Caderno 1 a graçA, deus, jesus, o espírito ir. Giovanni Bigotto termo de apresentaçÃO



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5.4. O Espírito é nossa nova lei
O Vaticano II havia convidado todas as Congregações religiosas a se renovarem. Para o Irmão Basílio, um dos aspectos fortes dessa renovação consistia em dar ao Instituto estruturas mais evangélicas, mas que exigiam uma mudança do coração que devia passar da lei ao Espírito, para não ser guiado por um texto, mas pela liberdade e generosidade que o Espírito aí faz surgir constantemente. Na Meditação em alta voz, ele dizia aos Irmãos Provinciais: “Sinto crescer em mim, com força irresistível e espontânea, a decisão de apoiar, nos limites de minha autoridade e no quadro da colegialidade, o aproveitamento leal, o desenvolvimento e a realização da forma pós-conciliar e pós-capitular da vida marista.
Espero que também vocês, Provinciais, saibam nos momentos de oração, perscrutar o Espírito para perceber seus impulsos... O importante é que o sopro venha do Espírito e que saibamos descobri-lo a tempo. Permito-me voltar a esse ponto, porque no dia em que a Vida Religiosa renunciar a viver do Espírito Santo para somente alimentar-se de um ‘texto que se repete’, terá renunciado não apenas à sua substância cristã, que é o caminho vivido na santa liberdade dos filhos de Deus, mas também ao seu caráter próprio no interior do povo de Deus, isto é, à sua natureza carismática”.67
Falando da justiça legal, disse aos Irmãos: “Perdoem-me, mas há entre nós muitos Israelitas que vivem acostumados a essa espiritualidade legal. E o Cristo pregou na cruz essa justiça legal e no lugar dela pôs a si mesmo, sua imagem e o Espírito Santo, isto é, a justiça evangélica, que é dinâmica e diante da qual você jamais poderá dizer: ‘Isso basta!’. Aos Irmãos acostumados a uma espiritualidade de observância, em que tudo está prescrito, pré-fabricado, saibam, uma vez por todas, que isso não é espiritualidade cristã. É o Espírito que lhes pede mais, na paz e liberdade”.68
Nós já o dissemos a que ponto de generosidade, de paixão, de trabalho, de atenção aos Irmãos, de apego filial ao Instituto e à Igreja a experiência do amor de Deus levou Basílio. Quando ele olha o autor de tudo isso, diz: “Compreendi que o Espírito Santo me havia marcado com um selo especial na multidão imensa dos membros da Igreja, porque havia colocado em meu coração um gosto intenso por certas realidades do Evangelho”.69

É ainda o Espírito que, quando encontra a disponibilidade do coração, impele para a magnanimidade que deveria ser o comportamento habitual de quem escolheu o Cristo: “Uma vida consagrada não pode ficar no nível do obrigatório e do não-obrigatório; ela é passada ao patamar do generoso e do magnânimo. Para manter-se nessa altura são precisas muitas graças. Será preciso embeber-se copiosamente da Palavra de Deus para fortalecer a fé e conservar no coração a generosidade. Em tal vida, a oração não deverá ser medida com avareza, mas copiosamente expandida. Essa vida terá o sopro que a oração lhe der”.70

Dois perigos estão constantemente à espreita contra a liberdade que o Espírito concede: a tentação de conquistar, por seus próprios esforços, a salvação ou, ao contrário, deixar-se levar à frouxidão e dizer que Deus não pede tanto. Basílio os apresenta como a atitude dos fariseus e dos saduceus: “Dois perigos nos ameaçam: o farisaísmo legalista e formalista, e o saduceismo liberalista... Um farisaísmo, mesmo atenuado, tende a destruir a liberdade dos filhos de Deus, ignora a ternura da paternidade divina, do amor, e torna a religião pouco amável, até mesmo repelente.

O saduceísmo, sob o pretexto de largueza de espírito, instala-se no conforto, rejeita a cruz de Cristo e, em nome da liberdade e da personalidade, reclama o direito a uma vida controlada, termina numa mediocridade naturalista que poupa habilmente seus esforços e suas ações”.71

Olhando o mundo tal como evolui longe, dos princípios cristãos, e constatando que, em muitos setores, a Vida Religiosa se deixa tomar pelo espírito do mundo, e, portanto, perde de seu “mordente”, de seu sentido, de seu valor, Basílio nos põe uma pergunta central: “Que espírito te conduziu? Nos conduziu? Continua nos conduzindo?”.72 E como voltar à generosidade, ao dinamismo a uma vida realmente doada, senão pela volta ao Espírito do Filho? “E o que importa fazer? Antes de tudo, abrir a comunidade ao amor do Pai, no Cristo, não vivendo apenas à base de virtudes morais, mas profundamente da Palavra de Deus e da vida de Jesus, sob o sopro do Espírito. Em outras palavras, devolver à Via Religiosa e a cada um de seus elementos essenciais, a densidade evangélica que teve no Fundador e nas origens, antes mesmo que ela se cristalize numa tradição... Uma nova regularidade é necessária, que não será menos exigente, mas mais dinâmica que a de outrora. Lembremos o que diz São Paulo aos Gálatas (5,3) que não querem compreender a lei da liberdade: ‘Atesto novamente a todo homem que se circuncidar: ele está obrigado a observar toda a lei’. Transpondo: ‘Se vocês não quiserem ir adiante, entrando seriamente no que será o projeto comunitário, então retomem a estrita observância da Regra de outrora’.

Por lamentável que seja, o movimento integrista tem, ao menos, uma coragem notável no seu retorno à ascese e à disciplina de outrora. Não é a lamentável tibieza que não se compromete com nada que se poderá opor-lhe, mas sim um fervor totalmente novo; não pessoas que dizem: ‘Deus não pede tanto’, mas pessoas que saibam que Deus pede tudo, a cada nova época. Com gente dessa têmpera, sim, poderemos visar a uma metamorfose das comunidades. Ela não se realizará num dia. Entramos nela como pioneiros, com audácia e paciência”.73 O Espírito Santo está bem presente na Circular Um novo espaço para Maria. Nem poderia ser diferente. E Basílio faz esta observação bem apropriada “O Espírito que inspira a Palavra de Deus é o mesmo que a faz compreender e perto de quem é preciso ficar quando se trabalha com a Palavra de Deus: ... As palavras de Jesus, todos os seus atos, todos os acontecimento de sua vida são fatos mistéricos, isto é, portadores de um significado que os ultrapassa e cujas testemunhas só terão a plena compreensão à luz pascal derramada mais tarde pelo Espírito Santo. É nesse mesmo Espírito que devemos abordar a Escritura, em particular os Evangelhos”.74





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