A simbologia mística nos monumentos históricos de Portugal: um estudo exploratório da possível presença de elementos místico-maçônicos* Resumo



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2.2 Um estudo da Quinta da Regaleira


A Quinta foi construída entre 1898 e 1910 por Carvalho Monteiro, e teve como arquiteto Luigi Manini. A construção inspira-se nos estilos arquitetônicos Manuelino e gótico tardio de Portugal. (Alves,1985). O local pretendeu criar um ambiente onde o homem pudesse entrar em contato com a natureza. Era uma resposta frente a frenética vida moderna em que não sobrava espaço para a meditação diária dos sujeitos.

A simbólica da Quinta, juntamente com toda a sua construção, tende a fornecer ao homem um lugar psicológico e simbolicamente qualificado em que o espaço se condensa com o imaginário. A localidade de Sintra é historicamente um local onde a natureza se integra ao homem, e foi palco de diversas manifestações religiosas, principalmente as manifestações ligadas ao culto à natureza (AMARANTE, 2013).

A Quinta é exemplo do enaltecimento do imaginário humano. Seu intuito é reviver as antigas construções e ornamentações em contraposição ao atual estado da arte. Tanto o autor como o mestre construtor desejavam reviver a chamada religião natural do homem, ou seja, a busca pelo auto-aperfeiçoamento que nos dias de hoje se encontra esfacelado pela modernidade.

O simbolismo da Quinta é bastante ornamental. Lá encontramos a simbólica sincrética utilizada em todas as religiões. Esta mistura simbólica já é uma prova de que o autor dos jardins tinha em vista reviver certos aspectos da religiosidade humana principalmente no que concerne a eterna busca do homem pelo aperfeiçoamento espiritual.

Quanto à simbólica do local é importante frisar que, quando se estuda simbologia, aprendemos que um símbolo nunca possui um significado único e restrito, pelo contrário, um símbolo possui inúmeros significados. Portanto, conhecer o contexto em que um símbolo se encerra é essencial para darmos um significado a ele.

Sem dúvida que um símbolo é polissêmico, mas se o situarmos num determinado contexto histórico e sócio-cultural, se o cotejarmos com outros elementos simbólicos vizinhos, verificaremos que a sua polissemia diminui, por vezes drasticamente, podendo tornar-se como que um documento histórico - é um facto que a interpretação simbólica resiste sempre algo de subjectivo, no quadro do contexto cultural objectivo do símbolo. (ANES et al, 1998, p. 79).

Encontramos símbolos de diversas religiões, culturas e filosofias espalhados por todo o jardim, conferindo-lhe o caráter simbólico-sincretista que havíamos citado. A construção deste jardim, no final do século XIX e início do século XX, aparenta ser, como já mencionamos, uma tentativa de recriar o cenário religioso que o homem atravessou durante o curso da História.

Existem muitas divergências entre os estudiosos da Quinta da Regaleira. Tive a oportunidade de me reunir com especialistas no assunto; porém, não existe unanimidade em afirmar a real intenção de Carvalho Monteiro em construir tal simbólico jardim. As informações sobre a ligação deste homem com a Maçonaria, ou outros movimentos de cunho esotérico, são desencontradas e não existe uma informação clara sobre sua ligação com grupos iniciáticos. É muito difundida a teoria de que a Quinta da Regaleira é uma construção maçônica, entretanto, por falta de informações e opiniões divergentes, não afirmaremos tal hipótese. Entretanto, o que não pode ser negado, ainda mais quando se faz uma visita ao local, é que Carvalho Monteiro tinha conhecimento e muito interesse por temas religiosos e esotéricos.

Assim como acontece no Mosteiro dos Jerônimos, o pagão e cristão se misturam na simbologia ornamental. Assim como existe, no interior da Quinta, uma capela cristã, encontramos também figuras de deuses e deusas greco-romanas espalhadas pelo jardim. Isso nos faz deduzir que Carvalho Monteiro tinha em mente a construção de um jardim em que todas as crenças religiosas, principalmente ocidentais, pudessem se encontrar, formando um harmonioso local de meditação. Existe um sincretismo explícito por toda a Quinta.

Outro fator importante, e muito apresentável na Quinta, é o caráter de iniciação. Este caráter é antropologicamente atestado por Campbell (2010) que menciona a necessidade do ser humano de passar por ritos de passagens e iniciações durante as etapas de sua vida. Essa necessidade vem de encontro com a necessidade do homem de integrar a alguma parte da sociedade, ou seja, de se tornar membro de um grupo. O caráter iniciático das religiões é observado em uma visita à Quinta da Regaleira, sobretudo quando passamos por uma das inúmeras e escuras grutas e cavernas que foram escavadas nas rochas da Quinta.

Campbell (2010) relata que é uma herança bastante antiga este tipo de iniciação, no interior de cavernas escuras e úmidas. O que é presenciado na Quinta da Regaleira, pode ser análogo aos estudos de Campbell (2010) sobre os ritos primitivos de iniciação, ou ritos de passagem.

Ou seja, cada um destes ritos primitivos de passagem tinha como significado o renascimento do indivíduo para uma nova etapa de sua vida, até que ele atingisse a etapa final, que é a morte. Para tanto, segundo alguns estudiosos como Frazer (1978), as cavernas pré-históricas, famosas por suas pinturas rupestres, serviam como “santuário” para estes ritos de passagem ou de iniciação. É o que atesta Campbell (2010), que enfatiza que tais ritos se fundavam na simbólica do retorno ao útero materno, de nascer novamente, para a nova etapa da vida:

É também um sinal notório nas entradas silenciosas e corredores escuros do antigo túmulo real irlandês de New Grange. Esses fatos sugerem que uma constelação de imagens simbolizando a imersão e dissolução da consciência nas trevas do não-ser deve ter sido empregada intencionalmente, desde os tempos remotos, a fim de representar a analogia dos ritos de passagem com o mistério da entrada da criança no útero para nascer. Essa sugestão é reforçada por mais um fato: as cavernas paleolíticas do sul da França e no norte da Espanha- datadas pela maioria dos especialistas em 30.000-10.000 anos a.C- foram certamente santuários, não apenas da magia de caça, mas também dos ritos da puberdade masculina. Uma terrível sensação de claustrofobia e, simultaneamente, de libertação de qualquer contexto do mundo lá fora, assalta a mente encerrada naqueles escuros abismos, onde a escuridão não é mais uma ausência de luz, mas uma força experimentada. E quando, naquelas cavernas, é lançada uma luz para revelar as belas pinturas de touros e mamutes, rebanhos de renas, cavalos em corrida, rinocerontes lanosos e xamãs dançando, as imagens assaltam a mente com marcar indeléveis. É óbvio que a idéia de morte-e-renascimento – renascimento através do ritual e com uma reorganização dos estímulos sinais profundamente estampados – é antiguíssima na história da cultura. (CAMPBELL, 2010, p.65)

Esta simbólica, explicitada por Campbell (2010), é muito análoga à sensação de quando entramos em uma das cavernas da Quinta da Regaleira. Temos a impressão de que estamos mergulhados nas trevas, o que causa a sensação de medo, que logo passa, quando chegamos ao final de uma destas cavernas, onde há luz e, geralmente, uma fonte de água.

O ponto máximo destas “grutas iniciáticas” é o momento em que nos dirigimos, em meio à escuridão, para o chamado poço iniciático. Este poço nos leva para a superfície, ou seja, conforme caminhamos, através de uma escada espiralada, mais claro vai se tornando o ambiente, dando a sensação de que saímos da escuridão para a luz.

É bem provável que a teoria concernente de que a Quinta da Regaleira seja um projeto maçônico reside no fato da existência dos dois poços iniciáticos instalados no jardim. Isso deriva do fato de que em rituais maçônicos o neófito, ou seja, aquele que está sendo iniciado, passa por uma câmara escura, em que é levado para a reflexão de sua vida; após essa reflexão, que tem a simbólica da morte e do renascimento, o indivíduo é levado para um local iluminado, representando a saída das trevas para o mundo de luz. Entretanto, esta analogia entre a iniciação maçônica e os poços da Quinta não fazem do jardim um ambiente de caráter exclusivamente maçônico.

O caráter iniciático está presente em praticamente todas as religiões do mundo. Principalmente em sociedades tipicamente iniciáticas, como a Maçonaria e a Rosa Cruz. E como mostrou Campbell (2010), tais iniciações e ritos de passagem aparentam ser uma característica cultural-antropológica do ser humano.

Em caráter de psicologia, a Quinta evoca muito sobre a necessidade humana de sofrer iniciações. A simbólica da caverna escura e a saída para a luz remonta a necessidade de simbolicamente morrer e renascer do homem, como observou Campbell (2010) ao estudar as crenças religiosas, desde os primórdios da humanidade.

Dolto (2011) serviu-se da Psicanálise para explicar que continuamente nossa vida é perpetuada por mortes e nascimentos, de forma inconsciente. A autora explica que, por exemplo, as etapas da existência, como a passagem da adolescência para a vida adulta, são marcadas inconscientemente por uma morte psicológica, o que quer dizer que estamos constantemente morrendo e renascendo. Este processo inconsciente deve permear a vida do sujeito não somente em etapas de mudança cronológica, como por exemplo, a passagem da adolescência para a vida adulta, mas sim, no nosso dia a dia, pois é visível nos dias atuais a luta do homem contra as adversidades da vida, como a violência, o falecimento de um ente querido ou o desentendimento familiar, ou seja, inúmeros acontecimentos desgastantes que, de certa forma, chamam a pessoa para recomeçar sua vida de uma outra forma, que possibilite ultrapassar as difíceis barreiras. Tal recomeço exige sua morte simbólica, a morte do antigo estilo de vida, para que seja possível o renascimento para um novo caminho da existência, na tentativa de construir uma vivência mais saudável. Esta evocação pode ser o cerne da simbólica das cavernas e poços iniciáticos da Quinta da Regaleira.

Embora existam divergências entre os intelectuais sobre as origens maçônicas do local, o que importa para esta investigação é visualizar a necessidade do homem em criar cenários místicos e simbólicos que lhe forneçam um acolhimento espiritual e lhes propicie um renascimento simbólico oferecido pelas inúmeras e escuras grutas da Regaleira.




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