, Jue a instru‡ão perde os homens. Erro grave, pervertida. As calunias, os mexericos, não* paravam nun-

creio eu. V preciso procurar em oufra causa as razões desse ca: aquilo era um inferno, uma verdadeira reprodu‡ão do

desvio moral. Com efeito, a insfru‡ao provoca a presun‡ao t rtaro. Ninguem, enfrefanfo, ousaria insurgir-se contra as

no povo; mas isso, no meu entender, não ‚ um defeito, e regras e habifos consagrados. Alguns espirifos de forma‡ao

abunda em focla parfe. especial tinham dificuldades em se submeter, contudo subme-

Disfinguiam-se as se‡oes pelos +raios. Em uma das fiam-se. Chegavam-nos ¡ndividuos, que, dominados pela vai-

se‡ões metade do casaco era pardo escuro- e a oufra cin- dade, haviam ultrapassado todos os limifes, e perpetrado os

za, enquanto as cal‡as tinham uma perna cinza e a o ra seus crimes como que

involunfariamen+e, como num delirio,

pardo escuro. Um dia, durante o frabalho, uma 'rapariga, como numa embriaguez. Mas n¢s depre~sa os domavamos, -

vendedora de kalafch (1) aproximou-se dos defenfos, olhou- domavamos ate aqueles que tinham sido o ferror de cidades e

os longamenfe, e p"s-se a rir: aldeias. Olhando em forno de si, o "novato" depressa com-

- Ai, como e feio! exclamava. Não tinham pano preendia que não caira em lugar propicio a surpresas, e não

que chegasse para a roupa deles - nem do prefo, nem demorava a adotar o tom comum. Esse tom se caraferi-

do pardo! zava por uma dignidade estranha e especialissima, que ne-

Oufros usavam um casaco de 13 cinzenfa, com mangas nhum dos habitantes do presidio poderia abandonar. Dir-

pardas. Tambem as cabe‡as eram raspadas de maneiras se-ia que a situa‡ão de presidiario representava um titulo,

diversas: em alguns a metade do cranio raspado ia de alfo e, at‚ mesmo, um fifulo de honra! Nenhum sinal de vergo-

a baixo, em outros, ia de traves. nha ou arrependimento. No+ava-se en+refanfo um simula-

Ao primeiro olhar descobria-se uma infensa semelhan- cro de docilidade, - mais ou menos oficial, - cerfo

‡a entre os membros daquela esfranha famiia. As per- raciocinio franquilo. "Somos

condenados, não soubemos

sonalidades mais salientes, as mais originais, os que domi- -viver em liberdade; agora, femos que nos arrasfar atrav‚s

navam, mau grado seu - procuravam, esbafer-se, adaptar- da "rua verde" (2), femos que ficar -em fila para a chamada.

se ao diapasão do presidio. Salvo alguns individuos 'cuja Quem não deu ouvidos ao pai e a mãe acaba obedecendo

inesgofavel alegria granjeava o desprezo geral, todos ao rufar do fambor. Quem não aprendeu a bordar com

os presos eram sombrios, ariscos, invejosos, presun‡osos, fio de ouro, acaba quebrando pedra." Tudo isso se dizia

fanfarrões,. suscepfiveis e exfremamenfe formalisfas. Para e se repetia muifas vezes, como maximas, como anexins,

eles, a suprema qualidade consistia em não se espantarem mas nunca em tom serio Eram apenas palavras. Have-

ria um £nico presidiario que reconhecesse a propria delin-

(1) Pãozinho de trigo em forma de cadeado. Os kalatchi de Moscou são

:11

afamados. V. p g. 46. (N. de H. MJ (2) A explica‡ão dessa expressão vem ... p s. 257. (N. de R. Q-) i



11

i; #


711

. 41


DOSTOIEVSKI

quencia? Se alguem de fora se atrevesse a censurar a um

preso os seus delitos. ou o injuriasse (cousa aliU rara no ca-

rafer russo) receberia insultos sem fim. E que mestres eram

os presidiarios erri materia de insultos e invectivasi Injuria-

vam requinfa da mente, sutilmente, arfisficamente. Levavam

o insulto ate a ciencia, aplicavam-se em descobrir palaffiw

menos ofensivas pela forma que pela id‚ia, pelo sentido, pelo

espiri+o-, era perfeito como um veneno! E as rixas perpetuas

desenvolviam consfantemenfe essa cienc¡a. Como +raba-

lhavam sob o azorrague, focla aquela gente era pregui‡osa

e depravada'. Se não o eram anteriormente, depressa o fi-

cavam. Reunidos ali, confra a vonfade, continuavam sem-

pre estranhos uns aos outros.

"O diabo gastou +rˆs pares de lapfi (3) para nos frazer

aqu¡", diziam referindo-se a si proprios; por isso a calunia,

a infriga, os mexericos, a inveja, o odio, ocupavam o primeiro

plano naquela vida condenada. A mais intrigante das co-

madres de suburbio não feria a labia de alguns daqueles ban-

didos.


Encontravam-se entre eles, repito-o, ~ximas de boa ferri-

pera, de uma intrepidez a toda prova, habituados a dobrar

os outros diante de si. Esses gozavam da uma estima espon-

fanea; e por seu lado, embora muito ufanos da sua gloria,

esfor‡avam-se por não molesfar ninguem, por jamais se lan-

‡arem em brigas inufeis, portavam-se com absoluta dignida-

de, eram quase sempre corda+os e obedientes as ordens, -

não por principio, ou por conciencia do dever, mas por uma

especie de tratado, do qual reconheciam as vantagens re-

ciprocas. E a administra‡ão, com esses, sabia ser pruden-

te. Lembro-me que um dos nossos colegas, homem valente,

com fendencias de fera, foi chamado um dia para o verga-

lho. Era no verão, na hora do descanso. Como chefe he-

diafo do presidio, o maior compareceu ao corpo da guai---da,

que ficava junfo ... porta de entrada, afim de assistir ... pu-

ni‡i'o. Esse maior era para os detidos um enfe fatal: con-

(3) E~O de alPargatas feitas em geral de corti‡a de b‚tula. (N. de PI QJ

RECORDA€OES DA CASA DOS MORTOS

19

seguia fazˆ-lOs fremer diante de si. Sua severidade raiava



a extravagancia,' e ele "se afira,^ a genfe", segundo a ex-

pressão dos presos. -0 seu maior recurso para causar ter-

ror era o olhar de lince, ao qual nada se podia escon- #

der. Aquele'homem via ate mesmo sem olhar. Mal en-

frava no presidio ia sabia o que se estava passando no ex-

fremo oposfo do recinfo. Os presos o chamavam Mito

olhos". E seu sistema de nada adiantava, pois aqueles pro-

cessos diabolicos serviam apenas para fornar os homens ain-

da mais furiosos. Se não houvesse acima dele um gover-

nador condescendente, razoavel, que lhe moderava os im-

pulsos selvagens, o maior feria provocado grandes desgra-

‡a s. Nem compreendo mesmo como ‚ que pode chegar

são e salvo ao fim da carreira; e verdade que s0 foi refor-

mado depois-de passar por um julgamento (4).

O preso ficou l¡vido quando o chamaram. o Em geral

oferecia corajosamente o dorso as varas; aturava o castigo

sem dizer palavra, depois erguia-se como se nada aconfece-

ra, igual a um filosofo que encara friamente a sua. pouca

sorfe. E, aliU, com ele, tomavam-se precau‡ões. Mas, da-

quela vez, o homem se julgava no seu direito. Ficou l¡vido,

pois, e sem que os soldados da escolta o percebessem, feve

tempo de enfiar na manga um +rinchefe de sapateiro, muito

afiado. As facas e outros insfrumenfos cortantes nos eram

proibidos. Não relaxavam a esse respeito, davam buscas fre-

quenfes, imprevisfas, minuciosas: e os delinquentes incorriam

is. 1


em puni‡ões crue . porem, dific¡limo apanhar o que um

ladrão infenfou esconder; 'a despeito das buscas, as facas e

outros insfrumen+os indispensaveis não. desapareciam. E os

que eram confiscados, imediatamente se viam subsfifuidos.

Os fidos todos correram ao patio, de cora‡ão ba-

fendo, para olhar a cena. Cada um sabia que, daquela vez,

Petrov não tencionava se deitar sob as varas, e que chegara

(4) Dostoievski copiou esses tipos da vida real. O norne do maior era Krivtsoy;

o governador era o general Grave. (N. de H. M.)

O #


RECORDA€OES DA CASA DOS MORTOS

20

DOSTOIEVSKI



a derradeira hora do maior. Mas no ultimo momento, o

maior subiu ao carro e foi embora, encarregando da execu-

‡ão da pena outro oficial. "Foi Deus que o salvou", excla-

maram os defenfos. Quanfo a Petrov, suportou passivamen-

te os a‡oites. Seu furor abrandara com a partida do ho-

mem. O defento man+em-se humilde e obedien+e ate certo

limite, porem esse limite não deve ser ultrapassado. Não

h6 nada mais curioso que os seus subilos arrancos de irrita~

‡ão, de rea‡ão. Dado individuo, que durante anos placida-

mente suportou os castigos mais atrozes, se enfurecg de re-

pente por uma ninharia, por uma bagatela, por um nada.

Um estranho pode consider -lo doido, - e realmente mui-

+os assim o julgam.

Ja disse que durante os meus anos de presidio jamais

constatei entre os meus companheiros o menor remorso, o

menor r~e de conciencia; no seu foro intimo, a maioria

deles considerava que agira bem. Isso e um fato. Eviden-

temente, a vaidade, os maus exemplos, as bravatas, o res-

peito humano, devem, nesse caso, ser levados em conside-

ra‡ão. Mas, por outro lado. quem se pode gabar de ha-

ver sondado essas almas decaidas, de ter descoberto no

seu misterio o que fica escondido ao universo inteiro? De

qualquer forma, porem, no decorrer de tantos anos, eu de-

vera ter surpreendido em alguns daqueles cora‡aes um indicio

qualquer de sofrimento, de desespero. E, positivamente, na-

da descobri.  claro que não se devem fazer julgamentos

de -acordo com id‚ias preconcebidas, e decerto a filosofia

do crime e mais completa do que se imagina. O presidio,

os trabalhos for‡ados, não melhoram o criminoso; apenas o

castigam, e garantem a sociedade contra os atentados que

ele ainda poderia cometer. O presidio, os trabalhos for‡a-

dos, desenvolvem no criminoso apenas o odio, a sede dos

prazeres proibidos, e uma +errivel indiferen‡a espiritual.

Por outro lado, estou convencido de que o famoso sistema

celular consegue atingir apenas um resultado enganador, apa-

rente. Suga a seiva vital do individuo, enerva-lhe a alma, en-

fraquece-o, assusfa-o, e depois nos apresenta como um mo-

O

21



.delo de negenera‡ão, de arrependimento, O que e apenas uma

mumia ressequida e meio louca.

 claro quˆ i delinquente rebelado contra a sociedade #

a odeia; considera quase sempre que e ele quem +em razão

e ela que erra. O castigo que lhe impuseram permite-lhe

alias considerar-se absolvido, quite para com os homens.

Pode-se afinal encarar a cousa sob um ƒngulo que da azo

quase a inocentar o culpado. Entretanto, todo o mundo re-

conhecera qua, em toda parte, desde o inicio das eras, e sob

qualquer legisla‡ão, houve crimes que sempre foram consi-

derados crimes, e que serão olhados como tais, enquanto

o homem for homem. E so no presidio ouv¡ contar com

uma risada infarifil, irresistivelmente alegre, as a‡ões mais-

espantosas, mais desnaturadas, as fa‡anhas mais monstruosas,

mais infames. Certo parricida, especialmente, jamais me

saira da lembran‡a. De origem fidalga e antigo funciona-

rio publico, exercera junto ao pai sexagenario o papel de fi-

lho prodigo. Seu procedimento era +ao desregrado, suas

dividas +ao escandalosas, que o pai, mais de uma vez, teve

que o conter e censurar. Mas o velho possuia uma gra*,

uma casa, e o filho o suspe^va de guardar economias:

matou-o. O crime so foi descoberto um mes depois. Du-

c

ranfe todo esse mes, o criminoso (que alias avisara as au-



toridades da desapari~ão do vielho) entregou-se a mais de-

senfreada orgia. Enfim, na sua ausencia, a policia desco-

briu o corpo coberto de fabuas, num canal de esgoto que

atravessava o pa+io em toda a sua extensão. O cad;sver

estava vestido, preparado; a cabe‡a encanecida, degolada,

fora colocada no seu lugar, sobre o +ronco, e sob ela o assas-

sino pusera um travesseiro. O rapaz não confessou, foi de-

gradado, privado dos seus t¡tulos de nobreza, condenado a

vinte anos de trabalhos" for‡ados. Durante todo o tempo

em que o conheci nunca o vi senão em excelente disposi‡ão

d-- espirifo, jovialissimo. Sem ser um tolo, era a criatura mais

estouvada, mais leviana, mais descuidosa deste mundo. Nun-

ca observei nele nenhum tra‡o especial de crueldade. Os

defen+os o desprezavam, não pelo crime, no qual ele não

1 1

J

I #



DOS TO I EV.SK I

falava nunca, mas por sua leviandade, por sua falta de com-

posfura. Na ' palestra, aconfecia-lhe- referir-se ao pai. Uma

vez, falando-me do robusto f¡sico heredifario da familia, dia-

se: "Cito como exemplo o aufor dos meus dias, que ate

ao fim jamais se queixou de uma doen‡a". Uma insensibili-

dade fão bestial parece quase impossivel. Chega a ser um

fen"meno. Ja não e um crime, e uma falha orgƒnica, uma

monsfruosidade f¡sica e moral ainda não classificada pela

ciencia. Eu não podia, e 16gico, acredifar na culpabilidade da-

o~ mas algumas pessoas da sua provincia, que de-

quele mo‡

viam esfar a par dos fatos, confaram-me a hisforia corri mi-

nucias tã'o precisas que era misfer que eu me rendesse ...

evidencia. Os defenfos uma vez ouviram-no grifar em so-

nhos: "Segura, segura! A cabe‡a, corfa-lhe a cabe‡a!"

Quase foclos sonhavam e divagavam duranfe o. sono:'

e o que mais frequentemente se ouvia, então, eram pragas,

gritos em calão, referencias a facas e machados.

"Somos criafuras malfrafaclas, diziam eles; esfamos es-

magados por dentro, e ‚ por isso que grifamos de noite.*

Os trabalhos for‡ados não eram uma ocupa‡a . O, mas

uma penifencia. Depois dEr cumprir o n£mero de horas fi-

xado pela lei, os defenfos voltavam para o presidio. Odia-

vam as suas farefas. Sem os afazeres pessoais aos quais

se dedica com focla a alma, com todo o esp¡rito, o for‡ado

não resistiria. Como, realmenfe, arrancadas ... sociedade e

a uma exisfencia normal, criaturas forfemente propensas a vi-

ver, desejosas de viver, poderiam se portar normalmente,

nafuralmenfe, com boa vontade e bom humor?

Basfaria a ociosidade para desenvolver neles os instintos

viciosos dos quais não tinham conciencia antes. Sern fra-

balhos, sem leis, sem nada que lhe perten‡a especialmente,

o homem não e mais ele proprio, avilfa-se, iorna-se um ani-

mal. E eis por que, levado por suas capacidades nafurais

e por um confuso senfimenfo de conserva‡ão, cada for‡ado

tinha um oficio. Duranfe o verão, os trabalhos preenchiam

inteiramente, os longos -dias, e as noites curtas mal nos deixa-

veim %mpo para dormir. Ne inverno, porem, o regulamento

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

23

prescrevia o infernamento dos detidos logo ao cair do sol.



Que se haveria de fazer durante aquelas tediosas e infer-

minaveis noites? `Apesar, pois, da regulamento, cada ca-

serna se transformava numa vasfa oficina. Verdade que o

trabalho pessoal não era inferdito; mas proibiam-nos seve-

ramenfe a exisfencia de quaisquer ufensilios, o que fornava #

impossivel focla ocupa‡ão. Então, trabalhava-se escondido,

e em certos casos, ampropria adminisfra‡"o fazia vista grossa.

Muitos de n6s chegavam ao presidio sem a menor no‡ão

dum oficio, todavia aprendiam com os outros, e quando soava

a hora da liberdade, iam embora providos dum bom ganha-*

pão. Tinhamos Ia sapateiros, marceneieos, carpinteiros, gra-

vadores, dourador3s. E ate mesmo cerfo judeu, lsai Bumch-

+ein, descobriu a maneira de ser simulfaneamente ourives e

usurario. Todos procuravam ganhar alguns copeques. Vi-

nham encomendas da cidade. O dinheiro e~m si j representa

liberdade; mas para o homem rŠalmenfe privado da liberda-

de, o dinheiro fica com o valor elevado ao decuplo. Basta

a gente poder filin+ar as moedas no bolso, e, mesmo q4c-;"n'ao

as possa dispender, senfe-se consola,4,j pela metade. E con-

seque-se de qualquer modo gastar o dinheiro - principalmen-

fe porque o fruto proibido nos parece sempre duas vezes

mais saboroso! Ate no presidio e possivel conseguir bebida.

Oslcachimbos eram rigorosamente proibidos, contudo todo

o mundo fumava. O dinheiro e o fu,mo salvavam os presos

do escorbu+o e de outras doen‡as: o trabalho os salvava do

crime: wm ele, se entreclevorariam, como aranhas fechadas

num frasco. Todavia, proibiam-se o trabalho e o dinheiro!

Frequenfemen+e, duran+e a noite, era realizada de chofre uma

busca e levavam-se todos os objetos interdifos. Por melhor

escondido que estivesse o dinheiro, caia algumas vezes nas

mãos dos guardas. iE, em parte por essa razão. em vez de

economizar nos nos. apressavamos a beber. Dai o consumo

dˆ vodca. Depois de cada busca, alem da confisca‡ão dos

seus bens, o culpado sofria uma puni‡ão exemplar. Mas, de

cada vez, preenchia-se imedia+amenfe, o claro, in+roduziam-se

novamente objetos. e a vida refornava o seu curto. A admi-

O

'i #


24 DO ST O 1 E VS K 11 RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

nistra‡ão não o ignorava. e os defen+os, por seu lado, não

murmuravam contra a puni‡ão, - embora uma vida daquelas

se pudesse assemelhar a que se leva nas faldas do Vesuvio.

Aqueles que não tinham oficio, entregavam-se a ocupa-

‡ões muit¡ssimo originais. Alguns, por exemplo, comerciavarril

e- trocavam cousas que, fora dali, não ocorreria a ninguem

traficar com elas, nem mesmo lhes emprestar a minima valia.

O presidio, porem, era tão pobre quão industrioso. O mais fri-

fimo dos trapos tinha o seu pre‡o e encontrava uso. A mi-

,seria dava ao dinheiro um valor muito diverso do que ele

tem 16 fora. Um trabalho enorme e dificil pagava-se com

uma ou duas moedas de cobre. Outros faziam empr‚stimos

com vencimento semanal. O detenfo prodigo ou arruinado

levava o seu derradeiro objeto ac, usurario, que lhe empres-

fava sob penhor alguns copeques a juros monstruosos. Se

o cliente não resgatava o objeto na data marcada, via-o ven-

1

dido sem piedade. A usura florescia a fa, ponto que se



empenhavam ate mesmo os objetos sujeitos ... inspe‡ão: roupa

branca marcada, botas e outros pertences que a administra-

‡ão poderia reclamar a qualquer momento. Mas, por oca-

sião desses emprestimos, a cousa assumia, as vezes, um as-

pecto imprevisto (não +ão imprevisto, alias). Assim que

recebia o dinheiro, o "cliente" ia procurar o sub-c,ficial que

era o mais accessivel dos dirigentes da prisão, e lhe denunciava

a penhora de objetos de uniforme. E o sub-c,ficial, sem

recorrer sequer a administra‡ão, tomava do prestamista os

objetos empenhados. Cousa curiosa: nesses casos não surgia

nenhuma briga. O usurario devolvia em silencio o que lhe

~reclarriavam, como quem esperava por aquilo! Talvez reco-

nhecesse no ¡ntimo que no lugar do "cliente" agiria da mesma

forma. E se depois julgava necessario praguejar, fazia-o sem

acrimonia, por simples descargo de conciencia.

Em geral, os presos roubavam tremendamente entre si.

Quase todos guardavam num bau, fechado a cadeado, os

objetos que lhes dava a administra‡ão. Esses cofres eram

tolerados, mas não ofereciam garantia alguma. Não e

dificil imaginar que artistas do roubo se encontravam entre

nos! Um companheiro, que me era- sinceramente afei‡oado

(conto-o com toda a singeleza) roub‡u-me uma Biblia, o u ri Ico

1

objeto cujo uso me fora autorizado. E confessou-me o roubo



no proprio dia em que o cometeu, não por arrependimento,

mas por do, ao me ver procurar dernoradamente o livro. Ou-

tros exerciam a profissão de botequineiro, e rapidamente

enriqueciam. Mais adiante falarei acerca desse comercio

especial e bastantd' curioso. Como finhamos no presidio #

varios condenados r~or ~ontrabando, não ha razão para que

se admire a entrada 16 de vodca a despeito das buscas e da

vigilancia. O &on+rabando e um crime ... parte. O in+eres-

se - quem o ha de crer? - desempenha nesse caso apenas

um papel secundario. O contrabandista trabalha por vicio,

por voca‡ão.  um poeta ao seu modo. Arri---r~P tudo,

afronta os piores perigos, gasta astucia, engenho, agiliincriveis: algumas vezes suas a‡ões parecE~m at‚ inspiradas.

,e

E' uma paixão-tão forte quanto a,do *jogo. Conheci um



for‡ado de estatura colossal, porem +ão manso, tão sossega-

do, +ão bem humorado, que sua estada entre n¢s parecia

um enigma. Nunca - mas nunca - durante todo o seu

periodo de prisão, teve uma briga qualquer, com ninguem.

Era originario da fronteira ocidental, fora deportado como

contrabandista, e, ‚ claro, não podia se coibir de exercer o

trafico secreto de vodca. Quan+os castigos sofreu por isso,

e~ que pavor tinha ele dos a‡oitesl Continuava, todavia,,

no oficio, apesar do lucro irrisorio, pois so quem enriquecia

era o dono das bebidas. O pobre rapaz amava a arte pela

arte. Chorão como uma mulher, jurava a todos os deuses,

depois de cada fustiga‡ão, que *jamais +ornaria ao vicio.

·s vezes mantinha o juramento um mˆs inteiro, depois dei-

xava-se cair em tenta‡ão ... E gra‡as a individuos da sua

especie, a aguardente não nos faltava jamais, no presidio.

Os defen+os tinham ainda outra renda que, sem os enri-

quecer, não era menos regular e benefica: refiro-me ...s es-

molas. As nossas "altas classes sociais" não fazem a menor

id‚ia dos cuidados com que os comercian+es, os pequerios-

4 #


DOSTOIEVSKI

burgueses e a plebe em geral cerc~m os "desgra‡ados", como

eles dizem. A esmola se faz de modo continuo, quase sempre

sob a forma de pães ou kalafchi, e, mais raramente, em

moedas de pequeno valor. Se não fossem essas esmolas,

certos lSresos. especialmente os que ainda estão dependentes

de julgamento e que sofrem regime mais severo que os con-

denados, dificilmente poderiam viver. A esmola se divide

religiosamente Crifre os detentos. Se não ha bastante para

todos, corta-se um kalafch em partes iguais, as vezes em

seis peda‡os, mas cada um ganha o seu quinhão. 8

Lembro-me bem da primeira esmola que recebi. Foi

pouco ap6s minha chegada. Eu vinha do trabalho da manhã,

com um £nico srldado de escolta. Caminhavam ao meu

encontro uma mulher com a filhinha - menina de dez anos,

linda como um'anjo-, ia eu as vira antes. A mãe era viuva

de um rapaz, um soldado, que, depois de ser submetido a

conselho de guerra, morrera no hospital. no pavilhão dos

defen+os, onde eu proprio estava em tratamento. Mãe e

filha lhe tinham vindo dizer adeus, ambas chorando amargas

lagrimas. Quando me avistou, a garotinha ficou rubra, e

a pro


murmurou algumas palavras ' mãe, a mulher se deteve,

curou no cesto um quarto de copeque e deu a moeda a

crian‡a, que correu para mim ...

- Toma, "desgra‡ado", recebe este cobre por amor

# de Nosso 'Senhor, gritou ela, enfiando-me a moeda na mão.

Recebi o dinheiro; e a pequena, satisfeita, voltou para

junto da mãe. Durante muito tempo conservei a moedinha.

Primeiras impressões

primeiro mes e, de. modo geral, o inicio da minha vida

o de p risioneiro desenham-se vivamente ante a minha

imagina‡ão: mas os anos seguintes deixaram-me ape-

nas retorda‡ões confusas. Algumas lembran‡as ate se fun-

diram, desbotaram, e nSo guardei delas senão uma id‚ia ge-

ral de peso, de uniformidade, de sufoca‡ão. Isso, alias, e

um fen"meno absolutamente normal.

O que me impressionou logo que entrei nessa vida, foi,

lembro-me bem, não poder descobrir nela nada de extraor-

dinario, ou melhor, nada de inesperado. Tudo aquilo pare-

cia ia me haver desfilado ante o espirifo, quando, de caminho

para a Siberia, eu me esfor‡ava por adivinhar a sorte que

me aguardava. Mas, logo apos, um abismo de fatos mais

que surpreendentes, mais que monstruosos, a cada passo mo

foi defendo. Depois de viver longos anos no presidio, aca-

bei por compreender todo o elemento imprevisto daquela

i #

I

Biblioteca,Pr



iblica "Artkur Vian

LJ ~ia~n #

28' DOSTOIEVSKI

exisfencia, todavia nem por isso deixei de me espantar ante

ele. Devo confessar que esse espanto me acompanhou du-

ranfe todo o per¡odo de prisão; nunca me pude afazer aque-

le cenario.

Entrando no pres¡dio, a minha primeira impressão foi

principalmente de horror, contudo - cousa estranha! - a

vida me pareceu muito mais facil do que eu a imaginara du-

rante a viagem. Embora usassem a grilhefa aos p‚s, os

detenfos circulavam livremen+e, praguejavam, cantavam, fra-

balhavam por conta propria, fumavam cachimbo*, alguns ate

u bebiam vodca e ' noite

(esses em muito pequeno n'mero) a

jogavam cartas. Quanto aos trabalhos, pareceram-me muito

menos duros, muito menos "trabalhos for‡ados" do que seria

de pensar; so muito +empo depois compreendi o verdadeiro

carafer desses trabalhos, menos penosos por sua dureza e con-

finuidade que pelo fato de serem "impostos", obrigatorios,

cumpridos sob o azorraque.

 inegavel que o nosso mujique labuta muito mais que

um for‡ado: em alguns per¡odos do ano, sobretudo no verão,

e obrigado a trabalhar em serões que lhe +ornam a noite

inteira. Mas esfor‡a-se por sua conta, no seu interesse, e

por isso se sente imcomparavelmen+e menos fatigado do que

o for‡ado, que realiza uma tarefa que lhe e imposta, absolu-

tamente improdutiva para si.

Ja me ocorreu uma vez que, se se procurasse aniquilar,

esmagar, castigar um homem da maneira mais implacavel, se

se quisesse fazer com que ante esse castigo o pior dos faci-

noras trem-esse antecipadamente - bastaria dar ao seu +ra-

balho um cara+er de inteiro absurdo, de absoluta inutilidade.

Os trabalhos for‡ados atuais, por mais despidos da interesse

que sejam para os condenados, pelo menos não são inteira-

mente desprovidos dum sentido. O for‡ado-operario fabri-

c~ tijolos, cava o solo, faz argamassa, edifica; e nessas tarefas

ha um pensamento, ha um fito. Algumas vezes, ate, ele se

interessa por sua obra, procura reali -la melhor, mais habil-

mente. Mas se o empregarem, por exemplo, a carregar a

aqua dum tonel para um outro, e do segundo para o primeiro,

t

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS



29

ou a esmagar areia, ou a transportar +erra daqu Ia Pa ra al 1, e

devolve-ia depois ao sitio primitivo, - creio que o cabo de

poucos dias ele se enforcara, ou cometera mil desatinos, afim

da merecer a morte e escapar aquele rebaixamento, aquela #

vergonha, aquele tormento. Alias, essa especie de castigo

significando apenas tortura e vingan‡a, seria insensata, por-

que ultrapassaria o seu fim. Contudo, qualquer trabalho

.a

obrigaforio contem a sua parte de tortura, de absurdo, de



humilha‡ão, e e esse o~ motivo que +orna os trabalhos for‡ados

irricom pa ravel mente mais penosos que os outros.

Alias, como chequei ao pres¡dio no mes de dezembro,

4

não pude formar nenhuma ideia das tarefas de ver5o, cinco



v.ezes mais pesadas que s de inverno. M~ inverno, na nossa

fortaleza, havia muito pouco trabalho regulamen+ar. Os pre-

sos iam para as margens d~ lrtych, deffioiir velhas barca‡as

do governo-, trabalhavam nas oficinas, varriam dos edif¡cios

a neve amontoadja pelas ventanias, que-imavam e moiam

alabastro, etc.. . . Os dias eram curtos, a labuta terminava

lego, todos nos volfavamos cedo ao pres¡dio, onde ficar¡amos

quase a-toa, sa não fora o trabalho pessoal que cada um ar-

ranjava para si. Mas apenas um ter‡o dos presos se entre-

gava a uma ocupa‡ão regular; os outros vagabundeavam,

andavam pelos alojamentos, brigavam, mexericavam, embria-

gavam-se, caso dispusessem de um pouco de dinheiro. A

noite arriscavam no baralho ate a camisa do corpo: tudo

por +edio, por ociosidade, para matar o tempo. Compre-

endi, depois, que alem da priva‡ão da liberdade e da imposi-

‡5o do trabalho, o de+en+o ainda sofre de um outro supl¡cio

mais penoso: a cohabi+a‡ão obriga+oria. A vida em comum

exist,e decerto em outros lugares, porem os companheiros do

pres¡dio em geral não seriam ~-f olhidos como +ais por ninguem.

e tenho certeza de que todos os presos, inconcien+ernenfe

embora, sofriam com aquela promiscuidade.

A comida me pareceu +ambem muito +cleravel. Os

presos me garantiram que não se fornece comida +ão boa #

DOSTOIEVSKI

nas "companhias correcionais" (1) da Russia Europ‚ia, coisa

em que não posso opinar, porque não as conhe‡o. Ali6s,

muitos tinham dinheiro para obter comida ao seu gosto. A

carne nos custava dois copeques por libra, e durante o verão

tris copeques. Os que tinham dinheiro podiam pois comprgr

carne. A maioria, entretanto, comia do rancho. Quando os

for‡ados elogiavam a comida, referiam-se ao pão, e nota-

vam -safisfei Ds que nos davam pães inteiros, e nSo por peso,

cortados em peda‡os. O racionamento individual os apa-

vorava: teria deixado pelo menos um ter‡o deles famintos,

enquanto o fornecimento em bloco fazia com que chegasse 11

para todos. Nosso pão era afamado ate na cidade-, a+ribuia-

se o seu sabor a feliz constru‡ão dos fornos. ~#sopa, ao

conf rario, - a f radicional sopa de couve azeda, - nao era

bem reputada. Cozinhavam-na num caldeirão, engrossav~m-

na de leve com centeio, o que nã*o a impedia de ser muitor

rala, e, sobretudo, nos dias de trabalho, deixar a barriga a

roncar de vazia. Na minha opinião, o mais repelente cle tudo

ora o numero inconcebivel de baratas que nadavam nela:

mas os defenfos não se importavam.

Nos trˆs primeiros dias não fui ao trabalho-, deixavam

que todos os recem-vindos descansassem da viagem. Entre-

tanto, fogo ao dia'seguinfe da chegada, fizeram-me sair da

fortaleza para me porem os grilhões. Os que eu trazia não

eram os regulamentares: "soavam fino", segundo a expressão

dos defen+os, e apareciam sobre a roupa. O modelo usa-

do, afim de permitir o trabalho, não se compunha de argo-

las, mas de quatro hastes de ferro da grossura de um dedo,

mantidas juntas por quatro aneis: deviam ser usadas sob as

cal‡as. No anel do meio enfiava-se uma corrente que por

sua vez se afivelava a cintura, sobre a camisa.

Recordo bem minha primeira manhã no presidio. No

corpo da guarda, junto ao por+So, o tambor rufava a alvorada,

(1) Trata-se das "companhias correcionais civis", cri.-d3s em 1825 segunde

o modelo das companhias correcionais militares. Mandavam-se para elas os indivi-

duos condenados ... deporta‡ão por crimes relativamente de pequena gravidade, bem como

os membros das classes privilegiadas, condenados por crimes at‚ mesmo capitais. Os

d@fentos, submetidos ... disciplina militar, eram utilizados em diversos trabalhos de uti-

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

31

e dez minutos depois o oficial de dia abria as casernas. Des-



pertamos. A luz debil de uma candeia, os presos se ergueram,

tiritantes de frio. A maioria es+ava taciturna e mal humo-

rada. Bocejavam, espregui‡avam-se, franziam a +esta mar-

cada pelo ferro. Uns se benziam, outros brigavam. O aba- #

famenfo era abominavel. No momento em que se abriu a

porta, o ar frio do inverno entrou em borbotões, formando

nuvens de vapor Ia dentro. Os homens se reuniram em*forno

dos baldes de agua-, cada um por sua vez +ornava a caneca,

bochechava, molhava o rosto e as mãos. A agua fora posta

ali desde a vespera pelo parachmili: (2), titulo dado ao preso

escolhidoãen+re os outros para o servi‡o do alojamento. Dis-

pensado do trabalho externo, ele cuidava do asseio da sala,

lavava e esfregava o chão e as tarimbas, trazia e levava a

cuba. mantinha a agua limpa nos baldes - de manhã para

o asseio corporal, de noite para beber.

- Não empurra, cara de macaco! rosnava um preso

magro, +rigueiro,-melanc61ico, com estranhas pro+uberancias

no cranio raspado,' empurrando um outro for‡ado de pe-

quena es+a+u;a. en+roncado, rijo, de cara vermelha e jovial.

- Para que esse berreiro? Alugaste o lugar? Desin-

fe+a daqui, obelisco! Ora vejam o ...

E o palavrão que dizia provocava o seu efeito: os outros

rebentavam em gargalhadas. Era justamente o que queria

o corado trocista, que, evidentemente, desempenhava na ca-

serna o papel de bufão. O preso alto o encarava com des-

pre(~,c, profundo:

- Cara de vaca!

Decerto engordaste Com O Pão

branco daqu  ! No Natal ' has de parir pelo menos uma duzia

de leitões, heim?

lidade p£blica (pavimenta‡ão de ruas, canaliza‡ão, constru‡ão de pontes, etc.), sem

nenhuma remunera‡ão.

De acordo com um regulamento de 1845, a condena‡ão ...s companhias correcionais

veio a ser -a mais grave medida coercitiva para os individuos condenados aos castigos

corporais, paralelamente ... deporta‡ão para a Siberia para os membros das classes

privilegiadas. (N. de H. M.)

(2) Limpador de privadas (N. de R. Q) #

32

DOSTOIEVSKI



- E tu, que ra‡a de passaro pensas que es? gritava de

repenfe o oufro, ia rubro.

- Isso mesmo, não sou uma leitoa como fu, sou um

passaro.


- Que qualidade de p6ssaro?

- Isso ‚ comigo.

t-- Não, dize, anda, que passaro?

E se devoravam com os olhos. O vermelhac, esperava

a resposfa, de punhos fechados, como pronto para a luta, Eu

estava cer+o de que eles se iriam agarrar: e aquele* espe-

faculo novo me a‡ulava a curiosidade. Soube depois que

essas cenas, inteiramente inocentes, eram *representadas para

cliverfin¡en+o geral. Quasi nunca passavam de palavras. Mas

tudo aquiio era caraferisfico e refletia a mer~+alidade da

prisão.

O preso alfo manfinha-se sossegado e majestoso. Sabia



que o olhavam: e sua resposfa seria sua deshonra ou sua

gloria. Devia susfenfar o que dissera, mostrar que era real-

menfe um passaro. Lan‡ou um olhar de vies ao adversario,

e com inexprimivel desdem, fifando-o por cima do ombro,

como a um insefo, len+amenfe, sigri ificaf iva mente, articulou:

- Pois sou um kagan (3).

Uma gargalhada re+umbanfe acolheu essa afirma‡ão.

- O que es e um malandro, e não um kagan, gague-

jou o vermelha‡o, que, senfindo-se vencido, atingira o grai,

mais alto do furor.

Quando, porem, a coisa come‡ava a ficar seria, trata-

ram de amansar os adversarios.

- Que foi que deu neles? grifaram.

- Seria melhor que voces brigassem a murro, e não

com a lingua! falou alguem Ia do seu canto.

---Segura os dois, senão se agarram! observou um

oufro. Cada qual ‚ mais valente: so brigam de sete contra

um!


(3) Não h nenhum P ssaro com esse nome. A palavra kagan, entre alguns

povos orientais, significa chefe, pr¡ncipe, e entre outros grupos de siberianos significa

. raposa". Para o for‡ado, que escutou a palavra sem a entender bem, o kagan

sipificari@ decerto um w superior, um p ssaro das alturas. (N, de 11. M.)

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

33

- Sim, são uns anjinhos: um esta aqui por causa de



uma libra de pão, e o outro bebeu o soro do leite de uma

velha e por isso me+eram-lhe o knufl #

- J chega! bradou o invalido que exercia as fun‡oes

de vigilante e dormia num canto, numa farimba especial.

- Agua, meus filhos! O "Nevalido" (4) Petrovi+ch 16

acordou! Bom dia, meu irmãozinho "Nev61ido" PefrQvi+chi

- Se eu fosse +eu irmão nos bebiamos juntos! rosnou

,o invalido, estirando as mangas do capote.

Preparavamo-nos para a chamada. O sol nascia. Os

dãenfos se aglomeravam na cozinha. Ja pronfos para o

+rabalho,.com ocapofe, os gorros de duas cores, esperavam

,junto ao pão que um dos cozinheiros dividia. Esses cozi-

nheiros, eleitos enfre os presos a razão de dois por cozinha,

eram encarregados da guarda da Unica faca que servia para

cortar o pão e a carne. Alguns for‡ados tinham diarife de

si uma caneca de kvass (5). Esfarelavam o p3o ali dentro,

e depressa o enguliam. O barulho era insupor+avel, mas

nos cantos a conversa era discreta, sossegada.

- Paizinho Antoni+ch, pão e sal, saude! exclamou um

preso jovem cumprimentando um for‡ado +ris+onho e des-

denfado.

- Bom dia, se não estas de +ro‡a! respondeu o velhote

sem erguer os olhos, continuando a mastigar o pão com as

gerigivas.

- Imagina, Anfoni+ch, e eu que pensava que tu tinhas

morrido! Deveras!

- Ainda não. Vai na frente, me mostrar o caminho!

Sen+ei-me perto deles. A minha direita conversavam

dois outros presos, sossegados, procurando ambos manter um

ar de dignidacl_e. C -

- Eu te garanto que não me hão de roubar, dizia um.

 mais facil ser eu quem roube aos outros.

- Pois +ambem e bom que ninguem meta as mãos no

que e meu, senão a coisa engrossa!

(4) Deturpa‡ão de "inv lido". (N. de R. Q)

(5) CebiOR fermentada, feita de pão preto e malte. (N. de H. M.)

4

- 'lo


1 #

34 DOSTOIEVSKI

- Então e assim? Tu es diferente de nos? Sossega *

Não passamos de gales ... e nada mais. Ela e que te ha

de embrulhar. sem nem dizer muito obrigada ... Da mim

fambem, meu filho, ela surripiou quatro copeques. Apare-

ceu aqu¡ outro dia. Mas onde haveria cle meter-me com

ela? Pensei num adjutorio de Fedka, o carrasco, ele ainda

tinha a mesma casa no suburbio, - a casa que comprou de

Salomonka. aquele judeu piolhento que se enforcou ...

- Eu sei. Era bo+equineiro aqui ha frˆs anos aftas;

n6s o chamavamos "Grichka-bodega-escura". Eu sei.

- Não, não sabes. O "bode ga-,escu ra " era outro.

- Que outro! Estas louco, rapaz. Posso +e apresen-

+ar fantos testemunhos quanto queiras.

- Podes +razer! De onde e que vens? Sera que sabes

quem sou eu?

- Quem, fu? Não e para me ciabar, mas ia +e dei

umas boas sovas. Ora, quem es +u!

- J me deste sovas, fu? Ainda esta para nascer

aquele que me ha de dar uma sova, estas ouvindo? E aque-

le que me sovou ia esta enterrado!

- Ora, ma peste te mate!

- E.a lepra que +e roa!

- Vai atras dum turco que +e meta o sabre!

E choviam os insultos.

- Basta, basfa! que berreiro e esse! gritavam ao neclor.

Vocˆs não sabiam viver soltos, e agora estão satisfeitos, por-

que aqui +em pão fresco! Basta!

Separaram-nos rapidamente. Os insultos, os desafo-

ros, toleram-se de bom grado, porque servem de distra‡ão

para o auditorio. Quanto as rixas, so são autorizadas em

casos excepcionais. As vias de fato podem ser denuri-cia-

das ao maior, que vem pessoalmente fazer um inqueri+o: o

inqu‚rito significa aborrecimentos para todos, e deve por-

tanto ser evitado. Alias, quase sempre os adversarios fro-

cem desaforos por distra‡ão, por amor ... arte. Frequante-

mente o sangue lhes sobe a cabe‡a, ficam'furiosos, e a gente

pense que se v-ao agarrar, mas não: assim que a raiva de

O

I



RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

35

um e outro atinge certo diapasão, separam-se. Tudo isso,



a principio, me provocou uma extraordinaria, surpresa. Foi #

de proposito que citei este exemplo de palestra habitual,

enfre os for‡ados. Não compreendia que alguem pudesse

trocar insultos por prazer, encontrar nesse mister um encan-

to, um deleite, um divertimento. Não se deve esquecer

tambem. a parte que cabe a vaidade: o colecionador de

pragas sobe na estima geral-, um pouco mais, e e aplaudido

como ator.

a

Logo ' primeira +arde notei que me fitavam de vi‚s,



apanhei mesmo alguns olhares sinisfros. Por outro lado, des-

confiando que eu trazia dinheiro, alguns defentos me ron-

davam. Ofereceram-me logo os seus servi‡os, ensinaram-me

a carregar os ferros novos, ob+iveram-me - mediante di-

nheiro, e claro - um bau com cadeado, para arrumar nele

o meu enxoval de presidiario e a pouca roupa branca que

trouxera. Mas logo no dia seguinte roubaram-me tudo e

gastaram o produto em bebida.

Um dos meus* assaltantes +ornou-se mais +arde precio-

sissimo para mim, erribora continuasse sempre a furtar o que

era meu, sempre que a ocasião lhe parecia adequada. ~Co-

metia o roubo sem o menor acanhamento, como por obri-

ga‡ão; e eu não lhe podia guardar rancor.

Entre outras cousas, aqueles colegas servi‡ais me infor-

maram de que a gente poderia ter o seu cha: seria pois

ato ufil, para mim, a compra de uma chaleira. E, esperan-

do a compra, poderiam me alugar uma. Recomendaram-me

tambem um cozinheiro que mediante trinta copeques por

mes me prepararia as refei‡ões, se eu quisesse comer 'P'

pa rte ... ~Orrio era de esperar, pediram-me dinheiro em-

pres+a_ _~ogo no primeiro dia, cada um deles renovou os

empresfimos duas e +rˆs vezes.

Os ex-fidalgos são em geral muito mal vistos no pre-

sidio. Embora +enham perdido os direitos civis e sejam ali

iguais a todos os outros, os for‡ados se recusam a encara-los

como companheiros. Ali s, nSo decorre isso de nenkurn pre- #

DOSTOIEVSKI

conceito, mas de uma opinião inafa. Aos seus olhos confi-

nuamos sempre a ser fidalgos, o que não os impede de gozar

a nossa queda: "Agora acabou! Ainda ontem Piofr an-

dava brilhando em Moscou! agora. Piotr force a corda que

vai usar no pesco‡o!" e outras cousas classe jaez.

Gozavam os nossos sofrimentos; entretanto, faziamos

tudo para os esconder deles. Era principalmente nos pri-

meiros tempos que lhes atra¡amos as zombarias, porque, como

a nossa for‡a nSo era igual a deles, não os pod¡amos equiva-

ler no frabalho.  dific¡limo obter a confian‡a do povo, so-

brefudo daquela qualidade de gente do povo, e lhes conquis-

far a afei‡ão.

Tinhamos no presidio varios fidalgos. Para come‡ar,

cinco polacos, dos quais falarei mais tarde. Os de+entos os

detestavam ainda mais que aos nobres russos. Os polacos

(refiro-m,e aos condenados polificos) tratavam os colegas de

prisão com uma delicadeza meticulosa, exagerada, altiva;

não podiam dissimular a repugnancia que a sua convivencia

lhes inspirava.

Os for‡ados compreendiam isso muito bem e lhes pa-

gavam na mesma moeda.

Precisei passar quase dois anos no presidio para con-

seguir a boa vonfa& de alguns presos. Contudo, no fim

da pena, a maioria deles gostava de mim e me considenQva

um "bom sujeito".

Excluindo-se a minha pessoa, a fidalguia russa tinha no

presidio quatro representantes. Em primeiro lugar, um su-

jeifo crapuloso, medonhamenfe corrompido, espião e de-

lafor de oficio, de quem eu ia ouvira falar antes da minha

chegada e com o qual cortei rela‡8es logo no primeiro dia.

O segundo _era o parricida de quem ia falei. O ferceirb

chamava-se Akim Akimi+ch. Raramente tenho visto um ori-

ginal daqueles: ficara para sempre gravado na minha lem-

bran‡a. Era um homenzarrSo ossudo, de espirito fraco, ig-

norancia crassa, mefoclico e preso a regra como um alemão.

Os presos o ridicularizavam, mas alguns evitavam irrita-lo,

temendo-lhe o genio briquen+o. Desde o inicio nivelara-

kECORDAC ES DA CASA DOS MORTOS

se com os outros, rixando-se, agarrando-se ate com eles.

Era de uma honestidade fp-nomenal, e, assim que constatava

uma injusti‡a, voava a corrigi-ia, e muitas vezes se imiscuia

ern negocios que absolutamente não eram da sua confa. Sua

ingenuidade era prodigiosa; por exemplo: quando brigava

com os defen+os, censurava-lhes as ladroagens e os conci-

fava ao arrependimento. Fora alferes no exercito do C‚iu-

caso. Fizemos amizade logo no primeiro dia e ele imedia- #

famente me confou a sua his+oria. Come‡ara a vida Ja

mesmo no Caucaso, como sulo-oficial volun+ario num regi-

men+o de linha; esperara durante muito tempo a promo‡ão a

oficial, mas afinal mandaram-no como comandante para um

velho forfim. Um principe +ribufario dos arredores incen-

diou esse for+im, e fenfou um ataque noturno, sem nenhum

ˆxito ali s. Akim AkiMi+ch, por as+ucia, fingiu que não

sabia quem fora o autor do ataque. O caso foi a+ribuido

aos dissidentes; um mˆs depois Akim Akimi+ch convidou o

principe para uma visifa de cordialidade. E o principe

compareceu, sem des~onfiar de nada. Akim Akimi+ch formou

sua guarni‡ão em linha de batalha e confundiu publicamente

o visitante, lan‡ando-lhe em rosto a sua felonia. Explicou-

lhe miudamente a conduta que doravan+e deveria ter como

1 a


pr ncipe fribufario, e depois, ' guisa de conclusão. . . fu-

zilou-o. E no fim de tudo, mandou um relaforio circunstan-

ci;" o aos seus chefes. Foi a conselho de guerra; condena-

do a morte, teve a pena comutada para trabalhos for‡ados

de segunda categoria, e foi mandado passar doze anos na

Siberia ... Reconhecia que a sua conduta fora ilegal, ga-

ranflu-me ate que sabia disso antes de mandar fuzilar o prin-

cipe; nSo ignorava que o principe deveria ser julgado se-

gundo a praxe; contudo, não conseguia compreender em

que consistia o seu crime.

- Mas veja, o principe tinha incendiado o meu forfim!

Na sua opinião, eu ainda deveria dizer muito obrigado, heiri?

respondia ele a +JJas as minhas obje‡;-5es.

Os for‡ados, por mais que zombassem de Akim Aki-

mi+ch e o chamassem de louco, tinham em alta confa o seu #

DOSTOIEVSKI

to de ordem e as suas prendas. Akim Akimi+ch sabia

os oficios: era marceneiro, sapateiro, pintor dou-

serralheiro; e todas aquelas artes aprendera-as no

io. Auto-clidata nato, bas+ava-lhe ver um objeto para

ifar. Confeccionava fambem uma enorme variedade

ixas, cestos, lanternas, brinquedos, e os vendia na cida-

Isso lhe rendia algum dinheiro que ale empregava ime-

mente na aquisi‡ão de roupa branca ou de um traves-

mais macio. Conseguira ate mesmo fabricar para si

olchão dobradi‡o. Como ocupava o mesmo alojamen-

e eu, ajudou-me muito durante os primeiros meses da

deten‡ão.

Antes de sairem da fortaleza para o local do trabalho,

esos formavam dois a dois diante do corpo da guarda.

infe, e a cauda da forma‡ão colocavam-se os soldados

scolta, de armas embaladas. Aparecia então um ofi-

e engenharia, condutor dos trabalhos, e alguns sapade-

esignados como moni+ores. O condutor contava os

s, depois os mandava em pelotões para os locais de-

dos. 1


Juntamente com outros, destinaram-me a oficina de en-

aria, constru‡ão baixa, toda de pedra, situada no meio

grande patio atulhado por uma infinidade de`ma+eriais.

-w ali uma forja, tendas de marceneiro, de serralheiro,

s+rador, e+c_ . , 'Akim Akimi+ch trabalhava no enverni-

into; esquentava o oleo, moia as tintas, e pintava mesas

ros moveis de cor de nogueira.

Enquanto esperava as minhas novas grilhe+as, comuniquei-

s minhas recentes impress6es.

- Sim, e verdade, confirmou: eles não gostam dos

es, principalmente quando s3o condenados -pol¡ticos: so

l+a come-los vivos.  facil de compreender. Para co-

r, vocˆs e eles nada +ˆrn de comum. Em segundo

prifes de virem para ca eram todos pobres servos ou

es soldados. Julgue por si se podem gostar de nobres.

- sou eu que lhe digo, - a vida e dura, mas nas

anhias correcionais da Russia europeia e bem pior. Os

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

39

e vˆm de Ia para c acham que passaram do inferno para



c‚u. E não e que o trabalho seja mais penoso. Parece

que Ia a primeira categoria não tem uma cline‡ão estrita-

n+e militar: tratam os presos de modo muito diverso daqu¡;

*deportados podem at‚ ter a sua casinha; não vi com meus

os, porem foi o que me disseram. Não raspam a cabe‡a, #

o obrigam a uniforme, todavia, acho ate bom que os

esos tenham a cabe‡a raspada e usem uniforme: a ordem

melhor, e e mais agradavel a vista. Mas e isso justa-

men+e o que desagrada a esses camaradas. E. +ambem,

,que bandos de vagabundos! Circassianos, raskoiniki, (6)

,bons cristãos ortodoxos que deixaram na aldeia mulher e

ilhos, judeus, boemios, a Deus sabe quem mais, obrigados

os a viver bem uns com os outros, a comer na mesma ga-

a, a 'dormir na mesma tarimba! E que liberdade! - O

1. comer da gente, e preciso enguli-lo ...s escondidas, cada

vin+enn e guardado no fundo das botas; não precisa dizer

,mais: presidio e presidio ... E quer a gente queira quer não,

acaba meio louco.

Aquilo eu ia sabia. Era principalmente a respeito do

nosso maior que eu queria interrogar Mim Akimi+ch. Ele

não me dissimulou nada e a impress3o que me ficou não foi

absolutamente agradavel.

Tive que passar dois anos sob as ordens desse individuo,

e tudo que no primeiro dia me disse Akim Akimi+ch se re-

velou exato, - com a diferen‡a apenas de que a sensa‡So

direta sempre ultrapassa a impressão provocada por uma

simples narrativa. Era um homem apavorante, sobretudo

gra‡as a autoridade absoluta que exercia sobre duzentas

pessoas: porque ele, em si, não era senão desordenado e

mau. Considerava os de+en+os como seus inimigos nafu-

rais: era esse o seu primeiro e principal engano.

Sua pouca capacidade, suas proprias qualidades se

desviavam e tomavam uma dire‡ão ma. Violento, impulsi-

vo, cruel, precipifava-se como8~,,ima bomba na fortaleza, ate

(6) Welhos crentes". O "Raskol" foi um cisma provocado pelo patriarca Nikon

que em 1666 corrigiu os livros sagrados. (N. de R. Q) #

46

bos'ro I E vs I( I



Mesmo alta noite. e se observava algum preso dor

lado esquerdo punia-o no dia seguinteMindo do

gundo as minhas ordens, deve

pela manhã. /'Se-

Era odiado e temido com -se dormir do lado direito111

melha€a e enfarruscada O pe‡onha. Tinha um

Todos sab* a cara ver

ioguefe nas mãos do se * iam que O maior era um

neste mundo era O cac u ordenan‡a, Fedka. Seu unico

queceu quando o anima horrinho Tresorka (7) e

izinho caiu dmor

fam, como ‚ quase enlou-

depois se se tratasse dum doente. Solu‡a va ~ co

de lhe haver dado -filho. , Expulsou um

uma surra, segundo o s r;

eu

n



vete

- Mas sabendo, Por infermedio de Fedka

pres;d;o um curandeiro que sempre se sa- , que havia

ridou cham6-10 inconfinenfi. ia muito bem,

- Salva-ol grifava ele.

bro de dinheiro! Cura

O homem um lf o Meu Iresorka e eu te

'fo bom veferinarim u~ [que s;beriano 'asfufo, inteligente. . e

visita , O, contou ma r

a casa do m - is fa de aos com

ajor, - ali s Panheiros

quando o caso estava 16 o fez muito mais

u- Olhei Para Tresorka, quase esquecido.

ma almofada clue estava no sof ~ em cima

muito alva, vi irpediafamenfe que sofr-

inflama‡ão e seria preciso sangi-6_lo, para o salvar

sei tambem: ta

lei: E se eu fracasso e o cão rebenta?';

"Excelencia, mandou-me chamar muito tarde.

m Ou anteontem eu ainda

Pem mais jeif¢.tv o Poderia salvar; o

assim, f;'Ou-se Tresorka.

nforam-me fambem, c

quisera m Om muitos Pormenores que um #

atar o maior.

)-se que - O pre-

J h Muitos anos' n

sse homem dava mostras de uma submissão exemplar.

r debil Iamais dir;g~a a Palavra a i

menfal. ninguem, Passava

S

Ma

Pen



fa

8

o



abia ler e escrever, e levara o ano

a ler a B'b"a, ia e noite.

rmia di

M, erguia-se No meio da noite, quando



Stufa, abria acendia uma vela

O 1;vro.'e lia af- inst lava-se

e O amanhece' a

inuti,0 russo da Pala~ra francesa Um dia de-

"Tr‚sor" (tesoro).

(N. de R. Q.)

P rem agora

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

Ir r

41

clarou ao sub-oficial de guarda que se recusava a ir para o



trabalho. Avisaram o maior, que se enfureceu e correu ao

alojamento. O preso lhe atirou um tijolo, que ia tinha con-

sigo, com essa inten‡ão. Mas errou. Agarraram-no, jul-

garam-no, a‡oifaram-no. Passou-se tudo com grande rapi-

dez. Tres dias depois o desgra‡ado falecia no hosp~ital.

Antes de morrer, declarou que não queria mal a ninguem,

que tinha apenas procurado o marfirio.. Não pertencia en-

tretanfo a nenhuma seita dissidente. E nunca mais sua lem-

bran‡a foi evodada sem certa como‡ao respeitosa.

Enquanto me punham as novas grilhe+as as vendedoras

de kalafch entraram em fila, na oficina. Havia entre elas

ate criancinhas; enquanto eram pequenas vinham mercar os

kalafchi que as mães faziam. Depois de crescidas, continua-

vam a vir, mas sem mercadoria. Entre as vendedoras, havia

+ambem mulheres casadas. O kalafã valia dois copeques e #

quase todos os presos compravam deles.

Reparei num dos for‡ados, marceneiro de profissSo, ia

grisalho, mas de cara rubicunda, que pilheriava com as ven-

dedoras. Antes da entrada delas, amarrara ao pesco‡o um

len‡o encarnado. Uma mulherona gorda, com a cara toda

picada de bexigas, foi sentar no seu banco; e se travou en-

fre, eles a seguinte conve'rsa:

- Por que vocˆ não foi on+em? perguntou o homem

.com um sorriso fatuo.

- Fui sim; e levei o bolo! retrucou ela, despachada.

- Precisaram da gente; se não fo~se isso, estariamos

todos 16! Mas anteontem, vocˆs correram todas ...

- Quem foi?

- Quem? A Mariachka, a Kavrochka, a Tchekunda,

a Dyugrocheva¡a ... (8)

- Escute, perguntei a Akim Akimi+ich, sera pos,~ivel

que. . .9

Acontece, sim, respondeu-me Akim baixando modes-

famenfe os olhos, porque era pudicissimo.

1 (8) Tchekunda: "E' barato" - Nugrochevaia: "Dois groches~'. (N. de R. Q)

O0" #


42 DOSTOIEVSKI

Aquilo acontecia realmente, mas de raro em ra~o e

com. imensas dificuldades. De modo geral, havia mais apre-

ciadoros da bebida que dessa outra diversão, -apesar da

dureza daquela vida. Para conseguir algum dos presos apro-

ximar-se de uma mulher, precisava escolher o momento, o

local, marcar o encontro, conseguir ficar sO, ~ cousa que

era particularmente difici) - subornar os vigilantes, - cousa

mais dificil ainda, - em suma, gastar um dinheiro realmente

insentafo. Apesar disso, aconteceu-me mais tarde teste-

munhar cenas de amor. Lembro-me de certa vez, no verão,

em que nos esfavamos num galpão as margens do Irfych,

queimando um forno de tijolos. Os vigilantes- eram bons

rppazes. Logo mais apareceram duas "souffieuses" como as

chamavam os de+enfo"s.

- Por que vieram tão tarde? Estavam com os Zver-

kovi? pergun+ou-lhes o preso. Ja as esperava ha muito tempo.

-~- Eu? Nunca. Mais demora uma gralha numa ar-

vore do que eu com eles, replicou jovialmente a rapariga.

Era a Tchekunda, - a virago mais horrenda deste

mundo. Trazia consigo a sua amiga Dvugrochevaia. ~_ssa,

então, desafiava qualquer pintura.

- J faz tempo que a gente não se vˆ, continuou o

galã', dirigindo-se a Dvugrochevaia. Vocˆ anda magrinha.

-  isso. Dantes eu era gordo+a, hoje parece que

enguli uma agulha!

- ~E anda sempre correndo atras dos,soldados?

- Qual! Isso e lingua comprida de alguem! mas a

verdade e que ainda que a gente fique sem um fio de seu,

não h6 ‡orrio um soldado!

- Deixem de pensar em soldados, e venham com a

genfe... Nos pelo menos temos dinheiro. . .

Para completar o quadro, e preciso imaginar o galã

com a cabe‡a raspada, a libr" de duas cores, a grilhefa aos

p¢s, sentinela a vista.

Despedi-ma de Akim Ak'¡m¡fch, e sabendo que poderia

. voltar, pedi um vigilante a fui embvra. Era a hore do re-

IPA #


I

If

1 ~ (



RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

45

gresso. Os farefeiros 550 os que vão em primeiro lugar.



£nica maneira de tirar servi‡o dum for‡ado e lhe impor um

farefa. Mesmo quando ‚ pesada demais, eles a termina

duas vezes mais depressa do que se labutasse sem defen‡

a+6 ao soar do tambor. Finda a tarefa, o preso volta par

a caserna, e ninguem mais cuida em lha por empecilhos.

Não se jantava em grupo: quem chegava primeiro to

mava lugar a vontade. Alias, a cozinha não comportaria +11

dos ao mesmo tempo. Provei a sopa mas, por falta de

habito, nao a pude engolir e esperei o cha. Senfamo-nos ...

ponta da mesa. Eu tinha comigo um companheiro - ex-

fidalgo tambem (9).

Os defenfos entravam o saiam. Havia muito lugar,

faltando ƒnda tantos. Cinco presos formavam um grupo

sep rado. O cozinheiro lhes serviu duas tigelas de sopa e

pos na mesa um frigideira cheia de peixe frito. Decerfo

estavam se banqueteando, em comemora‡ão de qualquer

aniversario. Olhavam-nos de vies. Um dos polacos chegou

e veio se sentar ao nosso lado.

- Eu não estava Ia, mas sei de tudo! exclamou um

preso alto, penetrando na cozinha a olhando em c¡rculo

todos os homens presentes.

Cinquenfa anos mais ou menos, magro, MUSCUloso, tinha

uma cara ao mesmo tempo astuta e jovial. O labio inferior,

pesado, pendente, dava-lhe ao rosto uma expressão muito

comica.

- Saude, bom proveito! Saude aos mo‡os de Kursk!



continuou ele, senfando-se perto dos convivas. Pão e sal!

Recebam bem o h6spede!

- Não somos de Kursk, rapaz.

- Então são de Tambov?

- Nerri de Tambov- Não arranjas nada aqui, mano

Se queres pedir esmola, corre afras dum rica‡o.

(9) S. F. Durov, condenado ao mesmo tempo que Dostoievski, e com quem o ro-

as "Recorda‡ões" e -s¢ faz duas ou trˆs alusões ... sua Pessoa

Z-ndceistarrandousbriugado durante toda a sua estada no presidio. Não o nomeia nunca

(N. de H. M.) #

#

46 DOSTOIEVSKI (r



- Hoje*, mano velho, na minha barriga, Ivan Taskun e

Maria lkofichna andam ...s furras!(1 O) Onde acharei esse rica‡o!

- L esta Gazine, que ‚ cheio dos cobres! Vai a+ras

1

dele!



- Gazine? Esta de farra hoje, maninho, est , bˆbedo

como um porco - bebeu o sortimento todo!

- Deve ter uns vinte rublos, observou outro. Todo o

mundo sabe que um botequim não e mau negocio.

- Então não me querem mesmo? TenhobtIue comer

por conta da casa?

- Sim, cai fora. Vai pedir cha aos harines na outra

mesa.


- Que barines? Não ha bar¡ne nenhum aqu¡. Agora

são iguais a gente, resmungou um outro gal‚, que esfava

sentado longe. a ainda não dera pal#vra.

- Bem queria eu fornar ch ! Mas não sou homem

para pedir - tenho vergonha na cara! declarou o preso do

bei‡o grosso, olhando-nos com a cara bonachona.

- Se quer cha, com todo gosto lhe ofere‡o, falei eu.

Quer?


- Se quero? Pois não! - E aproximou-se de nos.

- Eh! Em casa dele +ornava sopa sem colher, e agora

bebe cha com os barines1 continuou o pneso resmungão.

- Sera que ning*uem aqu¡ toma cha? perguntei. Mas

ele não achou que me devia responder.

- Kala+chil olha os ka10chil! quero um fambem!

Um jovem de+enfo enfrava realmente com um rosario

de kallOchi, ~que ia vendendo pelo alojamento. A vendedora

lhe dava de gra‡a um em cada dez, para lhe pagar o tra.

balho, e com isso ele jantava.

- Kala+chi, kalafchi quentinhos! gritava o rapaz enfra.f-

do na cozinha. Quem quer kalafchi, lindos kalafchi de

Moscou? Eu bem que os comeria, mas preciso dos cobres.

Vamos, €hos, s6 me resta um! Quem feve mãe?

Esse apelo ao amor maferno provocou risadas, e lhe

compraram alguns kalafchi.

(10) Alegoria popular, que significa fwc (N. de R. Q)

O

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS



4~

- Escutem, rapazes, falou ele. Gazine es+repou-se!

Est bˆbedo como uma vaca - 'so falta aparecer mesfre

"Oifo olhos" ... #

- O melhor e esconder Gazine. Mas est mesmo

chumbado?

- Esta e furioso.

- Então precisa duns tapas ...

- De quem estão falando? indaguei do poiaco sen-

+ado ao meu lado.

- De Gazine, um preso que vende bebidas. Quando

junfa uns cobres, embriaga-se e fica uma fera. Sem bebida,

e quieto; porem quando esfa bˆbedo, mostra o que e: atira-

se aos outros, de faca na mão. E, então, o aquietam.

, Como?

- Uns dez dos outros se afiram a ele, esmurram-no



af‚ que fique desacordado - quase morto. Depois o es-

tiram na tarimba, coberto com o capote.

- Mas não correm risco de o matar?

- Sim, e outro qualquer levaria o diabo - ele não.

 forte como um +ouro. Mais forte que os outros todos:

quando for amanhã de manhã levanta-se como se não hou-

vesse nada.

- Diga por favor, perguntei ainda ao polaco. Aqueles

ali comem em separado e eu esfou bebendo cha simples.

E entretanto, parece que me invejam o cha. Por que?

- Oh! nSo* e por causa do cha, explicou o polaco; e

o barine que eles hosfilizam. Tem raiva dos harines por-

que não parecem com eles. Qualquer um ficaria contente

em o ofender, irritar, humilhar. Vai ver o diabo por aqu¡!

Pode crer, a vida aqui e dura, e muitissimo mais dura para

,nos do que para os outros.  preciso muito boa vontade

para se acostumar. Vai ter muitos aborrecimentos, sofrer

mai de um insulto, porque toma cha e n8o come na game-

Ia, - embora muitos presos comam a parte e tomem cha;

mas eles podem, nos, não.

Dizendo isso, deixou-me. Alguns minutos &~pois suas

predi‡6,es se realizaram. #

O

lu

A,



VF

IL ~ v . 1-101 -

Primeiras impressões

(continua‡ão)

1 11~ L?

A ssim que M-cki (o Polaco) acabava de sair, Gazine, in-

feiramente bˆbedo, irrompeu na cozinha.

Em pleno dia de trabalho, durante o qual deveriam

todos estar cumprindo as suas tarefas, com um chefe se-

vero que poderia aparecer a qualquer instante, com um

sub-c,ficial de servi‡o, e os invalidos, e todo o pessoal da

vigilancia, a entrada daquele ebr¡o punha em choque com-

pletc, as id‚ias que eu houvera formado sobre a vida no

presidio. Alias, fiquei muito tempo sem conseguir explica-

‡ão para fatos desse gˆnero, que me pareciam de inicio

verdadeiros enigmas.

J6 contei que cada um dos for‡ados tinha a sua ocupa-

‡ão pessoal. Isso representa uma exigencia nafuralissima da

vida na prisão; ademais, fa-lo ganhar dinheiro, e o de+ento

preza tanto o dinheiro quanto a liberdade; sente uJ consolo

i

I #


dentro do bolso: fica Pouco

em fazer retinir algumas moedas

inquieto, desanirgado, quando 1não tem

... vontade, triste, ~O

dinheiro nem meios de o obter. Entretanto, embora o di-

um ~esouro inapreciavel. o seu feliz pos

nheiro represente

suidor não o conserva nunca consigo. Em primeiro lugar.

como o esconder, de, modo que não seja nem roubado nem

confiscado? o maior, mal descobria algum peculio, nas suas

buscas repentinas, dele se apossava imedia+amente. Talvez

o empregasse no melhoramento da ra‡ão: mas +omava-0.

Corri mais frequencia, porem, era o dinheiro roubado. Seria

imposs¡vel ter confian‡a em alquem. Des~obrimos afinal um

m‚todo de o guardar sem perigo: entregava moIo a um velho

que. pertencia a confraria de VietI‡a, hoje refugiada entre os

mujiques de Starodubov ti). E não posso deixar de dizer

algumas palavras a respeito desse velho, embora sais um

pouco do meu assunto.

Era um homenzinho encanecido, de uns sessenta anos.

Despertou intensamente a minha curiosidade, logo ... che-

gada, porque diferia em tudo dos outros presos. Seu olhar

tinha uma expressão +ão meiga, +ão calma, que eu contem-

plava sempre com um prazer especial aqueles olhos claros,

luminosos, aureolados de pequenas rugas. Conversavamos fre-

quentemeriM, e raras vezes tenho encontrado tanta bondade,

tanta mansidão! Cometera, entretanto, um crime grav¡ssi-

mo. Iinham-se registrado, entre os seus companheiros de

cren‡a, varias deser‡ões; o governo -estimulava bastante os

trƒnsfugas e tudo fazia para obter novas conversões. O

nosso velho e alguns outros fanaficos do seu grupo resolve-

ram "manfer a verdadeira fe", como diziam. Quando se

quis edificar uma igreja ortodoxa, eles a incendiaram. Preso

como um dos insfigadores do crime, foi o velho mandado

(1) No fim do s‚culo XVII, Vietka, burgo situado então no territorio polonˆs e

que hoje faz parte da provincia russa de Mohilov, constituiu durante meio s‚cuio o prin-

cipal refuSio dos "ritualistas", ou adversarios das reformas lit¢rgicas preconizadas pelo

patriarca Nikon. Durante a guerra de sucessão da Polonia (1734) as tropas russas des-

truiram esse refugio; e Starodubov, situado na provincia de Tchernigov, lhe herdou a

influencia. (N. de H. MA

Os dissCentes de Starodubov eram chamados, raskoiniki, ou "velhos crentes".

(N. de R. QJ

D`GSTOIEVSKI

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

(t

I #


si

para os trabalhos for‡ados na Siber¡a. Era um comerciante

abastado, e tinha mulher e filhos. Abandonara tudo para

tomar o caminho do exilio. - achando, na sua cegueira,

que estava sofrendo pela f‚. Vivendo junto a ele, a gente

meditava, involun+ariamente: qual a razão por que aquele

homem resignado, +imido como uma crian‡a, pudera , revol-

Interpelei-o varias vezes a respeito da sua "f‚' - e Ele

far-se? as as r pli-

nao abandonava uma linha das suas convic€ões. m de. Con-

cas que dava não traiam jamais a minima animosida

tudo, queimara uma igreja e não o negava, pois aos seus

olhos aquele ato, aquele limarfirio", constauiam uma honra.

vão o sondei, em vão o in+erro-

uma gloria. Entretanto, em

quek nunca descobr¡ nele o menor tra‡o de orgulho ou de

vaidade. Tinhamos entre n¢s outros "velhos crentes", sibe-

rianos na maioria, bastante instruidos, bons dialeficos a sua

maneira, extremamente aferrados ao texto sagrado, porem

intolerantes, cheios de astucia e presun‡ão. Nosso velho não

os imitava em nada. Versado nas Escrituras mais que qual-

quer um deles, fugia no entanto as controversias . Tinha o

genio extremamente comunicativo, estava sempre alegre, ria

frequentemente - não com a gargalhada grosseira e cinica

dos for‡ados, - mas com um riso manso e claro que corres-

pondia bem a sua cabe‡a grisalha, e no qual se sentia uma

grande e ingenua simplicidade. Posso enganar-me, todavia

me parece que a gente pode conhecer um homem pelo seu

riso, e que, se ao 'primeiro encontro um desconhecido ri ante

nos de uma maneira agradavel, sua alma e boa. O nosso ve-

lho gozava dum respeito unƒnime, do qual absolutamente não

/I ~11


se orj~lhava. Os for‡ados, que o chamavam avo , não o

ofendiam jamais. E isso explicava em parte a influencia por

ele exercida sobre os-seus correl igiona rios. Entretanto, apesar

do esfoicismo real com que suportava os trabalhos for‡ados,

uma tristeza crescia dentro dele, tristeza profunda, incura-

vei, que dissimulava o melhor que podia. Nos dois ocupava-

mos o mesmo alojamento. Uma noite, pelas fres horas, es-

cutei alquem chorar baixinho. O pobre coitado, sentado

I #

52 DOSTOIEVSKI



junfo ao fogareiro, naquele . mesmo lugar ocupado outrora

pelo leifor da Biblia que quisera matar o maior, lia ora‡ões

I.S

num caderno manuscrito. , Solu‡ava, e de tempos em tem-



pos dizia: "Senhor, não me abandones! Senhor, da-me for-

‡as! Meus filhos, meus filhinhos, nunca mais os +ornarei a

ver!" Não posso exprimir o do que aquela cena me causou.

Foi pois a esse velho que pouco a pouco os for‡ados

iam enfregando o seu dinheiro. ~Embora fossem todos la-

drões, cada um tinha a certeza de que, com o "av"", podia

ficar sossegado. Sabia-se que ele dispunha dum esconde-

rijo num lugar onde ninguem o descobriria. Mais +arde, o

velho confiou o seu segredo a alguns dos polacos e a mim:

numa das estacas da pali‡ada havia um no na madeira, que

parecia estar solidamente ligado ao +ronco, mas podia ser

retirado, o que descobria um oco bastante profundo; ele Ia

depunha o dinheiro, e depois recolocava o no de modo fão

perfeito que ninguem jamais desconfiou de nada.

Mas afas+ei-me do meu assunto. Tinhamos ficado nisto:

por que o dinheiro demora +ão pouco tempo no bolso dum

for‡ado?  que não s0 lhe e dificil conserva-lo, como o pre-

s¡dio provoca uma tristeza +ão grande! O for‡ado, por sua

propria natureza, fem umabsede fão grande de liberdade e

por sua posi‡ão social e fão descuidoso, +ão desordenado,

que lhe vem naturalmente a id‚ia de ao menos uma vez dar

alegria ao cora‡ão, afogar todo o desgosto em barulho e

musica, afim de esquecer, um minufo talvez, a sua desgra‡a

abominavel! Nada mais estranho que ver alguns deles a

frabalhar meses e meses sem uma folga, com o fito ¢nico

de dispender num so dia todo o lucro obtido; depois disso,

novamente se curvam, novamente se encarn¡‡am na labuta,

afˆ a proxima bambochafa.

Muitos deles gosfavam de usar roupa vistosa, mais ou

menos exquisifa, cal‡as pretas de fantasia, cafe+ãs cur+os

... moda siberiana. Tambem esfavarri muito em moda cami-

sas de chifa e cinfurões com fivelas de cobre. Os presos

se enfeitavam aos domingos, exibiam-se em todo o esplen-

dor atrav‚s do alojamen+o. Chegava a ser infantil a safis-

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

fa‡ão que sentiam com o seu fraio novo. Alias, em muitos

aspectos, não passavam os gales de crian‡as grandes. Falar

verdade, todos aqueles ouropeis rapidamente desapareciam;

algumas vezes naquela mesma noife o seu proprie+ario os er~-

penhava ou vendia por quase nada. Sempre havia, alias,

pretexto para festas: ou porque era dia santo, ou porque

era aquele o dia onornastico de um dos defenfos. O ani-

versariante, assim que acordava, acendia uma vela defronte #

ao icone, e fazia as suas ora‡ões: depois endorningava-se, en-

comendava uma refei‡ão, - carne, peixe, e pratos a moda

siberiana, - e os devorava como um bicho esfomeado, -em

geral sO, pois raramente convidava um amigo para lhe par-

filhar o festim. Então aparecia -o vodca. O for‡ado

bebia como um odre, e andava pelas casernas, titubeando,

trope‡ando, mas altivo por mostrar a todos que "esfava de

farrcV - pois aquilo lhe era uma garantia da estima geral.

O povo russo sente uma esfranha simpatia pelo bˆbedo, po-

rem, no presidio, essa simpatia chegava ate ao respeito: os

paus-dagua pertenciam a uma especie de aristocracia. Assim

que se sentia alegre, o for‡ado exigia musica. Havia entre

nos um polaco, condenado por deser‡ão - um crapula, a

bem dizer, mas que possuia um violino e tocava. Como

não tinha nenhuma profissão, o seu unico recurso consistia

em se alugar a um aniversariante e tocar para ele alegres

musicas dansan+es. Essa fun‡ão o obrigava a acompanhar

o seu ebrio patrão de alojamento em alojamento, arranhan-

do a rabeca com quanfa for‡a tinha. Muitas vezes o rosto

lhe traduzia o +edio, o desespero, o cansa‡o, mas ao escutar

o grifo "Toca, diabo, ganha o teu dinheiro!" fazia o que

podia, a manobrar o arco. O fes+eiro sabia muito que se

por ajaso ficasse por demais ruidoso, feria quem cuidasse

de Si- , dei+a-lo-iam, escondˆ-lo-iam mal aparecesse um chefe,

uilo seria feito com absoluto desinteresse. ' Por seu l¡ado,

os sub-c,ficiais e os invalidos que zelavam pela ordem inferna,

poderiam ficar sossegados: o bˆbedo n3o provocaria ne-

nhuma complica‡ão, pois todo o seu' alojamento feria nele

os olhos.

1i #

54 DOSTOIEVSKI



Ao menor barulho, a menor revolta, tinham meios de o

fazer calar, ou simplesmente o amarravam. Por essa razão

os sub-c,ficiais fechavam os olhos: sabiam muito bem que se

não tolerassem o vodca ali dentro, as cousas andariam muito

piores. Mas como o obtinham os presos?

O vodca era comprado dentro do propric, presidio, a

defentos apelidados "bofequineiros" e cujos negocios ca-

minhavam muito bem, embora os nossos beberrões fossem

em pequeno numero: aquelas orgias custavam caro e nos

finhamos grande dificuldade em obter dinheiro. O comarcio

de vodca se iniciava, desenvolvia-se e se concluia de, maneira

realmente original. Vejamos um defento sem profissão defi-

nida, e pouco dado ao trabalho (havia desses) mas desejoso e

impaciente por enriquecer. Como possue alguns copeques,

resolve comerciar com aguardente, -.empresa bastante au-

daciosa. Grande e o risco: pode paga-lo na "rua verde", e

ao mesmo tempo ver dinheiro e mercadoria confiscados. En-

fr,efanto, o botequineiro não hesita. A principio. não dis-

pondo senão de alguns cobres, ele propric, introduz o vodca,

do qual, O 10giCO, so se desfaz com grande lucro. Repete a

experiencia segunda. terceira vez; se não e apanhado, em

breve possue um peculic, que lhe permite dar expansão ao

negocio. Torna-se negociante, capitalista; tem agentes e

auxiliares; arrisca-se muito menos e enriquece muito mais ...

São os auxiliares que se expõem no seu lugar.

Ha sempre no presidio alguns loucos que o jogo ou os

excessos arruinaram de todo, gente sem oficio, lamentavel,

esfarrapada, mas de certa maneira dotados de 'audacia e

energia. Essas criaturas não possuem senão uma cousa: as

costas, e aquilo ainda pode ter uma utilidade. O desgra‡ado

resolve porfanfo lan‡ar mão desse ultimo capital: enfende-se

com um bofequineiro, propõe-se a lhe con+rabandear vodca.

E todo bofequineiro rico utiliza muitos empregados dessa es-

pecie. Tem, na cidade, rela‡ões com um individuo qual-

quer, um soldado, um artesão, uma meretriz, que, mediante

comissão relativamente elevada, compra num bofequim a

aguardentis do rimim r~dedor, e vai depo;s escondˆ-la

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

55

perto do local onde trabalham os for‡ados. Esse inferme



diario, come‡a sempre provando a qualidade da mercadoria:

e substitue implacavelmente por agua pura a por‡ão consu-

mida nessa prova. Os seus fregueses não podem ter ex¡

gencias: devem se dar por felizas em arranjar vodca, seja qual

for. O fornecedor vˆ então a chegada dos carregadores

indicados pelo bo+equineiro. Essas trazem consigo algumas #

tripas de boi que foram antecipadamente lavadas e cheias de

agua, para ficarem frescas e macias. Depois que o vodca

e mudado de recipieriM, os carregadores enrolam as +ripas

em redor do corpo - nos lugares mais secretos em que e pos-

sivel af6-las.  a¡ que se mostra toda a asfucia, toda a ha

bilidade do contrabandista. Sua honra esta em jogo. 

preciso enganar vigilantes e sentinelas: e ele os engana. Um

bom contrabandista sempre se arranja de modo que o sol

dado da escolta (em geral um recruta) de nada desconfie.

 claro que, para come‡ar, o for‡ado estuda bem a psico

logia do soldado; leva farribem, em confa a hora e o local

da sua tarefa. Se, por exemplo, e foguis+a na olaria, trepa

no for= quem e que vai enxergar o que ele esta fazendo?

Quando volta ao presidio, fraz sempre na mão uma moeda

de quinze ou vinte copeques, para ado‡ar os possiveis ri

gores do cabo da guarda que esta ao portão, e e encarre

gado de examinar os presos que reforriam do +rabalho, antes

que Nem entrada no recinto da fortaleza. O portador de

vodca espera que não lhe inflijam a vergonha de apalpa-lo

minuciosamente em certos lugares - mas acontece, as

vezes, que um cabo mais insistente va direto aqueles ditos

lugares e descubra o contrabando. Resta então uma derra

deira esperan‡a ao desgra‡ado: as escondidas do soldado

da escolta, enfia na mão do cabo a moeda que trazia

consigo. Essa manobra quase sempre lhe permite penetrar

sa . o a salvo no presidio. Algumas vezes, porem, o negocio

acaba mal: ele então +em que contar com o seu Ultimo capital

- isto 6. as costas. Faz-se um relaforio ao maior. a‡oifa-se

impiedosamonfr, o capitel, e confisca-se o corpo de de';+o.

I #


56

DOSTOIEVSKI

Nesses casos, o contrabandista assume 'toda a responsabili-

dade e evita cuidadosamente denunciar o botequineiro, não

que receie ficar deshorirado pela dela‡ão; mas simplesmente

porque aquela dela‡ão de nada lhe servir . Sera fustigado

do mesmo modo e seu unico consolo sera ver o negociante

apanhar ao seu lado. E, afinal de contas, ainda precisa do

patrão, embora, segundo os usos e o contrato previamente

feito, não fenha-o carregador direito a indeniz 3 1

pelos a‡oites recebidos.

A 1:'


-,, o a guma

Issima.


as, as aeia‡Ses são no presidio ~cousa comuni *

O delator não e objeto de nenhum desprezo, não provoca

nenhuma indigna‡ão, ninguem o evita, pelo contrario, e ate

uma amizade procurada. Se alguem tentasse mostrar aos

for‡ados quanta vilania ha numa dela‡ão, eles decerto não o,

compreenderiam. Aquele ex-fidalgo, s6rdido e viciado, com

quem rompi rela‡ões desde o primeiro dia, era amigo de

Fedka, a ordenan‡a do maior. Servia-lhe de espião e Fedka

contava ao comandante tudo o que o outro lhe comunicava.

Ninguern ignorava -esse fato. nunca entretanto um dos presos

cuidou em castigar esse canalha, nem mesmo em lhe fazer a

menor censura.

Mas eis-me de novo afastado do meu assunto. Quando a

aguardente ‚ infroduzida sem trope‡os, o negociante se apo-

dera das +ripas cheias, paga os contrabandistas e p6e-se a

fazer c lculos. Considerando que a mercadoria lhe sai

muito cara, acha justo aumentar um pouco os seus futuros

lucros, acrescenta rido-lhe mais uma boa por‡ão de agua.

Depois de tudo pronto, espera, --rifão, a freguesia. No do-

mingo seguinte, ...s vezes mais cedo, o cliente se apresenta

sob a forma dum detenfo que trabalhou varios meses como

um boi de canga e reuniu vinfem por vinfem o dinheiro ne-

cessario aos seus prazeres. J h muito tempo, durante o

sono, durante o trabalho, o miseravel pensa, encantado, na-

quele dia. A id‚ia da festa em perspectiva o ampara afra-

ves da dureza da sua vida. Enfim, acaba de luzir a aurora

da data festiva, e como o dinheiro junto nSo foi roubado nem

confiscado'. enfrega-o ao bofequineiro. O negociante lhe

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

#

57



serve o vodca, do mais puro que e POssivel, - isto e, batiza-

do apenas duas vezes; mas ... medida que se esvazia a garrafa,

vai enchendo-a com agua. Nessas condi‡6es, como a dosa

e paga cinco ou seis vezes mais cara do que nos botequins

de verdade, e facil de conceber quanto e preciso beber,

quanto dinheiro ‚ mister gastar, para chegar a embriaguez.

Entretanto, dada a falta de h bito e a abstinencia anterior,

o for‡ado se embebeda muito depressa, mas, em geral, con-

finua a.beber ate não ter mais um real consigo. Então,

como o bofequineiro tambem exerce a usura, o aniversariante

empenha toda a roupa; em primeiro lugar a sua linda blusa

nova, depois os trapos velhos, enfim os objetos que recebeu

do governo. Bebido afinal o derradeiro farrapo, o "espon-

ja" se deita, e quando no dia seguinte se levantar com a

inevifavel ressaca, pedira -em vão ao botequineiro que lhe

arranje uma gota de vodca para lhe corrigir o mal-estar.

Então, tristemente, +era que suportar os seus inc"modos, e

voltara inconfinen+i ao trabalho. "E de novo vai se matar

durante meses, com vivas saudades daquele dia feliz. Pouco

a pouco no entanto se reanimara, esperara outro dia seme-

lhante, ainda longinquo, talvez, mas que acabara afinal por

nascer.


Quanto ao bofequineiro, depois de fazer fortuna - al-

gumas dezenas de rublos - prepara uma ultima provisão

de vodca - sem batismo, dessa vez - porque e destinada

a si proprio. Basta de negocios, agora +em direito de se di-

verfir. E come‡a então a fes+an‡a, bebida, comida e mUsica.

'Ele +em dinheiro, pode comprar a aquiescencia das autorida-

des subalternas. A festa dura, as vezes, alguns dias. Note-se

que a provisão de vodca depressa e esgotada; ele, então, vai

procurar os colegas, que ia o esperavam, e continua a beber

enquanto tiver uma moeda no bolso. A despeito da vigilanc¡a

dos defen+os, acontece as vezes que um dos bebedos caia

sob os olhos do maior ou dum oficial: levam-no então ao

corpo da guarda, confiscam-lhe o dinheiro, se ainda traz al-

gum consigo, e, finalmerte, passam-no pelas varas. Ele sofre

6

I #


58 DOSTOIEVSKI

o castigo, ergue-se, sacode-se, volta a caserna a dentro de

poucos dias reforna o seu oficio de bofequineiro. Encon-

fram-se, as vezes, enfre esses dissipadores, quero dizer, enfre

os ricos, alguns apreciadores do belo sexo. Por um bom cli-

nheif o galã em perspectiva corrompe o soldado da escolta,

e ambos, em vez de se encaminharem ao trabalho, tomam

as escondidas por um carreiro isolado. La, nalgum cantinho

sossegado, nos fins da cidade, então a festa e grossa e os

copeques correm sem conta. O dinheiro de um pneso não

‚ mais sujo do que o de outro qualquer homem, alias, o sol-

dado da escolta e +ambem um candidato aos trabalhos for-

‡ados. Com o dinheiro tudo se arranja, e essas sortidas são

em geral mar¡ficias secretas.  preciso, entretanto, confes-

sar que custam caro e são raras. Os amantes do belo sexo

+em outros necursos menos dispendiosos.

No inicio do meu tempo de presidio, um jovem cle+enfo

muito simpatico, chamado Siro+kine, me desper+qu particular-

menfe a curiosidade: parecia enigmafico a muitos respeitos.

A beleza do seu rosto me impressionara. Não devia fer

mais de vinte e fres anos. Como fazia parte da se‡ão es-

pecial, tinha que ser considerado um criminoso da pior es-

peci.e. Calmo, delicado, falava pouco e raramente sorria.

Tinha os olhos azues, fei‡ões regulares, a pele alva, e os ca-

belos dum louro acinzen+ado. A cabe‡a meio raspada não

o afeiava, tão bonito -era o homem. Não tinha nenhuma

profissSo, porem quase sempre dispunha de dinheiro, em pe-

quenas quantidades. Insigne pela pregui‡a, Sirofkine não se

preocupava com os +raios; mas se, por acaso, alguem lhe dava

de presenfe uma blusa varmelha, por exemplo, o rapaz nao

escondia o seu prazer, e ia se exibir por todo o alojarnen+o.

Não bebia, não jogava, não brigava quase nunca. Passeava,

as vezes, por +r‚is das barracas, com as mãos nos bolsos,

franquila a pensativamente. Em que pensaria? Se o cha-

mavam, se lhe faziam uma pergunta, respondia logo com uma

especie de deferencia pouco comum ali; e o fazia com ai-

gurna's palavras rapidas, sem tagarelice inufil, fixando na

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS 59 i

1

gente o olhar de uma crian‡a de dez anos. Se t¡nha algum



dinheiro, não adquiria nada ufil; não mandava remendar o

casaco, nao comprava botas novas: comprava kalOchi ou pão

doce, que devorava como um garotinho. E os outros for-

‡ados lhe diziam: "Ei, Sirofkine! coitadinho do orfão de

Kazan!" (2)

Nas horas de folga, aquele desocupado solifario vaguea-

va duma caserna a outra, enfre os companheiros entregues #

aos seus oficios particulares. Quando qualquer um lhe atirava

uma zombaria, e faziam muita tro‡a dei-e, Sirofkine dava meia

volfa sem responder e tocava para outro alojamento; as

vezes, quando a pilheria era por demais feriria, ele corava.

E eu perguntava a mim propric, que crime feria cometido

aquele mo‡o pacifico e simples. Durante uma das minhas

estadas no hospifal, tive Sirofkine como vizinho de leito. E,

certa ocasiSo, ele se animou, contou como haviam feito de

si um soldado, como sua mãe o acompanhara chorando, os

formenfos que sofrera no batalhão. Nunca se p"de habi-

fuar a vida de quartel por causa da rispidez dos chefes,

sempre desconfenfes com os seus servi‡os.

E depois? perguntei. Que foi que +e trouxe aqu¡?

E para a se‡ão especial, ainda por cima ... Ah, Siroffine,

Sirofkine!

-  verdade, Alexancir Pe+rovi+ch, passei apenas um

ano no batalhão. E estou aqui porque matei Grigori Pe-

frovi+ch, meu capitão.

- Esfou ouvindo, Siro+kine, contudo não acredifo no que

dizes. Então e mesmo verdade que mataste um homem?

-  verdade, Alexandr Pe+rovi+ch;,eu ia nSo podia mais.

- Mas todos os outros recrufas se acostumam. 

claro que o come‡o e dificil, porem a gente se habitua e

acaba sendo um bom soldado. Tua mÇe foi que +e es+ra-

gou: criou-fŠ com pão de 16 e doce de leite a+‚ aos dezoito

anos.

(2) Siroffine deriva de sirota, orfão. A expressão "orfão de Kazan", que tem



uma origem hist¢rica, designa ordinariamente os falsos pobres. (N. de '. 1. 1v1 )

i #


'60 DOSTOIEVSKI

-  verdade que minha mãe gostava muito de mim

Quando fui ser soldado, ela caiu de cama, e segundo me con-

+aram, nunca mais se levantou ... E eu não podia mais. O

capitão finha-me +ornado odio, casfigava-me o tempo lodo.

E porque? Eu obedecia ' a quem me mandava, cuidava do meu

o tinha vicios, porque, va

servi‡o, não bebia, nã ia bem, Ale

xandir Petrovi+ch, e muito ruim um homem +tr vicios. Todo

o mundoera malvado e eu não linha ninquem com quem desa-

bafar meus desgostos. As vezes metia-me num canto para

chorar a vontade. Um dia, finham-me posto de sentinela,

junto ao dep6sifo de armas. Soprava um vento de outono e

a noite estava tão escura que não se enxergava dois dedos

diante dos olhos. Ah, que agonia me apertou o cora‡ão,

que agonia! De repente, +irei a baioneta da arma, deifei-a

ao meu lado, descalcei a bofina do pe direito, e apertei, o

gatilho com o dedo grande. Mas o tiro falhou! Examinei

o fuzil, pus carga nova de polvora. a'Iei+ei a pederneira, e

novamente encosfei o cano ao peito. Que houve, outra

vez? A polvora queimou. porem o tiro não saiu ... Calcei a

bola, ajustei de novo a baioneta, e continuei a dar guarda,

calado. Foi nesse momento que me resolvi a acabar: mil vezas

a Siberia que aquela vida desgra‡ada! Depois de meia hora

o capitão que fazia a ronda caiu-me em cima: "En+ão, e

assim que se faz sentinela?" Pequei o fuzil e enterrei nele a

baioneta ale ao punho. Recebi por isso quatro mil a‡oites

e me mandaram para a se‡ão especial ...

Não estava mentindo. Mas por que o haviam mandado

para a se‡ão especial? Em geral esse crime provoca um cas-

ligo menos severo. Entre os quinze individuos que formavam

aquela sec‡ão, Sirofkine era o unico de bela aparencia. Sal-

vo duas ou trˆs caras mais ou menos +oleraveis, os outros

todos davam medo de olhar: orelhas compridas, cabanas,

fei‡ões medonhas, roupa em desordem. Havia, entre eles,

algumas cabe‡as brancas. Se as circunstanciais o permiti-

rem, falarei detidamente sobre essas homens.

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS 61 i

,P

Sirotkine era grande amigo de Gazine, o qual no inicio



deste capitulo vimos entrar cambaleando na cozinha, com

o fim £nico, pelo que parecia, de destruir as id‚ias que eu

anteriormente formara acerca do presidio.

Aquele horrendo individuo provocava em todos uma im-

pressão de angustia e pavor. Sempre me pareceu impossivel

encontrar criatura mais feroz, mais abominavel. Vi em To-

boisk o bandido Kameniev, cujos crimes são celebres. Vi de- #

pois o desertor Sokolov, medonho matador lambem. Mas

nem um nem outro ma inspirou +amanha repugnancia como

Gazine. Parecia-me, ...s vezes, que estava ... frente de uma

aranha enorme, gigantesca, do +amanho dum homem. Era.

um +artaro cuja for‡a monstruosa ultrapassava a de lodos

os outros for‡ados. Estatura acima de mediana, com mus-

culos de Hercules, cabe‡a disforme, desmesurada, caminhava

com as costas arredondadas em corcunda e os olhos no chão.

Corriam estranhas hisf6rias a seu respeito: sabia-se que vinha

do exercito. mas alguns de+en+os pretendiam, com ou sem l

razão que ele se evadira de Nertchinsk (3) ' deportado para 'i

a Siberia mais de uma vez, conseguira fugir e trocar de nome,

para acabar finalmen+a na nossa se‡ão especial. Contava-

se lambem que ele se divertia outrora em massacrar crian- il

cinhas: arrastava-as para um lugar propicio, aformentava-as,

martirizava-as, e depois de lhes gozar amplamente o pavor,

o panico, ma+ava-as lentamente, deliberada mente, saborean-

do o seu prazer. Tudo isso talvez fossem apenas contos de

carochinhas, engendrados pela desagradaval impressão que

Gazine provocava em todos nos, mas aquelas inven‡ões se ca- 1

savam bem com os seus modos, com a sua cara. Entretanto,

quando ele não estava bˆbedo, portava-se de maneira muito

razoavel. Imperturbavel sempre, sem procurar brigas com

n¡nguem, evitando disputas, parecia desprezar os companhei-

ros e se considerar muito acima deles. Pouco loquaz, ou

(3) Cidade da Transbaikalia, dentro da região mineira para onde eram deporta-

dos os for‡ados da primeira categoria. (N. de H. M.)

I #

DOSTOIEVSKI



antes, intencionalmente taciturno. Seus movimentos eram

lentos, +ranquilos, determinados: os olhos traiam inteligˆncia

e astucia exf raordina rias, e o rosto, o sorriso, tinham uma ex-

pressão uniformemente arrogante, escarninha, cruel. Era um

dos mais ricos bofequineiros do presidio-, contudo, duas vezes

por ano bebia a larga e mostrava a luz do sol a bestialidade

da sua natureza. Quanto mais se embriagava, mais assaltava

os outros com zombarias mortifican+es, sabiamente calculadas,

e que pareciam preparadas com grande antecedencia. Che-

gando- ao paroxismo da embriaguez, ficava furioso, apanhava

uma faca e se atirava aos deten+os. Conhecendo-lhe a for‡a

prodigiosa, eles fugiam dele e se escondiam, pois Gazine ata-

cava todos que lhe calam nas mãos. Mas depressa conse-

guiam meios , de o dominar. Uma dezena de homens se pre-

cipifava sobre ele, moia-o de pancadas no peito, no ven-

tre, por sobre o cora‡ão, no es+âmago: não se poderia ima-

ginar cousa mais cruel. E isso ate que ele ficasse desacor-

dado. Era tratamento que mataria qualquer outro que não

fosse Gazine, mas com ele não havia esse risco. Depois da

pancadaria, enrolavam-no na sua pele de carneiro, e o deita-

vam na tarimba. "Deixa esse malandro cozinhar agora o v , odca

que bebeu!" No dia seguinte, com efeito, ele se levantava

quase curado, e ia para o trabalho, com a cara fechada, em

silencio. Cada vez que Gazine se divertia, todos sabiam co-

mo o seu dia iria terminar. Ele fambem o sabia, contudo se

embriagava da mesma maneira. Alguns anos se passaram

assim; afinal, regisfrou-se uma mudan‡a em Gazine: queixava-

se de toda especie de doen‡as, emagrecia visivelmente, fre-

quenfava cada dia mais o hospital . . . "Esta dando baixa!"

diziam dele os defentos.

No dia de minha chegada, Gazine entrou na cozinha

enquanto eu ainda estava Ia, seguido pelo s6rdido polaco

ra.boquista que os bˆbedos contratavam para lhos completar

.os Prazerps. Defeve-se no meio da pe‡a, e encarou em

silencio todos que 16 se encontravam. Avistando-me por

fim junto ao meu camarada, fixou em n6s'um olhar escarninho, #

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

AW

.i



65

cruel, e com o sorriso satisfeito de alguem que preparou uma

boa pilheria, aproximou-se a cambalear da nossa mesa.

- Sera ousadia perguntar se os seus rendimentos lhes

permitem beber cha, aqui?

Troquei um olhar com o meu vizinho; compreendernos

ambos que seria melhor ficarmos em silencio. A prime¡ra

contradi‡ão o furor do ebrio se desencadearia.

- Então tˆm dinheiro? continuou ele. Tˆm uns bons

cobres, heiri? Mas, digam uma cousa, foi para tomar cha-

zinhos que vieram para a Siberia? Respondam-me, seus fi-

lhos da ...

I

Vendo-nos resolvidos a não lhe dar resposta, a não lhe



prestar nenhuma aten‡ão, ele ficou rubro e p"s-se a tremer

de furia. Descobriu ao seu lado, num canto, uma pesada

tabua na qual arrumavam os peda‡os de pão destinados ...

nossa comida. Tinha +amanho suficiente para conter as ra-

‡ões de metade dos presos: naquele momento estava vazia.

Gazina agarrou-a com as duas mãos, brandindo-a sobre as

nossas cabe‡as. Mais um instante e nos quebraria o cranjo.

Uma morte, ou tentativa de mor+e. provocava sempre os

maiores aborrecimentos: inqueri+os, buscas, severidade redo-

brada. Por isso tinham os detenfos o maximo interesse e

cuidado em evitar +ais excessos. Entretanto, nenhum se me-

xeu! Nem uma voz se elevou para nos defend2r: nem um

rito se ergueu contra Gazinei O oclio de todos contra os

harinesera +ão intenso, que se alegravam ao vˆ-los em perigo.

Mas a cousa assumiu um aspecto inesperado: no momento

em que Gazine ia abater a +abua, alguem gritou da porta:

- Gazinei roubaram o +eu vodca!

O +ar+aro deixou cair a +abua no chão, e se precipitou

como um louco para fora da cozinha.

- Foi Deus que salvou aqueles dois! disseram entre si

os outros: e durante muito tempo ainda repetiram a afirma‡ão.

Nunca pude saber se o roubo do vodca foi real, ou se

o simularam para nos salvar.

I #


66 DOSTOIEVSKI RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS 67

Nessa noite, anfes do fechamento das casernas, fui pas-

sear ao longo dos muros, dentro da escuridão crepuscular.

Uma pesada tristeza me esmagava a alma, uma frisfeza tão

.grande que durante toda a minha estada no presidio, jamais

sen-ri outra igual. O primeiro dia de in+ernamenfo e par-

ficularmenfe doloroso de suportar, seja numa prisão, num quar-

fel ou num pres¡dio. Mas. se bem me lembro, eu ia ruminava

um problema que me atormentou sem descanso durante todo

o per¡odo da minha reclusão, problema que ainda hoje me

parece em parte insoluvel, - isto e, a desigualdade do cas-

tigo para crimes similares. Porque, na verdade, nenhum cri-

me e inteiramente semelhante a outro. Velamos por exem-

plo dois assassinatos: pesaram-se todas as circuns+ancias e

se infligiu aos dois culpados um castigo quase idˆnfico, ape-

sar das diferen‡as muito sensiveis que existem enfre am-

bos. Um deles, profagonista de uma lenda que corre enfre

os for‡ados, matou a-toa, por um nada, por uma cebola:

emboscado na estrada, assassinou um pobre-diabo que passa-

va, e não lhe enconfrou nos bolsos senão uma m¡sera cebola.

"Ai, paizinho, tu me mandaste chamar! matei um cristão e

e so achei com ele uma cebola!" - "Idiota! lhe diz o demo-

nio, uma cebola vale um copeque; cem almas sSo cem ce-

bolas! E cem cebolas s3o um rublo!" ( assim que reza a tal

lenda). O outro mafou um libertino firƒnico para salvar a

honra da sua noiva, da sua irmã, da sua filha. Um terceiro,

servo fugitivo, meio morto de fome, falvez, matou um dos

policiais atirados em bando a sua persegui‡ão; matou para

defender a liberdade e a vida. Aquele outro, por simples

divertimento, degola criancinhas, e goza um prazer intenso

ao lhes sentir o sangue +epido correr nas mãos; da-lhe prazer

o pavor delas, da-lhe prazer a sua derradeira convulsão da

pombinhos sacrificados! Entretanto, uns e outros são pu-

nidos com a mesma pena. Ha realmenfe uma variante na in-

+ensidade do castigo - mas essa variante e muito precaria

em rela‡ão ... diversidade na mesma especie de crimes. Tan-

tos quantos forem os caracteres, tantas serão as diferen‡as.

Hão de me objetar que seria dificil aplainar essas diferen‡as,

que elas representam um enigma quase tão insoluvel como

a quadrafura do circulo. Pois concordemos com essa desi-

gualdade, passemos a examinar outra desigualdade: a das

consequencias do castigo. Um dos condenados se consome,

derrefe-se como uma vela; outro, não desconfiara nunca que

houvsse no mundo vida tão divertida, grupo tão agrada-

vel deesplˆnclidos carriaraclas; porque, no presidio, ate gente

com esses sentimentos se enconfra. Outro defen+o, homem

cultivado, presa dos remorsos de uma conciencia requinfacla,

torturado por sofrimentos morais diante dos quais emo.ali-

dece qualquer outro castigo, inflige ao seu crime um jul- #

gamen+o muito mais implacavel do que aquele com o qual a

mais severa das leis o poderia punir. E o outro ao seu lado, nem

por um segundo, durante toda a pena, se preocupara com o

crime cometido: acha mesmo que agiu com a raz3o. Alguns

chegam ate a executar um crime unicamente para terem aber-

tas as portas do presidio, e se desembara‡arem assim c19

uma exisfencia muito pior. Em liberdade, o desgra‡ado vi-

via talvez na mais torpe miseria, não comia nunca o suficiente

para matar a fome, trabalhava ...s ordens de um patrão da ma-

drugada a noite. No presidio, o labor e menos pesado, o

pão mais abundante e de m-elhor qualidade, come-se carne

aos domingos -e dias de festa, recebem-se esmolas, pode-se

ganhar alguns cobres. E que companheiros! Gente esperfa,

habilidosa, que sabe tudo. Com efeito, um desses desgra-

‡ados a que aludo, encara os coLegas com admira‡ão respei-

fosa; nunca viu gente igual, considera-os a nata da humani-

dade! ... Concebe-se, pois, qua se imponha o mesmo casf*,go

a pessoas tão diferentes? Mas que adianfa nos preocupar-

mos com ptoblemas sem solu‡ão! O tambor esta rufando, e

preciso entrar no alojamenfo.

I #


IV

Primeiras impressões

(continua‡ão)

t

come‡ou-se a ultima chamada, depois da qual se aferrolha-



ram as casernas, cada uma com um cadeado especial,

e os presos ficaram trancados aos grupos, at‚ o arria-

nhecer.

A chamada era feita por um sub-oficial e dois soldados.



Algumas vezes o oficial da guarda a assistia, e os for‡ados

se enfileiravam então no pat¡o. Mas, em geral, o controle

era realizado sem nenhuma cerimonia, nos alojamentos. E

assim sucedeu na primeira noite depois da minha chegada.

Os encarregados da contagem muita vez se enganavam nos

n£meros: e logo que sa¡am, tinham de voltar para nova

chamada. Nessa noite, tendo afinal os pobres vigilantes afin-

gido o numero preciso, fecharam definifivamente a caserna. #

70 DOSTOIEVSKI RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS 71

A nossa continha uns trinta for‡ados, estropiados de cansa‡o, homem vivo: um for‡ado, seja ele quem for, pode conservar

deitados com bastante aperto nas tarimbas. Ainda era seus sentimentos, seu desejo de viver, sua sede de vingan‡a,

mito cedo para dormir. Cada um parecia ter necessidade todas as suas paixões, junto com a necessidade imperiosa

de uma ocupa‡ão qualquer. Não ficava conosco outro vi- de as sa+isf...zer. Noenfanto, repito-o, e errado teme-lo. Um

a

gilante alem do invalido a que ia me refer¡. Cada aloja- homem não se atira assim +ão rSpida e facilmente



sobre ouL

mento contava tambem com um "moni+or" escolhido pessoal- o

+ro, com a faca na mão: esses acidentes s' em raros casos

mente pelo maior, em aten‡ão a sua boa conduta. As vezes, se produzem, e deve-se portanto convir que o

perigo e ne-

contudo, esse moni+or cornefla as suas faltas e era a‡oitado, nhum. Não me refiro, e claro, senão aos for‡ados

ia em

demitido, substi+uido. , iExercia o cargo, então, Akim Aki- cumprimento de pena, entre os quais



muitos se sentem no

k

mitch, que, para grande surpresa minha, ralhava a vontade presidio como num porto seguro, e estão prontos a



viver

com os presos. Estes, em geral, lhe respondiam com pilhe- kali em sossego e submissão (tão grande e o

atrativo que pode

rias. Mais prudente que Akim, o "nevalido" não se envolvia ter uma vida nova); e os proprios turbulentos

depressa são

com coUsa alguma; se chegava a dizer uma palavra, era .3n+es aquietados pelos companheiros, porque o rriais

audacioso e

por descargo de conciencia. De c¢coras na tarimba, remen- o mais insolente dos gales se assusta com um nada.

Quanto

dava em silencio umas botinas velhas. Os for‡sdos não lhe ao criminoso que ainda não recebeu o seu castigo.



o caso

prestavam a minima aferi‡ão. ‚ outro; este pode muito bem atacar sem motivo qualquer

Nesse dia fiz um reparo cuja exatidão pude constatar pessoa, na vespera da fus+iga‡ão, afim de criar

novo caso

mais +arde. Todos que tratam com os defentos, a come‡ar e retardar a hora fatal. A agressão +em uma causa,

um fim:


pelos vigilantes, adotam em rela‡ão a eles uma atitude falsa: e preciso fazer com que a sorte derive, de

qualquer maneira.

dão a id‚ia de que estão se arriscando a receber uma facada, e o mais rapidamente possivel. Conhe‡o ali s a

esse respeito

a todo instante e por da ca aquela palha. Os for‡ados um caso de psicologia bastante estranha.

se apercebem muito bem do medo que inspiram, o que lhes Havia na se‡ão militar um for‡ado

condenado a dois

a‡ula as bravatas. Entretanto, o melhor chefe e justamente anos de presidio sem priva‡ão dos direitos civis.

Tra+ava-se,

aquele que não os teme, e os presos s¢ se sentem a vontade de um fanfarrão odioso, um nofabilissimo covarde.

Em ge-

quando despertam confian‡a. Pode-se ate, por essa manei- ral a fanfa,rronada e a covardia s¢ raramente se



encontram

ra, lhes conquistar a afei‡ão! Durante a minha deten‡ão, a no soldado russo, sempre tão ocupado que rem para

gabo-

verdade e que raramente um dos chefes enTrou na peni+en- lices +em tempo. Contudo, quando se descobre algum #



dessa

ciaria sem escolta, e quando isso acontecia, era de ver-se a especie, e quase sempre um covarde integral.

Depois de cum-

estupefa‡ão dos nossos! Ali s, esses visitantes infrepidos prir pena, Du+ov - assim se chamava

o defen+o - voltou ao

conquistam sempre o respeito dos homens, e se realmente seu batalhão. - Acon+ecera-lhe o

mesmo que a todos os.seus

uma desgra‡a devesse acontecer, não seria na sua presen‡a. colegas que são mandados a prisão afim de se

corrigirem:

O medo que o gale inspira e universal. Todavia não com- voltam de 16 infinitamente mais

pervertidos. E, alguns deles,

preendo em que se baseia. Provem decerto da cara do pre- ap¢s no m ximo umas duas ou +rˆs semanas de

liberdade,

so, do seu renome de facinora. E depois, toda criatura que +ornam a ser julgados e s5o devolvidos ao

presidio, mas dessa

visita um presidio sente que aquele mon+ão de gente não vez va . o para a se‡ão dos

re;nciden+es, por quinze ou vir+e

esta ali por seu gosto, e que por mais que se +ornem medidas anos. Assim acon+eceu com Du+ov. Cerca de +res

semarias

de precau‡ão, ninguern pode transformar em cadaver um ap¢s sua liberta‡ão, cometeu um roubo com

violencia, d~)i_i #

72 DOSTOIEVSKI RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS 73

escƒndalo, revoltou-se. Condenaram-no a severa puni‡ão

corporal, cuja perspectiva o apavorou. No ultimo momenfo,

na vespera do dia em que deveria passar sob as chibatas

da sua companhia, o condenado agrediu com uma faca o ofi-

cial da guarda, no instante em que este penetrava na cela

dos defenfos. Dutov decerto compreendia muito bem que

o seu ato lhe agravaria muifissimo c caso. Mas precisava

de qualquer modo adiar por alguns dias, por algumas horas

ao menos, o pavoroso momenfo do castigo. Era- tão covarde

que não chegou sequer a ferir o oficial; apenas fingiu a agres-

são com o unico fifo de perpefrar novo crime, que lhe pro-

porcionaria novo julgamento.

O minufo que precede a execu‡ão e evidentemente pa-

voroso. Durante os meus anos de presidio tive ocasião -de

ver inumeros condenados na v‚spera do dia fatal. Em geral

enconfrava-os no hospital, no pavilhão dos presos, onde eu

+ambem ocupava um leito, doente, - cousa que me aconfe-

cia com grande frequencia. Em toda a Russia os prisioneiros

sabem que a compaixão dos m‚dicos não lhes permite consi-

derar os for‡ados diferentes dos outros homens, como em

geral faz a maioria das pessoas, exce+uando-se a gente hu-

milde. Nunca um homem do povo censura qualquer cousa

a um for‡ado: por mais horrendo que seja o seu crime, ele o

perdoa pensando no castigo que aquele homem sofre, e por

causa da sua "desgra‡a". . . Não e a-+oa que o povo chama

ao crime uma "desgra‡a" e ao criminoso um "desgra‡ado".

Essa expressão profundamenfe cara+eristica tem importan-

cia maior precisamente porque e inconciente, instintiva.

Quanfo aos m‚dicos, representam realmenfe em muitos casos

a providencia dos gales, sobretudo para aqueles que ainda

não receberam o seu castigo, - categoria submetida a um

regime muifo mais tevero. Quando vˆ aproximar-se o dia

em que ser executada a senten‡a, o condenado frequente-

menfe se declara enfermo, na esperan‡a de afastar, por qual-

quer pre‡o, o ferrivel momento. Quando o devolvem da

enfermaria, ele espera com toda a cerfeza receber os a‡oites

na manhã seguinfe; e por isso manifesfa uma agita‡ão fre-

menda. Alguns, por amor proprio, procuram escondˆ-la, mas

a jactancia desajeitada que exibem

não engana os companhei-

ros. Todos compreendem o que o agita, e ficam calados por

compaixão. Conheci um jovem soldado, assassino, condenado

ao numero m ximo de a‡oites. Tão grande era o seu medo,

que resolvera beber uma tampa de gamela cheia de vodca,

onde pusera rape de infusão. Alias, o condenado sempre

bebe bastante aguardente antes da execu‡ão do castigo.

Obtem vodca com grande antecedencia, mesmo a pre‡o

exorbitante; privar-se-a do indispensaval durante seis meses,

economizara custe o que custar afim de comprar um quar- #

filho de aguardente que h de beber quinze minutos antes

da execu‡ão. Estão convencidos os presos de que o homem

bˆbedo sente com menos intensidade as pancadas das varas

ou do knuf.- Mas volto a minha hisforia. Engulido o vodca,

* pobre rapaz adoeceu de verdade: leve uma hemorragia

* o transportaram ao hospital quase inanimado: o v"mito

de sangue por tal forma lhe devasfou o peito que a t¡sica

não tardou a se declarar e ele morreu ao cabo de seis meses.

Os m‚dicos que o trataram nSo souberam nunca qual fora a

causa da sua molesfia.

Ao lado dessa falta de coragem diante do castigo, cri-

confram-se +arribem, devo dizˆ-lo, casos assombrosos de in-

trepidez. Ao escrever isto, penso em certos gestos de atire-

vimenfo vizinhos da insensibilidade, gestos menos raros que

o que se pode supor. Posso cifar especialmente certo

bandoleiro, o famoso deserfor Orlov. Num dia de verão,

espalhou-se o boato de que ele seria castigado a noite, e que

depois da execu‡ão o levariam ao hospital. Os doentes

1

garantiam que Orlov seria a‡oitado sem do. Todos se mos-



travam mais ou menos febris, de tal modo que foi com enor-

me curiosidade que fiquei a espera daquela celebridade do

crime. Ja ha muito tempo ouvia contar casos inauditos a

seu respeito. tEsse facinora deespecie rara trucidava friamen-

te velhos e mo‡os; dotado de exfraordinaria for‡a de von-

fade, tinha o orgulho e a conciencia dessa for‡a. Depois de

7 #

74

DOSTOIEVSKI



confessar um grande numero de assassinios, viu-se ele con-

denado aos a‡oites.

Ja ficara escuro, e ia estavam acesas as candaias quando

o trouxeram quasa desacordado, o rosto livido sob a grenha

espessa, cacheada e negra como pixe. As costas em carne

viva estavam inflamadas, roxas. Durante toda a noite os

companheiros se ocuparam dele, mudando-lhe as, compressas,

virando-o dum lado e de outro, dando-lhe uma po‡ão, como

se se tratasse dum parente pr¢ximo ou dum benfeitor. No dia

seguinte o homem recuperou toda a lucidez, e deu uma ou

duas voltas pela sala. Aquilo me surpreendeu: ele recebera

duma so vez a metade do castigo, pois o m‚dico suspendera

a execu‡ão quando se convencera de que lhe poderia pro-

vocar um desenlace fatal. Entretanto Orlov era de baixa

estatura e seu estado geral fora debiWaclo pela longa deferi-

‡ão. Como todos os condenados ao a‡oite, tinha a cara

livida, exhausta, esgotada, e o olhar febril. Contudo, rapi-

damente melhorou; evidentemente a sua alma energica aju-

dava a natureza. Não, aquele homem não era uma criatura

ordinaria. A curiosidade me impeliu a conhecˆ-lo melhor, e

o estudei durante uma sernaria infeira. Posso afirmar que

nunca, em minha vida, ericontrei cara+er de melhor ' tˆmpera,

mais inflexivel. Avisfei-me em Tobolsk com uma celebridade

da mesma especie, Koneniev, verdadeiro animal feroz; bas-

tava olh -lo e, mesmo sem o conhecer, a gente adivinhava

naquele homem uma criatura monstruosa. Mas na sua es-

+Upida ausencia de alma, senfia-se logo ao primeiro olhar q-je

a maferia dominava ali. Aquele hornem não sentia nada

alem da sede dos apetites fisicos, a sensualidade, a luxuria.

Tenho a certeza de aquele Koreniev, capaz de degolar um

homem sem pestanejar, desmaiaria e tremeria de medo diante

do knuf. Orlov, ao contrario, encarnava a vitoria do espiri+o

sobra a carne: podia dominar-se ate o fim, desprezava todos

os tormentos e todas as puni‡ões, não temia absolutamente

nada. Emanava de si uma energia sem limites. Senfia-se ne-

le uma sede de vingan‡a e uma atividade inabalavel para

atingir os seus fins. Seus modos estranhamente altivos, que #

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

I

**%e


i

77

nada tinham de proposital, que lhe eram naturais, me deixa-



ram at"nito. Creio que ninguerri no mundo o poderia in-

fluenciar. Considerava as cousas com a placidez das cria-

turas as quais nada espanta. Admitindo claramente que to-

dos os defentos o respeitassem, nunca entretanto se jactou

ante eles. Todavia, a fatuidade, a gloriola, são naturais em

quase todos os for‡ados. Era inteligente e de uma estranha

franqueza, embora pouco loquaz. As minhas perguntas res-

pondia sem rodeios que esperava curar-se para sofrer o resto

da pena, e que de inicio receara não a poder suportar.

"Agora, acrescentou com um piscar de olhos, a cousa esta

liquidada. Aquento o resto dos a‡oites e logo depois man-

dam-me para Ner+chinsk, e em caminho fujo - fujo com toda

certeza! Contanto que minhas costas cicatrizem depressa!"

E durante cinco dias ele esperou com avidez o momento

de partir. Mos+rava-se em geral muito alegre e de muito

bom humor. Tentei levar a conversa para as suas aventuras:

e, embora franzisse um pouco o cenho as minhas perguntas,

ele sempre respondia abertamente. Entretanto, quando des-

cobriu que eu lhe sondava a conciencia para descobrir nela

algum sinal de arrependimento, olhou-me com um ar tão al-

+ivo, de tanto desprezo, que me senti diante dele como um

garoto estUpido com o qual a gente não se da ao trabalho de

discutir. Lia-se no rosto do homem uma especie de compai-

xão por mim. Um minuto mais tarde -ele dava gargalhadas,

de todo o cora‡ão, sem a menor ironia, e tenho a cerfeza de

que mais de vez, recordando minhas palavras, ha de ter rido

sozinho. Enfim, sem esperar que suas costas estivessem com-

pletamente cicatrizadas, reclamou o resto da pena. Eu +am-

bem tivera alta, nessa data. Saimos juntos da enfermaria,

eu para a caserna, ele para o corpo da guarda, onde ia o

tinham prendido antes. Deixando-me, aper+ou-me a mão. o

que, de sua parte, era um sinal de alta confian‡a. Creio

que agiu assim porque estava naquele momento muit¡ssimo

satisfeito consigo proprio. Na realidade, deveria necessa-

r¡amenfe me desprezar, encarar-me como uma criatura ven- #

78 DOSTOIEVSKII

cida, fraca, lamenfavel, inferior a -ele em todos os respeitos.

E logo no dia seguinte recebeu a outra metade da puni‡ão ...

Depois de fechada, a nossa caserna +ornava imediata-

mente outro aspecto: a de uma verdadeira moradia. S¢

então eu podia ver os defen+os a vontade, como se estives-

sem em casa. De dia os sub-oficiais, os vigilantes, ou qual-

quer outro chefe poderia aparecer de repente; e por essa

razão todo o mundo ficava mais ou rrienos alerta, todo o

mundo vivia num estado de expectativa perp#+ua, numa espe-

cie de inquieta‡ão latente. Mas, assim €e fechavam a

porta, quase todos procuravam o seu lugar e se entregavam

ao trabalho. O alojamento se iluminava de sUbi+o: cada um

tinha a sua vela, presa num casti‡al. de madeira. Um fazia

bofinas, o outro costurava roupas. O ar confinado ia ficando

sempre mais irrespiravel. Um grupo de jogadores se 'irisfa-

lava num canto, em redor dum tapete desenrolado. Em cada

caserna um de+ento possuia um tapete ralo, uma candeia e

um baralho pavorosamente sebento; -esses utensilios tinham o

nome de maidane (1). O proprie+ario recebia dos jogadores

quinze copeques por noite e isso const¡tuia a sua profissão.

Tinham curso apenas jogos de azar. Cada jogador punha

diante de si uma pilha de moedas de cobre - o confeudo

fofal dos seus bolsos, - e s¢ se levantava depois de perder

tudo ou tudo ganhar. O jogo se prolongava, as vezes, a+6

... madrugada, ate ao propric, instante em que vinham abrir

a caserna. Na ‡ossa, como em todas as outras, havia sempre

pobrefões que tinham bebido ou perdido todas as suas eco-

nomias, - no caso de jamais haverem possuido, econornias.

Eram pobre+ões "nafos". Chamo-os "nafos", e acentuo par-

ficularmen+e a expres...o. Com efeito, no nosso povo, qual-

quer que seja a condi‡ão ou a situa‡ão social, sempre houve

e havera esses estranhos individuos que um temperamento

pacifico e indolente destina a uma eterna mendicidade. S5o

eternamente uns pobres-diabos, uns perpetuos esmoleres.

Sempre esmagados, numa especie de apatia, servem de bode

(1) Inferno. (N. de R. Q)

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

79

expiaforio ou de fac-fofum a todos: as vezes a um libertino,



as vezes a um novo-rico, ...s vezes a um ambicioso. Qualquer

esfor‡o lhes pesa, incomoda, oprime! Parece que.vieram.ao

mundo sob a condi‡ão de nada come‡arem por si proprios,

de não terem vontade pessoal, mas viverem para ser o polichi-

nelo, o tifere de alquem. Sua missão no mundo consiste #

apenas em executar as ordens de alguem. Circuns+anci-9 ne-

nhurria, fortuita que fosse, conseguiria enriquecˆ-los; m¡seros

são, miseros devem morrer. Encontrei dessas individuos não

so na plebe, mas em todas as esferas sociais, nos partidos, nas

associa‡oes, nos grupos li+erarios. Tinhamos deles em cada

um dos alojamentos, e assim que come‡ava o rinaidane, logo

um se vinha por a servi‡o dos jogadores. Nenhum mai-

dane poderia dispensar esses ajudantes. De ordinario eram

contratados para a noite inteira, mediante o ordenado de

cinco copeques. Sua fun‡ão consistia em ficar de sentinela

durante seis ou sete horas, Ia no escuro da entrada, numa

temperatura de trinta graus abaixo de zero, e escutar qualquer

voz, qualquier passo que soasse no pafio. O maior ou o oficial

da guarda faziam ...s vezes uma ronda, noite alta: chegavam

na ponta dos pesa surpreendiam os jogadores, os trabalhado-

res, as candeias particulares, que alias se avistavam do pro-

prio pa+io. Quando se escutava ranger a chave na fechadura

da porta que dava entrada para o patio, não se tinha tempo

sequer de apagar as lu`Zes e estirar-se na tarimba. Como, po-

rem, o maidane cobrava caro do seu vigia, as incursões dessa

especie eram muit¡ssimo raras. Mesmo no pres¡dio, cinco

copeques constituem um salario infimo e irrisorio; portanto,

nesse caso como em outros, a implacavel dureza dos "pa+roes"

que o pagavam sempre me impressionou. "Recebeste di-

nheiro, faze o teu servi‡o!" Esse argumento não tolerava

nenhuma contradi‡ão. Em virtude daqueles sOrdidos co-

bres, o alugador tirava do seu "empregado" tudo o que

podia, - e ainda por cima se considerava como seu benfei-

tor. Qualquer pr6digo, qualquer bˆbedo que em outras oca-

siões atirava o dinheiro pelas janelas, sempre achava, entre-

i #


80 DOSTOIEVSKI RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS 81

fanto, que pagava demais aquele escravo. Isso eu o observei

em mais de uma caserna. e em mais de um maidane.

Todos, portanto, se entregavam mais ou menos ao +raba-

lho. Fora os jogadores, apenas uns quatro ou cinco ficavam,

sem fazer nada: deitavam-se imediatamente. Eu ocupava

uma ponta da farimba, perfinho da porta. Do lado oposto,

com a cabe‡a ao nivel da minha, ficava Akim Akimi+ch. En-

frefinha-se das dez ...s onze em pintar uma lanterna chinesa,

multicor, - encomenda que lhe seria bem paga. Fabricava

lanfernas como um mesfre do oficio, trabalhando metodica-

mente, sem de+en‡as. Ao acabar, guardava os seuXtensilios

com cuidado, desenrolava o colchão, rezava e deitaIM-se na

cama como um justo. Levava a ordem e a minucia afˆ o pe-

clar¡tismo: como foclos os homens est¢pidos e limitados, de-

ver-se-la supor muito inteligente. Desagradou-me desde o

.primeiro dia, embora me fornecesse. depois material para me-

dita‡ão: espantava-me ver no presidio um homem que pa-

recia fadado a vencer na vida. Alias, ainda terei opor+uni-

dade de falar em Akim Akimi+ch.

Digamos agora algumas palavras a respeito dos ocupari-

fes da nossa caserna. Como eu deveria passar varios anos

em sua companhia, a curiosidade intensa com que encarava

os meus camaradas e muitissimo compreensivel. Um grupo

de montanheses caucasianos - dois lezghianos, um fchefchen-

ge, e dois f6rfaros do Daquˆs+an, - condenados quase foclos

por bandoleirismo, ocupavam a tarimba da esquerda. O

fchefchenge, individuo taciturno e sombrio, quase não falava

com ninguem; atirava sempre olhares de vies, em forno de

si, e fitava os outros com um sorriso mau, venenoso, zombe-

teiro. Um dos lez9hianos, homem velho, de comprido nariz

aquilino, tinha uma autˆntica fisionomia de bandido. Porem

o outro, Nurra, deu-me logo de inicio a mais favoravel, a

mais agradavel das impress6es. Era ainda mo‡o, de estatura

mediana, mas senhor de for‡a herculea, muito louro, com

olhos dum azul clarissimo, nariz arrebitado, cara de finlandˆs,

e pernas arqueadas de cavaleiro. Tinha o corpo riscado de

cicatrizes, marcado de golpes de baionafa. No Caucaso,

iembora perfencesse a uma fribu submissa, reunia-se sorrafei-

ramente aos rebeldes, para junfo com eles realizar razias con-

fra os russos. Todos entre nos lhe queriamos bem. Dum genio

sempre igual, era delicado para com todos e trabalhava sem

se queixar. Apesar do seu temperamento sossegado e alegre,

muitas vezes a gente lhe via o nojo pela vida abjeta dos for-

‡ados: as Jadroeiras, a bebedice, o indignavam ate o furor; a

deshoriesficlade o punha fora de si; mas afastava-se sem pro-

curar briga com ninguem. Durante foclo o periodo em que es-

feve recluso, nunca furtou nada, nem cometeu a m'nima #

indignidade. Religioso af‚ o fanatismo, rezava com fervor,

observava todos os jejuns que precedem as fesfas maome+a-

nas -e passava noites inteiras em ora‡ão. Todo o mundo o

estimava, todos lhe prezavam a honestidade: "Nurra e um

leão", diziam os for‡ados - e o apelido lhe ficou. Conven-

cido de que, depois de liberto, volfaria a sua ferra, no Cau-

caso, ele vivia apenas nessa esperan‡a je se lha roubassem,

creio que morreria. Aftaiu-me as simpatias desde o pri-

meiro dia: entre as caras malignas, sombrias, sard"nicas dos

outros de+enfos. aquele rosto bondoso e simpa+ico não me

poderia passar despercebido. Eu estava Ia havia uma meia

hora, quando Nurra me veio bater no ombro, rindo com bon-

dade e olhando-me no fundo dos olhos. Não o compreendi

bem a principio, porque ele se exprimia muito mal em russo.

Mas logo depois Nurra +ornou, sorrindo, e de novo me deu

uma palmada amigavel no ombro. Essa mimica se renovou

com frequencia nos +rˆs primeiros dias, e significava, segundo

o adivinhei então e compreendi mais tarde, que Nurra tinha

do de mim, que sentia a dificuldade que eu feria em me acos-

fumar ao presidio, que me queria testemunhar sua simpatia,

esfimular-me, prornefer-me sua prote‡ão. Bom e ingenuo

Nurra!


Os +rˆs f...rfaros de Daguesfan eram irmãos. Dois ia

haviam atingido a idade madura, mas o ferceiro, Ali, tinha #

82 DOSTOIEVSKI RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS 83

apenas vinte e dois anos e parecia mais mo‡o ainda. Seu

lugar na tarimba era vizinho ao meu. Encan+ou-me ao pri-

meiro olhar o seu belojosto franco, inteligente, ingenuo, e

agradeci a sorte que mo dera como vizinho imediato. Mos-

trava a alma a nu naquele belo, - pode-se dizer naquele

magnifico rosto. O sorriso traduzia a confian‡a e a sim-

plicidade da juventude, e uma +ão grande meiguice lhe im-

pregnava os olhos pretos que s6 o fato de olh -!os me ali-

viava a tristeza - conto-o sem o menor exagero. Na al-

deia natal, o seu irmão mais velho, (tinha cinco irmãos: os

outros dois foram condenados as minas) ordenou-lhe um dia

que apanhasse o iatagã, montasse a cavalo e o seguisse. O

respeito palos mais velhos e tão grande nessas familias mon-

fanhesas, que o rapaz jamais se atreveria ~pergun+ar aonde

~e ~


informa-lo.

iriam. Os mais velhos não julgaram nece s

Iam assaltar na estrada um rico negociante armenio. Com

efeito, assassinara m-no, bem como aos homens da escolta a

deitaram mão as mercadorias. Todavia descobriu-se a coisa:

os seis foram apanhados, a‡oitados, e deportados para a

Siberia. O tribunal não mostrou inclulgencia senão para Ali,

que foi condenado ... pena minima, isto e, a quatro anos

de presidio. A afei‡ão que lhe tinham os irmãos era como

um amor de pai. Era o consolo que eles tinham no exilio ...

e, sempre tão sombrios, +ão tristes como eram, sorriam ao

olha-lo, e quando conversavam com Ali (raramente, ali s,

porque decerto o consideravam muito mo‡o para lhe pode-

rem confiar qualquer cousa seria) as caras melancOlicas se

iluminavam, abrandavamõ e pelo piscar dos olhos, pelos

sorrisos bem humorados que trocavam ao ouvi-lo, eu adivi-

nhava que se dirigiam a ele como a um garoto com quem

se brinca. Quanto a Ali, mal ousava dirigir a palavra aos

outros, +ai o respeito que lhes votava.  dificil de conceber

como. em vez de se corromper, aquele mo‡o pudera con-

servar no presidio um cora‡3o f8o manso, uma honestidade

tão escrupulosa, uma sinceridade f3o aberta, uma bondade

+ão simp tica. Era ali s uma natureza forte, apesar da vi-

sivel mansidão do seu genio, como mais +arde o ver¡fiquei. Pu-

dico como uma rapariga, qualquer a‡ão vil, c¡nica, repug-

nante ou injusta fazia com que luzissem de indigna‡ão os

seus olhos magnificos. Mas ele tambem evitava disputas

* injurias, embora não fosse homem capaz de consentir que

* rebaixassem. Ali s, não poderia ter questões com ninguem:

todo o mundo o adulava, todo o mundo o adorava. De ini-

cio, foi apenas delicado comigo, porem, pouco a pouco, che-

gamos a conversar; alguns meses lhe haviam bastado para

aprender a se exprimir corretamente em russo, o que os ir- #

mãos jamais conseguiram fazer. Pareceu-me inteligenfissi-

mo, muito modesto e delicado, e ao mesmo tempo forte o

sensato. Em resumo, considero-o como criatura acima do

comum, -e sempre evoco o seu encontro como um dos me-

lhores da minha vida. Ha dessas naturezas belas de nas-

cen‡a, tão ricamente dotadas por Deus. que a id‚ia de as

ver corrompidas parece absurda. A gente sempre fica

tranquila a seu respeito. Sinto-me +ranquilo quanto a sorte

de Ali. Onde entretanto estar ele agora?

Uma vez, bastante tempo apOs minha chegada ao pre-

sidio, eu estava estirado na tarimba. presa de dolorosos pen-

samenfos. Embora ainda fosse cedo para dormir, Ali, sempre

ativo, nada fazia naquela noite, porque os irmãos observa-

vam então uma festa mu‡ulmana. (Eu estava deitado, com um

bra‡o sob a cabe‡a, e meditava.

- Por que +e sentes tão triste?

Olhei-o surpreso, considerando estranha aquela pergunta

partida de Ali, sempre tão delicado, tão cheio de tato, de

cora‡ão tão inteligente. Mas, olhando-o com mais aten‡ão,

vi-lhe no rosto o reflexo de toda a dor, toda a angustia da

saudade, e compreendi imediatamente quanto o mo‡o fam-

bem se senfia infeliz naquele momento. Deu um suspiro

profundo e sorriu amargamente. Eu gostava do sorriso dele,

sempre +ão afavel, que descobria duas fileiras de dentes ai-

vissimos, capazes de fazer inveja a mais bela rapariga do

mundo.

- Dize, Ali, estas pensando na festa que se celebra



hoje na tua +erra, no Dagues+an? L e muito lindo? #

84 DOSTOIEVSKI RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS 85

- Oh, sim! respondeu ele exaltado, enquanto os seus

olhos se iluminavam. Por que viste que eu estava pensando

na festa?

- Ora, grande dificuldade! Como se a gente não

fosse mais feliz em casa do que aqu 1

- Oh1 por que me dizes isso)

- Agora, quanta flor não deve haver na tua +erra, que

paraiso ha de ser lai

- Oh, cala-fe, cala-fe!

Sua agita‡ão estava no auge.

- Escuta, Ali, tinhas alguma irmã?

- Sim, por que?

- Deve ser bonita, se parece configo!

- Não se compara comigo!  tão bonita que não +em

nenhuma igual em todo o Daquesfani Ah, como e bonita!

Nunca viste uma mulher tão linda! Alias, minha mãe +am-

bem era bonita.

- E tu gostas muito de tua mãe?

- Ai, que me estas pergunfando! Decerto morreu de

desgosto, por minha causal Eu era o seu preferido: gostava

mais de mim que de minha irmã e de meus irmãos ... Esta

noite sonhei com ela: estava chorando.

Calou-se, e não disse mais nada durante todo o resto

da noite. Mas, depois dessa ocasião. procurava todas as

oportunidades para falar comigo, apesar do respeito que eu

lhe inspirara, nem sei berril por que, e que o impedia de me

dirigir a palavra em primeiro lugar. E eu fambem, que ale-

gria sentia quando o interrogava sobre o Caucaso, sobre a

sua vida passada! Os irmãos não o impediam de conversar

comigo, e parecia ate que ficavam contentes quando o viam

responder ao que lhe perguntava. E quando constataram

que eu dia a dia mais me afei‡oava a Ali, +ornaram-se cada

vez mais delicados para comigo.

Ali me ajudava no trabalho, pres+ava-me todos os ser-

vi‡os que podia, na caserna. Senfia-se que lhe dava prazer

ser-me agradavel, auxiliar-me um pouquinho que fosse. E

não havia nisso, da sua parte, nem servilismo, nem procura

de uma vantagem qualquer, mas apenas um sentimento de

ardorosa amizade, que j6 não dissimulava. Como tinha

muita capacidade para os trabalhos manuais, aprendeu a

costurar muito bem roupa branca e botinas, e depois, tanto

quanto era possivel, a marcenaria. Os irmãos, muito orgu-

lhosos pelo ˆxito do rapaz, o felicitavam por isso.

- Escuta, Ali, disse-lhe eu certa noite. Por que não

aprendes a ler e a escrever em russo? Ha de ser-te muito

util mais tarde, na Siberia.

- Eu bem queria, mas com quem?

- Aqui não falta quem saiba. Se queres, eu te en- #

,sino.

- Oh, por favor, ensina-me!



Ergueu-se da tarimba, juntou as mãos e me olhou,

com ar suplice.

Come‡amos no dia seguinte a tarde. Eu possuia uma

tradu‡ão russa do Novo Testamento, livro autorizado no pre-

sidio. Sem abecedario, com o auxilio Unico desse livro, Ali,

em algumas semanas, aprendeu a ler correntemente. Tres

meses depois, compreendia muitissimo bem a linguagem es-

crita. Estudava com ardor, com exalfa‡ão.

Certa vez, lemos juntos o Sermão da Montanha. Obser-

vei que lhe interessavam particularmente algumas passagens.

E perguntei se lhe agradara o que acabara de ler. Ele me

lan‡ou um olhar vivo, e a cor lhe subiu ao rosto:

- Oh, sim! Issa (2) e um grande profeta. Issa fala

as palavras de Deus.  muito bonito.

- Que e que mais +e agrada?

- O trecho onde ele diz: perdoa, ama, não ofendas,

estima o teu inimigo. Ah, como elo diz bem isso!

Virou-se para os irmãos que nos escutavam e falavam

com anima‡ão. Ficaram a conversar os fres muito tempo,

seriam-ente, com gestos afirmativos da cabe‡a. Depois,

sorrindo com um sorriso ao mesmo tempo grave e benevo!o,

- o puro sorriso mu‡ulmano, cuja gravidade me encanta es-

(2) Deforma‡ão russa de fisus (les£s), (N. de H. M.) #

.f

86 DOSTOIEVSKI RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS 87



pecialmente - volveram-se para mim e confirmaram, qu3

Issa era um profeta de Deus e obrara grandes milagres;

depois de esculpir um passaro de argila, soprara nele, e o

passaro voara; isso estava escrito num dos livros. (3) Diziam

essas cousas certos de que, louvando Issa, me davam grande

prazer. Quanfo a Ali, estava radianfe: os irmãos tinham

conversado com -ele, e tinham se dignado aprovar-me!

Tive igualmente grande ˆxi+o no ensino da escrita a Ali.

Arranjou papel (não permitiu que eu lho comprasse com meu

dinheiro) penas, tinta, e dentro de dois meses escrevia p,~r-

feitamente bem. Os irmãos ficaram embasbacados. Sua

alegria, seu orgulho, ultrapassaram todos os limites: nassi~-

biam como me agradecer. Durante as tarefas, se nos acon-

tecia estar juntos, eles faziam tudo para me auxiliar, e consi-

deravam aquilo uma felicidade. Ja- não falo de Ali, que se

afei‡oou a mim quase tanto quanto aos irmãos. Não es-

quecerei jamais a sua partida. Arrasfou-me para fora da

caserna, e agarrou-se ao meu pesco‡o, chorando. Nunca

antes me abra‡ara, e nunca eu o vira derramar uma lagrimal

- Fizeste tanto por mim, fizeste tanto por mim! dizia.

Mais que meu pai, mais que minha mãe! Fizeste de mim

um homem. Deus +e recompensar6 e eu não +e esquecerei

nunca 1

Onde esfaras agora, querido, angelical e meigo Ali?



Alem dos circassianos, nossa caserna abrigava ainda

alguns polacos. Formavam um grupo inteiramente a parte,

e não se davam com os outros for‡ados. Ja lhes descrevi

o exclusivismo, ia expliquei que o desprezo deles pelos de-

tentos russos lhes havia granjeado o odio geral. Tinham

o temperamento atormentado e doentio. Eram em numero

de wis - e alguns deles homens de instru‡ão: falarei mais

detidamente destes ulfimos. Algumas vezes, duran+e os der-

radeiros anos da minha reclusão, me emprestaram livros; o

primeiro que li me provocou uma impressão forte, estranha,

(3) Essa lenda cristã est com efeito registrada no Corão, 111, 43. Chegou aos

rabes por intermedio da versão rabe do pseudo-evangelho de S. Tom‚. (N. de H. M.)

especialissima, da qual falarei mais tarde. Considero essas

sensa‡ões muito curiosas e tenho a certeza de que muitas

pessoas nada poderiam compreender delas. Sem as expe-

rimentar, a gente não pode julgar certas cousas. Basta dizer

1

que os sofrimentos morais são muit¡ssimo mais pesados que



1 a

os sofrimen+os f¡sicos. No presidio o homem simples es¡5 #

no seu meio - talvez a+e num meio mais adiantado que o

seu. Evidentemente ele perdeu muito - a sua aldeia, a sua

familia, tudo, se o quisermos, mas não mudou de ambienfe!

O homem instruido, punido pela lei do mesmo modo que o

rUs+ico, perde incon+es+avelm ente muito mais: deve reprim*,r

todas as suas necessidades, todos os seus habi+os, deve aprer.-

der a respirar um ar inteiramente estranho!  como um

peixe +irado da agua e jogado a areia ... Muitas vezes o

castigo, que a lei dita igual para todos, torna-se para ele

um tormento multiplicado por dez. E isso e verdade, mesmo

sem se levar em conta o sacrificio dos Mbi+os materiais.

Assim, pois, os polacos tinham um grupo a parte. En+re

todos os defenfos estimavam apenas o nosso judeu, simples-

mente porque ele os divertia. Esse judeu, alias, gozava da

afei‡ão geral, embora os for‡ados, sem exce‡ão, o levassem

na tro‡a. Era o Unico da sua ra‡a. e nao o posso recordar

sem rir. Sempre que o olhava, fazia-me lembrar aquele

Yankel do "Tarass Bulba" de Gogol, que uma vez despido

e pronto a entrar, junto com a sua judia, num objeto que

parecia um armario, fica de repente igual a um frango de-

penado (4). Ja idoso, - andava perto dos cinquenta, -

era de pequena estatura, de constitui‡ão fraca, astuto e es-

+Upido, impertinente e covarde ao mesmo tempo. O rosto,

vincado de rugas, mostrava na fronte e nas faces as marcas

do pelourinho. Jamais consegui compreender como e que ele

(4) A memoria de Dostoievski o traiu. Na realidade o episodio citado não se re-

fere a Yankel, mas ao judeu ruivo que guia Bulba na noite da sua chegada a Varsovia.

Eis o texto real: "j anoitecera. O dono da casa, o judeu da cara sardenta, trouxe

um colchão s¢rdido, coberto duma esteira ainda pior, destinados a Bulba. Yankel se

deitou no chão num colchão idˆntico. O judeu ruivo enguliu um c lice de aguardente

e despiu o cafetã: de cerouias e sapatos assemelhava-se vagamente a um frango; de-

pois, junto com sua judia, penetrou num objeto que se assemelhava vagamente com um

armario.¯ Cogol, "Tarass Bulba", cap¡tulo XI. (N. de H. M.) #

88 DOSTOIEVSKI RECORDA€OES DA CASA DOS MORTOS 99

pudera suportar sessenta a‡oites de knuf. Porque estava pre-

so por crime de morte. Guardava consigo, muito bem es-

condida, uma receita que outros judeus lhe haviam obtido,

logo depois da execu‡ão do castigo. Tra+ava-se dum b lsa-

mo que depois de uns quinze dias de uso apagava as marcas

do pelourinho. Ele não ousava utiliza-lo na prisão, e para ex-

perimentar as virtudes da tal receita, esperava acabar os vinte

anos de trabalhos for‡ados, depois dos qua¡s seria desterrado

/1

para uma aldeia. "Sem isso não me poderei casar , dizia,



no seu sotaque, "e fa‡o questão absoluta de ter mulher".

Eramos n¢s dois muito amigos. Ele estava sempre nas me-

lhores disposi‡ões de espirito. A vida no presidio não lhe

era absolutamente penosa: ourives de profissão, os habitantes

da cidade, - que não dispunham de nenhum joalheiro - o

enchiam de frabalho: e ele assim escapava aos labores mais

pesados. Como seria de esperar, +arribem praticava a usura

e emprestava a juros a caserna inteira. Entrara no presidio

antes de mim, e um dos polacos me descreveu um dia a sua

chegada.  uma his+oria divertida que mais +arde conta-

rei, porque mais de uma vez terei que falar em Isai Fomi+ch.

Havia ainda no nosso alojamento quatro raskoiniki,

ou "velhos-cren+es", anciãos versados nas Santas Escrituras,

entre os quais se. encontrava o velho de S+arodubov. Dois

ou +rˆs pequenos-russos, gente de temperamento sombrio; um

for‡ado muito jovem, de nariz pontudo, que a despeito dos

seus vinte e +rˆs anos j assassinara oito pessoas. Um bando

de moedeiros falsos, dos quais um nos servia de bobo. E,

enfim, mais alguns individuos taciturnos e mal encarados,

raspados ou desfigurados, infelizes e invejosos, resolvidos a

se mostrarem como +ai, cenho franzido, boca costurada, alma

oclienfa, durante ainda longos anos, durante todo o tempo da

sua reclusão.

Eis o quadro que me desfilou ante os olhos durante essa

primeira +arde sem alegria da minha nova existencia. Vi-o

atrav‚s da fuma‡a e do ar sufocante, das pragas, do cinismo

indescrifivel, do cheiro f‚tido e do filin+ar das grilhefas, das

a

risadas estridentes e das maldi‡ões. Esfirei-me, sobre a ta-



bua nua da tarimba, pus a roupa debaixo da c‚ibe‡a (não

tinha ainda fravesseiro), enrolei-me na pele de carneiro e por

mais exhausfo, por mais extenuado que estivesse gra‡as as

impressões monstruosas e inesperadas desse primeiro dia, não

consegui adormecer. Aquilo no entanto era apenas o come-

‡o. Muitas outras cousas me esperavam, cousas que eu nao

poderia nunca prever, nem adivinhar. . .

#

I #



O primeiro mˆs

rˆs dias depois, da minha chegada, recebi ordem de ir

frabalhar. Esse dia me ficou gravado na lembran‡a,

T embora nada tenha acontecido de especial - pelo

menos se levarmos em conta o que minha propria situa‡ão

tinha de exfraord¡nario.

Mas eram impressões novas e eu ainda encarava as cou-

sas com avidez. Acabava de passar trˆs dias presa das

emo‡ões mais penosas. "Cheguei ao fim da viagem! estou

no presidio!" repetia eu de minuto em minuto. "Eis-me no

porto, onde passarei longos, longos anos. Esta aqui o meu

canto! Chego com o cora‡ão ferido cheio de apreensão e

desconfian‡a. . . E quem sabe se, daqui a muito tempo, no

momento de partir, não terei SaudadesV' acrescentava, es-

+imulado por essa perfida necessidade que, as vezes, nos

faz magoar uma ferida ate o seu ponto mais profundo, para #

92 DOSTOIEVSKI

saborear a dor intensa, para goza-Ia em toda a sua imensi-

dade. O pensamento de que um dia eu teria saudades da-

quele lugar, enchia-me de angustiado horror. Desde então

pressentia quanto o homem e feito de h bitos. Isso, todavia,

representava ainda o futuro, enquanto que nQ presente tudo

que_ me cercava me parecia hostil, abominavel; pelo menos,

se não o era completamente, assim eu o enxergava. Aqueia

selvagem curiosidade com que contemplava os for‡ados,

meus novos companheiros, a dureza deles para com o ba-

rine feito agora seu igual - dureza que chegava quase a ser

odio, atormentavam-me tanto que eu ardia por ir mais de-

p 1 ressa para O trabalho, afim de penetrar de- uma vez at‚ ao

frido da minha desgra‡a, de me por a viver como eles, de

puxar com eles pela mesma trela. Não posso dizer quanfos

fatos n?e escaparam então, e quão pouco me apercebia eu

do que se passava sob o meu proprio nariz; ao l d¢ da- hosfi-

lidade por demais visivel, não me apercebia de nada con-

solador; contudo, foi nesse momento que encontrei algumas

criaturas amave¡s, cuja acolhida me deu coragem. O mais

amavel, o'mais acolhedor, foi Akim Mimitch. Na multidão

de rostos +riston.hos e pouco amigos dos outros for‡ados, fui

obrigado a notar algumas boas caras. Por toda parte h

gente ruim, mas nem todas as ovelhas dum rebanho são pw-

teadas, depressa disse eu a mim mesmo, para me consolar.

"Quem sabe? Talvez estes individuos não sejam muitos piores

que os demais, que esses que vivem 16 fora, do outro lado

dos muros da fortaleza". E pensando isso, eu meneava a

cabe‡a - entretanto, meu Deus, nem de longe descon-

fiava de que aquilo era a verdade pura!

Eis um exemplo: o condenado Suchilov: levei varios anos

para o conhecer realmente, embora estivesse a todo tempo

ao meu lado. Exatamente no momento em que eu dizia que

alguns não são piores do que os outros, ergue-se a sua lem-

bran‡a, na minha memoria. Servia-me de aio, juntamente

com Ossip, um ou+ro defen+o que desde o inicio Akim Aki-

mi+ch me inculcara, afirmando que por trinta copeques men-

sais me prepararia uma refei‡ão, se o rancho do presidio

RECORDAۉES DA CASA DOS MORTOS

i.

93



se eu tivesse meios

me inspirasse excessiva repugnancia. e

de comer por conta propria. Ossip era um dos quatro cozi-

nheiros eleitos pelos presos para tomarem conta das nossas

duas cozinhas. Esses eleitos, alias, pocleriam aceitar ou re- #

cusar o oficio, e mesmo aceifando-o, abandonar o lugar no

dia seguinte, se lhes desse na veneta. Os cozinheiros fica-

vam dispensados do trabalho for‡ado; s6 se ocupavam em

cozer o pão e preparar a sopa. Não eram chamados cozi-

nheiros mas "cozinheiras", não por desprezo, (pois eram es-

colhidos para a cozinha os homens mais honestos e inteli-

gentes que era possivel encontrar) mas por uma familiaridade

que absolutamente não os ofendia. Durante varios anos

o

Ossip foi "cozinheira" quase sem interrup‡ões: s' abando-



nava o emprego quando o atormentava o fedio, ou lhe davam

desejos de confrabandear vodca, pois esse contrabandista

de profis~ão era homem de uma honestidade e uma bondade

raras. J falei um pouco a seu respeito - era o +ai rapa-

gão a quem os a‡oites inspiravam pavor tão grande. Sosse-

gado, arriavel, paciente, incapaz de promover uma briga, não

podia, apesar das suas apreensões, deixar de introduzir aguar-

dente, quando o assaltava a paixão do contrabando. En-

tregava-se pois ao trafico de vodca, igual aos wus colegas,

mas em propor‡oes mais modestas que Gazine, cuja audacia,

amor do risco, não partilhava. Sempre mantive muito boas

rela‡ões com Ossip. As refei‡ões em separado n3o saiam

muito caras: creio n5o me enganar, afirmando que eu na .. o

gastava mais de um rublo por mes com minha alimenta‡ão,

sem contar com o pão, e claro, fornecido pela casa, e alqu-

mas vezes a sopa, que +ornava quando estava com muita

fome. - pois acabara por desaparecer a repugnancia que

ela de inicio me inspirara. Em geral eu comprava um ~e-

da‡o de carne de uma libra, - o que no inverno custava

dois copeques. Um dos inv lidos, vigilante na caserna, en-

carregava-se dessa compra. Todos os invalidos espon+anea-

mente se ofereciam para as compras-, não recebiam por

isso nenhuma nemunera‡ão, salvo uma ninharia aqui ou alem.

Agiam assim por amor do seu proprio sossego, porque de

i

i,

#



94

DOSTOIEVSKI

outra maneira não se poderiam aguentar. Traziam fumo,

"fabie+f,es" de ch (1), carne, kalafchi e mais outros gˆneros,

salvo o vodca, que ninquem lhes pedia para trazer, embora

de vez em quando eles aceifassern iornar um trago. Du-

rante varios anos seguidos Ossip me preparou o mesmo pe-

da‡o de carne: pouco importa o modo como o fazia! Cousa

curiosa: por todo esse tempo não consegui nunca arrancar-

lhe duas palavras. Tentava, as vezes, iniciar uma conversa,

,mos ele parecia incapaz de sustentar qualquer dialogo seguido.

Sorria, respondia por sim ou por não, e era tudo. Aquele

H‚rcules, com o esp¡rito de um garoto de oito anos,

me produzia uma impressão estranha.

1 Suchilov +ornou-se pois minha ordenan‡a. Eu não o

procurara nem escolhera. Foi ele esponfaneamenfe que se

ligou a mim, nem me lembro mais quando nem como. Pos-se

a lavar minha roupa branca: havia por +r6s das barracas um

grande tanque, onde os defen+os faziam a sua barrela, em

finas disposfas especialmente para esse fim. E afora a la-

vagem, Suchilov arranjava meios de me prestar mil outros

pequenos servi‡os; preparava-me a chaleira, corria a dar

meus recados, arranjava as coUsas de que eu precisava, le-.

vava o meu casaco para o remendão, engraxava-me as bofas

quatro vezes por mes. E fazia isso tudo com zelo, com afã,

como se se tratassem sabe Deus de que obriga‡ões! Em

resumo, ligara inteiramente a sua sorte ... minha e +ornara

...s suas costas tudo que me concernia. Por exemplo, não

d~Öria nunca: "Voce +em tantas camisas; seu casaco esfã

rasgado. . . " e sim "Nos temos agora tantas camisas; nosso

casaco est rasgado. . . " Eu vivia pois sob os seus cuidados

e evidentemente ele considerava aquilo a finalidade da sua

vida. Como não exercia nenhuma profissão, so de mim po-

deria esperar alguns copeques. Pagava-lhe tanto quanfo

podia, - isfo 6, umas frisfes moedas de cobre, uma miseria;

entretanto, jamais o vi mal satisfeito. 9e não poderia viver

(1) Na Siberia consome-se o ch fortemente comprimido, sendo vendido em for-

m4 de "tablette~". (N. de H. W #

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

97

sem servir ‡ilguem. e me escolhera, suponho, porque eu era



mais indulgente que os outros e mais justo ao lhe avaliar os

ganhos. Era um desses homens que não conseguem nunca

libertar-se da rriiseri,-, ¡aqueies que por uma moeda de cinco

copeques se fazem guardas de ma¡dane, - que podiam

ficar durante horas inteiras imoveis, na antecamara gelada,

escutando qualquer ruido vindo do pafio, ou a chegada do

maior, e que, em caso de disfra‡ão, perdem tudo e respon-

dem com as proprias costas. J falei dessas criaturas. Sua

caraferistica e a atitude humilde, a falta completa de perso-

nalidade; desempenham sempre e em qualquer lugar um papel

de segunda e mesmo terceira categoria. A na+ureza O,-;

criou assim. Suchilov era um pobre diabo, inteiramente

irresponsavel, humilde como um c5o a‡oitado, embora nin.

guem lhe ba+--sse: devia ter de nascen‡a aquele ar. Sempre

senti do por ele. Não o conseguia olhar sem sentir uma

inexplicavel impressão, - inexplicavel ate mesmo para mim.

Nunca pude +ambem fazˆ-lo conversar. Ele não sabia

exprimir-se: ara-lhe um esfor‡o penoso escutar e dar resposta,

e animava-se quando, para acabar, a gente lhe pedia para

correr a algum lugar ou fazer qualquer cousa. Acabei por

me convencer de que so um mandado lhe poderia dar algum

prazer. NSo era nem alto nem baixo, nem feio nem bonito,

alourado, levemen+e picado de bexigas. Nada se poderia

dize de definido a seu respeito senão (tanto quanto era

possivel julgar) que ele pertencia a mesma ra‡a de espiri+os

-de Siro+kine-, e essa convic‡ão nos fora inculcada pelo seu

ar de toleima irresponsavel. Algumas vezes os outros presos

o debicavam contando que, durante a marcha para a Sibe-

ria, ele se "frocara" por uma blusa vermelha e uma moeda

de um rublo. O que provocava as risadas, era o infimo

pre‡o da venda. "Trocar" e +ornar o nome de algum outro

condenado, e por consequencia a sua sorte. Por mais mons-

fruoso que o fato pare‡a, nem por isso deixa de ser neal;

no meu tempo, esse costume vigorava ainda com toda a

for‡a, entre as colunas de deportados, consagrado pela #

98

DOSTOIEVSKI



1

tradi‡ão. A principio recusei-me a crer, mas depois rendi-

me a evidencia.

E~s como se passavam as coisas: um comboio se põe a

caminho; ha nele uma grande variedade - presid¡arios, con-

denados as minas, simples deportados. Em qualquer lugar,

perto de Perriri, por exemplo, um for‡ado procura se "frocar"

com um outro. Vamos que seja um Mikhailov qualquer, con-

denado por assassinio, ou outro crime capital, a um grande

numero de anos no presidio, cousa que evidentemente lhe

desagrada. Suponhamo-lo um homem astuto, inescrupuloso;

imediatamente procura encontrar no comboio algum indivi-

duo simplorio, abordavel, sem defesa, cuja condena‡ão seja

branda, - por exemplo, as minas duranfe alguns anos, ou a

deporfa‡ão para alguma aldeia, ou mesmo o presidio por

pouco tempo. Enfim, acaba por descobrir um Suchilov.

Suchilov, servo de nascimento, foi condenado apenas a de-

porfa‡ão. Ja +em mil e quinhentas versfas nas pernas e nem

um copeque no bolso, porque ‚ claro que os Suchilovi jamais

trazem consigo um vintem. Caminha, embru+ecido, exhaus-

to, em geral mal alimentado, sem nem ao menos qual-

quer cousa para mastigar, frazendo sobre si apenas os far-

rapos do umforme, - pronto a servir seja para o que for

em troca de alguns cobres. Mikhailov insinua-se ao seu lado,

trava conversa, conquista-lhe a amizade, e, afinal, na pa-

rada. paga-lhe um trago. Chegou o momenfo de lhe propor

a troca: "Eu me chamo Mikhailov-, vou para o presidio;

isto e, não e propriamente o presidio, ‚ a se‡ão -especial;

16 não ha trabalhos for‡ados, mas coisa diferente, muito

melhor". A proposi+o da se‡ão especial, hoje supressa, devo

dizer que muitos altos funcionarios, ate mesmo em Pefers-

burgo, ignoravam ao certo o que ela significava. Locali-

zava-se nalgum recanto longinquo da Siberia, compunha-se

de poucas pessoas, (no meu tempo cerca de sessenta de-

tentos) de forma que era dificil acompanhar-lhe o rasfro.

Depois de minha liberta‡ão, enconfrei pessoas que conhe-

ciam muito bem a Siberia, porque haviam servido Ia, e que

souberam por meu in+ermedio da exis+encia da se‡ão espa-

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

1_

99



cial. o cOdigo contem apenas seis linhas a seu respeito: #

"Esperando que se organizem na Siberia trabalhos fo r‡ados

especiais, fica anexada a essa casa de deten‡ão uma se‡ão

igualmente especial, desfinada a delinquen+es mais perigo-

sos.11 Mesmo os de+en+os dessa se‡ão não sabiam se ela

era +emporar¡a ou perpetua. Diziam: "Não temos +ermo

inclicado; esperamos apenas a organiza‡ o dos trabalhos for-

‡ados especiais; isso quer dizer: sera por pouco tempo. 11

Nem Suchilov nem ninguern do combõio sabia qualquer

cousa a respeito dessa se‡ão, salvo falvez Mikhailov, que

fora enviado para Ia, e cujo horrendo crime ia lhe propor-

cionara +rˆs ou quatro mil a‡oites: dizia-lhe o faro que o

lugar não poderia ser grande cousa. Suchilov, ao contrario,

ia apenas para uma aldeia, so isso. "Queres trocar comigo?"

Suchilov, cora‡ão singelo, meio tonto a cheio de reco-

nhecimenfo para com Mikhailov que o obsequiara, não se

atrevia a recusar. Alias, ia ouviu dizer que aquilo se faz

com frequencia, que nada tem de ex+raordinario. E aceita:

aproveitando-se da simplicidade do camarada, Mikhailov lhe

compra o lugar por uma blusa vermelha e uma moeda de

um copeque, que tem o cuidado de lhe entregar diante de

testemunhas. No dia seguinfe, Suchilov ia não esta bˆbedo,

mas novamente o embriagam; ali s, +orna-se dificil voltar

aftas do trato: o rublo ia foi bebido, e a blusa vermelha não

tardou nada em acompanha-lo. "Não queres mais? então

devolve o dinheiro!" De onde tirara dinheiro o pobre Su-

chilov? Se não quiser devolver o rublo, +era o arfei (2) que

o obrigar6 a isso, porque reina severidade, em +ais casos.

Ademais, toda palavra dada deve ser marifida, - e a regra

do arfei, que vela por isso: um delinquen+e não +er6 repouso,

ficara com a vida in+oleravel, ser6 atormentado, talvez ate

morto. Com efeito, se uma umca vez o arfei desse mostras

de indulgencia, +ais trocas não se poderiam realizar. Se

fosse poss¡vel renegar uma promessa e desmanchar um ne-

gocio depois de recebido o dinheiro, quem. então, cumpriria

(2) Espede dP comit‚ de vigilancia e dire‡ão formado entre os deportados.

(N. de R. Q )

O #


100 DOSTOIEVSKI RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS 10

os acordos? Em suma, a coluna inteira toma o negocio

a sua conta, e, por essa razão, se mostra impiedosa. En-

fim, Suchilov se apercebe que ia n3o pede voltar afras, que

suas suplicas são inuteis; resolve concordar sem restri‡5es.

Anuncia-se o caso ao comboio inteiro, e se houver neces-

sidade, da-se uma gorjeta aqueles que poderiam falar

demais. Que importa alias aqueles miseraveis que o presi-

diario seja Such¡lov ou Mikhailov? Podem muifo bem ir

para o diabo todos os dois, se assim o querem[ E depois

de receberem a gorjeta, o jeito que tˆm e calar a boca.

Na parada seguinte, a hora da chamada, quando chamam

Mikhailov, Suchilov responde: "Presente!" quando chamam

Suchilov, Mikhailov responde: "Presente!". Continua-se o

caminho e a troca esta feita. Em Tobolsk, os depor~ados

são escolhidos: "Mikhailov" vai para a colonia, e "Su-

chilov", com forte escolta, +orna o -caminho da se‡ão espe-

cial. ... nenhum protesto e mais poss¡vel. Alias, que pro;

vas se poderiam apresenfar? Quanfos anos se arrastaria o

processo? Que novo castigo sofreria o desgra‡ado? Onde

arranjaria fes+emunhas? Se as encontrasse, elas se recusa-

riam a depor. E por fim de contas, eis como, a troco de

uma blusa vermelha e de uma moeda de um rublo, o pobre

Suchilov esta instalado na se‡ão especial.

Os defe~fos o levavam na +ro‡a não porque trocara de

personalidade com o outro, mas porque eram geralmente

desprezadas fedas as pessoas que se deixavam embrulhar.

Zombavam dele porque recebera pela troca apenas uma blusa

vermelha e um rublo, - indeniza‡ o irrisoria. Em geral a

troca se opera mediante quantias relativamente elevadas, -

algumas dezenas de rublos, as vezes. Contudo o pobre

Suchilov, +ão nulo, +ão apagado, tão insignificante, não po-

deria senSo ser levado a ricliculo.

Vivemos muito tempo juntos, Suchilov e eu. Pouco a

pouco ele se ligou a mim, e eu tomei o habito de o ver ao

meu lado. Um dia - nunca o perdoarei a mim proprio -

apesar de ter recebido dinheiro de minha mão, ele não fez

o que lhe pedira, e tive a perversidade de lhe dizer:

"Suchilov, vocˆ s0 presta para receber . dinheiro!" Ele não

respondeu, correu a fazer o que eu queria, mas ficou subita-

me-,~te triste. Passaram-se dois dias. Eu não poderia supor

que ele houvesse tomado tão a peito as minhas palavras.

Sabia que um defento, An+one Vassiliev, o atormentava con-

finuamen+e, cobrando-lhe uma divida rifima. "Decer+o.

pensei, Suchilov precisa de dinheiro e não se atreve a vir

pedir-me". No fim de +rˆs dias, perguntei: "Suchilov, vocˆ

queria me pedir uns cobres afim de pagar a Anfone Vassi-

liev, não? Torne!" Eu estava na tarimba, e Suchilov de pe,

a minha frente. Parecia muito comovido com a oferta que #

lhe fazia e surpreso por me haver lembrado do seu aperto

- principalmente porque, na sua opinião, nestes Ulfimos

tempos, ele ia me +ornara excessivo dinheiro emprestado, e

não ousava receber mais nada. Olhou as moedas, fitou-

me, e de repente deu meia volta e saiu. Tudo aquilo me

surpreendeu muit¡ssimo. Fui procur6-lo e o encontrei Ia,

atras das casernas. Estava encostado a pali‡ada, a ca-

be‡a e os bra‡os apoiados a uma estaca. "Suchilov, que

houve?" perguntei-lhe. Ele não me olhou, e grandernenfe

surpreso, vi que estava prestes a chorar. "Alexandr Pe-

trovi+ch, voce pensa. . . - come‡ou com voz tremula, ten-

fando evitar o meu olhar - pensa que eu ... que e por di-

nheiro. . . e eu. . . eu. . . eu ... ah!" Dizendo isso, voltou-

se para a estaca, e com tanto es+ouvamento que bateu com

a cabe‡a, e se p"s a solu‡ar. Era a primeira vez que eu via

um for‡ado chorando. Tive muito trabalho para o con-

solar. Depois disso, Suchflov mosfrou-se ainda mais zeloso

que antes no meu %õservi‡o" - caso isso ainda fosse possivel;

cuidava-me, mas por sinais quase impercep+iveis verificava

que ele ainda não me pudera perdoar aquela censura.

Entretanto os outros o cobriam de escarneos, faziam-lhe

picuinhas a respeito de tudo, injuriavam-no as vezes rude-

mente, e ele vivia com todos em bons termos, sem se ofender

nunca. Como e dificil conhecer um homem, mesmo depois

de longos anos de vida em comum! #

102 DOSTOIEVSKI RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS 103

Eis porque o presidio não me apareceu, de entrada, no

seu verdadeiro aspecto. Eis porque, ia o disse, embora en-

carando tudo com +ão avida a intensa aten‡ão, não me

apercebi de inumeros fatos que se passavam sob o meu

nariz. 50 os mais aparentes me impressionaram; mas como

eu os considerava sob um ƒngulo diferente, eles fambem não

me podiam deixar na alma senão uma sensa‡ão de peso, de

tristeza, de desespero. O que contribuiu muito para esse

estado de espiri+o, foi o meu encontro com A ... v, defento,

chegado pouco tempo antes de mim, que me produziu uma

impressão particularmente atroz, logo' ap6s meu ingresso

na prisão. Tinham-me, no entanto, prevenido de que o en-

contraria Ia. Ele me envenenou aqueles primeiros dias ia de

si tão penosos, e por +ai modo agravou meus sofrimentos

morais, que não poderei ficar calado a seu respeito.

Era o exemplo mais repugnante de baixeza, de avilta-

mento em que pode cair um hornem; mostrava ate que ponto

a gente pode matar dentro de si. sem luta e sem remorsos,

qualquer sentimento de honra. Esse A. era o jovem fidalgo

ao qual ia aludi, e que, por amizade a Fedka, a ordenan‡a

do major, servia de espião na caserna. Posso resumir-lhe a

his+6ria em poucas palavras. Antes de acabar os estudos,

ele rompeu com os pais ' assustados por seus desregra-

menfos. e deixou Moscou por São Pe+ersburgo. La, afim

de obter dinheiro, não recuou nem diante de uma sordida

dela‡ão. Explico-me: possuido pela sede desenfreada, in-

saciavel, de prazeres bestiais, obteve dinheiro vendendo a

vida de dez homens. A capital. seus caf‚s, seus botequins,

suas casas suspeitas, o seduziram de tal maneira que, a des-

peito da in+eligencia que inegavelmente possuia, ele se arris-

cou a essa insensata empresa. Foi rapidamente desmasca-

rado: e como sua denuncia falsa comprometia pessoas ino-

cen+es e era um escarneo as autoridades, condenaram-no a

dez anos de presidio. Ele ainda era muito jovem - estava

apenas no inicio da vida. Era de crer que +ão pavoroso

castigo o comovesse. lhe despertasse no intimo uma resis-

fencia qualquer, lhe provocasse uma crise. Mas ele aceitou

sua nova condi‡ão sem o menor pejo, sem mesmo a menor

repugnancia; não se revoltou moralmente, não se mostrou

sens¡vel senão-ao pavor do trabalho, a obriga‡ão de dar

adeus aos seus h bitos de liberEno. NEo via no fi~ulo de

· for‡ado senão a possibilidade de ampliar o campo das suas

vilanias e baixezas. "Se temos que ser um gale, sejarrio-lo

f de todo. E quando a gente e um for‡ado, tem direito de

rastejar pelo chão, sem pudor." Era essa, literalmente, a

f sua concep‡ão da vida. Evoco como um fenomeno aquela

repugnante criatura! Vivi varios anos entre assassinos, ceie-

-rados confessos, libertinos, mas garanto que nunca +esterriu- #

nhei queda moral mais completa, corrup‡ão mais total, bai-

xeza mais cinica. Tinhamos entre n6s um parricida de ori-

gem'nobr,e, - ia falei nele, +ambem - todavia pude me

convencer por meio de muitos fatos e palavras de que ate

mesmo esse individuo era incomparavelmente mais elevado

e mais humano do que A.. Durante todo o periodo de minha

11

¡ reclusão, esse desgra‡ado jamais foi senão um peda‡o de



carne com dentes e ventre, e com uma sede insaciavel pelos

prazeres mais sOrc¡licios; era capaz de tudo, desde que nao

1 1 corresse nenhum risco. Não exagero de modo algum. Es-

fudei A. profundamente, e reconheci nele um especime com-

pleto da animalidade que não ¢badece a nenhuma norma, a

nenhuma lei. E que repulsa me causava o sorriso eterna-

mente escarninho daquele monstro, daquele Quasimodo

moral! Al s, alem da sua asfucia e da sua infeligencia,

aquela fera possuia certa beleza, um pouco de ins+ru-

‡ão e algumas capacidades! Não - antes o incendio, antes

a fome e a peste do que a presen‡a na sociedade dum indi-

viduo de +ai especie! Ja contei que no presidio todos se

depravavam tanto que a espionagem e a denuncia flores-

ciam ... solta e a ninguem infamavam. Pelo contrario. os

defentos se mostravam muito mais amaveis com A. do

que conosco- Os favores que lhe dispensava o nosso maior

bˆbedo, davam-lhe valor e impor+ancia aos olhos dos

demais. Ele afirmara ao maior, entre outras cousas, que

sabia pintar, fazer retratos (aos defentos contava que era #

104


DOSTOIEVSKI

tenente da guarda); o maior liberou-o do trabalho e o mandou

escoltar a, sua casa, afim de lhe aproveitar os falenfos. Vendo-

se Ia, A. se acamaradou com Fedka, a ordenan‡a, que tinha

uma ex+raordineria e-

5

temente sobre o presidio inteiro. E A ... v passou enfão a



fazer at‚ relaforios a nosso respeifo, a pedido do proprio

maior,.que nas suas horas de bebedeira o esbofeloava, o

injuriava, lhe chamava de espião, de sabujo. Muitas vezes,

depois de o espancar, o maior se insfalava numa cadeira e

ordenava a A. que continuasse o retrato. Nosso maior, a

despeifo de o considerar um pintor nofavel, quase um Brul-

lov (3) (pois ouvira falar nesse mestre), achava-se todavia

no dineito de lhe bater no rosfo, - porque "por melhor pinfor

que sejas, esfas no presidio, e mesmo que fosses Bruilov em

pessoa, nem por isso eu deixaria de ser o +eu chefe, e de

fer o direito de fazer de ti o que en+endess.e". Ufilizava-o

afe para lhe tirar as botas e carregar o seu vaso noturno. En-

frefanto, demorou muifo fempo a convencer-se de que o

miseravel não possuia nenhum falen+o arfisfico. O refrato

arrasfou-se quase um ano in+eiro. O maior acabou por adi-

vinhar que o ludibriavam e compreendeu que. longe de ficar

pronto, em cada se‡3o ficava o refrafo mais diferente.

Zangou-se, sovou o pintor, e o devolveu ao servi‡o pesado.

A. tinha bastantes motivos de queixa: sentia saudades dos

dias de vagabundagem, dos presentinhos, das sobremesas

furtadas a mesa do maior, do seu Fedka querido e da boa

vida que levavam os dois na cozinha.

Depois da queda de A., o maior deixou de perseguir

o defenfo M., contra quem o canalha o irritava incessanfe-

menfe pela razão seguinte: no momento em que A. chegara

ao presidio, M. vivia so, e presa de desespero, Nada tinha

em comum com os oufros gales, e os olhava com horror,

com repugnancia. Não reparava nem observava neles nada

(3) Pintor russo (1799-1852) descendente de uma familia de huguenotes fran-

ceses (Bruieleau). Representante do academicismo romƒntico, gozava nessa epoca um

renome que nos parece hoje bastante injusto. Seus retratos ali s são muit¡ssimo su-

periores aos seus quadros hist¢ricos. (N. de H. M.)

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

105


que o pudesse afrair, odiava-os em vnz de se aproximar deles

a‡ao


- e era pago na mesma moeda.  espantosa a sifu ... #

desses homens- M. ignorava a causa,que trouxera A. ali,

,enquanfo A., adivinhando com quem irafava, lhe cjar£n-

tiu logo que esfava no presidio não inculpado de dela‡ão

falsa, mas em virtude do mesmo delito que acarretara a

pena de M.. O pobre M. alvoro‡ou-se por encontrar en-

fim um companheiro, um irmão. Duranfe os primeiros dias,

supondo que o outro deveria sofrer muifo, frafou-o, conso-

lou-o, deu-lhe os seus Ulfimos vin~ens, fˆ-lo comer separado,

partilhou com ele os seus obiefos mais indispensaveis. Mas

A. lhe +ornou aversão, desde logo, justamente por causa

dessa generosidade do outro, do seu horror a qualquer bai-

xeza, da sua falta de indenfidade consigo proprio. E tudo

aquilo que, nas suas primeiras confidencias, M. lhe revelara

sobre o presidio e o chafe, assim que teve um momento

propicio, A. se apressou em o fransmifir ao maior. O maior

tomou odio a M., e se não fosse a auforidade do governador,

teria decerto dado cabo dele. E A., não so não mostrou

nenhuma confusão quando mais +arde M. lhe descobriu a

feionia, como a+6 procurava encon+ra-lo para o escarmen+ar

com o seu sorriso ironico. Esse feito lhe causava uma ale-

gria visivel. Muitas vezes M. me fez reparar nisso. Aquele

infame canalha fugiu fempos depois, em companhia de um

outro for‡ado e um vigilan+e-, mais alem falarei dessa aven-

fura. Quando cheguei ao presidio, ele se pOs logo a me

rodear. pensando que lhe ignorava a hisforia. E, repito-o,

envenenou os primeiros dias da minha esfada na prisão, e

me aumentou o desespero. Horrorizava-me ante a igno-

minia na qual me via mergulhado. Supunha que ali não ha-

via senão sordidez, abje‡ão; mas estava enganado: e que eu

julgava todos os oufros presos pelo exemplo de A..

Durante os fres primeiros dias não fiz outra cousa senão

me arrastar pela fortaleza, ou esfirar-me na farimba. Enf re-

~uei ao defenfo que me fora indicado por Akim Akimitch

a fazenda destinada a me costurarem camisas, (pagava ai-

9 #


106

DOSTOIEVSKI

gumas moedas por camisa feita); depois, guiado sempre por

Akim Akimifch, arranjei um colchão dobradi‡o de feltro,

forrado de pano, delgadiss¡mo, e um travesseiro recheiado

de 15, duro demais para quern r30 esfava acosfurnado a ele.

Akim Mimi+ch dispendeu bastante esfor‡o para me arranjar

isso tudo, e com suas proprias mãos cosfurou-me um coberfor,

feito de farrapos da esfamenha dos umformes, resfos de ca -

sacos e cal‡as gastas at‚ ao fio que comprei de varios deferi-

fos. Quando completam certo tempo, os umformes se for-

riam propriedade dos for‡ados, que imediatamente os reven-

dem no proprio presidio; por mais rota que pare‡a uma roupa

velha, não deixa de render qualquer cousa, mudando de dono.

Aquilo tudo me espantou muit¡ssimo. Era o meu primeiro

confacfo real com o povo. Eu me +ornara de repenfe fão

da "Plebe" fão "pres¡diario" quanto eles todos. Seus ha-

bitos, suas opiniões, seus cosfumes, +ornavam-se por assim

dizer os meus, pelo menos pela forma e pela lei, mesmo que

-não os partilhasse na realidade. Tinham-me prevenido,

e eu sabia o que esperar; mas não ficaria mais surpreso nem

mais envergonhado se nada houvesse esperado daquilo, antes.

A realidade produz uma impressão muito diferente daquilo

que s0 conhecemos por ouvir dizer. Suporia euPiamais, por

exemplo, que farrapos sujos, que trapos velhos pudessem

fer algum valor? Entretanto, ufilizava-os para fazer uma

coberta!  difi~il explicar como e o pano com o qual ves-

tem os for‡ados. Aparentemente, parece 13, burel. esfame-

nha de soldado espessa e grosseira; mal a genfe o vesfe, se

desfia e se fura lamentavelmente. Davam-nos umformes

novos todos os anos, e durante esse lapso de tempo era com

esfor‡o que o conservavamos. O defenfo frabalha, carrega

pesos, a roupa se gasfa e se rasga muito depressa. So reno-

vavam as nossas peles de carneiro de fres em fres anos; con-

tudo, tinham que nos servir de capa, de coberfor e colchão.

Embora uma pele de carneiro seja s61ida, algumas delas, espe-

cialmenfe no fim, consfifuiam apenas um £nico remendo.

Quando atingiam os fres anos, embora usadas ao maximo

possivel, valiam ainda uns quarenfa copeques. Algumas,

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

mais bem conservadas, chegavam a sessenta e setenta co-

peques, qua . rifia elevada, para o presidio.

107

O d;nhe;ro +ambem - ~... fiz a isso uma r pida referen-



cia - tinha um valor extraordinario. um poder assustador. #

Pode-se afirmar que um preso possuidor de alguns recursos

sofre dez vezes menos que aquele que nada tem. Quando o

governo fornece tudo, para que se quer dinheiro?  assim

que a nossa adminisfra‡ão raciocina. Entretanto, repito-o,

se os defenfos fossem privados da faculdade de possuir al-

gum dinheiro, enlouqueceriam; ou morreriam como frioscas

(embora "providos de tudo") ou, então, enfregar-se-larri aos

piores desmandos, uns por desespero, outros para mais depres-

sa serem punidos e aniquilados, e desse modo mudarem, de

qualquer fo~rma, o curso do proprio destino ("mudar de

sorfe" ‚ a expressão t‚cnica). Se depois de ganhar alguns

copeques, suando sangue e agua, ou depois de obter o di-

nheiro por alguma as+ucia excepcional ajudada muitas vezes

pela fraude ou pelo roubo, o defen+o se põe a gastar ...-toa,

com o descuido de uma crian‡a, isso não quer dizer - em-

bora o pare‡a, ... primeira vista - que ele não sabe o pre‡o

do que ganhou. O gale +em -pelo dinheiro uma avidez que

vai at‚ -ao espasmo, ate ... obnubila‡ão do juizo; se quando

se diverte o afira ... direita e ... esquerda, como cavacos sob

o cepilho, ‚ para se apropriar de algo ainda mais precioso.

E que cousa ‚ essa, mais preciosa para ele do que o dinheiro?

A liberdade, ou pelo menos a ilusão da liberdade perdida.

Os for‡ados são grandes sonhadores. Falarei disso mais

tarde; ia, porem, que a palavra sonho me caiu da pena, posso

afirmar que ouvi condenados a vinfe anos me dizerem em

tom perfeifamenfe calmo, frases desta natureza: "Espera

um pouco, quando eu acabar meu tempo, se Deus quiser,

então vais ver..." A id‚ia +raduzida pela palavra "de+en-

+o" e o homem privado do seu livre-arbitrio. Mas quando

esse homem gasta o seu dinheiro "faz o que quer". Apesar

das testas marcadas a fogo, das grilhetas, do muro odiado

que lhe fira a vista do umverso e o fecha como um animal #

108 DOSTOIEVSKI

feroz na jaula, - ele pode obter aguardente, isto e, um

prazer pelo qual incorre em castigo severo. Pode arranjar

uma mulher, e, ...s vezes, (embora nem sempre) subornar os

vigilan~es, o inv lido, ou mesmo o sub-oficial, que farão vista

grossa ante sua infra‡ão a disciplina. Pode at‚ - e adora

isso - pavonear-se diante dos colegas, isto e, persuadi-los,

como se persuade a si proprio,-de que e livre, - embora

por fempo, Ilimifado. Tem necessidade de supor e de fazer

supor que sua liberdade e sua iMporfancia tˆm um alcance

infinitamente mais extenso do que parece, que ele tem liber-

dade para se divertir, para fazer barulho, ofender os outros

afˆ obriga-los a se meterem debaixo do chão, se lhe der

na veneta. ~Enfim o desgra‡ado procura convencer-se e

convencer os outros daquilo que sabe impossivel. Dai vem

provavelmente, mesmo entre os defenfos sobrios, essa feri-

dencia para a gabolice. para a temeridade, para um cOmico,

um ingenuo exagero da propria personalidade, ainda que

aquilo, para eles proprios, não passe de uma miragem. To-

dos esses prazeres, afinal, comportam um risco - mas pro-

porcionam uma ilusão de liberdade. E que e que não se da

pela liberdade? Qual o milionario, que vendo-se estrangu-

lado por um no corredio, não trocaria todos os seus milhões

por uma golfada de ar?

O pessoal da administra‡ão se espanta ...s vezes quando,

depois de varios anos de vida sossegada, um defento - no-

meado ate "monifor" gra‡as a sua boa conduta '- sem ne-

nhum pretexto plausivel, como levado pelo demonio, se poe a

fazer asneiras, a beber, a aifercar, a cometer ate mesmo cri-

mes capitais, como falta de respeito aos superiores, es-

fupro, assassinio, e+c. . . Espan+a-se, e no entanto a causa

daquela explosão subita, que ninguern esperaria de tal inƒ-

viduo, provem talvez de uma insidiosa magoa, da saudade,

de uma angustia instintiva, de uma necessidade de afirmar o

seu eu humilhado, deixando transbordar cegamente todo o

seu odio, afˆ ao paroxismo, ate ao furor, afˆ ao espasmo da

epilepsia. Assim, talvez, procede o homem que desperta

RECORDA€OES DA CASA DOS MORTOS 109 i

1

fechado vivo num caixão, esmurra a tampa do ca+afalco e



mune todas as suas for‡as para o despeda‡ar. Não reflete,

não procura convencer-se de que foclos os seus esfor‡os serão

inu+eis, oois a razão absolutamente não intervem nesses casos.

 precis o ainda considerar que qualquer manifesta‡ão de per-

sonalidade, partindo de um for‡ado, 6 qualificada como

crime: pouco lhe importa, pois, a extensão do desastre cau-

sado por aquela repentina revela‡ão que faz de si proprio.

Se a dissipa‡ão, a orgia, j representam um risco, pode-se #

muito bem arriscar tudo de uma vez, ir ate ao fim, at‚ ao

crime. Basta apenas come‡ar, basta o homem embriagar-se.

Depois disso, nada mais lhe serve de barreira, nada mais o

retem. Eis porque seria melhor não levar ao desespero esse

homem. Representaria a franquilidade para todos.

Sim - como, porem, o conseguir? #

vi

O primeiro mes



(continua‡ão)

por ocasião de minha chegada ao presidio, possuia eu

algum dinheiro; mas trazia comigo, apenas, uma pe-

quena quanfia, com receio de que a confiscassem.

Por seguran‡a, colara algumas notas na encaderna‡ão do

meu Evangelho, £nico livro 16 admitido. Esse livro, com o

dinheiro escondido dentro, me fora dado em Toboisk por

alguns deportados que, exilados ia ha dezenas de anos, se

finham habituado a vor em cada "desgra‡ado" um ir-

mão (1). Ha na Siberia pessoas cuja umca preocupa‡ão e

ajudar fraternalmente os "desgra‡ados". Inquietam-se, so-

frem por sua causa como se se tratasse dos seus proprios

(1) O romancista se refere aos insurrectos de dezembro de 1825, conhecidos pelo

nQme de "d‡cembrist‡is". (N. de H. M.) #

112

DOSTOIEVSKI



a

filhos; sentem por eles uma compaixão desinfeiressada. Devo

dizer, aqu¡, algumas palavras a respeito de um encontro mei

com uma dessas pessoas. Na cidade onde ficava o nossc

presidio, morava uma viuva, Naihalia ivanovna com quem

‚ claro, nenhum de nos poderia estabelecer rela‡ões. Essa

mulher parecia haver consagrado a vida a socorner os

exilados, e, principalmenfe os for‡ados. Teria, por acaso,

sofrido na sua familia uma desgra‡a igual a nossa, algum ente

querido,Seu feria recebido castigo idˆntico? Ignoro-o, mas

sua felicidade consistia em fazer por nos tudo que lhe esfava

ao alcance. Pouco, alias, porque era paup‚rrima. E, en-

frefanto, no`s, os encarcerados, senfiamos que do oufro lado

dos muros da fortaleza vivia uma amiga fiej. Ela nos fazia

chegar noticias para nos muito imporfarifes. Quando deixei

o presidio, com destino a outra cidade, tive oporfunidade

de a visifar. Vivia num fim de rua, em casa dum parenfe

prOximo. Não era nem mo‡a nem velha, nem bonifa nem feia;

não se poderia sequer adivinhar se era infeligente ou edu-

cada. Notava-se apenas, em cada um dos seus afos, uma

bondade infinita, um desejo irresistivel, de servir, de aliviar,

de ser agradavel. Tudo isso se lia nos seus olhos bondo-

sos e meigos. Passei em sua casa quase um serão todo, junfo

com alguns companheiros. Ela nos fitava os olhos, ria quando

riamos, partilhava das nossas opiniões, e esfor‡ava-se ao m -

ximo para nos obsequiar da melhor maneira possivel. O ch

foi servido com uma merenda e alguns doces. Via-se bem

que, se possuisse ela alguns milhares de rublos, a sua maior

felicidade seria reconfortar os nossos camaradas que ficaram

no presidio, alivia-los. Na hora da despedida, deu-nos como

recorda‡ão umas cigarreiras. Ela propria os ;ecorfara em

papelão, e colara por cima - sabe Deus como! - papel

colorido, desses que cobrem os compendios de aritm‚tica

usados nas escolas (falvez houvesse realmenfe utilizado uma

arifrnefica). Em +orno, por elegancia, pusera um estreito

friso de papel dourado, comprado decerfo na loja para esse

fim. "Os senhores fumam, nSo e mesmo? Então isfo aqu¡

talvez lhes sirva," d,;s-se-nQs ela timidamente, como se pedisse

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

~ 4


.1

J

113 #



desculpas pela modicidade do presente. Alguns pre+enden

G6 o li eouv¡ dizer) que o mais elevado amor que possamo

f~` P-~C n0550 PrUrno, não passa dum imenso egoismo. Poi

não compreendo absolutamente que qualidade de egoism

poderia ditar a conduta daquela mulher!

Embora não fosse nada rico ... minha chegada ac

presidio, não me podia zangar deveras confra alguns for‡ado

que me lograram quase que no primeiro insfanfe, e volfavarr

cinicamente a pedir dinheiro emprestado segunda, ferceira E

af‚ quinfa vez. Mas, devo reconhecˆ-lo francamenfe, o que

me vexava e que todas aquelas criaturas, com suas ingenuas

asfucias, me +ornavam sem duvida por um folo e zombava

de mim precisamente porque eu lhes dera o dinheiro pela

quinta vez. Supunham que ma enganavam com suas men-

+iras, e pensavam que não era mister se consfrangarem co-

migo; e se, ao confrario, eu os houvesse repelido com dureza,

feria cerfamenfe conquistado a estima geral. Contudo, por

mais que me irritasse, não conseguia recusar: minha irrifa‡ão

provinha justamente da inquiefa‡ão que me assaltava, em

rela‡So a atitude que deveria manter para com eles. Eu

sentia, compreendia, naquele meio infeiramen+e novo para

mim, que me encontrava em plena noite, e que a vida e im-

possivel nas trevas. Era, portanto, imperioso que ma prepa-

rasse. E, para isso, eu resolvera agir fraricamenfe, deixan-

do-me guiar por meus senfimenfos ¡nfimos e minha conciencia.

Enfre+anfo, sabia fambem que tudo isso não passava dum

aforismo, a que diante de mim se apresentava a mais desco-

nhecida das experiencias pr ticas.

Assim, ao lado das pequenas preocupa‡ões referenfes

a minha instala‡ão na caserna, (preocupa‡ões a que ia me

referi e nas quais era guiado por Akim Akimi+ch), ia pos-

suindo-me uma angustia cada dia mais atroz. "A casa dos

mor+os", repetia eu, olhando, afraves do crepUsculo, para a

porta da caserna. os for‡ados que volfavam do trabalho e

que vagueavam pelo , pafio, indo e vindo dos alojamentos para

as cozinhas. Pelas atitudes e pelas caras, esfor‡ava-me por

lhes adivinhar os carac+eres. Passavam e repassavam diante #

DOSTOIEVSKI

de mim, com a testa franzida ou simulando uma ruidosa ale-

gria. (Esses dois aspectos são os mais frequentes, e podem

mesmo caraterizar o presidio). Praguejavam ou falavam

simpiesmente entre si, ou então se aTraSiavam, como para

mergulhar em medita‡5es solitarias, uns com o ar tranquilo,

calmo, outros com jeito abatido e displicente, e alguns

(afˆ mesmo Ia) com ar fafuo, o bone dum lado, a pele de

: L


carneiro atirada a um ombro, o olhar insolente e escarn ri o,

o sorriso cinicamente zombeteiro. "Agora, e este o meu

ambiente, e esta a minha sociedade, medifava; quer eu o

queira quer não, e aqu¡ que devo viver." Tinha vontade de

interrogar Akim Akim¡+ch a respeito deles. Gostava muito

de tomar cha em sua companhia, afim de me sentir menos s0.

Diga-se de passagem, durante esses primeiros dias o cha foi

praticamente a minha £nica alimenta‡ão. Akinn Akimifch

não recusava nunca os convites, e preparava, ele proprio,

o misero samovar de lata, utensilio improvisado que M. me

emprestara. Ado‡ava em geral um copo de ch (pois Akinn

ate copos possuia!) em silencio, cerimoniosamente, depois be.

bia-o dum trago, agradecia, e imediatamente voltava ... con-

fec‡ão do meu cobertor. Mas o que eu tinha necessidade

de saber, ele não me podia comunicar; não compreendia

por que me interessava tanto pelo cara+er dos for‡ados

que nos cercavam: escu+ava-me com um sorriso finorio, que

ainda hoje me recordo. . . "Não, não devo perguntar nada;

cada um tem que fazer sozinho as suas experiencias", refle-

+ia eu.


No quarto dia, do mesmo modo como na manhã em que

me trocaram a grilhefa, os for‡ados, bem cedinho, se reu-

niram em duas fileiras no pafio, em frente ao corpo da

.guarda, perto da porta de entrada. Diante e por tiras deles

esfendiam-se duas ordens de soldados, de armas embaladas,

baionetas caladas. Qualquer soldado +em direito de atirar

num defenfo, se este faz men‡ão de se evadir. Em compen-

sa‡ão, fica responsavel pelo firo, se não o deflagrou em caso

de absoluta necessidade. Acontece o mesmo nos motins dos

for‡ados; mas quem ousaria fugir na frente de todo o mundo?

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

115


Um oficial de engenharia, diretor dos trabalhos, apa-

receu em companhia de alguns sub-oficiais e sapadores da

mesma arma, designados como moni+ores. Fez-se a cha-

mada. Os de+en+os que trabalhavam na oficina de cos-

tura partiram antes dos outros: esses alfaiates do presidio #

nao dependiam da engenharia. Depois deles, foram-se

os que tinham oficio, e afinal chegou a vez dos simples ta-

refeiros, uns vinte homens mais ou menos, entre os quais

me encontrava. Aftas da fortaleza, sobre o rio gelado,

havia dois velhos barcos (propriedade do governo), que era

preciso desmontar para lhes aproveitar pelo menos a ma-

deira. Alias, esse material não valia nada, pois a madeira

era barafissima na nossa cidade, rodeada de imensas fio-

restas. Mandavam para Ia os for‡ados umcamente para

os impedir de cruzar os bra‡os; e, como eles o compreen-

diam muito bem, empreendiam sempre essa tarefa com mo-

leza e apatia. Sucedia cousa muito diversa quando o +ra-

balho tinha uma razão, uma finalidade, sobretudo quando

os nossos homens conseguiam obter uma tarefa de+ermi-

nada! Imediatamente se animavam. e, embora não deves-

sem receber nenhum proven+o pelo labor feito, pude cons-

+atar quanto se esfor‡avam para o concluir depressa e

bem: e que entrava em jogo o seu amor-proprio- Mas

nessa Iqbu+a a que me refiro, feita mais por formalidade que

-por necessidade, seria dificil pedir uma tarefa: era preciso

portanto lidar ate o rufar do tambor, que, as onze horas da

manhã, anunciava a volta.

O nosso grupo inteiro se dirigiu para a margem, num

filinfar de grilhetas, porque elas. embora escondidas sob a

roupa, produ7iam a cada passo um som claro e breve. Dois

ou +rˆs homens foram apanhar no deposito os ufensilios

indispensaveis. Eu caminhava com eles e me sentia mais

animado: enfim, ia ver com meus olhos em que consistiam

os trabalhos for‡ados; e como seria que eu, que jamais

utilizara al minhas mãos no trabalho, iria me sair da em-

preitada? #

116

DO,5TO I EVSK I



Recordo o.,9- mais infimos detalhes dessa manhã. Em

caminho encontramos um sujeito de barbicha, q!je se de-

me

teve e rgulhou a mão no bolso. Imediatamente um de-



tento se destacou do grupo, tirou o gorro, recebeu a es-

mola - cinco copeques, - e voltou les+amente ao seu

lugar. O homem se persignou e continuou o caminho. Na-

quela mesma manhã os cinco copeques foram gastos na

compra de kalafchi, partilhados igualmente entre todos.

No nosso grupo. uns se mostravam sombrios, facitur-

nos, outros indiferentes, inertes, outros conversavam apa-

ficamenfe. Um de nos, ate, francamente elegre, cantava

e dansava em caminho, fazendo a cada salto ressoarem os

ferros. Era aquele mesmo preso atarracado que na manhã

de minha chegada ao presidio brigara com o outro for‡ado

que pretendia ser um 11(agari. Chamava-se Skura+ov, e en-

toava uma cantiga agradavel, da qual , me recordo do

estribilho:

"Eu estava no moinho

"quando me casaram

"sem me consultar".

SO lhe faltava uma balalaica.

Seu ex+raordinario bom humor teve o condão de irritar

alguns dos companheiros, que deram largas a sua indigna‡ão.

- Para com esses lafidos! rosnou um for‡ado que

não tinha nada com a hisforia.

- O lobo s6 sabe uma cantiga e, assim mesmo, ele

a imita! Não e a-+oa que vem de Tula! disse um dos mal-

humorados com sotaque da Ucrania.

- Tenho muita honra em ser de Tula, respondeu ime-

dia+amen+e Skura+ov. Mas voces de Polfava cheiram a

galuch¡lti - ainda +em a goela cheia de galuchkR (2)

- (2) 'Os habitantes de Tula são acoimados de ladrões; devem sem d£vida essa

reputa‡ão aos operarios (recrutados ... for‡a por toda parte) das c‚lebres forjas fun-

dadas por Pedro o Grande na capital da provincia.

Os de Poltava são extremamente gulosos de um bolo de carne a que chamam

galuchiki, muito semelhante ...s nossas alm"ndegas.

São muito comuns essas zombarias entre os naturais das diversas provincias. (N.

de H. M.)

A DOS MORTOS

RECORDA€õES DA CAS

117


#

- Mentiroso! E tu, sabes a que e que cheira o teu

focinho? Decerto cheiravas os teus tamancos!

- E agora o diabo Q ceva com balas de rifle! acres-

cen+ou um terceiro.

- Vou contar a verdade a voces, rapazes, responde

Skuratov. Fui um menir·o mimado...

E deu um leve suspiro, para significar que a sua ecluca-

‡ao efeminada o fazia sofrer. Depois, dirigindo-se a todos,

continuou:

- Se bem me lembro, fui educado muito bem; criei-me

com "mã"e melada" e " descom porta". (Skurafov estropia-

va deliberadamen+e as palavras "marmelada" e "compo+a").

Hoje, meus irmãos tˆm estabelecimento em Moscou, vendem

pasteis de brisa e es+So riqu¡ssimos.

- E tu, que e que vendias?

- Vendia de tudo. Quando recebi os primeiros du-

zentos ...

- RuUos? Ser possivel? in+orrompeu~ um -curi'õso,

saltando quase, ao ver falar em quantia tão grande.

- Não, mano velho, não foram duzentos rublos, foram

duzentos a‡oites. Ah, Luka, Luka!

- Dobra a lingua-, vˆ Ia se me podes chamar de Lu¡‡a;

chamo-me Lu¡‡& Kusmifch, replicou ofendido um preso pe-

queno e magro, de nariz pontudo.

-s- Sim, Luka Kusmifch, e que +e leve o diaboi ...

- Sim, Luka Kusmifch, mas tu me deves chamar "+io

Kusmi+ch".

- Diabos +e carreguem a fi e ao teu flo! Não adiar+a

nada +e contar cousa nenhuma. E eu que estava sendo deli-

cado contigo! E então pessoal, não pude demorar muito

Umpo em Moscou; eles me obsequiaram gentilmente com

quinze a‡oites de knuf e me mandaram para ca. Então ...

- Que e que tinhas feito? observou um defento que

ouvia com aten‡ão.

- Não fa‡as quarentena, não bebas no gargalo, não

te metas a engra‡ado .............3

E, por isso, amigos, n o me era

b #

118


_DOSTOIEVSKI

possivel fazer fortuna em Moscou. E eu que queria tanto

enriquecer! Nem posso dizer quanta vontade Enha!

Muitos se puseram a rir. Skurafov era uma dessas cria-

turas bem humoradas, desses gaiatos que acabam Obrigando

a rir todo o mundo, ate os mais tristes, e em troca não re-

cebem senão desaforos. Pertencia a um tipo de for‡ado

nofavel e muito singular, do qual ~alvez ainda me ocupe.

- Sim, e agora podes ser esfolado como uma zibelina,

retrucou Lu¡‡a Kusm¡fch. So tua roupa dava bem uns cem

rublos!

Skura+ov usava com efeito a n---lgnisgasta, a mais remen-



ciacia, a mais rapacia (Ias peles de carneiro; de todos os

lados lhe pendiam farrapos. Ele olhou-a de alto a baixo,

com ar indiferente porem atento:

- E verdade, concordou, mas em compensa‡ão minha

cabe‡a vale em ouro o que pasal Quando me despedi de

Moscou, o que ainda me consolou foi ter minha preciosa

cabe‡a em cima dos ombros. Adeus, Moscou, vivam teus

banhos turcos e feus bons ares, viva ate a surra que levei!

Quanto a minha pele de carneiro, paizinho, se não a olhares

ela não te doera nos olhos!

- Então a gente s¢ pode olhar para fua linda cabe‡a?

- E se ao menos a cabe‡a fosse dele! debicou Luka'

Kusmitch. Foi-lhe dada de esmola quando o comboio pas-

sou por Tiumene.

- Escuta , Skurafov. tinhas ao menos um oficio?

- Oficio, ele? Era guia de cego, disse um dos irri-

fados. E enquanto o cego cantava os benditos, ele unhava

as codeas que lhe punham no prato!

Com efeito, respondeu Skura+ov que não ligara m-

porfancia a maleclicencia do outro. ainda tentei cosfurar bo-

tas, entretanto não passei do primeiro par!

- O que? E te compraram esse par?

- Decerto! Passei-o a um sujeito que não respeitava

pai nem mãe, nem tinha fernor de Deus ... mas foi casfi-

gado: comprou-me o par de botas!

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

119

Romperam risadas em redor de Skuratov.



- Aqui, uma vez, -experimentei de novo ser sapateiro,

continuou Skurafov com imperfurbavel calma. Remendei as #

botas do lenen+e Sfepan Fioclorovi+ch Pomorfsev.

- E ele ficou satisfeito?

- Infelizmente não! Disse-me os piores desaforos e ain-

me deu uma joelhada no lombo... Ficou uma fera!

meus cordeirinhos, que desgosto tem sido esta droga

da

Ai,



da minha vida!

"Depois de um bom momento

"O marido de Akulina

"Apareceu no patio...

Cantarolava de novo, batendo o facão em terra e sal-

fitando.


- Oh, que idiofal rosnou o ucraniano. que caminhava

a meu lado, lan‡ando para Skura+ov um olhar de oclienfo

desprezo.

- Não vale nada, disse outro em fom definitivo.

Não compreendi por que eles tinham raiva de Skura+ov,

g%rem ia tivera fempo de observar que, ali, os homens alegres

ozavam de um desprezo geral. O odio do ucraniano e dos

outros parecia-me provir de algum ressentimento. Mas es-

fava enganado. Tinham-lhe raiva porque se portava mal,

porque carecia daquele ar de falsa dignidade' do qual se

confagiam todos os for‡ados, e que os impregnava ate a

afg+a‡ão. Em suma, segundo a expressão deles, Skura+ov

"não valia nada". Entretanto, nem todos os engra‡ados eram

tratados como Skurafov e mais alguns. Mais de um, com

efeito, se fazia respeitar; enquanto o bom rapaz, sem ma-

licia, so colhia desdens, o gaiato que mosfrava os dentes

e não consentia que ninguem lhe pisasse o pe impunha res-

peito. Havia precisamenfe um engra‡ado desse Ultimo fei-

fio no nosso grupo, todavia so o conheci sob seu verdadeiro

aspecto um pouco mais +arde. Era um camarada de ex-

fer¡or bem agradavel, com uma grande verruga na face,

e um rosto delicado e bonito, mas de expressSo muito co- #

120 DOSTOIEVSKI RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS 121 , 1

mica. Chamavam-no o "Explorador" por ter outrora ser-

vido nos batalhões de engenharia. Pertencia a se‡ão es-

pecial. Ainda falarei a seu respeito.

Co-n+udo rem todos os for‡ados "ser-lcs11 - er-~m +-go

expansivos nem tão irri+adi‡os quanto o homem da Ucra-

nia. Alguns procuravam conquistar a proeminencia por sua

habilidade no trabalho, pelo carafer, pela in+eligencia, pelo

espirito. A muitos deles, com efeito, nSo faltava nem in-

teligencia nem energ;a, para atingirem o fim visado, - isto

‚, renome e uma grande influencia moral entre os colegas.

Essas especies de virfuoses eram muitas vezes inimigos fi-

gadeis uns dos cu¡ios, e cada um sozinho criava ao seu

redor muitos invejosos. Olhavam para os simples for‡ados

do alto da sua impor+ancia, e não sem desprezo; evitavam

brigw inuteis, eram muito bem cotados, e de certo modo

dirigiam os trabalhos. Nenhum deles discutiria com os ou-

fros por causa de uma carifiga; não se rebai,,‡avam a isso.

Comigo, esses principes se mostravam de uma amabilidade

absoluta, durante todo o periodo da minha defen‡ão; mas

fambem lac"nicos, - ques+So de dignidade, certamente. Te-

rei que fai,,, dz3 novo sobre esses, aincia.

Chegamos a margem. Em baixo, no rio, o velho barco

a demolir estava preso no gelo. Do outro lado do rio, a

estepe azulada se estirava, vazia e triste. Pensei que todo

o mundo se iria atirar ao trabalho, todavia ninguem cuidava

nisso. Alguns se sentaram numas vigas que por Ia rolavam;

quase todos tiravam da bota uma +abaqueira - cheia da-

quele espesso fumo siberiano que era comprado em folhas,

a +¡rinia copeques a libra, - e um cachimbo curto de ma-

deira de salgueiro feito no proprio presidio. Puseram-se a

fumar, os soldados da escolta nos rodearam, em circulo, e

come‡aram a sua vigilancia com ar en+ediado.

- Que ideia, desmanchar esse barco! resmungou um

dos gales, sem se dirigir a ninquem. Sera que precisam de

madeira?


- Decerto quem se lembrou disso foi alguem que não

+em medo de nos, retrucou um outro.

- Para onde, diabo, irão aqueles mujiclues? indagou

o que falara em primeiro lugar, sem mais pensar na sua

pergunta e sem escutar a respos+a, apontando com o dedo,

ao longe, um grupo de gen+e que caminhava em f*,Ia por

sobre a neve imaculada. Todos, sem pressa, se volveram

para o lado indicado, e, por desfasfio, cobriram de apodos

os muiiques. Um dos passantes caminhava de modo muito

engra‡ado, afastando os bra‡os e inclinando a cabe‡a co-

berta com um alto gorro de pele, redondo como um broa.

- Olha, compadre, como ‚ que o 'mano Petrovitch

caminha! pilheriou um outro, arremedando a fala dos mu- #

jiclues.


Coisa curiosa, embora metade deles fosse proveniente

da aldeias, todos os for‡ados olhavam por cima do ombro

os camponeses.

- Olha o de+ras, não parece que esta plantando nabos?

- Aquele gordo? Esta com a moleira pesada: de-

certo tem dinheiro demais!

Todos ~desataram a rir, mas com um riso arrastado,

sem, alegria. Nesse momento apareceu uma vendedora de

kalafthi, alegre e esperta.

Compraram-lhe os cinco copeques que o homem dera

de esmolae dividiram a compra com toda a equidade.

O rapaz que revendia os kalafchi na caserna adquiriu

duas duzias e exigiu trˆs kalaMbi de comissão, em vez dos

dois que habitualmente recebia. ,N mulher, porem, não lhe

deu ouvidos.

- Então, tu fambem vendes aquilo?

- Aquilo o que?

- Aquilo que rato n o rOi?

- (Espera senvergonha! respondeu a vendedora com

uma gargalhada.

Enfim apareceu, com uma bengala ... mão, o nosso sub-

oficial encarregado -dos trabalhos.

- Que ‚ que es+So esperando? Comecem!

- Bem, Ivan ~veifch, dˆ ... gente uma tarefa! disse

um dos monifores, erguendo-se lentamente do seu lugar.

10 #


22 DOSTOIEVSKI

- Não podiam pedir tarefa mais cedo? A tarefa

agora e desmontar o barco.dos e caminharam sem pres

Ergueram-se afinal os for‡a os mon*lores

sa para o leito do rio. Apareceram no grupo 1

- que o eram pelo menos no nome. Demonstraram que

não se devia deswnchar o barco a torto e a direito, mas

tanto quanfo fosse possivel conservar as fabuas, e, sobre-

tudo, as costelas verticais, fixas por meio de cavilhas em

todo o comprimento do barco - trabalho longo e fastidicso.

- Em primeiro lugar, arranquem-me essa viga pequena!

Vamos, rapazes! propOs um dos for‡ados, quieto, pouco con-

versador, e que at‚ então não dera um pio. E inclinando-se,

segurou com ambas as mãos uma viga grossa, esperando au-

xilio. Ninguern entretanto o ajudou.

- Experimental Não a levantas sozinho, e mesmo que

o urso do teu av" estivesse aqui, pão creio que a levan+assei

rosnou alquem.

- Mas então, minha gente, por onde se come‡a*? ...

continuou em tom lastimoso aquele que iniciara o trabalho.

Largou a viga e se endireitou.

- De qualquer jeito, fu, sozinho, não vais dar conta

do trabalho. Não adianta +e fazeres de esperfo.

- Não - sabe dar milho a Ires galinhas e est aqu¡ se

fazendo de Sabido! Olhem esse anão!

- Ora, ou‡am, eu ia dizendo. . . tentou explicar o

homem.

- Então como ‚? Vou por voces debaixo de uma



redoma, ou mando salgar a todos, durante o inverno? gri-

+ou o sub-c,ficial, olhando com certo mal-,es+ar para aqueles

vinte homens reunidos, que não sabiam o que fazer de si.

Vamos, andem! Toquem com issol

- A gente com pressa não faz nada direifo,.Ivan Mat-

veifch!


- E ‚ por isso que esperas? Anda, Saveliev, ‚ con-

figo que estou f lando, lingua de frapoi est s esperando o

que? Porque arregalas as olhos? Anda com isso!

- Que e que eu posso fazer sozinho?

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

123


Marque uma tarefa, Ivan Mai^veitchi

Ja disse que não h tarefa! Desmanchem o barco,

-0

d.ei, IS Voltem! Andem!



Puseram-se afinal a trabalhar, mas sem gos+o, sem je~fo.

Era triste ver homens tão vigorosos aparentemente incapazes #

de dar conta daquele trabalho. Mal tinham come‡ado a

desfacar a primeira e a menor das costelas e ala se quebrou.

"Quebrou-se soiinha", disseram como justificativa ao vigi-

larife. Não se podia pois continuar daquele modo. E se-

guiu-se uma longa discussão enfre os defenfos, acerca da

maneira de frabalhar. Pouco a pouco, foram-se ouvindo

insultos, e a cousa amea‡ava ir mais longe. . . ,

O vigilante tornou a gritar, agitando o bastão, en-,

juanfo outra trinca de novo se quŠbrava.

Verificaram então que falfavam machados, e que era

preciso ainda frazer mais não- sei que utensilio indispensavel.

Imedia+amenfe foram dois for‡ados escoltados ate a for+a-

leza; enquanfo esperavam, os outros sen+aram-se sossega-

damente no barco, tiraram as +abaqueiras e os cachimbos

e recome‡aram a fumar.

O sub-c,ficial cuspiu de raiva.

- Sim, est se vendo que nenhum de voces ha de

morrer de trabalhar! Que gente! que gente! bufou o ho-

mem. Depois, com um, gesto impofente, retomou o cami-

nho da forfaleza agitando o bastão.

O clirigenfe dos trabalhos chegou uma hora ap6s.

Escutou cairmamenfe as queixas dos presos, anunciou que

dava quatro trincas para descavilhar sem quebrar, como

tarefa, e, mais ainda, um bom peda‡o do barco a desfazer;

depois disso, poderiamos voltar. A farefa era pesada, mas

ob, meu Deus! como se atiraram a ela! Ja não havia inercia,

j não havia hesita‡ão: ~ os machados enfraram a dansar.

arrancaram-se as cavilhas. Os que não tinham machados,

punham escoras sob as trincas, e vinte mãos pesando sobre

elas simulfaneamen+e, as frincas saltavam do lugar direi-

tinho, artisticamente, e para surpresa minha, absolutamente #

124


DOSiOIEVSKI

infactas. O trabalho se adiantava rapiclamenfe. Todos,

de chofre, pareciam aptos para a labuta. Ja não se ouviam

pracias, j6 não se ouviam discussões inufeis; cada um sabia

que gesto fazer, que conselho dar. Meia hora antes do

rufar do tambor esfava feita a tarefa e os for‡ados volfa-

ram ao presidio cansados, mas satisfeitos. Aquela meia

hora ganha sobre o tempo de servi‡o os pusera, a todos,

de, bom humor.

Quanto a mim, fiz uma observa‡ão curiosa. Por toda

parfe onde eu me queria meter, para os ajudar, era afasfa-

do; não servia em parfe nenhuma, i,ncomodava em +od4

parte, mandavam-me embora de foclo lugar, quase com in-

sulfos. O pior esfarrapado, o mais rus+ico labrego que não

se atrevia a dizer uma palavra diante dos companheiros

mais desenvoltos, achava-se no dineifo de me atirar desa-

foros se eu parava perto dele, e prefendia que o incomo-

dava. Enfim um dos "O'espachados" me falou bru+alm,eri+e:

- Não fiques parado ai! Para que vens te meter onde

n5o es chamado?

- Engole essa, aprovou logo um outro. -

- Arranja um mealheiro e vai pedir esmola para a

consfri~So da igreja e a clerrubada da taberna! Aqui não

feris nada que fazer! bradou um ferceiro.

 desagradavel ficar de pe, com osbra‡os balan‡ando,

quando fodos trabalham. E, enfrefanfo, quando quis real-

menfe me afastar para o outro exfremo do barco, recome‡a-

ram os gritos.

- Na verdade, bons ajudantes nos digol Mal a genfe

lhes enfrega um servi‡o, caem fora!

Tudo aquilo era feito de prop¢sito. Sentiam prazer

em humilhar o karine que eu era, e aproveitavam a oca-

siso.

Concebe-se agora por que a primeira pergunta que



eu fiz a mim propric, foi para saber como me compgrfaria

com aquela gente. Pressentia que feria com eles frequen-

tes choques claquela especie. Apesar disso resolvi não ai-

+erar nada no plano de conduta que me tra‡ara, e qua sa-

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

125


,b¡a correto. Eis no que consistia esse plano: portar-me o

mais simplesmente possivel, man+er-me independente, sriSà

fazer o menor esfor‡o para me aproximar deles, mas +am-

bem não os repelir se ma procurassem; não lhes recear nem

as amea‡as nem o odio, agir como se deles não me aperce- #

besse; não lhes chegar perto em cerfos momentos, nem me

cumpliciar de certos costumes e h bitos seus; em suma,

não procurar esporifaneamenfe a sua camaradagem. Eu

adivinhara ao primeiro olhar que eles ficariam me despre-

zando de inicio se eu agisse de modo diverso. Porque,

na opinião geral, (soube-o mais +arde com certeza) minha

origem nobre me autorizava a arrotar imporiancia a frente

dos outros, - isto ‚, procurar considera‡ões, mostrar-me

susceptiv¡pi e exigente, -e não fazer nada com os meus dez

dedos. Esse pro‡edimento me feria granjeado insultos

abertos, e o ¡nfimo respeito de foclos. Porem era papel

que nao me convinha: nunca assumi para com eles as manei-

ras que eraM consideradas adequadas a um barine, mas em

compensa‡ão jurei a mim propric, nunca rebaixar, por uma

concessão, minha educa‡ão e meus pensamentos infimos. Se

me houvesse misturado com eles, se me houvesse proposto a

granjear as suas boas-gra‡as por maio de familiaridades e

condescendencias, concluiriam imediafamente que eu agia

assim por covardia, e me tratariam de acordo com essa con-

clusão. A ... v não era exemplo que se pudesse seguir: denun-

ciava-os ao maior, e era temido por todos. Por oufro lado,

eu não desejava, como os polacos, isolar-me numa frieza e

numa pol ` idez altivas. Via muito bem naquele momento que

eles estavam com raiva porque eu procurava me +ornar ufil,

em vez de fazer caretas e me queixar. C~erfo embora de

que mais +arde seriam obrigados a mudar de ideia a meu

respeito, não deixava en+refan+o de me sentir mortificado:

pelo simples fato de desejar trabalhar e não saber como

o fazer, ia lhes dava o direito de me desprezarem.

a

Quando volfei ' tarde, roido da fadiga, vi-me +ornado



por uma pungente tristeza. "Quan+os milhares de dias idˆn- #

126


DOSTOIEVSKI

Òcos tenho diante de mim, sempre os mesmos, todos imufa-

velmenfe umformes?" cismava. Em silencio, sob a noite,

que caia, ou vagueava sozinho pelas casernas, ao longo da

pa!i‡ada, quando o nosso Charili: correu ao meu encontro.

Char¡t era o cSo do presidio, pois h cães de presidio,

1 como os ha de companhia, de bateria ou de esquadrão.

, ,Vivia al¡ j6 h6 tempo indeferminado. considerando a todos

..c~õmo seus donos e alimentando-se dos restos da cozinha.

,-,. :, Era - um mastim bem grande, ainda não muito velho, com

pelo preto mosqueado de branco, cauda peluda, olhos

Aipifeligentes. Ninguem lhe fazia uma festa, ninguem sequer

,, . , , 'se

prestava aferi‡ão. Logo ao primeiro dia eu o conquis-

1~,I'~4,1~,J,` tara dando-lhe uma codea de pão: e enquanto eu o acari-

--- , , i,

.- Java, ele não se mexia, olhava-me com carinho e sacudia

... cauda para me mostrar o prazer que lhe dava. Como se

,1 . haviam passado alguns dias sem que ele me visse, a mim que,

,L depois de anos, fora a primeira pessoa que lhe fizera uma

1 . 1 festa, Charik correu em busca de mim, no meio dos outros, .

e descobrindo-me por t s das casernas, saltou -ladrando,,

alegremente ao meu encontro. Não sei o que se passou,,

comigo, mas abr¡ os bra‡os para o cão, segurei-lhe a cabe‡ai

en

quanto ele punha as duas patas sobre meus ombros e m



procurava lamber o rosto.

"Esta aqui o amigo que me manda o destino!" pensava

eu. E todas as tardes, durante essas primeiras semanas de

,sofrimento, assim que chegava do trabalho, corria para +rãs

das casernas; vinha aos saltos, ladrava, cumprimentando-me,

eu lhe segurava a cabe‡a, cobria-a de beijos, enquanto um

sentimento suaviss¡mo, e ao mesmo tempo um ~pungente

amargor me apertavam o cora‡ão. Lembro-me bem que

me comprazia naquele tormento, sentia um estranho prazer

'em pensar q--e não me restava senão um amigo no mundo:

o 6.orri, o'fie¡ ChariJk.

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Novos conhecidos - Petrov

confudo iam-se passando os dias, e, pouco a pouco, eu

me habituava ...quela nova vida, cujas cenas cotidia-

nas a principio me mortificavam tanto. Os acon-

tecimentos, o ambiente, os individuos, tudo me deixava in-

diferente. Parecia-me impossivel habifuar-me ...quela exis-

fencia, e, entretanto, era mais que chegado o tempo de me

habituar, uma vez que estava diante do inevitavel ... Dis-

simulava minhas inquiefa‡6es no recesso mais profundo da

minha alma, i6 não vagueava mais como um tonto, não dei-

xava mais que vissem a minha dor. Os olhares ferozmente

curiosos dos for‡ados ia não se-definham com a mesma fre-

quencia sobre a minha pessoa, e diminuia a exagerada in-

solencia com que me tratavam: eu fambem lhes ficara in-

diferente, ‡‡vsa que muit¡ssimo me alegrava. Eu ia e vinha #

130


DOSTOIEVSKI

como denfro de minha casa, no presidio. Conhecia o meu

lugar na tarimba, acostumara-me com coisas que supunha

,n3o poder acei+ar nunca. De oito em oito dias ia ao

barbeiro para que me raspasse mefade da cabe‡a; nos s -

bados, duranfe o nosso periodo de repouso,, faziam-nos pas-

sar um a um no corpo de guarda, (deixar de comparecer

era motivo para puni‡ão) onde os barbeiros do batalhão,

depois de nos ensaboar a cabe‡a com agua fria, raspavam-

,na sem do com navalhas cheias de mossas: so a lembran‡a

dessa tortura ainda hoje me arrepia. Todavia, depressa des-

cobri um rem‚dio para isso: Akim Akimifch me indicou um

defen+o da se‡ão militar que, mediante um copeque de pa-

gamenfo, raspava a gente de acordo com o regulamenfo,

usando uma navalha de sua propriedade, que consfifuia , o

seu ganha-pão. Tinha varios clientes entre os for‡ados, gen-

te dura, que, porem, fazia tudo para escapar aos barbeiros

oficiais. Chamavamos ao nosso colega barbeiro "maior"

- mas nao sei em que poderia ele recordar o maior au-

fenfico. Enquanfo escrevo estas linhas, revejo-c, menfalmen-

te, ao "maior": rapagão magro e silencioso, talvez est£-

pido, sempre enfregue a sua obriga‡ão, fendo na mão uma

correia na qual, noite e dia, afiava confinuamenfe uma nava-

lha admiravelmente amolada: decerfo encontrara naquela

-profissão a meta definitiva da sua existencia. Mos+rava-se

francamente radiante quando alguern se vinha entregar aos

seus cuidados; tinha sempre a navalha afiadissima, a agua de

-sabão quente, a mão macia como veludo. A genfe via que

,ele tinha orgulho da propria pericia. Recebia com ar distrai-

do a moeda ganha e parecia trabalhar mais por amor da arte

que pelo dinheiro. A. passou mal um dia em que, ao fazer

O seu relaforio a quem de direito, chamou imprudentemente

o nosso barbeiro pelo apelido. O verdadeiro maior enfu-

receu-se como um louco:

- Então não sabes, crapula, o que e um maior? berrou,

deitando escuma pela boca, e aplicando em A. um castigo

a sua moda. Compreendes q que e um maior? E ~ncon,

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

131

cebivell Chamar de maior a qualquer presidiario imundo,



e na minha presen‡a!

o

S' A. seria capaz de entender aquele homem.



Logo no primeiro dia comecei a sonhar com a liberfa- #

‡ão. Minha ocupa‡ão favorita ficou sendo confar o fem-

pc, que me resfava a cumprir, de mil diferenfes maneiras.

Não conseguia, pensar noutra cousa, e creio que todas as

pessoas privadas de Rk>erdade agem da mesma maneira.

Ignorava se os outros for‡ados pensavam ou contavam como

eu, mas logo ao primeiro dia, a inconcebivei leviandade

das suas esperan‡as me impressionou muito. As esperan-

‡as de um prisioneiro nada +ˆrn que ver com as esperan-

‡as de um homem livre. O homem livre pode esperar por

uma mudan‡a de sorte, ou pela realiza‡ãQ de uma ambi‡ão

qualquer, porem Vive, age, e a vida real o arrasta sem cessar.

Ja não acontece o mesmo com o prisioneiro. Admitamos

que a vida da prisão, o presidio, +ambern ‚ vida: mas seja

qual for o for‡ado, e sejam quais forem os anos de sua

defen‡ão, ele se recusa instintivamente a considerar sua sorte

como positiva, definitiva, como fazendo parfe da sua exis-

fencia. No presidio, qualquer for‡ado sente que não "es+6

em sua casa", supõe-se por assim dizer em visita. Encara os

vinte anos da sua pena 'como Se fossem umcamente dois;

esta convencido de que aos cinquen+a anos, quando soar

a hora da sua liberta‡ão, sera fão jovem quanto agora,

aos trinta e cinco apenas. "Ainda terei muito tempo bom

a viver!" cisma ele; expulsa obstinadamente todas as dUvi-

das, todos os +ristes pensamentos que o assaltam a esse res-

peito. E af‚ mesmo os condenados a gal‚ perpetua, ate

mesmo os da se‡ão especial, +ˆm como certo que um belo

dia vira de Pi+er (1) uma ordem que o mandara para as mi--

nas de Nerfchinsk, e a vida no comb¢¡o e bem melhor que

no presidio, e depois, findo o seu tempo em Ner+chinsk,

então! ... Escutei velhos de cabelos brancos raciocinarem

assim.


(1) Petersburgo. N. de K Q) #

132


DOSTOIEVSKI

, Vi em Tobolsk homens chumbados a parede, ao lado do

cafre, por uma corrente de um sachene (2) de compri-

men+o. SSo punidos assim por algum crime horrendo, co-

metido -Ia na Siberia apos a deporta‡ão: e ficam ali cinco,

dez anos. Eram na maioria bandoleiros de estradas. Um

umco, que fora empregado não sei em que, aparentava um

melhor a pecto; falava com um sorriso adocicado, um tom

resignado e sibilante; mos+rou-nos a corrente, disse qual a

maneira mais c"moda de dormir com ela. Era mesmo uma

ave estranha! Todos se portam muito bem, e parecem de

bom humor, embora estejam roidos pelo desejo de verem

terminado o seu tempo na corrente. Para que? da-nos von-

tade de perguntar. Mas então ele sair6 daquela masmorra

sufocante, de fec+o baixo, em arcadas de tijolo, podera

passear no pa+io ... Isso, apenas isso, porque jamais poder6

franspor'as portas do presidio. O preso sabe muito bem

que os que estão acorrenfados ficarão Ia, que morrer3o pre-

sos as grilhetas. Sabe-o, e, enfrefan , to, deseja ardentemen-

te terminar o seu tempo nos ferros. iE, com efeito, sem

essa esperan‡a, poderia -um homem. ficar acorren+ado cinco,

seis anos, e não morrer, não enlouquecer? Poderia ele re-

sisfir,- realmente?

Quanto a mim, eu compreendia que so, o trabalho me

poderia preservar a saude e o corpo. A inquieta‡ão

moral perpetua, a irri+a‡ão dos nervos, o ar mefifico das

-casernas me teriam abatido completamente. "O air livre,

a fadiga, o h6bi+o de carregar fardos pesados, - isto ‚

que me salvara, pensei. H6 de me manter o vigor e a

juventude ate o instante da liber+a‡ão". Não me enga-

nava: o trabalho e o movimento me foram muito ufeis. Vi

com ferrcir um dos meus companheiros, ex-ficialgo, (3) con-

sumir-se no presidic, como uma vela: entrara ao mesmo tem-

po que eu, ainda jovem, belo e forte; quando saiu, era apenas

um farrapo de homem, asmafico, encanecido, pernas trˆmu-

las. "Não, dizia-me ou. olhando-o: quero viver e viverei".

(2) A toesa russa; 1 m 98. (N. de R. Q.)

(3) Duroy. Ver nota p gina 45. (N. de H. M.)

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

e

133



De inicio, durante longos meses, meu ardor no trabalho me

granjeou, da parte dos for‡ados, um grande desprezo, in- #

finitas indiretas, mas eu não me importava e ia alegremente

para oncle me mandavam. queimar e moer alabastro, por

1 e

exemplo. Esse oficio, um dos pr~meiros que aprend¡, '.



muito facil. Alias. os oficiais de engenharia aliviavam o

mais. que podiam as tarefas designadas para os barines

e isso menos por inclulgencia que por esp¡rito de iusfi‡a.

issimo menos vi-

Seria estranho exigir de um homem muiff Ö

goroso e deshabifuado a labuta manual o mesmo esfor‡o que

,se exige de um trabalhador. Essa "poupan‡a", porem,

era feita quase as escondidas, -porque eramos vigiadissi-'.

mos. Com frequencia era a tarefa excessivamente penosa;

e, então, os nobres sofriam duas vezes mais que os outros for-

‡ados. Eram em geral mandados para o alabastro trˆs

ou quatro homens idosos ou pouco vigorosos; a eles nos re-

umam, mas +inhamos como monifor um operario de verdade,

que conhec~a o oficio. Durante varios anos seguidos, o nosso

monifor foi sempre o mesmo, certo Almazov. individuo

severo, trigueiro, magro, ia velho, calado e exigente no fra-

balho. Desprezava-nos profundamente: como, porem, não

gostava de falar. n3o se dava ao trabalho de nos passar des-

composturas. O galpão no qual moiamos o alabastro erguia-

se na margem escarpada e deserta do lrfych. No inverno,

principalmente durante os dias escuros, a vista do rio e da

outra margem longinqua provocavam uma grande nostalgia.

Uma impressa . o despecla‡adora de tristeza emanava daque-

la estepe arida e vazia. Mas era ainda pior quando um sol

)claro dardejava os seus raios sobre o imenso campo de ne-

we; a gente sentia o louco desejo de se evadir para aquela

planura dis+,,,.n+,e que come‡ava na outra margem e se alon-

gava em dire‡ão ao sul, como uma toalha infinita, num es-

pa‡o de mil e quinhentas verstas. O silencioso, o severo

Almazov punha-se a trabalhar; nos nos envergonhavamos

porque nao o podiamos ajudar segundo as suas regras, e

ele, contudo, nos dispensava muito de prop¢sito como se

nos quisesse fazer sentir a nossa completa inutilidade. O

:i #


134

DOST61EVSKI

trabalho consistia de inicio simplesmonfe em aquecer ~ o,,"

forno; depgis fraziamos alabas+ro suficiente para enchi 1 -

lo. No dia seguinfe o alabastro estava infeiramenfe cal-

cinado e era refirado do calor. Cada um de n6s fornava

então uma pesada mão de pilão, enchia de alabasfro um,

deposito ia destinado a esse fim, e punha-se a pilar. Não---,

era'frabalho que oferecesse dificuldade. O alabastro, friave[,.'

facilmenfe se esfarelava, e depressa se transformava num p

branco e brilhanfe ... Faziamos um barulho fão grande, a,

pilar, que nos proprios nos admiravamos. Quanfo mais au-a

menfava a fadiga, mais leves nos senfiamos, o sangue nos

subia ao rosto, a circula‡ão se acelerava. Almazovenf‚io nos , .

. olhava com a condescendencia que a genfe fem com crian-

cinhas, punha-se a fumar o cachimbo com ar indulgente, mos,,,

,não podia deixar de rosnar assim que abria a boca. Ali s,

,procedia desse modo com foclo o mundo; no fundo, falvez-

fosse um homem bom.

Ufilizaram-me depois para movimenfar a roda do forno;

era uma roda pesada e grande, que exigia g~ande esforqp

para ser girada, sobretudo quando o +orneiro (um sapador Oe

engenharia) fabricava um balausfre de escada para algÇ

funcionario, ou uns pes de mesa, o que exigia um +ronco de

rvore quase inteiro. Nesses casos, um Unico homem não fes.

ria for‡a suficiente para girar a roda; devam-me erifão corino

auxiliar o meu colega 13.. Fizemos esse frabalho varios anos

seguidos, focla vez que havia qualquer cou , sa para fornear.

13. era um rapaz doentio e magricela, mo‡o ainda, porem do-

enfe do peifo. Chegara ao presidio um ano anfes de mim,

com dois outros companheiros de inforfunio: um - um velhi-

nho que vivia a rezar, (o que lhe conquisfara a estima dos

for‡ados) morreu durante minha reclusão; o outro, robusto o

corajoso adolescente de cara vermelha, durante a caminhada

(quer dizer duranfe setecentas verstas), carregara as costas

o seu companheiro 13. que caira de fadiga, depois de me#4

jornada: valia a pena ver a afei‡ão que tinham um ao outro.'

B. era homem de fina educa‡ão, carafer nobre e generoso, ,

mas a doen‡a o tornava irrifadi‡o. Nos junfos consegu¡a- #

ILECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

137

mos fazer girar tf roda, e o exercicio nos interessava: eu o



considerava excelente para a saude.

Do que mais gostava era de limpar a neve depois das

borrascas, cousa frequente, no inverno. Bastava um dia para

que os turbilhões de neve cobrissem as casernas, as vezes ate

metade das janelas, ou então inteiramente. Assim, quando

o furacão passava e reaparecia o sol, enviavam-nos em bando

(aconfecia at‚ irmos todos) desimpedir os edificios escondi-

dos sob anevasca. Davam a cada um de n6s uma p6 e nos

marcavam uma tarefa, +ão grande que parecia impossival dar

conta dela. Todos se enfregavam alegremente ... labuta. A

neve quase em p6, ainda não umda, mal gelada na superficie,

elevava-se em montes enormes que iamos atirando por parto,

transformada em nuvens de poeira reluzente. As p s se en-

terravurri facilmente na espessura brilhante que luzia ao sol,

e os defentos gostavam daquele trabalho. O ar fresco, os

movimei,fo-

, lhes estimulavam as risadas, os ditos, as pilherias;

atiravam bolas de neve uns nos outros; mas ao cabo dum

instante os mais ajuizados, que detestavam o riso e a alegria,

punham-se a gritar e a anima‡ão. terminava geralmente em

desaforos.

pouco a pouco se foi ampliando o c¡rculo das minhas re-

11

la‡ões. Por mim proprio eu não as procurava: deixava-me



estar, inquiefo,,+risfe, desconfiado. A cousa se fazia sozinha.

O primeiro que me veio visitar foi Pe+rov. Falei "visitar'

o chamo a aten‡ão para o voc6bulo. P * e+rov pertencia ...

se‡ão especial, que ocupava a caserna mais afas+ada da mi-

nha. Nenhum la‡o, evidentemente, poderia existir entre n6s,

nada +inhamos nem poderiamos absolutamente ter em comum.

Entretanto, nos primeiros tempos, Pe+rov assumiu a obi-lga‡ão

de ir diariamente me procurar no meu alojamento, ou então

me deter durante os passeios, quando eu andava por +ras

dos edificios, o mais longe possivel de +odos os olhares. Suas

visi+as a principio me eram desagradaveis, mas de W modo

se portou ele, que em breve Ia as considerava uma dis ¡ra‡ão,

embora ele não fosse nada comunicativo. De estatura media, #

138 DOSTOIEVSKI

a

consfifui‡ão robusta, movimenfos faceis, com um rosto p‚ili-



do bastante agradavel, pârnulos salienfes, olhar crtrevido,

denfes pequenos, brancos e muito umdos, ele mascava in-

cessantemente um pouco de tabaco, rolando-o entre a gen-

giva e o labio inferior, - habito cultivado por muitos dos

presos. Parecia mais jovem do que o era: tinha quarenta

anos e a gente lhe dava frinfa. Falava comigo, sem o me-

nor consfrangimenfo, e se portava como meu igual, mostran-

do todavia composfura e delicadeza. Se, por exemplo, no-

fava que eu desejava estar s¢, deixava-me dentro de dois

minutos, 'agradecendo-me a simpatia que lhe fesfernunhava,

- cousas que decerfo jamais dissera a alguem, desde que

estava no presidio. E, curioso, essas nossas rela‡ões se man-

tiveram assim, durante varios; anos, sem nunca se fornarem

mais ¡nfimas, embora Pefrov me tivesse sincera afei‡ão. Ain-

da hoje, eu não seria capaz de definir exatamente o que

vinha ele procurar ao meu lado, e qual a razão que me pro-

porcionava a honra cotidiana da sua visifa. Aconfecia-lhe

roubar-me, "sem querer", no entanto, e quase nunca me pe-

dia dinheiro empresfado: não era portanto o inferesse que

o impelia.

Nem sei bem por que, mas ele n3o me dava a impressão

de viver no nosso presidio, e sim longe, na cidade - fal era

o seu jeito de aparecer como que por acaso, para saber no-

ficias, indagar do que era feito de mim, pedir informa‡ões

sobre a nossa maneira de viver. Chegava sempre com o

ar de alguem que deixou suspenso um negocio impor+anfe.

,E confudo, não se apressava absolufamen+e a sair. Seu olhar,

um pouco afrevido e zombeteiro, tinha uma estranha fixidez.

Olhava de longe, por sobre os objetos, como para distinguir

o que ficava para alem das cousas. Parecia sempre disfraido.

Algumas vezes eu r)ergunfava a mim proprio: "Para onde

ir Pefrov quando sair daqu¡? Onde o esperam com fanfa

impaciencia?" E ele ia apenas para um dos alojamenfos ou

uma das cozinhas, e Ia, aproximando-se dum grupo que con-

versava, escutava com aferi‡ão, exaltava-se, dava um aparte,

depois calava-se de sUbito. Mas quer me falasse, quer fi-

O

I

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS



V

1 139


#

casse em silencio, via-se claramenfe que se defivera de

passagem, que tinha outros interesses ‚ sua espera. O mais

esfranho 6 que ele rigo tinha nunca a menor ocupa‡ão: não

absolufamenfe nada (afora o trabalho obrigatorio, e

claro) não enfendia de nenhum oficio, não possuia quase nunca

dinheiro, o que ali s não o enfrisfecia. E sobro que me fa-

lava? Sua palestra era quase fão estranha quanfo a sua

pessoa. Se me via a andar no patio, por fr‚is das casernas,

dava uma s£bita meia volfa para chegar ao meu lado. Ca-

minhava sempre em grandes passadas, e aquelas meias volfas

eram tão r pidas que davam a impressSo dum inicio de

corrida:

Bom-dia!


Borri-dial

Não estou atrapalhando?

De modo algum!

Escute. quero lhe fazer uma pergunta a respeito de

Napoleão III.  parenfe daquele que esfeve, na Russia em

1812? (Pe+rov, antigo soldado, sabia ler e escrever).

- Sim, ‚ sobrinho.

- E por que então o chamam de presidente? Como

pode ser isso?

Fazia sempre indaga‡ões repentinas, como se realmente

tivesse urgencia em se informar o mais rapidamente possivel

sobre aquele assunto, fão importante que não poderia folerar

nenhum afraso.

Expliquei-lhe que especie de presidente era Napoleão, e

acrescenfei que decerfo em breve seria imperador.

- Como?


Expus a cousa na medida do possivel. Pe+rov escutava

com aten‡ão intensa, o ouvido inclinado para mim, e com-

preendendo tudo com grande rapidez.

- Hum! Tambem queria lhe pergunfar, Alexandr Pe,

frovitch, se 6 verdade o que contam, que h6 macacos do +a-

manho de homens, com bra‡os que tocam na ponta dos pes?

- Sim, ‚ verdade.

- ~E como ‚ que eles são?

I #

140 DOSTOIEVSKI



Dizia-lhe o que sabia a respeito.

- E onde e que vivem?

- Nos paises de clima quente, na ilha de Suma+ra.

- Fica na Am‚rica, não ‚2 La onde dizem que as pes-

soas caminham de cabe‡a para baixo?

- Não e de cabe‡a para baixo ... são os arifipodas ...

1

E eu lhe explicava o que são a America e os ant¡podas.



Ele me ouvia com a mesma aten‡ão, como se so me houvesse

procurado para saber daquilo.

- A prop¢sito, diga-me uma cousa: li no ano passado

a his+oria da Condessa de Ia Valliere. Foi o ajudante Are-

fiev que me empr‡s+ou o livro.  his+oria de verdade ou in-

ven‡ão? O autor se chama Dumas (4).

-  claro que e inven‡ão.

- Então afe a vista, e muito obrigado.

E Pe+rov desaparecia. A falar verdade, quase nunca

conversamos de outra maneira.

Tomei informa‡ões a seu respeito. Quando soube das

nossas rela‡ões, M. me advertiu: afirmou-me que se muitos

for‡ados lhe haviam provocado horror, sobretudo de inicio,

nenhum (nem mesmo Gazine)- o impressionara fanfo quanto

Pe+rov.

-  o mais ousado, o mais fernivel dos bandidos, avisou-



me -ele.  capaz de tudo, nada o defern quando quer sa-

fisfazer o minimo capricho. Não hesifaria em o degolar, se

lhe desse na veneta; sim, e homem para o assassinar, sem um

esfremecimenfo, sem remorso algum. Suponho at‚ que ‚

meio louco.

Essa declara‡ão me inferessou muito. Mas M. não foi

capaz de me explicar as razões de tão implacavel conceito.

E, cousa curiosa, depois disso avistei-me com Pefrov e con-

versamos quase diariamente, porque ele na verdade se afei-

‡oara a mim, nunca eu o soube por que. Levava vida sossega-.

da, não cometia nenhum ato repreensivel, e entretanto,

(4) Engano talvez do Autor, porque Dumas não escreveu romance nenhum ~

esse t¡tulo. Decerto se trata dum p‚ssimo livro de Mme. de Cenlis, "La Duche~se de

Ia ValliŠre" (1804), que foi traduzido com grande sucesso para o russo. Gogo) refere-se

tambem a ele. V. "Almas Mortas". 1.8 parte, cap. X. (N. de H. M.)

Ik

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS



141

cada vez que ele se aproximava, eu não o podia olhar nem

lhe falar sem pensar que M. dissera a verdade, que Petrov

era o homem mais fernivel, o mais intrepido, o mais dificil #

i i

de dom~nar do presid*c infa*ro. E por que pensava eu isso?



Não o sei absolufamenfe.

Esse Petrov era precisamenfe o for‡ado que quisera

matar o maior, quando ochamararri para sofrer os a‡oites.

J confei que o maior - salvo por milagre, segundo a ex-

pressão dos defenfos - refirou-se exatamente no momento

que precedeu a execu‡ão do castigo. Quando ainda era ho-

mem livre, e soldado, Petrov foi espancado pelo coronel du-

ranie uma manobra. Decerto j lhe haviam batido basfarifes

vezes, antes, mas daquela vez Pefro~, não estava disposto a

aturar pancadas, e se afracou com o coronel abertamente,

a luz do sol, diante de toda a tropa em formatura. Ignoro os

detalhes da hisforia, porque ele nunca a contou a mim. Toda-

via, essas explosões onde a sua natureza real aparecia a nu

eram raras; mosfrava-se em geral razoavel e pacifico. Suas

paixões ardiam forfes, indornaveis, contudo uma pouca de

cinza cobria aqueles carvões em brasa. Jamais observei em

Pefrov, como ern inumeros outros for‡ados, uma sombra de

vaidade, de farifarronada. Brigava raramente, não tinha ami-

zades com ninguem, salvo com Siroffine, e, apenas, quando

dele precisava. Entretanto, vi-o desa 1 finado um dia em que

lhe recusaram algo que reclamava. Seu antagonista era um

condenado civil, Vassili An+owv, especie de hercules, mau,

rixenfo, atrevido e nada covarde. Grifaram durante muito

tempo, e pensei que a briga acabaria como todas as outras

do mesmo genero, com simples bofetões, porque Pe+rov as

vezes +ambem brigava a murros, como o derracleiro dos gales.

Mas a cousa de subifo tomou um aspecto diferente: Pefrov

ficou l¡vido, seus labios tremeram, azularam, a respira‡ão

fornou-se ofegante. Endireifou-se devagar, muito devagar,

e sem ruido, (no verão gosfava de andar descal‡o) aproximou-

se de Anfonov. Instantaneamente o arruido da caserna deu

lugar ao silencio: ouvir-se-la o vOo de uma mosca. Todos

esperavam. An+onov saltou contra Pefrov, que ia não tinha

o

i I #



142 DOSTOIEVSKI

mais cara humana ... Não pude suportar a cena e sal. Tinha

certeza de que quando chegasse ... porta, ouviria o esterfor

dum homem sangrando. Não houve nada, porem. Antes que

Petrov o agarrasse, Antonov lhe atirou sem dizer palavra o

objeto em lifigio - um misero farrapo. , Depois de dez

minutos Anfonov se pos a praguejar, mas não muito, simples-

mente por descargo de conciencia, para não derrogar habitos,

para mostrar que não tivera medo. Quanto a Petrov, não

concedeu -a minima imporfancia ...s pragas do outro, nem

mesmo os ouviu. Palavreado não o inferessava; recuperara

o farrapo da que carecia, guardara-o consigo, o resto pouco

importava. Um quarfo de hora depois ele vagueava como

de h6bifo, com ar sossegado, a procura de um grupo onde

dissessem cousas interessantes, e onde pudesse dar um pai-

pite. Tudo parecia inferessa-lo; e, entretanto, mantinha-se

indiferente a tudo, e arrastava incessantemente a sua indo-

lencia dum lado a outro do presidio. Poderia ser comparado

a um desses operarios vigorosos, devoradores de trabalho,

n¡as que se senta e se põe a brincar com crian‡as, enquanto

espera a tarefa. Jamais compreendi por que ele se deixava

estar ali, por que não fugia. Pe+rov não hesitaria em se

evadir - bastava apenas lembrar-se disso. A razão s6 go-

verna entes como Petrov enquanto a vontade dorme dentro

deles, porque quando desejam qualquer cousa, nada lhes serva

de obs+aculo. Tenho convic‡ão de que ele saberia fugir e

enganar todo o mundo, e passar depois uma semana sem comer

no meio da mata, ou nos juncais da margem do rio: mas, evi-

denfemente, ainda não tivera nem o desejo nem a id‚ia disso.

Nunca observei nele nem um raciocinio sOlido, nem muito

bom-senso. Gente dessa especie nasce com uma id6ia qual-

quer que os atira dum lado para outro, sem que eles o enten-

dam bem. Vagueiam assim, enquanto não encon+ram algo

que lhes desperta uma violenta cobi‡a; porem, chegado o mo-

menfo, não regateiam riscos. & me espantava ...s vezes por

ver aquele homem - que, para vingar-se duns a‡oites, assas-

sinara o coronel - suportar tão docilmente as varas. Porque

ele era a‡oifado foclei vez em que o apanhavam a introduzir

f‚

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS



qt sa ' qual se aventurava de tempos em

aguardente, empre a

tempos, como todos os desocupados. Dobrava-se sem pro-

testo para receber o vergalho, como se se reconhecesse cul-

pado. De outra maneira, preferiria deixar-se matar a dei-

xar-se- a‡oitar. Espantava-me fambem que, a despeito da

sua visivel afei‡ão por mim, não se abstivesse de me roubar. #

Aquilo o assaltava como um acesso de tosse. Foi assim que

roubou minha Biblia, que lhe pedira para guardar no meu

lugar. Embora ele precisasse dar apenas alguns passos para

me fazer esse favor, achou meios de descobrir um compra-

dor, vender a Biblia e beber o dinheiro. Decerto tinha na-

quele instante um violento desejo por bebida, desejo que era

mister satisfazer de qualquer maneira. Nesses momentos,

uma criatura como ele e capaz de assassinar um homem por

uma moeda de vinte e cinco copeques, umcamente para

obter vodca. Em qualquer outra ocasião, desdenharia cem

mil rublos. Na mesma noite confessou-me o roubo, mas sem

a minima confusão ou remorso, com absoluta indiferen‡a,

como se se tratasse dum acidente ordinario. Tentei ralhar com

ele um pouco, porque a Biblia me fazia falta. Ouviu-me sem

se zangar, calmamente, reconheceu que a Biblia e um livro

utilissimo-, e lamentou, sinceramente, a perda que eu sofrera,

sem, contudo, se arrepender do seu roubo. Olhava-me com

tanta seguran‡a, que parei com minhas censuras. Ele as to-

lerara-, considerando certamente que por seu ato as merece-

ra, que os desaforos aliviam a alma, que no fundo, porprn, um

homem de juizo não pode se prendera fais.ninharias. Creio

al s que ele me considerava como um garotinho, que nada

entende das cousas mais simples deste mundo. Se, por exem-

plo, lhe come‡ava a falar de outra cousa que não fosse ciencia

ou livros, ele me respondia, apenas por simples delicadeza,

com algumas palavras rapidas. Muitas vezes perguntei a

mim proprio o que o interessava nesses livros sobre os quais

me interrogava. Acon+ecia-me, durante as nossas conversas,

olh6-lo de vies para verificar se o homem não estava zom-

143

a #


144

DOSTOIEVSKI

bando de mim. Mas não, escutava muito a serio, emb¢ra

com uma aferi‡ão pouco constante, o que ...s vezes me abor-

recia. Fazia suas perguntas com clareza, com precisa*, e

não se mosirava nunca nem surpreso nem embara‡ado com

as explica‡ões que lhe dava. Sem duvida se convencera de

uma vez por todas de que não deveria falar comigo como

aos,oufros, e que, fora dos livros, eu de nada entendia.

Tenho, contudo, certeza de que me queria bem, e isso

sempre me admirou. Tomava-me por um rrwnino, por um

homem incompleto, sentia em rela‡ão a mim essa especie de

compaixão que os fortes sentem pelos fracos? ... não sei

Mas seus sentimentos, quaisquer que fossem, não o impediam

de me roubar, e estou certo de que ele tinha pena de mim

no momento em que perpetrava o furto. "Ora, afinal de

contas isso o ensinar6 a +ornar conta das suas cousasi" diria

talvez, na ocasião. Mas 6 possivel tambem que gostasse de

mim justamente porque eu não sabia cuidar das minhas cou-

sas. Declarou-me ate uma vez, como involun+ariamente, que

eu tinha "a alma boa demais". "Voce 6 tão simples, +ao

simples, que at‚ causa c16! Porem não se ofenda, Alexancir

Petrovitch, acrescentou logo depois; disse isso sem m6 in-

ten‡ão."


Individuos da especie de Petrov tem as vezes oporfuni-

dade para aparecer bruscamenfo, totalmente, nos momentos

de perturba‡6es, de revolu‡ão. Como não +em o dom da

palavra, não são nunca inspiradores: são os executantes, fazem

as cousas andar. Agem com toda a simplicidade e sem ruido:

são os primeiros que se atiram aos obstaculos, sem reflexão,

sem receio; jogam-se contra as baionetas, e cada um 'ap6s

ele se precipitam cegamente ate junto ...s muralhas, onde em

geral perdem a vida. Não creio que Petrov acabe bem:

morrera um dia ou outro de morte violenta: isso ainda não

lhe aconteceu porque não houve ocasião. !E quem sabe,

afinal, se não lhe chegarão os cabelos brancos, e ele morre

pacificamente de velhice, depois de vaguear pelo mundo

sem destino? Entretanto, na minha opinião, M. não errava

ao considerar Pe+rov o mais +ernivel habitante do presidio.

7:

4



O

V

Vill #



facinora

10 Luka


ao ‚ facil falar dos "facinoras", que alias eram tão N poucos no presidio quanto em qualquer outra parte.

Tem. aspecto de homens ferozes: e pensando nos

horrores que lhes são atribuidos, a gente os evita. De inicio

um sentimento irresistivel me obrigava a fugir deles.* Com o

,tempo, meu modo de julgar modificou-se muito, mesmo a

respeito dos piores bandidos. Ha c.&fo individuo que nunca

matou ninguem, contudo e mais de temer do que um outro

cuja conciencia es sobrecarregada, por seis crimes. H6 de-

litos que a gente dificilmente concebe, tal a estranheza da sua

realiza‡ão, e e por isso que afirmo que, no nosso povo, certos

crimes tem as causas mais surpreendentes.  muito comum,

por exemplo, este tipo de assassino: um mul¡que, um criado,

um ar+esão, um soldado, at6 então vivendo sossegadamente

e suportando com resigna‡ão a sua sor+e-, de repente, como

I

I , #


146.

DOSTOIEVSKI

se qualquer cousa se abrisse denfro de si, sente que a sua

reserva, de paciencia acabou e enfia uma faca no peito do

seu opressor ou do seu inimigo. E e esse o pgnfo de parficla

de uma nova exisfenc~a. Daquele momenfo em dianfe o

nosso homem perdera focla no‡ão de medida. Da primeira

vez matou o seu f irano, o seu inimigo; e um crime, porem com-

preensiveLcuia causa e evidenfe; depois, ia não mafa inimi-

go nenhum, mas o primeiro franseunfe que enconfra, e o

que ‚ pior, pratica aquela fa‡anha por prazer, por causa de

uma palavra aspera, um olhar desagradavel, para complefar

a sua confa, ou simplesmenfe para confirmar o seu grito de

guerra: "Torna cuidado, olha que vou passando!" Dir-se-6

um bˆbedo ou um louco furioso. Uma vez que transp"s a

linha fatal, parece comprazer-se com a id‚ia de que nada

mais lhe e sagrado. Parece que esta impaciente por saltar

sobre qualquer lei, qualquer barreira, e gozar de uma li-

berdade sem limites, duma liberdade fão desenfreada que a

ele proprio apavora, deixando-lhe o cora‡ao tremulo e parado.

E senfe ali s que um castigo implacavel o aguarda. Suas sen-

sa‡ões lembram talvez a dum homem que, debru‡ado no alto

duma forre, sofre a vertigem da alfura at‚ querer se atirar

dali, de cabe‡a para baixo. As criafuras mais pacificas, mais

insignificarifes, são as vezes presas desse delirio. Depois do

primeiro impulso, compõem então uma atitude. Quan+o mais

o homem se sente aviltado, mais se ergue, mais procura

causar pavor. Goza aquele pavor, goza a repugnancia que

provoca nos outros.  uma especie de desespero que o im-

pele; arde por acabar com tudo, por ver resolvida a sua sina,

por ser castigado, para não ter que carregar sozinho o fardo

da sua iniquidade, o fardo esmagador do seu desespero.

Cousa espanfosa: essa exalfa‡ão o man+Bm em geral ate ao

pelourinho: mas, então, desaparece, como se houvesse anfe-

cipadamen+e marcado um prazo para findar. No pelouri-

nho,.o homem se acalma repentinamente, anula-se, forna-se

um farrapo; choraminga, pede perdão a +urba.' E quando

afinal esta no presidio, ninguem diria que aquele chorão, aque-

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

147


le baboso, aquela criatura apavorada foi capaz de matar

cinco ou seis pessoas.

 claro que alguns dentre eles não se acalmam tão

depressa. Conservam ainda certo ar de bravata, certa fa-

fuidade: "Olhemque nSo sou bem o que imaginam! Tenho

seis mortes nas costas". Todav ia acabam submetendo-se, #

de quaquer maneira. De tempos em tempos, consola-se, lem-

brando-se das suas fa‡anhas e dos desregramen+o¡ de outrora,

dos tempos em que era -um "facinora"-, e se encontra um

basbaque, diverte-se em se pavonear confandg-lhe os feitos

passados. Procura, enfrefan+o, disfar‡ar essa necessidadei de

jactar-~e. E como se vigia, quanta prudencia usa, que re-

quin+es de amor-proprio, que displicencia na narrativa, que

sabia presun‡ão no fom, na minima palavra! Onde fera ele

aprendido aquilo tudo?

Durante um dos compridos serões dos primeiros fempos

de minha reclusão, deitado na farimba, desocupado e triste,

escutei certa vez uma conversa entre eles: carecido de ex-

periencia, +ornava o narrador por um celerado de alta enverga-

dura, por uma,alma de bronze. e chegava quase a zombar de

Pefrov. Luka Kusmitch, o - profagonisfa, sem outro motivo

senao O capricho, fizera o "servi‡o" com um maior. Luka

Kusmifch era aquele homenzinho de nariz afilado a quem ia

me referi. Embora fosse russo, nascera *na Ucrania, creio

que na condi‡ão de wrvo domestico. Emanava dele algo

de dominador, altivo: lembrava um passaro de pequeno por-

te, mas bem provido de bico e garras, visfo ser extraordina-

riamente suscepfivel. Ali s os defenfos, que tinham farc?

para homens, dedicavam-lhe precaria estima., Nessa noite,

sentado a beira do cafre, ele cosia uma camisa, pois seu ofi-

cio era costurar roupa branca. Tinha ao lado o seu vizinho

de tarimba, Kobyline, rapagão forte, est£pido, porem afetuo-

so e bom. Por causa da vizinhan‡a, Luka frequentemente

rixava com ele, a o tratava alfivamenfe, com uma ironia e

um despotismo dos quais o pobre Kobyline não se apercebia. #

S

148



DOS T(ki EV-SK I

-Nesse momento Kobyline tecia uma meia de 15% escutaAdO

distraidamente Luka. Luka falava em voz alta e clara: que-

ria ser ouvido por todos, mas fingia falar apenas a Kobyline.

- Pois eu, mano, fui mandado de minha ferra Tch ...

por vagabundagem, - come‡ou, enquanto puxava a agulha.

Faz muito tempo? indagou Kobyline.

Quando amadurecerem as ervilhas, fara outro ano.

Depois, chegando a K ... v, puseram-me na cadeia por uns

tempos. Ao chegar, verifiquei o pessoal. Estava Ia. co-

migo,uma duzia de rapazes, - todos da Ucrania, altos, fortes

como uns touros. ~E tão quietinhos! E, alem disso, a co-

mida não,valia nada. O maior manejava a rapaziada como

queria. Fiquei com eles um dia, dois dias, e vi logo que

tinham um medo danado do homem. Perguntei por que razão

eles punham o rabo entre as pernas assim que viam

aquele cretino. "Vai falar com ele!" foi o que me disseram,

rindo na minha cara. Fiquei calado. Pois fiquem sabendo,

pessoal, tinha Ia um sujeito engra‡ado, continuou Lu¡‡a aban-,

donando subitamente Kobyline, para se dirigir a todos. Essa

sujeito- contava como e que tinha sido julgado, que,6 que,

tinha respondido ao juri, e como e que choramingara falando

na mulher e nos filhos. Era um homenzarr...o, ia todo gri-~

salho. "E eu dizia: (ele que contava) Não, senhor, estou-

inoc.ehfe! mas o diabo do filho de uma cadela continuava ei.~

creve que escreve ... E então (ele que dizia), então tão

certo como eu estou inocente, tu vais +e estrepar, miseravel!

E o bandido sempre na porcaria da escrita! Então fiquei

louco (ele que dizia)" Vassia, me da linha. Esta est

R_Ore.


1 - Pois vem da cidade, respondeu Vassia es+endendo-lhe

o,novelo de linha.

1 - A linha que temos na oficina e melhor. Esta daqu¡

~ * o novall¡do que traz; va Ia alguem saber de que marafona

compra linha! continuou Luka erguendo a agulha para a

luz,- a-Fim de a enfiar.

I #

F

O 1



O

I a",


I

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

- Decerfo em casa da comadre delei

- Decerto.

- E então, que foi que aconteceu com o maior? per

151


guntou Koby1ine, que j6 estava complefamente esquecido.

Luka s¢ esperava por isso. Entrefanfo,.não voltou ime-

diafamenfe a hisforia, nem parecia mesmo presfar'afen‡ao

a Kob line. Primeiro enfiou vagarosamente a agulha, cruzou

displicenfam ente as pernas e fornou afinal:

- Tanto aperreei a rapaziada da Ucrania que eles aca-

baram fazendo com que o maior aparecesse. Dp manhã, eu

tinha abafado uma faquinha dum companheiro e a escondera,

para o que desse e viesse. E o maior chegou feito uma

fera. Eu então falei: "Escutem, voces que são da Ucrania,

nada de rabo enfre as pernas!" Mas ia esfavam todos mor-

rendo de medo. O maior veio aos gritos, bebedo como

uma vaca: "Quem foi que me chamou? Que esfa se pas-

sando aqu¡?  a mim que procuram? Sabem que aqui eu

sou o fsar, sou Deus" - então, enquanto ele dizia que era o

fsar, que era Deus, prosseguiu Luka - eu me adiantei, cofri

o punhal na manga da blusa. "Não, Excelencia, sou eu que

lhe digo.." e enquanto isso, ia me chegando de manso,

perfinho, cada vez mais perfinho. . . "Não. não ‚ possivel,

Excelencia, como ‚ que o senhor poderia ser nosso fsar e

nosso Deus?" - "Ah, berrou o maior, então es tu o cabe‡a?"

- "Não, disse eu, e me aproximei ainda mais - não, Exce-

Iencia, exisfe apenas um Deus Onipo+enfe, que esfa em focla

parte. E quanfo ao nosso +sar, Excelencia, temos apenas

um, e foi Nosso Senhor em pessoa que o colocou por cima

de todos n6s. Esse e que e o nosso senhor, sou eu que lhe

digo. E quanfo ao senhor, Excelencia, ‚ apenas nosso maior,

nada mais, e isso pela gra‡a do fsar e dos seus meritos."

- "O que? o que?" gaguejava o horriem; não podia mais

nem falar, nem voltar a si. Isso mesmo!" repeti. E pluf!

enferrei-lha o punhal af‚ o cabo, bem no meio da barriga!

Foi uma furada e tanto! O desgra‡ado caiu ali mesmo, s6

fez ciscar um pouco com os p‚s. E eu atirei fora a arma a #

grifei para os rapazes:

i

"k #


152

DOSTOIEVSKI

- Agora, meus pafricios, me apanhem aquele punhal t

..........................................1

Devo fazer aqu¡ uma ligeira digressão. Infelizmenfe as

palavras "Sou o Deus aqu¡, sou o isar'', eram empregadas cjm

muita frequencia, antigamenfe, por cerfos chefes milifares.

Devem¢s reconhecer que hoje resfam poucos dessa especie,

ou talvez nenhum.  preciso confessar fambem que * esses

,que se jactavam assim provinham em geral da tropa. Os

galões de oficial os enchiam de vento, firavam-lhes a cabe‡a

do lugar. ' Depois de muitofempo, de pra‡a, viam-se de re-

pente promovidos a oficiais, a fidalgos. E e logico que, por

falfa de h6bifo, na primeira embriaguez do exifo, 'exageravam

a imporfancia do proprio poder, - claro que apenas em rela-

‡ão aos subordinados. Porque em presen‡a dos superiores

conservavam o mesmo servilismo - j agora inufil e afˆ

mesmo desagradavel. Alguns levavam a obsequiosidade ao

ponto de dizer ao chefe, num tom singularmente meloso, que,

como haviam passado por fcdos os posfos subalfernos, sabiam

conhecer o seu lugar. , Mas, com os pequenos, tiravam a sua

forra, e se portavam com um despotismo inaudito. Não,

decerto j não h mais sujeifos capazes de grifar: "Sou o

fsar, sou Deus". E, confudo, devo observar que nada irrita

fanfo o defento ou qualquer outro subalterno como seme-

lhanfes expressões, partindo dum chefe. , Essa fatuidade,- essa

falsa convic‡ão de impunidade, desperta o odio no mais

submisso dos homens e o leva ao desespero. -  uma sorte

que abusos dessa especie estejam quase desap recidos; ali s.

mesmo nos fempos antigos, havia medidas severas contra

os culposos de +ais faltas. Conhe‡o mais de um exemplo.

Em geral. nada irrifa mais os subordinados que se verem

frafados com desprezo. Certas pessoas supõem que alimen-

fando e tratando os presos de acordo com a lei, ia fizeram

o basfante.  fambem um erro. Por mais aviltado que es-

'feia, fodo individuo exige. insfinfiva mente o respeifo pela sua

dignidade de homem. Sabe que e um gale, um reprobo, co-

nhece a distancia que o separa dos seus superiores, mas nem

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

153


as grilhefas, nem as cicatrizes do knuf lhe fazem esquecer que

‚ um homem. E j que ‚ um homem, deve ser tratado como

tal. E ai, meu Deus! um frafamenfo "humano" pode soer-

1---- --- JUL215 U 3 ~S; U- --- i_ - - - _.

aparece empanada!  precisamente com esses desqra‡ados #

que nos devemos portar o mais humanamente possivel, por

amor de sua salva‡ão e de sua alegria. Encontrei chefes

dotados de grande cora‡ão e vi o efeito que eles produziam

sobre o~ humilhados. Com algumas palavras afaveis, res-

suscifa~am moralmenfe os seus homens. Ouvindo-os, os de-'

tentos se alegravam como crian‡as, e como cri"‡as se pu-

nham a adora-los. Fa‡o notar aqui que o for‡ado não apre-

cia, da parte do chefe, nem a condescendencia, nem a fa-

miliaridade exagerada. Aquilo o leva a irreverencia - a ele,

que tem fanfa necessidade de respeitar. O preso sen+e-se

orgulhoso, porexemplo, se tem um chefe condecorado, boni-

fo, bem reputado; gosta dele severo, impodante, jusfo, digno.

Gos+a de um chefe que sabe o que vale, porque um homem

desses não ofendera nunca a ninguem, e tudo correra da

m,-3!hor n, aneira.

- E então por causa disso te cozinharan-l a fogo bran-

do, heiri? perguntou calmamente Kobyline.

- Sim, realmente me cozinharam, mano velho, me cozi-

nharam de verdade. Ali, passa-me a tesoura! Escuta, pessoal,

não h maidane hoje?

- J foi tudo bebido, explicou Vassia: se a sede não

fosse tão grande, decerto havia maidane!

- Sim, sim! Em Moscou pagam os "sim" a cem ru-

blos o alqueire, zombou Luka.

- Mas quan+os +e deram pelo "servi‡o" no maiar? insis-

fiu Kobyline, obstinado na sua ideia.

- Quinhen+os a‡oites, maninho. Porem declaro ao pes-

soal que se eles não me mataram andaram bem perto, ex-

clamou Luka abandonando novamente Kobyline. Levaram-me

em procissão, para receber as minhas quinhenfas varadas. E

eu a+‚ então não sabia o que era um a‡oite. Juntou gente de

12

I

i #



154

DOSTOIEVSKI

toda parte, s~S se via o povareu correndo: "Vão a‡oitar o

bandido, o assassino!" Nem se pode mesmo dizer como o

povo e burro! O carrasco me despiu, me estirou, e gritou:

1 repl~-;£ o quS v,:~15 Ser G~----1_111 C,

e sabem o que aconfeceu? Quando bateu a primeira Iam-

bada, eu quis gritar, abrir a boca, mas não tinha voz. Perdi

a fala. Quando me deu a segunda, acredite quem quiser,

mas ouvi dizer: "Dois!" Dai, quando voltei a mim, ouvi

contar: Mezessetel" Depois disso, meninos, me levantaram

quatro vezes do cavalete para eu +ornar um pouco de f¢lego

e me atiraram agua fria por cima. Eu olhava para todos,

com os olhw esbugalhados, e pensava: "Hoje deixo o couro

'I"

aqui.


- E não morreste? perguntou ingenuamenfe Kobyl¡ne.

Luka o envolveu com um olhar de desdem absolu+o; es-

frondaram as gargalhadas.

Não se pode ser mais burro!

Esse tem uma aranha no miolo, escarneceu Luka, qu@'

parecia lamentar haver travado conversa com um individuo

daquela especie.

- , tem o miolo mole, concordou Vassia.

Luka. que tinha seis crimes na conciencia, rigo fazia medo

a ninguem; no entanto, gostaria de sier um "ferror".

Isai - Fornitch - O banho - A h¡storia

de BaMuchine

A proximava-se o Nafal. Os de+entos aguardavam as

festas com uma especie de solenidade, e, vendo-os, eu

não podia deixar de esperar como eles qualquer cousa

extraordinaria. Quatro dias antes, foram levados os presos

para o banho de vapor. No meu tempo, sobretudo durante

o primeiro ano, os de+en+os raramente se banhavam. Todos,

portanto, se alegraram e iniciaram os preparativos. Devi-

amos ir para o banho depois do rancho e naquela tarde não

haveria trabalho. Na nossa caserna nenhum se afanava tanto,

nenhum se alegrava tanto quanto Isai Fomitch Bumchfein, o

preso judeu de quem ia falei no capitulo IV. Ele gostava

de transpirar ate ao espasmo, ate ao desfalecimento. Cada #

156 DOSTOIEVSKI

vez que hoje em dia volvo ...s velhas recorda‡ões, quando

evoco as estufas (e elas merecem esse frabalho'I) no primeiro

plano do quadro aparece imediatamente o rosto do diqno,

do inesquecivel Isai, meu camarada de presidio e meu vizi-

nho de alojamento. Senhor, que grofesco inexprimivei que

era! J disse algumas palavras sobre o seu'aspecfo: cin-

quanta anos, debil, enrugado, com horrendos estigmas na

fronfe e nas faces, magro, doentio, um corpo livido de frango.

Se[i rosto exprimia uma perpetua satisfa‡ão consigo proprio,

uma auto-suficiencia quase beatifica. Não parecia lamentar

seu destino. Como era ourives de profissão e na cidade

não havia nenhum oufro, trabalhava incessantemente para os

funcionarios e ate mesmo para particulares, o que lhe rendia

algumas moedas. Não lhe falfava nada, vivia "corno rico",

sem todavia gasfar demais do seu dinheiro, *que era empres-

fado com usura ao presidio todo. Possuia um samovar,, um

colchão, chicaras e talheres. Em vez de o renegarem, os

judeus da cidade o protegiam. Nos s bados, e!~,- ia com as-

colfa ao servi‡o da sinagoga, (como o autoriza a lei). Vivia

in+eiramen+e feliz, embora esperasse com impaciencia o fim

dos seus doze anos de pena, para "casar-se". Era uma c"mi-

ca mescla de ingenuidade, tolice, astucia, imperfinencia,

simplicidade, timidez, fatuidade e imprudencia. Surpreendia-

me muito ver que os for‡ados não o levavam a rid¡culo:' ape-

nas implicavam com ele de tempos em tempos, de brincadeira.

Isai Fomifch lhes servia de perpetua dis+ra‡ão: "S6 temos

este aqui, deixem-no em paz!" diziam. E Isai Fomitch, embora

compreendesse por que diziam aquilo, ficava ufano com a

sua notoriedade, e nada divertia mais os presos. Fizera sua

entrada no presidio de maneira extraordinariamente engra‡a-

da (isso sucedera antes da minha chegada, mas alquem me

contou). Certa noite, na hora do descanso, espalhou-se o boa-

+o de que haviam trazido um iupim (1) para o corpo da guar-

da, que lhe estavam raspando a cabe‡a e em breve aparece-

ria. O presidio não confava dentro das suas paredes, então,

(1) judeu. (N. de R. Q)

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS 157

i

nenhum judeu; e os defentos, que o esperavam com ¡mpacien-



cia, cercaram-no logo que ele surgiu a entrada. O sub-c,ficial

conduziu-o a pri~So civil e lhe mostrou o seu lugar na tarimba.

Isai Fomifch carregava um saco com pe‡as de umforme e os

seus proprios objetos. Dep"s o saco, subiu a tarimba, sen-

fou-se, com as pernas dobradas sob o corpo, sem ousar le-

vantar os olhos para ningt~em. Ao seu redor, os for‡ados es-

frugiam em gargalhadas, dizendo pilherias sobrie a ra‡a do #

nova+Q. De repente um jovem defenfoi que tinha nas mãos

uma *velha cal‡a suja, rasgada, r-emen~ada com farrapos,

atravessou o grupo, fornou lugar,ao lado de ]sai Fomifch e

ãp bateu no ombro:

- Ah, meu velho, ha seis anos que te esperol Quanto

me d s por isfo*? -, œ mostrava a cal‡a velha ao recem-

chegado.


Assim que viu o penhor que lhe apresentavam, Isai Fo-

mitch, - tão intimidado antes que nem ousava dizer pala-

vra, ou erguer os olhos para a turba de rostos zombeteiros,

fer re+ea dos,, assustadores, reunidos ao se * u redor, - Isai Fo-

mitch e~strerneceu de chofre, e pOs-se a apalpar o farrapo

com os dedos ageis. Olhou-o a luz da candeia. Todos es-

peravam o que ele ia dizer.

- Decerto não vais querer emprestar um rublo por

isto; enfrefanto as cal‡as bem o valem! continuou o "presta-

mista" piscando o olho.

ainda vai!

- Um rublo-prata não posso; porem sete copeques

Foram essas as primeiras palavras de Isai Fornitch; todo

o mundoestalou em gargalhadas.

- Sete copeques! Bolas! Da de uma vez! Mas

cuida bem do meu penhor! Respondes por ele com fua

cabe‡a!

- Com +res copeques de juros serão dez que me ficas



devendo, prosseguiu o juc[eu em voz arquejante s trˆmula,

mergulhando a mão no bolso e olhando timidamente os #

158 DOSTO(EVSKI RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS 159

outros. Tinha um medo horr¡vel, contudo queria fechar o ne-

gocio!

_uo por ' 1 -5 ires =~------



- Não, por ano, não, por mˆs!

- s um ladrão, judeu! Como te chamas?

Isai Fomitch.

Pois bem, Isai Fomi+ch, has de vencer aqui! At‚ a

vista.

Isai Fomitch examinou mais uma vez o penhor, dobrou-o,



enfiou-o cuidadosamente no saco, sob a risada incessante dos

for‡ados.

E, com efeito, embora fossem quase todos seus deve-

dores, os defenfos pareciam gostar dele; ninguem o ofendia.

Alias, ele era menos capaz de enraivecer que um pinto. Quando

constatou os sentimentos que despertava, fez-se fanfarrão,

mas com bom humor, suficientemente cOmico para nSo agas-

far ninquem. Luka, que em outros tempos conhecera muitos

judeus. o espica‡ava frequentemente, mas sem animosidade,

apenas por distra‡ão, como a gente brinca com um cãozinho,

um papagaio, um animal ensinado. lsai Fomitch, que o com-

preendia bem, não se formalizava com aquilo e respondia na

altura.

- Toma jeito, ffipim, olha que +e dou uma surra!



- Por cada pancada que me deres receberas dez de

troco, replicava bravamente lsai Fomitch.

- Sarnen+o dos diabos!

- Que mal +e faz que eu seja sarrienfo?

- Jud-eu pioffienfo!

- Posso ser pio!hento mas tenho dinheiro. Tenho os

meus cobres! cantarolava lsai na sua fala ceceada.

- Vendilhão de Cristo!

- Isso mesmo!

- Bravo, Isai Fornifchi Não o estragues, Luka, que so

temos este! gritavam os defentos.

Siberia!


- O que tu esf s precisando e de knuf, judeu! Knuf e

- J estou na Siberia!

- Ir s ainda mais long~!

- Deus +ambem não esta l ?

- Bem, l isso esta ...

- Então não faz mal: tendo Deus e dinheiro, nada mais

‚ preciso.

- Bravo, Isai Fomitchi bem se vˆ que 'valentel

es um

bradavam de novo. #



E. a despeito das zombarias, Isai Fomitch continuava a

Ibrava+e...r, Os cumprimentos lhe causavam tanta satisfa‡ão

que ele se punha a cantar, atraves da caserna, numa voz debil

de soprano: "La-la-la" numa melodia cOmica e est£pida. En-

1~uan+o durou sua deten‡ão, não cantou nunca outra cousa,

afora essa mUsica sem letra. Mais tarde, quando travou conhe-

cimento mais intimo comigo, garanflu-me sob juramento que

aquele era o hino entoado pelos seiscentos mil hebreus - do

mais mo‡o ao mais velho - durante a f ravessia do Mar Verme-

lho e que todo israelita tem ordem de o cantar nos momentos

solenes de triunfo sobre o inimigo.

Toda sexta-feira a noite os presos das outras casernas

vinham para a nossa apreciar [sa¡ Fomi+ch a celebrar o sabbat.

iE ele era de uma vaidade tão ingenua que essa curiosidade

geral o lisonjeava muito. Com ex+raordinaria afeta‡ão e

uma majestade bsfudadas, cobria a sua mesinha, ao canto,

abria o livro, acendia duas velas e resmungando palavras mis-

teriosas, envergava uma especie de estola, (cujo nome não sa-

bia pronunciar) (2). Era uma especie de marifeau de 13 colorida

que ele conservava cuidadosamente no bal.i. Punha nos pulsos

uns braceletes de couro, e na cabe‡a, segurando-a com um

cordSo, uma esp--cie de caixinha que parecia lho nascer da

testa como um como grotesco (3). E come‡ava, en13o, suas

devo‡Ees-, recitava lentamente, soltava gritos. escarrava dum

lado, piruetava, gesticulava de modo estranho e c"mico. Na

(2) O TVet ritual. (N. de P, QJ

(3) Trata-se evidentemente dos "tefilim" filacterais que os estritos observadores

da Lei judia amarram aos pulsos e ... testa, seguindo as prescri‡ões do Òxodo (Xili.

9 e 16) e do Deuteronornio (Vi. 8 - XI, 18). (N. de H. M.) #

161


160 DOSTOIEVSKI RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS i

realidade, o rifual que ele observava s¢ se tornava, ridiculo x

lhe ordenava que nesse momento mostrasse uma e pressão de

devido a exibi‡ão, aos ares que assumia. Cobria a cabe‡anobreza e felicidade perfeitas, ele tratou de obedecer,

en, as mSos e se punha a ler em vc7 c'~ sciu‡os,p;scando o oinio, rindo, e balan‡ando a cabe‡a para o visitante.

que iam aumenfando af‚ ao paroxismo; enfim, exhausfo, quaseE o maior, a prmcipio espantado, acabou rindo, e passou

uivando, inclinava sobre o livro a cabe‡a adornada com o taladiarife, chamando o judeu de idiota, enquanto Isai Fomitch

como; depois, parando de chofre os solu‡os arquejados, desa-prosseguia nos seus grifos de triunfo. Uma hora mais tarde,

fava a rir, e volfava a salmodiar em voz agora triunfante e enquanto ele ceava, pergunfei:

frˆmula de alegria. "Ele'acaba se desconjuntando!" diziam os - , E se o maior, est£pido como ‚,

se zangasse com vocˆ?

defenfos. - Qye maior?

Indaguei um dia de Isai Fomitch o que significavam os

seus solu‡os repentinamente interrompidos peila felicidade - O que! que maior? Então

não o viu?

triunfal. O judeu deliciava-se por lhe fazer essas perguntas. - Não!

Explicou-me, imediatamenfe, que o medo e os solu‡os eram - Ora, ele estava dois

dedos a frente do seu nariz!

provocados pela ruina de Jerusalem e por esse motivo a Lei Mas Isai Fomitch me

garanfiu formalmente que em abso-

ordenava que os fieis gemessem e batessem no peito com luto não se apercebera da presen‡a do

maior; suas ora‡ões

quanfa for‡a pudessem; mas, no insfan+e do mais violenfo da- o mergulhavam numa especie de

ˆxtase, e ele nada via nem

sespero.ele, Isai Fornitch, deveria de subifo e como inconcien- ouvia do que se passava ao seu redor.

temente (aquele de s£bito era +ambem prescrifo, pela lei) re- , Ainda hoje, parece que estou

a ver Isai Fomi+ch passar

cordar que uma profecia promete aos filhos de Israel a sua vol- o sabado infeiro vagueando pela

forfaleza, cuidando em não

+a para Jerusalem. Tinha então que manifesfar alegria com fazer nada, segundo as prescri‡ões

da Lei para o dia de sab-

cƒnticos e riso, dar a sua voz umaenfona‡ão de vivo prazer, e b.af. Que anedotas ¡mpossiveis que

ele me repetia quando vi-

ao rosto uma expressão solene. Essa mudan‡a repentina, essa nha da sinagoga, que noticias, que

boatos extravagantes, vin-

obriga‡ão indispensavel, encantava Isai Fomitch: via naquilo dos de Pefersburgei, - cerfo de que

os seus correligiona rios re-

uma obra-prima de engenho,.e me explicava com imenso orgu- cebiam de primeira mão tudo que lhe

con+avam!

lho essa prescri‡So sutil da Lei. Um dia; no momenfo, mais pa- Mas ia falamos demais em

Isai Fomitch.

fefico da sua ora‡ão, o maior enfrou no alojamento, em com-

panhia do oficial de guarda e dos soldados da escolta. En- A cidade possuia apenas

dois estabelecimentos de ba-

nhos. Um, mantido por um judeu, era reservado aos nofaveis,

quanto os demais for‡ados ficavam em confinencia defronte tinha cabinas de cinquenfa copeques.

O outro, destinado a

...s farimbas, Isai Fomitch redobrou a grifaria. Como o re-

plebe, era sujo, deteriorado, escuro. Era para Ia que nos leva- #

gulament" autorizava a pratica dos cultos, ele sabia que nao vam, num dia muito frio, mas de sol.

Os defenfos se alegra-

se arriscava absolutamente a nada; continuou a berrar como vam com a id‚ia de sairem do

presidic, e olharem a cidade, de

um possesso. Mas, o que mais o encantava, era ter o direito i forma que as brincadeiras e as

risadas não pararam, durante

de se esgani‡ar e gesticular assim diante do maior. Este todo o caminho. Um grande pelotão de

soldados nos escolta-

se aproximou, chegou ate a um passo de distancia do judeu. va, de armas embaladas, espanfando a

gente da rua. Quando

Isai Fomi+ch deu as costas a mesa e de p‚ diante do oficial, chegamos aos b&.~ihos, fomos

separados em dois grupos. Dada

entoou, gesticulando, o seu hino triunfal. Como a religião a esfreifeza ~e espa‡o, um dos

grupos esperaria no vesfibulo, #

162 DOSTOIEVSKI RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS 163

glacial, enquanto o outro se lavaria. Apesar disso, a sala era

tão minuscula que indagavamos como caberia ali a metade

's. Mas Pefrov n5o m-,:) leraave- sem escerar por consen-

timento de minha parte, acorreu em meu auxilio, e se ofereceu

ate para me esfregar. Seu exemplo foi seguido por outro for-

‡ado da se‡ão especial, Bakiuchine, que era chamado o "Ex-

plorador" e que me ficou gravado na lembran‡a como o mais

alegre e o mais agradavel dos companheiros. J eramos

conhecidos. Pe+rov ajudou-me at‚ a me despir, porque, por

falta de habito, eu andava devagar demais, e na antecƒmara

fazia quase tanto frio quanto no pafio. Um de+enfo novi‡o

sente geralmente enorme dificuldade em se despir sozinho.

Em primeiro lugar, ‚ preciso desatar depressa as correias queIk

prendem as grilhetas; são correias duns quatro verchok (4) de

comprimento que se usam em baixo da roupa branca, por

sob o anel de ferro que rodeia a perna. Embora um pcir

dessas correias custe sessenta copeques, cada for‡ado as

adquire por sua conta. pois de outra maneira ser-lhe-la im-

possivel caminhar: o anel da grilhefa não aperta muito, pode-se

ate introduzir um dedo entre ele e a pele; mas o ferro, batendo

de encontro a perna, acaba ferindo-a de tal sorte que ao fim

dum dia o for‡ado que não usa correias tem uma chaga

aberta no lugar da grilhefa. Ali s, a dificuldadie não come‡a

com as correias: come‡a com a ceroula, presa sob o anel de

ferro. Para desp¡-la, ‚ misfer ser prestidigitador.

Quando se fira a ceroula do p‚ esquerdo, por exemplo, e

preciso a principio ir puxando enfre o p‚ e o aro da grilhela;

depois, deixando livre o pe, vai-se erguendo a perna da ce-

roula ate o aro; quando o p‚ esquerdo asta livre, a ceroula e,

passada por baixo, para o pe direito; e afinal, pelo mesmo aro,

fira-se tudo para cima. E o +rabalho para vestir 6 o mesmo

que para despir. Um novato não sabe como h de fazer. O

primeiro professor que tive foi, em Toboisk, o for‡ado Kore-

niev, que passara cinco anos na corrente. Uma vez adquirido o

(4) O verchok ‚ uma medida equivalente a 4,445 cent¡metros. (N. de R. Q)

habito, a gente se arranja-sem dificuldade. Dei alguns cope-

quas a Petrov para que me comprasse sabão, e um dos peda-

cin~n-s de es+ong com

que nos disfriLam um peda‡o cle sabão a cada um, mas do

famanho de uma moeda de dois copeques e fino como as

fatias de queijo que servem nas mesas de gente pobre. Ven-

dia-se sabão na propria sala de entrada, bem como sbifen (5),

katafchi.e aqua fervendo. Segundo as conven‡~es es+abele-

cidas ‡om o proprie+ario, cada for‡ado tinha o direito a um

jarro cic, agua quente. Quem -fazia questão de se assear

melhor podia, mediante o pagamento de d¢is copeques,

adquirir um segundo jarro, que era passado da entrada para #

a sala de banhos por um postigo ia aberto para esse fim.

Depois de me despir, Pefrov me +ornou nos bra‡os, obser-

vando que seria para mim dificil caminhar com as grilhetas.

- Puxe o ferro para cima, para a barriga das pernas,

disse ele, segurando-me como uma ama segura uma crian-

cinha ... E aqui, cuidado com o degrau!

Eu estava envergonhadissimo com tantos cuidados, e

gostaria muito de mostrar a Pefrov que poderia andar so,

mas ele não me acreditaria. Tinha para comigo os cuidados

que a gente acha devidos a um menino pequeno e desa-

jeitado. Petrov n~o tinha nada dum lacaio, nem o procura-

va ser; se o ofendesse, ele saberia muito bem como se

portar. Eu nada 1.he prometera pelos seus servi‡os, e ele

nada me pediu. Que lhe inspiraria tanta solicitude?

Quando abrimos a porta da estufa, parecia-me que

entrava no inferno. Imagine-se uma sala de doze passos de

comprimento e outros tantos de largo, onde estav~m juntos

senSo uns cem homens, pelo menos oitenta. pois eramos du-

zen+os, divididos em dois grupos. O vapor nos cegava; o

sujo , a lama, a falta de espa‡oeram tais que n3o se sabia onde

por os pes. Assustado, eu quis recuar, mas Pefrov logo me

sossegou. Com dificuldade inaudita abrimos caminho ate"tim

banco, passando por cima da cabe‡a dos presos sentados

(5) Bebida feita com agua, mel e especiarias. Hidromel. (N. de R~ Q)

164


DOSTOIEVSKI

em baixo. aos qua¡s pediamos que se curvassem para nos dar

passagem. Porem todos os lugares estavam ocupados: Petrov

me explicou depois que, eu dwicri-- ccmrr,,r um, e entrou

fogo em. negocia‡ões com um defento sentado perto do pos-

figo. Mediante um copeque o homem me cedeu o lugar,

agarrou depressa a moeda que Pefrov ia tinha na mão, e es-

corregou, bem por baixo de mim, para o escuro e a sujeira

de sob os bancos: e embora ia se patinhasse ali na lama com

bem um dedo de altura, formigava de gente. Não havia

no piso espa‡o para a palma de uma s0 mão. Alguns for‡ados,

de cOcoras, despejavam sobre si a agua do jarro. Outros, de

p‚ entre os acocorados, seguravam o jarro com a das

mãos e com a outra se esfregavam. A agua suja € lhes

escorria do corpo, cata diretamente sobre as cabe‡as raspa-

das que ficavam por baixo. Os degraus que levavam aos

bancos estavam famEem fervilhando de homens que, enrob-

dos sobre si proprios, se banhavam o melhor que podiam.

Mas a lavagem era pouca; o homem do povo não abusa nem

da agua quente nem do sabão; procura suar tremendamente,

e, depois disso, se encharca de aqua fria - o que constitue

o seu me+odo de banhar-se. No banco, as vassouras de b‚-

+ula baixavam-se e se erguiam em cadencia. Uns cinquenta

for‡ados se fus+igavam uns aos outros ate ao esgotamento.

O vapor aumentava de minuto em minufo. Ja não se estava

num banho de vapor, mas numa fornalha. Todos berravam,

todos urravam entre o ranger da ferragem que batia no soa~

Ao passar, alguns agarravam a sua grilhefa na grilhela

do outro, batiam nas cabe‡as dos queestavam agachados em

baixo, calam, praguejavam, arrastando na queda aqueles aos

quais se agarravam. A agua imunda corria por toda parte.

Os homens ficavam numa especie de estranha bebedeira; os

uivos, os gritos, se cruzavam. No posfigo da entrada, por

onde passava a agua quente, a turba era ainda mais densa.

Al¡, as pragas e os empurrões eram mais +erriveis. Antes de

chegar ao seu destino, a agua quente se entornava na cabe‡a #

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

I

4



167

dos que estavam em baixo, de cOcoras. Re tempos em tem-

pos, na janela ou na porta entreaberta, um soldado barbudo,

com o fuzil na mão, verificava se não estava acontecendo

alguma cousa de anormai. As cabe‡as rdsp"das e c - cor-

pos vermelhos de suor pareciam - ainda mais monstruosos.

Nas costas, amolecidas pelo vapor, as cicatrizes do knuf ou

das varas sobressaiam com tanta nitidez que pareciam re-

cen+issimas. Horrendas cicatrizes! Dava-me arrepios sim-

111,


plesmente olh6-las. Tornavam a atirar agua sobre a pedra

ardente do forno, e um vapor espesso enchia a estufa como

uma nuvem chamejante. Todos ganiam, gritavam. Entre a

nevoeiro, apareciam dorsos remendados, cabe‡as raspadas,

dedos crispados de mãos em garra, pernas tortas. Para

completar o quadro, l¡sai Fomi+ch berrava o mais alto que

podia, trepado no banco mais elevado. Transpirava aM

desfalecer, porem calor nenhum lhe parecia bastante. Pagou

por um copeque um esfregador, mas o homem sem poder

mais atirou fora a vassoura e correu a se inundar de agua

fria. Isai Fomi+ch não desanimou: contratou um segundo,

um terceiro, sem encarar despesas, - chegou a cinco es-

fregadores. "Faz bem suar, remo‡a, hein, Isai Fomi+ch?"

bradavam-lhe os for‡ados de baixo. Naquele momento Isai

Fomi+ch senfia-se acima do presidio inteiro: mais alto que

todos os for‡ados, pavoneava-se, e, com voz rachada, esga-

ni‡ava um Ia-la-la que tinha for‡a suficiente para cobrir to-

das as vozes. Ocorre-me que se um dia tivermos que nos

reunir todos no inferno, - 16 ha de ser muito parecido corri

o lugar onde nos encontramos agora. Não posso deixar de

comunicar esse pensamento a Pe+rov, - ele, entretanto, olha

apenas em +orno de si, e não responde.

Quis pagar 1 para ele um lugar configuo aquele em que

estou, mas Pe+rov se instalou aos meus pes e declarou que

estava muito bem. Enquanto isso, Bakluchine ia nos corri-

prava agua, e ia +razendo-a a medida que a gris+avamos.

Petrov anunciou-me qua ia me lavar dos pes a cabe‡a, para

me deixar 1impinho" e me intimou a transpirar bem, cousa #

168 DOSTOIEVSKI RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS 169

que não me atra¡a absolutamente. Ensaboou-me todo; "e,

agora, vou passar sabão nos pezinhos". Eu quis respon-

.1 -


der que me poderia lavar s¢, mas Ia não. estava capaz de

u ~,~Jiiiiõ~Ii-dC e i-ti‡~ ZUCA VUJIf Cie.

No diminutivo "pezinhos" não descobri nenhum tom de ser-

vilismo; Pefrov simplesmente não podia chamar meus pes

de forma diferente. Os outros, os homens de verdade,

podiam ter p¢s, mas eu!

Depois de me enxaguar com o r~Šsmo cerimonial, isto

‚, segura , rido-me e vigiando cada um dos meus passos como

se eu fosse de porcelana, levou-me de volta a antec"mara

e me ajudou a vestir a roupa branca; e, enfim, quando aca-

bou tudo, precipitou-se para a estufa afim de por sua vez

f ranspirar.

Quando voltamos, ofereci-lhe um copo de cha que ele

não recusou. Ocorreu-me oferecer-lhe um pouco de vodca.

Havia aguardente na nossa caserna. Pefrov mostrou-se ex-

+raordinariamen+e feliz: enguliu o conteudo do copo dum

trago, rosnou de prazer, declarou que eu lhe havia dado

vida nova, e se precipitou para a cozinha, como se l nin-

quem pudesse resolver nada de imporfante sem sua presen‡a.

Logo depois apresen+ou-se outra visita. Bakluchine, o

"Explorador", que eu convidara durante o banho. Nunca

encontrei criatura de genio mais delicado que o seu. Para

falar verdade, era muito suscepfivel, e brigava com frequen-

cia. Detestava principalmente ver alquem se meter com a

sua vida: em suma, sabia defender-se. Mas nunca se zangava

por muito tempo. Todos pareciam lhe querer bem; por onde

ia, era recebido com prazer. Alias, ate mesmo na cidade

gozava de uma reputa‡ão de bom sujeito, sempre jovial.

Era um rapagão duns trinta anos, de cara ingenua e cƒndida,

muito bonita, embora es+ragada por uma verruga. Tinha o

dom de fazer caretas de modo f3o c"mico, imitando qual-

quer pessoa, que se apinhavam grupos de gente ao seu redor,

e ninguem podia deixar de rir. Formava entre os engra-

‡ados do presidio, porem não se deixava vencer pelo azedume

I

dos rixentos, inimigos da alegria; assim ninguem lhe pisava



o pe, ninquem o chamava de "desmiolado" de "sujeito ...-

foa". Transbordava de vitalidade. Logo ... nossa primeira-

entrevista con+ou-rne que de soldado de infantaria passara

a sapador de engenharia, e que varias personagens impor-

tantes lhe tinham amizade e reparavam nele, cousa pela qual

sentia um grande orgulho retrospectivo-, depois interrogou-

me minuciosamente a respeito de Pefersburgo. Lia at‚ #

alguns livros. Quando veio +ornar chia em minha companhia,

come‡ou fazendo rir todo o alojamento, contando como,

naquela propria manhã, o tenente Ch. maltratara o nosso

maior. E, depois de instalado ao meu lado, anunciou-rne

satisfeito que o teatro j6 era cousa certa. Realmente, os

detentos andavam planejando uma representa‡ão para as

festas. Tinham-se arranjado atores, e um ou dois wnarios.

Algutrias pessoas da cidade prometiam emprestar frajos,

e Sis femininos. Por in+ermedio de

af' mes¡mo para os pap‚

um bagageiro, esperavam obter uma farda de oficial, com-

pleta, inclusive as dragonas. Contan+o que o maior nao

acabasse com a fun‡ão, como o fizera no Natal passado!

Aquele demonio andara de mau humor, nesse tempo: per-

dera no jogo, e não houvera barulho no presidio: assim, de

raiva, acabara com a festa. Desta vez, esperava-se que

estivesse mais manso. Em suma, Bakluchine sentia-se ani-

madissimo. Via-se que era um dos principais instigadores

da representa‡ão, ... qual dei-lhe minha palavra que assisti-

ria ... Sua ingenua alegria me comoveu. E, aos poucos,

fomos conversando com mais intimidade. Ele então me con-

fessou que passara todo o seu tempo de servi‡o militar em

Petersburgo: uma falta qualquer fizera com que o mandassem

para a quarni‡So de R., com a patente de sub-c,ficial.

. - E de Ia me deportaram para ca, acrescentou.

- Por que? perguntei.

- Por que? 'Não ‚ capaz de adivinhar, Alexandi-

Petrovi+chi Porque me apaixonei.

W #


170

DOSTOIEVSKI

- Mas que ‚ isso? Nunca vi deportar-se um homem

porque esta apaixonado! comentei, rindo.

"IS-

- E' verdade: porem, devido a isso dei tim +iro de ;-i



+ola no diabo dum alemão que andava por Ia. Ser justo

me mandarem para o presidio por causa dum alemão? Jul-

que por si.

- Como foi a hisforia? Conte que deve ser in+eres-

sante!

- E' mesmo uma hisfor~a engra‡ada, AlexancIr Petro-



vi+ch!

- Melhor, então conte!

- Quer mesmo ouvir? Pois 16 vai!

E a hisforia do crime que ouvi era, senão engra‡ada,

pelo menos bastante estranha ...

- Aconteceu assim, come‡ou Bakluchine. Quando me

mandaram para R., que foi que encontrei Ia? Uma cidade

grande, bonita, mas com alemães demais. Eu, que ainda era

mo‡o nesse tempo, dava na vista; usava o gorro de banda,

e me divertia a larga - compreende, nSo? Arrastavo a asa

as alemãs, e tinha uma, chamada Luiza, que me agradava

muito. Eram engornadeiras, ela e a +ia, - mas engorna-

deiras de roupa fina. A +ia era uma bruxa velha, porem a

pequena enchia os olhos. De come‡o passei pela janela, fa-

zendo pose, depois ficamos amigos. Luiza falava russo mui-

to bem - s6 com um pouco de sotaque. -E era muito en-

gra‡adinha! N3o encontrei nunca outra igual. Então, -

ia sabe - fui pedindo ... ela porem me disse: "Não, Sacha.

isso não; quero guardar minha inocencia e casar contigo."

Passava todo o tempo me acarinhando e dando risada. Ti-

nha um riso tão alegre ... Enfim, - ‚ claro, -Z- uma rapa-

riga tão bonitinha, tão limpa - tinha que me agradar mais

que quaiquer outra. Ela e que queria se casar - e como

‚ que eu poderia dizer não, heiri? E me prepAci para pe-

dir autoriza‡ão ao coronel. Mas de repente, que foi que

aconteceu? Luiza faltou a um encontro, a outro depois, e

a mais outro. . . Mandei-lhe uma carta, e nada de respos-

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

r

171


ta; então, pensei: "Que e que h ? Se ela estivesse me

enganando, daria um jeito para responder a carfa,ou vir

aos encenics; n£,~ icã~,e tijeinTir, e rompeu, simpiesmen- #

te. Deve ser cousa da fia!" 1\15o me afrev¡ a ir em casa

da velha; ela sabia que n6s namoravamos, porem a gente se

escondia para despistar. Eu estava como louco; escrevi

,mais uma carta ... Luiza, e disse: "Se tu não apareces, vou

a casa da tua +ia!" Ela teve medo e veio. E, então, me

confessou chorando, que havia um alemão chamado Schultz,

seu parente afastado, relojoeiro rico, que queria casar com

ela - para fazˆ-la feliz. Era s¢ o que queria: fazˆ-la

feliz, e ao mesmo tempo não viver sem. mulher, na velhice.

E Luiza disse mais: "Ja faz muito tempo que Schultz gosta

de mim, que esta com isso na cabe‡a, mas não tinha co-

ragem de casar comigo: calou-se, e esperou, tu compreendes,

Sacha; mas e rico, e e para minha felicidade. Tu não queres

impedir que eu seja feliz, queres?" Olhei para ela: estava

chorando, me beijando, e pensei que afinal a pequena tinha

razão: que lhe adiantava casar com um soldado, fosse embora

sub~oficial como eu era? - "Bem, falei - adeus Luiza, e que

Deus te aben‡oe! Não 'quero impedir tua felicidade! Co-

mo ‚ esse alemão? Bonifo?" - E ela respondeu: "Não, e

um velho narigudo." E deu uma risada. Deixei-a, e pensei:

99;V porque não era minha sor+e!" No d*,a seguinte passei

diante da loja de Schul+z-, - ela me havia' dito em que rua

ficava Olhei pela vitrina, e vi um alemão remexendo

num relogio. Tinha uns quarenta e cinco anos, nariz de pa-

pagaio, olhos esbugalhadose e um fraque de gola alta - alfis-

sima! Aquilo me deu um nojo! Tive vontade de lhe quebrar

a vitrina na cara. Mas pensei: para que? Não adianta fa-

zer barulho, tudo j5 foi por agua abaixo! Voltei para o quar-

fel, a noifinha, esfirei-me na tarimba e, h de crer, Alexandr

Pe+rovifch? de repente me pus a chorar...

"Passou-se um dia, e outro mais, e um terceiro. Não

vi mais Luiza. Foi então que soube por uma amiga (uma ve-

lha engornacleira que Luiza ...s vezes visitava) que o alemão #

172

DOSTOIEVSKI



tivera ciencia do nosso namoro, e estava apressando o ~asa-

menfo, por causa disso. Se não fosse assim, esperaria ainda

um ano ou dois. Parece que ele tinha feito com que Luiza

jurasse nunca mais me procurar. Parece fambern que ele

apertava a fia e Luiza por minha causa. Ela decerto ainda

não refletira bem, não se resolvera. A velha fambem me

disse que no outro dia, domingo, iam as duas +ornar um caf‚-

em casa do noivo; iria, aincla, um parente velho, antigo

comerciante ca¡do na miseria, e que era agora vigia numa

faverna. Quando compreendi que, no domingo, cerfamenfe,

a cousa toda ficaria resolvida, fiquei numa furia tão grande

que não sabia mais de mim. . Durante todo esse dia e no

dia seguinte não pensei -em oufra cousa. Era capaz de engo-

lir vivo o desgra‡ado daquele alemão.

"No domingo de manhã eu ainda não de , cidira o que

haveria de fazer; mas, assim que acabou a missa, vesti o ca-

pofe, e foquei para a casa do alemão. Tinha na mente en-

confrar foclos Ia, porem juro que não sabia para que os queria,

nem adivinhava que ia dar cabo de alquem. Por via das d£-

vidas, levei no bolso uma pisfola, -- uma pistola de nada,

com um gatilho a moda antiga, que eu tinha comigo desde me-

nino. Ja não valia cousa nenhuma. Mas pus-lhe carga, de

qualquer modo, porque pensava: "Vão me tocar para fora,

vão ser grosseiros comigo; então eu firo o brinquedo do bolso

e fa‡o um pouco de medo ao pessoal!" Entrei na loja: nin-

quem. Esfavam nos fundos, sozinhos, sem criada. O sujeito

tinha alias uma cozinheira alemã. Atravessei a loja, e dei

com uma porfa fechada, - uma porcaria duma porta velha,

francada com uma +ramela. Parei, com o cora‡So batendo

for¡a, o escutei: estavam falando alemão. Dei um pontap‚

na porta com toda a for‡a, e imediafamen+o ela se abriu. Vi a

mesa posta, e em cima uma cafeteira enorme, e o caf‚ fer-

vendo numa lƒmpada de alcool. Biscoi+os num prato, uma

garrafa de vodca, arenques, um salsichão e mais outra garra-

fa de não sei que vinho. Luiza e a fia estavam senfaclas

no sof6, todas no trinque-, defronte delas, numa cadeira, o

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

173


alemão, o noivo, todo penfeado, com o fraque de gola alta;

no canto da mesa outro alemão, um velho gordo de cabelo

branco, muito quieto. Entrei: Luiza ficou da cor de cera;

a fia deu um sa¡to e tornou a sen-rar; o aiernão fechou a cara.

levantou-se, mal satisfeito e caminhou para mim:

- Que deseja aqui, soldado? perguntou. #

Eu devia estar atrapalhado, mas a raiva me deu coragem:

- Que desejo? que me recebas e me ofere‡as bebida.

Vim aqu¡ de visita.

O alemão pensou e disse:

- Sente-se.

Son+ei-me e falei:

- Vamos, serve-me bebida.

E ele resmungou:

- Esta aqui o vodca, beba, por favor.

- Sim, falei, mas esfe vodca presfa?

A mostarda ia estava me subindo ao nariz:

- E' muito bom.

Ele me espiava por cima do ombro, e aquilo me fazia

ferver o sangue. !E o pior, ia se sabe, era ver Luiza me olhar.

Engulf o vodca e disse:

- Por que esfas com tanta grosseria, alemão? Tens

que ser meu amigo. Para isso vim aqui.

- Não posso ser seu amigo, respondeu ele. Vocˆ não

passa dum soldado.

Então fiquei uma fera.

- Cara de espantalho, grifei, salsicheiro de uma figa,

irigo esf6s vendo que ou agora posso fazer de +i o que quiser?

Esf6s vendo esta pisfola? Queres que fe rebenfe a cabe‡a

com ela?


Tirei a pisfola do bolso, e apontei bem para o meio da

cara dele. Os outros olhavam, mais morfos que vivos, não

-rinham coragem nem de respirar. O velho +remia como uma

folha, sem dar um pio, branco de medo.

O alemão estava antes admirado, mas de qualquer modo

se refez depressa. #

174 DOSTOIEVSKI

- Não fenho medo de vocˆ, falou ele. :E se ‚ um

homem bem educado pe‡o-lhe que acabe ia com essa brin-

cadeira. Nio me laz medo nenhum.

- Mentira! bradei. Esfas com medo!

E' verdade que ele não se afrevia a mexer com a ca-

be‡a, debaixo da pistola; não movia um dedo.

- Não, o senhor não fem absolufamenfe o direito de

fazer isso!

- E por que e que não fenho direito?

- Porque e proibido, e depois feria que

que fez.


Diabos levem o burro daquele alemão! Se ele não me

fizesse perder as esfribeiras, ainda estaria vivo! Foi a dis-

cussão que provocou tudo!

- Ah, repliquei, então es+6s pensando que eu não me

atrevo?

pagar pelo



- N-não!

- Não me afrevo?

Não se atreve absolutamente!

Pois então toma, cara de salsicha, forna!

Dei o firo, e o sujeito escorregou da cadeira, enquanfo

os outros se puseram a berrar.

Enfiei a pistola no bolso e me raspei de 16. Chegando

ao quartel, atirei a pistola nas urtigas, perto da enfrada.

Enfrei, me estirei na cama, e pensei: "Vão me pegar".

Mas passou-se uma hora, outra, e nada! Ja era noite, quan-

do me veio uma magoa, uma dor fão grande, cNe quase

me rebenfa. Tinha que encontrar Luiza naquele mesmo ins-

fanfe. Passei pela relojoaria, vi 16 um povareu enorme e a

policia. Pedi ... velha que chamasse Luiza, esperei um pouco

e Lu¡za chegou. Agarrou-se comigo, chorando: "Sou eu

a culpada, porque fui escutar os conselhos de minha fia!"

E confou em seguida que, logo depois da hisforia, a fia

voltara para casa, doente de medo, incapaz de dizer uma

palavra. "Não quis falar nada a n¡nquem e fez com que eu

jurasse que calava a boca. A velha esfava morrendo de

f

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS



i

175


medo! Fa‡am eles o que quiserem! Ninguern nos viu 16-, #

ele tinha mandado embora a criada-, tinha medo dela; era

capaz de lhe arrancar os oilhos quando soubesse que o pa-

frão ia casar comigo. Os empregados fambern não esfa-

vam - ele mesmo preparou o cafe e a merenda. E o pa-

rente velho, sempre calado a vida inteira, ha de con-

tinuar calado agora. Quando -a cousa aconfeceu, apanhou

o cRapeu e saiu sem dizer nada."

Tudo se passou assim mesmo. Duranfe uns quinze dias

n¡nguem me prendeu, ninguern suspeitou de mim. E, du-

ranfe, esse tempo, acredite se quiser, Alexandr Pefrovitch,

nunca fui fão feliz na minha vida! Via Luiza todos os dias,

e que carinho que ela me dispensava! Chorava, e dizia:

"Vou para qualquer lugar onde fe mandarem. Deixo tudo

por til" Eu ia pensava afe em acabar com a vida, tanta pena

que ela me clava; mas, depois dessas duas semanas, me pren-

deram O velhoe a fia cor¡luiaram-se e me denunciaram."

- Escute, Bakluchine, interrompi. Um caso des-

ses podia lhe arranjar uns dez a doze anos, na se‡ão civil.

Contudo, vocˆ es+6 na se‡ão especial. Por que?

- Isso ia e outra hisforia! Quando fui a conselho, de

guerra, o capitão me disse uma por‡3o de palavrões diante

dos juizes. Eu não pude afurar aquilo, e grifei: "Por que

me insultas desse modo? Onde e que pensas que estas?

Não esf6s vendo o "espelho da justi‡a" (6) na tua frente, ani-

mal?" Junfaram uma hisforia com a ouira, pequei quatro

mil varadas, e a se‡ão -especial. Mas quando me !evaram

para sofrer o castigo, o capifSo fambem estava Ia. Eu

sofr¡ os a‡oites. Ele, porem, foi degradado e mandado para

o C6ucaso como simples pra‡a. Ate logo, A!enxandr Pe+ro-

vi+ch, não falfe ao nosso teatro.

(6) Na mesa de todos os tribunais russos havia um "espelho da justi‡a" (zerha-

to) - prisma de vidro triangular encimado por uma aguia e em cujas trˆs faces erarn

colados trˆs Lkazes de Pedro o Grande, referentes ao processo e aos direitos dos

cidad os. (N. de H. M.) #

Natal


Enfim, chegou o Nˆ£al. Desde as v‚speras os presos

quase não trabalhavam; os alfaiates e outros oficiais

foram para as oficinas porem os demais se reuniram para

a chamada e voltaram quase imediatamente, de um em um

ou aos grupos. Depois da rafei‡ão, ninguem se mexeu mais.

AUs, desde pela manhã a maioria dos defentos não se ocupa-

va senão dos seus proprios negocios. Uns, conspiravam

a proposito do vodca que era preciso fazer entrar, ou en-

comendar ainda. Outros, pediam permissão para visitar

amigos ou amigas; algun,% recolhiam para as festas as pa-

quenas quantias que haviam ganho com o seu trabalho parti-

cular. Bakiuchine e a turma encarregada do teatro procu-

ravam convencer alguns indecisos, sobretudo entre as orde-

nan‡as dos oficiais. que tinham possibilidade de lhes err~- #

178 DOSTOIEVSKI

prestar fraios. Alguns iam e vinham com ar absorto e apres-

sado; mas apenas porque viam os outros absortos e apressa-

dos; não tinham nenhum dinheiro em perspectiva, todavia com-

porfavam-se como se o esperassem das mãos dos devedores.

Em resumo, todos aguardavam o dia seguinte como um acon-

fecimento extraordinario. A tarde, os invalidos voltaram

da cidade com as encomendas dos presos; traziam varios co-

mesfiveis, carne, leitões e a+‚ gansos. Alguns dos nossos,

entre os mais simples e os mais econ"micos, ate mesmo aque-

les que durante o ano inteiro iam juntando um a um os seus

1 copeques, senfiam-se obrigado- a afrouxar os cordões da

bolsa, e a comemorar condignar.,` rife a festa. O Natal repre-

sentava para os for‡ados uma solenidade de que ninguem

os poderia privar, que a lei lhes reconhecia formalmente. Era

um dos +rˆs dias do ano em que ninguem tinha o direito de

os fazer trabalhar.

Afinal, poda-se conceber quanfas recorda‡ões agitavam

as almas daqueles r‚probos nas proximidades do Natal! A

gente do povo cultiva, desde a infancia, o respeito pelas

festas solenes, durante as quais se abandona a rude !abufa

e congregam-se as reuniões de familia. No presidio, onde

a comemora‡ão das festas não poderia provocar senão sau-

dade, esse culto assumia um aspecto imponente. SO alguns

defentos bebiam, e maioria se mantinha grave, como que

preocupada, apesar da sua absoluta desocupa‡ão. Os pro-

prios beberrões se -esfor‡avam por manter um ar serio. As

-risadas pareciam proibidas. Reinava em todo o presidio uma

atmosfera de susceptibilidade, de infoleranc¡a: e, quem, mes-

mo involuntariameriM, perturbava a compostura geral, era

chamado ... ordem por gritos, por injurias; zangavam-se contra

ele como se faltasse ao respeito ... propria festa. Esse esta-

do de espiri+o era tão comovenfe quanto curioso. Mem

da venera‡ão intr¡nseca que sente nesse grande dia, o for-

‡ado se apercebe inconcienfemen+e de que a sua coparfi-

cipa‡ão na festa o poe em comunhão com o resto do mundo,

a que, por consequencia, j não ‚ e!e um r‚probo, um de-

. RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

179

ca¡do, um farrapo sem dono, mas, embora no fundo do pre-



sidio, ainda e um homem. C;gal,

~i o


vis¡vel, compreensivel.

O proprio Akim Akim¡fch se preparava ativamente.

Não tinha recorda‡ões de familia, pois se criara orfão em

casa de estranhos e, aos quinze anos, iniciara os duros fraba-

lhos do servi‡o militar. Sua vida não contara nunca ale- #

grias especiais, porque -ele a passara na regularidade, na

rotina, no receio de infringir qualquer infimo dever que lhe

era imposto. Não era muito religioso, uma vez que o for-

malismo lhe absorvera todos os dons humanos, todas as

paixões, todos os desejos, bons e maus. Preparava-se por-

tanto, sem nenhum sentimento febril, sem emo‡ão, sem a

minima especie de saudade. Mas tinha ali excelente opor-

funidade para aplicar sua met¢dica pontualidade nos deve-

res impostos por uma festa de tradi‡ão indiscutivel. Alias,

Akim Akimitch não gostava de refletir. A'imporfancia dos

fatos lhe deixava o cerebro em repouso; bastava que uma

ordem lhe fosse dada para a cumprir com religiosidade e mi-

nucia. Se no dia seguinte lhe dessem nova ordem, inteira-

mente antag"nica a da vespera, obedeceria com a mesma

docilidade, o mesmo cuidado. Certa vez, uma unica vez

na sua vida, agira por sua propria cabe‡a, e aquilo o levara

ao presidio. A li‡ão nao se perdera. Por mais incapaz

que fosse ele de compreender em que consistira o seu crime,

tirara, daquela aventura, uma regra salutar: não raciocinar

nunca, porque raciocinar não era "negocio" seu. Devoto

cego das f¢rmulas, considerava com antecipado respeito -o

leitão que recheara com centeio, e que, com suas proprias

maos, assara no forno, - pois ate cozinhar sabia. Não o con-

siderava um simples leitão que se pode em qualquer tempo

comprar e assar, mas um animal criado especialmente para

festejar o Natal. Decerfo, habituado desde a infancia a ver

figurar um leitão na ceia do Natal, concluira que esse animal

ora indispensavel ... celebra‡ão do dia; estou convencido de

que se Akim Akimitch não pudesse comer leitão na noite de

~- i t2, 2 aquL.-l eird #

ISO


POSTOIEVSKI

festas, aquele dever não cumprido lhe daria remorsos para o

resto da vida. Trajava afˆ ent~o um casaco velho e umas

cal‡as que, apesar de todos os cuidadosos remendos, tinham

chegado ao ultimo grau de usura. Descobr¡ que ia h6 qua-

+ro meses ele guardava preciosamente dobrado no baU o

uniforme novo, com o fim Unico de o estrear no Natal. Na

vespera desse grande dja, Akim o tirou do bau, estendeu-o,

olhou-o, escovou-o, assoprou-o, examinou-o costura por cos-

+ura, e afinal o experimentou, para ver como ficava. Cons-

fa+ou que ficava bem, que estava decente, que os colchetes

fechavam at‚ em cima, que o colarinho, duro como carto-

l~na, lhe mantinha o queixo elevado. O frai\ '.,iha uma certa

linha militar no corte, e Akim Akim+ch, com um meio sorriso

de satisfa‡ão, virava-se e revirava-se lestamen+e diante do

seu espelhinho, cuja moldura, ia ha muito tempo, numa hora

de folga, ele proprio dourara. So um colchete do colarinho

não parecia Ia muito bem pregado. Akim Akimitch o des-

cobriu e resolveu muda-lo de lugar. Depois de repregar o

colchete, experimentou de novo o casaco e viu que estava

irrepreensivel. Tranquilizado, então, dobrou a roupa e +or-

nou a guarda-la cuidadosamente no ba£. Estava com a ca-

be‡a bem raspada: todavia, depois de severo exame ao espe-

lho, observou que o alto do cranio não se mostrava inteira-

mente liso: avistavam-se alguns cabelos um pouco crescidos:

foi imediatamente procurar o "maior" para raspar a cabe‡a

direito, de acordo com o regulamento. Ninguem, decerto,

o iria revistar no dia seguinte, mas ele procedia assim por

alivio de conciencia, afim de cumprir seus deveres para com

a festa. Desde crian‡a trazia gravada na alma a venera‡ão

pelo botão, os alarriares, as dragonas: seu espirifo estava preso

a essas marcas externas do dever, e as cul+uava no ¡nfimo

como a imagem da mais perfeita -elegancia que pode ser

cobi‡ada por um homem de bom-+om. Depois de proceder

a todas essas verifica‡ões, na sua qualidade de monifor, man-

dou trazer palha e fiscalizou a sua me+6dica disposi‡ão sobre

o chão. Procedia-se a mesma opera‡ão em todos os outros

RECORDA€õES DA CAU DOS MORTOS

181

alojamentos. Não sei por que, quando chegava o Natal,



punham palha no chão. Acabados os trabalhos, Akim Aki-

mifch rezou as suas ora‡r~Ses, es+ii-cu-se na farimba e ador-

meceu imediatamente, no so-no suave da infancia, para des-

perfar o mais cedo possivel no dia seguinte. Foi, alias, o

que tambem fizeram os demais detenfos. Em todos os alo- #

jamentos foi-se dormir muito mais cedo que nos outros dias.

Os trabalhos comuns de serão foram abandoriados: quanto

ao maidane, nem se pensava nisso. Cada um vivia na ex-

pecfafiva do dia seguinte.

Enfim, o dia chegou. Muito cedo, antes da madrugada,

bateu-se a alvorada, abriram-se as casernas, e o sub-c,ficial

que veio fazer a chamada nos desejou boas-festas. E em tom

arriavel, lhe refribuimos os votos. Acabadas as rezas, Akim

it

Akim' ch e varios outros se precipitaram para a cozinha, afim



de vigiar o preparo do seu ganso ou do seu leitão. Na som-

bra, atrav‚s das janelinhas tapadas pela neve e pelo gelo, viam-

se luzir os seis fogões das cozinhas, acesos desde a madru-

gada. No patio escuro passavam os defen+os, com o ca-

pofe atirado ao ombro, afraidos todos pelos fogões. Al-

guns - em pequeno n£mero, porem - ia tinham tido tempo

para visitar os bofequineiros. Eram os mais impacientes.

A maioria se portava com dignidade, com decencia, muito

melhor que de h6bifo. Não se ouvia ninguem a praguejar

ou a brigar, como sempre. Todos compreendiam a gran-

cleza, a solenidade da'festa. Alguns iam ...s outras casernas,

para dar boas-festas aos amigos e conhecidos; senfia-se nas

vozes daqueles homens um sentimento que parecia muito com

amizade. Diga-se de passagem que os for‡ados rigo se

afei‡oam a ninguem; e muito raro ver algum fornar-se amigo

de outro. A amizade quase n"o existia entre ri~s-, as rela-

o

‡ões enf re os defenfos---nanfinham-se sempre 6speras, secas;



ora esse o tom adotado e vigorante, praticamente sem ex-

ce‡ões.


Quando por minha vez sai da caserna, o dia come‡ava

a nascer: as estrelas empalideciam, e uma leve nebIlina con- #

DOSTOIEVSKI

~e erguendo da +erra. A fuma‡a sa¡a am autˆn-

~is pelas chamines das cozinhas. Os poucos com-

Roffilro que e,-,C

me dar boas-festas. E eu agracteci e retribui os bons votos.

Alguns ma dirigiam a palavra pe~a primeira vez.

Na poria das cozinhas encontrei um defenfo da se‡ão

milifar, com a pele de carneiro atirada ao ombro. Do meio

do pafio, avistando-me, ele gritara: "Alexandr Pe+rovi+ch!

Akxandr Pe+rovitch!" E se precipitara para as cozinhas.

Detive-me para o esperar. Era um rapaz de cara neclonda,

olhar calmo, muito pouco conversador; nunca me dirigira c~

palavra nem me prestara a minima ateri‡ão: e eu não lhe sa-

bia sequer o nome. Chegou, afogueado, resfolegando, e

ficou parado diante de mim, sc( - do. e fi+ando-me com os

olhos es+Upidos.

- Que deseja? pergun+ei-lhe, não sem espanto, vendo

que ele não se mexia e me olhava sem encontrar palavras.

Mas ... e ... a festa ... gaguejou afinal, e, com

preendendo que nada mais tinha 6 me dizer, deu meia volfa

e entrou na cozinha.

Farei notar aqui que desde esse dia ate ao fim da mi-

nha deten‡ão não nos enconframos praticamente nunca mais.

Nas cozinhas, junto aos fo98es aquecidos ate ao rubro.

um verdadeiro formigueiro se agitava. Cada um +ornava

conta do que era seu, enquanfo os cozinheiros preparavam

a comida geral, porque nesse dia a hora das refei‡oas

era adiantada. - Entretanto, ninguem se senfava a mesa,

apesar dos desejos de alguns. Esperava-se o padre, pois

o jejum s¢ deveria terminar depois da sua visita. O sol

ainda não clareara de todo, quando no por+So de entrada

soou o grifo do cabo de servi‡o, chamando os cozinheiros.

O mesmo grifo ecoou a todo instante, durante perto de duas

horas; chamava para que se recebessem as esmolas man-

dadas de foclos os canfos da cidade. Enviavam em quan-

+idades -enormes kala+chi, pães, pas+eis de queijo, frifuras,

doces de toda especie. Penso que n3o havia na cidade

RECORDA€OES DA CASA DOS MORTOS

183

~,I. uma vendeira, uma burguesa que não mandasse, como fes-



fas, uma esmola para os "desgra‡ados". Algumas esmoias

eram opulenfas, como nor exempilo r~9~ c!,~ f!nr d-~ f,~Ir-¡rk-

,outras mesquinhas, um pãozinho redondo de dois copeques

,, u uma forta lambuzada de creme azedo: aquilo era o pre-

,,,senie do pobre ao pobre; mas o doador gastara nele o seir

Ifimo copeque. Recebia-se tudo com o mesmo reconhe-

i 1 rr!enfo, sem fazer disfin‡Ses entre os donafivos ou entre #

res. Os de+enfos que recebiam esmolas tiravam o

clinavam-se para saudar os doadores desejando-lhes

s-fesfas, e levavam para as cozinhas o que lhes havia sido

fregue- Quando reuniam grandes montes de pão, charria-

m-se os monifores, e eles os repartiam em partes iguais,

1 1 nfre focios os alojamentos. A partilha não provocava brigas

m descomposfuras; fazia-se honesta, equi+afivamenfe. Mim

,,,kimifch, ajudado por outro preso, nos distribuia o quinh3o

nosso alojamento; dividiam-no com suas proprias mãos e

! irifregavam a cada um a sua parte. Não h¢uve a m¡nima

ma‡ão; cada um se considerava safisfeifo, nenhum sentia

a, nenhum pensava que as esmolas haviam sido escondidas

as sem igualdade.

do terminou os seus preparativos de cozinha, Akim

vesfiu-se com ‡uidado e gravidade, sem deixar

do o menor colchete; depois foi rezar, ro que de-

as+an+e tempo. JEram sobretudo os mais velhos

‚ desempenhavam os seus daveres religiosos. Enfre os

o 1


,~vens, muitos se contentavam em fazer o sinal da cruz, ao

levanfarem, mesmo nos dias de fesfa. Acabada a reza,

im Akimitch me procurou, e me deu as boas-fesiras com

certa gravidade. Convidei-o a +ornar ch e ele me con-

41dou a comer do seu leitão. Um pouco depois, Pe+rov

:i ara mim para me oferecer tambem seus bons votos.

a

iS fer bebido; um pouco sem f"lego por causa da cor-



o me falou muito, ficou' alguns segundos parado de-

e mim. como se esperasse alguma cousa, e me deixou

rapidamenfe para correr af‚ a cozinha. Nesse ¡nterim, na

t #


184

DOSTOIEVSKI

r

prisão militar, faziam-se os preparativos para a recep‡ão do



pope. Essa caserna não era construida de modo igual ...s

outras-, a tarimba era ao comprido da parede, em vez de fi-

car no meio, como nas demais. Era, pois, a unica que não

tinha o centro ocupado. Tinham-na arrumado assim para

os casos em que houvesse necessidade de reunir os for‡ados.

Puseram no meio da sala uma mesinha, coberta com um pano

branco; depois, colocaram em cima um icone, e acendeu-se

uma lamparina. Enfim, entrou o pope, carregando a cruz e

agua benta: ap¢s rezar e cantar diante da imagem santa, de-

frontou os de+en+os, que, com sentida compun‡ão, desfi-

laram perante ele afim de beijarem a cruz O pope afra-

yessou em seguida todas as casernas, e as dspergindo de

agua benta. Na cozinha, felicifou-nos pelo nosso pão, que.

era gabado ate na cidade; imediatamente lhe oferecemos

dois pSezinhos que acabavam de sair do forno e encarrega-

mos um dos invalidos de os levar ate a casa do pope. E

despedimo-nos da cruz com o mesmo respeito com que a

baviamos acolhido. Então, quase no mesmo instante, apa-

receram o maior e o governador. Este, que era querido por

todo o mundo, visitou os alojamentos em companhia do ma-

lor, desejou feliz Natal aos for‡ados, passou pela cozinha e

provou a sopa de couves, suculenta naquele dia, porque

tinham posto nela cerca de uma libra de carne por de-

tento. Ademais, um cozinhado de milho, onde a manteiga

não fora poupada, fervia no fogo. Depois de levar ... porta

o governador, o maior deu o sinal para a refei‡ão, mas os

presos se esfor‡avam por não lhe ficar sob as vistas; te-

miam o olhar ocliento que, por tr s dos ¢culos, passeava ...

direita e a esquerda, procurando, ate mesmo naquele mo-

mento, uma desordem a reprimir ou um culpado a castigar.

Senfamo-nos a mesa. O leitão de Akim Akimitch es-

+ava otimamente assado. Não sei como foi que isso se deu,

mas cinco minutos não tinham decorrido depois da partida

do maior, quando descobrimos que grande numero de ho-

mens j estava bˆbedo - e, entretanto, na presen‡a do

t #


RECOR,DA€õES DA CASA DOS MORTOS

187


,," ningiuem parecia ter tomado nada. Muitas caras fi-

cavammei, nos e lustrosas; apareceu uma balalaica; o polaco

do violino fora, contratado para todo o dia, e seguia um

40ão, arranhando alegres m£sicas de dansa. A conversa

~-se faz mais animada,.mais ruidosa; contudo a refei‡ão se aca-

e,

mn grande tumulto. Todos, estavam fartos. A maio-



· "'~`

-da dos velhos, -dos mais serios,, foi fogo se deitar; o mesmo

fez'Aki;~ Akimifch, considerando decerto que nas grandes

sesta ‚-de rigor. O velho raskoiniki de Sfaradubov

u um pouco, depois esfirou-se na estufa, abriu o

pâs-se a rezar: ficou assim, sem se interromper, af4 ~: ._* noite fechar de todo. Era-lhe penoso o espet culo da-

"verq(>nha" (assim designava a embriaguez colefiva

,~, -- do presos). Os circassianos foram todos sentar-se na en~

frada, ‚ contemplavam com curiosa repugnancia os despau-

terios dos bebedos. Enconfrei-me com Nurra: "Iaman! iarnan!"

~-~,,w , (Mal!'mal!) disse-me ele abanando a cabe‡a com honesta in-

di o.


igna‡a "Oh, iamant Alah vai se zangar!" Isai Fomifch,

com ar provocante e obstinado,' acendeu uma vela e se pos a

trabalhar, para tornar bem patente que nada tinha com aque-

Nos cantos, organizavam-se partidas de jogo; não

Ia festa.

se temiam os inv lidos-, entretanto, por causa do sub-c,ficial,

que ali s fechava os olhos, puseram-se sentinelas a entrada.

,0 oficial de guarda apareceu fres vezes fazendo a ronda.

A sua chegada escondiam-se os bebedos, desapareciam os

maidanes - e ele proprio parecia resolvido a não an~ergar

as Leves infra‡ões ao regulamento. Em dia de festa, a em-

briaguez não era *considerada crime. Pouco a pouco, au-

~ava¡ a anima‡ão e come‡avam as brigas. Mas como o

maior n£mero se conservara sobrio, não faltava quem to-

masse conta dos ebrios. Estes, realmente, se excediam.

estas a


€oChi!o

#Viro o


Gazine triunfava. Passeava como um rei ao redor do seu

hi

, ~,4; , gar- Acabava exafamenfe de transportar para debaixo da



tarimba a aguardente ate então muito bem dissimulada num

esconderijo por fr6s das casernas sob a neve. Dava uma

r¡sadinha ladina olhando os que vinham comprar be- #

188


DOSTOIEVSKI

bida, mas não tocava numa gota de, vodca, pois sua inten-

‡ão era divertir-se apos ter esvaziado de todo a algibeira

dos companheiros. As casernas vibravam com as can‡oes,

porem a bebedeira tornava-se infernal e as cantigas pareciam

pranto. Muitos passeavam aos bandos, a pele de carneiro

atirada displicentemente as costas, dedilhando com ar cas-

quilho as cordas da balalaica. Na se‡ão especial uns oito

homens tinham ate organizado um coro, can+a~ann muito

bem, acompanhados por balalgicas e guitarras. Mas as can-

figas realmenfe populares faziam exce‡ão; recordo-me apenas

de uma, admiravelmenfe cantada:

"Outrora, quando mo‡o,

"a muitas festas fui...

t

e da qual guardei de memoria uma variante que ainda não co-



nhecia. No final da toada acrescentavam alguns versos:

"Quando eu era mo‡o

"Boa casa tinha

"Tudo limpo, asseado.

"A lavagem dos pratos

"Engrossava a sopa;

"No sebo do degrau

"Se fritava a broa...

Cantavam-se principalmente as can‡ões chamadas "do

presidio" que todo o mundo conhece. Uma delas, intifulada .

"Oufrora", era engra‡adissima; conta a hisforia de um ho-

mem que dantes se divertia e vivia como barine, e acabou

dando com os ossos no presidio. Outrora, bebia cham-

panhe e agora,

"Dão-me couves com agua,

11 que quando as mordo mexo at‚ as orelhas. .

moda:

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS



"Outrora vivia eu

"garoto, feliz no mundo.

"Tinha um capital guardado

mas, ai 1 veio a pouca sorte

e o meu capital voou. #

Agora j perdi tudo,

perd¡ mesmo a liberdade

e peno no cativeiro."

189

E assim por diante. Apenas, entre n¢s, pronunciava-



se "kopifal" e não "kapital" porque derivavam a palavra de

"koPiV (economizar). Can+avam-se +arribem cantigas +ristes.

Uma delas, carateristica can‡ão de presidio, parece-me que

‚ conhecida fora dele:

¡~,

"Acende-se a luz do c‚u



"e o tambor rufa a alvorada.

"A velha porta se abre,

"faz a chamada o sargento;

"Ninguern vˆ, por. tr s dos muros,

"como vivemos aqui ...

Mas Deus sempre est conosco,

embora nos guarde aqu¡. . . "

A outra can‡ão, conhecid¡ssima, esfava e arande

Uma outra can‡ão, mais triste ainda' Cuia M usica e

magn¡fica, embora a letra seja inculta e sem beleza, foi feita

decerto por um preso qualquer. Alguns dos versos ainda

me ocorrem ... lembran‡a:

"Meus olhos não mais ~vistarri

11 a provincia onde nasc¡.

'irido penando, inocente,

"condenado a este martirio.

"Adeus, amores antigos!

"No telhado chora o mocho,

11

e a mata ecoa o seu pranto.



"E o meu cora‡ão se aperta!

"Nunca mais, ai, nunca mais!

"hei de rever minha terra!"

Cantavam-na frequentemente, mas em solo, jamais em

coro. Nas horas de descanso, um for‡ado vai at‚ a porta

I #


190

DOSTOIEVSKI

da caserna, sen+a-se, medita, com o rosto entre as mãos, e

entoa essa queixa, num tom agudo de faisefe; e a tristeza que

emana da cantiga dilacera a alma da gente. Não faitavam

bonitas vozes entre n6s.

,Enfim, caiu o crepusculo. A angustia, a dor, o pesado

fed¡o refornavam atrav‚s da orgia, da bebedeira. Aquele

que uma hora antes estava rindo, solu‡ava agora num

canfo, depois de atravessar os limites da simples embriaguez.

Alguns ia tinham tido tempo de trocar pancadas duas ou trˆs

vezes. Outros ainda, lividos, mal se segurando nas pernas,

vagueavam oscilantes atrav‚s das casernas, provocando, brigas.

Os . que o vinho entristecia procuravam obstinadamente

amigos: queriam aliviar a alma e desabafar as magoas que o

ilcool erguera a toria. Aqueles desgra‡ados tinham desejado

tanto divertir-se, passar alegremente a grande festa e - meu

Deus! que peso, que esmagamento para quase todos! Cada

um quisera, naquele grande dia, embalar-se com uma esperan-

‡a; mas a esperan‡a n‚io se realizara. Duas vezes ainda Pe-

frov me procurou. Bebera muito pouco. e parecia quase

sobrio de todo, porem esperava o acontecimento que deveria

necessariamente acontecer - at‚ ao derradeiro minuto: seria

qualquer cousa extraordinaria, solene, profundamente alegre.

Não dizia isso, mas lia-se a expectativa nos seus olhos. Cor-

ria sem descanso duma caserna a outra, e contudo, nada de

especial sucedia: não encon¡rava senão bˆbedos, criaturas

que vociferavam pragas imbecis, caras inflamadas pelo 61cool,

Como Pefrov, Sirofkine, vestido com uma blusa vermelha nova

em folha, rondava pelas casernas, elegante e limpo; ele fam-

bem parecia esperar ingenuamente. Pouco a pouco, a af-

mosfera do meu alojamento se tornou irrespiravel, nau-

seabunda. Não faltavam espefaculos comicos, mas eu me sen-

+ia tão triste, tinha tanto do daqueles desgra‡ados, que su-

focava.

Dois, ali, brigavam, para decidir quem obsequiaria o



ufro; o ‡Qusa j6 duro, hi mvifo tempo e esf‚io prontos a tro-

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

191

car murros. Um deles tem uma rixa velha com o outro; e



queixa-se remexendo a lingua pastosa.

Esfor‡a-se por demonstrar que acaba de sofrer uma in-

justi‡a: durante o Ultimo carnaval, o companheiro lhe vendeu

um capote e o dinheiro sumiu. Contudo não e so isso. O quei- #

xoso e um -rapagao musculoso, sossegado, infeligenfe; mas

toda vez que bebe, procura um amigo para desabafar.

Apesar das - pragas, das ofensas que alega, senfe-se, o seu

desejo de fazer as pazes com o outro for‡ado, afim de se

aproximarem mais. E este, forte, atarracado, tem a cara

redonda, um ar astuto de intrigante, talvez tenha bebido mais

que o companheiro, porem mal se lhe descobre a embriaguez.

 homem serio -e passa por rico; não quer irritar mais o colega

excessivamenfe expansivo, e leva-c, ao bofequineiro. O rapaz

sustenta sempre que tem direito de receber sua divida e que

o outro tem obriga‡ão de lhe oferecer bebida, "se ‚ que es

um homem honrado".

Demonstrando alguma considera‡ão pelo homem que

paga. e um leve desprezo pelo for‡ado expansivo que recebe

do outro em vez de beber por conta propria, o bofequineiro

apanha um calico e o enche.

- Não, Sfiopka, tu e que pagas, diz o for‡ado expan-

sivo vendo-se convidado - ‚ a tua obriga‡ão.

- Não adianta estragar a lingua falando contigo! re-

f ruca Sfiopka.

- Não, Stiopka, esf6s mentindo, sustenta o rapaz re-

cebendo o calice das mSos do bofequineiro. Sabes que me

deves, ou então não tens conciencia. Não tens conciencia

e % falta um olho - ate o olho empenhaste! Empenhas

tudo! s um canalha, Stiopka, um canalha, não passas dum

canalha!


- Ainda não paraste de choramingar? Olha, estas en-

tornando o vodca! Enchi o +eu copo, bebe, grita o botequi-

neiro ...quele bˆbedo por demais ruidoso. Tenho que esperar

ate amanhã? #

192 VOSTOIEVSKI

- Sim, esfou bebendo, não preciso que me grifes! Boas

festas e boa saude, Sfepan Dorofeitchi fala delicadamente o

ebrio, com uma mesura cort~s. Depois, o:hando para aquele

a quem momentos anfes chamara de "canalha", continua,

om o copo a mão: - Desejo-te mais cem anos de id fo

s que j feris!

v a,ra


Bebe, rosna de satisfa‡ão, limpa a boca.

- Antes, minha gente, eu virava uma boa por‡ão de

od . ca, declarou com dignidade, sem se dirigir especialmente

ninguem; mas agora, esw tempo passou. . .Muito obri

ado, Stepan Dorofeifch.

- Não h de que!

- E agora, Sfiokpa, deixa-me continuar. Na minha

pinião ‚s um grandissimo malandro, porem ainda fe digo ...

- E est aqui o que eu vou +e dizer, seu bˆbedo de

ma figa, in+errompe Stiopka, irritado. Escuta bem minhas

alavras: olha o mundo a nossa frente; vamos d ¡-lo em

ivid'


ucis metades. Eu +orno por uma e tu pela outra. Anda, e

ue eu nunca mais fe ponha os olhos em cima! Esfou farto!

- E não me pagas meu dinheiro?

- Que dinheiro hei de +e pagar, seu bˆbedo?

- Muito bem, se o vieres devolver no oufro mundo, não

recebo. Nosso dinheiro e o nosso trabalho, nosso suor.

ssas mãos calejadas. Tu has de me pagar os meus cinco

peques no outro mundo.

- Cai fora! Diabos te levem!

- Não me a‡oifes! Não sou cavalo de arado!

- Anda. anda, cai fora!

- Sujo!


- For‡ado ...-toa!

E as injurias choviam muito mais asperas que artes da

bida.

Na farimba. dois amigos esfSo sentados não longe um do



1+

fro. Um e alto, robusto. musculoso, uma legi ima cara ~de

ougueiro. Est quase desfeito em pranto, pois sua emo‡ao

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

193

e enorme. O outro, debil, franzino, +em o nariz comprido,



de onde parece ciofejar qualque, cousn, e olhinhos azues fixos #

no chão. Foi escrivac, outrora, ‚ instruido e malvado, e frata

o amigo com cer+a altivez, o que não deixa de o ofender in-

fimamen+e. Beberam juntos o dia inteiro.

- Ele se portou pessimamente comigo! brrra o gran-

dalhão, sacudindo violentamente a cabe‡a do escrivão, que

segurara com a mão esquerda. "Portar-se mal" significa

"baf,er". O for‡ado grandalhão, antigo sub-oficial, invejava

secrefamenfe o seu magro amigo; e, por isso, travam um

duelo de palavras rebuscadas.

- ~E eu +e garanfo que não fens fundamento no que

dizes, come‡a em fom dogmafico o escrivão, mantendo fixa

e gravemenfe os olhos presos no solo.

- Ele bateu em mim, est s ouvindo? insisfe o outro,

sacudindo mais forternenfe a cabe‡a do amigo do peito.

Agora, tu es o unico que me resta nesfe mundo, est s ou-

vindo? Sou eu que +e digo, ele se porfou mal comigo!

- E eu mais uma vez +e repito, meu caro, - uma

hisforia tão +r¡sfe so fe pode cobrir de vergonha, replica po-

lidamente o escrivão, em voz debil. Olha, meu amigo, seria

melhor que reconhecesses que toda essa bebedeira e um sim-

pies resultado da tua inconstancia ...

O grandalhão oscila um pouco para tr s, considera com

olhos ba‡os de bˆbedo o escrivão magrelo e contente consi-

go, e de chofre, no momento em que o outro menos espera, o

esmurra na face, com toda & for‡a do seu enorme punho.

E, assim, acaba uma amizade que durou um dia inteiro. O

querido amigo rola desacordado pela farimba.

Mas eis que penetra no alojamerto um dos meus co-

nhecidos da se‡ão especial, - um sujeito sempre bem hu-

morado, que não +em nada de tolo, brincalhão sem mal-

dade e de aspec~c, muito simples. F"ra ele quem, no dia

da minha chegada, procurara um rica‡o na cozinha, afir-

mando que tinha o seu amor-proprio e que eu o convidara #

1%

DOSTOIEVSKI



a +ornar cha comigo. Tem quarenta anos. uma bei‡orra

enorme, um nariz esborrachado e picado Je espinhas. Se-

gura uma balalaica, cujas cordas vai tangendo descuidosa-

menfe. Um outro preso, de baixa esfatura, nofãvel 'pela

cabe‡a enorme, acompanha-o como, um cão. Esse, mal -o

conhe‡o. -Alias, ninguem repara naquela criatura.  um

individuo esfranho, desconfiado, facifurno, sempre serio, que

frabalha na oficina de cosfura e procura viver solifario, sem

se aproximar de ninguem. Agora, que esfa bˆbedo, gru-

dou-se a Varlamov como uma sombra, mas acompanha-o

agifadissimo, gesticulando, esmurrando as paredes e as fa-

rimbas; com um pouco mais esfara chorando. Varlamov pa-

rece não lhe notar a exisfencia. Cousa curiosa: aqueles dois

homens nada tinham em comum, nem no frabalho, nem no

genio; pertenciam, ademais, a duas se‡ões e duas casernas

diferenfes. O menor chamava-se Bulkine.

Logo que me avistou, Varlamov sorriu. Eu esfava sen-

+ado ... beira da minha tarimba, junto ao fogão; ele se de-

teve a alguma distancia, refleflu, titubeou, aproximou-se mais

com passadas incerfas, e, espigando o busto, arrancando as

cordas da balalaica, batendo no chão com a bota, p"s-se a

recifar:


"Cara redonda, cara branca,

$'canta como o rouxinol,

"meu benzinho.

"Corn seu vestido rodado

"barrado de cetim

"‚ linda como uma rainha..

Essa can‡ão teve como resultado enfurecer inteiramente

Bulkine: fazendo molinefes e dirigindo-se a todos, ele excla-

mou:

- São 'marifiras, s¢ mentiras, rapazes, mentiras somen-



te! Não diz uma unica palavra de verdade, so mentiras!

- Meus respeitos ao "velho" Alexandi- Pefrovi+ch, diz

Varlamov olhando-me no fundo dos olhos; depois, com um

riso canalha. inclinou-se como para me beijar. Estava com

a sua conta de vodca. A expressão "o velho Fulano" C. um

i, ~,,


n .141 - E como vai vocˆ, Variamov?

k

¢timo. Safisfeifiss¡mo com a festa e bˆbedo desde



1 U que em

anheceu. V desculpando! #

2~ Varlamov falava arrastando um pouco as palavras.

J est de novo com a menfirada! grifou Bulkine

presa de um desespero sincero, clando.murros na farimba.

_ Mas o oufro parece que jurara não lhe prestar a minima

aferi‡ão. E o mais engra‡ado e que, desde que amanhece-

ra, Bulki'ne não deixava os calcanhares de Varlamov, afim de

o impedir de conversar. Vagueava afras dele como uma

sombra, discutia-lhe foclas as palavras, torcia os bra‡os, batia

nas paredes e nas tarimbas, af‚ ensanguentar as mãos, e

sofria, sofria realmente porque na sua opinião Varlamov men-

fia como um condenado! Se tivesse cabelos na cabe‡a, ar-

ranca-los-ia, de puro desespero! Poder-se-ia supor que ele

fomara sobre os ombros a responsabilidade das a‡ões de

Varlamõv, e que cada falta do outro lhe pesava na concien-

cia.  o pior de tudo e que Varlamov nem o enxergava.

- Tudo ‚ mentira, menfirada! Nem uma palavra e ver-

dade! berrava Bulkine.

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

195

sinal de respeito empregado pela genfe do povo, na Siberia,



mesmo quando e dirigida a um rapaz de vinte anos. A pa-

de respeito, ate

lavra "velho." tem um sentido de estima~

mesmo de lisonja.

e

- E que ' que tu tens com isso? exclamavam os outros



for‡ados, divertidos.

- Quero que fique sabendo, Alexandr Pefrovi+ch, que

fui um lindo rapaz; as mulheres eram loucas por mim, come-

‡ou de repente Varlamov.

- Mentiroso! Olha o menfiroso! inferrompeu Bulkine

numa esPecie de uivo. Todos os defen+os romperam em

gargalhadas.

1 - E eu sabia luxar: tinha uma blusa encarnada, cal‡as

de veludo bem largas; e me deitava como o conde Bufilkin (1),

e para designar a garrafa. (N. de P, Q.)

rig que serv

I

i



I #

196


DOSTOIEVSKI

4~

bˆbedo como um sueco. Afinal de c ritas ...



querer mais!

não se pode

- Mentira! afirmou energicamente Bulkine.

- Nesse tempo eu tinha a casa de meu pai, uma casa

de dois andares. Mas dentro de dois anos os dois andares

vieram abaixo, e fiquei s¢ com a porta, sem os portais. Que

havia de fazer? Dinheiro ‚ como os pombos: quando voou,

voou, esta acabado!

- Mentira, mentira! garantiu hulkine ainda mais ener-

gico.


- Quando cheguei aqu¡, mandei uma carta chorona aos

parentes, afim de que me mandassem um d¶nheirinbo. E

pensar que eu procedi contra a vontade da minha gente, que

lhes faltei com o respei+o! E ia faz bem sete anos que man-

dei essa carta!

œ não recebeu resposta? indaguei, sorrindo.

Não, não receb¡ resposta nenhuma, prosseguiu ele

sorrindo +arribem, e aproximando o nariz do meu. E aqui,

Akxandi- Pe+rovi+ch, tenho uma namorada ...

- Uma namorada? Aqu19

- Onufriev estava dizendo outro dia: "A minha pode

ser feia, picada de bexiga, mas +em os seus +rapinhos; e a

tua pode ser bonita, porem e uma, mendiga, vestida de

saco ...


- Sera possivel?

-  verdade, ela pede esmolas, respondeu Varlamov

com Um riso silencioso.

O alojamento inteiro +ambem ria; todos realmente co-

nheciam a liga‡ão de Varlamov com uma mendiga, a quem

ele dera no maximo uns dez copeques durante seis meses.

- E então? perguntei, desejoso de me livrar do bˆbedo.

Varlamov ficou num silencio reticente, depois falou, api-

nhando os labios:

- Sera que por causa disso tudo, n3o me emprestara

uns cobres para beber um trago, Alexandr Petrovi+ch? Olhe,

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

197

#

passei o dia inteiro bebendo unicamente cha, acr~scentou



prnavel, recebendo o meu dinheiro. Estou cheio de ch ate

aqui. . . J flique; sem TWego, e minha barriga sacoleja

como uma garrafa ...

No momento em que metia o dinheiro no bolso, o

desespero de Bulkine ultrapassava todos os limites. Estava

quase chorando e gesticulava como um possesso.

- Criaturas de Deus, berrava ele para o alojamento

todo, vejam esse homem! SO diz mentiras! Mentiras e mais

mentiras, s0 mentiras!

- Mas que e que tu tens com isso? pergun+aram-lhe

de novo os outros, espantados com aquele furor. Sera que

estas maluco?

- Não, não consinto que ele minta desse jeito, urrou

ainda Bulkine, revirando os olhos e despejando um murro.

enorme na tarimba. Não admito tanta mentira!

Rebentaram de novo as risadas. Varlamov, depois de

receber o que queria, inclinou-se diante de mim e tratou de

sair da caserna, trope‡ando, para ir diretamente ao bote-

quineiro, e logico. Nesse instante, parece que avistara

Bulkine pela primeira vez.

- Vamos, anda, disse de+endo-se na porta afim de o

esperar, como se aquele doido lhe fosse indispensavel. Ca-

be‡a de pau! exclamou empurrando Bulkine diante de si, com

ar de desprezo, e +o rido de novo a balalaica.

Como, porem, descrever o tumulto daquele dia sufocan-

te? Acabou, afinal. Os detenfos se estiram pesadamenfe

-nas tarimbas, falam, resmungam, sonham mais que de costu-

me. Aqui e aliem joga-se um pouco, mas a festa, a festa

tão !ongamenfe esperada, ia terminou. Amanhã e de novo

f .


aja ufil, sera de novo o trabalho. . .

I

I( #



C

14%


400

x1l


o espet culo

No terceiro dia das festas, a noite, nosso teatro deu o

seu primeiro espetaculo. Foram inumeros e ardentes

os conciliabulos referentes a organiza‡ão, mas os atores

guardaram tanta reserva sobre os seus problemas que n6s

não sabiamos sequer o que iriam represenfar. Duran+e esses

trˆs dias, quando iam ao trabalho, esfor‡avam-se os atores

por trazer a maior quantidade de +raios possivel. Quando

me encontraram, Baffichine estalava os dedos bem alto, para

significar o seu confentamento. O maior parecia estar dum

relativo bom humor; contudo ninguem poderia saber se es-

tava a par de tudo, se dera seu consentimento, ou se apenas

resolvera fechar os olhos, depois de se certificar de que as

cousas correriam convenientemenfe. Creio que o homem

nac, poderia ignorar a exis+encia do teatro, mas não queria

se envolver no caso, compreendendo que, se o proibisse, po-

L,

i #


200

DOSTOIEVSKI

deriam surgir surpresas desagradaveis: Os for‡ados se re-

voltariam ou se embriagariam, e pesado tudo, melhor valia

deixa-los entregues a sua distra‡ão.

Atribuo este rqciocinio ao maior, porque e o mais na-

tural e o mais lOgico. Pode-se afirmar que se, durante as

festas, os detenfos nSo dispusessem do teatro ou de qual-

quer cousa analoga para os distrair, a administra‡ão teria

que organizar um sarau. Mas como o nosso maior se disfin-

guia por id‚ias inteiramente opostas a da maioria da hu-

manidade, eu e que dou provas de uma grande falta de dis-

cernimento pretendendo que o homem sabia bem o que iazia.

Um individuo como o nosso maior, sempre, e por toda parfe,

+em necessidade de esmagar alquem, de retirar qualquer

cousa, de suprimir um direito, em""resuj'x\,o, de manter uma

ordem rigorosa. Toda a cidade o conhecia sob esse aspe f

cr

Pouco lhe importava que sua opress5o acarretasse o risco e



provocar uma revolta. "Existe um castigo para os rebeldes

(e assim que raciocin os homens do mesmo calibre que o

nosso maior) e com aZes for‡ados imundos a gente deve

aplicar a lei severa, impiedosameriM, ao pe da letra, - nada

de mais, nada de menos." Esses -executores cegos não com-

pr,eendem, e jamais serão capazes de compreender, que a

aplica‡ão da lei ao pe da letra, sem preocupa‡ões pelo seu

esp¡rito, leva diretamente ... rebelião, nem pode levar a outra

cousa. "A lei o diz - que e que quer mais?" exclamam

eles, sinceramente surpresos ante alguern que lhes pe‡a um

pouco de bom senso e sobriedade junto com a aplica‡ão da

lei. Essa ultima condi‡5o - sobriedade - e a que mais

lhes parece superflua e revoltante: consideram-na como um

vexame, uma falta de folerancia para consigo.

Seja como for, o sub-c,ficial nao se opos aos desejos dos

for‡ados; era tudo o ~ue lhe pediam. E afirmo que o teatro

e a condescendencia que o tolerou foi a razão pela qual du-

rante as festas não houve nem desordens nem roubos. Teste-

munhei a maneira pela qual os for‡ados +ornavam conta dos

bˆbedos a dos inconvenientes e os faziam desaparecer, ale-

RECORDA€OES DA CASA DOS MORTOS

14.,


-201

gando que, por causa deles, poderiam proibir a representa-

‡ão. O sub-c,ficial fez com que os deten+os lhe garantissem

que tudo decorreria bem e em calma. Eles concordaram, #

lisonjeados por essa confian‡a, e mantiveram religiosamente

a promessa.  preciso acrescentar que o consentimento

dado não acarretava nenhuma despesa a administra‡ão: os

lugares tinham sido marcados antecipadamente-, a cena se

montava e se desmontava toda num quarto de hora; a fun‡ão

deveria durar hora e meia e se sobreviesse bruscamente or-

dem de in+errompˆ-la, tudo desapareceria num abrir e fechar

de olhos, os +raios seriam escondidos nos baUs dos detenfos.

Mas antes de descrever os cenarios e os frajos, quero dizer

algumas palavras sobre o programa - isto ‚, sobre as pe‡as

que deveriam ser representadas.

Não havia programa escrito. Entretanto, a segunda ou

a terceira represen+a‡3o, apareceu um, composto por Baklu-

chine para uso dos senhores oficiais e outros frequen+adores

que, desde o primeiro dia, honraram o nosso teatro com sua

presen‡a. Nossos espet culos a principio foram acompanha-

dos pelo oficial de guarda-, uma vez ate o oficial da ronda

dignou-se assisfi-lo, de outra vez foi o nosso oficial de en-

genharia; e em honra desses grandes personagens e que se

preparou o programa.

Imaginavamos que a fama do nosso teatro se espalharia

Ia por fora, tanto mais porque na cidade não havia nenhum

outro; so de raro em raro algum espef culo de amadores. E

como verdadeiras crian‡as, os for‡ados se alegravam com

isso, e se envaideciam pelo mais infimo exifo.

"Quem sabe?" cochichava-se entre n6s, "pocle ser que

os chefões saibam do teatro e venham assis+ , -lo; e, então, vã' o

ficar admirados ao ver o que valem os for‡ados. O que nos

fazemos não +em nada de semelhante com esses +ea+rinhos

feitos pelos soldados: não usamos nem manequins, nem

barquinhos flutuantes, nem ursos, nem bodes amestrados: aqui

temos atores de verdade, que representam uma comedia de

"cavalheiros" e a cidade não tem nenhum teatro parecido.

15

I



J #

202 VOSTOIEVSKI

Urna vez houve uma represenfa‡ão em casa do general Abros-

simov, e parece que vão dar outra; mas, excetc, nos frajos,

eles não nos vencem, em mais nada, porque no di logo nao

fˆm nada de melhor que n¢s! E pode ate chegar aos ouvidos

do governador o boato do que sabemos fazer, e quem sabe

se ele não vem assisf ir? Na cidade não ha mesmo featro ne-

nhum!" Em suma: sobretudo depois do primeiro ˆxito,

a imagina‡ão dos for‡ados subiu ao auge; chegaram quase

a esperar recompensas ou diminui‡ão de pena - ao mesmo

fempo que tinham bastante juizo para rir das proprias diva-

ga‡ões. Sim, eram crian‡as, aufˆnfl~--as crian‡as, embora a

maioria denfre eles j houvesse Oassado dos quarenta anos.

Apesar da ausencia de programa, eu sabia mais ou menos

o que iriamos ver. A primeira pe‡a tinha como titulo: "Fi-

lafka e Mirofka, rivais". Uma semana antes da represenfa-

‡ão, Bakluchine se gabara diante de mim de que desempe-

nharia o papel de Filafka melhor do que jamais o represen-

tariam nos palcos de Pefersburgo. Passeava pelas casernas

e se jactava despudora da mente, embora sempre de bom hu-

mor. As vezes assumia de repenfe, uma atitude "de artista",

ou punha-se a declamar um frecho do seu papel, e todo o

mundo rebentava em gargalhadas, fosse a +irada engra‡ada

ou não.  preciso nofar, ali s, que os de+enfos sabiam man-

ter reserva e conservar a dignidade: para apreciar as +iradas

de Bakluchine, ou falar do feafro em prepara‡ão, era pre-

ciso ou ser um mocinho leviano, ou um de+en+o cuja aufo-

ridade tinha base s¢lida e cujos sentimentos se podiam ex-

primir sem rodeios, nus e crus, por mais ingenuos que fossem

(cousa que no presidio representa o pior defeito). Os outros

deixavam passar em silencio os comen+arios, sem julgar, sem

confradizer, +ornando todo o cuidado em escutar com indi-

feren‡a, e at‚ mesmo com desdem- 56 no Ultimo momen-

to. no proprio dia da representa‡ão e que cada um come‡ou

a se interessar: que haveria? que diria o maior? sa¡ria +udo

+ão bem como dois anos afras? e assim por diante. Bakiu-

chine me garantiu que a escolha dos atores fora excelenfe,

RECORDA€OES DA CASA DOS MORTOS

203


-que todos esfariam "no lugar devido", que hayeria af‚

mesmo um pano de boca, que Sirofkine faria o papel da

noiva de Fila+ka. "Vai ver como as saias lhe assentam!"

acrescentou piscando o olho e estalando a lingua A

"baridia bonfeifora" usar¡a um vestido de folhos, uma pele-

rine, fraria uma sombrinha na mão; o "nobre benfeitor" ves-

firia farda de oficial, com dragonas e um rebenque.

Em segundo lugar dever-se-ia represenfar o drama: "Ke- #

dril, o glufão". Esse titulo me infrigou muito, mas não me

adiantaram pe!gunfas; nada consegu¡ apurar, anfes. Soube

apenas que a pe‡a não fora tirada de livro, porem de uma

"escritura" copiada por um sub-cficial reformado; o fal sub-

oficial decerto representara algum papel numa das repre-

senfa‡ões da pe‡a dada por um grupo de amadores militares.

Nas nossas cidades e provincias disfantes enconfram-se real-

mente pe‡as desse genero, que provavelmente ficarão para

sempre in‚ditas: não foram nunca impressas, - apareceram

apenas para servir ao feafro popular. Falei: "teatro po-

pular"-, e seria realmente bom que os nossos escritores se

ocupassem com pesquisas novas e mais objetivas nesse gˆ-

nero de feafro que 6 muito mais vivo e mais rico do que o

imaginamos. Disso me convŠnci dianfe de tudo que vi nos-

sos for‡ados fazerem para o seu espet culo. H tradi‡ões,

m‚todos, no‡ões j esfabelecidas que se transmitem de uma

gera‡ão a outra. Seria possivel lhes seguir os rasfros por

meio dos soldados, dos operarios da usinas, e ate enfre os

habitantes dos pequenos vilarejos longinquos. Conservam-se

fambem no campo e nas capitais de provincias, entre o

pessoal domestico dos grandes lafifundiarios. Creio mesmo

que muitas pe‡as antigas s¢ tiveram amplitude e s¢ se disse-

minaram afraves da Russia gra‡as a esses afores improvi-

sados. Os grandes proprie+arios e senhores moscovifas de

outrora tinham o seu elenco particular composfo de artistas-

servos. E esses teatros foram o ber‡o de nossa arfe dra-

m6fica popular, arfe cuja exis+encia 6 indiscufivel. No que

se refere a "Kedril, o glufão"; apesar de foclos os meus de- #

DOSTOIEVSKI

seios, nada pude saber cie preciso, senão que apareceriam de-

monios em cena, que levariam Kedril para o inferno. Mas que

significaria esse nome "Kedril"? E por que Kedril, em vez

de Kyril (Cirilo)? A pe‡a seria russa ou estrangeira? Não

pe-le obter nenhuma informa‡ão precisa. Anunciou-se que,

para ferminar, haveria uma "pantomima musicada". O con-

junfo pois prometia muito. Os atores aram em numero de

quinze, foclos espertos e despachados. Esfor‡avam-se extra-

ordinariamente, ensaiavam as vezes a+ras das ca¡siernas, fa-

ziam-se de misteriosos, em suma, preparavam-nos algumõ

surpresa extraordinaria.

Nos dias de trabalho, fechavam-se os alojamentos ao

cair da noite. Por exce‡ão, durante as fesfas de Natal so

eram francadas as porfas depois do foque de recolher. Esse

favor especial fora concedido por causa do teatro. Duranfe

o fempo das fesfas todas as noifes mandava-se pedir ao ofi-

cial de guarda que autorizasse a representa‡ão e deixasse

abertas as casernas mais tempo, explicando-lhe que, na

v‚spera, quando houvera espet culo, se haviam fechado

tarde as porfas sem que se regisfrasse desordem alguma.

O oficial de guarda dizia então: "Ontem, com efeito, não sa

passou nada de grave, e se eles me dão a palavra de que não

havera nenhuma infra‡ão a disciplina, e que eles proprios

farão o policiamenfo, fico de acordo, e espero que esse

policiamento seja muito mais rigoroso que o nosso. Al s,

se proibo a representa‡ão, pode-se Ia saber o que acon-

face com -essa genfe? decerto havera encrenca, e em boa

complica‡ão estarei metido! Ademais, ‚ muito aborrecido

montar guarda: fenho o direito de assistir a esse espe+6cu16,

dado não por simples soldados, mas por presos, que são genfe

muito mais curiosa. Vamos ver o que e que eles são capazes

de arrumar!" E realmente, o oficial de guarda sempre tinha

o direifo de ir ver.

Alias, se o oficial de ronda indagava: "Onde esfa o

oficial de guarda?" nespondiam-lhe: "Foi fazer a chamada e

fechar as casernas", o que era uma resposta exata e uma fa-

- i


RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

2DS


cil justificativa. Assim, durante as festas. o espefaculo foi

autorizado, e não se fechavam as casernas senão a hora de

recolher. Os for‡ados sabiam de antemão que a guarda

não entravaria nada, motivo pelo qual se sentiam tranquilos.

Pelas seis horas, Petrov me veio procurar, e saimos juntos #

para a fun‡ão. Toda a nossa caserna estava Ia, exceto o

"velho crenfe," de Tchernigov e os polacos. Estes £ltimos s6

se resolveram a vir no derradeiro dia, 4 de janeiro, depois

que lhes garantiram defalhadamente que tudo era decenfe,

alegre e sem perigo. O desdem dos polacos irrifava os

nossos for‡ados, de forma que os receberam com uma po-

lidez extraordinaria; insfalaram-nos afˆ nos melhores lugares.

Para os circassianos e, principalmente para Isai Fornitch, o

featro foi uma delicia. Todos os dias o judeu sacrificava

trˆs copeques; no ultimo dia, chegou a depor no prato uma

moeda de dez copeques, - e a gente lia o deslumbramenfo

no seu rosto. Tinham resolvido os responsaveis que a assis-

fencia pagaria o que quisesse, para cobrir as despesas e para

'/estimular" os atores. Pefrov garanflu-me que me deixa-

riam ocupar um dos principais lugares, mesmo que o teatro

ficasse a cunha, porque, sabendo-me mais rico que os outros,

esperavam que eu desse contribui‡ão mais generosa - e

fambem porque me consideravam um enfenclido. E assim

sucedeu. Vou primeiro descrever a sala e o arranjo do teatro.

A caserna da se‡ão militar, na qual fora insfalado o

palco, tinha quinze passos de comprimenfo. Subia-se do

pafio para um p6rfico, que dava para uma salinha de entrada,

precedendo a sala propriamenfe dita. Como ia o expliquei,

essa coserna fora arrumada de modo diverso das outras; a +a-

rimba ficava ao comprido das paredes e o meio do salão era

livre. A metade da caserna do lado da entrada fora re-

servada para os espectadores, e a segunda metade, que co-

municava com uma outra pe‡a, servia de palco. A primeira

cousa que me impressionou foi o pano de boca. que se es-

fendia dez passos afraves da sala. Era de uma opulencia

inaudita, aquela cortina: fora pintada a oleo, e nela se viam #

206

DOSTOIEVSKI



rvores, cararrianchões, lagos, estrelas. Compunha-se de pano

novo e usado, ao acaso dos donalivos. velhas +iras de enrolar

os p‚s, camisas velhas remendadas num len‡ol enorme. Nos

trechos em que faltava o pano, tinham simplesmente feito os

remendos com papel, mendigado folha por folha nos diver-

sos escriforios da fortaleza. Nossos pintores, na primeira

fila dos quais se distinguia o nosso "Bruilov", - isto e, A. . . v,

empregaram todo o seu engenho em decora-lo o colori-lo.

O efeito ultrapassava qualquer expectativa. Aquele luxo

satisfez ate mesmo os mais sorumbaticos e os mais exigentes

dos for‡ados, que ali s, desde o come‡o do espe+6culo,lb

mostraram +ão infantis quanto os mais impacientes e exal-

tados. Estavam todos de ofimo h umor, direi ate de um bom

humor orgulhoso. Tocos de vela consti+uiam a ilumina‡ão.

Diante da cortina ficavam dois bancos tirados da cozinha,

e duas ou +res cadeiras +ornadas ... sala dos sub-c,ficiais. As

cadeiras tinham sido postas ali prevendo uma possivel vi-

sifa dos oficiais superiores. Os bancos eram destinado6 aos

sub-oficiais, secrefarios de engenharia, capatazes e outros

chefes sem patente de oficial, - se lhes ocorresse vir dar uma

olhadela. - o que justamente aconteceu: mais ou menos

numerosos, os visitantes de fora~ não faltaram durante foclos

os espefaculos; na ultima noite`I não ficou nos bancos um

£nico lugar desocupado ... Aftas dos bancos comprimiam-

se os for‡ados, de pe, em sinal de respeito para com as vi-

sifas, sem gorro, de casaco ou de capote, apesar da fuma‡a

e do calor sufocante. Estavam literalmente amontoados uns

sobre os outros, sobretudo nas Ultimas filas, e ocupavam ainda

as tarimbas e os bastidores; alguns espectadores ate, reunidos

na segunda pe‡a por fras do palco, olhavam de Ia a fun‡ão

afraves dos bastidores do fundo. Na primeira metade da

caserna o aperto era fão.granda quanto o que eu vira nos

banhos. A porta do anfecƒmara estava aberta. L dentro

fazia vinte graus de frio, contudo fambem ela estava cheia.

Empurraram-nos imediafamenf e para diant e, a Pefrov e a mim,

ate aos bancos, onde se avistava a cena muito melhor que no

RECORDA€OES DA CASA DOS MORTOS

207


fundo da sala. Considaravam-me bom juiz, um entendido, que

Ia estivera em grandes tea+ros; tinham visto Bakluchine varias

vezes me vir pedir consa¡hos, e mosfrar deiFerencia para

comigo; deveriam, portanto, me honrar com um lugar bom.

Os for‡ados são gente vaidosa, insensa+a; apenas, porem, na

superficie ... Podiam zombar do mesquinho operario que #

eu era, um Almazov tinha direito de nos encarar com des-

prezo - o

a n¢s, os barines - e gabar-se diante de n's da sua

habilidade em calcinar alabasfro; mas suas zombarias, sˆus es-

carneos, provinham de outra causa: n¢s finhamos sido nobres,

perfenciamos a mesma classe que os seus -antigos senhores,

dos quais não conservavam nenhuma boa lembran‡a. Entre-

tanto, al¡, no teatro, afastavam-se para me ceder lugar.

Reconheciam que, naquele assunto, eu.entendia mais que

eles. Os menos bem dispostos para comigo (soube-o de

fonte limpa) desejavam agora ouvir minha opinião sobre o

espe+aculo, e, sem o menor servilismo, me empurravam para

a primeira fila. Analiso hoje isso, de acordo com as minhas

impressões de então. Naquele mesmo momento, compreencl¡

- recordo-o muito bem - que no julgamento sensato que

eles faziam sobre si proprios, não havia nenhuma humildade,

mas antes o sentimento do proprio ~neri+o. O tra‡o mais

caraferisfico e mais impressionante do nosso povo ‚ sua con-

ciencia e sua sede de justi‡a. Fazer-se de galo, adiantar-se,

disputar o primeiro lugar, quer seja digno ou não de o ocupar,

- esse defeito não se lhe pode atirar ... face. Assim que a

gente lhe fira a grosseira casca e estuda atentamente e sem

preconceitos o que est em germe por baixo, descobre qua-

lidades das quais não desconfiava absolutamente. Nossos

moralistas não +em muita cousa a lhe ensinar. Dinei mais:

os nossos moralistas poderiam aprender muito em confacto

com o povo.

Pe+rov me afirmava ingenuamente que me deixariam pas-

sar ... frente porque eu pagaria mais. Não havia pre‡o fixo:

cada um dava livremente o que podia, mas todos puseram

pelos menos um copeque no prato, quando este circulou. Na #

DOSTOIEVSKI

alidade, se me deixaram passar a frente, na certeza de que

ar¡a mais que os outros, isso +ambem provinha dum sen-

imenfo particular de dignidade. µu ‚s mais rico que eu,

assa ... frente; conquanto sejamos iguais aqui, pagas melhor,

portanto, espectadores como tu são mais agradaveis aos

fores. Ocupa o primeiro lugar, porque não es+amos aqui

evido ao nosso dinheiro, mas em considera‡So aos atores

ue representam: nos mesmos sabemos classificar-nos". Que

Ifivdz nessa maneira de agir! Procede não do respeito ao'

inheiro, porem do respeito proprio. Ali6s, no presidio, não

e tinha grande deferencia. pela riqueza, sobretudo se a gente

ncara os detenfos em bloco. E afˆ mesmo passando-os em

evisfa de um em um, não me recordo de ter visto um unico

umilhar-se por causa de dinheiro. Não falfavam os pedin-

hões - e muitas vezes fui vitima deles, todavia agiam mais

or esperteza que cupidez. Sabiam pedir com gra‡a, com

rifanfilidadel Não sei se me expresso com clareza ... Con-

udo, voltemos ao teatro, que ia ia esquecendo.

Anfes de levantar o pano, a sala apresentava um quadro

de esfranha anima‡ão. Em primeiro !ugar, a multidão de

espectadores amontoados, apinhados, acumulados em toda

parte, com as caras impacienfes e felizes esperando o inicio.

Nas Ultimas filas, homens frepados uns em cima dos outros.

Muitos tinham trazido foros de lenha da cozinha: encosta-

ra-nos as paredes, e, trepados sobre eles, apoiando os bra‡os

nos ombros dos que estavam por baixo, manfiveram-se du-

rante horas nessa posi‡ão, safisfeifissimos consigo proprios

e com os seus lugares. Outros, com as pernas apoiadas a

borda inferior da estufa, ficaram assim todo o tempo, sus-

tentados pelos que lhes ficavam a frente. E o mesmo acon-

tecia com as ultimas filas, junfo a parede. De lado, nas

farimbas, havia fambem uma multidão formigante e com-

pacta, que rodeava os musicos. La estavam, alias, os me-

lhores lugares. Cinco homens tinham trepado e estirado

por sobre a estufa, de onde olhavam para baixo; esses na-

davam em beati+ude. Nos portais das outras paredes fi-

4w

4'

turba dos refarda+arios, dos que nada haviam con



;Y~ cava a

J-,


g,5

seguido de melhor. Todos se portavam decentemente, sem

11 1 sob Lm bom as-

pacto aos harines e as "visitas". As caras vermelhas e lus- #

suor, devido ao calor sufocante, exprimiam a

frosas de

mais ingenua impaciencia. Que esfranho reflexo de alegria

infantil, que contentamento radioso emanava daquelas fronfes

marcadas de cicatrizes, ferrefeadas, dos olhares daqueles

homens af‚ então desolados e sombrios, olhares onde

outrora brilharam clarões +erriveis! Do lado direito, onde

eu estava. as cabe‡as sem gorro me apareciam comple+amen-

+e raspadas., . . Mas de repente, na cena, observa-se um mo-

vimenfo, um rumor... O pano vai subir... a orquestra ini-

cia a "ouver+ure". Essa orquestra merece men‡ão especial ...

De um lado, na tarimba, via-se um grupo de sete musicis+as:

dois violinos (um pertencente a um deiento e outro arranjado

na fortaleza - porem o artista era um dos nossos); +rˆs bala-

laicas - obra dos for‡ados: e um tamboril, fazendo as vezes

de confrabaixo. Os violinos rangiam, guinchavam, as quitar-

ras não valiam nada, mas em compensa‡ão as balalaicas eram

incomparaveis. A agilidade dos dedos que tangiam as cordas

tinha algo de prestidigita‡ão. Tocavam principalmente

musicas de dansa. Nas passagens mais movimenfadat, os

musicos batiam com o dedo fechado na madeira do insfru-

mento; o tom, a execu‡ão, tudo era original, tudo +raia o

presidio. Um dos guitarristas +ambem entendia maravilhosa-

mente do seu instrumento: era ele o jovem barine parricida.

O pandeiro fazia maravilhas: ora girava o disco nos dedos,

ora fazia ressoar a pele com o polegar; ora se ouviam pan-

cadas claras, hmpidas, monoforias, ora irrompia dele um

rumor sonoro que caia como uma cascata e se espalhava

num diluvio de pequenos ruidos trˆmulos, em ricochete. En-

fim, havia ainda duas sanfo'nas. Palavra de honra, eu ate

então não tinha a minima id‚ia do partido que se pode firar

desse grosseiro instrumento popular: a harmonia dos sons. a

execu‡ão, e, sobretudo, a expressão, a compreensão perfeita

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS

209

A #


210

DOSTOIEVSKI

dos motivos, eram verdadeiramente exfraordinarios. Foi

en+So que descobri quanto abandono infinito, quanto amor

do risco traduzem as sugestivas m£sicas de dansa da Russia.

Afinal, ergue-se o pano. Todos estremeceram, inquietaram-

se; os de fras levan+aram-se na ponta dos pes, alguern caiu

dum foro, e do primeiro ao ultimo espectador, ficaram todos

de boca aberta e olhos arregalados. Reinava um absoluto

silencio. A fun‡ão come‡ara.

Ao meu lado estava Ali, no grupo dos irmãos e dos

outros circassianos. Todos se apaixonavam pelo espelaculo;

não faltaram a uma unica das represen+a‡ões. Como ia o

observei mais de uma vez, os mu‡ulmanos, far+aros e e+c.

são grandes apreciadores do teatro. Ao lado deles, Isai Fo-

mi+ch, logo ao subir do pano, esticava o rosto ex+asiado para

os milagres que se iriam produzir. Que desola‡ão se sofres-

se uma decep‡ão! O belo rosto de Ali resplandecia com

um prazer de menino, tão bonito, que dava gosto ve-lo-. Toda

vez que uma das +iradas divertidas dos atores provocava o

riso geral, eu involu n+a ria mente me voltava para o olhar. Ele

não me enxergava, cuidava de cousa bem diversa! Junto a

mim, do !ado esquerdo, estava um for‡ado de certa idade,

sempre sombrio, descontente, resmungão. Ele +ambern re-

parara em Ali, e, mais de uma vez, vi-o virar-se com um

meio sorriso, para contemplar aquele rosto tão agradavel!

Não sei por que, cha,mava-o Ali Sernionitch.

i,

Principiaram por "Fila+ka e Mirofka". Bakluchine repre-



sentava com perfei‡ão o papel de Filatka. Via-se que medi-

tara cada frase, cada movimento. A menor das palavras

que dizia, o minimo gesto, tomavam um sentido inteiramente

de acordo com o carafer do papel. Acrescen+e-se a esse

esfor‡o, a esse estudo, uma alegria surpreendente, irresistivel,

e simplicidade,, na+uralidade. Quem quer que visse Bakluchine

erifão. afirmaria imediatamente que estava diante de um

verdadeiro ator, de um ator nato, dotado de um enorme ta-

lento. Assisti mais de uma vez a "Fila+ka" em Moscou e Pe-

tersburgo, e afirmo que nenhum dos comediantes de ambas

. IL

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS



211

as capitais se igualava a Bakluchine: comparados a ele, eram

camponeses ... francesa, e não autenticos mujiques. Via-se o

esfor‡o que faziam para meter-se na pele do personagem. #

Bakluchine tinha, ademais, o acicate da emula‡ão: todos

sabiam que na segunda pe‡a o papel de Kedril seria desem-

penhado por um +ai de Pofseikine, considerado, não sei por

que, melhor comediante que Bakluchine, - e Bakiuchine sofria

como uma crian‡a por causa dessa preferencia. Quantas

vezes, nos £ltimos dias, não veio desabafar no meu peito os

seus ciumes! Duas horas antes da representa‡ão, tiritava

de febre. Ante as risadas e os gritos da assis+encia: "Bravo,

Bakluchine! Isso! Muito bem!" o seu rosto resplandecia e a

inspira‡ão lhe brilhava nos olhos. A cena, dos beijos com

Mirofta, quando Fila+ka lhe recomenda antes que se limpe

e acaba limpando-se a si propr¡o, foi duma comicidade per-

feita. Todo o mundo explodiu numa gargalhada. Contudo,

o mai s interessante para mim era os assistentes se abandona-

rem, sem nenhuma censura. Os gritos de aprova‡ao ressoa-

vam cada vez mais copiosos. C6 es+6 um for‡ado que em-

purra o vizinho com o cotovelo e lhe comunica vivamente

as suas impressões, sem saber sequer a quem se es+6 dirigindo.

Um outro, na sua exalfa‡ão, no inicio de um

a cena comica,

vira-se para a assis+encia, abarca-a com o olhar vivo, ges-

ticula como se a estimulasse a rir, depois +orna a fixar avida-

mente os atores. Um terceiro estala a lingua e os dedos,

não pode estar sossegado, mas como lhe e impossivel me-

xer-se, fica marcando passo, num p‚ e noutro. No fim da

pe‡a, a alegria atinge o auge. Não exagero, absolufamen-

te. Imagine-se a prisão, os ferros, o cativeiro, os longos

anos tristes que devem ser passados Ia, naquela vida mono-

tona, semelhante a chuva que cai gota a gota num escuro

dia de outono - e de repente todas aquelas criaturas apri-

sionadas, aferrolhadas, conseguem durante uma hora perm¡s-

são para se expandirem, para se alegrarem, para esquecerem

o seu pesadelo e organizarem um espefaculo capaz de des-

pertar a inveja e a admira‡ão da cidade in+eira! "Offi--m

I #

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS



212

DOSTOIEVSKI

os for‡ados!" Tudo apaixonava, a come‡ar pelos frajos. Era

para eles extremamente inferessante, por exemplo, verem

Vanka Otpiet, ou Nietsvietaiev, ou Bakiuchine com roupa dlf‡-

rente da que eles estão habituados a usar diariamente, ia ha

anos.  um for‡ado, nada mais que um for‡ado, ressonando

as grilhefas, e ei-lo que entra no palco vestindo sobrecasaca,

cartola e sobrefudo, como um cavalheiro. E pinfou um bi-

gode, e +em cabeleira! Tira do bolso um lindo len‡o ver-

melho e faz gesfos fidalgos, como se fosse um barine autˆn-

fico! O entusiasmo chega ao auge. O "nobre benfeitor"

enfra em cena, com a farda de ajudante de ordens - bem

gasta, e verdade, - mag com dragonas, gorro com +opiiiiiii

militar, e produz um efeito indescrifivel. O papel teve dois

candidatos - e quem o acreditaria? ambos brigaram como

garotos para ver quem o obtinha, tão grande desejo tinham

de se exibir na farda de oficial! Os outros atores tiveram

que os separar: a maioria dos votos deu o papel a Nie+svi‚-'

faiev, - não porque fosse mais bonifo, ou parecesse mais

com um nobre; mas persuadira-os de que arranjaria um re-

benque com o qual faria molinefes, baferia no chão, exata-

mente como um barine legitimo, como um elegante autˆntico,

cousa que Vanka não poderia fazer, pois jamais se avisfara

de perfo com um fidalgo. E realmente, quando apareceu

com a sua dama peranfe o publico, Nie+svie+aiev passou o

tempo todo dando voltas no'ar com um leve rebenque cle

bambu, que ele arranjara sabe Deus onde, certo de que assim

dava provas de alta educa‡ão, de uma elegancia inconfes-

+avel. De certo, na infancia. pequenino servo descal‡o, vira

um cavalheiro elegantemente vestido divertir-se em girar

com um rebenque: ficou-lhe gravada a impressão, e frinfa

anos depois servia-se dela para seduzir e encantar o presidio

infeiro.


Niefsviefaiev estava fão absorto em sua ocupa‡5o, que

não via nada nem ninguem, e falava com os olhos fixos na

badine. A "nobre benfeitora" +ambem era nofavel, ao

seu modo. Apareceu com um velho vestido de musselina,

213

que mais parecia um farrapo, bra‡os e colo nus, uma cara



esfranha, pintada de vermelho e branco, uma fouca de dormir,

de chifa, amarrada debaixo do queixo. Corri uma das mãos

segurava uma sombrinha, e com a outra se abanava com um

W~lue de papel visfoso. Uma salva de gargalhadas a recebeu, #

e a noGre senhora, ela propria perdendo a gravidade, diver-

sas vezes pos-se a rir. O papel era desempenhado por um

tal de 1vanov. Sirofkine, vestido de rapariga, esfava encan-

fador. E cantou muifissimo bem as suas copias. Em resu-

mo, a pe‡a ferminou com geral agrado. Não houve a menor

critica. nem poderia haver...

Tocou-se mais uma vez a "ouverture" "Sombras, minhas

sombras" (1) e o pano subiu para "Kedril". Kedril e uma es-

pecie de Don Juan, pois no fim da pe‡a amo e criado são

levados para o inferno. O manuscrito foi representado sem

corfes, mas senfia-se que estava incomplefo, sem come‡o

nem fim, sem pe nem cabe‡a. A a‡ão se passava num local

qualquer da Russia, numa estalagem de posta; o esfalajadeiro,

leva para um quarto um senhor que usa capa e chapeu re-

dondo. Nas suas pegadas caminha o criado Kedril com um ma-

lofe e um frango enrolado em papel azul. Kedr¡i usa capofe e

um gorro de libre: e ele o glutão. Po+seikine, o concorrente

de Baffichine, fazia o papel, enquanto lvanov, "a nobre ben-

feitora" da primeira pe‡a, representava o amo. O esfalaja-

deiro (Niefsvie+aiev) avisa o harine de que o quarto e assom-

brado por derrionios; depois. refira-se. O cavalheiro, preo-

cupado, sombrio, resmunga a parfe que ia sabe disso ha

muito fempo. Ordena a Kedril que arrume a bagagem e

prepare a ceia. Kedril e um covarde e um glutão. Escu-

+ando falar em demonios, empalidece e +reme como uma

folha. Tem vontade de fugir, mas fambem +em medo do

amo. Ademais, esfa louco para comer. Adora empanturrar-

se, ‚ est£pido, covarde, astuto ao seu modo, engana o amo

a todo momento, apesar do medo que esfe lhe inspira. Nesse

(1) C‚lebre can‡ão popular (N. de H. M.)

V' ~

J,

1~



I #

214


DOSTOIEVSKI

r

tipo notavel de lacaio € gente encontra um vago e longin-



quo parentesco com Leporello. O papel estava realmente

muito bem desempenhado: Pai Potseikine tinha um talento

indiscutivel, superior at‚ ao de Bakiuchine.  claro que

quando no dia seguinte me avistei com Bakluchine, não lhe

fransmif¡ esse meu juizo; feria magoado muito o coitado. O

preso que representava o amo farribern se saiu muito bem:

seu palavrorio desalinhavado não significava nada, porem a

dic‡ão ara precisa, os gestos adequados. Enquanto Kedril

cuida da maleta, o senhor vai e vem pelo palco e anuncia

aos qua+ro ventos que aquela noite pora fim as suas viagens.

Kedril escuta com curiosidade, faz caretas, da apartes, pro-

voca estrondosas gargalhadas. Não sente nenhuma compai-

xão pelo amo. mas ouvindo falar em diabos, quer saber como

são, e faz perguntas sobre perguntas. O amo afirMil lhe ex-

plica que, enconfrando-se outrora em dificuldades, pediu

auxilio ao inferno. Os demonios o ajudaram, 1 o libertaram,

mas hoje e o dia marcado para o fim, e segundo o pacto,

decerto eles virão para lhe carregar a alma. Kedril põe-se

a tremer de verdade; contudo o amo não perde a e ~agem,

e manda-o de novo tratar da ceia. Ouvindo falar em ceia,

Kedril se anima; desembrulha o frango, +ira uma garrafa,

desossa o bicho, não sem provar dele. O publico gargalha.

De repente range a porta, o vento sacode as janelas; Kedril

estremece, e as pressas, quase invol untaria mente, mete na

boca um tão grande peda‡o do frango, que o não consegue

engolir. Novas risadas. "Esta pron+o?" indaga o amo en-

trando de novo no quarto. "Um instante ... barine...

estou preparando. . . " responde Kedril, que est pondo a

mesa e com toda a franquilidade se propõe a devorar a ceia

do fidalgo. O publico admira a pouca vergonha e a as+u-

cia desse lacaio que de tal modo ludibria o amo. Deve-se

dizer que Po+seikiw merecia todos os elogios. As palavras:

"Um instante ... barine ... estou preparando. . ." foram ad-

miravelmenfe ditas. Desde que ele come‡a a por a mesa,

põe-se fambem a devorar, sobressal+ado a cada passo do

N~

RECORDA€õES DA CASA DOS MORTOS



215

1 amo, que lhe poderia descobrir as bandalheiras. Cada vez

.1 que o barine se volta, Kedril se esconde debaixo da mesa,

e puxa um peda‡o do frango. Por fim, sacia um pouco o #

apetite e pode cuidar na ceia do patrão. "Kedril, esf6

pro ar


;"r' rifo?" grita o h ine. "Esfa pron+o", responde Kedril

-,.com vivacidade, mas verifica que não resta senão uma coxa

no prato ... Sempre absorto, sombrio, o fidalgo senfa-se ...

mesa sem nada perceber de anormal, e Kedril, munido de

um guardanapo. planfa-se por +ras do seu senhor. Cada

palavra, cada gesto, cada careta de Kedril - quando, por

exemplo, voltado para o publico, abana a cabe‡a ante a

tolice do barine, provoca risadas inex+inguiveis. Mas, exa-

famenfe no momento em que o amo come‡a a refei‡ão, a-

parecem os diabos. A partir dai, não ha mais jeito de com-

preender cousa nenhuma: os diabos não tˆm absolutamente

nada de humanos, a porta do lado se abre, uma cousa branca

aparece, com uma lanterna acesa no lugar da cabe‡a: seque-a

um segundo fantasma, que +ambem +em como cabe‡a uma

lanterna e na mão segura uma foice. Por que as lanternas,

por que a foice, por que os diabos de branco? Esperto

quem o explicar. Tinha que ser assim, e nada mais. O

fidalgo se mostra bem valente: encara os diabos e diz que

esta pronto, que eles s0 carecem +ornar o que ‚ seu. Ke-

dril, ao conirario, ‚ poltrão como um coelho: esconde-se

debaixo da mesa, mas apesar do seu pavor, n3o se esquece

de apanhar a garrafa. Os diabos desaparecem um instante,

Kedril sai do esconderijo. No momento em que o amo vol-

ta ao frango, reaparecem +rˆs diabos, agarram-no, levam-no

consigo. "Kedril, me acode!" brada o harine. Kedril +em

outros cuidados: a garrafa, o prato, o proprio pão, que carre-

ga para debaixo da mesa. Enfim, ei-lo so: ia não ha dia-

bos, j não h amo. Kedril ergue-se; olha em forno de si;

um sorriso amplo lhe ilumina a cara. Canalha que e, pisca

o olho, senfa-se no lugar do barine, e balan‡ando a cabe‡a

para o p£blico, diz ... meia voz:

- Muito bem! agora ia não tenho senhorl

1

i #


216

DOSTOIEVSKI

Todo o mundo ri por vˆ-lo sem amo; então ele acres-

centa, sempre a meia voz, dirigindo-se confidencialmente ao

publico, com olhares cada vez mais alegres:

- Qs demonios o carregaram!

O entusiasmo dos espectadores torna-se indescrifivel.

Alem do fato de terem os demonios carregado o barine, as

palavras foram ditas num jeito tão can...¡ha, com uma caref

tão zombeteira e triunfante que ninguern p"de deixar dˆ

aplaudir. A felicidade de Kedril, porem, não dura muito.

Mal apanhou a garrafa e encheu um copo, os diabos retor-

riam, deslizam por fras dele, na ponta dos p¢s, e o seguram

pelas costas. Patife demais para se volfar, Kedril berra

com toda a for‡a de que dispõe. E nSo pode defender-se , :

est com as mãos ocupadas pela garrafa e pelo copo, dos

quais não tem coragem de se separar. Com a bp, ca escarf-

carada de horror, fica wrca de meio minuto de 'olhos arre-

galados, com uma +ai -expressão de covarde a~avorado, que

decididamente merece um quadro! Enfim, arrastam-no , car-

regam-no, com a garrafa que ele não larga4grifa, sem parar;

seus gritosecoam nos basficlores. Mas cai o pano, com uma

gargalhada geral. A orquestra da ri i i ' K

m nk- ti o a a?arjnSKaga

1

Come‡a num pianissimo que mal se escuta, depois o



motivo se amplifica, o compasso se acelera, os dedos d~9bra-

dos batem ousados na madeira da balalaica.  gr.~karri...rins-`

kaia em todo o seu furor, e seria bom se Glinka por acaso

a ouvisse no presidio. Então, inicia-se a pantomima. A Ka-

marinskaia acompanha-a durante focla a sua dura‡ão. A

cena representa o interior de um moinho. Senfado a um

canto, o moleiro con,erfa um arreio, enquanto a mulher fia

(2) M£sica de dansa Popuiar, que inspirou ao Compositor Fiodor Glinka (1803-

1857) uma "fantasia" c‚lebre. A letra da l(amarinskaia ‚ bastante escabrosa. O

mujique de Komarino ‚ um vagabundo onginario de Sievsk, antigo lugar de deporta‡ lo

da provincia de Orei. Dostoievski fala mais longamente sobre essa can‡ão no seu

livro: "O Burgo de Stepantchikovo". Gogol tambern a comenta em "Almas Mortas".

(N. de H. M.)

16

I #



UCOILDA€õES DA CASA DOS MORTOS

4

219



num outro- canto. Sirofkine represenfava o papel da mulher,

Niefsvitaiev o do moleiro.

Farei notar que os cenarios eram paup‚rrimos. Nessa

pe‡a, como nas precedenfes, era preciso completar com a

imagina‡ão o que os olhos viam. Em lugar de parede no

fundo, pendia uma especie de tapete, ou manta de cavalo;

... direita, tinham posfo um biombo desmantelado: o lado es-

querão, que nada tapa, deixa ver a tarimba. Mas os espec-

tadores não são exigenfes, o estão dispostos a completar

em pensamento as deficiencias da realidade. Desde que

lhes dizem "isso a¡ ‚.um jardim, um quarto, uma isbat# -

não precisa mais, não adianfa tarifa cerimonia. Sirofkine,

no papel da mo‡a moleira, estava um encanto; murmuram-se

alguns elogios enfre os espectadores., O moleiro acaba o

que est6 fazendo, apanha o chap‚u e o chicote, dirige-se ...

mulher e lhe explica por m¡mica que precisa sair e se durzi -

te sua ausencia, ela receber alguern, então-. . . o mosfra-lhe o

chicote. Ela parece enfender muito bem do que se frafa.

pois assenfe com a cabe‡a. Sai o moleiro. Mal franspõe

o umbral, a mulher o amea‡a com o punho fechado. Ba-

tem, a porta se abre, o um vizinho, moleiro +ambem, enfra.

 um muiique barbudo, vestido- num cafe+3. Traz de pre-

senfe um len‡o vermelho. A mulher ri, mas no momenfo em

que ele vai abra‡a-la, bafem de novo. Que fazer? Ela o

esconde precipifadamenfe debaixo da mesa, e volta a fiar.

Apresenta-se novo adorador: ‚ um furriel, fardado. A pari-

fomima af‚ então foi irrepreensivel, e cada gesto perfeita-

mente exato. Olhando-se aqueles afores improvisados, a gen-

te fem que se espantar e dizer, mau grado seu: "quanta for-

‡a, quanfo falenfo perdido na nossa Russia, enferrados, por

uma insignificancia ...s vezes, no fundo dos presidios ou do

degredo!" Porem o for‡ado que representava o furriel assis-

fira decerfo a alguma represenfa‡ão, - falvez numa cidade

de provincia, talvez num feafro de barines; achava decerto

que os nossos atores, do primeiro ao £ltimo, não entendiam

nada de palco e n3o se apresentavam direito em ceria. #

220

DOSTOIEVSKI



Executou pois a sua enfrada a maneira dos herois do velho

reperforio classico: depois de uma vasta passada, emperfi-

gou a cabe‡a e o busto, lan‡ou em +orno de si um orgulhoso

olhar circular, -e executou afinal segunda passada, tão majes-

tosa quanto a primeira. Um andar daqueles, ia grotesco nos

herois classicos, ficava-o ainda mais num furriel fardado, re-

pnesenfando uma cena c"mica. Mas o nosso p£blico pensava

que devia ser assim mesmo, e aceitava como fato consumado

as passadas do homem, sem sombra de critica. Mal o furriei

feve tempo de chegar ao meio da sala, bateram novamente.

A dona da casa perdeu de novo a cabe‡a. Que fazer do

homem? Esconde-o num bau, que por felicidade est aberfo.

Dessa vez aparece uma visita importante, um galã* de espe-

cia rara: ‚ um brƒmane (3), vestido a rigor. Uma garga-

lhada louca rebenta entre os espectadores. O for‡ado Ko-

chkine, que tem a cara para o papel, representa maravi-

lhosamenfe de bonzo. Descreve com gesfos a ardencia do

seu amor, ergue os bra‡os para o ceu, aper+a-os ao peito,

sobre o cora‡3o. No momenfo em que se vai +ornar mais

afoi+o, uma pancada violenta ressoa na porta. Pelo modo

como batem, reconhece-se que ‚ o dono da %asa. A mu-

lher +reme de pavor, o bonzo se agita como um possesso e

suplica que o escondam. Ela acaba por enfia-lo de qual-

quer modo denfro do armario; mas, esquecendo de abrir

a porta, atira-se a roca, fiando, fiando, sem escutar as repe-

+idas pancadas do marido. Perdeu de tal modo a cabe‡a

que force entre as mãos um fio inexisferife, e faz o gesto de

gi , rar o fuso, que esfa caido no chão. Sirofkine representa-

va - muifo bem o pavor da mulher. O moleiro arromba a

porta a pon+apes, e se afira a esposa com o chicofe erguido.

Viu tudo, porque estava escondido: e mostra, portanto, pe-

loS' dedos, que ela escondeu fres namorados. Procura-os;

enconfra primeiro o vizinho que e expulso com um pontap‚

nas cosfelas. O furriel apavorado quer fugir:. levanta com

(3) Deve-se entender por br rnane, ou bonzo, um pope. O autor temia a cen-

sura. (N. de H. M.)

k,

RECORDA€OES DA CASA DOS MORTOS



221

a cabe‡a a tampa do ba£, gesto que o trai; o moleiro o

abarca com o chicofe e dessa vez o galarife milifar esquece

as passadas cl ssicas. Resta o bonzo, que o moleiro procura #

muito tempo; en ' fim, descobre-o no canto, por fr s do armario.

Faz-lhe uma mesura cortes, segura-o pela barba e o arrasta

para o meio de cena. O bonzo tenta defender-se e grita:

"Maldito! maldito!" (6 a unica palavra difa durante toda a

pantomima). O marido não lhe d ouvidos, faz-lhe justi‡a

ao seu modo. Vendo que afinal chegou sua vez, a mulher

afira longe o fio e o fuso e foge da sala cLerrubando o fambo-

refe. os for‡ados estalam em risadas. Sem me olhar, Ali me

puxa pela manga e diz: "Olha o borizo, o bonzoll" Não se

pode manter em p‚, de fanfo rir. Cai o pano. Come‡a

outra cena.

Todavia nao posso descreve-las todas. Houve ainda duas

ou trˆs, todas de cara+er comico e, com efeito, engra‡a-

dissimas. Se os for‡ados não as haviam composto, pelo menos

lhes acrescentaram muito de seu. Quase todos os atores im-

provisavam: de modo que a cada representa‡ão o mesmo pa-

pel era desempenhado de maneira diversa. A ultima parifo-

'mima, de gˆnero fan+asmag6rico, acabava por um bailado du-

ran+e o qual enterravam um morto. O bonzo, acompanhado

por uma infinidade de servos, faz sobre o caixão uma por‡ão

de gestos inuMis. Afinal soa a musica do "Sol poente", o

morfo w reanima: foclos trepidam de alegria. O borizo dansa

com o morto, mas a sua moda sacerdotal. E, assim, termina

o espefaculo, ate a pr6xima noite. Separamo-nos, risonhos,

satisfeitos, elogiando os atores, agradecendo ao sub-c,ficial.

Nenhuma briga. Todos estão num bom humor raro, todos se

sentem como que felizes, e adormecem não com o sono ha-

bi+ual, porem com a alma quase +ranquila. Is , so não e inven-

‡ão de minha fantasia: e a vardade, a exata verdade. Foi

permitido aquelas pobres criaturas viver, embora por alguns

instantes, viver ... vonfade, diver+inem-se, passar algumas horas-

esquecidas de que são gal‚s, - e esses r pidos minutos os

fransfiguraram moralmente.

1, #


222

DOSTOIEVSKI

Mas a noite ia vai alta. Esfreme‡o e acordo de chofre.

Junto ... estufa o velho reza, e, rezara ate amanhecer. Ali re-

pousa suavemenfe ao meu lado. Recordo a sua conversa

com os irmãos a respeito do feafro, as risadas que dava,

antes de adormecer. Mau grado meu, fico a mirar aquele

rosto pl cido de crian‡a. Pouco a pouco, tudo me volfa ao

esp¡rito; revejo os ulfimos dias, as fesfas, o mes que se acaba

de passar. Tomado de horror, ergo a cabe‡a, olho os pcior-

mecidos, meus companheiros, ... luz fremula da candeia admi-

nisfrafiva. Olho as caras liVidas, o cafre miseravel, sua nu-

dez, suas miserias exposfas- Olho-os bem, para fer a cerfeza

de que não sofro de um pesadelo abominavel, mas veio a

realidade. Ressoa um gemido, alguern agifa pesadamenfe um

bra‡o, sacode a grilhefa. Um defenfo se sobressalta a se

p5e a resmungar, enquanfo 16 na esfufa, o velho reza por fo-

dos os "crisfãos ortodoxos"; ou‡o as palavras da ora‡ão,

que ele arficula lenfamenfe, suavemenfe, em compasso: "Se-,

nhor meu Deus. fende piedade de nos!"

"Não vou ficar aqu¡ para sempre", cismo. "Estou aqu¡

apenas por alguns anos!" E deixo recair a cab%‡a sobre o

fravesseiro.

SEGUNDA PARTE #

1

O4

i



O hospital

pouco tempo depois das festas, cal doente e mandaram-

me para o hospital militar, situado num local que fi-

cava a uns quinhentos metros da fortaleza. Era um

comprido edificio terreo, pintado de amarelo. No verão,

quando chegava o tempo das repara‡ões, gastavam a repin-

ta-lo uma quantidade exfraordinaria de ocre. No grande

pafio ficavam as dependencias, a casa da dire‡ão medica e

as outras constru‡ões necassarias. 'Numerosas enfermarias

ocupavam os edificios principais: duas apenas eram reserva-

das aos defentos, e estavam sempre, cheias, principalmente

no verão. Muitas vezes, ate, era preciso reunir os leifos. En-

chiam-se essas duas salas com os "desgra‡ados" de toda es-

pecie: Q~ p95ws, os defenfos militares provenientes dos cl¡-

i, #

226 . 1 DOS TO 1 E V $IK I .--- 11. RECORDA€OES DA CASA DOS MORTOS 2Z7



versos corpos de guarda, individuos em insfancia de conde- ~ 1 terna e inferna que vesfiamos;

deram-nos roupa branca do

na‡ão-, depor-fados de passagem. Enviavam-se fambem os hospital, e mais umas meias

compridas, chinelas, um gorro de

doentes das companhias correcionais, estranha institui‡ão on- algodão, um roupão de grossa 15

cinza forrado de não sei que,

de são reunidos os soldados de mau procedimento para seiw parecendo esfopa ou emplasfro; - o

seu grau de sujeira era

corrigidos - e de tal maneira agem que saem de 16 os mais

tão grande que ultrapassava todos os limites - foclavia a-

completos bandidos que e possivel imaginar. Toda manhã,

prec 1


o for‡ado que se sente doente previne o sub-oficial. Ime. iei-o bastante depois que o vesti.

Fomos, então, le-

diafamente seu nome e inscrito num registro e ele e mandado vados para a enfermaria dos for‡ados. A limpeza

exterior


ao hospital militar, escoltado por um soldado que leva o re- -era agradavel de ver, - pelo menos tive impressão de

asseio,


. 1~ vindo do presidio. Os dois outros defenfos passaram para

gistro. La, o medico examina a+enfamente os doentes en- a Sala da direifa e eu para a da esquerda. Diante da

porta

viados por foclas as unidades acanfonadas na fortaleza, e, fechada por uma barra de ferro, estava a sentinela



armada,

depois de os identificar, au-foriza-os a ficar. Inscreveram- me,

a 'Um jovem cabo, que

e não longe de 15, o seu substituto.

o perfencia ao posfo militar do hospital, deu ordem para me

pois, no regisfro, e cerca de uma hora ap's a partida dos

nossos homens para o trabalho da +arde, encaminhei-me para

o hospital. O cle+en+o enfermo levava em geral consigo o infroduzirem numa enfermaria comprida

e esfreita, onde, de

m6ximo possilvel de pão e dinheiro, - porque no primeiro dia ambos os lados, ao longo das paredes,

os leitos se alinhavam-,

não podia -esperar receber ra‡ão do hospital: conduzia a mais havia vinte e dois, - e, enfre eles,

+rˆs ou quatro desocupa-

um cachimbo, uma +abaqueira, um isqueiro, - tudo cuidado- dos. Eram ca+res de madeira pintados

de verde, velhos

conhecidos de todo o mundo na nossa boa Russia desses

samenfe escondido na bota. Penetrando no recinto do hos-

e

pital senti despertar em mim carta curiosidade por esse novo ca+res que, por uma esp'cie de fatalidade,



não podem existir

aspecto da nossa vida de gales. 1 sem percevejos. Ocupei um que ficava junto ...s janelas.

Era um desses dias quˆ-rifes, +ristes, encober+05~. em que Como ia o disse, uns poucos dos

nossos companheiros

a a

os edificios daquela especie assumem um aspecto INais som- estavam 15; alguns me conheciam, ou pelo



menos iS me ha-

brio e rebarbativo. Entramos, o soldado da escolfa e eu, na viam visfo. Mas os doenfes em insfancia de #

condena‡ao e

os da companhia correcional eram em numero muito maior.

sala de visitas, onde se viam duas banheiras de cobre, e onde

e

iã esperavam dois enfermos ladeados pela escolta. O enfer- Havia poucos gravemente enfermos, - isfo ', incapazes



de

deixar o leito. O ar sufocante, nauseante, exalava o cheiro

meiro apareceu, olhou-nos displicentemente com ar profefor, IS emana‡ões de-

e mais displicentemente ainda foi prevenir o medico de ser- cara+er¡ fico dos hospitais. Toda especie de J

~ ; j

vi‡o. O medico, por sua vez, nos examinou com bastante leferias, de cheiro de po‡ões, o



infetavam, a despeito da

esfufa que ardia a um canto duranfe quase todo o dia. Uma

afabilidadee nos enfregou "os cartões de molestia", nos quais i ,

colcha lisfrada me cobria a cama; avistei por baixo um cober-

esfavam inscrifos os nossos nomes. O que se deveria seguir o de asseio

- diagn¢stico, indica‡ões de tratamento, regime, etc., era for de b‚ieta grossa e uns Len‡'is de esfamenha,

trabalho do interno que dirigia a sala dos for‡ados. Ouv¡ os duvidoso. Ao lado da cama ficava uma mesinha com um

jarro a um caneco de estanho. Tudo isso, por higiene, era

for‡ados cobrirem de louvores os seus m‚dicos. "São uns coberfo com um peda‡o de pano, que para esse fim me foi

pais para n¢s", disse-me um deles quando me preparava dado. Debaixo da mesa ficava uma prateleira onde os be-

para ir para o hospital. Entretanto, firaram-nos a roupa ex- bedores de cha - uma minoria -

arrumavam a chaleira, e #

228

DOSTOIEVSKI



os bebedores de kvass o seu p£caro. Cada um, ate mesmo

os fisicos, possuia o seu cachimbo e sua fabaqueira, que

eram escondidos sob o coichão. O.m‚dico e os guardas quase

nunca os pesquisavam, e se surpreendiam alguem fumando,

fingiam não ver. Ali s, os doentes +ornavam suas precau‡ões,

e iam cachimbar ao lado da estufa. Quase não fumavam na

cama, senão a noite, porque ia então não havia mais rondas,

exce+o, as vezes, a do oficial comandante do posto do hos-

pital.

Como eu jamais me tratara num hospital, inferessava-



me por tudo que via ao meu redor. A principio compreencl¡

que minha entrada provocava certa curiosidade. Tinham

ouvido falar de mim. e mo olhavam sem constrangimento,

ate mesmo com um ar de superioridade, como são olhados os

novatos nas escolas ou os pedintes nas antecƒmaras minisfe-

riais. Eu tinha -por vizinho da direita um escrivão, filho natural

de um capitão reformado, preso como moedeiro falso, e que

estava h um ano sob observa‡ão. Parecia não sofrer de

nada e diziam os medicos que tinha um aneurisma. Alias,

conseguira o seu fito: evitou o presidio e a fusfiga‡ão e um

ano mais +arde foi transferido para T., onde o hospitalizaram.

Era um rapaz de vinte e oito anos, atarracado e forte, malan-

dro integral, que conhecia todos os arcanos do cOdigo, in-

+eligenfissimo, extremamente inescrupuloso, presun‡oso, dum

amor-proprio doentio. Convencido de sua absoluta honesfi-

dade, jamais se reconhecia culpado, não se afastando nunca

dessa negativa. Foi o primeiro a me dirigir a palavra. Inter-

rogou-me com curiosidade, e me deu informa‡ões minuciosas

sobre os h bitos internos do hospital. Antes de tudo, e cla-

ro, fez-me saber que era filho dum capitão. Gostaria que

eu o tomasse por um nobre, ou pelo menos por um homem

"bem nascido". Depois dele, outro doente, da companhia

correcional, veio me dizer que conhecera varios deportados

nobres, e os indicou por nome e sobr~enome. Era um antigo

soldado, chamado Tchekunov-. a sua cara respirava hipocrisia:

se me procurava as boas-gra‡as, e porque farejava o meu di-

RECORDA€¢ES DA CASA DOS MORTOS

avistado ch e a‡ucar na minha prateleira,

nheiro. *Tendo

o ereceu-me imediatamente os seus servi‡os para me obter

ferver aqua. prometera man-

uma chaleira e me faze,

4~ 1 dar no dia seguinte minha chaleira por intermedic, dos for‡a-

PÇos que viriam trabalhar no hospital. Mas Tchekunov arranjou

~.x,4%cIo. Obteve uma chaleira de folha, ate mesmo uma chicara, #

er a agua e preparou o cha - em resumo, sarvilu-Me,

to zelo que atraiu os comenfa¡rios escarninhos dum +ai

ev, tuberculoso, que ocupava a cama defronfe. Era

esmo soldado condenado aos a‡oites que, por medo

igo, bebera uma infusão de tabaco e vodca. Afˆ

então estava deitado, silencioso, respirando com dificuldade,

~enca,rando-me, e acompanhando com olhos indignados as

manobras de Tchekunov. Um ar exfraordina riam ente serio

lhe tornava comica a indigna‡ão. Afinal, não se pode confer:

- Olhem esse lacaio! Arranjou um barine para servir!

articulou com voz entrecorfada e sem timbre, porque j es-

tava perto do fim.

Tchekunov, ofendido, voi+ou-se para ele:

- Quem e lacaio aqui? disse, lan‡ando um olhar de

desprezo.

-, Tu, replicou Us+ian+sev em tom firme, como se ti-

vesse amplo direito de ralhar com Tchekunov, e como se fosse

seu dever fazˆ-lo.

- hucaio, eu?

- Sim, tu. Escute, pessoal: ele acha que não e lacaio!

~ , .,,Zt6 se viu!

- Trata da tua vida! Não estas vendo que o harine

Ô...


não sabe fazer nada, que o harine esta acostumado a ser ser-

vido? ... Se estou ajudando, ninguem +em nada que ver com

--fez ferv

,--,,.,dom fan

.'U s f i a ri f s

oquele m


"~do cas+

isso, focinho peludo!

- Quem e focinho peludo?

- Tu!


- Eu?

- Sim, +u! #

230

DOSTOIEVSKI



- E fu? Pensas que es muito bonifo? Se eu fenho

focinho cabeludo, fu fens focinho de um ovo podre.

- Cabeludo, cabeludo! Olhem, j esta com o pe na

cova e ainda apoquenta os outros! Ora que esperfinhol

- Sim, sou esperfoi Prefiro me'curvar diante de umas

bofas a curvar diarife de um par de llapfi! Meu pai não gos-

fava de dobrar a espinha diante de ninguem, e me ensinou a

mesma coisa. Eu...

Quando ia continuar, fornou-o um acesso de fosse, que

o sacudiu duranfe alguns minutos, provocando um escarro de

sangue. Logo depois um frio suor de esgotamento lhe pore-

jou no fesfa esfreita. Apesar da fosse que o forfurava, ainda

queria rixar, de qualquer modo: via-se nos seus olhos a neces-

sidade de continuar com as injurias. Mas, esgotado, não

pode fazer senão um gesto com a mão, a Tchekunov acabou

por esquece-lo.

Eu sentia muito bem que o odio daquele f¡sico se dirigia

muito mais a mim que a Tchekunov. Ninguem o censuraria,

desprezaria, por empregar seus bons oficios para ganhar al-

guns copeques. Todos compreendiam muito bem que ele

não visava senão meu dinheiro. A esse respeito a plebe

não fem falso pudor e sabe por as cousas nos seus devidos

lugares. O que desagradara a Us+ianfsev fora o Meu di-

nheiro, o meu cha, era o fato de, apesar da grilheta, eu con-

finuar a ser o barine incapaz de dispensar criados. - En-

frefanfo, eu não procurara absolufamenfe arranjar quem me

servisse: queria sempre agir por mim proprio, fazer com que

não me fornassern por nenhum barine cheio de luxos, d~

mãos delicadas derriais; punha nisso todo o meu amor-proprio,

se essa expressão pode caber ai. Todavia, - não compre-

endo como foi que isso se produziu - nunca me pude liberfar

dos varios companheiros condescendenfes ou presfimosos que

vinham esponfaneamenfe a minha procura, e que me acaba-

vam frafando como se fossem eles meus amos e eu o servi-

Idor. E - quisesse ou não - continuava a ser para todos

um verdadeiro barine, incapaz de dispensar conforfo nem

RECORDAI;OES DA CASA DOS MORTOS

231


do isso me desgosfava muito. Mas Ustianfsev era

,um tuberculoso irascivel. Os outros doenfes tomaram um ar

c

,¡riados. Tu



de desdenhosa indiferen‡a Para comigo. Naquela farde. eram #

dos presa da mesma preocupa‡ão. Compreend¡, escufan-

os conversar, que iam frazer para a enfermaria um conde-

do que nesse momento esfava a sofrer os a‡oites. Os for-

dos esperavam o recem-vindo com certa curiosidade. Pre-

ndiam que a puni‡ão era leve - quinhenfos a‡oites, apenas.

Pouco a pouco fiz meu circulo de amigos. Segundo

de compreender, a maioria dos meus companheiros de en-

. rmaria sofria de escorbufo, doen‡a dos olhos, molesfias

caraferisficas dessa região. Os outros, os "doentes de

verdade", esfavam afetados por afec‡ões do peito ou febres

diversas.

Nossa sala tinha a caraferisfica de receber toda especie

F6 enfermos, af‚ os de molesfias venereas. Falei em doentes

"de verdade" porque havia enfre nos alguns for‡ados que ti-

nham conseguido vir "para descanso" e que os medicos admi-

fiam por compaixão, sobretudo quando havia muitos leitos

vagos. Apesar da enfermaria ser fechada, apesar da sua

atmosfera mefifica, a vida do hospital parecia agradavel de-

pois dos rigores do presidio e do corpo da guarda: e por isso

muitos defenfos se faziam passar por doenfes. Havia mesmo

verd de* "h bifu's" dos leitos, vindos na maioria da com-

,~a i ros a e

panh correcional. Examinei com aten‡ão meus novos com-

panheiros, mas minha curiosidade foi especialmenfe afraida

por um dos nossos presidiarios, um agonizante que ocupava

o primeiro leito ao lado de Usfianfsev,,e, por consequencia, fi-

cava defronfe, de mim. Chamava-se Mikhailov, e, quinze dias

,onfes, eu o -vira ainda na fortaleza. Doente ha muito tempo,

deveria fer-se frafado; porem, com uma especie de desprezo

o uma obstina‡ão infeiramenfe inufeis, dominava-se, engulia

dores, e s0 no Nafal baixou a enfermaria, para morrer fres se-

manas depois, de tuberculose galopante. Derre+era-se como

cera no fogo; j não era senac, um esquelefo. Ainda lhe veio

I #

232


DOSTOIEVSKI

o rosto descarnado, - um dos que me chamaram aferi‡ão

a

logo ' chegada. Ao seu lado estava deitado um preso da



companhia correcional, ia velho, horrimel, repugnante de su-

je~ra ... Mas'não Posso realmenfe enumer -los todos. Se me

recordo desse velho, e porque no momento ma produzia uma

maior impressão, e por ele fui iniciado em algumas parficula-

ridades da enfermaria. Atingido por um defluxo forMe, ele es-

pirrava sem parar, (não fez outra cousa durante a semana se-

guinte), mesmo durante o sorio; dava verdadeiras salvas de

cinco a wis tiros, e de cada vez repetia concienciosamenfŠ~:

"Senhor! tende piedade, que castigo!" Nessas ocasiões

senfava-se no leito, -e tomava avidamente um rap‚ clume- guar-

dava num canudo de papel, afim de espirrar mais forte e com

e

mais m'fodo. Espirrava num len‡o de xadrez, sua propriedade




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