Uma leitura para o estranho escrivão de melville e seu esgotamento criativo1



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Uma leitura para o estranho escrivão de melville e seu esgotamento criativo1

Marina Pinto de Camargo2



RESUMO:

O presente trabalho tem por objetivo investigar a personagem clássica de Herman Melville, o escrivão Bartleby, à luz de conceitos freudianos. Busca-se um paralelo entre a personagem e autores que param de produzir em um movimento que a autora cunhou como "esgotamento criativo". Para tal, lança-se questões como o recolhimento da libido e o limite e os efeitos da sublimação em um livre exercício de escrita em psicanálise.

Palavras-chave: Narcisismo. Sublimação. Esgotamento criativo. Pulsão de morte. 

1 Introdução

“A glória ou o mérito de certos homens consiste em escrever bem; o de outros em não escrever. ”

Jean de La Bruyére

No cânone da literatura ocidental, e mesmo diante do imenso contingente mundial de leitores, o personagem Bartleby, de Herman Melville, permanece como uma figura de incontornável mistério. A narrativa de Bartleby, o escrevente, publicada originalmente em 1853 vem desafiando há muitos anos intelectuais, teóricos e críticos das mais variadas áreas do conhecimento, como a filosofia, a linguística, a literatura comparada e a psicanálise. A sua leitura, por mais refinada ou especializada, ou por mais simples e parcial, suscitará invariavelmente o disruptivo, o abrupto e o desassossegante – ou seja, o mais típico estranhamento daquilo que nos parece estranho, mas igualmente familiar.

Bartleby é um escrivão, alocado em um cartório, e responde imediatamente a seu chefe, um advogado, que lhe passa demandas variadas para a função que lhe foi designada. Nos primeiros dias de trabalho após a sua contratação, Bartleby demonstra um trabalho impecável e um desempenho exemplar: dedica-se tanto a cumprir seu trabalho de maneira eficaz que não almoça, não interage com seus colegas, não contradiz em nenhum momento as impressões iniciais de seu chefe a respeito de sua promissora, embora preliminar, carreira. A reviravolta da narrativa incide, precisamente, no momento em que Bartleby, ao ser solicitado por seu chefe para responder a uma demanda alguns dias depois, vocaliza um enigmático e ainda não escutado: “Preferiria não.” (Melville, 2014).3 Embora surpreendido pela resposta misteriosa, o chefe de Bartleby suprime a demanda e condescende com a formulação obscura de seu fiel funcionário. Dias se passam e, com eles, novas demandas surgem e se acumulam, pois as tentativas de interlocução com Bartleby recebem, todas, sempre, a mesma resposta: “Preferiria não”. A ineficiência de Bartleby, sua desobediência, sua anomia, sua não-ação, são quase que imediatamente suscitadas ao leitor que, com surpresa cada vez maior, encontra no prosseguimento narrativo uma condescendência igualmente crescente por parte do seu chefe, numa espécie de assentimento total e generalizado desta não-ação.

Muito já foi dito sobre a história misteriosa de Melville e sobre Bartleby, uma de suas personagens mais interessantes. Giorgio Agamben e Gilles Deleuze, entre muitos outros, dedicaram-se longamente ao texto na tentativa de compreender melhor esta enigmática persona criada por Melville. Agamben e Deleuze procuram apresentar uma abordagem filosófica sobre o escrivão, entendendo sua célebre enunciação “Eu preferiria não” como uma fórmula. Para Agamben ela aparece, sempre, como insinuação de seu contrário, onde o nada que anuncia deve ser entendido como aquele vazio, ou hiato, que precede a criação; mas que também deve ser pensado como o que está em potência. “Como escriba que cessou de escrever, ele é a figura extrema do nada de onde procede toda a criação e, ao mesmo tempo, a mais implacável reivindicação deste nada como pura, absoluta potência” (Agamben, 2007, p. 25). Por outro lado, para Deleuze, a fórmula de Bartleby não intriga por ser recusa ou aceitação, mas por estar limitada à sua impossibilidade. “A fórmula é arrasadora porque elimina de forma igualmente impiedosa o preferível como qualquer não-preferido” (Deleuze, 1993, p.94).

É importante ressaltar que o limite da criação e da escrita, prenunciando em certo sentido por Bartleby, também se encontra neste trabalho, de maneira que um aprofundamento filosófico de Bartleby e um exame de tudo aquilo que já foi falado a seu respeito, não é viável neste contexto. Acredito, no entanto, que a obra de Melville possa ser usada para refletirmos e ilustrarmos alguns conceitos freudianos, fazendo assim uma série de conexões a partir da leitura desta novela.

Ao lê-la, diversas questões me foram suscitadas. Como poderíamos entender esta recusa4 ao trabalho e este recolhimento, ou ostracismo, que determinam a vida de Bartleby? Não existiria, também em nós, alguma coisa desta personagem? Algo que nos faz continuar, apesar da recusa?

Dessa forma, eu gostaria de buscar em Freud os subsídios para desdobrar e aprofundar estas questões, sugerindo então a ideia de que podemos compreender este recolhimento de Bartleby como um recolhimento narcísico. A partir disso, a recusa do escrivão em trabalhar ou desempenhar qualquer outra atividade (inclusive comer, Bartleby morre ao final da novela de inanição) suscita muito provavelmente a questão da desfusão pulsional. O labor, enquanto possibilidade sublimatória é afastada pela recusa e, principalmente, pelo recolhimento de Bartleby, não sendo mais a sublimação para ele um destino possível.



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