1o Ato – ver-o-peso, ver-o-preçO: onde tudo começOU



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APRESENTAÇÃO
Meu envolvimento com as Artes Cênicas começou quando, ainda adolescente, fui assistir ao espetáculo Ver de Ver-o-Peso, no Teatro Waldemar Henrique, na década de 80 do século passado. À partir daí, nunca mais pude esquecer o verdadeiro sentido do teatro paraense e passei a ter certeza de que a expressão teatral fazia parte da minha vida. Foi uma paixão total. O mundo fantástico do teatro me envolveu verdadeiramente e a empatia com o espetáculo foi imediata, talvez pelo fato de ele ter a cultura amazônica como fonte geradora, cultura esta inserida literalmente em minha vida.

Desde então, comecei a participar de oficinas de teatro na cidade, envolvendo-me no teatro das escolas em que estudei durante o Ensino Fundamental e Médio e quando já estava no Curso de Graduação em Educação Artística, na Universidade da Amazônia, participei de um curso livre com José Leal1, sendo este mais um contato com o fazer teatral paraense. Leal faz parte até hoje de uma encenação amazônica e ajudou-me a despertar a curiosidade em compreender a cena amazônica2 trabalhada pelo Grupo Experiência, que me encanta da adolescência aos dias de hoje.

Assim, como professora de Arte, comecei a observar a evolução do teatro local e a carência de registros acerca de sua trajetória, uma vez que poucos são os autores que traçaram este panorama. Então, ao almejar o Mestrado, veio logo a curiosidade em pesquisar sobre o encantamento que o espetáculo Ver de Ver-o-Peso desperta no público e o que o faz ser o espetáculo mais apresentado no Brasil. Percebi, porém, que não me podia deter em desvendar o que levou este espetáculo ao sucesso e a atrair tanto o público, uma vez que o sucesso é algo complexo de ser investigado, pois não existe uma fórmula para ele. Por isso, optei em pesquisar a cena amazônica, dentro do trabalho do Grupo Experiência, especificamente no espetáculo Ver de Ver-o-Peso que vem, há mais de vinte anos, construindo uma trajetória no teatro paraense, com repercussão nacional.

O Grupo Experiência comemora, este ano, trinta e cinco anos de existência na cidade. Foi fundado em 1969, por Geraldo Sales, que é até hoje o seu diretor. Atualmente, o grupo é composto por dezoito integrantes, já apresentou mais de cinqüenta espetáculos em Belém e fora do Estado, tendo nos anos 80 um grande destaque no projeto Mambembão3, ganhando vários prêmios e projetando assim seu trabalho para o Brasil.

Escolhi trabalhar com este grupo, primeiro por minha admiração pelo trabalho desenvolvido, depois por ser um grupo de muita credibilidade e respeito, pois seu trabalho marcou uma época no cenário paraense e criou adeptos.

O Experiência é um dos mais antigos grupos da região, tem uma tradição na cidade e possui uma densa história. Este grupo se utiliza muito de temas regionais, que eles chamam de expressão amazônica e buscam aprofundar a pesquisa cênica a partir dessa expressão, desenvolvendo um drama regional com características especificas do Norte, baseado nas lendas, nos costumes e mitos da Amazônia, a qual eu denomino de cena amazônica.

O espetáculo Ver de Ver-o-Peso conta a história do dia-a-dia da feira do Ver-o-Peso, valendo-se da expressão popular, da ironia, da sátira e da comédia, trazendo à tona o conhecimento e a característica cultural do povo da Amazônia paraense. Enfatiza, ainda, os costumes, os mitos, as crenças e as tradições culturais da região. Isso tudo me proporcionou um amplo material para desenvolver a referida pesquisa: Tradição e Contemporaneidade na Cena Amazônica: O Espetáculo Ver de Ver-o-Peso do Grupo Experiência, no Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal da Bahia, em convênio com o Núcleo de Arte da Universidade Federal do Pará, inserida na linha de Pesquisas Poéticas e Processos de Encenação.

O método utilizado é o estudo de caso, a partir da definição de Mirian Goldenberg (2000), e o qual possibilita a penetração social, não conseguida pela análise estatística. Este estudo de caso foi iniciado a partir de um acompanhamento e investigação de várias temporadas do espetáculo, nos últimos três anos, através de um trabalho intensivo de campo, durante o qual acompanhei as apresentações do grupo, fazendo entrevistas com o elenco, equipe técnica, além de contemplar a platéia, observando a grande recepção deste trabalho.

O grande mote desta pesquisa é entender como a cena amazônica no Ver de Ver-o-Peso é trabalhada, como ela começou, qual seu significado, compreendendo a sua relação tradição/contemporaneidade, uma vez que ela incorpora fatos atuais do cotidiano paraense, mesclado pelo pensamento lendário tradicional do imaginário amazônico. Observa-se também, neste trabalho, o envolvimento de uma dramaturgia que marca um estilo na cidade, utilizando-se da comédia como veículo facilitador da ação, proporcionando a fácil aceitação do público.



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