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Nietzsche e o martelo: crítica aos ideais cristãos
Eu acreditaria somente num Deus que soubesse dançar (Nietzsche).
Nietzsche é um crítico apaixonado pelo contradizer e pela negação1. A filosofia, no seu entendimento, não é vocacionada a construir altares, fazer discípulos ou crentes, mas a destruir ídolos2. O filósofo, diz Nietzsche, para merecer o título, deve tornar-se “a má consciência do seu tempo” (NIETZSCHE, 2002, p.134). Com essa postura filosófica processa sua crítica, sobretudo, à metafísica, à moral e à religião. Mesmo não sendo um pensador sistemático3, antes um perspectivista e experimentalista no estilo aforístico, talvez se poderia pensar alguma forma de unidade de sua complexa e multiforme obra em torno das críticas daquilo que constitui as bases da civilização ocidental nas referidas dimensões. Se assim for, que haja uma possível unidade através da crítica, então, seja qual for a entrada em sua obra, estaremos sempre defrontados com as várias pontas de seu pensamento. A metafísica remete à moral e à religião. A religião remete à metafísica e à moral. A moral remete à metafísica e à religião. A entrada que nos propomos perseguir é a crítica à religião, sobretudo à religião cristã e o ideal ascético defendido pelos seus sacerdotes. Crítica essa que, no nosso entendimento, não está de todo ultrapassada. Mas não pretendemos fazê-la em abstrato, isto é, separada, abstraída do todo. Por isso, num primeiro momento, faremos uma revisitação às outras críticas, que de alguma forma preparam a crítica ao cristianismo, iniciando por aquilo que pode ser o fundo interpretativo de toda sua obra e, a rigor, de tudo o que pretende ser filosofia, a metafísica.
1 O martelo na metafísica

O martelo pode evocar duas coisas, demolição-construção ou diagnóstico, dependendo em que mão está, se do pedreiro ou do médico. No caso de Nietzsche o uso parece ser duplo. E de modo sintonizado. Numa mão o martelo, através do toque médico-psicólogo, para diagnosticar a doença. Noutra, a mão erguida, pronta para investir contra os seus causadores, contudo, não sem uma reposição positiva de re-construção4. O foco da doença se chama metafísica. O vírus causador atende pelo nome de Sócrates e Platão, pelo menos na sua origem. Ambos disseminaram a doença por querer em tudo, pela arte da dialética, ficar com o verdadeiro, com o ser, com a idéia contra os sentidos, contra a história, contra o devir, contra o corpo, o instinto, contra a vida5. A divisão do mundo em real por um lado e aparente por outro, própria da razão socrática anti-instintiva e anti-dionisíaca6, vai se firmar em Platão, através do refúgio ao ideal, tornar-se religião e moral através do cristianismo e perpassar a metafísica da modernidade inaugurada por Descartes e se instalar em Kant. Em todos a questão é sempre a mesma: contraposição entre inteligível e sensível, razão e sentidos, espírito e corpo, noumenon e fenômeno. E, naturalmente, privilegiando o primeiro termo às expensas do segundo. A metafísica do ser e o desprezo pelo devir remonta à tese “o ser é, o não ser não é” de Parmênides. O único caminho seguro de investigação será então, para Parmênides, o do racional onto-lógico contraposto ao caminho dos sentidos, fonte de erros. Heráclito reabilita o ser como movimento, multiplicidade, luta de opostos e devir constante. Neste sentido, Nietzsche será um discípulo de Heráclito e inimigo declarado da imutabilidade, eternidade, unidade e identidade do ser parmenídico.

Mas o alvo da crítica de Nietzsche à metafísica encontra-se em Sócrates e Platão. Estes são responsáveis pela criação do mundo fictício do supra-sensível, tornado verdade, bom, belo, coisa em si. A pergunta pelo “o quê” (da coragem, da justiça, das virtudes em geral), sempre formulada por Sócrates aos seus interlocutores, remete a uma essência imutável do ser que a razão deve buscar. Em Platão a essência imutável do ser será alcançada somente se houver um desvio do olhar, uma conversão do olhar do sensível para o supra-sensível, lugar das verdades eternas, do bom, do belo e verdadeiro. O ideal do filósofo será então aquele que se afasta do mundo sensível, imagem embaçada do verdadeiro ser, e contempla teoreticamente as “verdades eternas”, as puras essências em-si, universais e necessárias. O mundo supra-sensível, causa explicativa do mundo sensível, lugar do verdadeiro conhecer, vai ser também o fundamento último de todos os valores. Bem será, então, o que se vincular com a arquitetônica do racional, mal será o que se vincular com mundo do devir dos sentidos. Essa postura leva, ao fim e ao cabo, a um desprezo à vida. Desprezo que faz Sócrates desejar morrer para se livrar do cárcere que é o corpo. A vida acaba sendo concebida como uma grande enfermidade. Não é por nada que as últimas palavras de Sócrates tenham sido uma recordação disso: “- Criton, devemos um galo a Asclépio, não te esqueça de pagar essa dívida”7.

A estrutura metafísica dualista da concepção filosófica grega, máxime de Platão, instala-se no cristianismo que, para Nietzsche, nada mais é do que um “platonismo para o povo”. No cristianismo platonizado Deus vai ser a personificação do supra-sensível. O paradigma do ser verdadeiro, bom e belo da esfera supra-sensível platônica, lugar do em-si, em oposição ao ser aparente da esfera sensível, será assumido integralmente pelo cristianismo que atribui a Deus o que era característica das idéias platônicas. Deus será agora o verdadeiro ser e tudo o que a ele for aliado será eticamente bom. É do casamento entre platonismo e cristianismo que se constitui e fundamenta, segundo Nietzsche, a cultura ocidental.

Para Nietzsche, essa estrutura metafísica sob a qual se fundamenta a cultura ocidental cristã, tanto do ponto de vista do conhecimento quanto da moral, desmoronou com a morte de Deus. Dito de outra forma, a morte de Deus é uma expressão simbólica do desaparecimento dessa estrutura baseada na oposição entre realidade e aparência, verdade e falsidade, bem e mal, em cima e embaixo. Mais direto ainda, a morte de Deus é a morte da metafísica, pois Deus é o lugar onde a metafísica sempre se instalou8. A síntese da postura de Nietzsche nesse particular encontra-se no aforismo 125 de A Gaia Ciência, intitulado, o homem louco. Conhecemos o dito Deus está morto, mas raramente conhecemos o seu contexto, por isso transcrevo o aforismo na íntegra:





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