Universidade federal do ceará



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6.3.2 Os Discursos



- Conhecimento e Opinião sobre o PAI
Quando perguntados acerca de como tomaram conhecimento do PAI, seis dos oito entrevistados afirmaram ter sido por meio de familiares e amigos e dois se referiram à repartição de origem. Tais respostas, em sua essência, não diferem das respostas dos participantes do programa, mas reforçam a falta de orçamento satisfatório como um fator que contribui para que o programa seja divulgado pelo sistema boca a boca, para que não se crie demanda numerosa e que não poderia ser atendida.

Quando questionados sobre os motivos que os levaram a se cadastrar no PAI, os oito entrevistados argumentaram:

Para exercer um direito que tinha e pelo interesse de participar do programa. [E01]

Porque eu acho que quando a gente chega nessa fase da vida a gente nunca deve ficar dentro de casa. Antigamente a gente ficava para fazer crochê e tricô. Depois já foi evoluindo mais, o idoso foi um pouco mais lembrado, então eu nunca achei que devia ficar parada. [E02]

Porque eu estava frequentando uma atividade e gostei demais, então fiquei muito assídua. Fiz computação, participei das sessões de cinema na sexta-feira, da reunião de socialização nas terças-feiras, não perdia. Acabei com a liberdade de aposentada. [E03]

Pelo fato de ser sempre bom a gente participar de um grupo assim como o PAI e fazer amigos. Acho ótimo tanto as colegas de diversão como as pessoas que trabalham no programa. [E04]

Me cadastrei para me distrair e fazer novas amizades, usufruir dos benefícios que o PAI oferecia e ainda oferece atualmente. [E05]

Logo que eu comecei a frequentar o PAI, tomei conhecimento que tinha dentista, advogado, assistente social, então devido a esses incentivos eu me cadastrei. [E06]

Porque encontrei aqui muitos cursos interessantes, um ambiente muito agradável para o pessoal aposentado. Aqui a gente tem encontros e faz um bom grupo de amizades. [E07]

Achei assim que era útil para a gente, para minha idade, era uma terapia, ter mais conhecimento, aumentar o círculo de amizades. Aqui a gente se diverte e existe integração. Achei que aqui era um local adequado para pessoa idosa ter o que fazer, aproveitar a vida, se divertir, ter seu espaço. [E08].

Os discursos mostram que os sujeitos se cadastraram no PAI por razões menos profundas do que os que continuam vinculados ao programa. Por outro lado, eles tinham expectativas de usufruir de benefícios como atendimento odontológico, jurídico e de serviço social. Conforme referido anteriormente, o programa foi reformulado e deixou de oferecer tais serviços.

Quanto aos motivos que os levaram a não mais frequentar as atividades promovidas pelo PAI, obtivemos as respostas abaixo:

Minha filha foi estudar fora, eu precisava acompanhá-la e de repente eu tive que me afastar. [E01]

(Risos) é porque já chegaram os netos e eu sou dessas avós... dizem que tem avós que estragam os netos. Eu sou dessas que brinco, danço, e ocupo meu tempo, me dedicando aos netos. É uma das coisas que eu faço e gosto muito, então eu digo até assim, senhor não me leve não, deixe os meus netos me conhecerem, saberem que era a avó deles. [E02]

Porque além das atividades que realizo, como caminhar nas proximidades de minha residência, frequento também no meu bairro as atividades de alongamento do Projeto Bombeiro, Saúde e Sociedade. Além disso, estou sem tempo de frequentar o PAI no momento porque tenho investido o meu tempo nas atividades da Associação à qual pertenço e que oferece, academia, fisioterapia, dança de salão, curso de computação, e outras. [E03]

Não frequento mais por motivo de doença na minha família. [E04]

Por motivo de doença. Ainda estou me recuperando, mas quando ficar boa, vou fazer uma atividade compatível com as minhas condições de saúde. [E05]

O PAI quando foi criado, era muito bom, então como já falei anteriormente, tiraram algumas atividades e devido uma junção de coisas que não concordava, devido a alguns desagravos resolvi me afastar do PAI. [E06]

O motivo do meu afastamento foi a família, foi muito pessoal, me ausentei para cuidar de um neto, pois minha filha e o marido tinham que trabalhar. Mas pretendo voltar com certeza. Não sei quando. [E07]

Por falta de estímulo, de incentivo, porque para eu vir sozinha fica monótono. Se tivesse um grupo próximo para eu vir, aí seria ótimo, mas não tem. Procurei vir numa Topic4 com um grupo, mas não tinha mais vaga, a lotação estava completa. [E08]

Os discursos têm um padrão distinto daqueles dos sujeitos que continuam vinculados ao PAI. No conjunto se referem a: necessidade de cuidar de netos para que os filhos trabalhem ou mesmo o desejo de se entregar à experiência de ser avó; participação, no próprio bairro, em atividades semelhantes às promovidas pelo programa; existência de problemas de saúde ainda não superados; falta de companhia associada com dificuldade de transporte para comparecer ao PAI; insatisfação em relação a mudanças ocorridas no programa.

Aparentemente os sujeitos que não mais participam do PAI têm mais problemas de saúde e familiares, além de receberem salários mais baixos, o que pode ter efetivamente influenciado para que se ausentassem do programa. É importante ressaltar que embora em número reduzido, entre eles houve um que verbalizou claramente insatisfações em relação às atividades do programa.

Atividades sugeridas para serem promovidas pelo PAI:

Promoção de um chá da tarde para integração e fortalecimento de amizades. [E01].

Sei que estão tão diversificadas, que eu gostaria de ter tempo para acompanhar. [E02].

Não sei, porque têm tantas. [E03].

Acho que as meninas fazem as coisas tão direitinho, organização de almoços, estive recentemente no PAI e vi o cartaz do almoço. Aí resolvi ir, inclusive com minha sobrinha. [E04].

Realmente o PAI já tem muitas atividades. [E05].

Passeios é a minha sugestão. Que fosse reservada uma verbazinha para cumprimentar todos aniversariantes. Seria bom que fizessem um cartão de aniversário padrão. Essa maneira de cumprimentar, de prestigiar o aniversariante faria muita gente feliz e agradecida. [E06].

Eu gostaria que o PAI promovesse a dança flamenga. [E07].

Gostaria que o PAI promovesse uma festa dançante com o grupo de aposentados, no domingo à tarde, como no Circulo Militar, uma academia. [E08]

Observou-se, da mesma forma, que os idosos necessitam de participar dessas atividades por se sentirem sozinhos, já que referiram o lazer como fuga da solidão e mesmo como passatempo. Com isso, eles têm a oportunidade de se locomover de suas residências para encontrar diversões em locais apropriados e atrativos (DAVIM et al., 2003).

Sobre que atividades deveriam ser promovidas pelo PAI, metade dos entrevistados fez sugestões, contrariamente ao que ocorreu entre os 90 que responderam os questionários, onde apenas 40,0% das pessoas disseram ter sugestões a fazer. Os que não mais participam do PAI, fizeram sugestões menos diversificadas e menos elaboradas, havendo o predomínio de atividades de entretenimento e socialização. Segundo Davim et al. (2003) os idosos necessitam de participar dessas atividades por se sentirem sozinhos, pois o lazer pode funcionar como fuga da solidão ou mesmo como passatempo. Com isso, eles têm a oportunidade de se locomover para encontrar diversões em locais apropriados e atraentes.

Embora sejam pessoas com renda menos elevada, não houve sugestões de captação de maiores recursos públicos, de rebaixamento dos preços ou de subsídio para o transporte a fim de favorecer a participação de maior número de aposentados e pensionistas que têm dificuldade de pagar pelas atividades. Isto representa uma contradição que não ficou explicitada nesta pesquisa. Por essa razão caberia a realização de estudo que abrangesse número mais amplo dos que não participam do programa avaliado para sanar esta e outras lacunas.

Autonomia e planos para o futuro

Questionados quanto ao que mais importa nesse período da vida obtivemos as respostas seguintes:

Melhorar a qualidade de vida, pois quando se chega aos 62 anos é muito importante pensar nisso, como somos como uma máquina que precisa de reposição. Priorizo viajar e viver bem, uma vida saudável. [E01].

Sempre procurar viver de uma maneira feliz. Sem ficar muito invocada quando as coisas acontecem. Temos que procurar viver bem com a idade que se tem, ter fé, porque a fé ajuda muito, você ter fé é muito importante. [E02].

Para mim a família é mais importante. [E03].

Eu acho o principal a saúde e peço a Deus um pouquinho mais de saúde para meus irmãos e para mim também. [E04]

É um período bom. O mais importante nesse período é a minha saúde. [E05].

Amizade acima de tudo e o contato com meus netos. [E06].

Ter saúde, paz e ser feliz com a minha família e com o meu próximo. [E07].

Saúde, paz e trabalho. Eu queria um trabalho para não ficar parada, ter uma ocupação, ter uma atividade. [E08].

A maioria dos entrevistados, cinco dos oito sujeitos, se referiu à saúde. Outros aspectos como: amizade, família e felicidade também foram relatados. Ressalte-se que esses discursos reforçam a idéia de que nesta fase os valores não materiais são bem mais importantes, priorizando-se, sentimentos e uma vida saudável.

No que se refere as atividades realizadas no dia a dia dos aposentados entrevistados, as respostas também foram as mais diversas, de acordo com os discursos que se seguem:

No momento a minha vida é assim, vivo para minha casa, minha família, vou à minha academia e para minha igreja, sou evangélica, de vez em quando vou a uma reunião social. [E01].

Eu não fico parada, faço caminhada de manhã cedo, com um casal, eu e meu esposo. Aí meu dia é todo ocupado, minhas amigas me ligam, aí preenche todo o meu dia, de manhã cedo eu assisto “sorrir para vida”, não perco a canção nova que é o evangelho do dia e tem as explicações diárias. [E02]

De manhã eu caminho, moro em frente ao Lago Jacareí. Lá é uma maravilha para caminhar, caminho duas vezes por semana, lá tem os Bombeiros que fazem atividades nas terças e quintas-feiras. Aqui estou fazendo fisioterapia, pois tive um problema com uma queda. E sempre que posso viajo, gosto muito de viajar, o ano passado fiz quatro viagens. [E03]

Na minha casa eu não paro, meus arranjos todos sou eu que faço. Já estou com flores e as rosas todas prontas para o Natal. Faço tudo para não deixar minha mente parada, sempre sou eu que faço meu mercantil, vou em banco, tudo sou eu que resolvo, graças a Deus. Faço crochê, faço tricô, tapeçaria, faço tudo. Sempre estou em movimento. [E04]

O meu dia a dia é muito ocupado, vou muito para o SESC, procuro sempre ler algumas revistas sobre saúde. [E05]

Não faço nada de muita importância, assisto televisão, vejo futebol. Quando estou com vontade, faço alguns passeios de pouca duração, vou ao Dragão do Mar, vejo alguma atividade artística, apresentação de dança e teatro [...]. Minhas atividades são simples e compatíveis com a minha condição de saúde atualmente. [E06]

Me dedico à minha família, especialmente no momento, ajudando minha filha na criação de um neto, para que ela o marido possam trabalhar. [E07]

No meu dia a dia cuido de minha mãe que tem 93 anos, faço caminhadas, palavras cruzadas, cuido também das tarefas domésticas.

No referente às atividades desenvolvidas no seu dia a dia as respostas obtidas dos entrevistados, demonstram que as pessoas se mantém ativas e com autonomia para desenvolver as suas atividades, embora com planos vagos e menos ambiciosos que as que participam do PAI. Tal fato pode estar associado ao fato deste grupo ter um perfil com discretas diferenças, como o fato de serem mais idosos, mais solitários e com salários mais baixos, comparados ao grupo que frequenta o PAI.

Quando perguntados se necessitavam de ajuda para realizar atividades em sua vida diária, sete dos oito aposentados entrevistados, responderam não ter limitações, sendo que um referiu-se à necessidade de companhia para ir ao médico. Sendo assim, podemos afirmar que existe autonomia física e psíquica, para a grande maioria dos entrevistados, verificando-se com este grupo também o que havia sido constatado com os dois outros.

Quanto aos planos para o futuro, dos oito entrevistados, eis os discursos:

Em termos de futuro, sinceramente, está aí uma coisa que eu não planejo, eu não planejo o futuro, porque eu acho que o nosso futuro está nas mãos de Deus. [E01]

Viver bem a minha vida ao lado de minha família e com saúde. [E02]

(Risos) viver mais alguns anos aproveitando a vida e curtir meu lar, vendo meus netos crescerem. [E03]

Eu não tenho planos para o futuro. [E04]

O que eu mais gostaria para o futuro é ter minha saúde recuperada. [E05]

Não tenho planos para o futuro, vivo o presente. [E06].

Ter saúde, paz e felicidade para mim, minha família e enfim para toda humanidade. [E07]

Arranjar uma atividade para trabalhar e aumentar minha renda que é muito pequena. [E08]

Também neste aspecto evidenciaram-se diferenças em relação às pessoas que se mantêm integradas às atividades do PAI. Entre as que não participam três afirmaram não terem qualquer plano para o futuro, já os que têm planos, estes são bem mais modestos do que aqueles. Mesmo assim, há um que pretende voltar a trabalhar para aumentar a renda e os demais se concentraram em recuperar ou manter a própria saúde para viver com tranqüilidade junto com os familiares.

Podemos aventar como explicação para o caráter menos elaborados dos sujeitos que não mais frequentam o PAI, tanto características identitárias que não chegamos a investigar, quanto o fato de se manterem distantes de estímulos que o próprio ambiente do programa poderia lhes oferecer.

Segundo Costa (2009) quando as pessoas não têm ações claramente definidas para colocar em prática seus projetos de futuro isso pode estar relacionado com a centralidade do trabalho na vida humana e com as dificuldades resultantes da ruptura com o ritmo de vida antes da aposentadoria.






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