A criação científica segundo Poincaré e Einstein



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Einstein
Einstein concebia a experiência da criação científica como uma forma particular da experiência mais geral do pensamento. Segundo ele, o ato de “pensar” põe em jogo, além das imagens resultantes das impressões dos sentidos, os conceitos, “todo o nosso pensamento [sendo] um jogo livre com os conceitos”.86 Entretanto, embora o pensamento de um indivíduo se forme graças ao aprendizado e ao uso social das palavras,87 ele julgava, por experiência própria, que o pensamento conceitual “se desenrola em larga medida sem fazer uso de signos (palavras)”. E também considerava, em consonância com o que dizia Poincaré sobre a invenção científica, que ele se efetua “de fato, num grau elevado, de maneira inconsciente”.88

Além disso, ele ligava o pensamento científico, seja em se tratando de sua formação no indivíduo ou da criação, à experiência do espanto, tal como ele relata ter experimentado na infância, aos quatro ou cinco anos de idade, ao ver girar a agulha de uma bússola; ou ainda, mais tarde, ao descobrir num livro as demonstrações da geometria de Euclides.89 O filósofo Baruch de Espinosa, cerca de três séculos antes, tivera uma experiência semelhante de iluminação de sua inteligência a propósito da média proporcional.90

A experiência do conhecimento, para Einstein, era ao mesmo tempo a da aquisição da intuição:91 a intuição física para aquilo que lhe dizia respeito, que constituía o que ele ainda denominava seu “instinto científico”, que ele evocava freqüentemente a propósito do sentido de tal conceito, assim como a propósito dos debates sobre a direção que deveria tomar, a seus olhos, a teoria física. Essa intuição, à qual ele requeria, desde seus anos de estudante, que “distinguisse claramente o que é importante do ponto de vista fundamental, por meio do que se pode assegurar as bases, daquele resto de erudição mais ou menos supérflua”, opera na racionalidade, no estágio da invenção como no da avaliação e no da crítica (por exemplo, sobre a física quântica).92 Em todo caso, antes da análise vem o estágio da invenção propriamente dita, onde a intuição desempenha o papel principal.

Trabalhar com as idéias é sempre, para Einstein, trabalhar com a racionalidade. Não se pode, no entanto, fazer da intuição, e da invenção na qual desempenha um papel tão grande, uma descrição normativa: ela advém da experiência singular, e se liga à atividade mental em geral. É uma visão imediata, a partir da qual se pode reconstituir logicamente as razões, mas que repousa sobre as experiências anteriores do pensamento, e os processos mentais relativos à atenção a um problema seguem geralmente um caminho indireto.93 Sua experiência, acima evocada, mostra que o importante, neste sentido, é estar impregnado da consideração do problema, tê-lo volvido e revolvido até chegar a uma formulação racional que porte em si a virtualidade da solução.

Pois o pensamento é guiado por uma certa maneira de dispor seus elementos de informação: chegar à solução de um problema é formar uma imagem clara ao final do processo, escolhendo entre os elementos deixando-se guiar pela intuição. Vale o mesmo para os conceitos, que fazem o pensamento, e a partir dos quais se forma uma representação inteligível do mundo, e para as palavras da linguagem: tais signos são ligados às impressões sensíveis por certas regras, segundo uma correspondência relativamente estável.94 Na ciência, o sistema de conceitos que visa a uma representação das experiências dos sentidos é, “no que concerne à lógica”, “um jogo livre com os símbolos segundo as regras do jogo dadas arbitrariamente (quanto à lógica)”. O mesmo se pode dizer também sobre o “pensamento de todos os dias”.95

A experiência do pensamento dos conceitos, em particular do pensamento científico, faz intervir um pensamento ao mesmo tempo consciente e semiconsciente, para o qual o conceito funciona como um signo particular, sem se identificar a uma palavra. “Não é necessário”, indica Einstein, “que um conceito seja relacionado a um signo (uma palavra) perceptível pelos sentidos e reprodutível; mas quando é o caso, o pensamento se torna comunicável”. Para ele, o “pensamento se desenrola em larga medida sem fazer uso de signos (palavras), de fato, num grau elevado, de maneira inconsciente”.96

Analisando seu próprio caso, ele assinalou, ao responder ao questionário de Jacques Hadamard sobre “a psicologia da invenção no domínio matemático”,97 que “as palavras e a linguagem, escritas ou faladas, não parecem desempenhar o menor papel no mecanismo do meu pensamento”.98 Sobre o funcionamento deste, ele ofereceu então as seguintes informações: “As entidades psíquicas que servem de elementos ao pensamento são certos signos ou imagens mais ou menos claras, que podem ser reproduzidas e combinadas ‘à vontade’”, e que estão em relação com conceitos lógicos do problema posto. A atividade mental, o “jogo bastante vago” sobre esses elementos ou signos (que, no caso, são “de tipo visual e às vezes motor”), é sustentada emocionalmente pelo “desejo de enfim atingir os conceitos logicamente relacionados”, e o jogo sobre os elementos em questão “visa ser análogo a certas conexões lógicas que estamos pesquisando”. Somente num estágio secundário, quando as associações encontradas entre os elementos são bastante estáveis e podem ser reproduzidas à vontade, partimos “a custo” em busca “de palavras ou outros signos convencionais” que possam exprimir a solução nos termos do problema.99

O lingüista Roman Jakobson assinalou a concordância entre a descrição feita por Einstein do gênero dos signos que entram no processo de pensamento e aquela que ele mesmo poderia propor, a saber, que “os signos são um apoio necessário do pensamento”, e que “o pensamento interior, sobretudo quando é criador, prefere [à linguagem comum] os sistemas de signos que são mais flexíveis, menos padronizados do que a linguagem e que dão mais liberdade e dinamismo ao pensamento criador”.100


8
CONCLUSÃO
O tema da criação científica, tal como o encontramos na experiência vivida de cientistas que também foram filósofos como Poincaré e Einstein, parece ligado, portanto, de um lado a processos de pensamento em que a racionalidade, mesmo se não for total, permanece essencial e passível de ser apreendida em diversas seqüências, entre uma problematização inicial e a obtenção de resultados e, de outro lado, a problemas epistemológicos fundamentais sobre a constituição e a natureza do conhecimento científico. É assim natural que esse tema pertença de direito ao domínio da investigação filosófica e que não possamos nos contentar em remetê-lo à psicologia ou ao estabelecimento de consensos sociais cristalizados em “paradigmas”.

Sobre o primeiro aspecto, mesmo nos momentos em que o fio de um raciocínio não se deixa ver, e quando ele se perde nos nós complexos que o pensamento parece vencer a saltos, tudo indica que a atividade inconsciente do espírito é dirigida por uma atenção, um esforço, uma vontade. Poincaré atribuía ao inconsciente a tarefa de estabelecer as combinações de idéias que são úteis, por eliminação e por escolha.101

Retomando a comparação feita por Poincaré entre as idéias elementares e os átomos entregues ao acaso, Hadamard imaginou o espírito, em sua primeira reflexão sobre um problema, discutindo os elementos de idéias, e estes últimos, no período inconsciente, continuando seu percurso de maneira desordenada: “Essa desordem pode ter grande valor, porque os raros confrontos que são úteis, sendo de natureza excepcional e produzindo-se entre idéias que são muito afastadas, serão provavelmente os mais importantes”.102 É uma imagem que se aproxima da idéia de parentescos profundos, mas não aparentes, entre elementos conceituais distanciados, que recobrem as analogias matemáticas no sentido desenvolvido por Poincaré. Elas serão aqui apreendidas em seu próprio movimento.

A elegância matemática é a forma daquilo que dá, nos termos de Poincaré, a “harmonia” e a “beleza intelectual”,103 que correspondem à instantaneidade da evidência, à qual se liga, afinal, para Poincaré e para Einstein, assim como para Descartes três séculos atrás,104 a inteligibilidade.

Os psicólogos Paul Souriau e F. Paulhan, que se interessaram pela invenção, citados por Hadamard, defendiam a esse respeito pontos de vista contrários: Souriau considerava que ela se produzia por acaso,105 enquanto Paulhan nela via, mais classicamente, o efeito da reflexão.106 Para Hadamard, a atividade mental inconsciente, a seu ver essencial para o processo, não se efetua de modo algum por acaso: “A descoberta”, escreveu ele, “depende necessariamente da ação preliminar mais ou menos intensa do consciente”, assinalando o que Poincaré tinha dito sobre a ação diretora da consciência sobre o inconsciente, definindo “mais ou menos a direção geral na qual o inconsciente deve trabalhar”.107

Essa diretividade do consciente sobre o inconsciente é traçada por outros filósofos nos termos mais precisos de um tipo de esquema geral dos processos do pensamento. Théodore Ribot propunha uma espécie de algebrização dos signos mentais em função do problema considerado em seus termos racionais: resolve-se um problema supondo-o já resolvido, e busca-se qual é a combinação de elementos que permite a solução: chega-se primeiro ao resultado, depois volta-se atrás para estabelecer o fio que a ele conduziu.108 Retomando essa idéia em sua reflexão sobre o “esforço intelectual”, Bergson acrescentou que “o todo se apresenta como um esquema”, e “a invenção consiste precisamente em converter o esquema em imagem”, e a imagem contém “os meios pelos quais o efeito foi atingido”.109 Transcrevendo nesses conceitos a observação do psicólogo Paulhan110 de que a invenção literária e poética vai “do abstrato ao concreto”, Bergson escreveu que a invenção, artística ou científica, vai “do todo às partes e do esquema à imagem”.

Para Bergson, o esforço mental supõe “elementos intelectuais em vias de organização”, com uma tendência ao “monoideísmo”, que é um estado característico da atenção: a unidade (mas não a simplicidade) assim traçada é a de uma “idéia diretriz comum a um grande número de elementos organizados”. Ele acrescenta: “é a própria unidade da vida”. Esse esforço intelectual sobre as imagens que não têm em entre si senão “semelhança interior”, como uma “identidade de significação”,111 lembra as analogias matemáticas de Poincaré.

Num sentido bem parecido, Meyerson se interrogava sobre os esquemas que a razão segue ao constituir as imagens da realidade, tais como, por exemplo, as da física, ou pelo menos sobre as “tendências a que o espírito do pesquisador obedece”, e que “a razão procura fazer com que prevaleçam...”112 Ele relacionava sua enquete à insuficiência das concepções apriorística e empirista no que concerne à aquisição das ciências, em particular da matemática, e ao conhecimento dos “verdadeiros domínios da reflexão matemática”. Se ele os via, por sua vez, num movimento do diverso em direção ao idêntico, isso não representa uma reconstituição ou uma redução às formas da racionalidade que nos parecem familiares com a ciência atual, e seu propósito de interrogar as formas históricas do conhecimento era similar, para ele, ao dos antropólogos que se preocupam em compreender a lógica própria da “mentalidade primitiva” (como os esquemas de participação de Lévy-Bruhl).113 Sob a diversidade das formas de raciocínio ele descobria um esquema comum a qualquer pensamento humano. Seja qual for a teoria envolvida, o problema assim abordado fica posto.

As descrições dos filósofos mencionados – e singularmente as de Bergson – tendem então igualmente a mostrar a importância epistemológica dos processos do pensamento criador. Afinal de contas, é por meio de tais criações que os objetos do pensamento são postos, como representações do mundo, por mais provisórias que sejam, e é também por isso que a ciência existe. Parece claro, deste modo, que não basta analisar as formas sob as quais ela é comunicada e ratificada, mas que também importa saber como os elementos do conhecimento surgem com a novidade daquilo que, até então inexistente, é, num certo momento, inventado e criado.



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