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3 O QUE É VIOLÊNCIA?

A violência tem se tornado, paradoxalmente, uma distinta fonte de motivação indesejável para reflexão e mudança nas escolas. Dada a complexidade do fenômeno e a difícil tarefa de conceitua-la, esse texto tem a pretensão de discutir o tão complexo conceito de violência resgatando a forma pela qual alguns autores, tais como Andrade (2007), Costa (1986), Mendes (2009), Michaud (2001) e Bobbio (2009) o abordam. O termo violência é polissêmico, com diferentes definições. Segundo o dicionário, o novo Aurélio Século XXI “Violência do lat. Violentia, qualidade de violento. Ato violento. Ato de violentar. Constrangimento físico ou moral; uso da força; coerção” (FERREIRA, 1999, p. 2076).

De acordo com Norberto Bobbio, violência é
a intervenção física deum individuo ou grupo contra outro individuo ou grupo. Para que haja violência, é preciso que a intervenção física seja voluntaria [...] a intervenção física na qual a violência, consiste ter por finalidade destruir, ofender e coagir (apud MENDES, 2009, p. 35).

A força é abordada por diversas concepções, no entanto, a partir de algumas leituras posso afirmar que o conceito de violência é muito mais amplo e dúbio do que a mera intervenção física. Entre outras manifestações de violência, existe uma em que alguns autores chamam de violência invisível, dessa forma, torna-se uma violência difícil de caracterizar, mas não deixa de ser nociva. A violência causa danos que prejudica tanto a integridade física quanto psicológica.

É constante a veiculação da violência na mídia em suas diversas faces, é só ligar a TV em qualquer horário que somos “bombardeados” com manchetes assustadoras e muitas vezes inacreditáveis; ou abrir um jornal que lá estará à violência estampada em primeira página.

Essas manchetes nos revelam assustadoramente índices de violência alarmante, em diversos contextos e classe social. Quando se fala em violência pensamos logo em algum tipo de intervenção física, há autores que tratam à agressão como algo natural e instintivo que causa dano a outro e a violência aproxima-se mais de um ato cultural, trata-se do emprego da agressão com um fim especifico de destruir o outro, a respeito disso Andrade traz:

Violência é toda forma investida, ataque, assalto, provocação, hostilidade, ofensa, acometimento, abandono, exploração, golpe, insulto, gesto, assedio, conduta com intuito destrutivo (e muitas condutas sem esse intuito, como as necessárias à constituição do sujeito, sendo exemplos inúmeros interditos paternos necessários a essa constituição) capaz de causar sofrimento, dor, constrangimento ou sensação desagradável (ANDRADE, 2007, p. 6).

Ainda, que amplo o concito trazido por Andrade, ele acaba restrito, pois as formas de violência podem ser ampliadas assustadoramente, a exemplo existem atos não considerados violentos que são a expressão pura da violência, como nos casos da chamada violência simbólica e em muitos outros de violência institucional.

Voltando ao conceito de violência, como diria Andrade (2007, p. 1): “A violência. Fácil senti-la; mas, difícil conceitua-la e explica-la”. O autor critica alguns psicanalistas por naturalizarem a violência, de modo a torna-la intrínseca ao ser humano. Desta forma, Andrade atribui a violência uma importância categórica na biografia humana, mas não chega a naturalizá-la, embora a entenda, em parte, como biológica, ou seja, instintiva, quando os seres humanos viviam segundo a natureza e não, segundo a cultura. Todavia, vê na cultura um fator determinante para a existência da violência (ANDRADE, 2007, p.3).

Será que antes da aculturação????? da humanidade não existia violência? Ou essa violência era entendida de outra forma? Desde sempre a agressividade é um elemento natural do ser humano um elemento para defesa, que lhe permitiu sobreviver como espécie. A exemplo disso é a posição de defesa que se coloca um animal para defender seus filhotes, no entanto essa agressividade cessa assim que a ameaça termina, ao contrário do homem que pode se mostrar violento sem a necessidade biológica.

Desta forma, o conceito de violência além de complexo é bastante amplo como logo será visto. É o que faz Costa,

Violência é o emprego desejado da agressividade, com fins destrutivos. Esse desejo pode ser voluntario, deliberado, racional e consciente, ou pode ser inconsciente, involuntário e irracional. A existência desses predicados não altera a qualidade especificamente humana, da violência, pois o animal não deseja, o animal necessita. E é porque o animal não deseja que seu objeto é fixo, biologicamente predeterminado, assim como o é a presa para a fera. Nada disso ocorre na violência do homem. O objeto de sua agressividade não só é arbitrário como pode ser deslocado. Este pressuposto é indissociável da noção de irracionalidade que acabamos de mencionar e corrobora a presença do desejo em qualquer atividade humana inclusive na violência (COSTA, 1986, p. 39).

Sendo assim, o autor afirma que a agressão é biológica e característico de qualquer ser vivo, não se trata de discutir se o homem é mau ou bom, mas ter ciência de que a violência é exclusiva dor ser humano tendo em vista a sua racionalidade, agravado pelo desejo consciente e planejado de agredir. Para o autor, uma ação só se caracteriza como violência quando entendida pela vítima ou observador como tal.

Contudo, conceituar violência se traduz em tarefa difícil e árdua, sabendo-se das muitas outras formas de expressão da violência, isso se constitui uma grande dificuldade para compreender esse fenômeno embora as formas físicas sejam as que mais chamam a atenção pela sua dramaticidade e crueldade, mas não se pode subestimar tantas outras faces ocultas da violência, a exemplo da violência simbólica.

Levando em consideração todas as reflexões expostas aqui, a definição de Michaud (2001) é a que mais se aproxima do contexto geral que engloba a violência.

Há violência quando, numa situação de interação, um ou vários atores agem de maneira direta ou indiretamente, maciça ou esparsa, causando danos a uma ou várias pessoas em graus variáveis, seja em sua integridade física, seja em sua integridade moral, em suas participações simbólicas e culturais (PAREDES, SUL, BIANCHI, 2006 apud MICHAUD, 2001, p. 10-11).

Dessa forma, entende-se violência como uma ação direta ou indiretamente vinculada a uma pessoa ou grupo, de maneira a intervir na integridade física, psicológica e moral de uma pessoa ou grupo.

Contudo, conceituar a violência de maneira clara e precisa, se faz necessário um rico estudo sobre o contexto social e cultural da sociedade contemporânea, esquematizando aspectos fundamentais de como a violência é pensada, ou seja, em que circunstancia uma palavra, uma conduta ou gesto pode ser considerado violento, como ela é exercida, de que forma uma pessoa age a outra? E por fim como ela é vivenciada, qual a resposta da sociedade frente à violência? Medo, angustia, prazer, revolta? Respondida essas questões o conceito de violência, parece abarcar toda sua dimensão social, cultural e histórica.

A violência se apresenta em suas diversas formas e características entre elas estão a violência doméstica, a violência contra crianças, adolescentes, mulheres, idosos, deficientes, homossexuais, violência psicológica, escolar, institucional entre outras.



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