Weberian sociological theory randall collins



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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

FACULDADE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA


SEMINÁRIO TEORIA SOCIOLÓGICA I
WEBERIAN SOCIOLOGICAL THEORY

RANDALL COLLINS

Vítor Corrêa Aleixo

Belo Horizonte

Julho de 2012


Para Randall Collins as críticas ao pensamento weberiano ao enfatizarem seu primeiro ensaio, “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” (1905), ignoram o que seria sua maior contribuição, sua teoria madura sobre o desenvolvimento do capitalismo que se encontraria em seu último trabalho: História Geral da Economia (1923). A motivação psicológica representada pela “vocação profissional”, fundada pela doutrina da predestinação calvinista e consonante ao capitalismo racionalizado e empresarial, seria apenas um fragmento da teoria weberiana. Dessa forma, Collins propõe que a “Ética Protestante” seja considerada o germe da teoria institucional do capitalismo, uma contribuição a mais para a compreensão da origem do capitalismo moderno (1986, p.19). Sendo esse posicionamento similar ao já exposto na “Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, por Max Weber:
Fácil teria sido proceder a uma “construção” formal que deduzisse logicamente do racionalismo protestante tudo o que é “característico” da cultura moderna. Mas coisa desse gênero é melhor que se deixe àquele tipo de diletantes que creem na “unitariedade” da “psique social” e em sua redutibilidade a uma fórmula (WEBER, 2004, p.275).
Em a “História Geral da Economia”, Max Weber daria um lugar relativamente pequeno ao fator ideal e à motivação psicológica, Collins afirma que Weber nem ao menos cita a doutrina da predestinação nesse trabalho. Portanto, ao se considerar o corpo teórico weberiano, deve se tomar as precondições do capitalismo como sendo primeiramente institucionais, e não motivacionais – o contexto medieval permite a saída do ascetismo dos monastérios para se configurar como “vocação profissional” capitalista. Em defesa da teoria institucional do capitalismo elaborada por Max weber, Collins afirma que o conjunto de sua obra se trata de uma “teoria geral compreensiva a respeito das origens do capitalismo” (1986, pp.20-21). Além disso, defende que o pensamento weberiano não estaria situado e limitado temporalmente, isto é, como uma teoria clássica concernente apenas ao passado, nem tampouco sugere que seja a última palavra na sociologia sobre o capitalismo, mas sim que é um alto ponto a ser levado em conta e, que apesar de clássica e datada há quase um século, ainda não foi superada pelos debates e pela teoria sociológica contemporânea.
Além isso, para Randall Collins, Weber teria levado adiante o pensamento sociológico ao conceber a fenômeno “revolução” como produto de uma dinâmica histórica e cultural decorrente de um período longo, de milhares de anos, ou seja, não trata a “revolução” somente como um acontecimento repentino e contingente. Por exemplo, teria sido o período medieval com seu ápice econômico e burocrático na Alta Idade Média o período que caracterizaria a “revolução institucional” do capitalismo religioso monástico para o capitalismo empresarial moderno.
Existe o capitalismo onde se realiza a satisfação de necessidade de um grupo humano, com caráter lucrativo e por meio de empresas, qualquer que seja a necessidade de que se trate; especialmente diremos que uma exploração racionalmente capitalista é uma exploração com contabilidade de capital, ou seja, uma empresa lucrativa que controla sua rentabilidade na ordem administrativa por meio de sua contabilidade moderna, estabelecendo um balanço. Naturalmente, uma economia individual pode orientar-se de modos distintos no aspecto capitalista. Parte da satisfação de suas necessidades pode ser capitalista, outra não capitalista, senão de organização artesã ou feudal. [...] Embora, só podemos dizer que toda uma época é tipicamente capitalista quando a satisfação de necessidades se acha, conforme seu centro de gravidade, orientada de tal modo que, se imaginamos eliminada este tipo de organização, cessa a satisfação das necessidades (WEBER, 1978).

Sendo assim, o modelo institucional de Max Weber define um sistema capitalista a partir dos seguintes fatores: tecnologia racionalizada, trabalho livre e assalariado, abertura dos mercados, produção em massa e organização empresarial capitalista. Em “História Geral da Economia”, o autor procura através de uma análise comparativa entre Europa e China medieval compreender o desenvolvimento do capitalismo em ambas as regiões. Collins diante dessa análise procura responder a uma considerável questão sociológica, o porquê de não ter desenvolvido uma sociedade capitalista no oriente similar ao ocidente, e mais especificamente, o porquê da cultura chinesa não produzir uma Revolução Industrial. Dessa forma, Collins apresenta primeiro o panorama tecnológico e das organizações monásticas em ambas as regiões:



  • Tecnologias da Europa medieval: o bronze é substituído pelo ferro, os moinhos de água e de vento são aprimorados para a moagem de milho, curtimento de couro, fabricação de papel, trituração e fundição do minério de ferro.

  • Tecnologias da China medieval: o desenvolvimento é anterior à Europa, data dos anos 400, com um considerável avanço técnico e produção de energia hidráulica.




  • Capitalismo monástico europeu:

Por volta de 1050, com a reforma do Papado se desenvolveu na Europa medieval uma sólida burocracia da Igreja, com base em regras formais, com jurisdições especializadas, salários fixos, autonomia das finanças institucionais, recrutamento de “experts”, com separação das demandas pessoais em relação ao cargo ocupado, com estrita documentação e arquivamento. Isto é, uma organização administrativa centralizada, teocrática, com vistas a regulamentar as relações monásticas conflituosas por status aristocráticos e nobres, disputas de igrejas cristãs em suas eleições de líderes locais, guerras entre senhores feudais diante dos impasses legais frente à propriedade privada, as Cruzadas e para administrar um terço do território europeu – posse da Santa Igreja. Essa reforma do Papado permitiu a regularização da ordem e das leis públicas necessárias para o desenvolvimento de atividades econômicas extensivas, além de representar uma pré-condição para o desenvolvimento posterior da burocracia estatal e do capitalismo moderno. Buscando uma administração mais sólida, por volta de 1200 é constituída a Lei Canônica pelo Papa Inocêncio IV, que passa a considerar os monastérios e igrejas como entidades corporativas. Sendo nessa época que surgem as universidades na Europa medieval, objetivando a formação de juristas e de administradores para suprirem as demandas da burocracia papal.


  • Monastérios europeus como empresas econômicas:

Os beneditinos entre os anos de 1100 e 1300 apresentam forte poder econômico em decorrência do grande número de doações de propriedades por barões locais. Mas a ordem monástica central para se compreender o caráter coorporativo e empresarial dos monastérios, é a ordem dos cistercienses, fundada em 1098, responsável pela abertura das fronteiras européias para a península ibérica, para a Áustria, Polônia, Escandinávia e Inglaterra. Assim como os beneditinos, os cistercienses não aceitavam serviço e rendas de senhores feudais, priorizam a posse de terras para trabalharem autonomamente. Dessa forma, os cistercienses constituíram um caráter fortemente coorporativo e pré-empresarial, ou seja, organizaram suas atividades econômicas de modo solidamente racionalizado e autônomo, sendo que os cistercienses abandonam o ritualismo beneditino, que funcionava como um entrave para o crescimento econômico empresarial. Além disso, os cistercienses inovaram em diversos aspectos, foram os primeiros a apresentarem uma organização altamente centralizada, a elaborarem deliberadamente um plano de expansão pela Europa, e reformam sua hierarquia interna, se afastando do modelo eclesiástico.


  • Capitalismo monástico budista:

O budismo chinês no ano 530 passou por uma reforma similar à reforma do Papado na Europa, o caráter ritual e mágico de seu monasticismo foi suplantado pelo budismo tradicional baseado na disciplina monástica, na meditação e na filosofia. O budismo reformado apresentou uma capacidade administrativa considerável em sua política de fundação de monastérios, mesmo em áreas remotas. Além disso, foi exemplar em estabelecer alianças com a patronagem rural e em estabelecer propriedades autossustentáveis economicamente. Alcançam amplas possessões de terra que se comparam às posses do Papado e apresentam uma economia monástica altamente racionalizada. Ora, comparando os cistercienses com os chineses, Collins apresenta um mesmo capitalismo religioso e pré-empresarial, presente tanto entre católicos medievais, quanto entre budistas, sendo orientado por uma ética protestante, mas sem carecer do protestantismo.
Frente a esse panorama, Collins argumenta o quanto houve de similar no desenvolvimento econômico, organizacional e político da Europa e da China, sendo os avanços no oriente adiantados meio milênio em relação ao ocidente, entretanto, a Revolução Industrial será experimentada apenas na Europa moderna. Com vistas a resolver a essa questão, Collins elabora um modelo que compreende o desenvolvimento do capitalismo através de longos ciclos e de variadas transformações, sendo que o primeiro ciclo foi experimentado pela Europa e pela China medieval, concernente ao capitalismo monástico, no entanto, haveria um segundo ciclo iniciado após a Reforma Protestante, exclusivo da experiência histórica e cultural do Ocidente. Esse primeiro ciclo seria marcado por três âmbitos que se motivariam simultaneamente:

1) a ampliação da produção cultural, através de investimentos em monastérios, escolas e igrejas, que favoreceriam a mobilidade social e capacidade de organização;

2) o incremento da organização política, exemplificado pela burocracia papal e pelos monastérios empresariais;

3) as condições de possibilidade para o crescimento econômico, como a lei de propriedade privada, a regularização do mercado, os direitos do cidadão.


Entretanto, esses três fatores devem corresponder a uma secularização econômica e do sistema de privilégios aristocráticos, impulsionando a secularização dos Estados. Correspondência ausente na China budista que pode ser explicada pela ascensão confucionista que ataca o status dos monges e confisca suas posses. Curiosamente, o Japão se industrializa e se seculariza, embora não se possa analisar esse fenômeno como produto direto das organizações e moralidade budismo. Creio que a questão levantada por Randall Collins permanece sem respostas. Quais fatores configuraram as condições de possibilidade para a emergência da Revolução Industrial na Europa medieval e não na China budista? Certamente, que o esforço por resolver essa questão permite o esclarecimento de outras dimensões do capitalismo moderno, por exemplo, em dissociar as origens do capitalismo da classe burguesa, passando a considerá-lo como produto de um transcorrer histórico milenar. Além disso, as críticas superficiais em relação ao ethos protestante, passam a conceber uma dinâmica social mais ampla, de deslocamento do ascetismo intramundano ou da “vocação profissional” para o mundo secular – não mais associado ao âmbito religioso, seja à disciplina dos monastérios medievais, seja à doutrina da predestinação calvinista –, representa uma transformação cultural fundamental para a emergência do segundo ciclo do capitalismo ocidental, moderno, racionalizado e empresarial. A tese de Collins contribui para renovar as análises da obra weberiana e para motivar o surgimento de novos trabalhos.
O que definiria a tese de Collins, apresentada em seu livro “Weberian Sociological Theory”, seria o destaque concedido ao caráter institucional, histórico, multicausal da teoria weberiana, por exemplo, ao enfatizar a organização religiosa e sua conjunção com as formas particulares de organização política como motivadores fundamentais no desenvolvimento do capitalismo moderno, e não o ethos protestante e seu ascetismo intramundano. Weber identifica ao longo de sua obra – “Economia e Sociedade” e “História Geral da Economia” – estamentos e dinâmicas específicas que deram ao transcorrer histórico da sociedade ocidental capitalista um caráter singular, ainda não observado na história humana, representado pelo capitalismo moderno. Weber procura não tratar o capitalismo ou a sociedade ocidental como um todo orgânico ou como um mecanismo funcional, mas sim a partir do que o autor denomina sociologia compreensiva, baseada na hermenêutica histórica e crítica ao reducionismo empirista e ao idealismo filosófico.
É válido ressaltar que a concepção de “estamento” também se constitui dentro da perspectiva metodológica típico-ideal, em que certos elementos da imanência – como o direito, o mercado, as organizações militares, as empresas de administração religiosa – podem ser analisados empiricamente, mas seu caráter imanente não basta para a construção analítica, falta seu caráter inventivo e interpretativo próprio da epistemologia hermenêutica weberiana. Tratar de “estamentos de causa-e-efeito” ou outros “princípios gerais causais” é marca dessa conciliação entre empiria e a hermenêutica que a sociologia compreensiva weberiana apresenta, de modo análogo à arqueologia e genealogia foucaultiana. “O enunciado, há um só tempo, não é visível nem é oculto” (DELEUZE apud FOUCAULT, 1988, p.27), ou seja, ao se analisar a vida social, haveria algo perceptível e observável, ao mesmo tempo em que haveria algo a ser polido e inventado.
Construir modelos típico-ideais usando dos “estamentos de causa-e-efeito”, teria a função de conformar fenômenos sociais e acontecimentos históricos em um arranjo não observável ou verificável na imanência, embora seja um instrumento metodológico significativo já que pode contribuir para uma melhor compreensão do fenômeno em questão. No entanto, o desafio maior estaria em estabelecer relações causais entre um estamento, fato histórico ou o espírito de uma época com outros eventos e configurações sociais, afinal, esse é o trabalho do sociólogo, historiador ou filósofo que intenta construir uma cadeia causal, unitária e linear, para tratar da história e da dinâmica cultural. Mas nem os fatos, nem tampouco suas relações causais, estão dados na natureza, Hume afirma que a causalidade funciona em conformidade com “o princípio do hábito, enquanto fusão dos casos semelhantes na imaginação, e o princípio da experiência, enquanto observação dos casos distintos no entendimento”, isto é, são inferências fundamentas em crenças e expectativas, não em fatos empíricos e calculáveis (DELEUZE, 2006, p.204). Assim, “os princípios gerais causais” construídos por Max Weber contribuem para a metodologia sociológica, mas representam a etapa final de um trabalho genealógico mais profundo, sendo essa sua contribuição mais relevante às ciências humanas, isto é, sua genealogia esboçada para compreender as organizações religiosas, militares, mercadológicas, jurídicas e políticas como fatores constitutivos do desenvolvimento do capitalismo.
Referências:


  1. COLLINS, Randall. Weberian sociological theory. Cambridge: Cambridge University Press, 1986.

  2. DELEUZE, Gilles. Foucault. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988.

  3. DELEUZE, Gilles. Ilhas desertas. São Paulo: Editora Iluminuras, 2006.

  4. WEBER, Max. A ética protestante e o "espírito" do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

  5. WEBER, Max. Historia económica general. México: Editora Fondo de Cultura Economica, 1978.



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