A simbologia mística nos monumentos históricos de Portugal: um estudo exploratório da possível presença de elementos místico-maçônicos* Resumo



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2. Descrição do trabalho realizado



2.1 Um estudo do Mosteiro dos Jerônimos: análise dos símbolos e das marcas encontrados na estrutura do local


Um dos lugares mais turísticos de Lisboa, o Mosteiro dos Jerônimos, se tornou palco para os estudos desta pesquisa. Uma investigação realizada previamente forneceu amplos dados sobre a existência de sociedades de pedreiros medievais que, imbuídos dos segredos das artes de construção, erguiam monumentos, sobretudo igrejas, com diversos sinais e símbolos ocultos. Essa teoria pode ser muito bem vista e comprovada no Mosteiro dos Jerônimos.

É argumentado, como revela Loução (2007), que muitos símbolos pagãos, ou seja, que não tiveram suas origens no Cristianismo, permanecem por ornamentar templos e igrejas em diversos países, sobretudo no continente Europeu. É conhecida, sobretudo na Idade Média, a existência de associações de pedreiros que se dedicavam exclusivamente à arte da construção de igrejas. Como se tem discutido, existe a hipótese de que estes pedreiros, além de trabalharem na pedra, formavam um clube filosófico que se aprofundava no estudo dos símbolos e do esoterismo. Os frutos destes estudos eram difundidos com a simbologia cristã, mesclando assim, de forma sutil, a arquitetura do local com símbolos cristãos com o esotérico-pagão.

Partindo destes pressupostos e tendo o Mosteiro dos Jerônimos como um dos símbolos do Cristianismo em Portugal, fizemos a nossa visita ao local com cunho de investigação.

Um dos especialistas que muito aprofundou a história deste Mosteiro foi Alves (1989), que data a fundação do lugar no dia 6 de janeiro de 1502. O autor aborda que todo o monumento foi sendo construído aos poucos, ou seja, a ornamentação ocorreu de modo gradual. Sendo assim, não é possível afirmar com claridade científica que um determinado grupo de pedreiros tenha influenciado com simbologia pagã a decoração do mosteiro, se bem que é evidente a utilização de símbolos não cristãos na estrutura.

Entretanto, o autor chama a atenção para o magnífico plano arquitetônico do local, sobretudo pela impressionante projeção que o sol faz sobre o Sacrário:

Mas comprazem-se, particularmente, no que acontece em duas épocas do ano, ou seja de 13 de fevereiro até 20 dias antes do equinócio da Primavera, durante quase um mês; e de 28 de Outubro até ao 30º dia após o equinócio do Outono, durante mais de um mês. Então, desde a hora de véspera até ao pôr-do-sol, “seus raios de outro, entrando pela parte ocidental, na distância de 450 passos, por linha directa de todo o côncavo do dormitório, coro e igreja, até ao sacrário, fazem mais vistoso todo o pavimento, do que se um ourives o dourasse a fogo. Parece que pede licença o Sol a seu Criador para ausentar-se nas breves horas nocturnas, de tão insigne convento, prometendo que logo ao nascer o tornará a ilustrar...” (Frei Diogo, apud Alves 1989, p. 45).

Todo este relato é facilmente percebido durante uma visita ao Mosteiro. A maneira como a luz penetra pelos vitrais dá uma sensação de grande luminosidade ao local. Não há dúvidas de que os construtores deste Mosteiro tinham conhecimento astronômico para confeccionar tal estrutura, que faria com que os raios solares iluminassem o Sacrário em determinado período do ano.

Por outro lado, notamos que toda a simbologia que adorna o local está muito próxima de um culto à natureza. É possível observar diversas figuras de animais, figuras antropomorfas em meio a vegetações, figuras onde o animalesco se mescla com as formas do corpo humano. Enfim, existe dentro e fora do mosteiro toda uma simbologia atípica à simbologia cristã. É evidente, e sem sombra de dúvidas, que existem muitos elementos pagãos fundidos aos símbolos do Cristianismo no Mosteiro dos Jerônimos.

Há bastante dificuldade para afirmar que a simbologia do Mosteiro advém de um grupo específico de pedreiros que desejaram incutir antigos conhecimentos ocultos. Essa dificuldade se dá pelas inúmeras alterações que passou a estrutura do Mosteiro durante os séculos, principalmente os abalos sísmicos fizeram com que o Mosteiro fosse reformado, ou parcialmente reconstruído, mais de uma vez.

Alves (1989) confirma a dificuldade em conhecer com exatidão o que realmente cada símbolo do Mosteiro significa. Estranhas figuras antropomórficas e teriomóficas estão espalhadas por todo o local. Muito provavelmente o seu real significado tenha se perdido, porém, dentro de um contexto antropológico e da psicologia das crenças, as imagens nos levam a crer que se trata de um culto à natureza.

Devido a esta dificuldade e a não exatidão do que realmente significa os símbolos expostos no Mosteiro, partimos para outro curioso jogo simbólico que, de maneira bem mais singela, adorna o Mosteiro.

Para expormos sobre estes símbolos ou sinais, é interessante lembrar o que seria a “Maçonaria da marca”. Os estudiosos Prescott et al (2011), relatam que, durante o período das construções das antigas igrejas medievais os pedreiros, ou maçons operativos, adotavam certos sinais ou signos próprios para registrarem o seu trabalho em pedra. Ou seja, cada pedreiro tinha um sinal que lhe era próprio. O objetivo deste sinal era identificar o trabalho que um determinado pedreiro realizava, sendo assim, se um pedreiro talhasse uma pedra o mesmo assinava a pedra com o seu sinal. Isso servia para identificar o trabalho daquele determinado pedreiro e assim lhe conferir o pagamento pelo serviço prestado.

Perante esta explicação, encontramos no Mosteiro dos Jerônimos as ditas marcas em muitas pedras. Essas marcas são sinais, nem sempre identificáveis, como cruzes, números romanos e até mesmo o próprio esquadro e o compasso.

Um dos sinais, que conseguimos identificar, é o símbolo astrológico de Saturno, o que pode indicar que estes pedreiros tinham, de fato, algum conhecimento esotérico, como atestam as fontes bibliográficas atuais.

É impressionante a quantidade de símbolos que se encontram espalhados pelo Mosteiro. Perante esta grande quantidade de símbolos, as interpretações para tais são inúmeras. Entretanto, nos parece evidente que a simbologia do local deseja evocar algo a mais do que a típica tradição cristã. É muito comum encontrarmos figuras de demônios, seres em transformação alquímica, entre outras imagens atípicas para uma igreja cristã.

É importante mencionar que a arte Renascentista que, segundo Alves (1991), influenciou a decoração do Mosteiro, tencionava a uma retomada ao antigo conceito de religiosidade que remonta ao período pré-cristão. Esta antiga concepção tende a valorizar os aspectos da natureza e os traços do corpo humano, reintegrando o homem com a natureza.

Esta concepção de religiosidade é encontrada na simbologia do local. Podemos fazer um paralelo com o desenvolvimento dos estudos das antigas tradições esotéricas que permearam todo o período Renascentista, principalmente com a redescoberta de textos gnósticos e platônicos, como afirma Fulcanelli (2007).

Estes autores, que afirmam que a arte Gótica e Renascentista foram influenciadas pela retomada de antigos conceitos religiosos, podem estar imbuídos de total razão após uma visita a um sítio como o Mosteiro em questão. Os símbolos que lá se encontram, além de apresentarem uma nítida ligação do homem com a natureza, apresentam-se também com uma atmosfera de mistério, pois é possível encontrar, com muita facilidade, seres em formas demoníacas, e outros símbolos que evocam a transformação espiritual do homem.

Segundo Fulcanelli (2007) estes símbolos, conhecidos como símbolos herméticos, possuem ideias e conceitos extremamente complexos que levam ao homem a uma verdadeira busca espiritual através da reflexão e contemplação silenciosa do simbólico.

Em conclusão, é possível verificar uma porção de símbolos místicos em todo o local. Estes símbolos não são comuns no seio da simbólica cristã, pois apresentam como, por exemplo, demônios em mutação, ou seres femininos com corpo de animal. Este resultado nos leva a crer que conhecimentos ou tradições não cristãs tenham influenciado os decoradores do Mosteiro.

Embora a atual história da Maçonaria invoque para si a propriedade da construção e disseminação da simbologia esotérica, principalmente na construção de igrejas medievais, não podemos, com evidências históricas, implantar esse conceito na simbólica do Mosteiro dos Jerônimos, pois esta é datada de um período posterior a Idade Média. Entretanto, como menciona Gandra et al (2001), as marcas, ou sinais, inseridas nas pedras que sustentam o edifício, nos indicam que os antigos pedreiros medievais, de fato, faziam uso de sinais para marcarem a sua obra, levando-nos a crer que, de fato, existia uma classe de trabalhadores que operavam mutuamente na construção de igrejas, e que se denominavam de maçons, ou pedreiros operativos.

É importante apontarmos para esta simbólica esotérica que adorna um dos mais importantes monumentos religiosos de Portugal. Esta simbólica que, para muitos, é julgada de pagã, não é utilizada somente por atuais sociedades filosóficas, como a Maçonaria, mas é também utilizada para adornar templos cristãos, criando-se uma mistura simbólica entre o “sagrado e o profano”. É necessário um estudo aprofundado da temática para entender o significado oculto por trás destas imagens que tiveram suas origens, em um período denominado Renascentista, em que se proliferou o estudo das antigas e místicas religiosidades pagãs.




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