A análise com crianças autistas



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A ANÁLISE COM CRIANÇAS AUTISTAS :

UMA INOVAÇÃO DO MÉTODO PSICANALÍTICO CLÁSSICO

http://www.geocities.com/HotSprings/Villa/3170/MariaIzabelTafuri.htm
Maria Izabel Tafuri
Este texto discute a aplicabilidade da técnica psicanalítica no tratamento de crianças autistas a partir de um caso clínico pessoal. Começa com a discussão crítica da história da psicanálise de crianças, em seguida a apresentação do caso clínico e posteriormente a análise da técnica. São realizadas reflexões sobre as questões específicas da clínica com crianças autistas considerando as diferentes influências históricas na formação das escolas de psicanálise.
A aplicabilidade da técnica psicanalítica no tratamento de crianças foi vislumbrada, pela primeira vez, por Freud, no início deste século. Ao publicar, em 1909, a análise de uma criança de cinco anos, Freud demonstrou como os sintomas fóbicos do "Pequeno Hans" poderiam ser compreendidos, interpretados e sanados, por meio da utilização do método psicanalítico. Hans tinha apenas 3 anos quando começou a apresentar uma fobia: o pavor de ser mordido por cavalos. Hans não mais saía às ruas para passear e os pensamentos relacionados aos cavalos o atormentavam sobremaneira, a ponto de imaginar que eles poderiam mordê-lo, até mesmo dentro de casa.
O pai de Hans era um estudioso da psicanálise e procurou Freud para poder compreender a fobia do filho. Freud aceitou o desafio e começou a analisar o caso, porém, de forma bastante curiosa e distinta do método psicanalítico clássico. Freud não recebia o seu pequeno paciente em sessões individuais, não o ouvia e não o observava. A relação com o "Pequeno Hans" foi estabelecida através do pai, que sob a orientação de Freud, anotava os sonhos, os desenhos e as associações livres do jovem garoto. O pai de Hans enviava estas anotações a Freud, que a partir delas interpretava a linguagem dos sonhos, desenhos e fantasias. Dessa forma, Freud estabeleceu uma relação analítica peculiar e inovadora com o seu pequeno paciente: Hans ouvia Freud indiretamente, ou seja, por intermédio do seu pai. Assim, Hans identificava Freud como aquele quem entendia todas as suas "bobagens" ( era assim que Hans se expressava em relação ao medo de ser mordido por cavalos).
Hans pediu ao pai para ir ao encontro de Freud que o recebeu uma única vez, juntamente com seu pai. Nesta sessão, Freud pôde interpretar a angustia central de Hans ao vê-lo brincando de "cavalinho" com o pai (Hans pediu ao pai para ficar de quatro no chão e, sentado em cima dele, começou a batê-lo com os pés). Freud concluiu que a angústia de castração ( o pavor de ser castrado pelo pai) estava relacionada com a fobia a cavalos.
Segundo Freud, o tratamento psicanalítico de Hans fora bem sucedido por uma única razão: a convergência entre o pai da criança e o analista em uma só pessoa. Criou-se, assim, um precedente curioso na história da psicanálise de crianças. Este fato encorajou muitos analistas a analisarem seus próprios filhos e, a aplicabilidade da técnica psicanalítica em crianças ficou marcada, desde as suas origens, por este precedente freudiano: a união "pai-analista".
Duas questões se fazem presentes a partir do tratamento psicanalítico de Hans.
A primeira refere-se à natureza da relação de Freud com o pai do garoto. Freud respondeu ao interesse do pai de Hans ensinando-o a compreender a linguagem do inconsciente presente nos sonhos, desenhos e associações livres de Hans. Nesse sentido tratou-se de uma relação pedagógica onde Freud não fez interpretações na relação transferencial entre o pai de Hans e ele.
A segunda questão diz respeito à eficácia do método psicanalítico na ausência da interpretação da relação transferencial entre Freud e Hans. Em suma, a interpretação da relação transferencial entre o analista, a criança, e seus pais não foi cogitada por Freud no caso do pequeno Hans. Esta questão será considerada posteriormente como essencial para se definir a legitimidade de uma escola psicanalítica.
O ensino oficial psicanalítico situa a origem da análise infantil aos critérios estabelecidos por Melanie Klein e Anna Freud, enquanto duas opções opostas de se analisar crianças: o analítico e o pedagógico. Apesar do caso do pequeno Hans ser considerado um ilustre precedente, este fato não serviu para minimizar a polarização dos dois modelos de análise de criança. Ou seja, Melanie Klein e Anna Freud não discutiram a natureza da relação estabelecida entre Freud, Hans e o pai do garoto. Melanie Klein priorizou a interpretação na relação transferencial com a criança e desprezou a relação entre o analista e os pais da criança. Nesse sentido, a autora rompeu com o precedente freudiano, ao considerar que a união pai-analista era desnecessária para o trabalho psicanalítico com as crianças. Anna Freud, por sua vez, considerou a necessidade de um período prévio, não analítico, na relação entre o analista e a criança. Neste período inicial, o analista tomaria uma posição pedagógica, de domínio e de sugestão, para depois empreender o verdadeiro trabalho analítico. Segundo ela, o analista de crianças deveria acrescentar à sua atitude analítica uma segunda, a pedagógica. Em relação aos pais, Anna Freud relatou a necessidade de orientá-los e estabelecer uma relação transferencial positiva.
Em síntese, duas grandes escolas de psicanálise foram constiutídas, a partir das discussões sobre a aplicabilidade da técnica psicanalítica com crianças- a Kleiniana e a annafreudiana- sob a marca do analítico e do pedagógico. Este último, visto como algo denegridor para a análise. Os kleinianos foram, à época, reconhecidos como os "verdadeiros psicanalistas" e os annafreudianos como os "não analíticos". Criou-se, a partir da década de 20, um discurso acusatório e antagônico do que seria ou não a "verdadeira psicanálise".
Na década de 60 surgiu na França, com Françoise Dolto, Maud Mannoni, Rosine e Robert Lefort, um novo modelo de análise de crianças, trazendo o pretenso ideal de ocupar o lugar da escola Kleiniana- "os analistas puros". A demanda da legitimidade insistiu em retornar. Mais uma escola de psicanálise de crianças foi criada em defesa do caráter analítico de sua prática. O analista, segundo Dolto, deveria se abster de qualquer ação pedagógica, mesmo aquela baseada nos princípios psicanalíticos. Ou seja, o discurso psicanalítico continuou a responder ao antagonismo criado por Melanie Klein e Anna Freud, que se refere à continuidade ou à ruptura com o pensamento freudiano.
Atualmente a análise com crianças autistas absorveu este questionamento, ou seja, seria esta análise "pura e verdadeira", como os kleinianos e os lacanianos preconizaram? Alguns analistas vêem utilizando terminologias como "psicoterapia de base analítica" ou "psicoterapia psicanalítica" para se referir ao tratamento das crianças autistas. Ao que parece, estas denominações, "psicoterapia de base analítica" ou "psicoterapia psicanalítica", seriam uma forma de responder aos três modelos de psicanálise de crianças: ao de Anna Freud, por se um tratamento que envolvem ações pedagógicas; e aos de Melanie Klein e Françoise Dolto, por ser um tratamento que envolve também a técnica psicanalítica clássica, a interpretação na relação transferencial.
Neste texto, são realizadas discussões a propósito da aplicabilidade do modelo psicanalítico com crianças autistas são realizadas, a partir de uma experiência pessoal: a análise de uma criança autista. Por meio deste caso clínico, identifico a natureza da relação transferencial que se estabelece entre a criança autista e o analista, a partir das interpretações. Faço algumas reflexões acerca da influência da história da psicanálise de crianças na clínica com crianças autistas e critico a perpetuação do modelo antagônico presente no pensar psicanalítico em relação a este tema.

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