Uma maneira negligenciada de ser: a maneira empática



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Uma maneira negligenciada de ser: a maneira empática
Carl R. Rogers
Neste artigo, defendo a tese de que deveríamos reexaminar e reavaliar uma maneira muito especial de ser em relação a outra pessoa, e que tem sido chamada de empática. Creio que geralmente damos muito pouco valor a um elemento extremamente importante, tanto para a compreensão da dinâmica da personalidade como para a produção de mudanças na personalidade e no comportamento. Trata-se de uma das maneiras mais sutis e poderosas de funcionamento pessoal de que dispomos. Apesar de tudo o que se tem dito e escrito a respeito, essa maneira de ser raramente é encontrada de forma integral numa relação interpessoal. Começarei pela minha própria história, um tanto flutuante em relação a este assunto.
Hesitações pessoais
Bem no início de minhas atividades como terapeuta, descobri que simplesmente ouvir atentamente meu cliente era uma maneira importante de ajudar. Assim, quando tinha dúvidas quanto ao que fazer, na acepção ativa do termo, eu limitava-me a ouvir. Pareceu-me surpreendente que esta forma passiva de interação pudesse ser tão util.

Publicado originalmente sob o título: Empathic: an unappreciated way of being. The Counseling Psychologist, 5 2 1975, 2-10. Tradução de Maria Helena Souza Patto.



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Pouco depois, uma assistente social, de formação rankiana, ajudou-me a aprender que a abordagem mais eficiente consiste em atentar para os sentimentos, para as emoções, cujos padrões podem ser percebidos através das palavras do cliente. Creio ter sido ela quem sugeriu que a melhor resposta seria “refletir” estes sentimentos para o cliente — e “refletir” tornou-se, com o tempo, uma palavra que me fazia tremer de medo. Mas, naquela época, ela melhorou a qualidade de meu trabalho terapêutico, e fiquei agradecido.
Passei, então, a ocupar um cargo em tempo integral na universidade, onde, com a ajuda de meus alunos, senti-me finalmente capaz de pedinchar equipamento para gravar nossas entrevistas. É impossível exagerar a excitação com que aprendíamos, à medida em que nos apinhávamos em torno do aparelho, que nos possibilitava ouvir a nós mesmos, repetindo inúmeras vezes algum ponto intrigante, no qual a entrevista fora claramente mal conduzida, ou as passagens em que o cliente progredia significativamente. (Ainda considero que esta técnica é a melhor maneira de nos aperfeiçoarmos como terapeutas). Entre as muitas lições que estas gravações nos proporcionaram, percebemos que ficar atento para os sentimentos e “refleti-los” constituía um processo imensamente complexo. Descobrimos que era possível detectar a resposta do terapeuta, que fazia com que um fluxo frutífero de expressão significativa se transformasse em algo superficial e inútil. Do mesmo modo, podíamos nos deter na intervenção do terapeuta, que levava a conversa tola e superficial do paciente a transformar-se numa auto-exploração.
Em tal contexto de aprendizagem, era inteiramente natural que viéssemos a dar mais importância à resposta do terapeuta do que à qualidade empática da atenção que ele dedicava ao cliente. Nesta medida, tornamo-nos profundamente atentos às técnicas que o conselheiro ou terapeuta estava utilizando. Tornamo-nos especialistas na análise minuciosa dos pontos altos e baixos do processo ocorrido em cada entrevista, e muito ganhamos com esse estudo microscópico.
Porém, esta tendência a focalizar as respostas do terapeuta teve conseqüências que me apavoraram. Eu havia enfrentado reações hostis, mas estas eram piores. Em poucos anos, essa abordagem total passou a ser conhecida como uma técnica. “Terapia não-diretiva”, dizia-se, “é a técnica de refletir os sentimentos do cliente”. Ou, numa caricatura ainda pior, “na terapia não-diretiva repetem-se as últimas palavras do cliente”. Fiquei tão chocado com essa completa distorção de nossa abordagem que, durante alguns anos, não disse praticamente mais nada sobre a atenção empática e, quando o fiz, foi para mostrar a importância de uma atitude empática, tecendo pouquíssimos comentários a respeito de como ela poderia ser posta em prática no relacionamento. Preferi discutir as qualidades da consideração positiva e da congruência do terapeuta, que seriam, por hipótese, ao lado da empatia, promovedores do processo terapêutico. Estas também foram, muitas vezes, mal interpretadas, mas pelo menos não foram caricaturadas.
A necessidade atual
Com o decorrer dos anos, entretanto, os dados de pesquisa continuam a se acumular, levando-nos à conclusão de que um alto grau de empatia talvez seja o fator mais relevante numa relação, sendo, sem dúvida, um dos fatores mais importantes na promoção de mudanças e de aprendizagem. Por isso, acredito que é chegado o momento de esquecer as caricaturas e deturpações do passado e mirar a empatia com novos olhos.
Parece-me oportuno fazê-lo por outra razão ainda. Durante a última ou as duas últimas décadas, nos Estados Unidos, várias abordagens terapêuticas novas têm se destacado. A terapia gestáltica, o psicodrama, a terapia do grito primal, a bioenergética, a terapia emotiva-racional e a análise transaciona! são algumas das mais conhecidas, entre outras. Parte da atração que exercem reside no fato de o terapeuta ser, na maioria dos casos, um perito que manipula ativamente a situação, freqüentemente com recursos de impacto, para atingir o cliente. Se não me engano, está em declínio o fascínio por este tipo de habilidade na orientação de pessoas. Em relação à terapia comportamental, outra concepção terapêutica baseada na especialização, acredito que o interesse e o fascínio ainda estejam em ascensão. A sociedade tecnológica ficou encantada por ter descoberto uma tecnologia através da qual o comportamento de um indivíduo pode ser modelado, mesmo sem seu conhecimento ou aprovação segundo objetivos escolhidos pelo terapeuta ou pela sociedade. Porém, mesmo nesse caso, pessoas ponderadas têm levantado muitas questões, à medida que as implicações filosóficas e políticas da “modificação do comportamento” tornam-se mais evidentes. Assim, tenho observado que existem muitas pessoas dispostas a rever as maneiras de estar com pessoas, que possibilitem mudanças auto-dirigidas e que localizem o poder na pessoa e não no especialista; este fato leva-me, mais uma vez, a examinar cuidadosamente o significado que atribuímos à empatia e o que sabemos a respeito dela. Talvez tenha chegado o momento de reconhecer o seu valor.

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A definição inicial


Muitas são as definições que se tem dado ao termo; eu mesmo apresentei um bom número delas. Há mais de vinte anos (embora não tenha sido publicada até 1959), tentei formular uma definição bastante precisa, como parte de uma apresentação formal dos conceitos e da teoria que eu havia elaborado. Esta definição foi a seguinte:

“O estado de empatia ou ser empático consiste em aperceber-se com precisão do quadro de referências interno de outra pessoa, juntamente com os componentes emocionais e os significados a ele pertencentes, como se fôssemos a outra pessoa, sem perder jamais a condição de como se’. Portanto, significa sentir as mágoas e alegrias do outro como ele próprio as sente e perceber suas causas como ele próprio as percebe sem, contudo, perder a noção de que é ‘como se’ estivéssemos magoados ou alegres, e assim por diante. Se perdermos esta condição de ‘como se’, teremos um estado de identificação” (Rogers, 1959, p. 210-211. Veja também Rogers, 1957).


A vivência como um constructo útil
A fim de formular a definição atual, gostaria de lançar mão do conceito de vivência¹, tal como foi formulado por Gendlin (1962). Este conceito enriqueceu nossas idéias de várias maneiras, como veremos no decorrer deste artigo. Em resumo, ele é de opinião que durante todo o tempo se verifica no organismo humano um fluxo de vivência ao qual o indivíduo pode se voltar repetidas vezes, usando-o como ponto de referência para descobrir o significado de sua existência. Segundo ele, empatia é ressaltar com sensibilidade o “significado sentido” que o cliente está vivenciando num determinado momento, a fim de ajudá-lo a focalizar este significado até chegar à sua vivência plena e livre.
Um exemplo pode tornar mais claro esse conceito e sua relação com a empatia. Num grupo de encontro, um homem vinha fazendo comentários vagamente negativos a respeito de seu pai. O facilitador diz: “Parece que você está com raiva de seu pai.” Ele replica: “Não, acho que não.” “Quem sabe está insatisfeito com ele?” “Bem, sim, talvez...“ (dito sem muita convicção). “Talvez você esteja decepcionado com ele.” Imediatamente, o homem responde: “E isto! Estou decepcionado pelo fato dele não ser uma pessoa forte. Acho que sempre estive decepcionado com ele, desde menino.”
Nota de rodapé 1: Experiencing, termo que o autor usa para referir-se ao processo da experiência. (N.T.)

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Em relação a quê o homem está verificando a exatidão deste termos? Na opinião de Gendlin, com quem concordo, ele as compara com o fluxo psicofisiológico em curso dentro dele, a fim de verificar sua exatidão. Este fluxo é algo muito real, e as pessoas podem usá-lo como um ponto de referência. Neste caso, “raiva” não corresponde ao significado sentido; “insatisfeito” está mais próximo, mas não totalmente correto; “decepcionado” corresponde exatamente, favorecendo um novo fluxo de vivências, como costuma acontecer.


Uma definição atual
De posse desta retaguarda conceitual, tentarei caracterizar a empatia de uma forma que me parece satisfatória no momento. Não a chamaria mais de “um estado em empatia”, pois acredito que ela seja mais um processo que um estado. Talvez eu consiga apreender esta qualidade.
A maneira de ser em relação a outra pessoa denominada empática tem várias facetas. Significa penetrar no mundo perceptual do outro e sentir-se totalmente à vontade dentro dele. Requer sensibilidade constante para com as mudanças que se verificam nesta pessoa em relação aos significados que ela percebe, ao medo, à raiva, à ternura, à confusão ou ao que quer que ele/ela esteja vivenciando. Significa viver temporariamente sua vida, mover-se delicadamente dentro dela sem julgar, perceber os significados que ele/ela quase não percebe, tudo isto sem tentar revelar sentimentos dos quais a pessoa não tem consciência, pois isto poderia ser muito ameaçador. Implica em transmitir a maneira como você sente o mundo dele/dela à medida que examina sem viés e sem medo os aspectos que a pessoa teme. Significa freqüentemente avaliar com ele/ela a precisão do que sentimos e nos guiarmos pelas respostas obtidas. Passamos a ser um companheiro confiante dessa pessoa em seu mundo interior. Mostrando os possíveis significados presentes no fluxo de suas vivências, ajudamos a pessoa a focalizar esta modalidade útil de ponto de referência, a vivenciar os significados de forma mais plena e a progredir nesta vivência.
Estar com o outro desta maneira significa deixar de lado, neste momento, nossos próprios pontos de vista e valores, para entrar no mundo do outro sem preconceitos. Num certo sentido, significa pôr de lado nosso próprio eu, o que pode ser feito apenas por uma pessoa que esteja suficientemente segura de que não se perderá no mundo possivelmente estranho ou bizarro do centro e de que poderá voltar sem dificuldades ao seu próprio mundo quando assim o desejar.

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Talvez esta caracterização tenha deixado claro que a empatia é. uma maneira de ser complexa, exigente e intensa, ainda que sutil e suave.


Definições operacionais
A definição acima não é operacional, adequada à utilização em pesquisas. Contudo, foram formuladas definições operacionais, amplamente usadas. Existe o Inventário de Relacionamento de Barrett Lennard, a ser preenchido pelos componentes da relação, no qual a empatia é definida operacionalmente através dos itens utilizados. Transcrevemos, a seguir, alguns dos itens deste instrumento que indicam a amplitude existente entre o empático e o não-empático.
“Ele leva em conta o que minha experiência significa para mim.
Ele compreende o que digo, de um ponto de vista imparcial, objetivo.
Ele compreende o que digo, mas não o que sinto.”
Barrett-Lennard também é autor de uma formulação conceitual específica de empatia, na qual baseou os itens de seu inventário. Embora tenha pontos em comum com a definição apresentada anteriormente, é suficientemente diferente para justificar sua citação:
“De um ponto de vista qualitativo, ela (a compreensão empática) é um processo ativo que consiste em querer conhecer a consciência plena, atual e mutante de outra pessoa, em empenhar-se para receber o que ela comunica e seu significado e em traduzir suas palavras e sitiais em significado vivenciado, que corresponda pelo menos aos aspectos de sua consciência que lhe são mais importantes, naquele. momento. Trata-se de vivenciar a consciência que se encontra ‘atrás’ da comunicação explícita, sem jamais perder de vista que esta consciência tem origem e se processa no outro” (Barrett Lennard, 1962).
Existe também a Escala de Empatia Precisa (Accurate Empathy Scále), criada por Truax e colaboradores, a ser preenchida por avaliadores (Truax, 1967). Até mesmo pequenas partes de entrevistas gravadas podem ser avaliadas com precisão através desta escala. A natureza da escala pode ser caracterizada pela definição do Estágio 1, que corresponde ao nível mais baixo de compreensão empática, e do Estágio 8, que corresponde a um grau bastante alto (embora não o mais alto) de empatia. Apresentamos, a seguir, o Estágio 1:
“O terapeuta desconhece totalmente até mesmo o sentimento mais conspícuo do cliente. Suas respostas não são adequadas a tonalidade e ao conteúdo dos sentimentos do cliente. Suas respostas não são adequadas ao estado de ânimo e ao conteúdo das declarações

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do cliente, não estando presente qualquer qualidade empática

definível; portanto, é impossível definir qualquer nível de precisão.

O terapeuta pode estar entediado, desinteressado ou aconselhando ativamente, mas não comunica qualquer percepção dos sentimentos que o cliente vivencia naquele momento” (Truax, 1967, pp. 556-7).


O Estágio 8 é definido da seguinte maneira:
“O terapeuta interpreta com precisão todos os sentimentos que o cliente admite naquele momento. Revela também as áreas de sentimentos mais ocultas do cliente, explicitando significados na vivência do cliente dos quais ele tem pouquíssima consciência... Penetra nos sentimentos e vivências apenas sugeridos pelo cliente e o faz com sensibilidade e precisão... O conteúdo que vem à tona pode ser novo, mas não estranho. Embora o terapeuta que se encontra no Estágio 8 cometa erros, estes não assumem uma forma dissonante, mas decorrem da natureza tentativa da resposta. Além disso, o terapeuta é sensível aos erros que comete e rapidamente altera ou modifica suas respostas, a qualquer momento, o que significa que ele compreendeu mais claramente o que está sendo dito e procurado nas explorações do próprio cliente. O terapeuta mostra-se solidário com o cliente, compartilhando com ele uma busca baseada no ensaio e erro. Seu tom de voz reflete a seriedade e a profundidade de sua compreensão empática” (Truax, 1967, p. 566).
Através destes exemplos, tentei mostrar que o processo empático pode ser definido em termos teóricos, conceituais, subjetivos e operacionais. Mesmo assim, não atingimos os limites de sua essência.
Uma definição para as pessoas atuais.
Eugene Gendlin e outros recentemente participaram de um empreendimento comunitário de ajuda denominado “Mudanças”, que oferece várias diretrizes úteis para o relacionamento com os membros alienados e os participantes da contra-cultura que integram o caos que chamamos de vida urbana. O “Manual de Relacionamento”, elaborado com o objetivo de ajudar a pessoa comum a aprender a “ajudar o processo que se verifica em outra pessoa”, é de particular interesse no contexto deste artigo.
Esse Manual tem início com um capítulo sobre “O Ouvir Integral”. Seu teor pode ser captado em algumas de suas passagens:
“Não significa fazer imposições às pessoas... Você apenas Ouve e repete a idéia da outra pessoa, passo a passo, exatamente como ela concebe a idéia naquele momento. Você jamais mistura qualquer assunto ou idéias pessoais, jamais impõe ao outro qualquer coisa que ele não tenha expressado... Para demonstrar que a compreende

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exatamente, formule uma ou duas frases que expressem com precisão o significado que esta pessoa quis transmitir. Para fazê-lo, você geralmente usará suas próprias palavras, mas use as palavras da própria pessoa quando se referir aos assuntos mais delicados” (Gendlin e Hendricks, s.d.).


O Manual prossegue neste mesmo tom, oferecendo muitas sugestões detalhadas, entre elas idéias a respeito de “como saber se você está se saindo bem”.
Assim, fica patente que uma maneira empática de ser, embora muito sutil do ponto de vista conceitual, também pode ser caracterizada em termos perfeitamente compreensíveis pela juventude atual ou por cidadãos de zonas urbanas relativamente ilhadas. Trata-se de uma concepção de grande amplitude.
Dados gerais de pesquisa
O que conseguimos saber a respeito da empatia através de pesquisas realizadas com os instrumentos acima mencionados e outros instrumentos que têm sido construídos? A resposta é que aprendemos muito, e vou tentar apresentar algumas destas aprendizagens, expondo primeiramente alguns dados gerais de interesse. Reservarei para mais tarde uma análise dos efeitos de um clima empático sobre a dinâmica e o comportamento do receptor. A seguir, portanto, encontram-se algumas afirmações gerais que podem ser feitas com segurança.
O terapeuta ideal é acima de tudo empático. Quando psicoterapeutas de orientações diversas apresentam seu conceito de terapeuta ideal, do terapeuta que eles gostariam de vir a ser, estão plenamente de acordo em atribuir à empatia a classificação mais alta entre doze variáveis. Esta afirmação fundamenta-se numa pesquisa realizada por Raskin (1974), com oitenta e três terapeutas pertencentes a pelo menos oito abordagens terapêuticas diferentes. A definição de qualidade empática foi muito semelhante à que utilizamos neste artigo. Esta pesquisa vem corroborar e reforçar uma pesquisa anterior, realizada por Fiedier (1950 b). Assim sendo, podemos concluir que os terapeutas reconhecem que o fator mais importante que caracteriza o terapeuta é “tentar tão sensível e exatamente quanto possível compreender o cliente, do ponto de vista deste último” (Raskin, 1974).
A empatia está correlacionada com a auto-exploração e o movimento do processo. Aprendemos que um clima de relacionamento caracterizado por um alto grau de empatia está associado a vários aspectos do processo e do progresso terapêutico. Este clima relaciona-se

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nitidamente com um alto grau de auto-exploração por parte do cliente (Bergin e Strupp, 1972; Kurtz e Grummon, 1972; Tausch, Bastine, Friese e Sander, 1970).


A empatia presente tio inicio da relação permite prever o sucesso posterior. O grau de empatia existente ou que venha a existir na relação pode ser determinado bem no início, na quinta ou até mesmo na segunda entrevista. Estas mensurações iniciais predizem o sucesso ou o insucesso posterior na terapia (Barrett-Lennard, 1962; Tausch, 1973). Estes dados têm a seguinte implicação: poderíamos evitar uma considerável proporção de terapias mal sucedidas através da mensuração da empatia do terapeuta, na fase inicial.

O cliente percebe a presença de maior grau de empatia nos casos bem sucedidos. Nos casos bem sucedidos, a percepção que o cliente tem da qualidade empática presente na relação, bem como a mensuração desta qualidade do relacionamento, realizada por juízes objetivos, aumenta no decorrer do tempo, embora o aumento não seja muito grande (Cartwright e Lerner, 1966; Van Der Veen, 1970).


A compreensão é proporcionada pelo terapeuta e não extraída dele. Sabemos que a empatia é algo que o terapeuta oferece e não alguma coisa apenas eliciada por um tipo particular de cliente (Tausch e outros, 1970; Truax e Carkhuff, 1967). Cogitou-se da formulação inversa, ou seja, de que um cliente atraente ou sedutor pudesse ser responsável pela exigência de compreensão imposta ao terapeuta. Os dados não confirmam esta hipótese. Na verdade, o grau de empatia numa relação pode ser inferido com bastante precisão simplesmente ouvindo-se as respostas do terapeuta, sem qualquer conhecimento das declarações do paciente (Quinn, 1953). Portanto, se existe um clima empático numa relação, é muito provável que o terapeuta seja o responsável.
Quanto mais experiente o terapeuta, maior a probabilidade dele ser empático. Terapeutas experientes oferecem um nível maior de empatia a seus clientes do que os menos experientes, quer avaliemos esta qualidade através da percepção do cliente, quer através da percepção de Juízes qualificados (Barrett-Lennard, 1962; Fiedler, 1949, 1950 (a); Mullen e Abeles, 1972). Evidentemente, os terapeutas aprendem, com o passar dos anos, a se tornarem mais próximos do seu ideal de terapeuta e a compreenderem com mais sensibilidade.
A empatia é uma qualidade especial numa relação, e os terapeutas decididamente oferecem-na mais do que até mesmo amigos solícitos. (Van Der Veen, 1970). Este fato é tranqüilizador.
Quanto mais equilíbrio internamente seja o terapeuta, maior o grau de empatia que ele demonstra. A presença de distúrbios de

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personalidade no terapeuta é acompanhada de uma menor compreensão empática; porém, quando ele não apresenta problemas em situações de relacionamento inter-pessoal e sente-se confiante nelas, apresenta maior grau desta compreensão (Bergin e Jasper, 1969; Bergin e Solomon, 1970). À medida que entrei em contato com este dado e refleti a respeito de minha própria experiência no treinamento de terapeutas, cheguei à conclusão um tanto incômoda de que quanto mais psicologicamente maduro e integrado seja o terapeuta como pessoa, mais proveitosa a relação que ele proporciona. Este fato coloca uma grande responsabilidade sobre a pessoa do terapeuta.


Terapeutas experientes freqüentemente estão muito distantes da empatia. Apesar do que dissemos sobre terapeutas experientes, eles diferem acentuadamente quanto ao grau de empatia que oferecem. Raskin (1974) mostrou que a avaliação feita por terapeutas experientes, de gravações de entrevistas realizadas por seis terapeutas também experientes, produziu diferenças significativas, ao nível de 0,001, entre doze variáveis avaliadas. A empatia contribuiu para a amplitude das diferenças observadas. A caracterís4ca mais marcante do terapeuta centrado no cliente foi a empatia. As outras correntes terapêuticas tiveram como característica fundamental suas propriedades cognitivas, a diretividade exercida pelo terapeuta, e assim por diante. Portanto, embora os terapeutas considerem a atenção empática como o elemento mais importante do terapeuta ideal, freqüentemente não conseguem atingi-la na prática. E, na verdade, a avaliação das gravações das entrevistas feitas por esses seis especialistas, realizada por oitenta e três outros terapeutas, chegou a um resultado surpreendente. Em apenas dois casos o trabalho desenvolvido pelos especialistas correlacionou-se positivamente com a descrição do terapeuta ideal. Em quatro casos a correlação foi negativa, a mais extrema das quais foi de — 0,66! Quanto à prática da terapia, este é o quadro!
Os clientes são melhores juízes do grau de empatia do que os terapeutas. Assim sendo, o fato de os terapeutas mostrarem-se tão imprecisos na avaliação de seu próprio grau de empatia numa relação talvez não seja tão surpreendente. A percepção que o cliente tem desta característica apresenta uma grande correspondência com a percepção de juízes neutros que ouvem as gravações, mas a concordância entre- clientes e terapeutas ou juízes e terapeutas é baixa (Rogers, Gendlin Kiesler e Truax, 1967, Capítulos 5 e 8). Para nos tornarmos terapeutas mais eficientes, talvez devêssemos pedir a nossos clientes que nos digam se os estamos compreendendo bem!
Brilhantismo e percepção diagnóstica não se relacionam com a empatia. E importante saber que o grau de clima empático criado

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pelo terapeuta não tem relação com seu desempenho acadêmico ou com sua capacidade intelectual (Bergin e Jasper, 1969; Bergin e Solomon, 1970). Tampouco se relaciona com a precisão da percepção que tem do indivíduo ou com sua competência diagnóstica. Na verdade, a correlação com a competência diagnóstica pode ser negativa (Fiedler, 1953). Este dado é da maior importância. Se nem o brilhantismo acadêmico nem a capacidade diagnóstica são significativas, conclui-se que a empatia pertence a um nível de discurso que difere da maior parte do raciocínio clínico, seja ele psicológico ou psiquiátrico. Creio que relutamos em aceitar as conseqüências desse fato.


Uma postura empática pode ser aprendida com pessoas empáticas. Talvez a afirmação mais importante seja a de que a capacidade de empatia pode ser desenvolvida através de treino. Terapeutas, pais e professores podem ser ajudados a se tornarem empáticos. A probabilidade de ocorrência desta aprendizagem aumenta nitidamente se seus professores e supervisores forem pessoas capazes de compreensão sensível (Aspy, 1972; Aspy e Roebuck, 1975; Bergin e Solomon, 1970; Blocksma, 1951; Guerney, Andronico e Guerney, 1970). E extremamente encorajador saber que esta característica sutil e fluida, de importância fundamental na terapia, não é um “dom”, mas pode ser aprendida num clima empático e muito rapidamente. Talvez apenas dois elementos básicos da eficiência terapêutica possam se beneficiar do treinamento cognitivo e vivencial: a empatia e a congruência.
As conseqüências do clima empático
Isto quanto aos conhecimentos que se tem obtido sobre a empatia. Mas que efeitos uma série de respostas profundamente empáticas tem sobre o receptor? Neste aspecto, as provas são esmagadoras. A empatia está claramente relacionada a resultados positivos. De pacientes esquizofrênicos a estudantes em salas de aula comuns, de clientes de um centro de aconselhamento a professores em treinamento, de neuróticos que vivem na Alemanha a neuróticos que vivem nos Estados Unidos, os dados são os mesmos e indicam que quanto mais o terapeuta ou professor compreende com sensibilidade, tanto mais provável é a ocorrência de aprendizagem e mudanças construtivas (Aspy, 1972, Capítulo 4; Aspy e Roebuck, 1975; BarrettLennard, 1962; Bergin e Jasper, 1969; Bergin e Strupp, 1972; Halkides, 1958; Kurtz e Grummon, 1972; Muilen e Abeles, 1971; Rogers e outros, 1967, Capítulos 5 e 9; Tausch, Bastine, Bommert, Minsel e

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Nickel, 1972; Tausch e outros, 1970; Truax, 1966). Segundo Bergin e Strupp (1972), várias pesquisas “demonstraram a existência de uma correlação positiva entre a empatia do terapeuta, a auto-exploração do paciente e critérios independentes de mudanças ocorridas no paciente” (pg. 25).

Mesmo assim, acredito que a atenção dirigida a estes dados tem sido insuficiente. Esta interação empática ilusoriamente simples que estamos discutindo tem muitas e profundas conseqüências. Gostaria de passar a discuti-las mais detidamente.
Em primeiro lugar, ela termina com a alienação. Naquele momento, pelo menos, o receptor se percebe como membro da raça humana. Embora possa ocorrer de forma não tão claramente articulada, a experiência é vivida mais ou menos da seguinte forma:

“tenho falado de coisas ocultas, que em parte escondi até de mim mesmo, sentimentos estranhos, talvez anormais, sentimentos que jamais revelei nitidamente a outra pessoa e nem mesmo a mim. Mesmo assim, ele compreendeu, compreendeu-os de maneira ainda mais clara do que eu. Se ele sabe d, que estou falando, entende o que quero dizer, então não sou tão estranho, diferente ou marginal. Eu faço sentido para outro ser humano. Portanto, estou em contato com os outros, e até mesmo em relação com eles. Não sou mais um pária.”


Isto possivelmente explica um dos dados mais fundamentais da pesquisa que realizamos sobre psicoterapia de esquizofrênicos. Verificamos que a redução mais acentuada da patologia esquizofrênica, medida pelo MMPI, ocorreu naqueles pacientes que receberam de seus terapeutas um alto grau de empatia precisa, determinado por juízes imparciais (Rogers e outros, 1967, pg. 85). Este dado vem sugerir que a compreensão empática pelo outro pode ser o fator mais poderoso na retirada do esquizofrênico de sua alienação e em seu ingresso no mundo das relações humanas. Jung disse que o esquizofrênico deixa de ser esquizofrênico quando encontra alguém por quem se sente compreendido. Nossa pesquisa veio provar empiricamente esta afirmação.
Outras pesquisas, realizadas tanto com esquizofrênicos como com clientes de serviços de aconselhamento, mostram que um baixo grau de empatia relaciona-se com uma leve piora no ajustamento ou na patologia. Também neste caso os dados fazem sentido. É como se o indivíduo concluísse: “se ninguém me entende, se ninguém pode captar o que significam estas experiências, então realmente estou mal — mais doente do que pensava.” Um dos pacientes de Laing afirma isto vividamente ao descrever seus contatos anteriores com psiquiatras:

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“É uma sensação tão horrível perceber que o médico não é capaz de ver a gente como a gente é, que ele não Consegue compreender o que a gente sente e que ele vai em frente apenas com suas próprias idéias! Eu começava a sentir-me como se fosse invisível ou como se talvez não estivesse presente” (Laing, 1965, pg. 166).


Outro significado que a compreensão empática pode ter para o receptor é o de que alguém o valoriza, está atento para a pessoa que ele é e a aceita. Poderia parecer que mudamos de assunto, que’ não estamos mais tratando da empatia. Não é isso. É impossível sentir adequadamente o mundo perceptual de outra pessoa sem que valorizemos esta pessoa e seu mundo — sem que, de algum modo, nos interessemos por ela.. Assim, a mensagem que chega ao receptor é a seguinte: “Esta outra pessoa confia em mim, acredita que valho a pena. Talvez eu seja digno de alguma coisa. Talvez eu pudesse me valorizar. Talvez eu pudesse me interessar por mim.”
Um exemplo eloqüente deste ponto nos é dado por um jovem que recebeu muita compreensão empática e que se encontra atualmente nos últimos estágios da terapia:
Cliente: “Eu poderia até mesmo pensar nisso como uma possibilidade de cuidar de mim com mais carinho.
Mesmo assim, como eu poderia ser terno, preocupar-se comigo, se somos ambos uma coisa só? Mas eu consigo sentir esta possibilidade claramente... Sabe, é como cuidar de uma criança. A gente quer fazer de um jeito e faz de outro. . . Eu consigo aceitar estes objetivos em se tratando de outra pessoa... mas nunca os vejo para... mim, que eu poderia fazê-lo por mim, sabe?
Será possível que eu possa realmente querer cuidar de mim e fazer disso um objetivo importante de minha vida? Isto significa que eu teria que considerar o mundo todo como se eu fosse possuidor do bem mais precioso e mais desejado, que este eu estaria entre este mim precioso que desejo cuidar e o mundo inteiro... É quase como se eu me amasse — sabe, é esquisito, mas é verdade.”
Terapeuta: “Parece uma idéia tão estranha para você. Significaria. eu enfrentaria o mundo como se uma parte de minha responsabilidade fundamental fosse cuidar deste indivíduo precioso que sou eu a quem amo.’”
Cliente: “De quem gosto — de quem me sinto tão próximo. Ai esta outra coisa estranha.”
Terapeuta: “Parece fantástico.”

Cliente: “É. De algum modo, tem muito a ver comigo. A idéia de mim mesmo me amando e cuidando de mim... “ (Seus olhos ficam marejados) “É uma idéia muito agradável muito agradável.”

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Creio que foi a compreensão sensível do terapeuta — presente nesta passagem, bem como em outras anteriores — que permitiu este cliente vivenciar uma grande estima e até mesmo amor por

mesmo.
Outro ‘impacto causado pela compreensão sensível decorre de sua característica não avaliativa. A expressão mais alta de empatia consiste em aceitar e não julgar. Isto é verdade porque é impossível perceber com precisão o mundo interior de outra pessoa quando temos uma opinião avaliativa formada a seu, respeito. Caso o leitor duvide desta afirmação, escolha alguém que conheça e de quem discorde radicalmente e que, em sua opinião, esteja absolutamente errado ou enganado. Agora, tente formular os pontos de vista, crenças e sentimentos dessa pessoa de uma maneira tão sensível e precisa que ela própria concorde que se trata de uma descrição correta de sua posição. Minha previsão é de que você falhará em nove entre dez vezes, pois a maneira como você julga seus pontos de vista contamina sua descrição deles.


Conseqüentemente, a verdadeira empatia jamais abrange qualquer característica avaliativa ou diagnóstica. Este fato causa uma certa surpresa no receptor. “Se não estou sendo julgado, talvez não seja tão mau ou anormal quanto pensei. Talvez eu não deva julgar- me com tanta severidade.” Assim, a possibilidade de autoaceitação aumenta gradativamente.
Lembro-me de um psicólogo cujo interesse pela psicoterapia teve início com uma pesquisa que realizou sobre percepção visual. Nesta pesquisa, numerosos estudantes foram entrevistados, sendo solicitados a relatar sua história visual e perceptual, inclusive qualquer dificuldade de visão, de audição, sua reação ao uso de óculos, etc. O psicólogo limitou-se a ouvir com interesse, sem emitir julgamentos a respeito do que ouvia, e terminou a coleta de dados. Para sua surpresa, alguns destes estudantes voltaram espontaneamente para agradecer por toda a ajuda que haviam recebido. Ele achava que não havia dado qualquer ajuda, mas este fato o obrigou a reconhecer que ouvir de maneira interessada e não avaliativa constituía uma força terapêutica poderosa, mesmo quando dirigida a um aspecto restrito da vida e quando não há qualquer intenção de ajudar.
Uma outra maneira de colocar uma parte do que estou tentando dizer talvez seja a seguinte: a compreensão baseada numa alta sintonia por parte de outra pessoa confere ao receptor sua qualidade de pessoa, sua identidade. Laing (1965) afirmou que “o sentido de identidade requer a existência de outra pessoa que nos conheça” (pag. 139). Buber também referiu-se à necessidade de termos nossa

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existência confirmada por outra pessoa. A empatia proporciona esta 0firmaçã0 necessária de que existimos como pessoa individual, valorizada e possuidora de uma identidade.


Vamos examinar um resultado mais específico de uma interação na qual a pessoa se sente compreendida. Ela se percebe comunicando fatos que jamais comunicou, e neste processo descobre um aspecto até então desconhecido de si mesma. Este aspecto pode ser “eu nunca soube que tinha raiva de meu pai” ou “eu nunca percebi que tenho medo do sucesso”. Tais descobertas são inquietantes, mas estimulantes. Perceber um novo aspecto de si mesmo é o primeiro passo para a mudança do auto-conceito. Numa atmosfera compreensiva, o aspecto recém-descoberto é aceito e assimilado a um novo autoconceito. Em minha opinião, este é o alicerce das mudanças de comportamento que podem resultar da psicoterapia. Uma vez modificado o conceito de si mesmo, o comportamento modifica-se no sentido de corresponder ao self que acaba de ser percebido.
Contudo, se acreditarmos que a empatia é eficiente somente na relação entre duas pessoas que denominamos psicoterapia, estaremos redondamente enganados. Até mesmo em sala de aula ela faz uma diferença fundamental. Quando o(a) professor(a) demonstra que compreende o significado, para o aluno, das experiências em sala de aula, a aprendizagem melhora. Em estudos realizados por Aspy e colaboradores, verificou-se que o desempenho de crianças em leitura melhorava significàtivamente quando as professoras demonstravam um alto grau de compreensão, mais do que quando esta compreensão não estava presente. Este resultado foi replicado em muitas salas de aula (Aspy, 1972, Cap. 4; Aspy e Roebuck, 1975). Assim como na psicoterapia o cliente descobre que a empatia provê um clima para a aprendizagem a respeito de si mesmo, o estudante também percebe em sala de aula que se encontra num clima propício a aprendizagem das matérias escolares quando diante de um professor que o compreende.
Até aqui, referi-me às mudanças mais óbvias produzidas pela empatia Gostaria de passar para um aspecto referente à dinâmica da personalidade Farei várias afirmações sucintas para então tentar explicar seu significado e importância.
Quando uma pessoa é compreendida de maneira perceptiva, ela entra em contato mais próximo com uma variedade maior de suas Vivencias. Este fato lhe propicia um referencial mais amplo ao qual recorrer para compreender a si mesma e nortear seu comportamento quando a empatia é adequada e profunda também pode desbloquear um fluxo de vivências e permitir que ele siga seu curso natural.

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O que significam estas afirmações? Creio que se tornarão mais claras diante de um trecho da gravação de uma entrevista realizada com uma cliente nos últimos estágios da terapia. Trata-se de uma passagem que já usei em outras oportunidades, mas que se mostra particularmente adequada no presente contexto.


A Sra. Oak, uma mulher de meiá idade, está explorando alguns dos sentimentos complexos que a têm perturbado:
Cliente: “Sinto que não é culpa “ (Pausa. Chora). “E claró, quero dizer, que não posso verbalizar ainda.” (A seguir, com uma torrente de emoção): “É como estar imensamente magoada!”
Terapeuta: “Mm-hmm. Não é culpa, exceto no sentido de você, de algum modo, estar muito magoada.”
Cliente: (Chorando) “É. Sabe, muitas vezes tenho me Sentido culpada disto, mas nos últimos anos, quando ouço os pais dizerem aos filhos ‘pare de chorar’, eu sinto uma mágoa como se. . . bem, por que eles dizem aos filhos para parar de chorar? Eles têm pena de si mesmos, mas quem melhor para ter pena de si mesmo do que uma criança? Bem, isso é mais ou menos o que quero dizer, como eu penso, acho que deviam deixá-la chegar. E... talvez ter pena dela também. De uma forma mais objetiva. Bem, é... é mais ou menos este tipo de coisa que tenho vivido. Quero dizer... agora, exatamente neste momento. E, em... em...
Terapeuta: “Isto traduz um pouco mais do que você sente, é quase como se estivesse realmente chorando por você mesma.”
Cliente: “É. E outra vez, o senhor percebe, existe conflito. Nossa cultura é de tal natureza que... o que quero dizer é que não costumamos nos entregar à autopiedade. Mas isto não é — ou melhor, eu SINTO que não tem esta conotação. Pode ter.”
Terapeuta: “Você acha que existe um obstáculo social à auto- piedade. E você acha que o que sente também não corresponde totalmente ao que a sociedade desaprova.”
Cliente: “E então está claro que eu cheguei a ver e sentir aquilo em vez disso... olha, eu escondi isto.” (Chora). “Mas eu escondi com tanta amargura, que também tive que esconder isto.” (Chorando): “E disto que eu quero me livrar! Quase não me importa se doer.”
Terapeuta: (Suavemente e com uma ternura empática em relação à mágoa que ela está sentindo). “Você sente que no fundo de tudo isto que você está vivenciando encontra-se um sentimento de verdadeiro pesar por você mesma. Mas que você não pode demonstrar,

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não deve demonstrar; e, então, cobre o que sente com uma amargura que lhe desagrada, da qual você gostaria de se livrar. E quase como se você sentisse que preferiria absorver a mágoa — do que sentir a amargura.” (Pausa.) “E o que você parece estar dizendo com toda força é: eu estou muito magoada, e tentei esconder isto.”


Cliente: “Eu não sabia.”
Terapeuta: “Mm-hmmm. É uma nova descoberta, realmente.”
Cliente: (Falando ao mesmo tempo) “Eu realmente nunca soube. Mas é... sabe, é quase uma coisa física. E. . . como se eu estivesse olhando para dentro de mim mesma para toda espécie de — terminações nervosas e de pedacinhos de coisas que foram meio trituradas.” (Chora.)
Terapeuta: “Como se alguns dos aspectos mais delicados de você, aspectos quase físicos, tivessem sido esmagados ou feridos.”
Cliente: “Sim. E, sabe, fico com a sensação de ‘coitadinha de você’”.
Nesta passagem, fica patente que as respostas empáticas do terapeuta encorajam-na a empreender uma exploração mais ampla da vivência visceral que está se processando em seu interior, bem como a uma maior familiaridade em relação a ela. Ela está aprendendo a ouvir o que chamaríamos de suas “tripas”, usando um termo pouco elegante. O conhecimento que esta cliente tem do fluxo de suas vivências aumentou.
Nesta passagem, percebemos também como este fluxo visceral não verbalizado é usado como referencial. Como é que ela sabe que “culpa” não é o termo adequado para descrever seu sentimento? Voltando-se para dentro, examinando novamente esta realidade, este processo palpável que está ocorrendo, esta vivência. E assim pode testar o termo “mágoa” em relação a este referencial, e considerá-lo mais próximo ao que sente. Somente a frase “coitadinha de você” é que realmente corresponde ao significado interno de auto-compaixão e auto-piedade que está vivenciando. Creio que ela não só usou este aspecto de sua vivência como referencial, como também aprendeu algo sobre este processo, que consiste em conferir o que é dito com seu ser fisiológico total — um aprendizado que poderá pôr em prática em várias ocasiões. E a empatia contribuiu para tornar isto possível.
Neste pedaço de terapia, também podemos analisar o que significa deixar uma vivência seguir o seu curso. Evidentemente, não se trata de um sentimento novo para a cliente. Ela o experimentou muitas vezes anteriormente, embora jamais o tenha vivido totalmente. De alguma forma, ele foi bloqueado. Não tenho dúvidas quanto à

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realidade e à vividez do desbloqueio que vem a seguir, pois muitas vezes participei de sua ocorrência, embora não saiba qual seria melhor maneira de descrevê-lo


Parece-me que este desbloqueio só se completa quando um nível visceral de experiência é totalmente aceito e nomeado corretamente ao nível da consciência. Então, a pessoa pode ir além dele. Novamente é um clima empático que ajuda a cliente a levar a vivência até suas últimas conseqüências que, neste caso, correspondem à vivência desinibida da autopiedade que sente.
Conclusões
Gostaria, neste momento, de fazer um desvio e oferecer uma perspectiva um pouco diferente do significado da empatia. Podemos afirmar que quando uma pessoa se sente compreendida de maneira sensível e correta, ela desenvolve um conjunto de atitudes promotoras de crescimento ou terapêuticas em relação a si mesma. Explico.

1) A característica não avaliativa e aceitadora do clima empático capacita a cliente, como vimos, a assumir uma atitude de estima e interesse por si mesma. 2) Ser ouvida por uma pessoa compreensiva Possibilita-lhe ouvir a si mesma de modo mais correto, com maior empatia em relação às suas vivências viscerais, aos seus significados que percebe apenas vagamente. Mas, 3) a maior autocompreensão e auto-estima mostram-lhe novos aspectos da experiência, que se tornam parte de um self com bases mais precisas. Existe agora uma maior congruência entre o seu self e as suas vivências. Assim, torna- se mais interessada e aceitadora, mais empática e compreensiva, mais real e congruente em suas atitudes em relação a si mesma. Estes três elementos, porém, são exatamente aqueles que tanto a experiência quanto a pesquisa apontam como as atitudes de um terapeuta eficiente. Assim, talvez não estejamos exagerando o quadro geral quando dizemos que o fato de ser empaticamente Compreendido por outra pessoa capacita o indivíduo a se tornar um facilitador mais eficiente de seu crescimento, um terapeuta mais eficiente de si mesmo.


Conseqüentemente, quer estejamos atuando como terapeutas, como facilitadores em grupos de encontro, como pais ou como professores, temos em mãos, se estivermos capacitados a assumir uma postura empática, uma força poderosa na promoção de crescimento e de mudança. É preciso levar esta força em consideração.
Finalmente, quero colocar tudo o que disse num contexto mais amplo. Como me referi apenas ao processo empático, pode parecer que o considero como o único fator importante nas relações que promovem crescimento. Não quero dar esta impressão. Gostaria de colocar

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resumidamente meus pontos de vista quanto à relevância daquilo que considero como os três elementos de atitude que, em sua inter-relação, promovem o crescimento.


Nas interações cotidianas que ocorrem na vida — entre parceiros conjugais e sexuais, entre professor e aluno, entre empregador e empregado ou entre colegas, é provável que a congruência seja o fator mais importante. Ser genuíno significa revelar à outra pessoa “onde estamos” emocionalmente. Pode abranger o confronto e a expressão pessoal e franca de sentimentos negativos e positivos. Portanto, a congruência é um aspecto fundamental da vida em comum num clima de autenticidade.
Mas em outras situações especiais, o interesse ou a estima podem tornar-se o fator mais significativo. Entre elas, estão as relações não verbais — entre pai/mãe e bebê, terapeuta e psicótico que não fala, médico e paciente em estado grave. Sabe-se que o interesse solidário é uma atitude que promove a criatividade __ um clima incentivador no qual podem surgir idéias novas, sutis e exploratórias e processos produtivos.
Além disso, de acordo com minha experiência, há outras situações em que a maneira empática de ser tem prioridade. A compreensão faz-se necessária quando a outra pessoa encontra-se magoada, confusa, perturbada, ansiosa, alienada, aterrorizada; ou quando ele ou ela tem dúvidas quanto ao seu próprio valor, incerteza quanto à sua identidade. A solidariedade suave e sensível decorrente de uma postura empática — desde que acompanhada pelas duas outras atitudes — proporciona esclarecimento e cura. Nestas situações, creio que a compreensão profunda é a dádiva mais preciosa que podemos oferecer ao outro.
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