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DISTINÇÃO CONCEITUAL DE VIOLÊNCIAS E NÃO VIOLÊNCIAS NO ESPAÇO ESCOLAR



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4 DISTINÇÃO CONCEITUAL DE VIOLÊNCIAS E NÃO VIOLÊNCIAS NO ESPAÇO ESCOLAR

Com o propósito de se desvendar os logradouros da violência, faz-se necessário abordarmos alguns aspectos relevantes a compreensão de alguns conceitos a fim de evitar que todos sejam tratados como um único entendimento. Para tal os tópicos a seguir procura pontuar aspectos dessa diferenciação tais como: violência na escola, violência da escola, violência à escola além de discutir o significado de incivilidade, transgressão e indisciplina no cenário escolar.


4.1 VIOLÊNCIA NA ESCOLA

Tendemos a pensar que a violência na escola é um fato novo, principalmente porque são cada vez mais frequentes notícias de algum tipo de violência no ambiente escolar. Segundo Charlot (2002), a questão da violência na escola não é um fenômeno novo “assim, no século XIX, houve, em certas escolas do 2º grau, algumas explosões violentas, sancionadas com prisão” (CHARLOT, 2002, p. 432) assim como as relações bastante grosseiras entre alunos nos anos 50 ou 60. No entanto o autor ressalta que as violências ocorridas na escola podem não ser novidade, mas elas assumem formas e dimensões inéditas.

Ao investigar estudos realizados e publicados por Colombier (1989) e Spósito (2001) sobre a violência escolar, percebeu-se que ambos os autores analisam esse fenômeno sob aspectos diferenciados. Spósito, realizou uma pesquisa bastante interessante sobre as relações entre violência e escola no Brasil após 1980, apresentando aproximações diferenciadas sobre o fenômeno, capazes de caracterizar a violência escolar no Brasil.

Nesta pesquisa a autora, aponta algumas causas da violência escolar, nos primeiros anos da década de 80 em que a concepção de violência é expressa nas depredações do patrimônio público, e no medo da invasão dos prédios por jovens moradores, aparentemente sem vínculo com a instituição. Na época a preocupação era expor a fragilidade e as péssimas condições dos prédios quanto aos equipamentos de segurança.

Já durante a década de 1980 e início dos anos 90 o tema da insegurança passa a predominar no debate público. Neste período não eram questionadas as formas de sociabilidades entre os alunos, e sim as práticas interna das escolas, os primeiros estudos apontam que a violência parte dos estabelecimentos escolares, consideradas autoritárias. No segundo estudo, já no final dos anos 80 há um aumento das brigas físicas entre os alunos. Nos anos 90 a autora aponta mudanças no padrão da violência, começam a ocorrer práticas de agressões interpessoais (agressões verbais e ameaças são as mais frequentes), sobre tudo entre o público estudantil.

Os trabalhos realizados na década de 90 trouxeram questões importantes, apontando, principalmente o aumento da criminalidade, da insegurança dos alunos e a deterioração do ambiente escolar. A autora cita como exemplo as escolas públicas do Rio de Janeiro em que o trafico de drogas, disputas pelos territórios nos morros são consideradas as grandes causas de violência nas escolas, ou seja, as causas são referentes ao território geográfico no qual aponta que o fato de escolas estarem próximas a favelas, ao tráfico de drogas e consequentemente ao crime, as tornam reféns da violência e seus alunos vítimas /agressores. Nesse caso, a violência analisada na escola reflete parte do ambiente externo em que as escolas se encontram.

Candau (1999) também investigou na cidade do Rio de Janeiro, o tema da violência escolar e constatou o aumento da violência escolar como mais uma das expressões do aumento da violência social. Nesse sentido, a escola traduz a violência do ambiente externo em que a unidade escolar está inserida.

Colombier (1989), no livro “Violência na Escola”, aponta fundamentos socioeconômicos e familiares como possíveis causas da violência na escola, entendendo esse fenômeno como atos de violência contra as instalações da escola, contra os professores, dos alunos uns contra os outros. Nessa perspectiva, a violência se iniciaria na família, com a falta de limites, referencias, a desestruturação familiar; nas causas socioeconômicas estariam a exclusão social, falta de oportunidades, a influência da mídia e a falta de perspectiva.

Enfim, seja em que aspecto for feita essa análise da violência no âmbito escolar, a mesma preocupa professores, diretores, pais e a sociedade como todo. Segundo Priotto e Boneti

Denominam-se violência escolar todos os atos ou ações de violência, comportamentos agressivos e antissociais, incluindo conflitos interpessoais, danos ao patrimônio, atos criminosos, marginalizados, discriminações, dentre outros praticados, por, e entre a comunidade escolar (alunos, professores, funcionários, familiares e estranhos à escola) no ambiente escolar (PRIOTTO, BONETI, 2009, p. 162).


Portanto, consideram-se violência escolar todos os episódios expostos acima, que ocorrem no espaço físico da escola, onde se exacerbam os problemas individuais.

Para que se possa compreender melhor o conceito de violência escolar optou por trabalhar com três autores: Abramovay (2003) que dialoga com a classificação de violência na escola, Priotto (2008) prefere violência escolar e Charlot (2002) entende, que é importante fazer algumas distinções conceituais que permitam introduzir uma ordem na categorização episódios de violência na escola na qual ele identifica como: violência na escola, da escola e contra a escola.

Conforme as autoras Abramovay e Priotto a violência escolar se expressa através dos seguintes eventos: violência física, agressão física, violência simbólica e violência verbal incluído o bullying.

Segundo Charlot (2002), a violência na escola se caracteriza dentro do espaço escolar, mas não está ligada à natureza e as atividades da instituição escolar “quando um bando entra na escola para acertar contas das disputas que são as do bairro, a escola é apenas o lugar de uma violência que teria podido acontecer em outro local” (p. 434). No entanto, há autores que consideram essa categorização um tanto restrita e insuficiente. Segundo Abramovay:

Essa proposta de classificação de violência nas escolas ajuda a compreender o fenômeno na medida em que considera manifestações de várias ordens. Contudo, mostra-se insuficiente para compreender certos tipos de manifestações que ocorrem dentro dos estabelecimentos de ensino e que estão relacionadas a problemas internos de funcionamento, de organização e de relacionamento (ABRAMOVAY, 2005 apud PRIOTTO; BONETI, 2009, p. 167).

Entretanto, a concepção trazida por Charlot, não leva em considerações algumas ocorrências violentas frequentes dentro da instituição escolar como, por exemplo, as brigas, discussões e agressões entre alunos na sala, no pátio, na porta da escola e no recreio.

No que diz respeito à violência na escola, Priotto expõe:

[...] esta se caracteriza opor diversas manifestações que acontecem no cotidiano da escola, praticadas entre professores, alunos, diretores, funcionários, familiares, ex-alunos, pessoas da comunidade e estranhos. Caracterizam-se como atos ou ações de violência: Física – contra o (s) outro (s) ou contra o grupo, contra si próprio [...]. Incivilidades – desacato, palavras grosseiras, indelicadeza, humilhações, falta de respeito, intimidação ou bullyng (PRIOTTO, 2009, p. 168).

O autor procurou ampliar o conceito de violência na escola apresentadas por Charlot (2002) e Abramovay (2005). Todavia, conclui-se que a violência na escola é a denominação que abrange as diversas formas de violência nas dependências das escolas. Se a violência é a escola ou da escola – denominações que serão ponderadas a seguir – estas acontecem no dia a dia da escola seja ela produtora ou vítima da violência.

4.2 VIOLÊNCIA DA ESCOLA

Caracteriza-se violência da escola como sendo aquela violência em que a escola é tão e somente autora da ação e seus alunos vítimas. Segundo Charlot:

A violência da escola se caracteriza na violência institucional, simbólica, que os próprios jovens suportam através da maneira como a instituição e seus agentes os tratam (modos de composição das classes, de atribuição de notas, de orientação, palavras desdenhosas dos adultos, atos considerados pelos alunos como injustos e racistas) (CHARLOT, 2002, p. 435).


A violência simbólica ou institucional é mais difícil de ser percebida e muitas vezes não é entendida como violência por não se caracterizar pela coerção física. O termo violência simbólica foi criada pelo Frances Pierre Bourdieu (2007), em que define violência simbólica como o processo pelo qual a classe que denomina economicamente impõe sua cultura aos dominados. No caso da escola a violência simbólica é a forma encontrada para manter a submissão dos alunos e ascender a força daquele que detém o poder, no caso, o professor e o diretor.

Para Abramovay e Rua:

A violência simbólica é mais difícil de ser percebida do que a violência física, por que é exercida pela sociedade quando esta não é capaz de encaminhar seus jovens ao mercado de trabalho, quando não lhes oferece oportunidade para o desenvolvimento da criatividade e de atividades de lazer; quando as escolas impõem conteúdos distintos e de atividades de lazer; quando as escolas impõem conteúdos distintos de interesse e de significado para a vida dos alunos; ou quando os professores se recusam a proporcionar explicações suficientes, abandonado os estudantes à sua própria sorte desvalorizando-os com palavras e atitudes de desmerecimento (ABRAMOVAY; RUA, 2002, p. 335).

Portanto, a violência simbólica se assinala sob todo tipo de pratica utilizada pela instituição de ensino de maneira a prejudicar seus componentes, tendo como resultado a falta de interesse do educando pela escola, o baixo rendimento nas atividades, evoluindo para um futuro fracasso escolar.

4.3 VIOLÊNCIA À ESCOLA

E por fim, a violência à escola que segundo Charlot (2002), está ligada diretamente à natureza e atividades da escola “quando os alunos provocam incêndios, batem nos professores ou os insultam, eles se entregam a violências que visam diretamente à instituição e aqueles que a representam (p. 434)” Nesse sentido, a violência à escola é concebida com os atos de depredação, furtos e roubos ao patrimônio da escola, essa classificação engloba também os atos de vandalismo que vem de fora da escola contra a escola. A todo o momento somos surpreendidos com alguma notícia desse tipo de violência, a exemplo, foi publicada no A Tarde On Line, que uma adolescente de 15 anos esfaqueou um professor no pescoço, quando o docente dava aula:

O jovem disse que começou o crime porque o professor o repreendeu quando ele entrou na sala de aula de forma abrupta. Agora, terá de cumprir 45 dias de internação na Comunidade de Atendimento Socioeducativo (Case). A agressão aconteceu na quarta, 3, e o professor recebeu alta no mesmo dia, mas ficou assustado e não quer mais ensinar na escola onde trabalha há 10 anos (NEIDE, 2010).

Nesse sentido, os alunos em quanto vítimas da violência da escola, se tornam agressoras e principais autores dos atos de violência à escola, seja na agressão a professores como visto na reportagem, ou com atos de vandalismos contra a escola como estampadas em jornais: “Pedras e carteiras foram arremessadas nos vidros, portas arrombadas, tapas e socos fizeram os professores, acuados, se trancarem dentro de uma sala” (REHDER, ESTADÃO DE SÃO PAULO, 2008). Este lamentável episódio aconteceu na cidade de São Paulo, em uma escola estadual e caracteriza a violência exercida contra a instituição escolar.

4.4 INCIVILIDADES

No cotidiano da prática escolar é rotineiro o descontentamento dos professores diante do mau comportamento dos alunos (desordem, xingamentos, atitudes grosseiras, bagunça) seria o que se chama de falta de respeito, ou seja, atitudes que rompem com as regras sociais de boa convivência. Debarbieux (1996) a partir de uma pesquisa realizada em escolas na França, o autor ressalta que o termo violência, tal como é usado socialmente, não é necessariamente atos de violência, mas sim os atos de incivilidades. Segundo autor:

A violência são crimes e delitos mas ela não é essencialmente isso no meio escolar, o verdadeiro problema nos parece o da incivilidade que desorganiza atualmente o mundo escolar nos seus estabelecimentos desfavorecidos criando uma crise de sentido, às vezes dramática, um sentimento de insegurança que é muitas vezes imaginário. A violência desorganizadora surge do inesperado (Arendt, 1952); não se trata de negar a realidade dos delitos mas de não exagerá-los (DEBARBIEUX, 1996 apud LATERMAN, 2000, p. 37).

Garcia (2006) afirma que:

As incivilidades englobam comportamentos desafiantes que rompem regras e esquemas da vida social, sejam tácitos ou explicitados contratos sociais. Mas as chamadas incivilidades não rompem, necessariamente, com acordos, regras e esquemas pedagógicos. Antes, rompem com expectativas do que pode estar tacitamente esperado como boa conduta social. Destaca-se entre as incivilidades reportadas nas queixas usuais dos professores, a falta de respeito. Essa alegação, em particular, sugere a ocorrência em sala de aula, de práticas de incivilidade na forma de insensibilidade aos direitos de cada um de ser respeitado como pessoa (GARCIA, 2006, p. 125).

Quando o autor se reporta ao termo incivilidades logo esclarece que elas não rompem com acordos e regras pedagógicas. Dessa forma, venho a lembrar de outro termo bem mais conhecido no meio educacional: a indisciplina que é muito utilizada para caracterizar comportamentos inadequados na sala de aula como inquietação, bagunça, brincadeiras de mau gosto que aborrece professores e alunos e acaba atrapalhando a dinâmica da sala, ou seja, o trabalho pedagógico.

O termo incivilidade não é usual nas escolas, geralmente se fala em indisciplina ou até mesmo em violência, termo esse que se caracteriza muito forte se tratando da escola. No entanto, há algum tempo é frequente vermos na mídia as manchetes de violência nas escolas, como o próprio bullyng que parece ter virado moda. Com isso, o que antes parecia ser um pesadelo, hoje, é realidade nas escolas brasileiras. Muitas vezes às escolas não vivenciam ações extremas de violência, mas coexiste com suas ramificações: a incivilidades, a transgressão e a indisciplina.

Ainda segundo Debarbieux,

Por incivilidades se entenderá uma grande gama de fatos indo da indelicadeza, má criação das crianças ao vandalismo, passando pela presença de vagabundos, grupos juvenis. As incivilidades mais inofensivas parecem ameaçadas contra a ordem estabelecidas transgredindo os códigos elementares da vida em sociedade, o código de boas maneiras. Elas podem ser da ordem do barulho, sujeira, impolidez tudo que causa desordem. Não são então comportamentos ilegais em seu sentido jurídico mas infrações à ordem estabelecida, encontradas na vida cotidiana. Elas são, segundo Roche, o elo que falta e que explica a insegurança sentidas pelas pessoas, mesmo que elas não foram vítimas de crimes e delitos; mas a vida cotidiana se degrada efetivamente e não imaginariamente. Indo mais além, as incivilidades, pela impressão de desordem que geram, são para os que sofrem a ocasião de um compromisso, uma defesa em causa da organização do mundo. Através delas a violência se torna uma crise de sentido e contra sentido, elas abrem a ideia do caos (DEBARBIEUX, apud LATERMAN, 2000, p. 37).

Não é dizer que não exista violência nas escolas. Ela existe. É expor que existem algumas distinções que permitem inserir certa ordem na classificação dos fenômenos da violência na escola. Toda via essas distinções ajudaria no procedimento de profissionais ao se deparar com algumas dessas ramificações de violência, ou seja, comisso cada situação teria lugares e formas de tratamento diferentes. Caracterizando-se um ato de violência na escola, o agressor seria encaminhado à justiça; um ato de transgressão, deve ser reportado ao conselho disciplinar do estabelecimento e um ato incivil, estar sujeito a um tratamento educativo.

Nesse sentido, faz-se necessário conhecer e discutir os termos incivilidade e indisciplina, que parecem ter sidos incorporados ao conceito de violência. A violência contradiz a lei; a indisciplina essa não contradiz a lei, mas ao regulamento interno da instituição já a incivilidade não contradiz nem a lei e nem o regimento da instituição, mas as regras de boa convivência. De fato esses termos acabam sendo confundidos, a saber que estão intimamente ligadas no dia a dia das escolas. Para Charlot (2002),

O acumulo de incivilidades (pequenas grosseiras, piadas de mau gosto...) no ambiente escolar “cria às vezes um clima em que professores e alunos sentem-se profundamente atingidos em sua identidade pessoal e profissional – ataque à dignidade que merece o nome de violência”, mas que segundo ele depende fundamentalmente de um tratamento educativo (CHARLOT, 2002, p. 437).

Nesse sentido, o autor não vê as incivilidades como uma modalidade de violência, e sim, como padrões de comportamentos contrários às normas de convivência e respeito ao próximo, ela estaria mais ligada à agressividade e não a violência. No entanto chama atenção para o acúmulo dessas incivilidades no ambiente escolar, pois elas podem tornar o espaço hostil, e de certa forma, violento. Abramovay (2005) chama atenção para a utilização dos termos no âmbito escolar, o que ocorre nas escolas não seriam crimes e sim, pequenos atos de incivilidades.

A incivilidade tem a ver com a ideia de rebeldia, oposição, já a violência tem a ver com danificação, com destruição quer da integridade física ou moral do outro. Charlot (2000) falando sobre violência na escola distingue a violência, a transgressão e a incivilidade como comportamentos ligados no cotidiano escolar que tem a ver com desordens, empurrões, grosseiras, palavras ofensivas e outros, ou seja, falta de respeito e regras de boa convivência.

Para os educadores a conduta incivilizada dos alunos se dá pela ausência do que se chama de educação doméstica, estando diretamente ligada a deficiência dos padrões culturais básicos iniciados na família. Dessa forma, tem-se a impressão que a família, dada a sua conjuntura atual, de desestruturação familiar, delega toda educação do filho a escola. É neste cenário, que se encontram os educadores diante da difícil tarefa de educar apara a cidadania.

4.5 INDISCIPLINA

Dada a ambiguidade de se caracterizar a violência no âmbito escolar, faz-se necessário investigarmos uma das suas ramificações, a indisciplina, de modo a tentar distinguir o que realmente acontece no contemporâneo cenário de violência escolar, de maneira a não generalizar e exagerar a violência escolar. Se a disciplina é vista pelos professores como ordem, obediência, como os alunos sentados, quietos, em fila, respeitam os professores, seguem os combinados em sala, tem a atenção toda voltada à aula, ou seja, quando o aluno segue as regas de boa convivência na sala de aula. Já a indisciplina é o oposto. A indisciplina é caracterizada na escola como: brincadeiras fora de hora na sala de aula, gritos, conversas com os colegas, desobediência, bagunça e inquietudes.

Segundo o dicionário o termo disciplina pode ser definido como “regime de ordens imposta ou mesmo consentida. Ordem que convém ao bom funcionamento regular de alguma organização (militar, escola, etc.). Relações de subordinação do aluno ao mestre. Submissão a um regulamento” (FERREIRA, 2001, p. 258). Já o termo indisciplina “procedimento, ato ou dito contrário a disciplina” (FERREIRA, 2001, p. 414). Sendo assim indisciplina é aquele que se levanta contra a disciplina.

Estas definições podem ser interpretadas por diversas formas. Dessa maneira, pode-se entender que disciplina é o sujeito que se subordina, se sujeita, de modo passivo ao conjunto de normas, estabelecidas por outro e imposta a uma necessidade externa a este subordinado. Já a indisciplina é aquece que se rebele, não obedecê-las normas impostas, provocando rupturas (REGO apud AQUINO, 1996).

Rego (apud AQUINO, 1996), levanta a questão de se associar a disciplina à tirania. Qualquer tentativa de elaboração de parâmetros é vista como pratica autoritária, ameaçando o espirito democrático e cessa a liberdade e espontaneidade dos jovens. Portanto, todas as normas vigentes na escola devem ser abolidas, ignoradas. Nessa perspectiva, a indisciplina é entendida como virtude, já que implica a coragem de ousar e se opor à tirania.

No entanto, pensar a disciplina (ou indisciplina) sob esse parâmetro, pode desestruturar toda uma organização social, visto que a escola como toda instituição precisa de normas, esta que norteia as relações e a boa convivência. Nesse sentido, as normas deixam de ser vistas apenas como imposições castradoras, e passa a ser compreendida como condição necessária seria concebida pelos educadores como atitudes de desrespeito, rebeldia e de intolerância aos acordos consolidados.

O autor Julio Groppa Aquino, mestre e doutor em psicologia escolar pelo Instituto de Psicologia da USP, analisou o tema da indisciplina sob dois aspectos: um sóciohistórico, tendo como apoio os condicionantes culturais, o outro é psicológico rastreando as influências da família na escola. Em um pequeno trecho do texto Recommendações Disciplinares do início do século (1922) analisado pelo autor, pode-se confirmar os ideais da época.

[...] Os alunos se devem apresentar na escola minutos antes das 10 horas, conservando – se em ordem no corredor da entrada, para daí descerem ao pátio onde entoarão o cântico. Formados dois a dois dirigir-se-hão depois às suas classes acompanhados das respectivas professoras, que exigirão deles se conservem em silencio e entrem nas salas com calma, sem deslocar as carteiras. Deverão andar sempre sem arrastar com os pés, convido que o façam em terça, evitando assim o balançar dos braços e movimentos desordenados do corpo. Em classes a disciplina deverá ser severa [...] (AQUINO In BRAUNE apud MORAES, 1922, pp 9-10).

É notória a maneira como eles previam a indisciplina. A ordem, o controle, a fila, até mesmo no recreio os alunos eram submetidos a uma rigorosa disciplina, não dando margem desobediência e inquietação dos alunos. Essas recomendações disciplinares, mas parecem se tratar de um campo militar. “O professor não era só aquele que sabia mais, mas que podia mais porque estava mais próximo da lei, afiliado a ela” (AQUINO, 1996, p. 43). Dessa forma, as relações didáticas tinham seus pilares na obediência e submissão.

Então o que mudou? Certamente não forma os professores, salvo algumas exceções, muitos sonham com esse modelo de escola autoritária e pouco democrática. A mudança está no novo perfil de aluno, nos padrões de disciplina que pautam a educação, os critérios adotados para identificação do comportamento indisciplinado. Dessa forma, e o problema parece está no modelo de educação que não acompanhou essa mudança e continua com a imagem daquele aluno amedrontado e submisso.

Outro dado apresentado pelo autor é o fato da escola de antigamente ser um espaço pouco democrático, elitista e conservador voltado às classes sociais privilegiadas. Recordo-me de ter assistindo a uma entrevista do então falecido político baiano Antônio Carlos Magalhães e do apresentador Raimundo Varella, quando diziam que estudou em colégio público e de qualidade, e hoje, será que seus filhos e netos estudam em colégio público? Garanto que não. Nessa época as escolas públicas eram estruturadas para atender uma sociedade elitizada. Desse modo, se antes a dificuldade da classe menos favorecida era ter acesso a esse ensino público de qualidade, hoje esta em manter-se nele.

Segundo Aquino (2006) “a qualidade se ensino, principalmente público, teria decaído pelo simples fato de ter-se expandido para outras camadas sociais” (p. 44). Vale lembrar que:

A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL, 1988, p. 38).

Desse modo, se a escola não mudou totalmente, os alunos já não têm o mesmo perfil de outrora, é uma geração que busca outras demandas e valores. Nesse sentido, “a gênese da indisciplina não residiria na figura do aluno, mas na rejeição operada por esta escola incapaz de administrar as novas formas de existência social concreta, personificadas nas transformações do perfil de sua clientela” (AQUINO, 2006, p. 45). Contudo, do ponto de vista sóciohistórico, a escola ainda é pensada para um perfil de aluno que ficou no passado, todavia, a indisciplina constitui-se na força de resistência e produção de novas definições.

Outro aspecto analisado por Aquino (1996) é o psicológico, neste a indisciplina seria uma carência na estrutura familiar em que se encontram os alunos, visto as transformações que a composição familiar vem padecendo. É comum ouvir os professores reclamarem do comportamento agressivo, sem limites e desrespeitoso em que são tratados no pleno exercício do seu trabalho pedagógico.

Trata-se, [...] supostamente, de um sistema de relações familiares desagregadoras incapazes de realizar o contento sua parcela no trabalho educacional das crianças e adolescentes (AQUINO, 2006, p. 46). Devido a essa suposta carência a escola estaria incumbida a realizar uma parcela, maior do que lhe é devido, ultrapassando o âmbito pedagógico. O autor deixa claro que não há possibilidade de a escola assumir a estruturação psíquica prévia ao trabalho pedagógico, sendo essa responsabilidade da família (AQUINO, 2006).

Nesse sentido, os dois pontos apresentados por Aquino apresentam questões conflitantes, a indisciplina expões conflitos tanto na escola, como o autoritarismo do professore num espaço pouco democrático, quanto do ponto de vista psicológico com a desestruturação familiar. É bastante complexo interpretar e definir as causas da indisciplina, a respeito Rego diz:

O modo como interpretamos a indisciplina (ou a disciplina), sem dúvida, acarreta uma serie de implicações à pratica pedagógica, já que fornece elementos capazes de interferir não somente nos tipos de interações estabelecidas com os alunos e não definição de critérios para avaliar seus desempenho na escola [...] (REGO apud AQUINO, 2006, p. 87).

Dessa forma, há momentos que a indisciplina é atribuída à educação recebida na família “se os próprios pais não sabem dar limites eu que não vou dar, vez é atribuída aos traços de personalidade do aluno “fulano é terrível, não tem jeito!” outros associam a indisciplina aos traços inerentes a infância e adolescência como: a rebeldia própria de alguns adolescentes e a egocentricidade das crianças; é comum também verem como reflexo da pobreza e da violência presente na sociedade. Contudo, faz-se necessário uma profunda análise dentre estes e outros possíveis aspectos do contexto indisciplinar, podendo ser revistas posições preconceituosas e equivocadas, sobretudo no que diz respeito às bases psicológicas do desenvolvimento humano para que se possa compreender o comportamento indisciplinado dos discentes.






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