A psicologia analítica



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A PSICOLOGIA ANALÍTICA




1. INTRODUÇÃO

Este trabalho corresponde a um capítulo da minha monografia1 apresentada ao curso de graduação em Psicologia e visa introduzir o leitor à Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e seus principais conceitos.

Young-Eisendrath e Dawson (edits., 2011) consideram Jung um precursor da prática psicoterápica contemporânea, portanto conhecer a sua teoria é muito importante para esta prática e também para a acadêmica.

2. BIOGRAFIA DE JUNG

Carl Gustav Jung nasceu em 26 de Julho de 1875 em Kesswil, um vilarejo no nordeste da Suíça, próximo à queda de Reno. Filho de um pastor luterano foi influenciado pela religião devido ao contato com o pai e outros parentes também pastores. Sua mãe passou a apresentar comportamentos histéricos e o pai perdeu a fé depois de velho, tornando-se rabugento. Jung passou uma infância solitária, preferindo ficar afastado das outras crianças e se aprofundar em seus sonhos, visões e fantasias, fato que permaneceu por toda a sua vida (às vezes, já adulto, ele se sentia isolado das pessoas). A escola o aborrecia, porém desenvolveu um grande prazer pela leitura (FADIMAN e FRAGER, 1979, SCHULTZ e SCHULTZ, 2005).

Jung sempre se interessou pelas ciências da natureza (Biologia) e por Filosofia. Também foi um estudioso de Teologia e o embate entre ciências e religião, sobre a existência de Deus e da contradição entre o bem e o mal (RAMOS, 2002). Optou então pela medicina se formando em 1900 na Universidade de Basel, na Suíça, se interessando pela psiquiatria. Sua escolha profissional teve grande influência da análise de dois sonhos da infância, onde em um se viu escavando ossadas de animais pré-históricos em um local bem abaixo da superfície terrestre, enquanto que no outro estava em uma caverna subterrânea: tornou-se um estudioso das forças inconscientes enterradas nas profundezes da mente (SCHULTZ e SCHULTZ, 2005).

Os seus professores da faculdade eram fortemente influenciados pela rigidez do Positivismo, seguindo o método científico, objetivo, criado por Wundt. Esta influência pode ser observada na forma como Jung conduzia a sua pesquisa empírica, no histórico de seus casos e nas suas observações clínicas, porém não era a sua característica de trabalhar. Jung adotou maior ênfase no estilo da filosofia romântica, que teve início com os pré-socráticos e baseava-se no estudo da realidade mais irracional, interior e individual, explorando o misticismo, o enigmático e as religiões. Baseando-se nas ideias de Platão de existir alguns modelos primordiais, por exemplo, que Jung desenvolveu o conceito de arquétipos (YOUNG-EISENDRATH e DAWSON, edits., 2011).

No mesmo ano de sua formação, 1900, começou a trabalhar na Clínica Psiquiátrica Burgholzli, em Zurique, “um dos mais progressivos centros psiquiátricos da Europa”. Em 1904 montou seu laboratório nesta clínica e desenvolveu um teste de associação de palavras, consistindo em uma lista padronizada de palavras-estímulo; o paciente dizia a primeira coisa que lhe vinha à mente quando ouvia a palavra e Jung observava a demora em emitir a resposta, podendo indicar uma tensão emocional (FADIMAN e FRAGER, 1979, p.43). Em 1905 tornou-se professor de psiquiatria na Universidade de Zurique, mas se demitiu depois de alguns anos para se dedicar a seus estudos e prática clínica (SCHULTZ e SCHULTZ, 2005).

Por volta de 1906, Freud e Jung começaram a se corresponder. O interesse pelo neurologista surgiu após Jung ler “A Interpretação do Sonhos”, por volta de 1900. Nesta época Freud recebia grande crítica da academia e Jung estava convencido de que o trabalho de Freud possuía um grande valor; então lhe enviou cópia de alguns artigos e do seu primeiro livro: “The Psychology of Dementia Praecox”. Freud o convidou para conversarem em Viena, um encontro que durou treze horas ininterruptas. A partir daí, ambos mantiveram uma relação semelhante à de pai e filho (Freud era vinte anos mais velho que o suíço), se correspondendo semanalmente (FADIMAN e FRAGER, 1979, SCHULTZ e SCHULTZ, 2005). Ambos trocaram aproximadamente 400 cartas (ZIMERMAN, 2001).

Foi inevitável que Freud o considerasse seu sucessor. A diferença de Jung para os demais discípulos de Freud é que o suíço já era conhecido no mundo acadêmico antes daquele encontro em Viena, enquanto que muitos ainda estavam se construindo profissionalmente ou ainda cursando medicina. Porém Jung nunca deixou de expressar a suas opiniões (SCHULTZ e SCHULTZ, 2005). Enquanto Jung não aceitava que as causas das repressões fossem exclusivamente por traumas sexuais (criticava a teoria sexual), Freud não simpatizava com o interesse de seu discípulo pelos fenômenos ocultos, espirituais e mitológicos (FADIMAN e FRAGER, 1979).
No que concerne ao conteúdo do recalque [repressão] eu não concordava com Freud. Como causa do recalque, ele apontava o trauma sexual, e eu achava isso insatisfatório. Através do trabalho prático, conhecera numerosos casos em que a sexualidade desempenhava papel secundário, enquanto outros fatores ocupavam o lugar principal: por exemplo, o problema de adaptação social, da opressão pelas circunstâncias trágicas da vida, as exigências de prestígio etc. Mais tarde, apresentei a Freud casos deste gênero, mas ele não quis admitir como causa qualquer outro fator que não fosse a sexualidade. Isso me parecia altamente insatisfatório (JUNG, 1963/2012, p. 188-189).
Jung considerou que Freud tornou a sua teoria da sexualidade a sua divindade, sendo que, qualquer discordância a seu respeito era praticamente uma blasfêmia:
Era evidente que Freud tinha um apego extraordinário à sua teoria sexual. Quando falava sobre isso era num tom insistente, quase ansioso, e desaparecia sua atitude habitual, crítica e cética. Uma estranha expressão de inquietude, cuja causa eu ignorava, marcava seu rosto. Isso me impressionava muito: a sexualidade era, para ele, uma realidade numinosa (JUNG, 1963/2012, p. 191).
Em 1911 Jung havia se tornado o primeiro presidente da Associação Psicanalítica Internacional, com a insistência de Freud, apesar de os analistas vienenses discordarem. Fato que contribuiu para Freud escolher Jung foi o antissemitismo, pois acreditava que isto poderia impedir o crescimento da Psicanálise caso o seu presidente fosse um judeu – as discordâncias cresceram porque havia alguns escritos de Jung que eram considerados por muitos como antissemitas (SCHULTZ e SCHULTZ, 2005). Mas as discordâncias teóricas entre ambos culminaram no rompimento em 1912, quando Jung publicou “Metamorfoses da alma e seus símbolos”2, onde discordava totalmente da concepção freudiana de libido como sendo “a expressão psíquica de uma energia vital”, ao invés de ter apenas uma origem sexual; esta obra marca a criação da Psicologia Analítica, escolhendo este nome justamente em oposição ao conceito pulsional. Em 1914 Jung se afastou da Associação Psicanalítica Internacional (ZIMERMAN, 2001, p.236).

Freud e Jones dedicaram um bom tempo nas reuniões psicanalíticas para difamar Jung, tornando, assim, as teorias freudianas e pós-freudianas as mais bem aceitas na academia (YOUNG-EISENDRATH e DAWSON, edits., 2011). Freud (1914/2012), em “Contribuições à História do Movimento Psicanalítico”, publicado no Anuário de Pesquisas Psicanalíticas e Psicopatológicas (alterado nesta edição para Anuário de Psicanálise), menciona mudanças como a saída de Breuler como um dos diretores e de Jung como editor-chefe, trazendo Freud como único diretor e novos editores. No texto traz um histórico da psicanálise, não deixando de apontar as contribuições de Jung, como a teoria dos complexos, mas afirmando não dar o mesmo valor que os demais. Coloca-se como criador da Psicanálise:


Pois a psicanálise é criação minha, por dez anos eu fui o único indivíduo que dela se ocupou, e foi sobre mim que recaiu, em forma de crítica, toda a irritação provocada por seu aparecimento. Penso ter o direito de sustentar que ainda hoje, quando há muito já não sou o único analista, ninguém pode mais do que eu saber o que é a psicanálise, como ela se distingue de outras maneiras de estudar o inconsciente e o que merece ter seu nome ou deveria receber outra designação. Ao assim repudiar o que me parece uma ousada usurpação, também informo indiretamente os nossos leitores sobre os acontecimentos que levaram às mudanças na direção e apresentação deste Anuário (FREUD, 1914/2012, p.246, grifo do autor).
O rompimento com Freud “foi doloroso para Jung, mas ele havia decidido permanecer fiel às suas próprias convicções” (FADIMAN e FRAGER, 1979, p.43). Ainda em 1913, passando por um momento turbulento onde não conseguia se dedicar ao trabalho científico, chegou a pensar em suicídio, porém continuou atendendo seus pacientes (SCHULTZ e SCHULTZ, 2005). Ramos (2002) aponta que, se este rompimento não tivesse ocorrido, ambos teriam contribuído ainda mais para o desenvolvimento da Psicologia. Foi um momento solitário na vida de Jung, onde muitos amigos se afastaram por apoiar Freud, embora outros, também dissidentes, mantiveram amizade com o suíço, além de este construir seu próprio grupo de seguidores, a maioria mulheres.

Em 1915 inicia um estudo sobre Psicologia Oriental, Alquimia3 e Gnosticismo4, que exercem grande influência na Psicologia Analítica. Em 1918 e 1919 encontra-se na Primeira Guerra Mundial, no campo de internação dos soldados ingleses, como comandante-médico. Na década de 1920 inicia suas viagens para visitar diversos povos, desde xamãs dos índios Pueblos, no Novo México (EUA), a aborígenes africanos, adquirindo grande conhecimento religioso, cultural e filosófico destes povos. Constrói a Torre de Bollingen, próxima ao Lago de Zurique, seu famoso local de descanso onde dizia viver seu verdadeiro eu. Na década de 1930 continua a sua viagem em busca de culturas não europeias; chega à Índia, onde se aprofunda na religião e cultura hindu (RAMOS, 2002). Neste período fez algumas reformulações na sua teoria e divulgou suas ideias através de seminários (YOUNG-EISENDRATH e DAWSON, edits., 2011).


Em 1934 é eleito Presidente da Sociedade Médica Geral para Psicoterapia [...] Em 1944 é nomeado para lecionar na Faculdade de Medicina da Basiléia, numa cátedra de Psicologia especialmente criada para ele. [...] Após o término da Segunda Guerra Mundial (1945) escreve sobre as origens psicológicas do nazismo. Seus inimigos políticos distorcem deliberadamente suas ideias e promovem uma intriga de vasta amplitude social acusando-o de ser simpatizante dos nazistas. Seus amigos de origem judia prontamente acorrem a seu favor e criticam publicamente aqueles que promoveram tal enredo [...] Em 1948 é inaugurado o Instituto Carl Gustav Jung, em Zurique. (RAMOS, 2002, p.112-113).

Em 1958 funda a Sociedade Internacional de Psicologia Analítica (ZIMERMAN, 2001, p.236).

Jung morreu em 06 de junho de 1961, com 86 anos e por muito tempo esteve banido do mundo acadêmico. Alguns textos antissemitas de Jung obviamente contribuíram para tal exclusão, como também alguns textos com caráter preconceituoso contra negros e mulheres, mesmo ele afirmando que tinham características metafóricas. Atualmente os autores pós-junguianos se dedicam a rever a obra deste pensador (YOUNG-EISENDRATH e DAWSON, edits., 2011).

Os psicoterapeutas contemporâneos apontam Freud como o precursor das práticas psicoterápicas atuais, porém os pós-freudianos contemporâneos, que revisaram (descartando e desenvolvendo) as ideias do neurologista, chegaram a posicionamentos semelhantes aos de Jung no início de seus estudos. Ou seja, os pensamentos e críticas de Jung à Psicanálise naquela época não seriam depreciadas se o autor as tivesse feito atualmente. Podemos dizer que Jung, dentre várias contribuições, é um precursor da teoria de Melanie Klein, de relações objetais (escola inglesa), ao introduzir uma psicologia baseada na figura da mãe, localizando possíveis influências desde o período gestacional, enquando que na teoria edipiana de Freud o centro era a figura do pai com relevância posteriormente aos quatro anos de idade. A introdução do feminino na psicologia e na psicoterapia também pode ser citada como uma contribuição, onde atualmente existem inclusive teorias feministas. A teoria sobre os arquétipos também influenciou a teoria do apego de Bowlby além da psicoterapia com base neurocientífica, estudando as relações presentes nos anos iniciais de vida. Devemos citar também suas contribuições para os estudos sobre o desenvolvimento por sua teoria da personalidade envolver toda a vida humana, principalmente a meia idade. (YOUNG-EISENDRATH e DAWSON, edits., 2011).




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