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ABORDAGEM HISTÓRICA DA VIOLÊNCIA



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ABORDAGEM HISTÓRICA DA VIOLÊNCIA

A violência sempre existiu. O fenômeno da violência surgiu como um dos maiores problemas para a sociedade contemporâneo, nas suas mais variadas formas, engana-se quem pensa que a violência é um fenômeno contemporâneo. A violência se traduz em um fenômeno histórico na composição da sociedade. Na Bíblia sagrada (2002), tem-se o primeiro relato de violência, o primeiro homicídio “E falou Caim com o seu irmão e o matou”. (Gn. 4:8). Por inveja e ciúmes os primeiros descendentes do homem Caim e Abel, protagonizam o que seria o primeiro ato de violência na história da humanidade.

Na Idade Média, temos como exemplo as Cruzadas, batalhas entre católicos e mulçumanos que durante dois séculos deixaram milhares de mortos; a escravidão de negros e índios no Brasil; o holocausto na Alemanha e as duas grandes mundiais, são esses alguns exemplos de como a violência está inserida na biografia da humanidade e de como essas ações violentas modelaram o mundo contemporâneo.

Assim, pode-se dizer que “os motivos da violência se expressam em cada sociedade de diversas formas e que cada um elabora uma moralidade para justiçá-la.” (MENDES, 2009, p. 35). Dessa forma, ao estudarmos sobre violência, antes de empregarmos quaisquer juízos, ao aceita-la ou não, devemos considerar alguns aspectos importantes como: a forma que essa violência é pensada, como ela é exercida e como é vivenciada em nossa sociedade e em outras.

Aos questionamentos da autora nos fazem pensar que a violência refletida, vivenciada e praticada hoje, não é a mesma violência de sociedades antigas, a exemplo de Roma, que é uma sociedade estigmatizada pela crueldade e violência, que por todo esse tempo foram empregando-lhes juízo de valor, a partir de comparações ilegítimas e de grandes produções literárias e cinematográficas.

Na sociedade romana todo delito era punido, desde os militares aos civis. Quando uma força militar era derrotada os soldados eram mortos à paulada, apedrejamento e a cabeça era decapitada como demonstração de poder. Aos delitos civis como assalto, envenenamento, magia, assassinato, profanadores de templos entre outros, eram condenados à cruz, às chamas, às bestas e à espada, essas penalidades traduzem uma desqualificação social, eram aplicados a escravos e aos não cidadãos romanos de baixa renda. A condenação à morte pelas feras do anfiteatro está ligada a crime de alta traição.

As lutas realizadas nos anfiteatros eram verdadeiros espetáculos dados pelos gladiadores que lutavam pela vida, muitas vezes até a morte, vale ressaltar que a intenção não era levar o condenado a execução pública e sim confirmar publicamente o poder da comunidade romana, duelos esses que levavam uma verdadeira multidão a assistir esse violento e sangrento espetáculo, e comparecer aos jogos era uma pratica de identificação romana. Logo, segundo Norma Mendes:

A sociedade romana, conforme qualquer outra sociedade antiga ou moderna, tinha uma forma especifica de conceder e buscar uma justifica moral e ideológica para o uso da violência e da crueldade. Devemos nos preocupar em analisar e interpretar o uso da violência de acordo com o contexto histórico-cultural e não julgar (MENDES, 2009, p.47).

Dessa forma, a violência vista por esses espectadores, não é a mesma violência entendida por esta sociedade contemporânea. Consideramos violência quando as regras morais e sociais são desrespeitadas, mas devemos lembrar que nem todas as sociedades partilham dos mesmos preceitos. Contudo, o conceito de violência também pode variar, não apenas em função de um contexto social, mas também dos preceitos morais, éticos e da própria história e da cultura da sociedade (LATERMAN, 2000).

Na sociedade romana, a violência era legitimada como instrumento para execução da justiça tanto pública como privada em prol da preservação da Res publica3 A morte era determinada pela vida, ou seja, era a ação pública ou privada desse homem que aclamava ou denegria sua morte. Os crimes significavam uma desordem social, além de um sacrifício. Contudo, as penalidades eram entendidas como redenção, resgate, expressão da vindicta4, como forma de corrigir o criminoso.

No livro Violência: Psicanálise, Direito e cultura (2007), o autor Lédio Andrade, justifica a violência a partir da visão ontológica5. O ser humano, apesar da sua complexidade, é visto como uma espécie animal a mais, dessa forma, compartilha uma característica de todos os animais: o uso da agressão e da violência.


A prática da violência não constitui uma ação humana exclusiva, como pensam muitos. Infanticídio, estupros (no conceito humano) e surras são práticas normais no cotidiano de animais como os primatas chipanzé, gorila e orangotango. Todos os animais humanos ou não, são agressivos por condição, jamais por maldade (ANDRADE, 2007, p. 13).
Dessa forma, a agressividade é intrínseca aos animais, seja ele racional ou irracional, no entanto, pondero que há uma diferença considerável entre a agressividade humana e a agressividade animal. A agressividade biológica – presente nos animais e no homem – segundo Lorenz, “é a capacidade dos indivíduos de lutar para defender a própria vida, ou a de seu companheiro e seus filhotes, e até mesmo outros individuo” (apud MEZINSKI, 2007, p.77), nesse sentido, a agressividade biológica de animais e seres humanos se difere pelo simples fato que a violência animal ela cessa assim que a ameaça termina, ou seja, uma agressividade defensiva, ao contrário dos seres humanos que podem se mostrar violentos quando não há necessidade.

No estudo de Andrade (2007) o autor faz algumas comparações entre os seres humanos no decorrer da sua história e os primatas, especificamente os chipanzés. O homem no decorrer da história, organizou seu mundo social através de comunidades dominadas pelos machos, incumbido de proteger o grupo e detentor de um grande potencial agressivo, o mesmo se dava com os primatas. Nesse sentido, vários dos comportamentos agressivos do homem atual, seriam memorias dessa origem comum. Há alicerce antropológico para tal afirmação.

Vimos que o fato de chipanzés e humanos matarem membros de grupos vizinhos de suas próprias espécies é uma surpreendente exceção à regra normal entre os animais [...] a agressão entre grupos em nossas duas espécies tenha uma origem em comum [...]. Há indícios de que a violência na forma, tornando os humanos modernos os atordoados sobreviventes de um hábito continuado, de 5 milhões de anos, de agressão mortífera (WRANGHAM apud ANDRADE, 2007, p.13,14).

Nesse sentido, as ações humanas de violência estão intimamente ligadas ao passado e ao elemento fundamental da natureza, humana ou animal, a agressividade. Hoje, agregando elementos como a religião, ideologias, armas, altas tecnologias entre outros.






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