Um olhar sobre a observaçÃo de crianças pequenas brincando em creche



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Cultura – Prática social como objeto de investigação


Culture – Social practice as object of investigation
Um olhar e um meta-olhar sobre os encontros entre bebês na creche
Cleido Roberto Franchi e Vasconcelos, Departamento de Psicologia, Universidade de São Paulo, Brasil
Neste artigo, a partir da observação de crianças brincando livremente em uma creche universitária e das possíveis interferências feitas pelos adultos nestes episódios de interações, discutiremos o processo de se fazer pesquisa e o papel do pesquisador. Os suportes para essa discussão foram dados pela perspectiva teórico-metodológica da Rede de Significações (Rossetti-Ferreira, Amorim e Vitoria, 1996; Rossetti-Ferreira, Amorim e Silva, 2000) e pela teoria de Maturana (1997a, 1997b) e Maturana e Varela (1995, 1997), conhecida por Biologia do Conhecer e Autopoiese. A análise dos episódios de interação criança-criança propiciaram a revelação (para os pesquisadores) da existência de múltiplas possibilidades de visão e interpretação de uma mesma cena interativa, a depender do ponto de vista dos envolvidos no episódio (em nosso caso específico, as crianças, as educadoras e os pesquisadores). Sob esta perspectiva, o pesquisador deixa de ser alguém que possui um acesso privilegiado a uma verdade única e passa a ser alguém capaz, imbricando método de observação e suporte teórico, de distinguir, sistematizar, analisar e atribuir possíveis interpretações aos episódios de interações de uma maneira conhecida, pela comunidade científica, como método científico. Entendemos que, através de nossa perspectiva teórico-metodológica, os fatos são construídos, situados e significados em contextos sócio-históricos específicos e não podem ser interpretados fora deste contexto. Mas mesmo dentro deste contexto, nós temos possibilidades de múltiplas visões. Este trabalho pretende mostrar que mesmo que o contexto do aqui e agora de determinada situação interativa seja o mesmo, as várias pessoas participantes da situação poderão ter perspectivas diversas.
Observar crianças brincando na creche tornar-se uma experiência rica em possibilidades de interpretações quando, apesar de mantermos nosso foco de interesse nas crianças, ampliamos nosso recorte inicial e incluímos outros sujeitos e elementos do contexto imediato presentes na cena. No cotidiano das relações na creche, de maneira intencional, ou não, os adultos que estão em contato com estas crianças pequenas, tanto podem promover como interromper suas interações. Nas interações adulto-criança, o papel do parceiro mais experiente é bastante norteado pelas concepções vigentes no grupo cultural ao qual este adulto pertence e formam uma rede de significações que significa e é significada pelas pessoas que dela fazem parte.

A rede de significações

A perspectiva da Rede de Significações, em elaboração pelos pesquisadores do CINDEDI (Rossetti-Ferreira, Amorim e Vitoria, 1996; Rossetti-Ferreira, Amorim e Silva, 2000), é uma perspectiva teórico-metodológica que tem como meta a construção de um instrumento que contribua com a organização de dados e com a análise dos processos de desenvolvimento humano. Segundo esta perspectiva, o desenvolvimento humano se dá através de um processo sócio-histórico de significações. Para os pesquisadores que adotam a perspectiva sócio-histórica, o psiquismo da pessoa é construído nas e através das dialéticas interações com os outros parceiros de interação, em situações específicas, dentro de contextos sociais mais amplos, através das quais os signos sócio-culturais vão sendo gradativamente apropriados num contínuo processo de constituição da pessoa (Vygotsky,1984; Wallon, 1986). O desenvolvimento humano é, portanto, uma construção compartilhada, na qual tanto a criança quanto seus parceiros se co-constróem nas interações que estabelecem e o ambiente é então concebido tanto como espaço social de experiência, como enquanto condição/instrumento de desenvolvimento (Oliveira e Rossetti-Ferreira, 1993).


Segundo Rossetti-Ferreira e cols. (1996), um conjunto de fatores físicos, sociais, ideológicos e simbólicos influenciam, a cada instante, todo fazer humano e este conjunto deve ser interpretado como uma rede de significações.
Essa rede constitui um meio, o qual a cada momento e em cada situação captura/recorta o fluxo de comportamentos do sujeito, tornando-os significativos naquele contexto. Por outro lado, cada sujeito, ao agir, está também recortando e interpretando de forma pessoal o contexto, o fluxo de eventos e os comportamentos de seus interlocutores, a partir de sua própria rede de significações (idem, p. 138)... Esta rede/malha de significações está inscrita no sujeito, construída que é através de suas experiências anteriores, podendo estar inscrita no corpo, no gesto, na forma de sentir e agir (ibidem, p.142).
Assim, as relações sociais são continuamente co-construídas a partir de interações, de ações partilhadas e interdependentes que são estabelecidas entre as pessoas (Rossetti-Ferreira, Amorim e Silva, 2000).
Neste presente trabalho, o processo de se fazer pesquisa (o observado entrelaçado à nossa base teórica) revelou a possibilidade de existência de múltiplos pontos de vistas como, por exemplo, o ponto de vista do pesquisador, de cada uma das educadoras e o das próprias crianças. O suporte teórico dado pelos trabalhos de Maturana e Varela mostrou-nos que, mais do que a existência de múltiplos pontos de vista, estes são igualmente válidos já que é impossível para cada um dos envolvidos na construção destes pontos de vista ter um acesso privilegiado a uma realidade objetiva que exista independente de nós.


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