A simbologia mística nos monumentos históricos de Portugal: um estudo exploratório da possível presença de elementos místico-maçônicos* Resumo



Baixar 73.02 Kb.
Página6/8
Encontro06.04.2018
Tamanho73.02 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8

2.3 Estudos sobre a Baixa Pombalina


A Baixa Pombalina, como é designada uma certa zona de Lisboa, abrange os seguintes lugares: o Terreiro do Paço, hoje conhecida como a Praça do Comércio, o Rossio, o Chiado e arredores (GAMA, 2005).

Gama (2005) refere que essas localidades recebem essa designação devido ao Marquês de Pombal (1699-1782), que fora secretário do então rei português D. José I.

Para incorrer sobre os possíveis símbolos da Baixa Pombalina, sobretudo da Praça do Comércio, devemos recorrer à história do local. Remontemos ao famoso terremoto que assolou Lisboa em 1755, destruindo grande parte da cidade. Sendo assim, necessitou-se levar a cabo um grande plano de reconstrução.

Como mencionam Faria et al (2012), este difícil período da história portuguesa forneceu margem para que o Marquês de Pombal se sobressaísse na reconstrução da cidade. Sabemos que o Marquês era o que muitos historiadores chamam um déspota esclarecido, ou seja, estava influenciado pelas ideias do Iluminismo francês e de outros livres pensadores. Neste período, como sabemos, houve uma valorização da razão frente às instituições religiosas. Pombal se torna o símbolo deste despotismo em Portugal, pois, como se demonstrou, fora altamente influenciado pelos ideais Iluministas.

Estes ideais valorizavam a figura do monarca e diminuíam a influência de outras instituições, sobretudo as instituições religiosas. Pombal não fora um anticristão, porém, diminuiu fortemente a influência religiosa dentro da corte portuguesa e propôs um novo modelo de governança espelhada no esclarecimento e na razão humana. Este despotismo de Pombal levou muitos especialistas a enaltecerem-no como um dos expoentes do despotismo esclarecido, bem como um livre pensador que se pautava na razão humana e que lutava por um estado totalmente laico. É interessante que, após minucioso estudo, encontramos essas concepções em toda a simbólica da chamada Baixa-Pombalina.

O período da idade da razão culminou com o movimento Iluminista e teve seu ápice na Revolução Francesa. Segundo o Grémio Lusitano (2010), a Maçonaria esteve intimamente interligada a estes movimentos que enalteciam o valor humano e a capacidade do homem de pensar, sem se apoiarem em dogmas ou crenças religiosas. Ou seja, é lícito afirmar que a Maçonaria, juntamente com estes movimentos filosóficos e culturais, propunha uma rápida separação entre Estado e Igreja, e uma valorização do homem, como um ser autônomo e dotado de razão. Este estilo de pensamento chegou a Portugal e teve seu ponto máximo na figura do Marquês.

É explorado, como afirma o Grémio Lusitano (2011), que as origens da Maçonaria especulativa, tal como hoje está constituída, se dera através destes movimentos filosóficos que apregoavam a liberdade humana de pensar e de se expressar em contraponto com as “trevas” da ignorância. É apontado que muitas vezes estes movimentos filosóficos se chocaram com os dogmas religiosos, sobretudo os do Catolicismo. É neste período que surgem os primeiros antagonismos entre filosofia maçônica e religiosidade, na qual podemos observar em seu cume na Revolução Francesa.

Após este esboço histórico, em que aparece a figura de Marquês de Pombal, juntamente com o terremoto de 1755 que destruiu Lisboa, devemos nos voltar para as questões da simbólica da Baixa Pombalina, bem como a figura do próprio Marquês e sua possível participação em círculos maçônicos.

O que já nos torna uma evidência é que a Baixa Pombalina é fruto máximo do emblema Iluminista, bastando agora evidenciarmos se sua simbólica é maçônica ou não. Este apontamento Iluminista é demonstrado por Gama (2005), que salienta a necessidade de um estudo mais aprofundado sobre a reconstrução de Lisboa em 1755 e as influências Iluministas:

Um dos aspectos que carece de um mais aprofundado esclarecimento é o facto de a reconstrução de Lisboa ser apresentada como um emblema do Iluminismo em Portugal. Tal afirmação pode parecer justificada porque estaremos diante de uma solução de matriz racionalista (GAMA, 2005, pg. 16)

Existe uma forte discussão no meio acadêmico no que tange à possibilidade de Pombal ter sido maçom e, com isso, ter influenciado na simbólica da reconstrução de Lisboa. Conforme menciona o Grémio Lusitano (2010), em Portugal não há registro de que Pombal tenha pertencido a alguma Loja maçônica, entretanto, há uma possibilidade, ainda não descartada, de que o mesmo tivesse sido iniciado durante sua estadia em Londres, por volta de 1738. Esta possibilidade é ainda assegurada visto que os ideais de Pombal são muito semelhantes aos ideais Iluministas, que fervilhavam no meio maçônico.

Outra indicação de que Pombal esteve muito próximo da filosofia maçônica, vem a ser o contrato firmado com o arquiteto Carlos Mardel (1696-1763), declarado maçom, para a remodelação e reconstrução da capital. Este contrato, como afirmam Matos et al (1998), pode ter sido decisivo para a implantação de símbolos maçônicos na Baixa Pombalina.

Em meio a esta enorme quantidade de informações, o que se mostra evidente em primeiro plano é que Pombal, juntamente com os construtores e arquitetos, tinha por intenção reconstruir uma nova capital, uma nova Lisboa que estivesse à altura de seu poderio marítimo e comercial. Este intento teve seu ápice na construção da Praça do Comércio, porta marítima da cidade (FARIA et al, 2012).

Com este amparo teórico, e situando a reconstrução de Lisboa em uma época em que o movimento Iluminista estava em seu auge, a visita à Baixa Pombalina nos coloca diante de um enigma: seriam os símbolos ali apresentados exclusivamente maçônicos, místicos, iluministas ou uma mistura dos três?

A porta Augusta torna-se o símbolo máximo de toda a praça e se encontra bem no centro da mesma. Tal porta, ou arco triunfal, interliga a praça do Rossio até a Praça do Comércio, através de uma rua também denominada de rua Augusta.

Faria (2012) nos mostra que o neoclassicismo vem a ser o estilo arquitetônico de tal arco. Este estilo, muito provavelmente, deseja evocar a importância de Lisboa frente a outras cidades europeias como Roma e Paris, que também possuem seus arcos triunfais. Quanto à simbólica, vemos, quando imbuídos de uma ótica da filosofia iluminista, a figura da Razão coroando as imagens da Indústria e do Comércio. Entretanto, a simbólica, tanto da praça como do arco não está confinada aos limites do Iluminismo.

Em uma visita pelo local, observamos diversos símbolos de tradição esotérica, ao começar pelos nomes das três principais ruas que ligam a praça a outras partes da cidade. Temos a rua do Ouro, a rua da Prata e a rua Augusta, sendo esta última a mais importante e que se localiza entre a rua da Prata e a do Ouro, ou seja, está no centro entre as duas mencionadas ruas. Como lembra Lurker (2003), os símbolos do ouro e da prata estão intimamente interligados ao culto do sol e da lua. É comum encontrarmos na simbologia religiosa o ouro como menção a uma divindade masculina e a prata, símbolo lunar, a uma divindade feminina.

A concepção simbólica de Lurker (2003) é percebida e estudada por Adrião (2010), que menciona a Baixa Pombalina como um projeto de Pombal requintada por símbolos místicos:

Já antes, no período de D. João V, a 3 de Novembro de 1716, Lisboa havia sido dividida em duas partes, Oriental e Ocidental, para lhe dar a dupla face, Sol/Masculino/Ocidente por um lado, e Lua/Feminino/Oriente por outro, graças à intervenção geopolítica desse rei com fortes simpatias pela tradição do Quinto Império e pela Alquimia Nacional. Também no que respeita a empatia pela Tradição Hermética, o Marquês de Pombal manteve na cidade os seus 12 bairros (numericamente afins aos 12 signos do Zodíaco). Do Terreiro do Paço partem as três artérias principais: a Rua Augusta ladeada pelas Ruas do Ouro e a da Prata. Simbolizando o caduceu de Mercúrio que se compõe por uma coluna central em volta da qual sobem enroscadas uma na outra duas serpentes, negra e branca. É assim, pois, que no simbolismo tradicional, o ouro expressa o Sol e a prata a Lua, pelo que a Rua do Ouro corresponde ao aspecto solar do “caduceu pombalino” e a Rua da Prata ao lunar, e, finalmente, a Rua Augusta simboliza o bastão central de fusão e síntese dessas duas forças polares primordiais. (ADRIÃO, 2010. p. 60).

A tese de Adrião (2010) não está errada, visto que em diversas religiões e tradições esotéricas, a concepção de masculino e feminino está bastante presente. Tal concepção aparece, de certa forma, em praticamente todas as tradições religiosas mundiais.

Os símbolos presentes pelas ruas do Ouro, da Prata e Augusta fazem eco a essas interpretações. Sobretudo na Rua Augusta, é possível observar diversos símbolos do cauduceu de Hermes, que, segundo especialistas como Lurker (2003), representa a união do masculino (ouro) com o feminino (prata).

Tal simbologia, embora utilizada na ritualística maçônica, não fornece bases para se afirmar que se trata realmente de símbolos puramente maçônicos. A única conclusão que até agora temos é de que se trata de símbolos místicos.

Outro paralelo simbólico, presente na Praça do Comércio, refere-se às duas colunas do cais. Como é sabido, o símbolo das duas colunas é muito pertinente à Maçonaria que, segundo Moore (2009), representa as duas colunas do Templo de Salomão em Jerusalém. Tais colunas sempre se encontram na entrada dos templos maçônicos.

É interessante observar a semelhança entre as duas colunas, da simbologia maçônica, e as duas colunas do cais, que se encontram bem em frente à Praça do Comércio. Entretanto, mais uma vez, nos encontramos frente à falta de documentação que ateste que as colunas sejam propriamente maçônicas. Embora Adrião (2010) acredite que tais colunas sejam de caráter maçônico, o mesmo autor nos fornece uma outra indicação que pode esclarecer a simbólica da Praça do Comércio dentro dos ditames da cultura e tradição portuguesa.

Para este autor, as colunas do cais são uma representação maçônica para a entrada triunfante do rei D. José I, prefigurando um Imperador Universal. A temática do Imperador Universal e a mítica de um Quinto Império serão amplamente discutidas na conclusão deste trabalho.

Adentrando pelas ruas da Prata, do Ouro e a Augusta, nos deparamos com outros símbolos esotéricos e, neste caso, mais interligados com a temática maçônica, como é o caso do alto relevo das Mãos Unidas, que se encontra na esquina da rua do Amparo. Esta simbólica evoca, segundo Adrião (2010), a ideia de união e amparo. Tal alto relevo provavelmente foi concebido pelo já referido arquiteto, e maçom, Carlos Mardel.

Passando para a região denominada Chiado, encontramos outros símbolos tipicamente maçônicos. Entretanto, estes símbolos não foram confeccionados na época da reconstrução de Lisboa. Trata-se dos típicos azulejos portugueses, com simbologia da Maçonaria, que estão espalhados pelas paredes das casas, bem como na Cervejaria da Trindade.

Grémio Lusitano (2008) afirma que estes são símbolos genuinamente maçônicos, pois existem documentos históricos que comprovam tal construção com intenção maçônica, diferentemente dos outros símbolos encontrados na Baixa Pombalina.

Os símbolos em questão são tipicamente místicos, e foram confeccionados a mando do maçom Moreira Garcia, em meados do século XIX. Tais símbolos são as representações dos quatro elementos da natureza, além das representações personificadas da Indústria e do Comércio, bem como o famoso Delta Flamejante, símbolo máximo do Grande Arquiteto do Universo, e as representações do Sol (ouro) e da Lua (prata), ambos representando as polaridades masculinas e femininas.

Por fim, assim como nos monumentos anteriores, a Baixa Pombalina possui uma grande gama de símbolos místicos, que podem levar a uma interpretação maçônica, entretanto, a falta de documentos que atestem tal interpretação, nos impede de afirmarmos que se tratam de símbolos propriamente maçônicos, assim como a figura do Marquês de Pombal e seu suposto envolvimento com a Maçonaria permanece como um enigma histórico.




Baixar 73.02 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8




©psicod.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
processo seletivo
concurso público
conselho nacional
reunião ordinária
prefeitura municipal
universidade federal
ensino superior
ensino médio
ensino fundamental
Processo seletivo
minas gerais
Conselho nacional
terapia intensiva
oficial prefeitura
Boletim oficial
Curriculum vitae
seletivo simplificado
Concurso público
Universidade estadual
educaçÃo infantil
saúde mental
direitos humanos
Centro universitário
educaçÃo física
Poder judiciário
saúde conselho
santa maria
assistência social
Excelentíssimo senhor
Atividade estruturada
ciências humanas
Conselho regional
ensino aprendizagem
Colégio estadual
Dispõe sobre
secretaria municipal
outras providências
políticas públicas
ResoluçÃo consepe
catarina prefeitura
recursos humanos
Conselho municipal
Componente curricular
psicologia programa
consentimento livre
ministério público
público federal
conselho estadual