Album de formatura


“Educa, vivendo por Deus e pela Pátria



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Encontro02.03.2019
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“Educa, vivendo por Deus e pela Pátria”.

- Aí dentro, vovô, está cheio de fotografias de gente velha e dos moços. Eu vi a fotografia do senhor. Como o senhor era cabeludo! Mas que língua é esta que ocupa uma página inteira?

  • É o Latim.

  • E o senhor sabe Latim?

  • Quando era mais novo, sabia alguma coisa.

  • O senhor pode traduzir para mim o que está escrito aí?

  • Vou tentar.

Tentei, mas foi em vão. A memória não ajudava mais e o Latim ficara 50 anos atrás e nunca mais voltara a estudá-lo. Recorri à minha pequena biblioteca e lá encontrei a Gramática Latina do Pe. Júlio Comba, e, pesquisando-a, pude fazer a tradução para o meu neto. Chamei-o e li a inscrição:

Não te envergonhes do que não sabes, mas desejas aprender”.



Saber alguma coisa é digno de louvor.

Vergonha é não desejar aprender. “

  • Quem escreveu isto?

  • Não sei. Infelizmente o professor de Latim não escreveu o nome do autor. Eu suspeito que é de autoria dele mesmo. “

Depois desta conversa, Leonardo me deixou a sós com o meu álbum de formatura que passei a folhear vagarosamente. Logo em seguida, vinha a fotografia do Paraninfo, Prof. Caseb, e quantas lembranças sua figura me trouxe. Era baixinho, com um bigodinho bem cuidado e, para se defender – era o que dizia – carregava na cinta um revólver 38. Afora este caipirismo, comum nas Minas Gerais daqueles anos, era um excelente professor de História Geral. O que aprendi sobre a Grécia e o Império Romano foi graças às suas aulas inspiradas em Toynbee e outros autores. Um episódio, contudo, ficou permanente na minha memória. A secretária do Colégio era uma bela moça e dotada de umas pernas de fazer sonhar até um frade. Seu rosto mostrava uma beleza resplandecente e em tudo proporcional. Era alta, provavelmente com mais de um metro e oitenta, o que foge aos padrões de altura da mulher brasileira. Olhos verdes, cabelos castanhos e revoltos, quando andava com seus vestidos coloridos, estes deixavam entrever as belas formas do seu corpo. Sebastiãozinho, Euler e Ivan tramaram num dos nossos recreios que entrariam debaixo do assoalho, que apelidaram de “O paraíso”, e pediram a cumplicidade dos colegas. Eles sonhavam ver nas grandes frestas do assoalho as lindas coxas da secretária, e, como a maioria dos adolescentes, já haviam, muitas vezes, se entregado ao solitário vício de Onã, imaginando como eram aquelas pernas. O assoalho era alto como de todo casarão antigo e alguém poderia ficar ali quase de pé. Na última aula do turno da manhã, num dia em que a secretária Rosely trabalhava até mais tarde, eles saíram sorrateiramente da aula, pularam a janela e penetraram no porão. Passava das 12 horas e o sinal de fim de aula não tocara. Na sala, começamos a olhar uns para os outros, apreensivos e temerosos. Não demorou muito e o Prof. Caseb rompeu pela sala adentro, ordenando: “Todo mundo para o pátio em formatura. ” Todas as turmas, do primeiro ao quarto ano ginasial, entraram em formatura especulando o que teria acontecido. Em seguida, o diretor mandou que o bedel fizesse a chamada geral. Gritos aqui e acolá ecoavam no pátio com o PRESENTE! Quando chegou a nossa turma, o bedel repetiu duas vezes: Euler Bentes Vieira, Ivan Nogueira da Silva, Sebastião Mendonça Contim. O silêncio foi quebrado pelo Diretor que, com a voz alterada, fez uma pergunta que ficou no ar: “Onde estão estes senhores ? Registramos a presença deles nas aulas anteriores. Alguém pode me dizer ? “

Nós sabíamos e permanecemos calados. “Pois bem, - completou o Diretor – as turmas ficarão em formatura, em silêncio, até que alguém diga onde estão estes senhores”

O que não suspeitávamos é que os nossos colegas, na disputa de quem olharia as pernas da secretária, haviam falado mais alto e ela ouviu o murmúrio. Incontinente, chamou o Prof. Caseb dizendo-lhe que havia gente no porão.

Depois das 13 horas, o prof. Caseb reapareceu e informou aos seus alunos que já sabia onde estavam os três. As turmas poderiam sair da formatura e irem para suas casas. Depois disto, pelo que me contou o Euler, tempos depois, o diretor chamou um pedreiro e gritou numa das entradas do porão “ Euler, Sebastiãozinho, Ivan, podem sair porque dentro de 5 minutos vou mandar um pedreiro que está comigo levantar uma parede e fechar as bocas do porão. “

Não preciso dizer que os três saíram às pressas, sujos de terra e com teias de aranha pelo rosto e envergonhados por terem sido apanhados em flagrante. A expulsão veio logo e eles foram removidos para colégios de cidades vizinhas. Mais tarde, Sebastiãozinho se tornou um jogador de futebol; Euler foi trabalhar num banco e Ivan comprou uma padaria. Nenhum deles chegou à universidade. Quanto a Rosely, bem, ela encontrou o seu príncipe encantado num dos filhos do usineiro local e com ele se casou. O Prof. Caseb faleceu há alguns anos. Até o final de sua vida, deu suas aulas de História, sempre trajando o seu terno, impecável gravata e o 38 na cintura.



Não sei onde vivem ou se ainda estão vivos os membros do Trio do Porão. Hoje, o que fizeram não teria certamente a repercussão que teve na pacata Serrana dos anos 50, no interior de Minas Gerais. E fui passando as páginas do meu Álbum de Formatura revendo os rostos dos meus professores e dos colegas daquela pequena classe do ano de 1951. E como escreveu Shakespeare no Bem Está o que Bem Acaba, eu, como outros que têm um álbum de formatura, só posso “ Louvar o que está perdido, e que torna querida a lembrança. “ (Ato V. Palavras do Rei)

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