Um marido contratado Hired husband



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Um marido contratado

Hired husband

Rebecca Brandewyne

Família Fortune 1

Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!

Nicolai Valkov é o tipo de homem que qualquer mulher inteligente não quer por perto. Seus perturbadores olhos negros desvendam qualquer segredo, por mais escondido que esteja. Mas, por força das circunstâncias, a esnobe Caroline Fortune é obrigada a se casar com Nicolai. Afinal, o destino da família Fortune dependia totalmente dele e também de sua mente brilhante. Apesar disso, a educação refinada de Caroline não a preparou para saber lidar com um marido tão intenso. E nem ambos estavam prontos para os desafios que seu casamento teria de enfrentar.

Eu sou Kate Fortune — matriarca da Família Fortune.

Meu saudoso marido Ben e eu começamos do nada e fundamos o império da Cosméticos Fortune, hoje uma das maiores referências do mundo em produtos de beleza. Mas fama e fortuna não são tudo. Minha família vem sempre em primeiro lugar. A felicidade de meus filhos e netos é o mais importante para mim. Faço qualquer coisa que for necessária, até mesmo dou um empurrãzinho, para assegurar que todos estejam sempre com os dois pés bem presos no chão. Por isso nada — nem ninguém — me impedirá de fazer aquilo que eu achar ser o melhor para todos...

Liz Jones

A Colunista N° 1 das Celebridades

Kate Fortune, presidente da Cosméticos Fortune, viajava a negócios quando seu avião sofreu uma pane e caiu. A família Fortune se recusa a fazer declarações, mas há rumores de que Kate esteja desaparecida... e, possivelmente, morta!

A fabulosa família Fortune tem sido vítima dos mais terríveis boatos nos últimos dias. E um deles é de que não houve acidente. Na semana passada, um empregado de alta confiança da Cosméticos Fortune foi ameaçado de deportação. Em seguida, houve uma explosão suspeita no laboratório da empresa.

Estaria alguém tentando arruinar a família Fortune? Será que eles sobreviverão aos escândalos que os têm ameaçado ultimamente? Eu soube de fontes seguras que os Fortune estão preocupados com a segurança de suas vidas.

Prólogo

Washington, D.C.



? Bem, Duckie ? dizia a voz baixa e rouca, ao telefone. ? Eu sei que, com todos os seus contatos, você deve ter algum amigo no Serviço de Imigração. E, realmente, o que estou pedindo é um favor tão pequeno que não envolve nenhum risco para você ou para qualquer pessoa na Imigração. Afinal, quem poderia se importar se um russo tivesse seu visto de permanência revogado? Você pode dizer que recebeu a dica de um informante anônimo que o levou a acreditar que o Dr. Nicolai Valkov é um antigo agente da KGB ou está ligado com a Máfia russa ou algo assim. Qualquer coisa. Desde que ele seja visto como um estrangeiro indesejável e seja deportado. O Serviço de Imigração não vai questionar... a palavra de um dos senadores mais poderosos do Capitólio, Duckie. Então, eu acho que você pode fazer isso... que pode se livrar de Nick Valkov por mim. E, é claro, não preciso dizer que eu ficaria muito... grata a você. Tão grata, na verdade, que até faria uma viagem especial a Washington só para vê-lo, Duckie. Teremos nossa própria comemoração particular, somente nós dois. Vou levar champanhe... e aquele conjuntinho de lingerie preto que você gosta tanto...

Enquanto se recostava na cadeira de couro da Borgonha diante da mesa antiga de carvalho maciço, o senador Donald Devane fechou os olhos com as imagens evocadas pela voz rouca do outro lado da linha. Sua respiração era áspera e difícil. O coração martelava de excitação e a virilha se apertava de uma maneira insuportável quando ele lembrava da última "comemoração" ? e da roupa preta. A palma de sua mão suava em profusão enquanto ele fazia uma longa tentativa de limpar a garganta, engasgado pela expectativa e pela excitação. Finalmente, ele conseguiu falar.

? Eu... sim, de fato tenho alguns amigos no Serviço de Imigração. Não vejo por que não poderia fazer uns arranjos. Uma conversa casual aqui ou ali. Não, não deve haver problema algum. Considere Nick Valkov num avião de volta para a Rússia neste exato momento.

? Ah, Duckie, eu sabia que minha confiança em você não era à toa. Me ligue assim que você tiver tudo combinado com o Serviço de Imigração, e eu estarei no próximo avião para Washington, prometo. Até lá, mantenha meu lado da cama aquecido e tenha doces sonhos comigo... como eu terei com você. Nos vemos em breve, Duckie. ? Um riso suave, sedutor, ecoava do telefone antes que a ligação caísse, deixando um sinal de ocupado no ouvido do senador.

Depois de retomar o controle da respiração e dos batimentos cardíacos, Donald Devane apertou um dos botões do telefone, mandando que a secretária o ligasse com o escritório do Serviço de Imigração e Naturalização (SIN).

Alguns minutos depois, um computador do SIN iniciava o processo que revogaria o visto de permanência de um certo Dr. Nicolai Valkov, atual diretor de pesquisa e desenvolvimento da Cosméticos Fortune ? e, por isso mesmo, sem que ele soubesse, uma pedra no sapato de alguém.

Capítulo 1

Mineápolis, Minnesota

Ao entrar com seu Volvo azul-escuro no estacionamento subterrâneo da torre de aço e vidro onde se situava a sede global da Cosméticos Fortune, Caroline Fortune deu uma olhada ansiosa em seu relógio de pulso Piaget. Um acidente na estrada coberta de neve fizera com que o trânsito naquele horário se transformasse em um pesadelo aquela manhã. Por isso, ela poderia se atrasar para a reunião das nove da manhã ? e se havia algo que sua avó, Kate Winfield Fortune, não podia suportar era um comportamento indolente e não-profissional no trabalho.

E um atraso era sinal de uma agenda desleixada e desorganizada.

Involuntariamente, Caroline estremeceu ao pensar na fúria de sua avó despejada sobre ela. Sabia que a repreensão seria dura e contundente, e que a avó a faria com as sobrancelhas erguidas e no tom de arrogante e fria soberba com que no passado havia reduzido muitos executivos da Cosméticos Fortune ? mesmo os do sexo masculino ? não apenas a um humilde pedido de desculpas, mas até mesmo a lágrimas. Caroline já tinha visto isso mais de uma vez, embora, para sua gratidão e alívio, ela raramente fosse alvo da raiva de sua avó.

E tampouco seria naquela manhã, se pudesse evitar. Seria uma forma desastrosa de iniciar o Ano Novo.

Agarrando a bolsa Louis Vuitton e a pasta de couro preto no banco do carona, Caroline saiu com leveza e graça do Volvo, batendo a porta. Os saltos de seus sapatos Maud Frizon batiam rápido no chão de concreto enquanto ela corria ao hall de elevadores que a conduziriam pelo arranha-céu de propriedade de sua família. Apertou o botão, contendo um resmungo à medida que os minutos passavam até que soou uma campainha e as portas do elevador se abriram.

Ao chegar, correu pelos corredores longos e acarpetados, mais silenciosos que o normal, em direção à sala onde seria a reunião.

Caroline tinha sua pasta aberta e folheava apressadamente o conteúdo, revisando as notas que havia preparado para sua apresentação. Por isso, ela não viu o Dr. Nicolai Valkov, literalmente correndo de encontro a ele. Da mesma forma que ela, ele tinha a cabeça inclinada e olhava sua própria pasta, sem perceber para onde estava indo; quando os dois colidiram, tanto as pastas quanto os papéis em seu interior voaram.

Com o impacto, Caroline perdeu o equilíbrio, tropeçou, e teria caído se as mãos fortes e confiantes de Nick não a tivessem agarrado até que ela estivesse firme e de pé. Ela arquejou, num sobressalto, ao se deparar com o peito largo, a cintura magra e as coxas retesadas, seu rosto a apenas alguns centímetros de distância do dele, como se fossem amantes prontos a se beijar.

Caroline nunca estivera tão perto de Nick Valkov, e estava totalmente consciente dele, não como o companheiro de trabalho da Cosméticos Fortune, mas também como homem. Consciente de como ele era alto, atraente e bonito, vestindo um terno preto elegante, de risca de giz, cortado à moda européia, uma camisa branca impecável, uma echarpe no pescoço e um par de mocassins Cole Haan. De como seu cabelo grosso e brilhante era escuro, como seus olhos eram emoldurados por sobrancelhas tão escuras que eram quase negras, apesar das luzes fluorescentes que brilhavam forte no teto. Da brancura de seus dentes bem-feitos contra a pele bronzeada à medida que um sorriso aberto e debochado lentamente se formava em sua boca larga e sensual.

? Na verdade, eu estava desejando um pão doce esta manhã, mas... mas ouso dizer que você teria um sabor ainda mais agradável, senhorita Fortune ? Nick falava arrastado, impertinente, com uma voz baixa, sedosa, de leve sotaque, já que o russo, e não o inglês, era sua língua materna.

Caroline ruborizou de constrangimento e irritação. Se havia uma pessoa que ela sempre tentava evitar na Cosméticos Fortune, era Nick Valkov.

Após a divisão da União Soviética, ele havia emigrado para os Estados Unidos, onde a avó de Caroline o havia contratado para dirigir o departamento de pesquisa e desenvolvimento da empresa. Desde então, Nick vinha demonstrando suas tendências do Velho Mundo, que a levavam a acreditar que ele não somente ignorava direitos iguais, mas teria prazer em voltar o relógio vários séculos no que se referia às mulheres. Ela achou o comentário dele típico de sua atitude com as mulheres: insolente, arrogante e dominador. O homem era simplesmente insuportável! Caroline não conseguia imaginar o que havia levado sua avó a contratá-lo ? e com um salário bastante generoso ? a não ser por Nick Valkov ser considerado um dos principais químicos em qualquer parte do planeta. No fundo, Caroline sabia que, não importa como ele se comportasse, a Cosméticos Fortune tinha uma sorte tremenda em tê-lo como funcionário. Ainda assim, aquilo não lhe dava o direito de insultá-la!

? Asseguro que me acharia mais amarga do que uma xícara de café preto muito forte, Dr. Valkov ? ela insistiu, tentando, sem sucesso, livrar seu corpo, que tremia, da pegada firme do rapaz, que continuava a segurá-la tão perto que ela podia sentir o coração dele bater forte no peito e sabia que ele devia estar igualmente sentindo o martelar imprevisível do coração dela.

? Prefiro apostar que tem mais açúcar e creme do que imagina, senhorita Fortune ? para seu total constrangimento, ela sentiu uma das mãos de Nick deslizar insidiosamente por suas costas e pela nuca até a massa opulenta de seu cabelo negro, arrumada num coque estiloso. ? Você conhece tanto sobre moda ? ele murmurou, olhando para ela, atento e determinado, ignorando sua indignação e esforços para escapar dele. ? Então, por que sempre usa seu cabelo assim... tão apertado e sério? Eu nunca o vi solto. É a maneira como se deve usá-lo, você sabe... suave, solto em volta do seu rosto. Do jeito que está, seu cabelo está pedindo que um homem tire os grampos para ver o quanto é longo. Ele vai abaixo dos ombros? ? Ele ergueu uma sobrancelha, inquisitivo, com um sorriso debochado ainda nos lábios, para que ela soubesse que ele curtia seu visível desconforto. ? Você não vai me contar, vai? Porque aposto que é bem longo... e gostaria de saber se estou certo. E estes óculos ? ele apontou para a armação grande e quadrada, de tartaruga, repousando em seu nariz fino e clássico. ? Acho que você os usa mais para se esconder do que para enxergar. Aposto que você nem precisa deles.

Caroline sentiu o rubor que lhe coloria o rosto e um calor que parecia se espalhar por todo o seu corpo. Dane-se esse homem! Por que tinha que enfurecê-la tanto com sua audácia? Porque o que Nick suspeitava era verdade: seu cabelo realmente vinha abaixo dos ombros e o grau de suas lentes era mesmo tão pequeno que dispensava seu uso. Ela usava o coque e os óculos apenas porque sentia que eles lhe davam uma aparência mais executiva, a imagem séria que ela cultivava com determinação para esconder seu interior romântico, vulnerável, do resto do mundo... especialmente dos homens.

? Dr. Valkov ? disse Caroline, fria, forçando-se a controlar-se e a se recompor ? não somente eu não estou nem remotamente interessada no que você pensa, como nenhum de nós tem tempo para ficar aqui conversando... a não ser que você queira levar uma bronca de minha avó. Eu, no entanto, não quero. Por isso, agradeço-lhe se me soltar para que eu possa pelo menos chegar a tempo para nossa reunião das nove horas. Temos menos de cinco minutos.

? A reunião ? Nick começou a falar, ao lembrar-se. ? Acredita que me fez esquecer completamente, senhorita Fortune? ? Ele a soltou, ajoelhando-se para ajudá-la a catar e guardar os papéis que haviam se espalhado das duas pastas.

Quando conseguiram arrumar tudo, entraram juntos na sala de reunião, onde Caroline ficou sem graça ao observar que ela e Nick eram os últimos a chegar. Sua avó estava sentada à cabeceira da enorme mesa de reunião em mogno de Honduras. Ao lado dela estava o pai de Caroline, Jacob Fortune, filho mais velho de Kate e presidente da Cosméticos Fortune, e Sterling Foster, advogado e melhor amigo de Kate. Esparramado de lado em uma cadeira e parecendo que se recuperava de uma tremenda ressaca estava o primo playboy de Caroline, Kyle, com o paletó pendurado na cadeira, o colarinho e gravata afrouxados, apesar de ainda ser tão cedo.

Aos setenta anos, Kate Winfield Fortune não tinha nada de velha ou decrépita. O rosto era marcante, quase sem rugas, devido a uma excelente estrutura óssea e aos melhores cosméticos que o dinheiro podia comprar. Como de costume, seu cabelo encorpado, de cor vinho, com alguns fios grisalhos, estava arrumado ao estilo da mulher ideal do início do século XX, acentuando seus maxilares altos e a pele macia e sem manchas que a própria Caroline havia herdado.

Embora Kate fosse magra e baixa, sua personalidade determinada e dinâmica fazia com que dominasse tudo à volta. Seus olhos azuis, brilhantes e ávidos era uma prova de que sua vivacidade e energia eram de uma mulher com metade de sua idade e que sua mente ainda era afiada como uma navalha. Ninguém passava Kate Winfield Fortune para trás.

Ela era a CEO de todo o complexo Fortune, o que incluía não somente a Cosméticos Fortune, uma empresa que ela mesma fundara anos atrás, mas também uma companhia mundial de construção e desenvolvimento, e a participação em negócios de petróleo e fazendas. Caroline amava sua avó mais do que qualquer um em toda a família Fortune. Queria ser exatamente igual a ela.

Mas no fundo do coração, Caroline sabia que infelizmente não tinha a vivacidade, o espírito e o astral da avó, seu entusiasmo pela vida e busca de aventura. Se Caroline alguma vez possuíra aqueles atributos, eles haviam sido aniquilados alguns anos atrás por um noivado desastroso.

Ela era tão jovem e tão apaixonada por Paul Andersen, seu colega na Cosméticos Fortune. Ficou arrasada quando, por um truque cruel do destino, compreendeu que não era a ela que Paul amava, mas sua parte na riqueza da família.

Desde então, ferida e amargurada, Caroline resolvera se afastar dos homens, concentrando-se na carreira e tentando seguir o exemplo da avó em perspicácia, ambição e jeito para moda. Com inteligência, conhecimento prático, dedicação e pura determinação, Caroline havia ascendido na empresa até se tornar diretora de marketing da Cosméticos Fortune.

Sabia que era boa em seu trabalho, que havia merecido o cargo. Porque sua avó não acreditava em dar nada de bandeja a ninguém, nem mesmo à família.

? Bom dia para todos. ? Caroline rapidamente tirou as luvas caras de couro e o elegante casaco de lã de camelo, deixando-o de lado, tentando acalmar a batida violenta de seu coração, o tremor agitado de seu corpo, enquanto os olhos escuros de Nick a admiravam de cima a baixo. ? Espero que não estejam esperando há muito tempo. A neve provocou um acidente na estrada hoje de manhã, o que parou o trânsito, senão eu teria chegado mais cedo.

? Sem contar que a senhorita Fortune e eu tivemos uma pequena colisão no corredor ? Nick tinha uma expressão de ironia no canto dos lábios ao examinar Caroline, e balançou a cabeça, imperceptivelmente, para que ela soubesse que ele censurava não somente o cabelo e os óculos dela, mas também o terno Chanel de corte clássico e a blusa de seda creme.

Ela tinha a horrível e desconcertante impressão de que ele mentalmente a despia, de que sabia exatamente como ela era nua; para esconder o rubor que sentiu lhe subir pelo corpo mais uma vez, ela se curvou sobre a pasta que abrira sobre a mesa. Foi tomada por um desejo enorme de dar um tapa na cara de Nick, tirar-lhe aquele sorriso sarcástico do rosto.

Qual seria o problema com ela naquela manhã? Em geral ela era tranqüila, controlada e competente. Não era comum que ficasse perturbada e irritada, especialmente por um homem. A terrível confusão do trânsito devia ter mexido com ela mais do que suspeitava. Era melhor que se controlasse depressa, senão sua apresentação de marketing seria prejudicada, em especial agora que Kyle parecia ter caído no sono em sua cadeira.

Ao vê-lo, Caroline amaldiçoou em silêncio o impulso generoso que a fizera promovê-lo, meses antes, a seu assistente. Mesmo sendo um de seus primos favoritos, ele era exatamente como qualquer homem que ela havia conhecido: um completo inútil, ela reconhecia agora.

? Bem, apesar de todos os contratempos, ainda estamos dentro do horário. Então, já que estamos todos reunidos, podemos começar? ? perguntou Kate depressa. ? Kyle. Kyle! Você se importa de acordar e se juntar a nós? ? Franzindo as sobrancelhas, ela olhou fixo para o neto irresponsável quando ele foi chamado à atenção por um discreto tapa nas costas, de Sterling Foster. ? De certa forma, Kyle, não acho que você esteja apto para a Cosméticos Fortune ? Kate observou, seca, assim que ele despertou. ? Acredito que você deva estar em algum lugar onde seja forçado a acordar de madrugada, respirar muito ar puro e trabalhar tão duro o dia inteiro que fique cansado demais para a vida noturna... Mais ainda do que a vida desregrada que parece deixá-lo em tão mau estado esses dias.

? Céus, vovó. Não consigo pensar em nada menos atraente do que nascer do sol e ar fresco. ? Bocejando e levantando-se, Kyle caminhou despreocupado até a mesinha ao longo da parede do corredor, onde se serviu de uma xícara de café preto da cafeteira automática ao lado da jarra de cristal Bacará com suco de laranja recém-espremido e uma bandeja de prata de lei com uma variedade de frutas e pães. ? Além do mais, trabalhei até tarde ontem à noite.

Kate suspirou, sem acreditar nas palavras do neto, mas preferiu não prolongar o assunto. Em vez disso, apontou, com autoridade:

? Nick, por que não começamos por você? Como está progredindo minha fórmula secreta de juventude?

? Muito bem ? Nick levantou-se, confiante, caminhando em volta da mesa de reunião até o equipamento para a apresentação em vídeo, no qual inseriu um disquete. Depois de alguns momentos, o enorme monitor foi preenchido por um diagrama complexo e equações químicas que Caroline não conseguia entender. Com uma caneta com ponta de laser, Nick começou a explicar: ? Todos vocês sabem, pelas reuniões anteriores, dos passos que já demos até agora. Hoje, tenho o prazer de relatar que, depois de anos de pesquisa, a fórmula secreta está quase completa. Esta é a matriz da fórmula. Quando combinada à epiderme, isto é o que acontece, de acordo com nossos testes.

Um clique no mouse pôs a grande tela em movimento. Em seguida, um vídeo de trinta minutos detalhou em termos simples o efeito da fórmula sobre a pele. A demonstração detalhada terminou com uma remontagem da matriz original.

? Agora ? prosseguiu Nick -, vocês perceberão que a matriz não está completamente formada. A quebra que vêem nesta cadeia molecular ? ele acendeu a ponta de laser sobre o monitor ? é o que eu chamo de ingrediente X, que significa que temos certeza de que precisamos de um último elemento para terminar a fórmula. Não sabemos ainda que elemento é esse, embora nos últimos meses tenhamos conseguido limitar consideravelmente a gama de possibilidades. Meu palpite é que em pouco tempo conseguiremos isolar e identificar o ingrediente X, e nesse momento a fórmula estará pronta para o mercado. Alguma pergunta?

? Então, o que você está dizendo ? Jacob Fortune, conhecido por todos como Jake, falou ? é que a fórmula secreta utiliza propriedades semelhantes às encontradas em retino-A e ácido salicílico, bem como alfa-hidróxidos e ácido glicólico? Mas que a fórmula da Cosméticos Fortune vai além desses produtos... e irá, realmente, revolucionar o mercado de cosméticos? Que será semelhante a uma camada de pele química, o que levava antigamente os consumidores a um cirurgião plástico ou a um dermatologista. A diferença agora é que eles serão capazes de fazer tudo isso sozinhos, com segurança e a um custo relativamente baixo, na privacidade de seus próprios lares? E ainda que os efeitos da fórmula da Cosméticos Fortune serão cumulativos? Ou seja, quanto mais a fórmula for usada, melhor se provarão os benefícios?

? Exatamente ? Nick concordou, com os olhos escuros cintilando de excitação. ? Com o uso adequado e regular, a fórmula da Cosméticos Fortune restaurará, em questão de meses, até mesmo a pele mais deteriorada em textura, elasticidade etc, que se exibe no final da adolescência até uns vinte e poucos anos... sem acne, é claro. ? A observação causou uma rodada de risos satisfeitos. ? Além disso, uma vez que o consumidor atinja um estágio de juventude, o uso consistente do produto algumas vezes por semana manterá a pele naquele nível... o que significa, é claro, que a maioria dos consumidores se tornarão regulares.

? Uma vez que a fórmula é essencialmente uma camada de pele química, exigirá aprovação da FDA. No entanto, todos os testes nos levaram a acreditar que não haverá problema. Como vocês sabem, trabalhamos junto ao FDA o tempo todo, tanto para garantir a conformidade com todas as regras e regulamentos quanto para mantê-los informados sobre os resultados dos nossos testes. Sterling pode dar esclarecimentos sobre todas essas questões legais. Sem dúvida, nos serão concedidas várias patentes, e a tendência será frear nossos competidores por um bom tempo. Espero que, como resultado, nossa parcela no mercado cresça substancialmente. ? Nick deu um sorriso largo e malicioso, fazendo com que a expressão no rosto de Caroline se tornasse carrancuda enquanto o observava.

Não parecia correto que um homem fosse tão atraente, ela pensou, especialmente quando aquela beleza era acompanhada por uma inteligência inegável e uma atitude imperiosa. O homem era brilhante; ela tinha que dar-lhe crédito por isso.

Abrindo a pasta, Nick retirou vários relatórios idênticos, que foi distribuindo pela mesa de reuniões enquanto falava:

? Preparei, é claro, resumos completos de minha apresentação para todos vocês.

? Excelente ? Kate declarou sua aprovação com entusiasmo. ? Você fez um trabalho excepcional, Nick! Estou bastante confiante de que você vai descobrir em breve o ingrediente X que está faltando. Sei que falo por todos nós da Cosméticos Fortune quando digo o quanto aprecio profundamente sua dedicação e todas as contribuições que você fez à empresa desde que se juntou a nós. Continue fazendo um bom trabalho! E mantenha-me informada sobre seus progressos, está bem? Agora, falando sobre nossa parcela no mercado... Caroline, sua campanha publicitária está pronta para o lançamento de nossa fórmula?

? Sim, vovó, está sim. ? Ajeitando a camisa, Caroline levantou-se para se aproximar do equipamento de apresentação em vídeo enquanto Nick pressionava o botão no drive para liberar seu disquete, que enfiou na pasta. Passou, então pela mesa do corredor.

? Ah... pães doces! ? exclamou, examinando Caroline com os olhos quase fechados.

Para sua irritação, ela sentiu novamente que a fúria a fazia enrubescer, tal como havia acontecido antes, no corredor. Seus dedos tornaram-se de repente tão desajeitados que ela deixou cair no chão o disquete que estava tentando inserir. Quando inclinou-se para recuperá-lo, derrubou acidentalmente a pasta da mesa de reunião, mandando os papéis pelos ares mais uma vez. Murmurando um palavrão, ela lançou a Nick um olhar mortal, fazendo com que ele abrisse um largo sorriso.

? Deixe que eu ajudo, senhorita Fortune ? ele ajoelhou a seu lado para catar os papéis caídos. Entre os dentes, ele agora agarrava um dos pães doces da bandeja de prata de lei na mesa do corredor.

Era tudo o que Caroline podia fazer para evitar enfiar o pão doce pela garganta dele. Percebeu, constrangida, a presença da avó, do pai, do primo e de Sterling observando a ela e a Nick com curiosidade, claramente perguntando-se o que havia entre aqueles dois.

Embora a Cosméticos Fortune não tivesse uma política contrária ao envolvimento entre funcionários, Caroline não podia deixar de se lembrar do que acontecera com Paul Andersen e de como sua avó e seu pai ficaram decepcionados com seu julgamento. Seu erro com Paul fizera com que, meses depois, eles fossem mais cuidadosos com o que ela fazia, checando minuciosamente as decisões que ela tomava no trabalho.

Mesmo agora, será que, sentados ali, eles saberiam ? como souberam sobre Paul ? que Nick Valkov era outro caça-dotes ou inadequado por qualquer outra razão? Será que estariam mesmo agora questionando de novo seu julgamento?

O pensamento enfureceu Caroline, lembrando-lhe por que sempre havia evitado Nick... e qualquer outro homem na Cosméticos Fortune.

De uma ponta da mesa, ela olhava furiosa para Nick. Em resposta, ele partiu o pão doce, oferecendo a ela, enquanto saboreava seu próprio pedaço com prazer. Mesmo sem querer, ela sentia seus olhos voltados para a boca sensual dele, a língua que lambia o glacê grudado em seus dedos longos e elegantes. Uma imagem súbita de Nick, fazendo-lhe coisas selvagens e sensuais com aqueles lábios e língua, veio-lhe espontaneamente à cabeça, constrangendo-a e fazendo sua pulsação disparar.

Com um balançar brusco de cabeça, em negativa pelo pão oferecido, ela abaixou-se sobre os papéis espalhados, sentindo seu rubor aprofundar-se e espalhar-se pelo rosto, abalada pela suspeita irritante de que Nick houvesse, de algum modo, visto a imagem mental que ela tivera dos dois juntos.

Por baixo dos cílios longos e grossos, ela deu uma olhada discreta para ele. Nick não sorria mais, o que devia tê-la aliviado, não fosse pelo fato de que seus olhos escuros brilhavam especulativos enquanto ele a encarava como se nunca houvesse realmente olhado para ela e, de repente, tivesse visto algo que lhe despertara grande interesse.

? Seus papéis, senhorita Fortune ? disse Nick, suavemente, entregando-os a ela. Uma mão magra e forte se estendeu, segurando-lhe o braço. Sobressaltada e aflita pelo contato físico entre eles, Caroline apenas esquivou-se quando ele tentou auxiliá-la a levantar.

? Obrigado, Dr. Valkov ? respondeu, o mais friamente que pôde, amaldiçoando o fato de sua mão tremer enquanto ela enfiava o disquete no drive. Limpou a garganta, nervosa. Determinada a ignorar Nick, iniciou sua apresentação. ? Como todos sabem, já consideramos vários nomes para a fórmula. Com base na campanha de marketing que meu departamento desenvolveu, no entanto, este é o nome que sugerimos que vocês aprovem.

Um clique no mouse trouxe sua apresentação ao monitor e, sobrepondo-se ao logotipo da Cosméticos Fortune, as palavras Rosto Fabuloso brilharam na tela.

Instantes depois, o vídeo começou a rodar, explicando o conceito da campanha de marketing e depois concentrando-se na propaganda pela mídia impressa e pela televisão. O comercial de TV proposto começava com um dose da irmã de Caroline, Allison, top model da Cosméticos Fortune, enquanto uma voz baixa e sedutora perguntava: "Qual o seu segredo?"

Seguia-se então a narração descrevendo o novo produto enquanto mulheres de várias idades e nacionalidades, modelos bonitas e de aparência jovem, apareciam em diversos cenários, no trabalho e em situações de lazer. Mais de uma delas tinha um homem alto e bonito a seu lado.

Discretamente inserida em cada cena, aparecia a imagem do próprio produto, na embalagem atraente de vidro pesado, no estilo que trazia a assinatura da Cosméticos Fortune.

Sessenta segundos depois, o comercial terminava com uma voz, em off, anunciando: "Agora que já sabe o segredo dela, você também pode ser um dos Rostos Fabulosos da Fortune."

Para deleite de Caroline, ao terminar o vídeo, a sala irrompeu em aplausos.

? É maravilhoso! ? Kate gritava, exultante. ? Precisamente o que queremos transmitir ao consumidor... que qualquer mulher que use nossa fórmula pode ter um rosto fabuloso! É isso! É exatamente como vamos chamar: Rosto Fabuloso! Sterling, anote aí para registrar o nome imediatamente. Ah, é um comercial de televisão inteligente, Caroline. Bonito, um pouco misterioso, nada clínico, embora você consiga transmitir os pontos principais do produto... E os layouts para revista que você projetou são glamourosos e ao mesmo tempo pé-no-chão. Não vão fazer a mulher média sentir que um rosto fabuloso está fora de seu alcance. Estou absolutamente maravilhada... e tão orgulhosa de você, Caroline! Um trabalho excelente! Continue assim!

Mais ainda que o elogio da avó, Caroline vibrou ao ouvir os cumprimentos do pai quando ele juntou-se ao coro, exultante. Jake tinha muita consciência de sua função, tanto na família como na Cosméticos Fortune. Sabia que ele havia desistido de seus próprios sonhos para tomar conta da empresa, dedicando-se, resoluto, ao longo dos anos, a fazer dela um tremendo sucesso. Como resultado, ele era exigente, tinha expectativas que, com freqüência, eram quase impossíveis de cumprir. Caroline entendia que ela sempre ocupara um segundo lugar no coração dele; era seu irmão mais velho, Adam, que Jake teria preferido ver na Cosméticos Fortune, sendo preparado para ser o herdeiro.

Mas Adam sempre fora diferente do pai e nunca quisera nada com os negócios da família. Aos dezoito anos, o irmão havia se rebelado e se tornado independente, seguindo carreira militar. Aquilo havia sido uma amarga decepção para Jake. Desde então, embora Caroline sempre tenha lutado para compensar a deserção de Adam e ganhar a aprovação do pai, hoje era a primeira vez que ela sentia que realmente tivera sucesso. Mais do que qualquer outra pessoa na empresa, ela pensava, Jake percebia o quanto na fórmula secreta da juventude provaria a culminação de tudo que Kate havia esperado conquistar na vida.

Mais alguns minutos e a reunião foi encerrada, todos concordando que o novo produto estava sendo maravilhosamente tratado e muito próximo de se tornar realidade.

? Antes que saiam, quero lembrar-lhes que tudo que for associado à fórmula da juventude deve permanecer estritamente confidencial ? Kate insistiu ao juntar as cópias dos relatórios de apresentação de Nick e Caroline. ? Todos sabemos dos perigos da espionagem industrial e eu não quero que nenhum de nossos concorrentes ouça falar do Rosto Fabuloso até que ele entre no mercado. Com nossa descoberta, vamos acabar com eles! Posso sentir nos meus ossos. Ah, como eu adoraria ver a cara dos concorrentes quando descobrirem! Eles vão ficar malucos! ? Kate deu uma risada e saiu da sala, seguida por Sterling e Jake.

? Kyle, preciso que você venha ao meu escritório por alguns minutos ? Caroline pediu depressa, evitando ser deixada sozinha com Nick Valkov. Mesmo assim, seu coração se apertou ao pensar no que diria ao primo cabeçudo. Ao longo dos anos, ela havia se habituado a ler nas entrelinhas das palavras da avó. E, com pesar, Caroline havia compreendido que as observações aparentemente inocentes de Kate sobre Kyle haviam, na verdade, sido o modo sutil da avó instruí-la a demitir o primo.

No fundo do coração, Caroline sabia que o que Kate dissera era verdade: Kyle não se ajustava à Cosméticos Fortune, não estava apto para o competitivo mundo corporativo. Ele não apenas brincava mais do que trabalhava, mas também tivera várias aventuras de uma noite com mais de uma das supermodelos que assinavam contratos exclusivos e multimilionários com a empresa.

Recentemente, uma delas, Danielle Duvalier ? que competia até mesmo com a irmã de Caroline, Allison, pelo reconhecimento de seu rosto e nome no mercado ? tinha ficado tão arrasada por seu rompimento com Kyle que quase sofrerá um ataque de nervos. Caroline havia sido forçada a enviá-la para as Bahamas para se recuperar.

O fato de Kyle ter adormecido na reunião daquela manhã fora a gota d'água. Assim, por mais que parecesse cruel para Caroline, ela percebia que tinha que se livrar do primo. Agora que ela e Kyle entravam juntos no escritório, ela se preparou para a tarefa desagradável. Odiava demitir alguém.

? Feche a porta e sente-se, Kyle ? ordenou enquanto pendurava o casaco no closet do luxuoso escritório, cujas janelas amplas davam vista para as Cidades Gêmeas e o rio Missíssippi, que separava Mineápolis e Saint Paul, na confluência com o rio Minnesota. Enquanto Kyle acomodava o paletó e se sentava em uma das duas cadeiras felpudas diante da mesa elegante, de cerejeira, em estilo Queen Anne, Caroline se sentava do outro lado da mesa, respirando fundo antes de falar. ? Kyle, você sabe que é um de meus primos preferidos ? ela começou, e ele logo interrompeu com um sorriso largo e irônico.

? Mas não estou de acordo com suas expectativas, não é? Eu a decepcionei de diversas formas, especialmente dormindo na sala de reunião hoje cedo, e agora você tem que me demitir. Não fique com esse ar de surpresa e constrangimento, Caro. Você não é a única que tem que lidar com vovó e com o que ela quis dizer esta manhã com suas observações sobre o meu caráter. Para dizer a verdade, sabia que esse dia estava chegando. De certa forma, estou contente e aliviado. Poupou-me de pedir demissão.

Kyle fez uma breve pausa, passando a mão pelo cabelo queimado de sol, com um sorriso pesaroso, mas os olhos azuis sérios.

? Sei que você me deu uma chance, Caro, e, por você, lamento que não tenha dado certo. Mas infelizmente vovó estava certa. Eu não pertenço mesmo à Cosméticos Fortune. Estou começando a acreditar que não pertenço a lugar nenhum! Com franqueza, o fascínio por minha vida de luxo começou a perder a graça algum tempo atrás. Mas não consigo encontrar alguma coisa que valha mais a pena para substituí-la. Se você quer saber a verdade, estou insatisfeito e entediado. Sinceramente, boa parte do tempo eu tenho vontade de desistir de tudo e me esconder em algum lugar na selva, tomar-me um homem da montanha, algo assim.

? Bem, então por que não faz isso? ? perguntou Caroline, as sobrancelhas franzidas de preocupação. ? O simples fato de ter dinheiro não significa que tenha que ser um playboy a vida inteira, Kyle.

? Eu sei disso, Caro. Mas sei como nós, os Fortune, somos. Começando pela vovó, somos todos um bando de mimados, teimosos, cada um a sua própria maneira determinado a seguir o próprio caminho, por mais tolo que seja. Veja Adam, fugindo para entrar para o exército. Veja você, escondendo-se atrás de óculos de que não precisa e se esquivando dos homens por causa daquele inútil do Paul Andersen. Ah, não me leve a mal. Não a estou criticando, Caro. Estou sendo solidário. Deus sabe que também não fui bem-sucedido no departamento amoroso ? Kyle falou, triste. ? Preciso sair menos, e você precisa sair mais; é fato. Percebi que Nick Valkov pareceu estar bem a fim de você.

Ao ouvir as palavras de Kyle, Caroline sentiu-se enrubescer mais uma vez. Censurou o primo com o olhar.

? Isto é ridículo! Ora, ele é tão playboy quanto você, Kyle. E podia ter a mulher que quisesse. Por que estaria interessado em mim?

? Bem, se você tirar esses óculos estúpidos, soltar o cabelo e se olhar no espelho de vez em quando, Caro, você saberá. É tão bonita quanto Allie! Você bem poderia ser um dos Rostos Fabulosos da Fortune.

? Ah! É muita delicadeza sua dizer isso, Kyle. Mas sabe que não é verdade.

? Ora, se você não fosse minha prima, eu mesmo cairia na tentação. ? Ele lançou a ela o sorriso devastador que havia encantado e quebrado tantos corações. ? Há sempre alguma coisa em torno de uma dama de gelo que faz com que um homem queira derretê-la. Acredite, em mim. Nick Valkov não é exceção. Conheço os sinais. Ele está interessado no desafio ? Kyle levantou-se, jogando displicente o paletó sobre o ombro e enfiando uma das mãos no bolso da calça. Debruçou-se sobre a mesa para beijar-lhe o rosto. ? Então, por que você não dá uma chance ao homem. E não se sinta mal em me demitir. Você me fez um favor. Nos vemos por aí.

Assobiando, Kyle saiu do escritório, deixando Caroline a observá-lo enquanto refletia sobre suas palavras. Após um longo momento, ela balançou a cabeça, forçando-se a sair daquele devaneio. Kyle estava maluco. Nick Valkov tinha sido deliberadamente sarcástico com ela naquela manhã. Ele não tinha qualquer interesse nela.

Absolutamente nenhum.

Capítulo 2

Já havia escurecido quando Nick Valkov chegou à garagem de sua casa grande e elegante, situada num dos belos lagos além dos limites da cidade de Mineápolis. Apertou o botão do controle remoto para abrir um dos portões e estacionou o Mercedes-Benz na garagem. Entrou em casa, levando consigo uma pasta executiva. Continha papéis do escritório e a correspondência que ele retirara momentos antes da caixa de correio.

No salão, cujas janelas iam do chão ao teto e tinham uma vista panorâmica do lago, Nick tirou o pesado casaco de lã, as luvas de couro, o paletó e a gravata, arremessando-os sobre uma cadeira. Em seguida, afrouxou o colarinho e serviu-se de uma dose de vodca Stolichnaya da garrafa de cristal Waterford no bar. Tomando um gole, ele se acomodou em uma das cadeiras estofadas e abriu a pasta. Retirou a correspondência e começou a separá-la, largando para um lado o que era lixo e colocando o resto em uma pilha.

Ao se deparar com um envelope com o endereço do Serviço de Imigração e Naturalização, ele parou por um instante e o abriu, para ler o que estava escrito. Surpreso, não acreditou no que estava lendo. Xingou baixinho.

? Não, isto não pode estar certo! Deve haver um erro em algum lugar! ? insistiu para si mesmo. Raiva e medo se debatiam dentro dele enquanto ele via todas as suas esperanças, sonhos e planos para o futuro sumirem em fumaça, como se nunca houvessem existido.

Ele havia sido considerado um estrangeiro indesejável e seria deportado dos Estados Unidos! Enviado de volta à Rússia! Tinha que se apresentar ao escritório do SIN mais próximo, levando o passaporte e o visto de permanência. As instruções eram acompanhadas de duras advertências sobre as medidas legais que seriam tomadas caso desobedecesse.

Nick estava arrasado. Embora a carta não explicitasse nem dissesse claramente, dava a entender que ele havia sido identificado como um antigo agente da KGB. A própria idéia era ridícula! Ele era um químico, por sinal muito bom, e não um espião! Ainda assim, se permanecesse nos Estados Unidos, ele não tinha dúvida de que, na melhor das hipóteses, enfrentaria uma batalha legal dispendiosa e demorada para provar sua inocência.

A idéia de retornar a seu país não o atraía de jeito nenhum. Desde a divisão da União Soviética, a Rússia passava por um turbilhão político. Apesar disso, Nick sentia falta de sua terra natal, o que fizera com que Minnesota, com seus lagos congelados no inverno e um interior cheio de neve, o tivesse levado a se estabelecer na área das Cidades Gêmeas. Mas ele não sentia nenhuma falta das constantes mudanças, fruto das lutas ideológicas dos líderes do governo russo.

Nick estendeu o braço, pegou o telefone e discou, ansioso, o número da linha particular de Kate Fortune no escritório. Deixou o telefone tocar sem parar, mas, não havendo resposta, tentou encontrá-la em casa. Quando ela atendeu, ele mostrou-se aliviado.

? Kate? Aqui é Nick Valkov. Sinto muito incomodá-la, mas aconteceu algo importante, e achei que você gostaria de saber. É uma boa hora para conversar... ou você tem planos para esta noite?

? Na verdade, Sterling e eu íamos ter um jantar tranqüilo em casa, mas se for necessário, posso pedir para que a empregada deixe para mais tarde ? ela fez uma pausa, para logo em seguida continuar: ? Espere um momento, Nick, vou avisar Sterling, para que ele dê as instruções à senhora Brant. ? Ela abafou o bocal do telefone enquanto chamava Sterling. Então falou de novo com Nick. ? Pois não, conte o que está acontecendo.

Ele explicou-lhe sobre a carta do SIN:

? Nem preciso dizer que estou muito chateado com isso, Kate... Sem contar que estou totalmente desconcertado. Não consigo imaginar de onde o SIN tirou essa idéia de que sou um antigo agente da KGB! É claro que eu fiz pesquisa para o governo... mas nunca nada de natureza sensível. Naquela época eu era, e ainda sou, firmemente contra armas químicas, e nunca ajudei nem vou ajudar qualquer governo a desenvolver qualquer coisa desse tipo. Mesmo assim, suponho que seja possível que alguém tenha uma noção equivocada de que eu ajudei meu país nessa área, confundindo meu trabalho com alguma operação secreta da KGB. De qualquer forma, por causa de meu envolvimento com Rosto Fabuloso e pela importância que isso tem para você, achei que seria melhor informá-la imediatamente. -Nick suspirou forte enquanto estendia-se para alcançar o paletó e retirava do bolso interno um maço de cigarros Player. Sacudindo-o para tirar um, ele o acendeu, dando uma tragada forte, soprando em seguida uma nuvem de fumaça no ar.

? Pensei que você fosse parar de fumar ? repreendeu-o Kate como uma mãe protetora ao ouvir o som de sua respiração ofegante.

? Bem, eu ia. Quero dizer... eu vou. Mas dane-se, Kate! A carta do SIN me deixou tenso. Não quero voltar para a Rússia... e certamente não quero perder meu cargo na Cosméticos Fortune por estar tão envolvido numa batalha judicial que não consiga fazer meu trabalho!

? Você não precisa se preocupar com isso, Nick. Está tão perto de concluir minha fórmula secreta que pode ter certeza de que não tenho intenção de deixá-lo escapar. Temos apenas que encontrar uma forma de driblar o SIN, só isso.

Abafando o fone com a mão novamente, Kate chamou:

? Sterling! Pegue a extensão para acompanhar nossa conversa. O SIN acha que Nick é um antigo agente da KGB e estão tentando deportá-lo... Mas não vou perder meu principal químico. Não somente ele é muito valioso para a empresa, como também não posso deixar que ele escape com todo o conhecimento que tem sobre o Rosto Fabuloso ? declarou Kate, tirando a mão do bocal. ? Algum governo estrangeiro pode agarrá-lo e roubar minha fórmula e transformá-la num creme para envelhecer. Então, mulheres no mundo inteiro vão ver a pele enrugando em vez de suavizando... o que certamente desencadearia a Terceira Guerra Mundial! Nick acabou rindo.

? Está certo, Kate ? ele concordou. ? E tudo uma trama diabólica. E por isso que não tenho esposa nem namorada firme. Estou planejando ser um dos homens de sorte que sobrevivem ao ataque dessas mulheres enfurecidas.

? Mas, é claro, é exatamente disso que você precisa, Nick ? Sterling falou na extensão, incluindo-se na conversa. ? Não de uma mulher enraivecida, mas de uma esposa. Seria a solução para todos os seus problemas.

? Uma esposa! ? exclamou Nick. ? Ora, por que eu iria querer uma, Sterling?

? Porque casado com uma cidadã americana, mesmo se você fosse um espião da KGB, o SIN não poderia fazer nada contra você. Ficaria legalmente no país, não precisaria de um cartão de residente, e eles não poderiam deportá-lo. Esta é a lei ? esclarecia o advogado.

? E daí? Será que tenho que pegar uma mulher na rua e pedi-la em casamento? ? ironizou Nick. ? Certamente você não imagina que o SIN vai acreditar que, após receber uma carta deles, eu me apaixonei de repente e encontrei uma esposa. Vão saber que é armação.

? Concordo ? disse Kate, as engrenagens de sua mente trabalhando furiosamente. ? E por isso que precisamos tratar disso com muito cuidado e mantê-lo em segredo tanto quanto possível... Deixar só em família, por assim dizer.

? No que você está pensando, Kate ? ? indagou Sterling, desconfiado. Ele a conhecia há muitos anos, e sabia como sua mente funcionava; assim, ao fazer a pergunta, já tinha uma pista de onde ela estava com a cabeça.

? Estou pensando que temos várias belas netas, muitas delas solteiras... E que pelo menos duas, Caroline e Allison, trabalham para a Cosméticos Fortune. Bem, Allison não é muito discreta, então não acho que seja uma boa opção. Mas Caroline... Caroline sempre foi avessa à publicidade. Ela é, como vocês sabem, diretora de marketing na Cosméticos Fortune... e intimamente envolvida no desenvolvimento do Rosto Fabuloso. Não é casada. E hoje de manhã não me pareceu que você tivesse algo contra ela, Nick.

Nick não sabia o que dizer. Sentiu como se estivesse sonhando. Chegou a balançar a cabeça para afastar o sonho, mas não acordou. A idéia de se casar com Caroline Fortune, e com a bênção de Kate, parecia tão fantástica que não podia ser real.

Aquela manhã não havia sido a primeira vez que ele reparava em Caroline. Mas, como fizera hoje, ela sempre havia rejeitado suas tentativas de galanteio, evitando que ele fosse além.

Nos corredores do prédio da Cosméticos Fortune, ela era conhecida pelas costas como Dama de Gelo. Representava um desafio para qualquer homem. Desde seu caso desastroso com Paul Andersen, ela não deixara nenhum homem aproximar-se.

? Nick ? a voz de Kate o trouxe de volta do devaneio. ? Você não disse nada. Acha a idéia de casar-se com minha neta Caroline tão desagradável que não consegue responder, com medo de me deixar ofendida?

Ele limpou a garganta, deu uma longa tragada no cigarro.

-Não... bem... Não, Kate. Entre outras coisas, Caroline é adorável, criativa, inteligente... E a maioria dos homens se sentiria sortudo em tê-la como mulher. Mas... bem, o relacionamento dela com Paul Andersen no passado é conhecido por todos na empresa, bem como o fato de que, desde então, ela mantém os homens a uma considerável distância. Não consigo imaginar que ela concorde com essa idéia louca.

? Bom, não saberemos se não perguntarmos a ela. O importante no momento é saber se você está disposto a considerar a hipótese, Nick. Usando suas próprias palavras sobre Caroline, você é bonito, criativo, inteligente... E a maioria das mulheres se consideraria sortuda em ter você. Mas, pelo que ouço, você não pára muito com uma mulher só. E, é claro, isto deixará de ser uma opção se você se casar com minha neta. ? O tom agradável, mas firme de Kate deixou claro que ela esperava que Nick tratasse Caroline com todo respeito e consideração devidos a uma esposa, mesmo que seu casamento fosse por conveniência, e não por amor.

? Claro. Se eu concordasse em me casar com Caroline, faria isso com toda a intenção de me estabelecer e fazer o que é certo, Kate. ? Nick ficou indignado que ela pensasse que seria diferente. ? Eu apenas não sei se é uma boa idéia, só isso. Caroline e eu quase não nos conhecemos, o que é uma pena.

? Bem, por que você não pensa um pouco, Nick? Pense sobre o assunto e me informe sobre sua decisão amanhã de manhã. Nesse meio tempo, vou pedir que Sterling verifique as diversas questões legais envolvidas. Afinal, não faz sentido considerar a idéia se o SIN puder depois declarar que o casamento é uma farsa e deportá-lo de qualquer maneira. Também falarei com Jake, para que ele saiba o que está acontecendo. A primeira coisa que eu quero que você faça quando chegar ao escritório amanhã de manhã, Nick, é cancelar sua agenda para encontrar-se com Sterling e comigo, e possivelmente também com Jake e Caroline.

? Ótimo. Acho que está bem ? respondeu Nick, embora gemesse por dentro, achando aquilo tudo um "esquema leviano". Como podia pedir a Caroline Fortune que se casasse com ele somente para salvar sua permanência nos Estados Unidos? Lembrou-se do ar gelado com que ela olhara para ele aquela manhã, e como tranqüilamente tentara colocá-lo em seu devido lugar. Ela nunca aceitaria.

Nem em um milhão de anos.

Capítulo 3

Caroline não conseguia acreditar na conversa que estava tendo no luxuoso escritório da avó na cobertura do prédio da Cosméticos Fortune. Achou que só podia estar imaginando estar ali ouvindo Kate tranqüilamente explicar os problemas de Nick Valkov com o SIN bem como o que parecia para todos ser a única solução prática ? para todos, menos para ela.

Caroline pensou, consternada, que sua avó estava se tornando senil, que certamente estava perdendo a razão. A idéia de que ela, Caroline Fortune, se casaria com Nick Valkov era ridícula. Ela estava surpresa e constrangida que sua avó tivesse sugerido isso. A expressão e o tom de Kate, indicando claramente que ela esperava que Caroline colaborasse, a encheram de pânico.

Por baixo dos longos e grossos cílios negros, Caroline deu uma olhada discreta em Nick. Para sua surpresa e alívio, ela viu que pelo menos ele não estava sentado ali com um sorriso largo, zombando dela, como havia feito na manhã anterior. Agora, ele parecia tão pouco à vontade quanto ela. Caroline não sabia se demonstrava solidariedade ou indignação ao perceber que ele nitidamente não estava entusiasmado com a idéia de tornar-se seu marido. Apesar da certeza de não querer ser sua esposa, ela sentiu um mal-estar ao ver que ele não queria se casar com ela, embora, como incentivo para que ele concordasse com o esquema, o pai dela tivesse oferecido um generoso aumento de salário e um bônus de seis dígitos no dia do casamento.

O dia do casamento, pensou Caroline, com uma pitada de amargura. O acordo de casamento, era o mais adequado. Porque era exatamente isso: um acordo comercial, puro e simples. A avó e o pai dela estavam pagando Nick Valkov para se casar com ela, para que ele não se envolvesse numa longa batalha judicial com o SIN e no final fosse deportado, sem conseguir concluir a fórmula da juventude, que era de importância vital para a Cosméticos Fortune.

Ora, de certa forma, era pior do que se tivesse se casado com Paul Andersen! ? dizia Caroline a si mesma. Pelo menos Paul tinha algum sentimento por ela, preocupara-se com ela, tanto quanto era capaz disso, mesmo que realmente tivesse amado mais o dinheiro do que a ela.

? Caroline... Você quase não disse nada ? observou Kate, não sem um tom de afeto e compaixão na voz.

Ela sabia que devia ser difícil para a neta ser colocada numa posição tão desagradável. Ainda assim, Kate pretendia continuar pressionando-a para aceitar o casamento proposto. Não havia escapado à percepção da velha senhora o quanto sua neta se recolhera socialmente após o rompimento de seu noivado com Paul Andersen, e como ela tinha, como uma vingança feroz e determinada, se lançado ao trabalho, afastando-se de todos os homens.

Caroline tinha agora vinte e nove anos... e não ia ficar mais jovem, pensava Kate com ironia, ao mesmo tempo ansiosa e exasperada com a idéia de que sua neta estava perdendo tudo o que a vida tinha a oferecer. Não que a velha senhora quisesse se intrometer nos assuntos da jovem, mas ela sentia que Caroline poderia fazer um esforço na direção certa ? assim como Nick Valkov. Ele estava em sua melhor forma e devia estar pensando em ter uma esposa e filhos.

Kate queria que todos a sua volta fossem felizes como ela era; e para ela, felicidade incluía ter um parceiro com quem dividir todos os altos e baixos da vida.

? Caroline? ? disse, esperançosa.

? Perdoe-me, vovó ? Caroline saía, nervosa, de seu devaneio. Ela queria poder falar com sua mãe, mas Erika Fortune estava fora da cidade pelo resto da semana. ? Acho que não falei muito porque francamente estou perdida demais para saber o que dizer. É claro que eu sinto muito pelas dificuldades de Nick com o SIN. Mas não posso acreditar que não haja outra solução para o problema dele.

? O problema é que realmente não há, Caroline ? dizia o pai, Jake, ponderado. ? Caso contrário, eu não teria concordado com essa idéia de casamento de mamãe e de Sterling porque é a idéia mais maluca que eu já ouvi. Mas você pode entender como a deportação de Nick, a essa altura, afetaria a Cosméticos Fortune, Caro. Investimos anos e milhões de dólares na pesquisa dessa fórmula. Perder Nick agora que estamos tão perto de ter o produto seria um golpe devastador. E, é claro, estamos falando em casamento somente no papel. Uma vez que tenha passado tempo suficiente e o SIN tenha perdido interesse em Nick, você e ele podem se divorciar, e será o fim de tudo isso.

Ao sentir que lhe subia um rubor pelo rosto ? e não pela primeira vez ? , Caroline xingou-se em silêncio pelo fato de enrubescer tão facilmente. As palavras do pai sobre um casamento com Nick só no papel criavam, inadvertidamente, imagens opostas em sua mente. Ela se imaginava com Nick, nus e fazendo amor. Tinha esperança de que ele não pudesse ver dentro de seu cérebro. Mas, pelo brilho súbito e especulativo nos olhos dele, suspeitou que ele soubesse no que ela havia pensado. E, pior, suspeitou que ele houvesse pensado a mesma coisa.

Porque, naquele momento, como se realmente tivesse lido seus pensamentos, Nick perguntou:

? Bem, senhorita Fortune, o que você diz? Será responsável por me enviarem de volta à Rússia ou não? Tudo o que eu preciso é de uma resposta simples. Você se casa comigo? Sim ou não? E então poderemos todos voltar ao trabalho... E, uma vez que eu possa não ter tanto tempo quanto imaginei para terminar Rosto Fabuloso, isso parece muito útil nas atuais circunstâncias.

Caroline engoliu em seco, o coração aos pulos, a palma da mão suando. Todos esperavam vê-la concordar em se casar com Nick.

? Sterling, não existe realmente outra maneira? ? perguntou ela, hesitante, umedecendo os lábios secos com a língua.

? Não, não que eu consiga ver ? o advogado respondeu, balançando a cabeça, solidário, os olhos cheios de compreensão.

? Bem, então, suponho que, com tudo o que está em jogo, não tenho alternativa senão dizer sim a esse esquema maluco ? respondeu Caroline, devagar. ? Sei, vovó, o quanto a fórmula da juventude significa, tanto para você quanto para papai e para a Cosméticos Fortune. Certamente não quero ver todo o árduo trabalho de vocês desperdiçado. E, afinal de contas, não é como se fosse um casamento mesmo... Quero dizer, não no sentido verdadeiro da palavra ? a voz dela foi sumindo, confusa.

? Muito obrigado, Caroline. Eu sabia que podia contar com você ? Kate sorriu e abraçou a neta com ternura, antes de se virar para os demais na sala. ? Sterling, Jake, por que não vamos nós três a outro lugar para discutir todos os arranjos necessários? ? ela sugeriu cautelosa. ? Assim damos a Caroline e Nick um tempo a sós. Sei que eles devem ter coisas a discutir entre eles. ? Ela olhou pensativa para o casal, agora oficialmente comprometido. ? Veremos os dois mais tarde.

Momentos depois, Caroline e Nick estavam sozinhos no escritório, ela mexendo na saia, nervosa, incapaz de olhar nos olhos dele, incapaz mesmo de acreditar que aquilo tudo estava acontecendo, que era real.

Nick se tomaria seu marido. Ela pensou que só podia estar louca em consentir num plano daqueles. Visões repentinas da noite do casamento lhe vinham à mente, e uma dúvida lhe causava ansiedade. Afinal, o que ela realmente sabia sobre Nick Valkov, a não ser que ele era um químico brilhante?

Embora a Cosméticos Fortune procedesse a uma verificação minuciosa no passado de seus executivos, e se o SIN estivesse certo e ele realmente fosse um antigo agente da KGB? E se, uma vez que pusesse a aliança no dedo dela e o bônus em dinheiro em sua conta bancária, ele decidisse não manter sua parte no acordo, decidisse que queria exercer seus direitos de marido?

A imaginação de Caroline era fértil, provocando uma contusão em suas emoções.

? Eu... sei que isto não deve estar sendo fácil para você, senhorita Fortune ? disse Nick, quebrando o silêncio que se formava, pesado, entre eles. ? E eu quero aproveitar a oportunidade para lhe agradecer por ter concordado em ajudar com minhas dificuldades.

? Caroline... meu nome é Caroline ? ela lembrou, com suavidade. ? Se vamos nos casar, você não pode continuar me chamando de senhorita Fortune. Senão, o SIN saberá que há algo errado, que nosso casamento é uma farsa... E aí terá sido tudo em vão, não é mesmo?

? Sim, claro, você tem toda razão. Caroline, então. E eu sou Nick ? ele interrompeu-se por um instante, como se precisasse organizar os pensamentos. Em seguida, continuou: ? Sejamos inteiramente honestos um com o outro. Isso não é o que nenhum de nós dois deseja e é uma situação muito constrangedora para ambos. Mas existem meios de facilitar as coisas.

? Por exemplo?

? Bem, para começar, podemos tirar um tempinho para nos conhecermos melhor. Seremos marido e mulher, e, embora não sejamos amantes, gostaria de pensar que podemos ser pelo menos amigos enquanto durar o nosso casamento. Segundo, existem algumas questões que devemos logo levar em conta. Gostaria que nos casássemos ainda esta semana, já que, por razões óbvias, tenho pressa e não posso me dar ao luxo de esperar enquanto planejamos um grande casamento que sairá em todos os jornais e acabará por atrair a atenção do SIN. Tenho certeza de que uma ida rápida ao cartório não é o que você imaginava para o seu casamento, mas, dadas as circunstâncias, sei que vai concordar que é o melhor. Também temos que pensar onde vamos morar, se você deve se mudar para a minha casa ou eu para a sua.

? Tudo está acontecendo tão de repente, de modo tão inesperado que eu... eu realmente não pensei em nada -confessou Caroline, levantando-se da cadeira e dirigindo-se às janelas. Olhou cegamente para fora, ainda tomada por uma sensação de irrealidade. ? Claro que acho que devíamos pelo menos tentar ficar amigos e sim, o cartório e esse... esse fim de semana... será... bom, creio eu. Não havia... não havia me dado conta de que nos casaríamos tão cedo, mas suponho que é melhor para assegurar sua posição contra o SIN. Quanto a... morar juntos, tenho um apartamento na cidade, que não é longe da Cosméticos Fortune. Não é grande, mas é bem conveniente.

? Por você, acho que deveríamos considerar privacidade e não proximidade. Sugiro que você se mude para a minha casa ? respondeu Nick, levantando-se e aproximando-se dela nas janelas. ? Tem bastante espaço, então não ficaremos um em cima do outro. Além do mais, se o SIN decidir investigar nosso casamento, provavelmente terá mais credibilidade se dissermos que mantivemos seu apartamento porque ambos trabalhamos até tarde na Cosméticos Fortune e precisávamos de um lugar para passar a noite na cidade em certas ocasiões do que se dissermos que mantivemos a minha casa como um retiro para o fim de semana.

? Tudo bem ? Caroline finalmente conseguiu coragem suficiente para se virar e olhá-lo nos olhos. ? Dr. Valkov... Nick, tenho que me desculpar com você. Tenho estado tão ocupada pensando em mim mesma que somente agora me dei conta de que não deve ser mais fácil para você do que para mim. No entanto, você procurou me deixar à vontade, e eu lhe sou grata por isso. Quero que saiba que não vou interferir em sua vida mais do que o necessário, e espero que faça o mesmo por mim.

? Combinado ? ele sorriu para ela, mas o sorriso não alcançava seus olhos escuros, que, para surpresa de Caroline, estavam cheios de preocupação por ela. ? No entanto, para enganar o SIN, realmente precisamos apresentar uma fachada sólida e criar uma história de como nos apaixonamos aqui no trabalho até ficarmos juntos. Graças aos céus você é uma mulher tão sensata, prudente e reservada, Caroline. Talvez possamos sugerir que você não queria muita ostentação nem a atenção que um casamento da alta sociedade atrai, e por isso escolhemos nos casar no cartório.

Inesperadamente, ela sentiu uma sensação incômoda com a descrição de Nick de sua personalidade. Tentou dizer a si mesma que não era importante o que ele pensava sobre ela. Mas, de certa maneira, não conseguiu controlar.

Sensata. Prudente. Reservada. Era mesmo daquela maneira que ele a via? Era daquela maneira que todo mundo a via?, Caroline se perguntava, aflita. É claro que sim. Ela sabia que, pelas suas costas, os empregados da Cosméticos Fortune se referiam a ela como a Dama de Gelo.

Não pela primeira vez, ela constatou que certamente isso não a fazia parecer divertida, o tipo de mulher que um homem gostaria de ter com ele. Antes, ela não se importava; não queria um homem em sua vida. Mas agora, gostasse ou não, ela seria a esposa de Nick.

? Eu... suponho que não sou mesmo o tipo de mulher por quem você normalmente se sente atraído.

? Na verdade, eu a acho muito atraente, Caroline ? declarou Nick, tranqüilo. ? Só acho que é um pouco retraída. No entanto, tenho certeza de que não é nada com que eu não possa conviver, que não possamos lidar com isso juntos. Afinal, somos ambos adultos, e como disse antes, minha casa tem espaço suficiente para nós dois. Então, por que não damos uma passada lá mais tarde? Assim, você pode dar uma olhada, decidir que quarto prefere. Daí podemos começar a fazer a mudança.

? Isto está acontecendo realmente, não está? Nós vamos mesmo nos casar? ? Caroline sorriu, tentando aclarar a questão. ? De certa forma, fico esperando acordar e descobrir que é tudo um sonho.

? Eu sei. Sinto a mesma coisa ? admitiu Nick, passando a mão pelo cabelo. ? Mas, sim, é real, e juntos teremos que fazer tudo da melhor maneira. E vamos fazer, Caroline. Prometo ? ele parou por um instante, respirou fundo, e em seguida sorriu de novo para ela. Desta vez, um sorriso largo e brincalhão que, sem que ela pudesse controlar, conseguiu disparar-lhe o coração. ? E agora suponho que o melhor que fazemos é trabalhar. Tenho uma tonelada de coisas a fazer no laboratório para tornar a fórmula de sua avó um sucesso.

? Se não se importa, Nick, gostaria de ficar sozinha um pouco para me acostumar melhor à situação, ter uma perspectiva. Então, continue. E quando estiver pronto para voltar para casa, dê um toque no meu escritório. Mandarei a secretária cancelar minha agenda pelo resto do dia, então ficarei à sua disposição.

? Bem, tenho que admitir que gosto da idéia ? disse ele, impertinente, mais uma vez com um sorriso largo e malicioso, sem se importar com a súbita irritação e o rubor de constrangimento da moça. ? Mas que diabo! Ânimo, Caro. Afinal, não é todo dia que uma pessoa fica noiva. Além do mais, poderia ser pior. O SIN poderia estar tentando deportar Otto! ? Otto Mueller era seu assistente no laboratório, apático, atarracado. Então, antes que Caroline percebesse o que Nick pretendia, ele inclinou a cabeça para esfregar os lábios dela rapidamente em seus próprios lábios. ? Desculpe. Não pude resistir. Tinha que saber se você tinha ou não gosto de pão doce! ? ele insistiu, antes de agarrar sua pasta e sair do escritório.

Caroline ficou ali olhando fixamente para ele, perplexa, mordendo a língua para conter a pergunta que saía involuntariamente: "Bem, e tenho?" Sem querer, levou a mão até a boca. Seus lábios estavam quentes pelo beijo dele. Ao perceber aquilo, ela balançou a cabeça, resoluta, para clareá-la.

O que ela estava pensando? Realmente, ele era um homem impossível! Qualquer preocupação ou solidariedade que ela achasse que ele poderia sentir por ela era obviamente uma tentativa de esconder seu verdadeiro caráter, para que ela concordasse em se casar com ele.

Como poderia levar adiante esse casamento?, Caroline se perguntava, dividida. E como poderia não prosseguir com ele? Sua avó, seu pai e a Cosméticos Fortune contavam todos com ela. Ela não podia deixá-los na mão, não poderia virar-lhes as costas e se mostrar uma decepção, como o irmão dela, Adam, havia feito.

Não; gostasse ou não, ela não tinha alternativa senão casar-se com Nick Valkov. Suspirou com força. Esse não era o casamento de seus sonhos, o que ela havia imaginado para si desde que era uma garotinha. Havia desejado um marido amoroso, filhos.

Seus olhos se perdiam no elegante pedestal de mármore num canto do escritório da avó. Da coluna, erguia-se um pequeno e esbelto braço de alabastro. Em seu pulso havia um bracelete de prata, herança da família, composto por minúsculas contas e um coração delicado. Era bastante valioso e acreditava-se ter pertencido a uma das grandes rainhas da História. Mas não era por esse motivo que Caroline sempre havia amado aquela peça. Era porque, para ela, aquilo de alguma maneira simbolizava tudo que a vida devia ser: a construção do conhecido lar feliz com lareira, a passagem da tocha de uma geração para a próxima.

Ela tinha vinte e nove anos... e ouvia o relógio biológico batendo. Quanto tempo perderia casando-se com Nick Valkov, tempo que poderia usar procurando um marido de verdade, que a amasse e lhe desse filhos? Quanto tempo ela já havia desperdiçado, enterrando-se no trabalho e afastando-se de todos os homens? Havia sido uma tola, Caroline se dava conta agora. Mas era tarde demais para voltar atrás; ela não podia reviver o passado.

Tinha que ter feito como o pai dela, deixado de lado os próprios sonhos para o bem da família. Resoluta, ela endireitou os ombros com determinação e saiu do escritório da avó.

Capítulo 4

Quando, mais tarde, Nick ligou para o escritório dela, Caroline ficou aliviada. Estivera apreensiva e ao mesmo tempo ansiosa pela ligação dele o dia inteiro e quase não conseguira se concentrar no trabalho. Por conta disso, resolvera muito pouca coisa, e sabia que não fazia sentido continuar a perder tempo à mesa de trabalho.

? Estou indo buscá-la em seu escritório ? disse Nick. -Acho que precisamos ser vistos juntos porque se o SIN começar a sondar por aqui, interrogando empregados, pelo menos descobrirão alguns sinais de que vimos tendo um caso discreto... e talvez acreditem que estamos tão excitados que vamos nos casar. Então, certifique-se de que sua secretária esteja aí.

? Está bem ? Caroline concordou, sabendo que o plano dele era lógico, mas ainda relutante em adotá-lo. Ela havia sido objeto de fofocas na Cosméticos Fortune durante todo seu relacionamento com Paul Andersen e odiava pensar em sê-lo novamente. Havia feito o que podia para deixar o passado para trás. ? Nos vemos em alguns minutos ? em vez de desligar o telefone, ela discou o ramal da secretária. ? Mary, tenho aqui umas cartas que precisavam da minha assinatura, por favor venha buscá-las.

? Certo. Já estou indo ? respondeu a secretária, jovem e empolgada.

Alguns momentos depois, Mary apareceu à porta. Em vez de entregar-lhe as cartas imediatamente, Caroline fingiu que estava separando alguns papéis na mesa desarrumada, conversando com a secretária e sentindo-se uma boba por enganá-la, atrasando-a até que Nick chegasse. Caroline ficou feliz quando ele finalmente apareceu.

? Caro, meu benzinho... Ah, não sabia que você não estava sozinha, senhorita Fortune ? disse ele, constrangido, ao enfiar a cabeça pela porta, fingindo-se confuso e desconfortável.

Ele o fez tão bem, e parecia ter tanta prática em subterfúgios que, por um instante, Caroline não pôde evitar de se perguntar se o SIN não estava certo e Nick realmente era um antigo agente da KGB. Logo deu-se conta de como a idéia era ridícula.

Porque se fosse, certamente não teria vindo para os Estados Unidos e aceitado um emprego como químico numa empresa de cosméticos. Ele teria procurado um cargo em algo como uma empresa de eletrônicos ou de aviação, ou como funcionário do governo ou político, para ter acesso ao tipo de informação que seria valioso para governos estrangeiros e terroristas no mercado aberto.

As indústrias de cosméticos concorrentes podiam estar interessadas em descobrir que a Cosméticos Fortune chamaria seu novo tom de batom e esmalte de unhas vermelhos de Cerejas Marasquino, mas Caroline não podia imaginar que mais alguém pagaria caro por aquela informação, ou que isso atraísse a atenção de um agente secreto.

Respirando fundo, ela se forçou a jogar o mesmo jogo que Nick havia inventado, muito consciente do súbito interesse nos olhos brilhantes de Mary ao olhar para os dois.

? Nick... Dr. Valkov, já estou indo ? entregando a Mary as cartas, Caroline prosseguiu sem precisar fingir a expressão de constrangimento em seu rosto: ? Obrigado, Mary. Não tem mais nada

? Sim, senhorita Fortune ? a jovem secretária se retirou, fechando com firmeza a porta, embora não sem antes lançar por sob os cílios um olhar adorável e convidativo de flerte para Nick. Como se ele fosse alguma estrela de cinema rico, bonito e famoso, Caroline pensou, desgostosa e irritada.

? Bem, acho que você não precisa se preocupar de seu plano não dar certo, Nick ? declarou, ácida, como uma forma de cumprimento. ? Tenho certeza de que, até amanhã à tarde, Mary terá espalhado por todo o prédio o boato de que eu e você estamos tendo um caso! Sinceramente, você tem que me chamar de "Caro, meu benzinho"?

? É claro ? um sorriso desrespeitoso marcava-lhe o rosto, provocando estranhas reações em Caroline. ? Seria assim que a chamaria se você e eu estivéssemos envolvidos. Quero dizer, ouvi Kyle e Allie se referindo a você pelo apelido, Caro. Na verdade, eu gosto... e acho que combinaria bem se você se soltasse mais... no sentido figurado e no literal! ? Seus olhos dançavam, ao examiná-la. Então, balançando a cabeça e mostrando indiferença ao olhar reprovador que ela lhe dava em resposta, ele continuou: ? Além do mais, que mal faz um pouco mais de lenha na fogueira? Ainda está no ar o burburinho por você ter demitido Kyle ontem. Não é verdade?

? Sim... e eu aposto que, com o que Mary dirá amanhã de manhã, logo todos estarão dizendo que a saída de Kyle de alguma maneira está ligada ao nosso relacionamento! -A idéia causava uma irritação sem limites em Caroline. ? E a verdade é que vovó estava certa. Ele não estava mesmo apto a uma vida na empresa. E se estamos fazendo esse casamento para salvar seu trabalho, devo insistir que pare de fazer essas observações negativas sobre minha aparência pessoal e meu caráter. Só porque prefiro não me vestir como uma extravagante roqueira punk e me comportar como uma Poliana sociável e animada, isso não significa que sou a Dama de Gelo arredia como todo mundo fala pelas minhas costas!

Caroline estava tão alterada que praticamente gritava... Ela, que nunca levantava a voz, que sempre lidava com todos e com tudo de forma tão tranqüila. Ela não conseguia acreditar naquilo. Não sabia, qual era o seu problema, como havia chegado a ponto de perder tanto o controle no espaço de poucos minutos.

Além do constrangimento e do choque, havia o fato de Nick não parecer nem um pouco perturbado com a explosão dela. Em vez disso, os olhos dele brilhavam de entusiasmo, e sua boca esboçava um sorriso que estranhamente parecia de satisfação.

Pela segunda vez em poucos dias, ela conteve a ânsia de lhe dar um tapa e arrancar-lhe aquele ar de sarcasmo.

? Bem, parece que realmente existe fogo por baixo do gelo ? ele falou, de um modo desconcertante. ? E pensar que todo esse tempo eu achei que você tivesse um fusível de combustão lenta, Caro. Dou a mão à palmatória ? dirigindo-se ao closet do escritório, ele abriu a porta e retirou o casaco, entregando-o a ela. ? Vamos, minha furiosa futura noiva?

Irritada e nervosa, Caroline abriu a boca para fazer um comentário cáustico, mas em seguida fechou-a com esforço, sabendo, por instinto, que nada do que dissesse poderia sequer arranhar a armadura de Nick. Ele era um mestre no duelo de inteligência entre homem e mulher... E ela, não mais que uma novata. Não podia esperar competir com ele nessa arena.

Perceber isso deixou-a perturbada. Ela estava acostumada a ser melhor do que a maioria, não importa no que se propusesse. Era irritante pensar que, em Nick Valkov, talvez tivesse encontrado alguém à altura.

Virou as costas para ele bruscamente e começou a enfiar o casaco, mas ele envolveu-a com os braços para ajudá-la a vesti-lo. Por um instante, apesar do quanto tentava se desviar dele, Nick a manteve de encontro a seu corpo duro e magro. Contra a vontade dela, o contato físico e o calor dele fizeram seu coração disparar. Ele inclinou a cabeça sobre a nuca dela, inalando profundamente.

? Appassionato ? ele identificou corretamente o perfume caro da Fortune que ela usava. ? Uma fórmula feita de jasmim, gardênia, lírio, rosa, vetiver, almíscar e algumas outras essências inebriantes, garantia certa de enfeitiçar uma besta selvagem ? a voz dele era baixa e rouca no ouvido dela.

? Você quer dizer "amansar uma besta selvagem"? -Caroline perguntou.

? Não, não quero. ? Ele a soltou e deslizou a mão sob o cotovelo dela para acompanhá-la pela saída do escritório. ? Ainda é cedo. Se nos apressarmos, não pegaremos o trânsito da hora do rush ? comentou ele enquanto passavam por Mary, que os observava discretamente de sua mesa, até entrarem num dos elevadores que os levaria até a garagem. ? Iremos no meu carro ? anunciou Nick, imperioso.

? Não, não há necessidade ? protestou Caroline. -Posso segui-lo no meu próprio carro. Isto lhe poupa o trabalho de ter que voltar à cidade sem necessidade.

? Eu não me importo. Além do mais, essa volta de carro nos dará uma chance de começarmos a nos conhecer melhor ? Nick destrancou o carro e abriu a porta do carona de seu Mercedes-Benz lustroso, ajudando-a a entrar. Então, reclinando-se sobre ela, apertou o cinto de segurança. ? Não quero que lhe aconteça nada ? ele explicou, petulante. -Esposas não nascem em árvores, você sabe... E eu tenho medo de pensar que terminar com alguém como Agnes Grimsby me faria agradecer ao SIN por me deportar!

Agnes Grimsby trabalhava no refeitório da empresa e era o equivalente feminino de Otto Mueller. Caroline não pôde conter o riso com a imagem de Agnes e Nick juntos.

? Na verdade, acho que você e Agnes fariam um casal adorável ? insistiu ela, fazendo o melhor que podia para manter uma expressão firme quando, após abrir sua própria porta, Nick deslizou para o assento ao lado. ? Eu teria prazer em dizer a ela que você está interessado...

? Nem pense nisso, ou eu farei questão de ver você com o velho Otto, seguindo-a como um cãozinho fiel. ? Enfiando a chave na ignição, Nick ligou o carro, tirando-o da vaga que lhe era reservada. Alguns minutos depois, o Mercedes-Benz seguia pela estrada, dirigindo-se a oeste da cidade. Nick ligou o rádio e música clássica começou suavemente a sair dos alto-falantes. ? Então... qual a sua cor preferida? ? ele perguntou.

? Lilás, por quê?

? Porque esta pode ser uma das coisas que o SIN irá nos perguntar se decidirem investigar nosso casamento. Maridos e esposas geralmente sabem pequenos detalhes como esse. A propósito, minha cor preferida é azul. Eu fumo cigarros Player. Bebo Stoly... vodca Stolichnaya ? ele esclareceu ao ver o olhar de dúvida da moça. ? Gosto de bale, invernos com neve, caminhadas à luz da lua pelo lago e, como você provavelmente já adivinhou, música clássica. Quando o assunto é laboratórios e químicos, eu sou o famoso garoto-prodígio. Tenho trinta e quatro anos de idade, um metro e oitenta e quatro e uns noventa quilos... a maior parte músculo sólido, porque eu vou à academia pelo menos cinco vezes por semana. Acha que consegue se lembrar disso tudo?

? Vou tentar. Mas sinceramente, Nick, devo dizer que para mim isso soa como se você estivesse me dando um dossiê, me preparando para uma espécie de missão de espionagem. Você tem certeza de que não é um antigo agente da KGB? ? Caroline estava parcialmente brincando.

? Sim, tenho certeza. Quando se é criado da forma que eu fui, atrás da Cortina de Ferro, a gente leva a política muito a sério. Meu país passou por um longo caminho nos últimos anos, e ainda tem um longo caminho a percorrer. Meu trabalho lá era estritamente de natureza civil. Posso garantir-lhe mais uma vez: não precisa se preocupar em estar embarcando em uma enrascada de filme de James Bond, Caro. ? A voz de Nick parecia animada, mas um tanto decepcionada.

? Desculpe. Mas... não podia deixar de questionar. Quero dizer, deve haver alguma razão para o SIN ter chegado a uma conclusão tão equivocada sobre você, que o leve a querer deportá-lo, Nick.

? Você não acha que eu pensei sobre isso? Na verdade, não pensei em mais nada desde que abri aquela droga de carta do SIN. Sei que sou inocente dessas alegações contra mim, então tenho que acreditar que existe alguma coisa a mais no fundo dessa questão.

? Como o quê?

? Talvez, apesar de nossas precauções, tenha vazado algo sobre nossa fórmula secreta. Embora seja estritamente confidencial na Cosméticos Fortune, deve haver um certo número de pessoas com acesso a essa informação, incluindo assistentes e secretárias. O que me pergunto agora é se algum de nossos concorrentes ficou sabendo... Por menor que fosse a dica, que tenham descoberto de alguma forma que, removendo um elemento chave, ou seja, eu, isso poderia representar um grande baque para a Cosméticos Fortune.

? Ah, Nick! ? exclamou Caroline, abalada. ? Nunca aconteceu nada parecido comigo! Não posso imaginar que alguém na empresa possa ter sido tão falso. Na verdade, até este momento, sempre achei que vovó exagerava um pouco em seu medo de espionagem industrial. Mas agora... não sei o que pensar. E se você estiver certo? Como podemos descobrir? O que podemos fazer para tentar nos proteger deste tipo de coisa no futuro? E se nosso casamento apenas levar quem estiver por trás disso a escolher outra pessoa da Cosméticos Fortune como alvo?

? Bem, então pelo menos teremos algum tipo de resposta, não é? ? Nick respondeu, com seriedade. ? No entanto, eu não me preocuparia com isso no momento, Caro. A não ser pelo que aconteceu comigo, não há um motivo real para suspeitarmos de espionagem industrial. Mencionei isso porque acho que devíamos ter em mente essa possibilidade.

Ele entrou numa estradinha isolada e sinuosa entre fileiras de árvores em volta do lago, e parou minutos depois diante de uma casa grande, rústica, e bonita. Para Caroline, ela parecia parte do cenário em volta, levemente coberta de gelo e neve, reluzindo no entardecer como um palácio encantado na floresta.

? Aqui estamos. Em casa. Você gostou, Caro? ? perguntou Nick, sem entender por que havia parado no meio da estrada para que ela pudesse ver a casa inteira antes de entrar, por que de repente era tão importante para ele que ela a achasse agradável.

? Sim... muito. É adorável... uma casa dos sonhos... mas, francamente, não é o que eu esperava, Nick. Pensei que você tivesse algo... bem, não sei... mais elegante e sofisticado, como seu carro, sei lá.

? Ah, sim. Mas, entenda, aquilo é apenas minha pessoa pública ? ele afirmou, sorrindo. ? Eu sou muito diferente na minha vida privada.

? É mesmo?

? Sim. Isso é uma das coisas que você vai descobrir sobre mim... com o tempo. ? Ele deu partida no Mercedes-Benz e seguiu pela entrada de carros até a garagem. Pouco depois, conduziu Caroline até o interior da casa, acendendo as luzes à medida que passavam.

O interior a surpreendeu bem mais do que o exterior. O salão grande elevava-se até o pesado telhado de vigas, e em uma parede inteira não havia nada além das janelas que permitiam uma magnífica vista do lago. Um tapete branco como a neve se estendia pelo chão até a lareira de pedra, com uma enorme soleira e galhos de carvalho empilhados no nicho. De ambos os lados do salão, escadas levavam até a varanda do andar superior. Cadeiras e sofás estofados contemporâneos se misturavam a armários e mesas de antiquário, nos quais havia luminárias Tiffany e vasos Lalique. Nos vasos, misturavam-se flores frescas que, Caroline sabia, em pleno inverno, só podiam ter vindo de um florista.

O salão inteiro conseguia ser sofisticado e, ao mesmo tempo, confortável e convidativo. Na verdade, ela pensou, atônita, era realmente muito parecido com seu próprio apartamento, muito parecido com a forma como ela sempre imaginava que seria uma casa realmente dela.

Estranhamente, naquele momento, achou difícil acreditar que ela e Nick não iam se casar no sentido verdadeiro da palavra, que não iam construir ali uma vida juntos, fazer filhos juntos.

Comporte-se, Caro!, disse, severa, a si mesma quando se deu conta da direção que seus pensamentos haviam tomado. Isto é somente um arranjo comercial, então não vá se enganar, começando a achar que seja outra coisa. Oh, céus! Ontem de manhã, você sequer gostava de Nick Valkov!

? Deixe-me tirar seu casaco e eu lhe mostrarei a casa. ? Suavemente, ele tirou-lhe o casaco dos ombros antes de conduzi-la a um tour pelas dependências.

Dependências que incluíam uma cozinha grande e rústica, calorosa e aconchegante, com muitas plantas, cestas e panelas de cobre, um estúdio onde Nick visivelmente trabalhava quando estava em casa, uma biblioteca cheia de livros do chão até o teto, e quatro quartos no andar superior, um dos quais o dele.

Era um quarto totalmente masculino, dominado por uma pesada cama de dossel, um armário e uma cômoda, outra grande lareira e obras de arte russa. Caroline desviou rápido o olhar da cama, depois de ver a imagem dela e Nick juntos, deitados nus, envoltos num cobertor de penas de ganso.

Como se tivesse lido o pensamento dela, Nick disse:

? Claro que você pode dormir aqui, se desejar.

? Nosso casamento é apenas no papel ? lembrou Caroline, sabendo que enrubescia novamente e feliz pela lâmpada fosca, que ela esperava que ocultasse suas faces vermelhas.

? E claro ? ele respondeu tranqüilo, embora ela pensasse, para sua surpresa, ter visto um olhar de desapontamento nos olhos dele. Afinal, essa manhã ele não parecera tão entusiasmado em tê-la como esposa. ? Ainda assim, você não pode culpar um homem por tentar, não é? Qual dos outros quartos você prefere então?

? Vou ficar com aquele do outro lado do corredor ? o olhar nervoso de Caroline voltou-se para os olhos dele, que brilhavam debochados, enquanto sua boca esboçava um sorriso divertido.

? Naturalmente ? disse ele, seco. ? Vou deixá-lo pronto para você amanhã. Gostaria também que eu instalasse uma fechadura na porta?

? Na verdade ? respondeu, tranqüila, olhando de novo para ele com ar severo, para que ele soubesse que ela estava falando sério ? eu estava esperando que você se mostrasse cavalheiro o suficiente a ponto de eu não precisar pedir, Nick.

? Eu sou, infelizmente. Você não precisa se preocupar que, depois que nos casarmos, eu não cumpra minha parte no acordo. Caro. Nem que eu vá cair sobre você como uma besta selvagem numa noite quando você menos esperar. Não vou... a menos que você queira ? ele acrescentou, insolente, sorrindo novamente. E, como novamente Caroline tinha o rosto vermelho, ele observou: ? Você não está acostumada a ser provocada por um homem, está? De certa forma, acho isso bastante intrigante e muito esclarecedor. Estou começando a perceber que você na verdade não é nem um pouco parecida com a mulher que eu sempre imaginei que fosse. Vamos voltar lá para baixo agora, fazer uma pequena ceia e tomar uma saideira antes que eu a leve de volta ao escritório para pegar seu carro?

? Ah, não. Não é necessário ? ela recusou rápido, com o coração batendo forte no peito depois das observações de Nick a seu respeito. Ele era perspicaz. Caroline percebeu que teria que se defender. Senão, ele logo estaria cavando o caminho sob as defesas que ela havia erguido tão cuidadosamente ao seu redor, as barreiras que protegiam seu coração. ? Realmente. Está ficando tarde, e você ainda terá que voltar para cá depois de me dar carona. Posso comer alguma coisa rápida no caminho para casa.

? O quê? Um hambúrguer gorduroso em alguma lanchonete? Acho que não. Perdoe-me por ser tão direto, mas um corpo como o seu merece coisa melhor. ? O olhar de Nick passeava sobre Caroline, apreciativo. Ele fez um som de aprovação com a boca. ? Confesso que já estou achando que posso me arrepender desse nosso casamento de olhe-mas-não-toque. Muito bem. Imagino que terei que aprender a conviver com isso. Vamos lá. Meu estrogonofe de carne é de comer chorando.

Ele não se gabava à toa, como Caroline percebeu depois que eles desceram até a cozinha. O que deveria ter sido "uma pequena refeição" tornou-se uma produção demorada, como se Nick não tivesse nenhuma pressa em se livrar dela. De fato, Caroline pensou, confusa, ele estava se comportando como se tivessem um encontro amoroso de verdade e ele estivesse dando o melhor de si para merecer-lhe a aprovação. Quanto mais ele exercia seu charme, mais o pulso dela disparava e mais ela se sentia presa num indefinível sentimento de pânico.

Caroline tentava se lembrar que esse era o mesmo homem que por muito tempo ela achara de uma enorme arrogância, dominador e intolerável, um homem de tendências conservadoras do Velho Mundo. Mas isso não ajudou muito.

O jeito esperto de Nick, suas provocações despreocupadas e deliberadamente maliciosas, sua conversa inteligente... tudo contribuía para que Caroline sentisse que estava sendo sugada por um perigoso turbilhão, do qual não havia escapatória. A despeito de seu histórico de família sofisticada, experiente, ela se sentia desnorteada nesse meio, refletiu, sem-graça. Ela não tivera experiência suficiente com homens para saber como lidar com um como Nick Valkov.

Caroline se perguntava o que motivava sua atitude em relação a ela; se sua vontade de agradar e flertar eram uma forma de tentar seduzi-la. Ele tinha uma certa reputação de playboy na Cosméticos Fortune. Teria ele decidido que a perspectiva de um prolongado período de celibato não era atraente? Incapaz de continuar reprimindo sua curiosidade, ela perguntou-lhe por que aparentemente estava procurando causar-lhe boa impressão.

? Achei que tivesse sido claro com você mais cedo, Caro. ? Com um pegador, ele mexeu com destreza a salada que estava preparando, com molho russo, é claro, como ela reparou. ? Dependendo da posição que o SIN tomar em relação ao nosso casamento, podemos ser marido e mulher por um ano... ou até por mais tempo. Eu, pessoalmente, não gosto da idéia de passar tanto tempo da minha vida numa verdadeira zona de guerra. Conhece o velho ditado que diz que o lar de um homem é o seu castelo? Bem, é verdade. E eu quero o meu em paz... e não cheio de hostilidades. Então, claro que estou tentando fazer o melhor para deixá-la à vontade. Pareceu ser a única coisa sensata a fazer... Até agora, eu me gabava de ter um certo trato com as mulheres. No entanto, por suas palavras, parece que, pelos menos com você, estou fracassando miseravelmente.

? Não... não é isso. Não é isso mesmo. Estou apenas... confusa, só isso.

? De que forma?

? Bem, você nunca pareceu tão... Ah, não sei explicar. Você sempre me passou a impressão de ser muito...

? Orgulhoso, egocêntrico, impaciente, exigente e um homem que não se deixa controlar por uma mulher? ? ele deu uma risada suave ao vê-la surpresa. ? Como vê, conheço meus próprios defeitos, Caro... O maior deles é que eu não tenho paciência quando me fazem de bobo ? pegou a panela com o estrogonofe de carne e a pôs em cima da mesa, que já havia arrumado. ? Mas você não é boba. Na verdade, provavelmente você é uma das mulheres mais espertas que eu já tive o prazer de conhecer, e, se você concorda ou não, eu respeito.

? Preferiria que eu fosse burra?

? Não, na verdade não. Prefiro mulheres inteligentes. Mas mulheres inteligentes em geral são também fortes, teimosas, ambiciosas, independentes, sem tolerância nem respeito por homens fracos. Diga a verdade, Caro ? ele provocava, puxando uma cadeira para ela. ? Você acha melhor se casar com alguém como eu do que com algum coitado idiota como Ernie Thompkins, da sala de correspondência?

? Ernie é um cara muito legal ? Caroline se esquivou da pergunta, com destreza.

? Sim, bem, e todos nós sabemos onde eles vão parar, não é? ? Por um instante, ela viu um brilho metálico nos olhos de Nick e soube que com certeza ele nunca terminaria no último lugar. Ele era esperto e determinado demais para isso. ? E não pense que não percebi sua habilidade de desviar da pergunta. Percebi, sim. Então, fique alerta... Você ainda tem muito que aprender se quiser me passar para trás, Caro.

? Por que eu iria querer isso? Não sou de enganar ninguém, Nick, e se existe uma coisa em que acredito, é em honestidade no relacionamento. Tenho certeza de que você sabe o porquê disso.

? Sim, comentaram muito pela empresa sobre você e Paul Andersen ? Nick colocou a salada, o estrogonofe de carne e um crocante pão francês que havia preparado em travessas, e depois pôs um prato para ela. Abriu uma garrafa de Beaujolais de sua pequena adega e serviu-lhe uma taça. ? Isto deve ter ferido seu orgulho, magoado seu coração... saber que o rapaz só estava casando com você por dinheiro.

? Mas esse não é um dos motivos por que você concordou em se casar comigo?

Nick olhou-a firme, com os olhos quase fechados.

? E diferente. Nosso casamento é arranjado, um acordo comercial. Eu nunca enganei você, fingi que a amava para levá-la ao altar. Acho desprezível o que Andersen fez. Agora, coma. Você não é Allie, sua irmã supermodelo, ainda bem. Não precisa sair por aí parecendo uma refugiada esquálida, que acabou de sair da ilha de Robinson Crusoé.

? Como você pode dizer isso? Allie é linda!

? Você também é, Caro ? afirmou Nick, suave, embora seus olhos mostrassem uma estranha seriedade. ? Mas estou começando a entender que você não percebe isso. E que, desde seu caso desastroso com Andersen, você nunca mais teve noção de seu valor como mulher.

Caroline não sabia como responder àquilo. Ela não estava acostumada a ouvir um homem bonito dizer que ela era atraente. Geralmente, ela intimidava os homens. Ou suspeitava que eles estavam interessados apenas na parte dela da riqueza dos Fortune.

Nick, no entanto, não parecia nem um pouco intimidado por ela, e, embora fosse verdade que ele receberia uma boa quantia para casar-se com ela, ele não teria acesso à sua riqueza pessoal. Então não precisava lhe fazer elogios.

Para esconder que estava confusa, ela deu uma garfada no estrogonofe de carne e achou delicioso.

? Está maravilhoso! Onde você aprendeu a cozinhar?

? Bem, quando se é um homem solteiro que aprecia uma boa comida, ou você come fora com freqüência ou aprende a cozinhar por conta própria. Eu escolhi a segunda opção.

? Então, você nunca foi casado? ? Caroline perguntou, curiosa.

? Não. Será a primeira vez para mim.

? Para mim também. Acho que é por isso, além das próprias circunstâncias, que tudo parece tão confuso e desanimador, tão irreal.

? Quando estiver mais acostumada com a idéia, esses sentimentos vão passar, Caro. Daí você, com certeza, vai se tornar uma resmungona, que sabe usar um rolo de macarrão de mais de uma forma. E provavelmente quando eu chegar tarde à noite, você vai me golpear a cabeça, por sair para beber com os amigos.

? Não, não vou ? Caroline declarou com firmeza. ? Já disse a você que planejo interferir o mínimo possível em sua vida, Nick.

? Bem, o tempo dirá, não é mesmo? ? ele retrucou, enigmático.

Depois de comer, Caroline insistiu em ajudar a lavar os pratos e limpar a cozinha. Quando estava tudo quase pronto, Nick deixou-a terminando enquanto voltava ao salão para acender a lareira. O fogo ardia, festivo, no momento em que ela se juntou a ele, e dos alto-falantes saíam baixinho os acordes de A bela adormecida, de Tchaikovsky.

O próprio Nick estava sentado no chão, perto da grande mesa de centro quadrada, em frente à lareira, encostado em um dos sofás geminados. Duas das luminárias Tiffany estavam acesas e duas taças de vinho descansavam na mesinha de centro. Era a cena de sedução típica de diversos filmes, pensou Caroline, engolindo em seco. E ele estava mais do que qualificado para o papel do protagonista.

Mais cedo, antes de preparar o jantar, ele havia tirado o paletó e a gravata, afrouxado o colarinho e arregaçado as mangas da camisa. Agora, vendo-o parado no chão, com as pernas longas e fortes estendidas à frente, ela era forçada a admitir que, não importa o que pensasse sobre ele como pessoa, achava-o terrivelmente atraente.

Ele tinha a cabeça encostada no sofá; os olhos estavam fechados, e ele fumava um cigarro, visivelmente apreciando a música. Por intuição, ela sabia que era assim que ele passava muitas noites longas de inverno, quando não estava ocupado com outra coisa.

? Nick, está ficando tarde. Eu devo ir para casa ? disse ela.

? Sim, eu sei que é isso o que você quer, Caroline ? A voz dele era baixa, sedosa, como o ronronar satisfeito de uma pantera predadora, e ele nem sequer se incomodara em abrir os olhos para olhar para ela enquanto falava. -Mas temo que você será obrigada a passar a noite aqui comigo.

Aquele anúncio inesperado, tudo que Caroline pôde fazer foi arregalar os olhos para ele, horrorizada, em pânico, o coração querendo sair pela garganta, as palmas das mãos suadas. Com aquele tamanho e localização, a casa de Nick tinha que estar em pelo menos uns dois acres de terra, pensou, assim não havia vizinhos próximos a quem ela pudesse recorrer para socorrê-la. E, como ele havia insistido em lhe dar carona, ela não viera em seu próprio carro. Caroline pensou que ele devia ter planejado aquilo desde o começo, para que ela ficasse ali presa, sozinha com ele, sem chance de escapar.

Não, com certeza, ele não podia estar falando sério quanto a mantê-la ali, tentou tranqüilizar-se. Com certeza, ele devia saber que existiam leis contra estupro nos Estados Unidos. Mas Nick era russo, de um país onde as mulheres não tinham tantos direitos e liberdades, tanta proteção legal como na América, seja lá o que valesse isso. Porque, mesmo aqui, as estatísticas de estupros eram terríveis, pior ainda do que os números registrados oficialmente, já que muitas mulheres, por medo ou vergonha, optavam por não denunciar o crime brutal de que haviam sido vítimas. Talvez por isso, Nick achasse que não seria punido se a coagisse.

Caroline não sabia o que dizer nem o que fazer. Ao observá-lo esparramado descuidadamente, os braços e pernas musculosos, ela sabia que não tinha como lutar contra ele. Mesmo se corresse escada acima e se trancasse em um dos quartos, não havia nada que o impedisse de arrombar a porta para chegar até ela.

? Nick, você não pode honestamente querer me manter aqui contra a vontade, ou me forçar a nada ? ela conseguiu proferir a frase com dificuldade, os punhos já fechados, como se começasse a se preparar para lutar com ele.

Aquelas palavras, os olhos dele se arregalaram, seu olhar fixou-se no rosto cinzento de Caroline, nos olhos que mais pareciam pires, cheios de apreensão. Nick resmungou, ríspido, o que ela suspeitou que fosse um palavrão, embora não pudesse ter certeza, porque ele falou em russo. Em seguida, ele se pôs de pé num pulo e aproximou-se dela determinado, o rosto duro, um músculo latejando em sua mandíbula retesada.

Horrorizada, Caroline gritou e se virou para fugir. Mas ele a agarrou antes que ela estivesse na metade do caminho até a porta. Frenética, ela começou a bater nele, descontrolada, socando com os punhos seu peito largo, arfando e soluçando protestos, enquanto ele agarrava firme seus antebraços, recusando-se a soltá-la e repreendendo-a, furioso, em russo.

Depois de vários minutos, longos e horríveis, Nick finalmente percebeu que, no calor do momento, havia começado a falar sua língua materna, e que ela não podia entendê-lo. Bruscamente, voltou a falar inglês.

? Caroline, pare! Pare com isso! Pare de brigar comigo! ? disse, irritado, sacudindo-a enquanto ela batia em seu peito mais uma vez. ? Eu não vou machucá-la, droga. Meu Deus! Que diabo de homem você pensa que eu sou, afinal? Quis apenas dizer que, mesmo se você me ameaçasse com uma arma na cabeça, eu não poderia levá-la de volta para a cidade esta noite. Você já deu uma olhada lá fora?

Ela olhou então pela enorme fileira de janelas e engasgou com a visão que seus olhos amedrontados e cheios de lágrimas captaram. Estava nevando, e muito, já há algum tempo. Era provável que a longa e sinuosa entrada de carros da casa estivesse soterrada.

? Não posso sair com meu limpa-neve até amanhã de manhã, quando haverá luz suficiente para ver o que estou fazendo ? disse ele.

? Oh, Nick, sinto muito ? falou Caroline, mortificada e constrangida. ? Eu me sinto uma boba... tão envergonhada. Pensei... pensei...

? Eu sei o que você pensou, ora! O motivo para você ter pensado é o que me deixa tão furioso! E isso mesmo que você pensa de mim, Caroline? Que sou o tipo de homem que a estupraria? Pelo amor de Deus!

? Não... não, claro que não. Mas é que... bem, você é grande e forte, extremamente viril e... estrangeiro... com o que nós sempre chamamos de padrões de pensamento conservador do Velho Mundo. Então, quando você disse aquilo, eu... tirei uma conclusão precipitada... é isso. Sinto muito.

A voz dela foi sumindo, e ela mordeu o lábio inferior, incapaz de olhar nos olhos dele, e seus próprios olhos se enchendo de lágrimas novamente. Depois de um instante, ela continuou, mais tranqüila.

? Você não sabe, Nick... você não pode saber porque eu nunca contei a ninguém... mas na noite em que confrontei Paul com o fato de querer se casar comigo por dinheiro, ele enlouqueceu e... me atacou. Ele havia bebido muito naquela noite, então não sei o que ele estava pensando. Quero dizer, não era como se nós... não tivéssemos dormido juntos antes, ou que forçar uma barra comigo me faria mudar de idéia e casar com ele. De qualquer forma, se ele não estivesse tão bêbado, eu não teria sido capaz de me defender. Mas mesmo tendo conseguido tirá-lo do meu apartamento, eu ainda me sentia tão estúpida e humilhada por ter sido enganada por ele que... eu não conseguia me forçar a confiar em qualquer homem o suficiente para deixá-lo se aproximar de mim.

? Shhh. Tudo bem, Caro. Mesmo. Eu entendo ? murmurava Nick, consolando-a, enquanto as lágrimas caíram dos olhos de Caroline.

Ele a tomou nos braços, apertando-a de encontro a seu corpo definido. Durante a briga, o cabelo dela havia se soltado do coque elegante e agora Nick delicadamente tirava o resto dos grampos, ajeitando com os dedos o cabelo que caía pelos ombros dela como uma massa grossa e negra. Ele conseguiu retirar-lhe também os óculos de casco de tartaruga, colocando-os em uma mesa ao lado.

Buscando conforto e consolo, Caroline não se opôs. Perdida na dor de seu passado, ela nem mesmo se dava conta. Mas pouco tempo depois, ela passou a ter plena consciência de como estava apertada contra o corpo duro e quente de Nick, da batida forte e firme do coração dele contra seu ouvido, de como ele acariciava seu cabelo desfeito e suas costas de um modo reconfortante, e do fato que, embora quisesse realmente apenas oferecer consolo, ele ficava excitado pela proximidade dela.

Involuntariamente, Caroline olhou para ele, os olhos castanhos atônitos e confusos, a boca se separando num pequeno arquejo de surpresa. Quando os olhos quase negros de Nick se encontraram com os seus, tomaram-se ainda mais escuros, reluzindo como rocha vulcânica enquanto ele olhava para ela. Ele praguejou, e, antes que ela se desse conta, os lábios dele capturaram os seus.

No começo, o beijo dele foi hesitante, carinhoso. Mas como, apanhada de surpresa, Caroline não reagiu, a boca de Nick tornou-se mais dura, mais faminta, mais exigente. A língua dele passeou pelo contorno de seus lábios antes de forçá-los a separar-se e invadir sua boca, provando e explorando. Involuntariamente, Caroline sentiu uma onda repentina de desejo e excitação subir por seu corpo, deixando-a em chamas. Contra sua própria vontade, os seus braços se estenderam para envolver-lhe o pescoço, enquanto os braços dele apertaram-se em volta dela, as mãos se enroscando em seu cabelo.

Em algum canto de sua mente desorientada, ela pensava vagamente que ele havia escolhido a profissão certa; porque havia mesmo uma química muito forte entre eles... agitando-se como um líquido combustível num béquer aquecido sobre um bico de Bunsen, a ponto de explodir. Mas àquele pensamento, Caroline reconhecia que, ao não protestar, ao deixar que Nick a beijasse e a acariciasse daquele jeito, ela, sem dúvida, estava dando a ele a impressão errada: que ela era dele por merecimento, tanto naquela noite como enquanto durasse o casamento deles.

Bruscamente, afastou-se, tremendo pela ânsia que ele havia despertado nela, os joelhos tão fracos de repente que ela foi forçada a apoiar-se numa mesa próxima para manter o equilíbrio. Levou a outra mão à boca, úmida e aquecida pelos beijos dele.

? Nick, está ficando tarde, então, se não se importa, eu gostaria de ir para a cama agora ? disse ela, sem fôlego, e vermelha de raiva ao perceber o que acabara de dizer, o duplo sentido não intencional de suas palavras.

? Hummm. Me parece realmente uma boa idéia ? ele arrastou as palavras, em resposta, os olhos sonolentos sob pálpebras semicerradas, um sorriso enigmático se esboçando em seus lábios.

? Não foi o que eu quis dizer... e você sabe disso!

? Sei, benzinho? E você tem certeza de que não teve intenção? ? Os olhos dele tinham um brilho malicioso e seu sorriso se alargava enquanto ela balançava a cabeça, séria, antes de ajoelhar-se para catar os grampos espalhados pelo chão, levantando-se em seguida para pegar os óculos de cima da mesa. ? Muito bem. Nunca deixe ninguém dizer que eu não sei aceitar uma derrota com elegância. Acho que vou ter que me consolar com o fato de que pelo menos consegui vê-la com o cabelo solto e sem os óculos... De certa forma foi um prêmio de consolação.

Ele a acompanhou pelas escadas até o quarto que ela havia escolhido e lhe deu uma de suas camisas para ela dormir. Como sabia que só precisaria usar novamente seu terno de lã branco na manhã seguinte, Caroline o pendurou no closet com cuidado depois de despi-lo. Tomou um banho de banheira no banheiro anexo ao quarto e lavou sua lingerie na pia, estendendo-a no descanso de toalhas para secar. A camisa de Nick ficava muito grande nela, chegando-lhe quase aos joelhos, as mangas tão longas que ela teve que arregaçá-las.

Estava se ajeitando para ir para a cama quando ele bateu, delicadamente na porta fechada do quarto. Ao atender, Caroline abriu-a somente um pouquinho, desconfortável e consciente do fato de que estava nua em pêlo sob a camisa dele. O olhar de Nick passeou por todo o corpo dela, admirando-a, demorando-se por suas pernas longas e nuas, e em seguida pelo colarinho aberto que mostrava boa parte de sua pele ? sem contar a pulsação disparada, irregular, na cavidade de sua garganta ? antes de descansar no rosto dela.

? Eu... bem... queria apenas verificar se você precisa de mais alguma coisa antes de ir para a cama ? ele explicou.

? Não, obrigada. Estou bem. ? Sem graça, Caro fechou o colarinho da camisa, perguntando-se, ansiosa, se, com o abajur aceso, ele podia ver seu corpo nu através do fino tecido branco.

? Ótimo. Bem, se acontecer de você mudar de idéia, já sabe onde me encontrar ? disse Nick, e ambos sabiam muito bem que aquelas palavras tinham duplo sentido. ? Boa noto, Caro. Tenha bons sonhos.

? Boa noite, Nick.

Caroline fechou a porta com firmeza, consciente do fato de que ele ainda estava parado no corredor, esperando para ver se ela trancaria a porta. Se o fizesse, ele saberia que ela não confiava na palavra dele. Mas se não o fizesse, ele poderia perceber aquilo como um convite, pensou. Dividida, ela não sabia o que fazer. Para seu alívio, depois de um tempo, ouviu-o rir suavemente, entendendo seu dilema.

? Tranque, Caro, se isso vai lhe fazer sentir-se melhor. ? Então ele saiu, silencioso, pelo corredor.

Caroline deitou-se na cama, mas apesar de exausta pelo dia desgastante, não conseguia dormir, permanecendo acordada até altas horas, revolvendo-se na cama, sem descanso.

Lembrou-se da sensação da boca de Nick sobre a sua, a reação intensa que ele havia lhe provocado. E disse a si mesma, num ímpeto, que, se tivesse um mínimo de bom senso, escaparia daquele casamento arranjado na primeira oportunidade, amanhã... antes que fosse tarde demais.

Capítulo 5

Naquela manhã, Caroline descobriu que era tarde demais para mudar de idéia, que sua chance de cancelar o casamento já havia sido perdida... se é que realmente houve uma.

Ela achou que talvez não tivesse tido chance. Sua consciência e lealdade à família sempre haviam ditado seus atos, e aquela situação não era exceção. Assim, após vestir-se e arrumar-se, desceu as escadas resolvida a dizer a Nick que não levaria adiante o casamento; no entanto, as palavras morreram em seus lábios quando o viu.

Ele vestia um elegante terno Armani preto; o paletó e a gravata estavam atirados sobre uma das cadeiras em volta à mesa da cozinha, sobre a qual havia um par de abotoaduras de ouro Cartier. O colarinho de sua fina camisa branca Turnbull & Asser estava aberto, e as mangas arregaçadas mostravam antebraços fortes e um Rolex de ouro em torno de seu pulso esquerdo. O cabelo grosso e escuro, penteado para trás, brilhava como se tivesse acabado de ser lavado e ainda estivesse úmido.

Ao vê-lo, Caroline sentiu o coração dar reviravoltas no peito e pensou que ninguém devia ser tão bonito logo de manhã.

Ela percebeu que Nick devia ter se levantado pelo menos duas horas antes dela porque, ao olhar pela fileira ampla de janelas, observou que haviam acabado de limpar a neve da passagem de carros. Ele também preparara o café da manhã, que a esperava na mesa da cozinha: omeletes, bacon canadense, frutas, croissants e café quente.

? Bom dia, Caro. ? Ele a cumprimentou com um sorriso e, tomando-a de surpresa como fizera na noite anterior, abaixou-se para tocar-lhe os lábios com os seus, como se já fossem marido e mulher e aquele fosse o habitual ritual matutino. ? Você dormiu bem?

? Sim ? mentiu, pois não queria que ele soubesse que ficara acordada até altas horas, revirando-se agitada na cama e pensando nele. Devia lhe contar logo, sem rodeios, que havia decidido não levar adiante o casamento, dizia Caroline a si mesma. Mas, para seu próprio desânimo, quando olhava para ele, as palavras entalavam na garganta.

? Sente-se, querida ? jogando um pano de prato de qualquer maneira sobre o ombro, Nick puxou uma cadeira para ela. ? Você está com fome?

? Estou, sim. ? Para sua surpresa, Caroline descobriu que realmente estava, apesar de não comer muito no café da manhã. ? Mas você não precisava preparar tudo isso, Nick. Em geral, de manhã, eu só tomo uma xícara de café e como uma torrada.

? Foi o que suspeitei ? ele respondeu. ? Entretanto, comida é como um vinho fino ou uma boa mulher. Deve ser aproveitada e apreciada. Por isso, faremos o possível para evitar tomar um café da manhã apressado em nossa casa.

Caroline ficou tão perplexa com esse último comentário que não sabia como responder. Por outro lado, ele parecia, mesmo que agradavelmente, estar exercendo um comando ditatorial, esperando que, por ser homem ? e, sem dúvida, o chefe da casa ? suas palavras fossem obedecidas como lei. Perceber aquilo a encheu de indignação.

Por outro lado, ela também não deixou de reparar que seu discurso continha expressões como nós e nossa casa. Embora insistisse consigo mesma que aquilo não significava nada, que eram apenas figuras de linguagem, Caroline não podia reprimir o estranho e inesperado tremor que subia por seu corpo, a esperança súbita e selvagem que saltava em seu peito.

Será que ele estava procurando deixar pistas de que pretendia que o casamento fosse real? Ela não sabia e tinha medo de perguntar. Afinal, dividida entre seus princípios e seus desejos, e sem querer começar uma briga à mesa de café da manhã, ela se contentou em responder "sim, Nick", perguntando-se, desconfortável, se, com essas duas palavras simples, acabava de trair todo o pensamento feminista no mundo inteiro.

A essa sensação de conflito somava-se o fato de que, ao ouvir sua resposta, Nick sorriu-lhe em aprovação, satisfeito como se ela fosse um cachorrinho que tivesse seguido, com sucesso, o comando do dono. Caroline quase esperou que ele se aproximasse e lhe desse um tapinha na cabeça. E pensou que, se ele o fizesse, levaria um ovo no rosto. Felizmente ? e ela tinha uma sensação muito estranha de que de alguma forma ele lia seu pensamento -, ele não fez nada tão desagradável e diligentemente pôs-se a comer.

? Você planeja continuar cozinhando depois que nos casarmos, Nick? ? Caroline perguntou, curiosa, enquanto ela também atacava seu prato.

? Não. Já que ambos trabalhamos, achei que fôssemos dividir as tarefas domésticas. Só não vou esperar que você corte a grama no verão ou limpe a neve no inverno.

? Bem, muito generoso de sua parte ? ela comentou, seca.

? Sim, eu pensei que fosse ? Nick abriu um sorriso largo ao ver a cara irritada dela. ? Sabe quantas mulheres cultivam os campos da Rússia?

? Muitas, sem dúvida... já que os maridos provavelmente estão caídos em algum canto, dormindo sob os efeitos da vodca!

Nick riu alto com o comentário.

? Não precisa se preocupar, benzinho. Gosto de me exceder em algumas coisas, mas a vodca não é uma delas. ? Os olhos dele a examinaram licenciosamente, deixando claro o que ele queria dizer e fazendo o pulso dela disparar. Ela sentia o calor lhe subindo às faces. ? Quer manteiga ou geléia no seu croissant?

? Manteiga ? Caroline achou que seria mais sensato não tentar competir com ele. Parecia que ele estava sempre um passo à frente dela. E, em sua opinião, aquilo era raro para um homem. Somente Paul havia conseguido enganá-la porque ela o amava. Ela não podia cometer o mesmo erro com Nick; devia permanecer alerta e não permitir que as emoções se sobrepusessem ao seu bom julgamento. ? Por que continua me chamando assim: benzinho?

? Porque é isso que você será esta manhã: benzinho.

? Não estou entendendo...

? Bem, então, vou explicar a você. Vamos nos casar hoje, antes de chegar ao escritório. ? De forma casual, Nick passou manteiga no croissant dela, como se não tivesse consciência do efeito que suas palavras haviam causado.

? O quê? ? ela gritou, abalada.

? Caro... ? ele apoiou a faca, limpou as mãos com o guardanapo de linho e prosseguiu com a mesma paciência com que falaria a uma criança. ? Sua secretária nos viu sair juntos ontem à tarde. Você passou a noite comigo. Viu que eu não mordo. Então, não há razão para esperarmos... para que você fique exposta a boatos ou rumores no trabalho. Se formos para o trabalho hoje de manhã e anunciarmos que estamos casados, toda a fofoca vai se concentrar nisso. Receberemos os parabéns por sermos tão espertos em esconder nosso relacionamento e por conseguirmos agarrar um ao outro.

Bem no fundo, Caroline sabia que ele tinha razão, que sua lógica era irrefutável. Ainda assim, com a mesma sensação de pânico que a possuíra na noite anterior, ela protestou.

? Ah, Nick, não sei. Foi tudo tão de repente. Eu... eu não tenho certeza se estou preparada.

? Esperar mais alguns dias não vai livrá-la dessa incerteza, meu bem. Você teve uma experiência ruim com Andersen e por isso perdeu a confiança em todos os homens. Você mesma já admitiu isso. Então, o que você está sentindo não tem nada a ver comigo pessoalmente, mas com os homens em geral. É provável que nosso casamento seja bom para você, Caro. Você terá a chance de viver perto de um homem... de mim... e ter um relacionamento sem ser pressionada por expectativas sociais ou compromisso emocional. Isto lhe dará a oportunidade de aprender que nem todos os homens são como Andersen e que nem todos os relacionamentos com um homem seguirão o mesmo padrão negativo.

? Pensei que você fosse doutor em química, não em psicologia, Nick. ? Caroline observou, seca, ainda que soubesse, do fundo do coração, que ele fizera um diagnóstico acertado do que lhe magoara e receitado o que parecia um remédio apropriado.

? Química foi a profissão que eu escolhi, é verdade. Mas isso não impede que eu tenha uma compreensão perspicaz da natureza humana, meu bem. Então, decida e não discutiremos mais sobre isso. Você quer se casar comigo ou não?

Essa era sua chance de escapar, pensou Caroline, com o coração disparando. Ela só tinha que responder que não.

? Sim ? foi o que ela se ouviu dizendo.

? Ótimo. Agora termine seu café e saímos.

Quando eles terminaram de comer, tiraram a mesa juntos e limparam os pratos, colocando-os no lava-louças. Após ajeitar as mangas da camisa, Nick enfiou as abotoaduras nos punhos, arrumou a gravata e ajeitou o paletó nos ombros. Ajudou-a com o casaco de lã de camelo, vestiu o sobretudo preto e pegou sua pasta e a dela. Depois disso, apagou as luzes.

Na semi-escuridão da cozinha, iluminada tão-somente pela luz cinzenta de inverno que se infiltrava pelas janelas sem cortina, ele tomou o queixo de Caroline com a mão, erguendo o rosto dela em direção ao seu.

? Pobre criança ? ele sorriu para ela, gentil e pesaroso. Você parece mesmo um cordeiro sendo levado para o abatedouro. Você me acha realmente um ogro?

? Não ? ela admitiu, assustada e comovida pela gentileza e compreensão que via nos olhos dele. ? Nick, antes de sairmos, eu só quero lhe dizer que, embora saiba que não sou a esposa que você escolheu, tentarei pelo menos ser uma boa esposa para você pelo tempo em que formos casados.

? E eu serei um bom marido para você, Caroline. Eu entendo e agradeço o sacrifício que vocês estão fazendo por mim, e você nunca terá motivo para se arrepender desse dia, eu juro.

Como Minnesota é um estado do norte, acostumado a invernos longos, duros e frios, as Cidades Gêmeas estavam bem equipadas para lidar com as piores nevascas, e o faziam com eficiência. Os limpa-neve haviam sido usados de manhã cedo, e a estrada até Mineápolis estava limpa. Naquele momento, Nick parou o carro em frente ao cartório. Ele desligou a chave na ignição e virou-se para Caroline.

? Está preparada? ? perguntou ele, com um sorriso encorajador.

Ela respirou fundo.

-Sim.


? Não, você não está, na verdade... não muito. Então, antes que ela percebesse sua intenção, Nick se abaixou, pegou seus cabelos, envoltos no coque costumeiro, e começou a tirar os grampos, deixando que eles escorressem pelos ombros, num longo e brilhante emaranhado de cabelo negro.

? Nick! Nick, o que você está fazendo? ? gritou Caroline, horrorizada, tentando, sem sucesso, fazê-lo parar.

? Eu não gosto do seu cabelo desse jeito, então estou arrumando ? respondeu ele, tranqüilo e ignorando os protestos dela.

Ela tentou arrancar os grampos da mão dele, mas ele apertou o botão do vidro automático do carro e atirou-os no estacionamento. Depois, agarrou os óculos de tartaruga sobre seu nariz esbelto e finamente esculpido. Levando-os aos próprios olhos, disse, em voz arrastada:

? Exatamente como eu pensei. Você não precisa mesmo deles para enxergar. Ora, se essas lentes são de grau, eu como meu jaleco. ? Em seguida, para constrangimento de Caroline, ele também atirou seus óculos no estacionamento.

Caroline estava a ponto de se jogar do carro para recuperá-los, quando, antes que pudesse abrir a porta, um automóvel passou com os pneus da frente por cima dos óculos, esmagando-os.

? Meu Deus! Não acredito no que você acaba de fazer ? Ela olhou para ele como se nunca o tivesse visto antes, chocada e abalada. ? Por que você fez isso?

? Porque você tem um cabelo lindo... que me lembra uma marta-da-sibéria, encorpado, lustroso e tão incrivelmente suave ao toque... E grandes e bonitos olhos castanhos que se parecem melaço derretendo sob uma chama. Quero ver seus cabelos e seus olhos, Caro. Como seu marido, o que serei em apenas alguns minutos, tenho esse direito. E, como acho que você não mudaria por mim, eu mesmo faço isso por você. Agora você está com a aparência que uma mulher deve ter: adorável, feminina, vulnerável e convidativa... do modo como quero que minha noiva pareça. Vamos?

Por mais que tivesse ficado contrariada, Caroline percebia que não fazia sentido discutir com Nick. Apesar de reivindicar o contrário, ele não tinha o direito de ter feito o que fez. Ainda assim, suas palavras sobre o cabelo e os olhos dela faziam com que ela se arrepiasse, se sentisse lisonjeada, e amansavam a moça tanto quanto os gestos dele a irritavam.

Ela concordou com a cabeça, concisa.

? Sim, vamos resolver logo isso.

Apesar de normalmente haver um período de espera, o juiz que presidia era amigo da família Fortune, e foi com satisfação que fez uma concessão. Depois disso, a cerimônia inteira durou menos de quinze minutos. Uma vez que eram marido e mulher, Nick segurou Caroline e deu-lhe um beijo demorado, completo, a língua seguindo a curva dos lábios antes de se insinuar para dentro de sua boca. Quando ele a soltou, ela estava tonta e tremendo de excitação. Ela se surpreendeu que com apenas um beijo ele lhe provocasse tudo aquilo. Nunca havia se sentido assim com Paul.

? Venha, senhora Valkov ? a voz de Nick a trouxe de volta de seu devaneio. ? É hora de ir para o trabalho.

Senhora Valkov foram as duas únicas palavras que ela registrou. Inconscientemente, Caroline olhou para sua mão esquerda. No dia anterior, na hora do almoço, Nick havia comprado um conjunto de alianças de casamento. Caroline não esperara aquilo. Se houvesse sequer pensado nisso, teria imaginado vagamente que ele lhe daria uma pulseira lisa de ouro. Mas agora, a aliança resplendente ? refinada, com muitos diamantes ? reluzia, fazendo com que ela soubesse que não era um sonho, e que realmente não era mais a senhorita Fortune, mas a senhora Valkov.

? Caro?

? Sim, Nick. Estou indo. ? Céus, Caro pensou, enquanto respondia, devo estar fora de mim para continuar levando adiante essa história. Estou parecendo uma pobre mulher sem vontade própria. "Sim, Nick" isso e "Sim, Nick" aquilo. Estou em estado de choque. E como me sinto.



Mas não foi ela, mas Kate, Jake e Sterling que descreveram a situação mais adequadamente quando Nick e Caroline chegaram à Cosméticos Fortune.

? O quê? ? exclamou Kate ao ouvir a notícia do casamento. Olhando para os dois, boquiaberta, ela sentou-se tão bruscamente em sua cadeira de trabalho que o bracelete de ouro com pingentes que sempre usava repicou como sinos de Natal. O bracelete lhe havia sido dado por seu finado marido, Ben, e, com o nascimento de cada filho e neto na família, um novo pingente era acrescentado. O bracelete agora era pesado e valioso. ? O que você quer dizer com isso... você se casou hoje de manhã? Pelo amor de Deus, Caroline, onde você estava com a cabeça? Você é uma Fortune, por Deus! Minha neta mais velha! ? Os olhos azuis de Kate faiscavam de fúria e suas faces ardiam. ? Você merecia um casamento esplêndido... não uma passagem de dez minutos pelo cartório, como se fosse um caso clandestino!

? E não é? ? Nick perguntou, ríspido, nem um pouco intimidado pela fúria de Kate. ? Este é o nosso casamento... meu e de Caro... e fizemos o que achamos que fosse melhor, dadas as circunstâncias.

? Quer dizer, melhor para você! ? Jake resmungou, tomando partido da mãe e encarando Caroline e Nick. -Você sabia que uma das coisas que Sterling estava fazendo essa semana era esboçar um acordo pré-nupcial, assim a fortuna pessoal de minha filha estaria salva!

Diante da acusação ofensiva de Jake, Nick praguejou baixinho em russo ? as mesmas palavras que Caroline achava tê-lo ouvido dizer na noite anterior -, e ela soube que ele estava furioso.

? Eu não quero nada do maldito dinheiro de Caro! ? ele reagiu com veemência em inglês, os músculos do maxilar retesados. ? Devido a uma série de investimentos inteligentes que fiz ao longo dos anos, tenho dinheiro suficiente para mim, obrigado! Então, posso assinar qualquer papel que você queira, Jake. Apenas envie-os ao laboratório quando estiverem prontos!

? Espero que mantenha a palavra sobre isso, Nick! -retrucou Jake, furioso.

? Papai... papai... por favor ? Caroline implorou, aborrecida com a discussão, embora soubesse que o pai só estava tentando protegê-la. ? Eu sei que você está irritado, mas Nick não vai roubar meu dinheiro. Ele não é esse tipo de homem!

Jake riu com desdém.

? Quero recordar, amorzinho, que foi exatamente o que você disse sobre Paul Andersen... e veja o desastre em que acabou aquele caso!

? Nem pense em meter aquela cobra pegajosa neste assunto, Jake! ? Nick sibilou, estreitando os olhos escuros. ? Paul Andersen é um idiota desprezível! Além do mais, quero lembrar-lhe que a idéia de me casar com Caroline partiu de você, Kate e Sterling. E simplesmente porque permiti que vocês três arrumassem nosso casamento, isto não significa que pretendo deixar que o controlem! Caro e eu somos perfeitamente capazes de administrar nossos assuntos.

? Talvez você tenha razão, Nick ? Kate declarou, inesperadamente; seus olhos agora brilhavam de curiosidade e fascínio ao olhar, pensativa, para a noiva e o noivo.

Kate não pôde deixar de reparar que, apesar de Caroline e Nick não estarem apaixonados e estarem casados há cerca de uma hora, eles, no entanto, pareciam já ter formado uma sólida parceria. Haviam se unido para justificar a ida impetuosa ao cartório naquela manhã e também defendiam o caráter um do outro.

Além do mais, a mão esquerda de Caroline ostentava uma aliança de casamento em diamantes que qualquer mulher invejaria ? e que Nick não precisava ter comprado. A avó também não passou despercebido o fato de que, pela primeira vez em mais de cinco anos, sua neta havia aparecido no trabalho com o cabelo solto e sem aqueles ridículos óculos de tartaruga, que ela sempre insistia em usar.

Essa manhã, Caroline aparentava a moça jovem e bela que era, pensou Kate, ao examinar a neta com ternura. E ela não podia deixar de acreditar que Nick havia sido o responsável por essa bem-vinda mudança. No final das contas, o esquema parecia estar começando muito bem, decidiu Kate, secretamente satisfeita, agora que sua raiva pelo fato de eles terem resolvido tudo por conta própria havia diminuído.

? Concordo que nós três não temos nenhum direito de nos meter em seus assuntos e de Caroline, Nick ? declarou ela. ? No entanto, estaria mentindo se dissesse que não estou decepcionada por não poder dar a Caroline a adorável despedida que ela merece. Talvez você me permita uma gentileza, concordando em manter o casamento de vocês em segredo tanto quanto for possível, por enquanto. Assim, ainda podemos planejar uma grande cerimônia, mesmo que alguns meses depois. E nenhum de vocês dois terá deixado passar esse acontecimento, que deve ser um dos mais memoráveis na vida de qualquer pessoa, perdendo apenas para o nascimento dos filhos. O que me diz sobre isso, Nick?

Ele olhou para Caroline em silêncio, e em seguida de novo para Kate.

? Está ótimo... e sei que falo por nós dois quando digo o quanto agradecemos tanto sua oferta quanto sua compreensão, Kate.

? Ótimo. Enquanto isso, por que você e Caroline não passam o resto da semana fora, numa rápida lua-de-mel? Vou mandar minha secretária fazer uma reserva, por que não? ? Kate sugeriu, propondo um lugar tranqüilo e adorável na fronteira com o Canadá, que ela achava que seria o cenário ideal para uma lua-de-mel. ? Vocês podem voar no avião da empresa; assim, chegarão lá bem rápido.

? Obrigada, vovó ? disse Caroline, afetuosa. Embora a perspectiva de viajar para qualquer lugar sozinha com Nick, em lua-de-mel, deixasse a moça tensa, ela estava feliz por escapar das inevitáveis fofocas que começariam a circular na Cosméticos Fortune, não importa o quanto ela e Nick mantivessem segredo. ? Se é só isso, então Nick e eu vamos fazer os arranjos necessários para garantir que as coisas corram bem em nossos departamentos durante nossa ausência.

? Ótimo ? Kate aprovou com a cabeça. ? Façam isso. Vejo vocês mais tarde.

Assim que os recém-casados deixaram a sala, Jake virou-se para sua mãe, com ar de reprovação.

? No que está pensando, mamãe? Você, que antes estava enfurecida, agora se mostra radiante... Você praticamente deu a Caroline e Nick sua bênção. Você acredita que isso foi sensato? Afinal, além do que descobrimos quando verificamos seus antecedentes, o que sabemos realmente sobre Nick? E se o SIN estiver certo e ele for mesmo um antigo agente da KGB? E se ele decidir não manter a palavra e se recusar a assinar o acordo pré-nupcial?

? Ele não é. E não vai.

? Como pode ter tanta certeza, Kate? ? perguntou Sterling, falando pela primeira vez.

? Chame de intuição feminina, se preferir. Mas eu sei. Tenho certeza. Você não percebeu uma mudança em Caroline?

? Bem... sim, agora que você mencionou, havia alguma coisa diferente nela ? respondeu Jake. ? Como se ela estivesse usando nossos futuros tons de maquiagem para primavera ou algo assim. Achei-a mais atraente do que de costume esta manhã.

? Sim ? Sterling concordou. ? Eu também.

Kate olhou por um instante para os dois homens, irritada.

? Vocês dois não veriam um urso se aproximando até que ele pulasse e mordesse seus traseiros! Abram os olhos! Caroline parecia diferente porque não tinha o cabelo preso num coque e não estava se escondendo por atrás daqueles óculos que, para começar, ela nem precisa. E, apesar de um pouco nervosa, como toda noiva recente, ela não estava infeliz. Tinha o brilho inconfundível de uma mulher se apaixonando. Ela só não sabe ainda, então vejam bem... não vão dizer nada a ela. Nem a Nick tampouco. Porque a menos que meu palpite esteja errado, e muito raramente está, vocês sabem... ele está tão atordoado quanto ela mas talvez não tão ignorante do fato. Ouçam o que eu digo, vocês dois. Esse casamento vai acabar sendo uma das melhores coisas que já arranjei! Ora, aposto que vou ganhar pelo menos dois netos com esse acordo, se não mais! ? Kate deu uma risada satisfeita ao pensar nisso. -Agora, vamos! Tenho reservas de lua-de-mel a fazer e um casamento para começar a planejar!

Balançando a cabeça e confusos com o comportamento dela, Jake e Sterling deixaram o escritório, sem querer dar voz à idéia que vinha à mente de ambos: que talvez Kate estivesse ficando senil.

Adivinhando o que eles estavam pensando, Kate riu consigo mesma depois que eles saíram e fecharam a porta. Homens!, ela pensou, com pesar. Nunca tinham a menor idéia de nada. Se dependesse dela, as mulheres estariam não só dirigindo empresas ? estariam dirigindo o mundo!

Capítulo 6

Fiel à sua palavra, Kate havia deixado o jatinho da Fortune à disposição de Caroline e Nick. Uma limusine, também providenciada pela avó, levara os dois ao aeroporto. Outra limusine os apanhara ao final da viagem e os levara até Maplewood Lodge.

Era um lindo retiro rústico, às margens de um lago, no meio de uma floresta de bordos. Em vez de quartos, havia chalés individuais, e enquanto a limusine passava pela trilha de terra escorregadia pelo gelo e neve, pareceu a Caroline que ela e Nick haviam sido enviados ao mais isolado e recolhido de todos.

? Vovó deve ter vindo aqui no verão, quando aposto que esse lugar é maravilhoso ? comentou Caroline ao olhar pelas janelas escurecidas do carro, em que a neve batia suavemente pouco antes de ser derretida pelo aquecedor. ? Provavelmente ela nem imaginou que não seria a mesma coisa no inverno.

? Ainda assim, é adorável ? disse Nick. ? Me faz lembrar a Rússia.

? Você deve sentir muita falta do seu país.

? Sim... mas não o suficiente para voltar para lá de vez. E agora, graças a você, não precisarei fazer isso. Sei que meus motivos para casar foram terrivelmente egoístas, Caro. Mas, ainda assim, serei sempre grato pelo que você fez por mim. ? Os olhos escuros dele a admiraram, calorosos, e ela enrubesceu.

? Nem pense nisso. Do meu ponto de vista, era a única coisa a fazer para salvar a fórmula secreta de juventude da vovó. Meu motivo também foi muito egoísta, Nick.

Com um solavanco, a limusine parou em frente ao chalé. O motorista saiu para abrir a porta do carro enquanto o mensageiro que os acompanhara desde o alojamento entrou no chalé e desapareceu. Tomando a mão de Caroline, Nick a ajudou a sair da limusine. E, antes que ela percebesse, ele a suspendeu em seus braços fortes, carregando-a pelo jardim até a entrada do chalé.

? Nick! Ponha-me no chão! ? ela gritou, constrangida pelos sorrisos largos que via nos rostos do motorista e do mensageiro ao assistir sua luta inútil para se libertar.

? Quieta, Caro ? exigiu Nick. ? E pare de me bater, pelo amor de Deus! Estou apenas cumprindo minha obrigação como marido. ? No chalé, ele finalmente a pôs no chão, com um sorriso tão largo quanto os dos dois outros homens. Gentil, ele tirou um restinho de neve do cabelo dela. ? Um noivo deve carregar a noiva pelo umbral... ou estou errado quanto a isso ser um costume nos casamentos americanos?

? Não, você está certo. Eu... bem... tinha me esquecido, foi isso ? Caroline disse, hesitante. Na verdade, como o casamento deles era arranjado, ela não esperava que ele seguisse as tradições. Mas, como estava começando a aprender, não havia nada sobre Nick que ela pudesse tomar como certo. Ele sempre a surpreendia.

Quando o motorista da limusine trouxe a bagagem deles e as compras que haviam feito a caminho do hotel, o mensageiro abriu as cortinas e ligou o aquecedor do chalé, que estava frio. Caroline tirou o casaco e as luvas e parou para olhar em volta.

O interior do chalé não era tão rústico quanto o exterior. Para manter o tema rural, a mobília era uma mistura eclética dos estilos inglês e francês; no entanto, era luxuoso, o que a fez lembrar da casa de Nick. Sofás confortáveis de dois lugares ocupavam os dois lados da lareira de pedra, que subia até o telhado de vigas. Cristaleiras, aparadores e mesas de estilo antigo se espalhavam pelo espaço. Tapetes ornamentais se estendiam sobre o chão de madeira de lei. Ao lado da sala de estar havia uma pequena cozinha. Por uma porta no lado oposto da sala chegava-se a um quarto e um banheiro.

Nick havia dado gorjeta ao motorista e ao mensageiro, e eles já haviam saído, deixando os recém-casados a sós.

? Nick! ? Caroline gritou para chamá-lo enquanto olhava firme para o quarto dominado por outra lareira, um armário e uma enorme cômoda de pinho, e uma cama de dossel, coberta com uma colcha dobrada na forma de aliança de casamento. ? Nick! Acho que houve algum engano... devem ter reservado o chalé errado para nós.

? Por quê? ? ele aproximou-se.

? Bem, veja. Só tem... só tem um quarto de dormir. Não pode estar certo. Vovó sabe das circunstâncias do nosso casamento. E certamente teria reservado um chalé de dois quartos. Você devia ligar para a recepção e falar com eles.

? Falar o quê, Caro? Que, apesar de sermos recém-casados, não queremos o chalé de lua-de-mel? Porque foi o que o mensageiro me disse que esse chalé é. Veja lá fora. ? Ele se moveu em direção às janelas, pelas quais ela via que já estava escurecendo e que a neve caía mais forte. ? Você realmente quer recuar, benzinho? E se o SIN começar a dar umas incertas, mandar alguém até aqui para investigar nosso casamento? Você quer que eles descubram que eu reclamei com a recepção e troquei o chalé de lua-de-mel por outro de dois quartos em nossa noite de núpcias?

? Não, claro que não ? ela respondeu, percebendo o que aquilo poderia parecer para o SIN.

? Então vamos fazer o melhor possível nessa situação, está bem? Vou dormir num dos sofás ou algo assim.

? Isso... não vai ser muito confortável para você -Caroline falou, relutante, esperando que ele não interpretasse suas palavras como um convite para ir para a cama com ela. Para ter certeza disso, ela prosseguiu: ? Eu sou menor que você. Só faz sentido se eu dormir no sofá.

? Não. ? Ele balançou a cabeça. ? Agradeço a intenção, mas receio que o cavalheirismo exige que seja eu quem se acomode em algum lugar na falta de uma cama. Mas não se preocupe. Não será tão incômodo. Então, o que você acha de desfazermos as malas e prepararmos alguma coisa para comer?

? Acho uma boa idéia.

Seguindo Nick de volta à sala de estar, Caroline reparou que, antes de sair, o mensageiro havia acendido as lâmpadas e a lareira, que ardia, criando uma atmosfera de recolhimento para amantes. Com tudo isso, ela não conseguia parar de pensar no único quarto.

O que sua avó estava pensando? Kate não era do tipo que lida de modo incompetente com qualquer situação, e Caroline não conseguia imaginar que, naquelas circunstâncias, sua avó tivesse deliberadamente lhes reservado o chalé de lua-de-mel. Ou o próprio hotel havia cometido um erro, ou Kate estava finalmente ficando senil.

Caroline não podia acreditar na segunda hipótese. Ela não queria acreditar. A idéia de que sua avó não viveria para sempre, onipresente, inteligente e enérgica, causava-lhe medo e desânimo. Não, o hotel havia cometido um erro, era isso.

? Por que não desfaz suas malas primeiro, Nick, enquanto eu ponho as compras no lugar ? Caroline sugeriu, ao entrar na cozinha e acender as luzes. Elas eram fluorescentes e bruxulearam irregulares por um momento antes de acender, desfazendo a atmosfera romântica do chalé, para seu alívio.

Caroline começou a tirar as compras dos sacos de papel marrom sobre o balcão. No caminho para o hotel, Nick havia instruído o motorista da limusine a parar em um dos mercados locais. Ali, Caroline havia enchido o carrinho de compras com comida suficiente para uma semana. Depois que sua avó os havia alertado que o restaurante do hotel fechava cedo e que não havia serviço de quarto vinte e quatro horas, seria uma boa idéia ter alguns itens básicos à mão, se eles precisassem cozinhar.

? Todos os chalés têm cozinha equipada ? havia explicado Kate. ? Vocês terão tudo de que precisam em matéria de panelas e outros utensílios.

Ao abrir os armários da cozinha, Caroline viu que isso era verdade.

? Que tal se eu preparar alguns desses bifes hoje à noite, Nick? ? Ela pegou um pacote de carne embrulhado em papel.

? Que tal prepararmos juntos? ? ele respondeu, sorrindo para ela. ? Afinal, é nossa noite de núpcias, e não parece justo que apenas um de nós tenha a tarefa de cozinhar.

? Suponho que nós poderíamos pedir para entregarem alguma coisa ? ela disse, hesitante.

? O quê? E fazer algum coitado carregar uma bandeja pesada até aqui, no escuro e com esse tempo? Não, isso é cruel até de se ver, benzinho ? insistiu Nick. ? Ele pode escorregar no chão coberto de gelo, cair em um barranco e ser devorado por lobos ou por algum urso atraído por nosso jantar de núpcias. Provavelmente, os ossos do pobre rapaz não serão encontrados até a primavera. Além disso, somos recém-casados, lembra? E casais em lua-de-mel valorizam a privacidade. Temos tudo de que precisamos bem aqui... e de qualquer maneira, teremos alguma coisa para fazer.

Caroline enrubesceu sob o olhar dele, que a admirava com um sorriso insolente no rosto. Ela teve a inequívoca impressão de que cozinhar era a última coisa que ele queria estar fazendo em sua noite de casamento. E também não era exatamente a maneira como, ao longo dos anos, ela havia imaginado passar essa noite. Mas, até então, ela nunca havia sonhado com um casamento arranjado, de papel, ou qualquer coisa parecida com o que havia acontecido nos últimos dias. Ela ainda se sentia como se estivesse em um sonho, dando voltas em algum carrossel maluco. Mas uma aliança de metal provava ? se ela fosse capaz de entender?

Ela não sabia.

Para desviar o pensamento de que estava sozinha com um homem atraente e viril que agora era seu marido, Caroline concentrou-se em arrumar as compras no lugar. E ficou aliviada quando Nick desapareceu no quarto para desfazer as malas. O efeito que ele tinha sobre ela era muito próximo do devastador. Ela não sabia como resistiria em ficar sozinha com ele naquele chalé por uma semana inteira.

Ela gostaria de poder dizer o que estava pensando ao encarregado de reservas na recepção por ter cometido tal erro, pensou, irritada, os nervos à flor da pele.

Nick Valkov mais um quarto. Por uma semana.

Ela não precisava ser química para descobrir que aquela era, com certeza, uma equação explosiva.

Capítulo 7

Caroline desembrulhou o espinafre fresco e as alfaces romana, roxa e crespa e começou a cortar as folhas, enchendo a pia com água fria para lavá-las. Decidiu preparar uma salada mista para acompanhar os bifes, algumas batatas coradas e legumes. Uma mistura de brócolis, couve-flor e cenouras cozidos no vapor seria uma boa idéia. Mas se deu conta de que não sabia se Nick gostava daquela comida.

? Eu gosto ? ele anunciou, momentos depois de ela perguntar. ? Sua vez de desfazer as malas. Tomates e cebola roxa na salada?

? Você leu meus pensamentos ? Caroline virou-se para responder, enquanto se dirigia ao quarto.

Abriu duas malas Louis Vuitton e começou a arrumar suas roupas. Nick, ela percebeu, havia deixado para ela mais da metade do espaço do closet e o armário inteiro, reservando a cômoda para si mesmo. Isso conta pontos para ele, pensou. Mostrou consideração e que sabia dividir. As roupas dele estavam penduradas e dobradas com cuidado, outro ponto a seu favor. Que bom que ele não era desleixado! Ela não poderia conviver com alguém assim.

Havia tanta coisa que ela não sabia sobre Nick, Caroline reconheceu tarde demais. Três dias. Ela o conhecia, realmente, há três dias. Mesmo agora, era difícil acreditar que havia se casado com ele naquela manhã. Mas havia, pensou, ao pendurar suas próprias roupas no armário e dobrar outras para enfiá-las numa gaveta. Ele não era nada do que ela havia imaginado antes.

Caroline percebia o quanto tinha sorte por ele ser um homem de bem. Mas, é claro, sua avó nunca teria sugerido esse casamento se acreditasse que Nick não era, Caroline começava a perceber. De fato, agora que pensava a respeito, soube que Kate devia ter um ótimo conceito sobre Nick ? e não somente como químico, mas também como homem. Porque a avó jamais a teria casado com qualquer um, ou mandado os dois sozinhos por uma semana para um lugar isolado como Maplewood Lodge, nem mesmo para salvar sua fórmula secreta.

Perceber aquilo diminuiu um pouco da ansiedade que Caroline havia sentido desde que descobrira que o chalé só tinha um quarto. Voltou para a cozinha e encontrou os bifes grelhando e Nick mexendo a salada. Juntou-se a ele, cortando os legumes e preparando as batatas. Ela e Nick estavam tão à vontade trabalhando juntos na cozinha, que ela pensou que alguém que observasse os dois acreditaria que eles estavam casados há anos, e não há menos de um dia.

? Você quer ser formal e jantar à mesa? ? ele perguntou ao pegar os bifes, com habilidade. ? Ou prefere comer informalmente à mesinha de centro, em frente à lareira?

? Você quer dizer como uma festinha em que as meninas vão dormir na casa de uma delas? ? Caroline sugeriu, e poderia ter mordido a língua. Ficou vermelha de constrangimento com o sorriso debochado de Nick.

? Bem, se é isso que você tem em mente, benzinho...

? Não é não! E você sabe disso! ? Para evitar o olhar divertido dele, ela levantou a tampa da panela, fingindo verificar os legumes que cozinhavam sobre o fogão.

? Ah! Eu sei? Que eu saiba, deve ter sido um ato falho.

? Não foi ? insistiu Caroline, ainda ruborizada, com o coração martelando tão loucamente que ela sentia que poderia saltar do peito. Tampou a panela. ? E só porque associo comer em volta de uma mesinha de centro com coisas de menina, como aquelas festinhas. E o que minhas irmãs e eu fazíamos quando éramos adolescentes... Pipoca, ficarem volta da lareira, contar histórias assustadoras. Sabe? Como aquela da menina misteriosa no baile de formatura do ensino médio que depois se descobre que havia sido morta num acidente de carro anos antes, ou os amantes num carro estacionado no bosque e um fugitivo da prisão, com um gancho de ferro no lugar da mão, que os assusta... ? A voz dela foi ficando fraca quando viu que os ombros de Nick balançavam, antes que ele explodisse numa risada profunda e forte.

? E isso que as adolescentes americanas fazem para se divertir? ? ele perguntou.

? Bem, sim, entre outras coisas ? Caroline confirmou, relutante e envergonhada.

? Por exemplo?

? Por exemplo, colocar as mãos das meninas que adormeciam em tigelas de água gelada e congelar suas calcinhas... Meu Deus! Isso soa terrivelmente idiota, não é mesmo? Não acredito que eu fazia coisas desse tipo.

? Nem eu ? falou Nick, ainda sorrindo. ? Talvez seja por isso que serei relegado a uma noite desconfortável num dos sofás. Certamente não quero acordar de manhã e encontrar minhas cuecas duras como tábua. Ora, Caro, falei alguma coisa errada? Você está ficando vermelha de novo. Eu apenas quis dizer que você pode ficar tentada a enfiá-las no congelador, se eu for bobo o suficiente para adormecer...

Pela forma como os olhos negros de Nick dançavam de forma maliciosa, ela sabia que aquilo não era o que ele queria dizer. E certamente não era a imagem que as palavras dele faziam surgir em sua mente, mas um retrato sexy de Nick só de cueca... e excitado. Sem se dar conta, ela passou a especular se as cuecas dele eram de seda...

Por Deus, qual era o problema com ela?, Caroline se perguntava, assustada... Ela não conseguia controlar a excitação. Ela normalmente não se detinha em pensamentos de sexo nem se envolvia em conversas picantes com um homem. E esse homem era seu marido. Ora, ele podia tomar o comportamento dela como um convite para se insinuar em sua cama mais tarde!

Por que diabos ele tinha que ser tão viril e atraente?

Químicos deviam ser antiquados, chatos ou esquisitões, excêntricos, não é mesmo? Vagueando por laboratórios empoeirados, entre pilhas de livros embolorados e uma fileira confusa de tubos ferventes. Não usavam ternos Armani nem fumavam cigarros Player ou bebiam vodca Stolichnaya. Não grelhavam bifes, faziam comentários obscenos nem deixavam em chamas algo que não fosse um bico de Bunsen... Certamente não uma mulher sofisticada e tranqüila como ela!

Aquele mensageiro bobo e sorridente tinha aumentado o termostato do chalé, o que, somado ao calor do forno, do fogão e da lareira, era demais. O chalé havia se tornado praticamente um forno, pensou Caroline. Ela devia tirar o suéter que havia vestido sobre a blusa. Não, ela não podia fazer isso. Nick podia dar uma interpretação errada para seu gesto.

? Talvez fosse melhor comermos à mesa ? ela disse, perturbada.

? Podemos assistir à televisão na sala de estar ? lembrou Nick. ? Ver as notícias.

? Sim, ótimo. ? Pelo menos assim ela não teria que fazer um enorme esforço mental tentando manter um diálogo inofensivo com ele.

Caroline se ocupou em tirar as batatas do forno e os legumes do fogão, enquanto ele tirava os bifes da grelha, colocando um em cada prato. Alguns minutos depois, ele e ela estavam sentados no chão diante de uma mesa de centro, com a televisão ligada na CNN. Mas, para desânimo de Caroline, as notícias também não impediam que Nick se pusesse a conversar.

? Champanhe para a noiva e o noivo. ? Ele encheu as taças de cristal quase até a borda com a garrafa de Krug que havia aberto mais cedo e ergueu a taça. ? Consigo pensar em vários brindes de casamento em russo. Infelizmente, meu inglês falha nesse momento. Então... à nossa, Caro ? ele disse, com suavidade.

? À nossa ? ela repetiu, com um leve toque de sua taça na dele.

Eles beberam o champanhe, Caroline muito mais do que achava que devia. Além de algumas taças de vinho, ela não tinha resistência ao álcool, e muito champanhe sempre provocava turbulência em seus sentidos. As bolhas lhe faziam cócegas no nariz, enquanto o champagne parecia correr por seu corpo, deixando-a tonta.

Mesmo assim, teimosa, ela não quis admitir que era Nick, e não o champanhe, que lhe causava um efeito tão estranho e estonteante.

O melhor que podia fazer era pôr um pouco de comida no estômago antes que ficasse bêbada e não se responsabilizasse por seus atos; concentrou-se em seu prato.

? Seu bife está bom? Você pediu ao ponto, não foi? -perguntou Nick.

? Sim, está ótimo... mas é mais do que conseguirei comer, você sabe. ? Ela olhou para o bife grande e grosso com um certo pesar. ? Devíamos ter dividido um, creio eu.

? Fale por si só, benzinho. Você sabe o que dizem. O homem não vive só de pão... e eu pretendo comer cada pedaço do meu bife. ? Com prazer, ele atacou o próprio prato.

Até aquele momento, Caroline nunca havia pensado no ato de comer como uma experiência particularmente erótica. Mas até mesmo a maneira como Nick comia era, de certa forma, sedutora. Seus dentes eram muito certinhos e brancos, em contraste com sua pele bronzeada. Eles mergulhavam no bife tenro de uma forma que involuntariamente a fazia pensar em como eles afundariam em seu pescoço macio, dando pequenas mordidas amorosas por sua nuca e pelas suas coxas...

Céus! Ela estava fazendo aquilo de novo, sonhando acordada com ele, tendo uma fantasia sensual com ele! Caroline Fortune, a equilibrada e competente... imaginando o que poderiam ser cenas de um filme proibido para menores. Definitivamente, o champanhe a afetara. Ela não ia mais beber!

Envergonhada, Caroline curvou a cabeça, desejando que Nick não conseguisse ler seus pensamentos. Eles só podiam ter nascido do fato de que aquela era sua noite de núpcias e que ela nunca havia imaginado passá-la sozinha na cama, especialmente com um marido alto, de olhos escuros e bonito no quarto ao lado.

Tão perto. No entanto, tão longe.

Capítulo 8

? Você quer a sobremesa agora ou mais tarde, benzinho? ? perguntou Nick, assim que terminaram de jantar. Na padaria do mercadinho onde haviam feito as compras, ele havia visto um bolo de casamento pequeno e simples, com um casal de noivos por cima, e havia insistido em comprá-lo.

? Mais tarde. ? Ela gemeu, esfregando o estômago, com pesar. ? Acho que não consigo comer mais nada no momento. Não me lembro da última vez que comi tanto.

? Que tal se eu fizer um café?

? Acho uma ótima idéia.

Ela o ajudou a tirar a mesa e a colocar os pratos no lava-louças. Ele ligou a cafeteira, e, quando o café ficou pronto, ambos levaram suas xícaras transbordando até a sala de estar, onde se sentaram novamente em volta da lareira. Nick atirou mais lenha no fogo, arrumando-as com o atiçador de brasas de ferro fundido.

? Então, o que devemos fazer para passar o tempo? -ele perguntou, virando-se para ela e sorrindo. ? Vamos contar histórias assustadoras? Eu não sei nenhuma de debutantes mortas nem sobre presos fugitivos com ganchos nas mãos, mas poderia contar algumas sobre bruxas russas.

? Não, obrigada. Acho que me assusto com a mesma facilidade que naquela época. Vou acabar rolando na cama, sem conseguir dormir, imaginando você se transformando num lobisomem ou coisa assim.

? Então, é assim que você me vê, não é? Voraz como um lobo? ? Nick ergueu uma sobrancelha grossa e escura.

? Bem... talvez um pouco ? confessou Caroline.

? Relaxe, benzinho. Ainda que admita que a idéia é tentadora, não vou devorá-la. Você está salva comigo.

Caroline ficou surpresa ao ter uma sensação estranha de decepção e aborrecimento pelas palavras dele, como se ela realmente quisesse ser devorada por ele. E aquilo era ridículo.

? Que tal um jogo de cartas? ? ela propôs, para desviar a própria atenção e também a dele.

? Tipo... strip poker ? ele sorriu, brincalhão.

? Não, eu não quis dizer isso! ? Ela enrubesceu, mordendo o lábio inferior. ? Sinceramente, Nick! Parece que todas as nossas discussões parecem levar a... a... bem, você sabe. A...

? Insinuações sexuais? ? ele sugeriu, fingindo ajudar.

- Bem... sim.

? Caro, você é minha esposa... e esta é nossa noite de núpcias. Eu estaria mentindo se dissesse que não passou pela minha cabeça levá-la para aquele quarto e fazer amor com você. Eu sou homem! E você é uma mulher bonita e sedutora. Estou atraído por você... e acho que talvez você também esteja atraída por mim.

? Como pode dizer isso? Você é... quase um estranho para mim. ? Ela olhou para a xícara de café, incapaz de encará-lo, com medo de que seus próprios olhos revelassem o quanto ela realmente estava atraída por ele. E Caroline não queria se fazer de boba sucumbindo a um homem que havia se casado com ela somente para evitar ser deportado. ? Eu mal o conheço.

? Como um bom químico, e definitivamente sou um deles, poderia lhe dizer que apesar das leis da ciência, ainda não se pode medir a química entre um homem e uma mulher. Se existe, existe... independente de qualquer coisa. Se não existe, não existe. E se você conhece ou não alguém, não tem nada a ver com isso. E uma reação física... algo que está nos feromônios.

? Então, você acha que a mente ou as emoções não têm nenhum papel nisso? ? indagou Caroline, curiosa e sentindo-se um tanto deprimida com as palavras dele. Até aquele momento, ela começara a pensar que havia feito mal julgamento de Nick. Agora se perguntava se nos últimos dias ele havia mantido seu melhor comportamento, escondendo suas tendências machistas. Porque ele estava falando sobre sexo, não de amor... e ela nunca havia sido capaz de separar os dois.

? Não ? ele respondeu à pergunta dela. ? A atração é totalmente física.

? Bem, suponho que eu deva me sentir lisonjeada. Mas... não funciona dessa forma comigo, Nick. Antes que eu me envolva com um homem, gosto de pensar que o conheço, que temos muitas coisas em comum, que temos... sentimentos um pelo outro, que nos imporíamos um com o outro. Não parece certo para mim, de outra forma.

? Não, imagino que não. Você é romântica, Caro.

? E o que há de errado nisso?

? Nada... a não ser que isso com freqüência torna a vida mais complicada.

? Por quê? Porque você tem que se dividir com outro ser humano?

? Em parte é isso, sim ? ele respondeu, olhando para sua xícara de café, revolvendo, negligente, o conteúdo.

? E você não gosta disso?

? Não disse isso, Caro.

? Não com tantas palavras, talvez. Mas foi isso o que quis dizer, não foi, Nick?

? Não, não foi. O que eu quis dizer foi que, para eu querer fazer isso, tenho que sentir que a mulher é especial, que ela é alguém por quem eu poderia me apaixonar. Acredito que isso valha para a maioria dos homens, na verdade. Acho que não estamos tão inclinados quanto as mulheres a examinar nossas emoções profundamente. A menos que tenhamos um bom motivo para isso. Então... que tal o jogo de cartas? ? Ele habilmente mudou de assunto.

? Estamos falando de algo como gin rummy, não é mesmo? ? perguntou Caroline, ao mesmo tempo aliviada, e no entanto estranhamente decepcionada por estar de novo em território seguro.

? Se isso lhe dá prazer. Mas apenas para torná-lo um pouco mais interessante, o que me diz de quem perder preparar o café da manhã?

? Está combinado.

Caroline encontrou não apenas um baralho, mas também um tabuleiro de cribbage na enorme cristaleira antiga contra uma das paredes. Eles jogaram, e, apesar de sempre ter se considerado uma boa jogadora de cribbage, ela perdeu, pois seus pontos ficaram muito atrás dele ao final do jogo.

? Estou mesmo sem sorte essa noite, acho ? comentou ela, decepcionada, ao juntar as cartas e o tabuleiro de cribbage para devolvê-los a seus lugares.

? Bem, você sabe o que dizem. Feliz no jogo, infeliz no amor. Então talvez o contrário também funcione.

? Talvez ? ela concordou, levantando-se. ? Mas tenho a clara impressão de que não serei convidada para tantos encontros quando os futuros pretendentes souberem que eu já tenho um marido em casa.

Nick, que estava levando as xícaras de café para a cozinha, congelou de repente; Então, depois de um instante, largou as xícaras, e foi até a cristaleira, onde ela acabava de fechar uma gaveta.

? Caro, eu sinto tanto ? ele disse, dando-lhe um abraço. ? Não sei como pude ser tão egoísta, tão burro. Mas como não ando saindo com ninguém e como tudo aconteceu tão depressa, nunca pensei nesse aspecto da situação. Meu Deus! Nem mesmo pensei em perguntar se você estava saindo com alguém. Eu apenas supus...

? Não, tudo bem. Eu não estava mesmo... saindo com ninguém.

? Ótimo. Que bom, então, não compliquei as coisas para você. Mas veja, Caro, se quiser sair com alguém, a qualquer momento durante nosso casamento, quero que saiba que eu... Bem, não vou insistir que você seja fiel. Eu vou... bem... fazer vista grossa, como dizem. ? Mas ao falar essas palavras, Nick pensou, de repente, que ele não faria isso, que ela era sua esposa e ele não queria que ela se envolvesse com nenhum outro homem! A ferocidade de seu sentimento de posse o assustou.

? Ah, Nick, eu... não sei o que dizer... a não ser que não poderia fazer algo assim. Eu não me sentiria bem com isso. Sei que nosso casamento é de conveniência, mas ainda assim... vão surgir rumores, comentários pela Cosméticos Fortune. Vovó ia subir pelas paredes!

Eu também ia, Nick pensou, sério, embora não o tenha dito em voz alta. Em vez disso, falou:

? É claro que ia. Ela mesma me disse isso. Não sobre você, mas sobre mim; ela espera que eu faça a coisa certa com você, que seja um marido fiel. Tenho que admitir que fiquei um pouco insultado, porque não havia pensado em nada diferente. Então, vamos comer aquele bolo e tomar mais um pouco de café?

? Sim, e suponho que devemos jogar uma moeda para o alto para ver quem vai para o banho primeiro. ? Com a mão, Caroline conteve um bocejo. ? Perdoe-me. Caso não tenha reparado, Nick, está ficando tarde... e receio que meu ritmo interno não esteja programado para me manter acordada muito depois das onze, especialmente depois de algumas taças de champanhe.

Ele riu.

? Na verdade, o meu também não. E isso o que acontece quando se começa muito cedo no mundo corporativo, eu acho.

Eles comeram o bolo, e em seguida Caroline venceu o cara ou coroa. Assim, enquanto Nick lavava os pratos, ela preparava o banho, jogando na água um óleo perfumado fabricado pela Cosméticos Fortune. Depois de verificar que havia toalhas e roupão, trancou a porta do banheiro e tirou a roupa. Ela se sentia estranha e nem um pouco desconfortável por estar empenhada em tarefas íntimas com Nick no quarto ao lado. Mas lembrou a si mesma que, fosse como fosse, ele era seu marido e ela conviveria com ele daí em diante... Ou pelo menos até que ele estivesse salvo do SIN e ambos pudessem obter um divórcio tranqüilo.

Caroline entrou na água, dizendo a si mesma que, por mais que desejasse um banho demorado, aquela não era uma boa idéia. Depois do champanhe que havia tomado, poderia acidentalmente dormir na banheira, e Nick poderia acabar tendo que derrubar a porta para impedir que ela se afogasse. Ela o imaginou levantando seu corpo nu nos braços, carregando-a para o quarto, deitando-a sobre a cama, sendo forçado a lhe fazer respiração boca a boca. Só que, em seus devaneios, os esforços dele em salvá-la se tornavam beijos apaixonados.

Com um movimento brusco, despertou, percebendo que havia mesmo cochilado. Obrigou-se a sentar-se ereta na banheira, jogando água no rosto até ter certeza de que não adormeceria de novo.

? Caro. Caro! ? Nick dava pancadas firmes na porta, sacudindo a maçaneta. ? Está tudo bem aí?

? Sim. Sim! ? gritou ela, cobrindo, ansiosa, os seios com a toalha, apreensiva de que a qualquer momento tudo o que imaginara poderia se tornar real, que ele derrubaria a porta.

? Bem, por que está demorando tanto? Fiquei preocupado com você.

? Desculpe. Eu... estava sonhando acordada, acho -explicou ela, pouco convincente, já que não ia lhe contar de jeito de nenhum que havia cochilado. Ele podia pensar que ela ainda estava cochilando, falando dormindo, e arrombar a porta para entrar.

O medo a estimulou a sair da banheira, secar-se e vestir o roupão às pressas. Ela escovou os dentes rapidamente, perguntando-se se deveria ou não tirar a maquiagem. Não era bom dormir de maquiagem; sua avó lhe havia instruído tantas vezes. Mas Caroline decidiu que de jeito nenhum ela deixaria Nick vê-la de rosto lavado, pelo menos por enquanto.

? Como se precisasse se importar com isso, Caro -resmungou para si mesma. ? Você devia saber lidar melhor com essa situação, lembrar-se de que se trata apenas de um casamento no papel!

Ela destrancou a porta do banheiro, sem esperar encontrar-se cara a cara com Nick. Ao se deparar com ele, deu um pulo, assustada, levando a mão à boca para conter um arquejo.

? Ah! ? Caroline deu uma risada fraca. ? Você me assustou, Nick.

? Não foi minha intenção. Tem certeza de que está tudo bem? ? Suas sobrancelhas se franziram de preocupação quando olhou para ela.

? É claro. Por que não estaria?

? Bem, não sei, Caro. Você me disse que estava cansada, entrou naquele maldito banheiro e ficou lá quase uma hora.

? Uma hora! Eu... nem percebi. ? Ela devia ter dormido muito mais que alguns momentos, pensou, desanimada. Foi um milagre não ter se afogado! ? Sinto muito. Realmente foi um dia longo, Nick.

? Sim, eu sei. Por que não vai para a cama? Vou tomar banho e tentar fazer o mínimo de barulho possível. ? Nick não acrescentou que, se ela não fosse logo para a cama e saísse da luz, ele ia ter que tomar um banho muito frio. Mas reconheceu que seu rosto deve ter deixado transparecer alguma coisa porque de repente Caroline engoliu em seco, segurou o roupão para mantê-lo fechado e passou por ele sem dizer nada, fazendo o possível para não encostar nele.

Nick praguejou em russo e entrou no banheiro quase batendo a porta. Que droga! Manter a castidade ia ser bem mais difícil do que ele havia pensado. Por que diabos ele tinha concordado com esse casamento maluco? Ele devia simplesmente ter deixado o SIN deportá-lo!

A água do chuveiro atingiu sua cabeça como um rajada de gelo, tirando-lhe o fôlego e espetando-lhe a pele como agulhas. Ele não podia suportar aquilo. Quem quer que tivesse sugerido isso como remédio para seus males era um completo sádico, pensou. Tremendo, Nick abriu a torneira quente, gemendo ao se lembrar da visão do corpo macio de Caroline, vestido num roupão e iluminado pela luz do banheiro e do quarto. Ele havia conseguido ver a doce curva dos seios dela, cheias demais para que ela se tornasse uma modelo perfeita, e uma pontinha de seus mamilos escuros, o arco de sua cintura esbelta, o comprimento de suas pernas vigorosas.

Ele queria agarrá-la e lançá-la sobre a cama, arrancar seu roupão e fazer amor com ela até altas horas. Em sua mente lhe vinha o pensamento de que ele era maior e mais forte e que era seu marido. Sem falar que provavelmente ela não diria a ninguém se ele não mantivesse sua parte do acordo naquele casamento arranjado. Ele bem que havia ficado tentado.

Mas Nick não era Paul Andersen, e não podia nem iria machucar Caroline daquela maneira. Mesmo se ela correspondesse a seus avanços, se sentiria humilhada e envergonhada depois. E poderia até ser levada a pedir o divórcio, e sua avó certamente exigiria saber o motivo.

Nick não se assustava com facilidade. Mas Kate Winfield Fortune exaltada era alguém que ele particularmente não queria enfrentar.

Não, como dizia o ditado, ele só tinha que relaxar e aproveitar. Ele gemeu de novo ao pensar nisso. Saiu do chuveiro, secou-se com a toalha e vestiu a calça do pijama e o roupão que ele havia tirado da mala em respeito aos sentimentos de Caroline.

Ao abrir a porta do banheiro, ele viu que ela havia deixado a luminária acesa na mesinha-de-cabeceira, e ele não precisaria se movimentar no escuro até a sala de estar.

? Caro, você está acordada? ? ele perguntou, tranqüilo, aproximando-se da cama.

? Hummm. Quase ? ela murmurou, sonolenta, esticando-se e bocejando.

Como uma gatinha, ele pensou, sentindo o desejo apertar-lhe a virilha. Na verdade, ela não estava realmente acordada. Ele podia deslizar para baixo do cobertor, deitar-se ao lado dela, tomá-la nos braços e consumar o casamento antes que ela se desse conta do que estava acontecendo.

Não, ele não podia fazer isso, diabos!

? Caro... boa noite, benzinho. Feliz noite de núpcias -cochichou ele, curvando-se e beijando levemente sua boca antes de desligar a lâmpada e sair do quarto relutante, na ponta dos pés.

Na sala de estar, ele viu que Caroline tivera a consideração de arrumar da melhor maneira possível um dos sofás para ele, com travesseiro e cobertores. Ele acomodou como pôde seu metro e oitenta e quatro na cama improvisada, gemendo e em silêncio amaldiçoando o idiota que havia se enganado na reserva. Antes de pegar no sono, Nick pensou que, se descobrisse quem fora o responsável, torceria o pescoço do maldito idiota!

Capítulo 9

Quando Kate Fortune olhou pelas amplas janelas de seu escritório no último andar da Cosméticos Fortune, não conseguiu reprimir uma risadinha de deleite. Ela teria dado qualquer coisa para ver a expressão no rosto de Caroline Nick quando percebessem que haviam sido instalados no chalé de lua-de-mel no Maplewood Lodge.

E claro que Kate não tivera como instruir a secretária, Louise Rhymer, a fazer a reserva, ou mesmo como fazê-lo pessoalmente. Embora conhecesse tanto Louise quanto Will Bentley, os proprietários de Maplewood Lodge, há anos e confiasse em sua discrição, era possível que sem quere eles deixassem escapar a alguém e os recém-casados ficassem sabendo o que Kate havia feito.

Ainda assim, ela conseguiu administrar o caso com bastante facilidade. Instruíra a empregada a fazer os arranjos, sabendo que, se alguma coisa desse errado, ela poderia culpar a senhora Brant pela confusão.

Olhando para o céu cinzento e triste de inverno, Kate se perguntava se estaria nevando do outro lado da fronteira com o Canadá, em Maplewood Lodge. Esperava que sim, esperava que Caroline e Nick estivessem em seu chalé de quarto único, sozinhos um com o outro, fazendo o que era natural acontecer entre um belo homem e uma bela moça em tal situação.

O casamento deles não ia terminar em anulação ou divórcio... Não se ela pudesse impedir!

Rumores sobre Caroline e Nick terem fugido juntos já circulavam pela Cosméticos Fortune. E, embora Kate não tivesse confirmado nenhuma das fofocas, tampouco havia negado. Apenas sorria, misteriosa, para as perguntas educadas, feitas com cuidado, para que todos soubessem que se isso realmente houvesse acontecido, ela não ia condenar ninguém. E havia instruído Jake e Sterling a agirem da mesma maneira.

Mais cedo, ao passar por Paul Andersen em um dos longos corredores da empresa, Kate havia balançado a cabeça e aberto um sorriso radiante para ele, certa de que, pela expressão de seu rosto, eleja sabia sobre Caroline e Nick e desejava muito que lhe dissessem que não era verdade.

Sem chance, Paul, seu idiota, Kate pensara ao passar por ele. Você tem sorte de ainda ter um emprego na Cosméticos Fortune depois de ter partido o coração de minha neta!

Virando-se discretamente para trás, Kate tivera a enorme satisfação de ver Paul ajeitar o colarinho com o dedo, como se a gravata o estivesse sufocando. Ao longo dos anos, ela havia aprendido como fazer com que um mero olhar para pessoas que a desagradavam fizesse com que se perguntassem, nervosas, se ela estava a ponto de demiti-las. Em mais de uma ocasião, Kate havia feito exatamente isso porque não tolerava nenhum funcionário que ficasse abaixo de suas expectativas na empresa. Com a mesma facilidade, aqueles que se superavam em seu trabalho também eram recompensados.

Seja dura, mas justa, era o que seu finado marido, Ben, gostava de dizer, e Kate adotara o lema.

De costas para as janelas, Kate saiu de seu escritório. Ela poderia ter apenas ligado para o laboratório, mas sabia que não conseguiria nada pelo telefone com o apático Otto Mueller. Cara a cara, no entanto, e na ausência de Nick, ele não acharia tão fácil evitar suas perguntas. E, ainda que houvessem passado apenas alguns dias desde a apresentação formal de Nick sobre a fórmula, ela tinha de saber como estava progredindo Rosto Fabuloso, se estavam ou não mais perto de descobrir o ingrediente X.

? Bom dia, Otto ? Kate cumprimentou o químico atarracado, sorrindo agradável e calorosa ao entrar no laboratório, e fazendo com que ele deixasse escapar um gemido.

Como todo mundo na Cosméticos Fortune, Otto sabia que, quando a chefe gorjeava, brilhante e alegre como um pássaro, era sensato ficar alerta. Em resposta, ele resmungou, taciturno, antes de voltar, determinado, sua atenção ao trabalho.

? Otto, quero saber se eliminamos mais alguma possibilidade para o Ingrediente X nos últimos dias. ? Kate não se intimidava pelas poucas palavras do rapaz.

? Sim ? concordou ele com a cabeça, sem dar mais nenhuma informação.

? Ah, faça-me o favor, Otto! Sua lealdade e discrição são admiráveis. Mas quantas vezes preciso lembrar-lhe que você trabalha para mim... e não para Nick Valkov! Então, quero saber sobre o ingrediente X!

? Amazônia ? respondeu o químico, relutante.

? Amazônia? Que diabos isso quer dizer? Explique-se. Juro, arrancar uma palavra de você é como tirar um dente. Você se refere à floresta amazônica?

? Sim ? suspirou Otto, sabendo que teria que conversar, querendo ou não. E quando Nick voltasse ao escritório, ficaria furioso porque não queria que ninguém, nem mesmo Kate, se metesse em seu território. E Otto não ia querer receber mais uma das broncas de Nick. ? Acho que é lá que o ingrediente X será encontrado. Mas não posso dizer com certeza, entende. Ainda tenho mais testes a fazer.

? Quantos testes?

? Não sei. Mas são vários. Nick e eu já repetimos muitas vezes: em ciência, não se pode ser apressado, senhora Fortune. A senhora não quer que cometamos erros, não é? Como acidentalmente transformar o Rosto Fabuloso em Rosto Pavoroso?

? Não, claro que não.

? Então, a senhora deve ser paciente ? o químico insistiu, teimoso.

? Ainda assim, de que estamos falando, Otto? Dias? Semanas? Meses?

? Semanas, talvez... se tivermos sorte. E se a senhora puder me deixar continuar a trabalhar em paz! ? Otto olhava para ela, agressivo, apontando para os béqueres e tubos de ensaio, o microscópio, os slides e a pilha de notas à frente dele.

Franzindo as sobrancelhas e batendo o pé, impaciente, ela ponderava se o pressionaria ainda mais. Mas sabia, pelo maxilar teimoso dele, que não tinha muita chance em conseguir muita coisa. Aquele bode velho obstinado! Se não fosse tão brilhante, ela o demitiria, pensava, enfurecida.

Nunca havia ocorrido a Kate que, em todos os departamentos da Cosméticos Fortune, ela tinha pessoas no comando que compartilhavam muitas de suas próprias características. E ela secretamente gostava das pequenas escaramuças com Otto e com vários outros de seus empregados. Eram o que a mantinha de pé.

Otto era tão compenetrado e sério que, mais de uma vez, Kate havia sido tentada a fazer alguma brincadeira que o deixasse desconcertado. Mas tinha resistido ao impulso, considerando-o indigno de uma mulher em sua posição. Ela sabia que Nick, no entanto, não era tão contido, e riu lembrando a última brincadeira que ele havia feito com o colega.

Nick havia despejado uma substância química inofensiva na cafeteira do laboratório. Otto passou o resto do dia com a boca e a língua descoloridas. Agnes Grimsby, responsável pelo refeitório da empresa e sempre muito gentil com Otto, quase desmaiou quando o viu no almoço, especialmente quando Nick sugeriu que a sua comida era responsável pelo incidente.

? Tudo bem, Otto. Entendi ? disse Kate, mordaz. -Volte para os seus testes. Mas lembre-se de me notificar assim que tiver feito algum progresso.

Ela começava a esboçar uma idéia com relação ao ingrediente X. A fórmula secreta da juventude era seu bebê.

Havia sonhado com ela durante anos, e agora que finalmente chegava a uma conclusão, ela queria ser a responsável pela última peça da equação.

Tão logo soubesse qual era o ingrediente, voaria até a Amazônia, pilotando ela mesma o jato da empresa, decidiu. Mas não podia contar a ninguém, nem mesmo a Sterling, sobre seu plano. Toda a família e os amigos se oporiam ferozmente ao esquema. Diriam que era uma viagem longa e cansativa e que ela estava velha demais para se lançar a uma aventura tão exaustiva, especialmente se estivesse no controle do avião. Mas Kate sabia que, graças a um regime regular de exercícios, estava mais em forma que muitas mulheres com décadas de idade a menos do que ela.

Sim, ela iria para a floresta amazônica pilotando.

Amélia Earhart perdia para Kate Fortune!

Capítulo 10

Para Caroline e Nick, a semana em Maplewood Lodge pareceu ter passado rápido, embora o ritmo de vida no chalé tivesse, na verdade, sido lento. O inverno continuava terrivelmente frio, o céu escuro e nevoento, os dias cinzentos e lúgubres. Mais de uma vez, os recém-casados acordaram com a neve que caía, formando elevações e depressões sobre a terra, como um lençol imaculado. Dos galhos das árvores pendiam lágrimas em forma de pingentes de gelo, e uma camada dura de orvalho congelado incrustava-se sobre o solo.

Mas o tempo não impedia que Caroline e Nick saíssem. Eles andavam de trenó, acompanhados pelo tilintar musical dos sinos presos aos arreios dos cavalos, e faziam longas caminhadas pelo bosque, soltando baforadas de ar condensado pela boca. Fizeram grandes bonecos de neve ? uma noiva e um noivo ? na varanda frontal do chalé, e travaram vigorosas batalhas de bolas de neve, que sempre terminavam com ambos rolando pelo chão, rindo, encharcados e sem fôlego.

Dentro do chalé, eles se revezavam no banheiro, trocando as roupas molhadas por outras, limpas e quentinhas.

Depois sentavam-se diante da lareira fumegante e alegre, segurando xícaras de chocolate quente. Jogavam cartas e os jogos de tabuleiro que encontraram na cristaleira antiga e ouviam música do aparelho de som. A CNN os mantinha informados das notícias, e eles conversavam sem parar.

Caroline nunca tinha vivido com um homem. Na verdade, ela não havia morado com ninguém, já que havia saído de casa na época da faculdade para seguir o próprio caminho. Ela não tinha se dado conta, até agora, de quanto era solitária, do quanto sentia falta da companhia de outro ser humano. Era agradável ter alguém com quem dividir os afazeres domésticos, com quem conversar, alguém que ficasse orgulhoso de suas conquistas.

? Caro, benzinho! ? Nick chamou, mais de uma vez. ? Depressa! Seu comercial está no ar.

Toda vez, ela corria conscienciosamente até a sala de estar, onde o rosto de sua irmã Allie sorria para ela na tela da televisão enquanto uma voz ao fundo falaria da base da Cosméticos Fortune, do rimei, do batom ou de seu esmalte de unhas. Embora Caroline tivesse visto os anúncios inúmeras vezes, e tivesse sido responsável pelo conceito original, ainda assim nunca se cansava de assistir. E ficava secretamente excitada pela prova concreta de seu sucesso.

? Lembro-me de desenvolver essa cor... pau de canela ? Nick observou enquanto, na tela da televisão, Allie franzia os lábios para dar um beijo brincalhão em seu belo admirador.

? É um de nossos tons de batom e esmalte de unhas mais populares ? disse Caroline, sentindo um calor descer até os dedos dos pés com a idéia de que Nick estava orgulhoso do trabalho dela, que era nela que ele pensava quando via os comerciais... nem Allie nem Kate, mas ela, Caroline.

? Hummm... ? Nick ergueu uma sobrancelha grossa e escura. ? Bem, eu tenho uma idéia brotando para uma nova cor quando voltarmos para o trabalho... Aposto que vai superar todas as outras em vendas. Na verdade, já tenho até um nome para ela.

? Mesmo? ? ela respondeu, brejeira, caminhando na direção dele. ? Desde quando os químicos dão nome aos produtos da Cosméticos Fortune? E, afinal, como estava pensando em chamar essa cor?

? Beijo de Caroline. Tenho em mente alguma doce, apimentada e sensual, tudo ao mesmo tempo. ? Esticando o braço de onde estava no chão, Nick agarrou o tornozelo de Caroline, puxando-lhe o pé e fazendo-a cair sobre o colo dele. Virando-a, ele a pressionou contra o tapete. ? Espero não ter nenhuma discussão com o departamento de marketing por causa disso.

? Não, não. Não pense que só porque se casou com a diretora de marketing, terá privilégios na empresa ? insistiu Caroline, o coração martelando ao sentir o corpo rijo e musculoso sobre seu corpo macio e esbelto. Os lábios dele estavam a apenas alguns centímetros dos seus. Os olhos dele dançavam e ardiam como as brasas que saíam do fogo na lareira.

? Não terei? Bem, temos que ver isso, não é? ? falou Nick, num tom profundo e calmo, antes que sua boca reivindicasse a dela, sua língua insidiosa separasse os lábios dela e se forçasse entre eles, buscando e explorando.

Involuntariamente, Caroline deu um gemido e abriu a boca para ele. Como se tivessem vontade própria, seus braços se enrascaram no pescoço dele. Seus dedos se enfiaram entre o cabelo grosso e escuro. Um desejo intenso despertava e crescia dentro dela. Por mais que tentasse lutar contra sua atração por Nick, bastava que ele a tocasse daquele jeito e ela parecia amaciar e derreter como cera. Sentia o corpo fraco quando os lábios dele se mexiam nos dela, tornando-se mais vorazes, mais insistentes. A língua de Nick seguia os contornos da boca de Caroline. Os dentes dele mordiscavam seu lábio inferior, provocando-lhe um formigamento por dentro.

Caroline sabia que não devia deixar que ele a beijasse daquele jeito. Aquilo, afinal, só lhe traria problemas, pensava, sem esperança. Ele havia deixado claro que acreditava que a atração era puramente física, apenas baseada na química, nos feromônios... E que não tinha nada a ver com a mente ou com suas emoções. E ela não podia pensar daquele jeito. Gostando ou não, ela sabia que, por menos que quisesse, Nick lhe provocava uma reação bem além da biológica. Durante a semana que estava terminando, ela começara a ter sentimentos por ele.

Mais de uma vez, ela esquecera por completo que o casamento deles era de conveniência, que a avó e o pai dela praticamente o haviam contratado para que se casasse com ela e assim salvasse a fórmula secreta de juventude. E ela não devia se esquecer disso, Caroline se dissera em cada uma dessas ocasiões, exatamente como fazia agora. Mas emoções não eram algo que se ligava e desligava como um botão, ainda mais quando ela estava deitada daquele jeito e ele a fazia sentir-se como mulher e desejável. Ainda assim, ela não queria ser usada e magoada, ter o coração partido novamente.

? Nick... Nick... ? ela murmurou, quando a boca dele, selvagem, passeou de seu rosto até a têmpora. ? Você... não deve fazer isso. Nós não devemos fazer isso.

? Por que não? ? Ele beliscava sua orelha, a respiração quente sobre a pele dela, fazendo-a arrepiar. ? Você é minha mulher, Caro. Eu sou seu marido.

? Eu sei... mas somente no papel, lembra? Não posso esquecer disso simplesmente porque você quer, Nick. Quando seus problemas com o SIN chegarem ao fim, nós chegamos ao fim. Você sabe disso ? ela lembrou, tranqüila.

? Sim, acho que você tem razão. ? Relutante, com a respiração pesada, ele soltou-se dela, ajudando-a a sentar-se. Por dentro, ele gemia ao olhar para o cabelo emaranhado dela, o rosto ruborizado, a pulsação visivelmente irregular no delicada contorno de seu pescoço esguio. Manter as mãos afastadas de Caroline estava se tomando cada vez mais difícil. Quanto mais tempo passava com ela, mais a desejava. ? Sinto muito, Caro. Não tenho nenhuma desculpa... a não ser que um homem teria que estar morto para não desejá-la, e eu estou muito vivo. -Em minha melhor forma e não acostumado a viver como um monge, ele acrescentou, mentalmente.

Caroline deu uma risada rouca.

? Acho que eu devia me sentir lisonjeada. Olha, Nick, já é tarde, acho que vou tomar um banho e dormir.

? Sim, tudo bem, ótimo. Eu... bem... vou ler um pouco, ouvir um pouco de música até você terminar. Não consigo descansar muito naquele sofá, mesmo.

Ela enrubesceu com aquilo, chateada.

? Você sabe que já lhe ofereci a cama várias vezes. Não faz sentido que você durma ali se eu sou menor do que você e ficaria bem no sofá.

? Não ? ele balançou a cabeça. ? Minhas "tendências do Velho Mundo", como você chama, não são tão fortes que incluam forçar minha esposa a dormir no sofá. Além do mais, o que é mais uma noite?

Lembrar que eles iam embora na manhã seguinte deprimiu Caroline. Pela primeira vez, que ela lembrasse, não estava ansiosa e agitada para retornar ao trabalho. Desejava que ela e Nick tivessem tido oportunidade de tirar mais de uma semana de lua-de-mel, que pudessem ficar no Maplewood Lodge por um mês ou mais. Mas isso não era possível. A fórmula secreta da juventude era importante demais para Kate para que ela tolerasse a ausência deles por mais tempo... mesmo tendo sido ela a lhes providenciar uma lua-de-mel.

Suspirando forte, como Nick havia feito momentos atrás, Caroline levantou-se e dirigiu-se ao banheiro. Pouco depois, ela se deitou, sentindo-se estranha, como se estivesse a ponto de chorar. Há muito tempo ela não havia sido tão feliz como naquela semana. Ela devia ter deixado Nick fazer amor com ela, refletia, revirando-se por baixo dos cobertores. Era uma bobagem enganar-se de que havia feito a coisa certa ao impedi-lo... porque seu coração dizia outra coisa.

Ao cair no sono, surgiam espontâneos em sua mente o pensamento e o medo de que ela estava tolamente se apaixonando por seu marido contratado.

Capítulo 11

Caroline acordou de repente, batendo os dentes. Apesar de estar debaixo dos cobertores, estava congelando. O quarto de dormir parecia estar trinta graus abaixo de zero. Acendendo o abajur, percebeu que sua respiração produzia nuvens brancas no ar.

? Ni-Ni-Nick ? chamou, tremendo violentamente e esfregando as mãos no esforço de aquecê-las.

? Estou aqui. Só um momento, benzinho. ? Ele passou pela porta, carregando vários galhos, que depositou na soleira da lareira do quarto antes de começar a empilhá-los.

? O que... o que aconteceu? ? perguntou Caroline.

? O aquecedor do chalé desligou. Já liguei para a recepção, mas parece que não há funcionário de manutenção de plantão depois de meia-noite, então não há ninguém para consertar até amanhã de manhã. Teremos que nos aquecer da forma antiga. Não, não saia da cama, Caro! Pelo amor de Deus, você quer morrer de frio? Volte para baixo dos cobertores. Não há nada que possa fazer para me ajudar. Deixe comigo.

Ela estaria mentindo se não admitisse que estava aliviada de não ter que deixar o calorzinho da cama. Essa era uma das vantagens de ter um marido com tendências do Velho Mundo, pensou. Ele esperava tomar conta dela numa situação como aquela.

Nick acendeu o fogo e revirou os gravetos. Em seguida, desapareceu pela cozinha, retornando pouco depois com uma xícara fumegante do que ela a princípio supôs que fosse chocolate quente.

? Não, na verdade, é um grogue ? anunciou. ? Chá misturado com conhaque. A melhor coisa do mundo para aquecê-la rapidamente. Também é bom para resfriados, e para preveni-los. Não quero que você fique doente, então beba, Caro.

Enquanto ela dava um gole no grogue, grata pelo calor que proporcionava, ele pegava o atiçador de brasas para avivar o fogo. Jogou mais gravetos, e logo a chama começou a arder, afastando o frio do quarto. Depois, e antes que Caroline percebesse sua intenção, Nick tirou o robe dos ombros e deitou-se na cama a seu lado.

? O que você pensa que está fazendo, Nick? ? ela gritou.

? Dividindo calor corporal. Então, terminou? ? Ele tomou-lhe a xícara vazia das mãos. ? Boa menina. Acomode-se de forma confortável. ? Procurando sob os cobertores, ele a abraçou, esticou o braço e apagou o abajur, deixando que somente o brilho do fogo, que formava sombras dançantes nas paredes, iluminasse o quarto.

Apesar da ansiedade e da estranha expectativa que sentia ao deitar-se com Nick na mesma cama, Caroline tinha que admitir que pelo menos agora estava se aquecendo. Diferente do corpo dela, o dele era como uma fornalha, gerando intenso calor. O conhaque misturado ao chá também havia sido de imensa ajuda. Abraçada contra o peito amplo e peludo de Nick, envolvida pelos braços fortes que lhe ofereciam segurança e conforto, ela se sentiu agradavelmente segura e sonolenta. Não tinha mais frio.

? Melhor? ? ele perguntou, suavemente.

? Sim, muito.

? Que bom, fico feliz.

Mais tarde, Caroline culpou o conhaque, ainda que, no fundo do coração, ela soubesse que nada, e ninguém a não ser ela mesma, era responsável por não dizer uma única palavra de protesto quanto, depois de um tempo, Nick começou a beijá-la e a acariciá-la gentilmente. Ela entendia o que o motivava, porque, longe de voltar a dormir quando ficou mais aquecida, ela agora tinha cada vez mais consciência de seu corpo, abraçando-a. De sentir-lhe o peito nu e a palma da mão dele sob seu rosto. Da batida firme e reconfortante de seu coração contra a orelha dela. Da força de seus músculos retesados. Do fato de que ele estava acordado, e excitado.

Não importava como o casamento deles fora arranjado. Nick era seu marido, e houvesse o que houvesse, ela queria aquele homem, pensava Caroline. Era a química, sobre a qual haviam conversado, pura e simples. Por quanto tempo mais ela poderia continuar lutando contra seus sentimentos por ele? Um dia? Uma semana? Um mês? Se fosse honesta consigo mesma, ela sabia que, no final, ia enfraquecer e entregar-se à tentação. Essa última semana havia lhe mostrado o quanto seria difícil viver com ele, sem sucumbir. Então por que não render-se agora e resolver logo isso? Assim, talvez ela pudesse tirá-lo de seu universo. E apagava, determinada, de seu pensamento, o fato de que podia passar a querê-lo ainda mais, perder o coração inteiramente para ele. Era o conhaque, dizia a si mesma, que havia desnorteado sua mente e feito com que, confusa, ela pensasse assim. Mas, bem lá no fundo, Caroline sabia que não era verdade, já que cedia à investida violenta da boca sedutora de Nick.

A língua dele separava-lhe os lábios, empurrando-se para dentro da caverna quente e úmida de sua boca. As mãos dele se emaranharam em seus cabelos enquanto ela virava o corpo de frente para ele, e a perna dele se enfiava entre as coxas dela. As dobras sedosas de seu roupão se esfregavam, sensualmente, contra as pernas dela, e o corpo dele se movia contra o dela, uma mão descendo para acariciar-lhe os seios, a barriga, o sexo macio, esvoaçando aqui e ali como uma borboleta, sem parar em nenhum ponto, tocando suave, atiçando, excitando-a, fazendo-a perder o controle e implorar por mais.

Caroline gemia na boca de Nick enquanto ele continuava a beijá-la e a acariciá-la, e aquele som parecia arder dentro dele. Ele gemia e beijava mais forte, até que seu corpo cobriu o dela, as mãos dele puxaram-lhe as mangas curtas do roupão pelos ombros, fazendo-o deslizar pelos braços e deixando-a nua até a cintura. Os seios dela eram macios e cheios, inchados por uma paixão crescente, os mamilos retesados sob suas palmas que os circulavam lentamente. Os polegares dele alisavam os bicos intumescidos.

Os lábios de Nick aqueceram sua garganta, enquanto seus dedos aprisionavam um mamilo. A língua dele sugava, lambia, excitava. O corpo de Caroline se arqueava de encontro ao dele, ondas de prazer e excitação se agitando dentro dela. Ela se apertou contra ele, enfiando os dedos em seus cabelos, descendo pelos ombros enquanto ele continuava a atordoá-la com sua respiração quente contra sua carne nua. Lentamente, ele subiu a língua pelo vale entre os seios dela, capturou os lábios dela mais uma vez, sua língua mergulhando profundamente, tirando-lhe o fôlego. A boca dele parecia incendiar-lhe as faces, as têmporas, as orelhas. Ele mordeu o lóbulo de uma de suas orelhas.

? Caro ? ele murmurou, num tom profundo. ? Você não disse nada... nem uma palavra. Quer que eu pare? Porque se quiser, é melhor dizer agora. Senão, vou acabar esquecendo que sou um cavalheiro e lembrar apenas que você é minha esposa. Então... quer que eu continue ou não?

? Sim... ? Aquela era mesmo a voz dela, tão suave, tão ofegante?, perguntou-se Caroline, chocada. Ela devia estar louca ou bêbada, pensou, para responder que ele prosseguisse. Ainda assim, ela não parecia encontrar as palavras, nem mesmo quando ele inspirou e, com firmeza e suavidade, arrancou-lhe o roupão e a calcinha, como se receasse que ela mudasse de idéia. Então, ele despiu a cueca; sim, ela era de seda, reparou Caroline, desorientada, para desviar os olhos, enrubescida, no momento seguinte, pela evidência revelada de seu desejo por ele.

O corpo dele era tão magnífico quanto ela imaginara, a barriga como um tanquinho de músculos, seu sexo duro e pesado. Ele a tomou nos braços, e suas carnes nuas se encontraram. Vagamente, em algum canto de sua mente, ela se deu conta de que não sentia mais frio.

? Ah, benzinho ? Nick suspirou de prazer, enquanto sua boca e mãos passeavam pelo corpo dela, aquecendo-o tanto quanto o fogo que ele havia aceso anteriormente. — Você não sabe o quanto eu a desejei. Tem sido um inferno para mim a semana inteira, perguntando-me como eu me comportaria, casado com você e sem poder tê-la. Caro, tem certeza de que é isso que você quer?

? Sim ? sussurrou ela, tremendo pela paixão que ele lhe havia provocado.

? Não vai se arrepender de manhã?

? Provavelmente, mas não importa. Faça amor comigo, Nick, por favor.

? Sim... a noite inteira, se você quiser. Abra as pernas para mim, querida. Sim, dessa forma. Você é tão bonita, tão macia...

A mão dele encontrou seu sexo, e descansou ali, gentilmente por um momento. Ao toque dele, a respiração de Caroline ficou presa na garganta, até que um pequeno gemido saiu dos lábios dela. Nick a beijou de novo, faminto, engolindo aquele som e sua respiração. A língua dele mergulhou em sua boca enquanto seus dedos deslizaram profundamente dentro dela, se retirando para no momento seguinte deslizarem novamente. E novamente. Durante o tempo todo, o polegar dele se movia sobre o pequeno botão escondido entre as pétalas frágeis dela, acariciando, provocando, fazendo com que ela ansiasse ser penetrada por ele.

Instintivamente, Caroline gemia e se contorcia, sem conseguir pensar; era uma massa de sensações, tonta, sem fôlego. Ela agarrou Nick, as palmas das mãos deslizando por suas costas e nádegas molhadas de suor, traçando a forte curva de músculos que estremeceram sob suas palmas. Sem palavras, ela tentou lhe transmitir sua urgência, investindo contra a mão dele. Mas ele ignorou seu apelo silencioso, continuando a atormentá-la. Baixando a cabeça até os seios dela, ele tomou um dos mamilos entre os lábios, sugando com avidez, enquanto sua mão continuava a afagá-la.

Uma pressão irresistível se formava dentro dela, cada vez mais forte, até tornar-se uma torrente impossível de conter e explodir dentro dela, em onda após onda de prazer que a fazia fritar e engasgar.

Só então Nick se equilibrou em cima dela, os músculos poderosos de seus braços flexionando-se enquanto ele a penetrava, se movimentava dentro dela, desejando penetrar ainda mais fundo. Até que ele parou por um momento, o coração batendo com violência contra o de Caroline, a respiração irregular se misturando à dela no silêncio quebrado apenas pelos estalos do fogo na lareira. Sorrindo para ela, ele beijou-lhe a boca, e, lânguido, lambeu o suor que gotejava entre os seios dela.

Depois, começou a movimentar-se para dentro e para fora do corpo dela, as mãos agarrando-lhe as nádegas, arqueando-lhe a cintura ao encontro da sua. Ela enroscou as pernas em volta das dele, tomando-o bem fundo dentro de si, enquanto começava a sentir mais uma vez aquela torrente surgir interiormente, pulsando, irrompendo, atravessando seu corpo. Sabendo que ela havia atingido o orgasmo, Nick buscou atingir também, ríspido e urgente, os dedos apertando-se sobre ela, quase machucando, enquanto tremia, longo e duro, contra seu corpo. Então, ele desabou em cima dela, seu rosto enterrando-se em seu cabelo, respirando ofegante nos ouvidos dela.

? Não estava congelando aqui momentos atrás? ? perguntou ele, depois de um longo minuto.

? Sim... mas isso foi antes de você entrar e aquecer as coisas por aqui ? murmurou Caroline, maliciosa, o coração ainda pulando.

? Acredite, se eu soubesse que isso ia acontecer, teria quebrado o aquecimento no dia em que chegamos ? declarou Nick, com um sorriso maroto. Ele deitou de costas, puxando Caroline para seus braços. ? Agora não dá mais para anular. Você está presa a mim.

Caroline não tinha certeza de como receber aquilo, ou o que ele pretendia com aquilo, e tinha medo de perguntar, medo de descobrir que ele estava apenas brincando. Então, disse, com suavidade:

? Acho que não vou me importar tanto. Quero dizer, pelo menos sei que vou estar aquecida durante nossos longos e frios invernos em Minnesota.

? Conte com isso ? ele reforçou, envolvendo-a nos braços, possessivo.

Quando o quarto voltou a ficar frio novamente, Nick se levantou para jogar mais lenha na lareira e fazer com que o fogo, mais uma vez, queimasse, brilhante. Depois voltou para a cama, para novamente deixar Caroline em chamas, para fazer com que ela ardesse, fora de controle.

Capítulo 12

Acuando Caroline acordou na manhã seguinte, achou primeiro que havia sonhado que Nick fizera amor com ela apaixonadamente na noite anterior. Estava sozinha na cama, e não havia chamas na lareira. No momento seguinte, ela se deu conta de que estava nua e que a lareira estava cheia de cinzas frias. Soube, então, que o casamento que era para ser somente no papel havia se consumado.

Nick devia ter acordado cedo. Não havia nem uma ruga no travesseiro do lado dele na cama para mostrar onde ele havia dormido. E, estranhamente, a porta do quarto estava fechada. Aquilo confundiu e afligiu Caroline, já que ela não tinha o hábito de fechá-la à noite, para o caso de Nick precisar do banheiro. Por um instante, todo tipo de pensamento selvagem passou por sua cabeça. O pior deles era que, tendo-a seduzido, o que impossibilitava a anulação do casamento, ele retornara a Minnesota sem ela, tripudiando sobre sua ingenuidade, para receber o bônus de casamento e tudo o mais que esperava obter com um eventual divórcio! Ela se perguntava se, antes de embarcar no jato da empresa para a lua-de-mel, ele havia assinado o acordo pré-nupcial.

Caroline sentiu frio e um súbito mal-estar. E se estivesse certa e Nick fosse pior do que Paul Andersen havia sido... E se tivesse novamente passado por boba? Ela não queria acreditar em nada disso sobre o marido, nem sobre si mesma. Ainda assim, não podia parar de pensar por que ele a teria deixado sozinha depois daquela última noite, fechando a porta do quarto para que ela não o ouvisse saindo de fininho do chalé.

Ah, Deus, por que havia tomado aquele conhaque com chá na noite anterior e deixado que ele fizesse amor com ela? Sua avó ficaria tão furiosa e decepcionada, seu pai a censuraria, irritado.

Tremendo, Caroline levantou-se da cama e caminhou até o banheiro. Ali, uma enorme sensação de alívio a percorreu quando viu os artigos de toalete de Nick na bancada. Se ele tivesse dado no pé, certamente não teria deixado suas coisas para trás. Depois do alívio veio o choque ao ver seu reflexo no espelho. Parecia uma... depravada, pensou, uma mulher que não somente havia feito amor recentemente... mas intensamente e bem-feito.

Seu cabelo longo e negro era uma massa emaranhada pelo rosto. Marcas crescentes de falta de sono escureciam seus olhos. Sua boca ainda estava ligeiramente inchada e vermelha dos beijos de Nick. As marcas em sua garganta, seios, cintura e coxa fizeram com que enrubescesse ao se lembrar como, naquela noite, ele havia beijado e acariciado cada parte do corpo dela, levando-a à loucura.

Até agora, Caroline havia se considerado sempre um pouco tímida e reservada na cama, com medo de não ser deslumbrante ou sexy o suficiente para agradar. Talvez Nick não tivesse escapado, mas também não havia ficado pedindo mais naquela manhã, pensou, melancólica. Talvez ela não tivesse correspondido às expectativas dele. Ela não podia evitar se lembrar de quando havia posto Paul Andersen bêbado para fora da última vez; ele havia gritado insultos terríveis para ela, os piores foram que ela era frígida e ruim na cama. Talvez Nick tivesse achado a mesma coisa. Por que outro motivo ele teria fechado a porta do quarto?

Caroline esticou o braço para dentro do chuveiro e abriu a torneira, entrando em seguida, sentindo-se como se fosse cair no choro a qualquer momento. Estava tão perdida em seus maus pensamentos, que o som da água corrente foi suficiente para que ela não ouvisse Nick entrando no banheiro. Ela deu um salto, assustada, quando ele abriu a porta do boxe e se juntou a ela, igualmente nu.

? Nick! O que... está fazendo? ? atônita pela aparição dele, ela fez uma tentativa, sem muito esforço, de se cobrir.

? Tomando banho com minha noiva. Meu Deus, pensei que os homens da manutenção nunca terminariam de consertar o aquecimento e dar o fora! Não sei qual deles era pior: o velho que falava pelos cotovelos, ou o jovem que peguei olhando para você no quarto. Ele teve sorte por eu não ter lhe arrancado a cabeça de voyeur... Se você não estivesse coberta, eu teria arrancado!

? Quer dizer que foi por isso que você me deixou, por isso fechou a porta do quarto?

? É claro. Por quê? Que outra razão podia haver? -Nick olhou para ela, curioso, afastando uma mecha de cabelo de seu rosto.

? Não sei. Eu pensei... pensei que talvez eu o tivesse... decepcionado de algum modo ? Caroline admitiu, suavemente. ? Que tivesse me achado... frígida ou algo assim.

Ele praguejou em russo, mas, ainda assim, ela percebeu que ele falara um palavrão. Com a mão sob seu queixo, ele aproximou o rosto dela com os dedos.

? Foi o que aquele maldito idiota do Andersen lhe disse, não é? Não é?

Ela confirmou com a cabeça, sem dizer nada.

? Aquele desgraçado! Eu queria dar-lhe uma lição muito merecida! Agora, ouça uma coisa, benzinho, e ouça bem. Não existem mulheres frígidas, apenas homens incompetentes e insensíveis... e acho que não sou um deles. A noite passada foi maravilhosa... para nós dois, pensei. Esperava que você tivesse sentido o mesmo.

? E senti... Sinto ? Caroline murmurou.

? Então, vamos ver, onde foi mesmo que paramos ontem à noite? Apertando-a contra a parede do boxe, ele lentamente desceu a boca até a dela, seus olhos escurecendo de paixão, sua excitação visível enquanto a água quente continuava a cair sobre ambos.

Depois que retornaram de Maplewood Lodge, Caroline e Nick passaram o resto do fim de semana mudando a maior parte das roupas e objetos preferidos dela para a casa dele à beira do lago. O processo foi prejudicado por sua primeira briga, quando ela insistiu em quartos separados.

? Que diabo, Caro! ? Os olhos escuros de Nick pareciam confusos, e mesmo feridos, ela pensou. Mas é claro que a recusa dela em dividir a cama, depois da lua-de-mel, devia ter sido um soco no ego dele. ? Achei que já tínhamos resolvido tudo isso.

? Por quê?... Só porque o grogue quente que você me preparou confundiu meus sentidos? Veja, Nick, não estou dizendo que... o que aconteceu entre nós não tenha sido maravilhoso, porque foi. É simplesmente porque, com tudo que ocorreu com tanta rapidez, eu... não tenho certeza dos meus sentimentos agora, é isso. Eu... preciso de um tempo, um espaço, para tentar organizar as coisas na minha cabeça. Nosso casamento era para ser um casamento de conveniência. Nossa suposta lua-de-mel mudou tudo de uma maneira que eu não esperava. Eu não planejava... me envolver com você, e não estou disposta a um... romance casual. Nessas circunstâncias, o que fizemos foi descuidado e irresponsável.

? Descuidado? Irresponsável? De que forma? ? Ele ergueu uma sobrancelha, inquisitivo. ? O que quer dizer com isso, Caro?

? Bem, nós não... ? A voz dela foi sumindo, constrangida. Não estava acostumada a discutir detalhes íntimos com um homem. Mas ele tinha que saber. Respirando fundo, ela se forçou a continuar: ? Nick, você provavelmente presumiu... bem, que eu estava tomando pílula, algo assim. Mas não estou, e nós não... fizemos nada para evitar uma gravidez...

? Então o que você está tentando dizer é que pode estar grávida. E isso?

? Sim ? ela confirmou com a cabeça, mordendo o lábio inferior de.ansiedade ao pensar nisso. ? Nick, assim que seus problemas com o SIN estiverem resolvidos, vamos nos divorciar. Você sabe disso. Eu sei disso. Então, uma criança seria uma complicação terrível, uma vítima inocente no meio de tudo isso. Não podemos assumir esse risco. Não seria justo para nenhum de nós dois... e, principalmente, não seria justo para o bebê.

? E, você tem razão, é claro ? ele disse, devagar, depois de uma longa pausa, um músculo pulsando em seu maxilar contraído. ? Sinto muito, benzinho. Eu simplesmente não pensei.

? Por favor, Nick, nem imagine que estou pondo a culpa em você por isso, porque não estou. Tenho tanta culpa pelo que aconteceu quanto você. Afinal, você me deu uma chance de recuar, e eu não recuei. Mas estou recuando agora. Sinto muito, mas acho que é melhor se... se nós esquecermos o que aconteceu no Canadá.

? Se é isso o que você quer.

? Sim... é isso ? ela mentiu, virando-se de costas para que ele não visse as lágrimas que lhe surgiam nos olhos. Porque o que ela realmente queria era que o casamento deles se tornasse um casamento de verdade, cheio de amor e filhos e feriados em família. Ela esperava que ele a tomasse nos braços e dissesse que também queria aquilo. Mas ele não disse.

Em vez disso, ele falou, tranqüilo:

? Está bem, Caro. Você é quem sabe. Eu entendo. -Então, subiu as escadas com a bagagem, virando-se para a direita no último degrau, para que ela visse que ele a levava para o quarto no lado do corredor oposto ao de seu próprio quarto.

O coração dela se contraiu ao perceber. Piscando para conter as lágrimas, ela quase subiu as escadas correndo atrás dele para dizer que havia mudado de idéia, que levasse a bagagem dela para o quarto dele. Mas, determinada, lutou contra esse impulso selvagem. O sexo com Nick havia sido maravilhoso. Ela não havia mentido sobre isso. Mas era só o que havia sido, apenas sexo. Além do desejo e da gratidão, ele não tinha sentimentos por ela, e se ela tinha por ele, bem, então, devia lutar muito para mantê-los sob controle antes que acabasse se magoando, com o coração novamente partido.

Ainda assim, o fato de que não estaria mais dormindo com Nick, abraçada com ele durante a noite, deprimia Caroline. Foi com um suspiro pesado que ela subiu devagar as escadas para continuar a arrumar suas roupas e objetos.

Do outro lado do corredor, em seu próprio quarto, Nick se enfiou desesperançado na cama. Com as mãos sob a cabeça, ele olhou para o teto, sem ver nada. O dia inteiro ele só havia pensado em fazer amor com Caroline. Ela era sua esposa, ora bolas! Ele tinha todo o direito de dormir com ela! E, embora soubesse que suas razões para recusá-lo eram válidas, ele não podia deixar de se perguntar se ela havia falado a verdade.

Que mulher solteira hoje em dia não usava algum método concepcional? Havia uma infinidade de métodos disponíveis. E se ela realmente não usava, por que diabos não mencionou o fato antes de deixá-lo fazer amor com ela no chalé em Maplewood Lodge? Nick podia pensar que Caroline havia mentido, que era o meio que encontrara de polidamente manter distância entre eles, que talvez ela apenas tivesse se divertido com ele no chalé.

Quando voltaram para Mineápolis, talvez ela tivesse começado a reconsiderar, a pensar que ele não era bom o suficiente para ela, ou mais provavelmente, para a família dela. Afinal, o que ele era, na verdade, senão um marido contratado? Comprado e pago pelos Fortune para que não fosse deportado antes que a fórmula secreta da juventude de Kate pudesse vir à tona. Que inferno! Se não fosse isso, Nick apostaria que Caroline nunca teria concordado em se tornar sua esposa. Ele não teria se importado, se, como um tolo, não estivesse caído por sua mulher. Caído como uma tonelada de tijolos.

Ela era tudo que ele sempre havia desejado em uma mulher: bonita, inteligente, criativa e sofisticada, sem ser durona, o que caracterizava muitas mulheres bem-sucedidas. Em vez disso, ela tinha uma doçura e uma timidez que se tornavam um suave apelo feminino. Quanto mais perto ele estava dela, mais ele se dava conta disso. No fundo, ela era terrivelmente vulnerável.

Ela o havia deixado aproximar-se por um momento. Mas agora, como um caranguejo eremita, havia se retirado de volta para sua concha. Mas ele podia conquistá-la mais uma vez, pensou Nick, se agisse com cuidado e paciência. Porque de forma alguma ele perderia a esposa. Não importava o que ela acreditasse, mas o divórcio estava inteiramente fora de cogitação.

Se necessário, para segurá-la, ele estava disposto a ter problemas com o SIN por anos!

Capítulo 13

O problema com o SIN foi exatamente a primeira coisa com que Nick se deparou na segunda-feira de manhã. Dois agentes de imigração o aguardavam em seu escritório anexo ao laboratório da Cosméticos Fortune. Acomodados em cadeiras em frente à sua mesa, eles mostraram suas carteiras de identificação em couro, assim que Nick entrou na sala.

? Dr. Valkov? Lyndon Howard, Serviço de Imigração e Naturalização. E este é Brody Sheffield. Gostaríamos de falar com o senhor, se for possível.

? É claro, senhores ? disse Nick, apertando as mãos deles. ? Sentem-se, por favor.

Eles voltaram para as cadeiras de onde haviam se levantado momentos antes. Howard, que era visivelmente o agente sênior, limpou a garganta. Em seguida, enfiou a mão no bolso de dentro do paletó, tirou um par de óculos e um envelope, do qual retirou uma carta. Com suas lentes bifocais, ele deu uma olhada no papel.

? Acredito que tenha recebido uma cópia desta carta do SIN há alguns dias, Dr. Valkov. Nela, o senhor foi instruído a comparecer a nosso escritório local para entregar seu cartão de permanência e dar prosseguimento aos procedimentos de deportação. Não recebeu?

? Sim, recebi.

? Então... posso lhe perguntar por que o senhor não seguiu nossas instruções?

? Porque eu estava me casando naquela época ? explicou Nick, afável, embora os olhos estivessem alertas e cautelosos. ? De acordo com meu advogado, isto impede que os senhores me deportem, por mais que desejem.

? Não é assim, exatamente, Dr. Valkov, como tenho certeza de que seu advogado já deve ter-lhe informado. Veja bem, se o SIN tiver motivo para acreditar que o senhor se casou por conveniência, somente no papel, com o simples propósito de evitar sua deportação, podemos declarar o casamento inválido e expulsá-lo dos Estados Unidos de qualquer modo.

? Sim, entendo. No entanto, o que os senhores devem entender é que minha esposa e eu vínhamos saindo há algum tempo e planejávamos nos casar ainda este ano, numa grande festa, com toda a pompa, pela qual ansiávamos muito. Temo que a carta dos senhores foi uma grande decepção para ela, já que, por isso, fomos obrigados a nos casar um pouco às pressas, no cartório.

? E mesmo? ? O tom de Howard mostrava descrença. ? Que história bonita, Dr. Valkov. Tenho certeza de que o senhor não terá objeção se a checarmos.

? De forma alguma. Na verdade, se os senhores quiserem, posso chamar minha esposa agora mesmo.

? Por favor.

Nick tirou o telefone do gancho e discou para o ramal de Caroline.

? Querida? Sou eu. Está muito ocupada? É que dois agentes do SIN estão aqui no meu escritório e gostariam de falar com você. Ficarei muito feliz se você puder vir aqui agora. Ótimo. Nos vemos daqui a pouco. ? Ele desligou e virou-se novamente para Howard e Sheffield. ? Ela está descendo.

? Ótimo. Enquanto isso, espero que não se importe de responder algumas perguntas.

? De forma alguma.

? Ótimo. Tome notas, Brody ? Howard comandou o parceiro. ? Bem, Dr. Valkov, como o senhor conheceu sua esposa?

? Em nosso trabalho aqui na Cosméticos Fortune. Ela é diretora de marketing. Nós... literalmente esbarramos um dia no corredor quando estávamos indo para uma reunião. Eu fiquei atraído por ela. E tinha esperanças de que ela sentisse o mesmo por mim, então me ofereci para cozinhar o jantar para ela um dia.

? E ela aceitou seu convite?

? Aceitou. Eu a levei até minha casa, à beira do lago, e lhe preparei um pequeno jantar com salada, pão francês e estrogonofe de carne. Depois, tomamos uma taça de vinho e ouvimos música. Tchaikovsky, eu me lembro.

? E há quanto tempo aconteceu isso?

? Não sei ao certo. Foi há bastante tempo, alguns meses, pelo menos ? mentiu Nick.

? E vocês continuaram se encontrando com freqüência desde então?

? Isso mesmo.

? E quando ficaram noivos?

? Um pouco antes de receber sua carta, na verdade. Ah, Caro, você chegou, querida. ? Levantando-se da cadeira, Nick saiu de trás da mesa para tomá-la nos braços e dar-lhe um beijo ligeiro na boca. ? Estes são os senhores Howard e Sheffield, do SIN. Senhores, esta é minha esposa, Caroline Fortune Valkov.

? Fortune! ? exclamou Sheffield, virando-se para o chefe com os olhos arregalados, perguntando-se, de repente, se, afinal, não haviam cometido um erro.

? Sim, isso mesmo ? confirmou Caroline, tranqüila, apertando a mão dos dois homens. ? Sou a neta mais velha de Kate Fortune e, com certeza Nick já lhes contou, diretora de marketing da Cosméticos Fortune. ? Normalmente, ela não dava tanta informação assim espontaneamente. Naquelas circunstâncias, no entanto, achou prudente impressionar os agentes com sua família e riqueza. Casando-se com Nick para impedir sua deportação, ela havia, tecnicamente, violado a lei, e poderia, na melhor das hipóteses, ser multada.

? Sinto muito se interrompemos seus compromissos, senhora Valkov. No entanto, tenho certeza de que a senhora entende que precisamos fazer-lhe algumas perguntas. Sente-se, por favor ? Howard apontou para as cadeiras.

? Sim, claro. ? Caroline aproximou-se e sentou-se o mais próximo possível de Nick, com o pulso disparado, embora eles tivessem já ensaiado essa cena várias vezes.

Ela desejou que o cabelo estivesse preso num coque, que tivesse os óculos para se esconder por trás deles, que estivesse vestida num terno Chanel feito sob medida em vez do conjunto Versace colorido que sua irmã a convencera de comprar uma vez e Nick insistira que ela vestisse hoje. Ela não tinha a mais vaga idéia de que estava tão bonita quanto Cindy Crawford num ótimo dia, ou mais ainda, e que, apesar de suas suspeitas, os agentes do SIN já achavam que, com aquele visual e o dinheiro que ela tinha, Nick seria louco se não se casasse com ela.

Howard prosseguiu com a entrevista, fazendo a Caroline várias das perguntas que já havia feito a Nick. Para seu alívio, ela sabia que, pelo sorriso incentivador de Nick, estava indo bem, não havia cometido nenhum erro.

? Então, senhora Valkov, perdoe-me pela intromissão em assuntos pessoais, mas tenho que lhe fazer a próxima pergunta porque geralmente quando duas pessoas se casam apenas para impedir a deportação de uma delas, quando o casamento é só no papel, pode-se obter uma rápida anulação posteriormente. Então, a senhora pode me dizer, por favor, se seu casamento foi consumado?

Caroline podia sentir o calor em seu rosto. Sem conseguir falar, constrangida, ela balançou a cabeça numa afirmativa. E se perguntou, abalada, se essa informação poderia chegar a sua avó e seu pai.

? Na verdade, acabamos de voltar de nossa lua-de-mel ? Nick anunciou, sem se alterar. ? Passamos uma semana em Maplewood Lodge, logo depois da fronteira canadense. Posso lhes dar o endereço e o número de telefone se quiserem verificar. Com certeza, eles vão se lembrar de nós. Estávamos no chalé nupcial, e nosso aquecimento quebrou na última noite que passamos lá.

? Sim, obrigado, gostaria muito de ter o telefone ? Howard respondeu, levantando-se. ? No entanto, acho que não haverá nenhum problema sobre o casamento de vocês. Se precisarmos de mais alguma coisa, entraremos em contato.

? Os senhores sabem onde nos encontrar. ? Nick entregou a Howard um pedaço de papel com o endereço e o número do telefone do Maplewood Lodge. ? Ah, e mais uma coisa. Não sei como e de onde os senhores tiraram a idéia de que já fui agente da K.GB. Eu sou químico... e somente químico. Sempre fui. Pensem nisso. Se eu realmente fosse um espião da Rússia, por que estaria perdendo tempo numa empresa de cosméticos? Vocês realmente acreditam que eu escondo transmissores em tubos de batom? Câmeras em miniatura dentro de pó compacto? Que falo com Moscou num telefone escondido no sapato? Talvez pensem que também chamo Caro de "Noventa e Nove"? Se for isso, eu diria que os senhores andam vendo muita reprise do seriado Agente 86.

Sheffield deu uma risada tranqüila, imediatamente interrompida pelo olhar firme e irritado de Howard.

? Pode ser piada para o senhor, Dr. Valkov, mas nós, americanos, levamos nossa segurança a sério. Que os recém-casados tenham um bom dia.

Assim que os dois homens saíram, Caroline levantou-se e aproximou-se de Nick com o rosto ansioso e pôs a mão no braço dele.

? Você acha que eles realmente acreditaram em nós? Que o senhor Howard disse a verdade sobre não haver problema quanto ao nosso casamento?

? Não sei. Mas terão um trabalho enorme para provar que somos mentirosos e sabem disso. Você quase disse a eles que estariam enfurecendo toda a família e o império Fortune, Caro. O que seria uma perspectiva intimidadora para qualquer pessoa, especialmente aqui nas Cidades Gêmeas. Obrigado, querida. ? Nick abaixou a cabeça e deu-lhe um beijo.

Como ela não protestou nem se afastou, ele aumentou a pressão de sua boca sobre a dela, a língua forçando-lhe os lábios a se abrirem, insinuando-se para dentro. A boca de Caroline ansiava pela dele e um fluxo de desejo corria todo seu corpo. Nick tinha gosto de café preto e quente e cigarros Player, coisas que ela começava a associar a ele. Tinha cheiro de sabonete, colônia e fumaça de cigarro. A língua dele se contorcia e remexia com a dela. As mãos dele se enroscavam na massa encorpada e brilhante dos cabelos negros dela.

Quando ele a aproximou de seu corpo, Caroline sentiu a força e dureza de sua excitação fazendo pressão sobre ela. Logo, ele estaria trancando a porta do escritório, jogando-a sobre o sofá ou sobre o chão. E ela queria aquilo. Mas não podia se render à tentação.

? Nick... Nick, não... ? ela murmurou, afastando-se dele, resoluta, pousando as mãos trêmulas sobre seu peito largo, para se defender. ? Eu... tenho que voltar ao trabalho e você também. O fato de descer até aqui para conversar com o SIN já atrapalhou os compromissos da minha agenda. Mary teve que cancelar uma reunião e reagendar outra. Além disso, você não acha que as fábricas de boatos já estão trabalhando além da conta?

? Sim, suponho que sim ? ele a soltou, relutante, com um sorriso pesaroso, embora os olhos escuros ardessem como brasas enquanto a olhavam.

Ela tinha razão. Na ausência deles, as fofocas se espalharam pela Cosméticos Fortune. Caroline e Nick souberam disso assim que entraram no prédio, pela manhã. Foram observados com olhares especulativos por toda a parte: na garagem do prédio, no elevador, nos corredores. Mais de uma pessoa havia gritado: "Ei, ouvi dizer que vocês se casaram" ? claramente esperando uma explicação sobre o assunto.

Nick não havia respondido a ninguém. Apenas sorria como um certo ar de gato que engolira um canário, enquanto Caroline enrubescia de constrangimento por se ver mais uma vez objeto de fofocas na empresa.

? Ah, ia me esquecendo. ? Ela já estava saindo do escritório, quando voltou da porta ? Vovó quer que almocemos com ela ao meio-dia em seu escritório. Acho que devemos contar a ela sobre a visita do SIN.

? Sim, devemos porque, embora eles pareçam satisfeitos no momento, nunca se sabe. Pode ser que voltem.

? Espero que não ? retrucou Caro, veemente. ? Um interrogatório foi mais do que o suficiente para mim! Nos vemos no almoço. ? Ela saiu do escritório, assustada pela estranha sensação de que Nick a observava, admirando o balanço de seu traseiro enquanto caminhava.

Ela não ia olhar para trás, disse a si mesma, com firmeza. Não ia.

Ele estava encostado no umbral da porta do escritório, as mãos enfiadas nos bolsos das calças, o olhar de um jeito que qualquer pessoa que o visse saberia no que estava pensando ao observá-la. Ela deu uma olhada furtiva para trás e ele sorriu para ela, malicioso. Depois, gritou-lhe alguma coisa em russo. Caroline podia não saber o que era, mas tinha certeza de que fora alguma coisa muito imoral.

Ela desejou ardentemente que ninguém no laboratório entendesse russo.

Capítulo 14

Os dias de Caroline e Nick logo formaram um padrão. Eles acordavam cedo, revezavam-se para preparar o café da manhã, e passavam um bom tempo lendo o jornal e assistindo à CNN. Em seguida, ela pegava carona com ele no Mercedes-Benz até o escritório, já que ele insistia que não havia necessidade de os dois dirigirem até a cidade.

? Eu me preocupo com você enquanto as estradas estiverem cheias de gelo assim, Caro ? ele declarou, sério, acariciando o cabelo dela. ? Não quero que você dirija por elas, sozinha, especialmente depois que escurecer.

Nos dias em que um deles, ou ambos trabalhavam até mais tarde, eles passavam a noite na cidade, no antigo apartamento de Caroline, onde Nick agora tinha tantas roupas penduradas nos armários quanto ela. Ou então, eles voltavam para a casa dele à beira do lago, que ela começava a adorar e onde tinha acrescentado pequenos toques pessoais, aqui e ali, de modo que não parecia mais tão masculina como antes. Ela e Nick geralmente acabavam preparando o jantar juntos, depois jogavam cartas ou jogos de tabuleiro, ouviam música ou liam alto um para o outro em volta da lareira na sala de estar. Para surpresa de Caroline, Nick amava os clássicos e a poesia tanto quanto ela.

? Por que ficou surpresa? ? ele perguntou, quando ela mencionou isso a ele.

? Bem, porque a maioria das pessoas, hoje, parece não ler mais tanto os clássicos, e poesia, então, dificilmente.

? Então elas não sabem o que estão perdendo, não é? Algumas das idéias mais bonitas do mundo estão nesses livros, expressos numa linguagem que tem ritmo e música, uma alma que é própria. O que teremos hoje à noite? Wordsworth ou Tennyson?

? Tennyson, por favor. Idílios do rei.

Ele leu para ela com sua voz forte e profunda, enquanto ela se sentava de frente para a lareira tomando uma taça de vinho e se permitindo ser transportada a um outro tempo, um outro lugar.

No escritório, eles continuavam a trabalhar na fórmula secreta. Caroline finalizando os detalhes da campanha de marketing, Nick completando os testes no laboratório. Às vezes, parecia que eram as duas únicas pessoas que ficavam na Cosméticos Fortune depois das cinco horas. Sempre que isso acontecia, Nick costumava aparecer no escritório dela com embalagens de comida chinesa ou italiana, que eles comiam à mesa dela antes de voltar ao trabalho.

Caroline nunca havia sido tão feliz em sua vida... nem tão desesperada. Apesar de todas as suas boas intenções, como era difícil manter distância de Nick, dar um tempo a seu coração, se estava completamente entregue a ele. Não sabia como podia ter deixado acontecer uma coisa dessas. Com certeza, não era isso que sua avó e seu pai acreditavam que ocorreria quando sugeriram que ela se casasse com Nick. Apesar disso, ela estava pronta a desafiar os dois, arriscar a reprovação deles, se realmente acreditasse que seu marido podia amá-la, que chegaria a tanto.

Mas não havia chance de que isso acontecesse, Caroline pensou, desesperançada. Nick a tratava como um marido dedicado faria com sua esposa simplesmente porque havia prometido a ela que o faria, e não queria se arriscar a perder o emprego ou a liberdade. Ele não queria ser deportado, só isso. E se ele às vezes perdia o controle e beijava Caroline como se ela fosse sua esposa verdadeira e tentava convencê-la a dividir a cama com ele de novo, bem, aquilo era apenas a atração física que ele sentia por ela, a química, na qual ele era tão brilhante.

Ela simplesmente tinha que tirar tudo isso da cabeça, Caroline disse a si mesma, com firmeza. O relacionamento deles estava interferindo no trabalho dela. Ela não conseguia se concentrar no que devia estar fazendo na Cosméticos Fortune. Duas vezes havia chegado atrasada a reuniões e de outra vez havia se esquecido de uma completamente. Ela só ficava aliviada porque sua avó não estava sabendo como ultimamente sua agenda andava desleixada.

Prendendo a pasta que carregava sob um braço e jogando a garrafa vazia de refrigerante dietético que acabara de tomar em uma das lixeiras próximas, Caroline dirigiu-se de volta a seu escritório. Ela havia passado a manhã inteira examinando mais trabalhos de arte para os layouts de revista do Rosto Fabuloso. Provavelmente haveria uma pilha alta de papel sobre sua mesa, pensava, suspirando.

Ela também não havia almoçado. Teria que pegar um sanduíche numa das máquinas de lanche ou algo assim.

-Caroline! Caroline, espere!

Ah, meu Deus, ela gemeu interiormente quando virou-se e viu que Paul Andersen vinha atrás dela pelo corredor. Olhou em volta, na esperança de ver algum outro empregado, mas o corredor estava vazio. Por isso, ela continuou andando.

? Caroline! ? Ele a alcançou e agarrou seu braço, forçando-a a parar. ? Sei que me ouviu chamar, por que não parou?

? Possivelmente porque eu não quero falar com você, Paul. A meu ver, não temos nada a dizer um ao outro, nem agora, nem em qualquer outro momento! Portanto, solte meu braço!

? Ora, não me trate desse jeito. Só quero alguns minutos do seu tempo, só isso. Acho que me deve isso.

? Não lhe devo nada. Solte-me, já disse. ? Com um movimento brusco, Caroline conseguiu soltar o braço e voltou a caminhar pelo corredor. Pelo cheiro da respiração dele, ela suspeitou que o almoço de Paul havia sido à moda antiga, com três martínis; ele ainda não percebera que agora uma água tônica ou uma água mineral eram de bom tom. E, ao se lembrar do comportamento embriagado daquela noite no apartamento dela, não ia dar sopa para que ele repetisse a performance. ? Se você não parar de me irritar, Paul, vou chamar a segurança ? ela insistiu, ao perceber que ele a seguia.

? Eu só quero saber se é verdade que você se casou com Nick Valkov.

? Se é verdade ou não, não é da sua conta, Paul.

? É, sim! Que diabo, Caroline! Você era minha noiva. Eu pensei... ou melhor, tinha esperança de que seria novamente um dia. Sei que sua família a envenenou contra mim, insistindo que eu só queria seu dinheiro. Mas não era verdade.

-Não?

? Não.


? Por que será que eu não acredito nisso, Paul? Vá embora e deixe-me em paz!

? Você está usando uma aliança de casamento, Caroline. A quem está tentando enganar? Você sabe o que as pessoas estão dizendo a suas costas? Que sua família pagou Nick para se casar com você, que contrataram um marido porque você não conseguiria um homem de outra forma! O que eu quero saber é... por que ele? Qual a diferença entre ele e mim? Eu pelo menos a amava, Caroline, da minha própria maneira.

? Você é desprezível ? ela disse, fria, humilhada pelo que Paul acabara de dizer. Com certeza, ele estava inventando aquela fofoca, ou pior, e mais provável, ele mesmo havia espalhado aquilo! Ele era maldoso o suficiente para fazer algo assim como vingança, pensou. Ah, meu Deus. Nunca lhe havia passado pela cabeça que todos na empresa ficassem sabendo que seu pai havia pago Nick para se casar com ela. Só podia ser suposição de Paul, ou rumores que ele espalhara por puro rancor. E ela não sabia como rebatê-los.

Caroline havia chegado a seu próprio escritório, mas Paul ainda estava atrás dela, balbuciando, meio bêbado.

Ele agarrou novamente o braço dela, mas, dessa vez, ela não conseguiu soltá-lo.

? Paul, você está me machucando ? disse a ele, com calma. Viu sua secretária, Mary, sentada à mesa junto a seu escritório, falando ao telefone. Caroline não queria testemunha para aquela cena feia e mais fofocas se espalhando pelos corredores da Cosméticos Fortune. ? Acho melhor você ir. É provável que Mary esteja chamando a segurança ? ela mentiu, já que na verdade não sabia com quem a secretária estava falando.

Ela descobriu apenas alguns minutos depois, quando Nick saiu do elevador em direção ao escritório dela, o rosto sombrio.

? Tire suas malditas mãos de minha esposa, Andersen, ou vai se arrepender! ? ele resmungou, furioso, dirigindo-se a Paul.

? Nick! ? gritou Caroline, aliviada ao ver o marido. -Ele andou bebendo ? disse, tentando explicar a Nick o comportamento de Paul.

Caroline achou que os dois homens iam sair no tapa, mas o ex-noivo se mostrava covarde demais para isso. Virando o pescoço para olhar Nick, os olhos de Paul se arregalaram e ele subitamente virou-se e fugiu correndo pelo corredor. Nick quis segui-lo, mas Caroline o conteve, agarrando sua mão.

? Não, deixe-o ir embora. Por favor, Nick. Já foi suficiente ter se livrado dele.

? Está tudo bem, querida?

? Sim. Ele estava apenas querendo me irritar.

? Não importa. ? Um músculo contraía o maxilar tenso de Nick. ? Se sua secretária não tivesse me telefonado para avisar o que estava acontecendo, ele podia ter machucado você. Vou subir agora mesmo e pedir que Kate o demita. Aquele desgraçado não merece trabalhar aqui depois de tudo que fez com você. Essa foi a gota d'água! Tenho certeza de que sua avó vai concordar.

Nada que Caroline dissesse convenceria Nick a agir de outra forma.

? Não discuta comigo, benzinho. Isso eu não posso suportar. Andersen tentou violentá-la antes, e é evidente que ele ainda sente algo por você e que tem problemas com bebida. Com freqüência você trabalha até altas horas, quando não fica sozinha neste andar inteiro. E se ele subisse aqui uma noite dessas e a atacasse? Quem ouviria seus gritos? Não, não vou admitir, e ponto final, Caroline.

A avó, ouvindo tudo o que Nick tinha a dizer, concordou, incisiva.

? Por que não me contou sobre Paul antes ? perguntou ela, ponderada. ? Se eu soubesse, nunca teria permitido que ele continuasse a trabalhar aqui. ? Ela pegou o telefone e ligou para o chefe do departamento de Paul e o instruiu, concisamente, a demitir Paul de imediato. Em seguida, desligou e virou-se para os recém-casados. ? Nick, quero lhe agradecer por vir até aqui e me contar sobre Paul. Fico-lhe verdadeiramente grata. Estremeço só de pensar que de algum modo ele poderia ter machucado minha neta.

? Caro é minha esposa, Kate. É minha obrigação zelar por sua segurança.

E obrigação dele, Caroline pensou, desanimada. É claro. Por que deveria haver outro motivo, além de fazer a coisa certa por ela, como ele havia prometido que faria?

? Então, como estão se dando os recém-casados? ? indagou Kate.

? Bem. Muito bem ? respondeu Nick. ? Caro se mudou para minha casa à beira do lago e em poucas semanas conseguiu transformá-la num verdadeiro lar. Conseguimos organizar nossas agendas, e ela vem e volta de carona comigo todo dia, sem precisar ficar dirigindo por estradas no campo depois que escurece. E até agora o SIN não fez nenhuma outra visita.

? Excelente. ? Kate sorriu, embora seus olhos estivessem pensativos quando ela olhou para Caroline, percebendo seu silêncio. ? E que tal minha fórmula secreta da juventude? Odeio ficar parecendo um velho papagaio cansado, batendo na mesma tecla a toda hora. Mas, para dizer a verdade, estou tão empolgada com Rosto Fabuloso que quase não consigo me conter.

Nick deu um largo sorriso irônico.

? Sim, já percebi, Kate. Embora não tenhamos completado os testes, vou atualizá-la. Estamos quase certos de que o Ingrediente X será uma planta que dizem que só cresce na floresta amazônica. O nome dela em latim éfloris virginis: flor virginal. Mas os índios da América do Sul a chamam de flor da juventude, e o que nos interessa é o que eles descrevem sobre as propriedades que ela tem. Entretanto, no momento não temos nem certeza se ela realmente existe. As histórias que contam a respeito podem ser apenas isso: histórias, lendas, mitos, o que seja. Então precisamos fazer uma investigação mais profunda antes que nos empenhemos numa procura em vão. Atualmente, estamos testando outras plantas com propriedades supostamente semelhantes às da flor virginal, para ver se estamos na trilha certa. Ainda assim, meu instinto me diz que estamos, portanto não se surpreenda se, num futuro próximo, eu lhe apresentar um pedido para levar uma pequena equipe até a Amazônia, Kate.

? Não vou me surpreender ? ela respondeu, com tranqüilidade. Mas, interiormente, ela pulava de alegria ao pensar: Isso não será necessário porque agora que sei o que você está procurando, pretendo voar para a América do Sul e eu mesma vou buscar!

Pouco depois, sem saber de seus planos, Caroline e Nick deixaram o escritório de Kate, seguindo juntos pelo corredor em direção aos elevadores. Antes que chegassem lá, de repente, Nick tomou a mão da esposa e a levou para dentro de uma pequena sala de reuniões do outro lado. Estava vazia e escura, e não ficou muito mais clara quando ele acendeu as luzes. Aparentemente, havia sido usada pela última vez para uma apresentação de vídeo ou slides, e o interruptor estava ajustado para luz baixa, tornando escassa a iluminação que vinha das lâmpadas do teto. Para sua surpresa, no entanto, Nick não aumentou as luzes. Apenas trancou a porta.

? Nick, o que você está fazendo? Por que você me trouxe até aqui? Algum problema?

? Diga-me você. Eu ia lhe fazer a mesma pergunta.

? Não estou entendendo...

? Você mal disse duas palavras no escritório de sua avó, Caro. Por causa disso, ela está preocupada que você esteja infeliz comigo. Você está infeliz? Foi alguma coisa que eu disse, alguma coisa que eu fiz que a deixou assim? Você ficou com raiva por eu ter pedido a demissão daquele desgraçado do Andersen? Você ainda... Deus que me perdoe... está apaixonada por ele?

? Não... não, não é nada disso.

? Então, o que foi? Qual é o problema?

? Nenhum. Por que deveria haver algum problema?

? Não sei. É isso que estou tentando descobrir. E tenho um sentimento muito estranho de que você está mentindo para mim... e eu não gosto disso. Não gosto nem um pouco disso. Se não é por Andersen, é outra pessoa?

? Não, claro que não. ? Mas Caroline ficou sem graça ao perceber que não conseguia olhar para o marido nos olhos quando respondia. Tinha tanto medo de que ele percebesse que ela realmente não estava dizendo a verdade, que era como se houvesse alguém: ele!

? Caroline. Caroline, olhe para mim, droga! ? Ele tomou-lhe o queixo com a mão e forçou-lhe o rosto, que resistia, mudo e teimoso, a olhar para ele. ? Pensei que tínhamos concordado que não sairíamos com ninguém enquanto durasse nosso casamento.

? Sim, é verdade. E não estou saindo, juro.

? Que bom, porque mudei de idéia. Eu não vou fazer vista grossa. Você é minha esposa... e não gostei de ver você sendo tocada pelas mãos pegajosas de Andersen! -Os olhos de Nick ardiam de raiva pela lembrança, enquanto ele olhava para ela com firmeza. Os músculos em seu maxilar se contraíam.

Caroline sentiu um pequeno arrepio dentro de si. Ora, ele estava se comportando como se estivesse com ciúme! E se estivesse? Aquilo significaria que ele começava a sentir alguma coisa por ela, mesmo que ainda não fosse amor.

Por mais que ela tentasse conter suas emoções, seu coração planava ao pensar nisso. Era possível que Nick estivesse se apaixonando por ela, como ela estava por ele?

? Paul queria saber se você e eu estávamos realmente casados ? ela disse, tranqüila. ? Parece que ele ainda alimentava esperanças de se casar comigo. E, como não respondi, ele falou algo sobre meu anel de casamento e que... todo mundo na Cosméticos Fortune sabia que minha família havia... pago a você para se casar comigo, que eu... não poderia conseguir um marido de outra forma.

? Ah, Caro, você sabe que não é verdade ? insistiu Nick, tomando-a nos braços, beijando-a e acariciando seus cabelos com suavidade.

? Talvez não, mas ainda assim é constrangedor e humilhante pensar que Paul estava espalhando rumores como esse sobre mim, pensar que há pessoas na empresa que possam ter acreditado nele. ? Lágrimas lhe surgiram nos olhos ao pensar naquilo.

? Shhh. Ninguém vai levar a sério nada do que ele diz. Ele está falando por puro ciúme e todos sabem disso. Ninguém sabe a verdade sobre o nosso casamento, benzinho, e tenha absoluta certeza de que não vou deixar ninguém falar que eu não passo de um marido contratado!

? Mas é verdade ? murmurou Caroline.

? E isso mesmo que você pensa de mim, Caroline? Foi por isso que você não quis dormir comigo de novo quando voltamos do Canadá?

? Não... não, Nick. Não me interprete mal. Eu... quis dizer que é verdade que minha família pagou a você para se casar comigo, que você... provavelmente não ia me querer de outra forma.

Os olhos de Nick mostraram que ele começava a entender.

? Então é isso, Caro? É esse o motivo de sua aflição? Porque, se for, pode tirar essa idéia da cabeça agora mesmo. Que diabo! Sempre senti atração por você, sempre quis sair com você, há muito tempo... mas você nunca me deu uma chance até sua família precisar de mim para salvar a fórmula secreta de sua avó. Caso contrário, estaríamos saindo juntos há muito tempo. Você não sabe o que faz comigo, benzinho? ? ele perguntou, com suavidade, antes que seus olhos se enchessem de paixão e sua boca tocasse a dela.

Não havia nenhuma hesitação nem carinho naquele beijo. Era ríspido, urgente, fazia Caroline perder o fôlego e o sangue rugir em seus ouvidos, o coração batendo com tanta força que ela achou que fosse explodir no peito. Ela se grudava a Nick enquanto ele curvava as costas dela, empurrando uma cadeira e apertando-a contra a mesa de reuniões. Sua boca se movia dura e faminta sobre a dela. Um tremor selvagem e eletrizante perpassou seu corpo. O desejo inundava seu ser. Seus dedos apertaram punhados dos cabelos grossos e escuros dele e, gemendo, ela abriu os lábios para ele, suas línguas se encontrando, tocando e enroscando.

A reação dela parecia pôr Nick em chamas. Ele puxou-lhe o suéter, arrancando-o, em seguida tirou-lhe também o sutiã, deixando seus seios livres. Com as palmas da mão ele os pegava, possessivo, acariciando-os e esfregando-os, os polegares provocando-lhe os mamilos até que se contraíssem. Sua boca desceu para capturar-lhe um bico de seio excitado, sugando-o, guloso, enquanto ela gemia e se contorcia sob o corpo dele. Ela sentia-lhe as mãos deslizando por suas pernas e puxando-lhe a saia para cima. Caroline achava que meia-calça era uma das peças mais desconfortáveis de roupas íntimas, perdendo apenas para o antigo espartilho, por isso seguia o costume francês de usar meias na altura das coxas.

Nick não sabia disso até aquele momento, mas ao perceber, ficou selvagem de desejo e ciúme. Era algo secreto e sexy que descobria sobre sua mulher. Ele nunca a olharia novamente no escritório sem pensar que, por baixo da saia, ela usava apenas um par de meias até as coxas e calcinhas finas de corte francês. Só de pensar que, quando ela cruzasse as pernas no escritório, numa mesa de conferência, no refeitório executivo, outro homem poderia dar uma espiada na ponta de uma meia, num pedacinho de coxa, Nick ardia por dentro. O que fez com que, a partir daquele momento, ele insistisse para que ela só usasse saias recatadas, até os pés, para trabalhar.

Nick disse isso a ela, mas, para sua surpresa e irritação, Caroline apenas riu.

? Ora, o que é essa mudança súbita de pensamento, Nick? ? provocou ela, ainda rindo. ? Foi você que disse que eu precisava experimentar alguns estilistas como Versace, Hervé Leger e Badgley Mischka. Além do mais, como posso evitar que atualmente as saias que se usam vão da mini às longas?

? Não, acho que não pode. Mas dane-se, Caroline! Eu não quero que outros homens saibam que minha esposa circula por aí com meias até as coxas o dia inteiro!

? Bem, eu certamente não contarei a eles, Nick. ? O pulso de Caroline disparava enquanto ela o encarava. Ele estava com ciúme. Ela abaixou os cílios para esconder os pensamentos. ? Eu não imaginava que você achasse essas meias tão censuráveis. Vou comprar meias-calças, se você preferir.

? Eu não gosto ? ele resmungou, e sua boca passou pelo traçado da boca de Caroline antes que ele a beijasse profundamente mais uma vez. Seus dentes pegavam com gentileza o lábio inferior dela antes que sua boca queimasse seu rosto, suas têmporas e cabelos. ? Porque senão não posso fazer isso ? ele falou, num tom profundo e calmo, no ouvido dela, a mão escorregando por baixo da calcinha, fazendo com que ela arquejasse. ? Você está toda molhada, querida. Acho que você me quer. O que você acha? -Como ela não respondeu e ainda desviou a cabeça, ruborizada, ele deu uma risada suave.

Em seguida, ele começou a acariciá-la, deliberadamente, com toques lânguidos, circulares, que a excitavam de uma maneira quase insuportável. Gemendo, a cabeça tomada por uma sensação de vácuo, ardente, que a sacudia, e a fazia empurrar-se contra a mão dele, querendo, precisando ser preenchida por ele. Mas Nick se recusava a aplacar sua urgência, e com os dedos continuou a atormentá-la, levando-a à beira do clímax repetidas vezes, apenas para deixá-la insaciada.

E o tempo todo ele a beijava, sua língua mergulhando profundamente na dela, lambendo-lhe os seios e mamilos, até que ela começasse a arquejar, frenética. Ela tentava desesperadamente desabotoar-lhe a camisa e abrir-lhe o zíper das calças. Mas, para sua aflição, Nick tomou seus pulsos com a mão livre, agarrando-os acima de sua cabeça, de forma que ela ficou sem defesa contra ele.

? Nick... por favor... ? ela resfolegava.

? Por favor o quê, benzinho?

? Faça amor comigo.

? Estou fazendo, querida.

? Não, você sabe o que eu quero dizer, o que eu quero, o que eu preciso.

? Sei? ? Ele deu mais uma risada suave e depois beijou-a, sua respiração quente bafejando-lhe o rosto e os seios. Ele sugou mais uma vez os mamilos dela, lambendo-os em movimentos circulares, enquanto continuava a acariciar as dobras úmidas dela, fazendo seu coração disparar. — Você me quer dentro de você, Caroline? E isso? ? ele perguntou, com a voz rouca.

? Sim...fim!

? Está bem. ? Ele afrouxou as calças para se libertar, tão duro e quente que nem tirou-lhe as calcinhas. Apenas empurrou a parte da frente para o lado e a penetrou. Ela gozou no mesmo minuto, gritando e se agarrando a ele sem controle, um orgasmo tão forte que Nick ficou enlouquecido. Insistente, ele empurrou o membro fundo dentro dela, seguidas vezes, balançando-a mais forte e mais rápido, até sentir seu próprio clímax.

Quando tudo acabou, deu-lhe um beijo demorado, e lentamente arrumou-se, fechando as calças. Seus olhos dançavam, maliciosos, e um sorriso maroto se esboçava em sua boca, enquanto ficava ali olhando para ela, esparramada sobre a mesa de reunião. Observou os cabelos dela emaranhados pelo rosto e seus lábios, vermelhos e inchados pelos beijos dele, o suéter e o sutiã puxados para cima, revelando seus seios nus, a saia arregaçada em volta das coxas nuas. Ela era maravilhosa, Nick pensou.

? Senhora Valkov, sinceramente espero que essa não seja a maneira como conduz suas reuniões ? ele disse, preguiçoso.

? Reuniões! Ah meu Deus ? Caroline olhou para o relógio, frenética, ajeitando rapidamente o sutiã e o suéter e descendo às pressas da mesa de reunião. ? Tenho uma reunião em quinze minutos! Não acredito que isso aconteceu! ? Com os dedos tremendo, ela penteou o cabelo, arrebatada. ? Nós conversamos sobre isso, Nick! Que não faríamos isso...

? Você não me deixou parar, Caro. Na verdade, se eu me lembro bem, você me implorou para continuar.

? Não devia ter feito isso. Eu não teria, se você não tivesse... se não tivesse... ? ela se interrompeu, enrubescendo e mordendo o lábio inferior. Nenhum homem devia ter tal poder sobre uma mulher. Isso é... indecente!

? Você adorou. Eu adorei. Faremos novamente hoje à noite.

? Não, não faremos ? ela insistiu, desejando, desesperada, ter um espelho para ver como estava sua aparência. Teria que correr até o escritório antes da reunião, para se certificar de que não parecesse que havia acabado de fazer amor louco e apaixonado sobre uma mesa de reunião. Uma mesa de reunião! Meu Deus, ela não conseguiria mais ver uma sem pensar no que ela e Nick haviam feito. ? Não faremos ? reiterou ela, obstinada.

? Faremos ? insistiu Nick. ? Como você viu, posso ser muito persuasivo.

Caroline não sabia o que dizer. Afinal, não tinha acabado de provar que ele tinha razão ao se gabar que ela não conseguia resistir à investida sobre seu corpo e seus sentidos? Devia ter vergonha, disse a si mesma, por ser tão vulnerável. Devia ter ainda mais vergonha pela forma como as palavras dele a excitavam, a forma como seu coração disparava. Para esconder sua confusão, ela destrancou a porta da sala de reuniões e saiu pelo corredor, com Nick seguindo atrás.

Caroline ficou completamente horrorizada quando os dois se depararam com a avó do lado de fora. Sabendo que naquele momento devia parecer evidente a qualquer um o que ela e Nick haviam feito, Caroline abriu a boca para se desculpar. Mas, com uma mão levantada, Kate a silenciou.

? Não, não diga nada. Assim, posso fingir que não vi vocês dois. ? A voz de Kate era ao mesmo tempo satisfeita e incomodada, mas um sorriso se esboçava nos cantos de sua boca e seus olhos brilhavam. ? Mas, recém-casados ou não, não deixem acontecer de novo no horário comercial. Ah, e Nick, você pode me chamar de vovó se desejar. ? Com esse comentário surpreendente, Kate prosseguiu pelo corredor, deixando Caroline ali parada, boquiaberta.

? Vovó não ficou brava ? ela murmurou, atônita. ? Ela não nos censurou.

? E por que diabos deveria? Afinal, você é minha esposa.

Capítulo 15

? Duckie ? a voz baixa ao telefone resmungava com a mesma rouquidão de algumas semanas atrás. ? Eu não estou feliz, Duckie. Não estou nada feliz. Você me disse que tinha alguns conhecidos no SIN. Disse que se livraria do Dr. Nicolai Valkov por mim. Mas ele ainda está aqui, Duckie. E isso me desagradou, me aborreceu tanto que receio que... sim, receio muito... que não vou poder vê-lo mais. Sabe, eu não gosto de pessoas que não mantêm a palavra comigo, Duckie. Simplesmente não posso confiar.

Desta vez, o senador Donald Devane não estava encostado em sua cadeira grande de couro da Borgonha. Debruçava-se sobre a escrivaninha antiga de carvalho maciça, como um garoto na escola preparando-se para levar uma punição. Suava, mas não por um sentimento amoroso. Estava petrificado. E se nunca mais ouvisse a dona daquela voz rouca novamente? E se nunca mais visse o conjuntinho de lingerie preta? Ou, pior ainda, se alguma ligação anônima expusesse seu caso discreto à imprensa? Ele tinha esposa e família em casa, e o público americano não aceitava infidelidade em seus políticos. Em breve ele tentaria a reeleição.

Meu Deus, ele gemia interiormente. Como se deixara envolver por aquela voz enfumaçada e sua dona sedutora? Devia estar bêbado na hora, ou totalmente fora de si. O que ele ia fazer? Precisava se salvar e salvar sua carreira!

? Eu... você pode confiar em mim ? gaguejou, xingando a própria voz, que mais parecia um grasnido, revelando todo seu medo. Ele quase podia ver o sorriso lento e malicioso que iluminava o rosto do outro lado da linha. ? Eu... eu vou me livrar de Nick Valkov, tal como prometi. E que... apenas que as coisas são... são mais complicadas, é isso. Ninguém esperava que ele se casasse para se salvar da deportação.

? Bem, você devia esperar isso, seu imbecil! ? a voz era ríspida e furiosa no ouvido do senador, fazendo com que ele tremesse ao se lembrar, de repente, de todos os retratos trancados no cofre do quarto que pertenciam àquela voz. A imagem dessas fotografias aparecendo nos jornais e na televisão o assustava terrivelmente. ? Nick Valkov é brilhante, um dos principais químicos do mundo, pelo amor de Deus! Você pensou que ele ia ficar quieto, esperando enquanto o SIN o rotulava como suspeito de ser agente da KGB, e o deportasse?

? N-n-não. ? O senador Devane tirou o lenço do bolso para enxugar o suor profuso da testa, rezando para que a secretária não estivesse ouvindo atrás da porta aquela conversa furtiva. ? Mas... quem teria sonhado que ele se casaria com alguém como Caroline Fortune? Meu Deus! Ele poderia muito bem ter se casado com alguém da família Kennedy ou Rockefeller, Koch, Bass, Hunt...

? Eu consigo imaginar, Duckie! ? a voz interrompeu, furiosa.

? Mas... mas o que você espera que eu faça? O complexo Fortune está entre as maiores empresas no mundo. Kate Fortune é uma das dez mulheres mais ricas dos Estados Unidos! E Caroline é a neta mais velha dela. Você me disse que ninguém se importaria se Nick Valkov fosse deportado ? o senador disse, acusador.

? E ninguém se importa, a não ser aquela donzela encalhada da neta dos Fortune. Ouvi rumores de que os Fortune pagaram Nick Valkov para se casar com ela, já que ela não conseguiria um marido de outro modo. Sendo assim, o casamento deles não é de verdade, de jeito nenhum. É tudo uma fraude para impedir que Nick Valkov seja deportado! E não use esse tom comigo, Duckie. Eu não gosto... e você sabe o que acontece quando eu não gosto de alguma coisa, não sabe?

? S-s-sim ? ele gaguejava, nervoso, pensando em todas as pessoas que estavam por cima e tinham sido derrubadas graças à dona da voz que agora estava fria e dura como um iceberg. ? Mas, com toda justiça, eu tentei manter minha palavra. O SIN interrogou tanto Nick Valkov quanto Caroline Fortune. Infelizmente, os dois agentes do SIN que conduziram a entrevista se convenceram de que o casamento é de verdade.

? Bem, eu não estou convencida! Nem um pouquinho! Não é de verdade, eu lhe digo! É uma farsa. Então, sugiro que você use qualquer influência que tenha no SIN para reabrir o arquivo de Nick Valkov o quanto antes. Porque, se não o fizer, Duckie, você lamentará muito, muito mesmo. Entendeu?

? Sim, sim, entendi. ? O senador Devane passou as mãos ansiosas pela gravata e afrouxou o colarinho, que parecia o estar sufocando. ? Mas você terá que me dar um tempo para resolver esse assunto. Uma vez que os Fortune estão envolvidos, as coisas não vão acontecer da noite para o dia.

? Não se preocupe com isso. Você não é o único recurso que tenho à disposição. Como vê, Duckie, você não é tão indispensável. Ninguém é. Então, amanhã de manhã, a primeira coisa que você vai fazer é telefonar para o SIN. Senão, vou ter que fazer algumas ligações por conta própria, Duckie... para a imprensa ? a voz anunciou com falsa doçura, para em seguida rir, tranqüila, com uma alegria maliciosa antes que a ligação fosse interrompida, deixando um sinal de ocupado no ouvido do senador.

Depois de desligar, às cegas, o senador Devane abriu com força a gaveta da mesa, buscando, frenético, um vidro de remédios. Quando finalmente o encontrou, abriu a tampa e tirou um comprimido. Seu coração martelava de tal forma que ele temia estar tendo um ataque. Amaldiçoou o dia em que havia posto os olhos na dona daquela risada cruel. Amanhã de manhã, ele ligaria para o SIN. Mas, esta noite, esta noite ele pretendia ficar muito bêbado, para poder esquecer por algum tempo aquela confusão horrorosa em que havia se metido.

Curvando-se na cadeira, ele abriu um par de portinhas oculto sob a abertura da escrivaninha para os joelhos, retirando de lá uma garrafa de uísque e um copo. Com as mãos tremendo e suando, ele serviu-se uma dose generosa e bebeu-a de um só gole.

Se não se livrasse de Nick Valkov, seria seu fim, pensou o senador Devane. Arruinado, com a carreira destruída e sua vida familiar em frangalhos. Sua esposa pediria o divórcio. Seus filhos provavelmente não falariam mais com ele. Ele não podia deixar aquilo acontecer.

Doesse a quem doesse, Nick Valkov teria que partir.

Capítulo 16

Mineápolis, Minnesota

O esquema levara meses para ser concluído, mas sempre havia elos fracos em qualquer corrente: funcionários aparentemente decentes que tinham problemas pessoais e precisavam desesperadamente de dinheiro; funcionários insatisfeitos que cultivavam um secreto rancor contra os chefes, e ex-funcionários cheios de ódio por haverem perdido o emprego que só queriam se vingar dos antigos patrões. Mais de um daqueles elos havia sido utilizado, embora o homem que entrava furtivo no prédio da Cosméticos Fortune não soubesse disso. Os motivos e os métodos da pessoa que o havia empregado não importavam. Tudo o que ele sabia ou o que lhe importava era o fato de que estava sendo generosamente pago pelo trabalho desta noite.

Em uma caixa de correio obtida apenas para esse fim, ele havia recebido uma cópia do mapa do prédio da Cosméticos Fortune, os horários do pessoal da segurança e da limpeza, e um cartão de identificação que lhe permitia acesso às áreas mais sensíveis da empresa, por exemplo o laboratório. Esse era seu principal objetivo àquela noite. Mas, primeiro, ele se dirigiu até o porão, onde conseguiu circular por áreas de acesso geralmente limitado à equipe de manutenção. Ali, depois de tirar a bolsa de equipamentos dos ombros e deixá-la de lado, ele se ocupou em desligar a válvula principal que controlava o fornecimento de água do edifício.

O intruso não tinha muito tempo. A qualquer momento, alguém descobriria que o prédio estava sem água. Poderiam achar que uma tubulação na cidade havia se rompido. Por outro lado, alguém poderia ser brilhante ou estar irritado o suficiente para mandar alguém da manutenção ao porão para verificar o problema.

Colocando a bolsa de equipamentos novamente sobre os ombros, ele correu para o hall dos elevadores de serviço e pressionou o botão de subida. Olhou para o relógio de pulso. Era quase meia-noite. Ele imaginou que todos os funcionários já tivessem ido para casa. Várias das equipes de limpeza também já teriam terminado o expediente. No entanto, outros ainda estariam trabalhando; assim, por precaução, ele usava um uniforme de zelador. No bolso, carregava óculos de esqui, caso precisasse esconder o rosto. Era provável que não houvesse necessidade, já que ele tinha um cartão de identificação da Cosméticos Fortune. Ainda assim, era melhor ser cauteloso.

Quando o elevador parou, as portas pesadas se abriram e ele entrou. Relaxou ligeiramente a postura alerta, quando viu que estava vazio. Mesmo assim, seus níveis de adrenalina continuavam altos. Sempre havia uma chance de ter alguém dentro dele. Entrou e apertou o número do andar onde ficava o laboratório.

Apesar da hora em que chegara em casa, Nick estava em êxtase. O trabalho daquela noite representava um marco importante. Ele tinha certeza de que o ingrediente X que faltava na fórmula de Kate era a misteriosa flor virginal, encontrada somente na floresta amazônica. Se ela não existisse, se fosse somente uma lenda, havia outras plantas que podia usar. Mas seu instinto lhe dizia que a flor virginal era a que ele realmente queria.

Com um bocejo, começou a verificar mais uma vez os números que havia inserido no computador em que estava trabalhando. Salvou a informação no disquete e apertou o botão para retirá-lo, colocando-o no bolso do jaleco. Depois, arrumou todo o aparato que havia usado para executar os testes daquela noite e terminou de arrumar o laboratório.

No escritório anexo, ele abriu o cofre da parede e pôs dentro o disquete, fechou a porta pesada e girou o disco algumas vezes para não deixar marcado o último número da combinação. Pôs a chave do cofre no bolso e apagou as luzes. Deixou o laboratório e caminhou até o corredor, para esperar o elevador para os andares superiores.

Pobre Caroline. Ela provavelmente estava dormindo no sofá do escritório, esperando por ele. Embora continuasse a se defender dele, às vezes, tarde da noite como agora, Nick a acordava de um sono profundo e conseguia convencê-la a fazer amor com ele. Nas semanas que haviam se passado, ele havia se tornado um especialista em sentir quando ela se mostrava vulnerável, suscetível a seus avanços amorosos. Bem no fundo, ele achava que aquilo não era muito cavalheiresco de sua parte. Mas quando ele pesava aquilo contra o desejo de ganhar o coração dela, nem se importava. Ela era sua esposa, e de maneira alguma ele ia perdê-la.

Chegando ao escritório dela, tirou a chave do bolso e destrancou a porta. Desde o incidente com Paul Andersen, Nick insistia sempre que ela trancasse o escritório depois das seis da tarde. Agora, ao entrar, ele via confirmadas as suas suspeitas: sua mulher estava dormindo no sofá. Parecia muito jovem: metade mulher, metade criança, pensou, enrascada num cobertor.

Ele aproximou-se, curvou-se e beijou a boca de Caroline. Quando ela se contorceu e sorriu para ele, Nick soube, com o desejo lhe apertando a virilha, que essa noite teria sorte novamente.

Saindo do elevador de serviço, o intruso passou sorrateiro pelos corredores parcamente iluminados até o laboratório. Como já previa, estava trancado. Mas aquilo não era problema. Era para isso que servia o cartão de identificação da Cosméticos Fortune. Olhando pelo corredor, ele tirou o cartão do bolso. Virou-o de lado e inseriu-o no mecanismo da fechadura da porta, enfiando a tarja magnética pela abertura. No painel, a luz mudou de vermelho para verde, e ele empurrou a porta para abri-la, prendendo a respiração por um momento, como se esperasse ouvir soar um alarme. Mas nada aconteceu.

Furtivo, dirigiu-se ao escritório de Nick Valkov. Sob a luz da lanterna, ele pôde ver que o cofre na parede estava exatamente onde devia estar. Sorriu, satisfeito. Era sempre um bom sinal quando a informação que recebera se mostrava correta. Ele examinou o cofre. Não seria tarefa fácil, mas podia perfurá-lo. Pôs a sacola de equipamentos no chão, abriu-a e retirou um dispositivo em forma de cone, que afixou ao disco do segredo. Alguns minutos depois, conseguiu retirar o disco e começou a desparafusar o aro. Em seguida, escolhendo uma broca apropriada para trabalho pesado, ele a inseriu na furadeira e começou a perfurar o cofre. A placa atrás do disco era feita para enganar ladrões. Ele estimava que levaria pelo menos meia hora ou mais para perfurá-la.

Caroline pensava que devia ser a pessoa mais sem vontade própria para sempre se render ao marido. O tempo todo ela dizia que não faria isso. No entanto, era o que acabava fazendo. Era como se Nick soubesse quando sua capacidade de defesa estava baixa. Mesmo agora, que as mãos dele passeavam por seu corpo nu, ela o queria novamente, sentia as coxas trêmulas se abrirem para ele como se tivessem vontade própria. Com a palma da mão, ele apalpou-lhe o púbis, os dedos brincando com os pêlos escuros, deslizando sobre sua fenda macia e frágil, enfiando-se para dentro dela, excitando-lhe mais ainda o corpo que palpitava.

? Nick... ? ela tomava fôlego.

? Hummm? ? Ele beijava sua boca, fungava em sua garganta e seios.

? Eu... disse a você... isto tem... que acabar...

? Então? Faça-me parar. ? Ele prendeu o mamilo dela gentilmente entre os dentes, puxando-o e provocando-o com a língua. ? Apenas diga que não quer que eu continue, e eu paro. ? O polegar dele encontrou o pequeno centro oculto entre as dobras sensíveis dela, começando a circulá-lo e esfregá-lo, fazendo com que ela se dobrasse involuntariamente contra ele e um gemido baixo escapasse de seus lábios.

Caroline sabia que ele estava dizendo a verdade, que pararia a qualquer momento que ela pedisse. O problema é que ela não queria pedir. Toda vez que abria a boca para falar, ele a beijava, seus lábios e língua silenciando qualquer coisa que ela quisesse dizer, deixando-a sem fôlego e ansiando por ele. Ele sabia que ela o queria dentro dele. O corpo bronzeado dele cobria-lhe o corpo pálido, e ele se empurrava para dentro dela e a preenchia, provocando-lhe um suave arquejo.

O ritmo que ele seguia já lhe era conhecido, ela ansiava por ele e o recebia. Caroline envolvia a cintura dele com as pernas, trazendo-o fundo para dentro enquanto ele entrava e saía de dentro dela, levando os dois a um clímax surdo e irracional.

Mais tarde, eles se vestiram, e Nick trancou o escritório enquanto Caroline chamava um elevador para que descessem. Quando ele chegou, os dois entraram. Mas, em vez de apertar o botão da garagem, ela acionou o número do andar do marido, o que agora havia se tornado hábito.

? Droga! ? ela praguejou baixo. ? Agora vamos parar no laboratório. Desculpe. Devo estar mais cansada do que pensava.

? Está tudo bem, benzinho. Só perdemos alguns minutos. ? Nick a puxou para si, apoiando a cabeça dela em seu ombro e apertando o botão certo. ? E você pode dormir no carro a caminho de casa. Vamos ficar no apartamento esta noite.

O elevador desceu, parou e as portas se abriram, mostrando o laboratório ao fim do corredor. Sem avisar, o braço forte de Nick impediu o movimento das portas, que começavam a se fechar.

? Qual o problema? ? perguntou Caroline, olhando para ele, confusa. ? Você esqueceu alguma coisa?

? Não. Tem alguém no laboratório. ? O rosto e a voz de Nick estavam sombrios. Ele apertou o botão de emergência do elevador. ? Caro, pegue o telefone do elevador e chame a segurança. Depois, volte para o seu escritório pela escada de emergência. Tranque-se lá e não abra a porta para ninguém, a não ser para mim. Entendeu?

? Sim, mas onde você vai? O que está planejando fazer, Nick?

? Pegar quem estiver no laboratório, seja lá quem for.

Antes que ela pudesse protestar, ele ja havia se afastado, tirado o cartão de identificação do jaleco e passado pela abertura da fechadura da porta do laboratório.

O intruso terminara de perfurar o cofre. Direcionando o foco da lanterna potente para dentro do buraco que fizera, ele observou as engrenagens girarem internamente, enquanto ele movia o miolo do disco, até elas se alinharem e pararem de se mover. Pegando um jogo de chaves do bolso, inseriu uma no buraco e manipulou-a com destreza até conseguir encaixar o ferrolho.

? Voilà! ? ele sussurrou pára si mesmo, com um sorriso largo. Abrindo a porta do cofre, retirou o único disquete que continha e o enfiou no bolso. Arrumou as ferramentas de volta na sacola e a pendurou no ombro. No laboratório, ele olhou à volta para ver que substâncias inflamáveis estavam à mão. Pegando recipientes aleatoriamente das prateleiras, ele espalhou o conteúdo pelo chão.

Ele se preparava para riscar um fósforo e pôr fogo em tudo, quando, do outro lado do corredor, as portas do elevador se abriram, mostrando um homem e uma mulher.

E o homem viu o intruso.

Nick estava despreparado para o que aconteceu quando abriu a porta do laboratório. Uma explosão diante de seus olhos cegou-o e fez com que recuasse, chamuscado. Não pensou na própria segurança, mas na de Caroline e da fórmula secreta. Ao longe, ele ouviu o grito de Caroline e percebeu que ela havia desobedecido suas instruções.

O intruso passou por ele correndo. Uma máscara de esqui cobria seu rosto, proteção contra as chamas e a fumaça que consumiam o laboratório. Nick correu atrás dele, pensando apenas que o homem podia atacar Caroline e usá-la como refém. Ela valeria uma fortuna de resgate, e o intruso poderia matá-la. Mas no corredor ao lado do laboratório, foi Nick quem o atacou, rolando atracado com ele pelo chão. O intruso tentou escapar, mas Nick agarrou-lhe o tornozelo e o arrastou de volta, dando-lhe um murro no maxilar.

Caroline ficou ali olhando, abalada, enquanto o alarme de incêndio emitia um apito ensurdecedor. De repente, ela se deu conta de que os sprinklers não estavam funcionando, que não jorrava água do teto para conter as chamas no laboratório. Em pânico, correu pelo corredor e abriu o painel do extintor de incêndio que havia em cada andar. O cilindro era tão grande e pesado que ela quase não conseguia levantá-lo; Caroline arrastou-o pelo corredor até o laboratório.

Leu as instruções no extintor, tentando ignorar o fato de que Nick e o intruso ainda estavam atracados numa briga brutal a apenas alguns metros de distância. Abriu o pino e a espuma saiu. Com ela, Caroline começou a apagar as chamas que consumiam o laboratório. Uma fumaça de cheiro forte subiu pelo ar, fazendo arder seus olhos e nariz, provocando-lhe tosse e levando-a a arquejar, enquanto lutava contra o fogo. Com o coração na mão, ela percebeu que seus esforços não seriam suficientes para salvar o laboratório, e era possível que todo o prédio acabasse em chamas.

? Nick! ? ela gritou. ? Nick!

Ele ouviu o grito de Caroline. Uma rápida olhada para o laboratório o avisou do perigo. Mas, com o movimento, Nick acabou por soltar o intruso, que o chutou para o lado, pondo-se de pé em seguida e fugindo pelo corredor antes que pudesse alcançá-lo. Mas, ao escapar, o disquete roubado escapuliu de seu bolso. Ele xingou com raiva. Não havia tempo de recuperá-lo. Nick corria atrás dele pelo corredor. Ainda xingando, o intruso correu até a escada de emergência e desceu em disparada.

Nick o deixou escapar. Pegou o disquete e o colocou no bolso do jaleco. Abriu, então, o painel do outro lado do corredor e retirou o extintor de incêndio, correndo de volta para ajudar Caroline. Naquele momento, o pessoal da segurança que ela havia chamado estava chegando, junto com as equipes de limpeza.

? Um de vocês desça até o porão! ? gritou Nick, esguichando espuma pelo laboratório. ? O invasor deve ter desligado a água no registro principal e os sprinklers não estão funcionando. O restante de vocês, tranque o prédio todo. Chamem a polícia. Chamem a senhora Fortune. O intruso desceu as escadas.

Um dos seguranças correu até o porão. Outros dois foram para a escada, enquanto um terceiro pegava o celular preso no cinto para chamar emergência. Informaram-lhe que o corpo de bombeiros já estava a caminho, em resposta ao alarme. Alguns minutos mais tarde, o sistema de sprinklers começou a funcionar, ajudando a apagar as chamas, para alívio de Caroline. Ela largou o extintor, quase sem fôlego pelo esforço.

? Querida, está tudo bem? ? perguntou Nick, colocando de lado o extintor que também tinha nas mãos e aproximando-se de Caroline, a testa franzida de preocupação. Ele a abraçou. ? Você não se machucou?

? Não, só estou cansada.

? Graças a Deus! Por que diabos você não fez o que eu falei? Aquele homem podia tê-la atacado, levado como refém, ferido... ou coisa pior! E se isso acontecesse, eu nunca me perdoaria! ? Sem se importar se alguém estava olhando, Nick a beijou com fervor, soltando-a apenas quando os policiais e bombeiros surgiram em cena, seguidos por Kate e Sterling Foster.

? Nick, o que aconteceu aqui? ? Kate perguntou, ríspida, olhando para a destruição no laboratório, enquanto os policiais e bombeiros tomavam depoimentos dos que estavam presentes.

? Um intruso invadiu o meu escritório e tentou roubar o disquete que contém a equação para a fórmula secreta da juventude. Não, não se preocupe, Kate. Ele não o levou. Mas poderia ter levado se Caro e eu não estivéssemos aqui até tão tarde. Ele pôs fogo no laboratório. Lutei com ele, mas tive que deixá-lo escapar para ajudar Caroline a conter o fogo, que poderia ter se espalhado por todo o prédio. Sinto muito se não fiz melhor.

? Não diga isso ? Kate respondeu. ? Você fez a coisa certa, Nick. Se o prédio tivesse pegado fogo, pessoas poderiam ter se ferido ou morrido. Estou tão feliz que isso não aconteceu. Você salvou o Rosto Fabuloso, e o laboratório pode ser reconstruído. A equipe de limpeza está a caminho. Amanhã, teremos melhor idéia dos estragos. Enquanto isso, por que você e Caroline não vão para casa? Caroline mal se agüenta em pé ? observou Kate, abraçando a neta.

? Sinto muito, vovó ? Caroline conteve um bocejo.

? Está tarde. Você está exausta, e teve uma experiência horrível. Nick, leve-a para casa.

? Vou levar. Vamos, benzinho ? ele murmurou. ? Vamos para casa e para a cama. Boa noite... vovó.

Kate sorriu, com olhos calorosos e gentis.

? Boa noite, Nick, Caroline. Vejo vocês amanhã.

? Vovó? ? Sterling olhou para Kate numa indagação. -O que quer dizer isso?

? Isso, meu querido amigo, quer dizer que encontrei o homem certo para minha neta.

? Como assim?

? Você sabe o que Nick fez com o bônus que Jack lhe pagou para casar-se com Caroline?

? Não. ? Sterling balançou a cabeça. ? O quê?

? Depositou num fundo para os filhos dele com Caroline.

? Você está brincando! ? O advogado estava boquiaberto com a notícia.

? Viu! Nunca duvide da intuição de uma mulher, Sterling. ? Kate deu uma risada. ? Eu lhe disse que teria pelo menos dois netos por conta desse acordo. E terei. Agora encontre o detetive encarregado dessa confusão. Quero que o responsável pelo incêndio seja encontrado e punido. Alguma empresa concorrente ouviu falar da minha fórmula secreta, tenho certeza disso! Estão tentando roubá-la, e isso eu não vou tolerar, Sterling. Ninguém toma o melhor de Kate Fortune. Ninguém!

Capítulo 17

Nick levou Caroline para o apartamento na cidade. Apesar de ser muito tarde, tomaram banho juntos. Estavam cobertos de fumaça e da espuma seca dos extintores. Depois foram para a cama juntos, Nick abraçando Caroline; parecia sentir que ela queria apenas ficar abraçada a ele.

? Estou tão preocupada, Nick ? ela falou baixinho, passando os dedos nos pêlos escuros do peito dele. ? Depois dessa noite, acho que sua suspeita de que alguém tenha lhe feito falsas acusações para que o SIN se livrasse de você e a fórmula secreta da vovó não fosse terminada, estava certa. Por que outro motivo alguém teria invadido o prédio, entrado no laboratório e tentado roubar o disquete?

? Não consigo pensar em nenhum outro motivo, benzinho. Acredito que temos que considerar a possibilidade de alguma empresa concorrente ter descoberto sobre o Rosto Fabuloso. Se for isso, receio que teremos que conduzir uma investigação interna para descobrir quem é o espião entre nós.

? É tão terrível, Nick, pensar que existe um... traidor trabalhando na Cosméticos Fortune! Eu me pergunto quem ou o que pode ser o próximo alvo. E se forem atrás da vovó ou algo assim?

? Não há razão para pensarmos nisso, querida ? respondeu ele, acariciando o cabelo dela. ? Além do mais, tenho certeza de que, depois de hoje à noite, tomaremos medidas de segurança adequadas. Você com certeza vai tomar, Caroline. Você teve uma tremenda sorte de que o intruso não a tenha agarrado. Foi muita coragem sua ficar ali tentando me ajudar, combatendo o fogo. Mas você poderia ter se machucado ou mesmo morrido. Se necessário, eu mesmo vou contratar um segurança particular para você.

? Você... quer dizer um... guarda-costas?

? Sim, isso mesmo.

? Ah, Nick. Acredita mesmo que quem estiver por trás disso tudo chegaria a me seqüestrar ou... a alguém da família? ? Caroline assustou-se só de pensar.

? Não sei, benzinho. Mas, no que diz respeito a você, não vou dar chance ao azar. Você é minha esposa. Minha responsabilidade. Que tipo de marido... ou homem... eu seria se deixasse alguma coisa lhe acontecer? ? Nick não acrescentou o quanto a idéia de perdê-la partia seu coração, o quanto ficara abalado ao ouvi-la gritar aquela noite, ao vê-la tão corajosa combatendo o fogo, e pensar o quanto aquele intruso estivera perto dela. Nick sabia que, se tivesse sido necessário, ele teria entregue a fórmula para salvar a vida de Caroline. Mas como podia lhe dizer isso, contar-lhe que a amava? Apesar do fato de que, quando ela estava vulnerável, ele às vezes a persuadia a ir para a cama com ele, ela não tinha nenhum outro sentimento por ele além de desejo. Pelo menos era o que ele achava.

Mas ele estava errado. Deitada ali abraçada a ele, Caroline não sabia o que se passava na cabeça do marido. Não havia ouvido nada a não ser a palavra responsabilidade. Era a prova de que, não importa o que ela tivesse feito, nem como ela havia cedido ao desejo de Nick por mais de uma vez, mesmo contra seu próprio julgamento, ainda não havia conseguido ganhar o coração dele. Perceber aquilo desmotivou-a. Ela não sabia mais o que dizer, o que fazer.

Embora tivesse mudado a aparência para agradá-lo, por dentro, ainda era a mesma. Tímida e insegura, cheia de incertezas no que dizia respeito aos homens devido à forma como fora magoada por Paul Andersen no passado. Ela não era uma mulher fatal. E sabia disso. Talvez, apesar do que o marido dissera, ela não o houvesse satisfeito. Talvez ele a quisesse apenas porque, durante o tempo em que estivesse casado com ela, não haveria nenhuma outra mulher disponível para ele.

Caroline sentia que devia se envergonhar por ter tão pouco orgulho que estava disposta a aceitar Nick da forma que pudesse, nos termos que ele ditasse. Mas seu amor por ele era tão grande que ela nem se importava mais.

Bem pior era o fato de que ela havia deixado que ele fizesse amor com ela sem que nenhum dos dois tomasse precauções contra gravidez. Apesar de ela ter dito que não estava tomando nenhum anticoncepcional, ele não pareceu se importar. Então, ela achou que, depois da conversa que tiveram, Nick devia ter pensado que ela houvesse começado a tomar pílula. Caroline sentiu-se culpada por enganá-lo, mas queria ter um bebê com o marido. Mesmo se depois ela e Nick se divorciassem, sabia que ele não era o tipo de homem que deixaria de amar e ser pai de uma criança. E ela merecia alguma coisa do casamento, pensava, uma parte de Nick que seria dela para sempre, amada e apreciada.

? Nick, você acha que Paul teve alguma coisa a ver com o que aconteceu hoje à noite? ? ela perguntou, baixinho. -Ele estava com raiva do nosso casamento e mais ainda por ter sido demitido. Certamente deve pôr a culpa em você. E por isso o laboratório e a fórmula secreta foram o alvo.

? Isso também me veio à cabeça. É por isso que, de manhã, vou contratar um detetive particular para investigar Andersen. Mas por que você não está dormindo, benzinho? ? Preguiçosamente, Nick passou a mão sobre a manga curta e aveludada da camisola dela, acariciando-lhe o ombro. ? Pensei que estivesse exausta.

? E estou. Mas minha mente está tão aflita que não consigo dormir.

? E compreensível nas atuais circunstâncias. Quer beber alguma coisa? Um chocolate quente?

? Hummm. Gostei da idéia.

? Então, é para já. ? Nick acendeu a luminária da mesinha-de-cabeceira e levantou-se da cama, sem perceber que Caroline o observava enquanto ele se dirigia à cozinha. Ele usava apenas cuecas de seda, e ela não podia deixar de admirar sua figura alta e musculosa e o contraste da cor do tecido contra sua pele bronzeada. Nick voltou um pouco depois e entregou a ela uma caneca fumegante.

? Ah, você pôs até marshmallow ? ela exclamou, estranhamente comovida pelo gesto. ? Não tomo um desses desde que era criança.

? Bem, o que é uma xícara de chocolate quente sem marshmallow?

? Acho a mesma coisa. Você é um homem que quer meu coração, Nick? ? perguntou, dando um gole na bebida forte e doce.

? Sim, sou ? ele respondeu, do mesmo modo casual. Mas os olhos escuros flamejaram ao olhar para ela, transmitindo um tremor de excitação e fazendo disparar uma pequena, súbita, chama de esperança dentro dela.

Era possível que ele estivesse falando sério? Caroline se perguntava. Ela não sabia, tinha medo de ser rejeitada se perguntasse, e de contar-lhe que seu coração já era dele.

Capítulo 18

A invasão do laboratório, a tentativa de roubo da fórmula secreta da juventude e o incêndio convenceram Kate de que ela não podia mais esperar, e que enviar uma equipe da Cosméticos Fortune até a floresta amazônica só chamaria a atenção para o Rosto Fabuloso, alertando não apenas quem estivesse por trás das armações contra Nick e a empresa, mas também outros concorrentes no mercado. Ela mesma tinha que ir, e hoje. Jake teria que tomar conta dos assuntos da Cosméticos Fortune na sua ausência, providenciar para que o laboratório fosse recuperado e que medidas adicionais de segurança fossem tomadas imediatamente. Ela ditara um longo memorando, detalhando os passos que queria que Jake tomasse, com cópia para Sterling. O filho e o advogado poderiam lidar com todos esses assuntos.

Quando a empregada demonstrou preocupação com tudo o que havia ocorrido, Kate a ignorou:

? Tudo isso, por mais infeliz que tenha sido, me dará uma cobertura perfeita. Você pode ligar para o escritório agora de manhã e informar que não vou trabalhar hoje. Pode sugerir discretamente que como estou "Velhinha" ? a voz de Kate ficou mais seca, e ela continuou, irritada: ? o choque à minha sensibilidade foi considerável, que eu tive uma noite horrível, e que, por conta disso, estou descansando.

? Sim, posso manter essa história por alguns dias. Mas e depois? A senhora certamente não acha que vai voar até a América do Sul, caminhar pela selva e encontrar esta planta, que sem dúvida é apenas um mito, em menos de uma semana!

? Não, claro que não. Apenas preciso tomar a iniciativa. Uma vez na América do Sul, com os arranjos para a jornada já providenciados, entro em contato com Jake e Sterling. Daí, será tarde demais para interferirem nos meus planos. Estarei desbravando a floresta amazônica antes que eles façam qualquer coisa para me impedir.

? Ainda não estou gostando nada disso, senhora Kate ? disse a senhora Brant com firmeza. ? Como sabemos que há uma empresa concorrente por trás disso tudo? Como sabemos que não foi o imbecil do Paul Andersen que fez isso para se vingar, por exemplo? Como sabemos quem ou o que será o próximo alvo? Poderia ser a senhora. É melhor que a senhora fique em casa e contrate um guarda-costas. A senhora é uma mulher rica e famosa. Pode ser vítima de seqüestro. Alguém poderia pegar a senhora por causa da fórmula secreta. E na selva a senhora não terá nenhuma proteção!

? Sim, mas tampouco virão me procurar aqui. Então, não se preocupe. Estarei perfeitamente segura. Agora, vamos para o aeroporto. Você já telefonou para que o jato da empresa esteja com tanque cheio e me esperando?

? Muito contra minha vontade, sim.

? Ótimo. Vamos, então.

Pela expressão determinada no rosto de Kate, a senhora Brant se deu conta de que nada que ela dissesse ou fizesse ia persuadi-la a mudar de idéia. Relutante, ordenou que pusessem a bagagem no carro. Alguns minutos depois, Kate estava a caminho do aeroporto.

? Estou dizendo, há alguma coisa errada. ? Para reforçar sua conclusão, Jake bateu com a mão na mesa de mogno de Honduras, na sala de reunião onde havia convocado Caroline, Nick e Sterling. ? Mamãe nunca fica doente, e, por mais que estivesse chateada com os acontecimentos desta noite, ela nunca teria ficado de cama como uma velha desamparada! Era mais fácil que saísse pela cidade à caça do invasor.

? Papai, mesmo que seja difícil de lembrar, ela tem setenta anos ? Caroline falou com calma, embora também estivesse preocupada. Não conseguia se lembrar de outras ocasiões em que a avó não tivesse chegado ao escritório na cobertura na Cosméticos Fortune antes das oito da manhã.

? Não, concordo com Jake ? declarou Sterling, a testa franzida de preocupação. ? Mesmo se Kate estivesse doente, ela não se recusaria a atender o telefone ou a se encontrar com qualquer um de nós. Ora, eu e ela jantamos juntos pelo menos três vezes por semana desde que Ben faleceu. Não sou apenas o advogado de Kate... sou seu melhor amigo! ? O advogado ainda estava inconformado com o fato de que na noite anterior a senhora Brant se recusara a abrir a porta da casa de Kate para ele.

? Jake e Sterling têm razão, Caro. Este suposto mal-estar não condiz com a personalidade de sua avó ? insistiu Nick, acariciando-lhe a mão, sabendo o quanto ela estava ansiosa pelo bem-estar de Kate. ? Acho que um de nós devia ir até a casa dela e se recusar a ir embora até ter algumas respostas.

? Também acho ? Jake balançou a cabeça. ? Mamãe está tramando alguma coisa! Aposto minha vida! Meu Deus ? Jake suspirou. ? Espero que ela não tenha se aventurado por aí atrás do invasor. Não duvido que ela esteja pelas ruas de Mineápolis agora mesmo, disfarçada de lavadeira, empurrando um carrinho e interrogando todo mundo que ela ache que possa ter alguma pista!

A realidade era bem pior, descobriram os quatro ao chegar a casa de Kate e pressionar a senhora Brant para deixá-los entrar.

? Amazônia! ? gritou Sterling, abalado com o paradeiro de Kate e desabando sobre uma cadeira, como se tivesse perdido o chão sob os pés.

? Está dizendo que mamãe está perdida na selva amazônica? ? Jake perguntava, furioso e aflito. ? Por que diabos ela mandou Buck levá-la até lá no jato da empresa? -Bucky era o principal piloto da Cosméticos Fortune.

? Bucky não a levou, senhor Jake. A senhora Kate foi pilotando ? a senhora Brant admitiu, relutante, sabendo a consternação que a informação causaria. ? Acredite, fui contra essa viagem desde o começo. Fiz tudo o que pude para convencer a senhora Kate a não ir. Mas vocês sabem como ela é quando está determinada a fazer alguma coisa. Não houve como impedi-la. Ela estava muito chateada com a invasão na empresa e decidiu que não ia mais esperar que o Dr. Valkov concluísse os testes para a fórmula. Ele também achou que enviar uma equipe até a floresta amazônica atrairia uma atenção desnecessária sobre a Cosméticos Fortune, revelando Rosto Fabuloso a toda a indústria antes que ele estivesse pronto.

? Então, ela quis resolver tudo por conta própria ? disse Nick, sombrio. ? De todas as idéias imprudentes que Kate já teve desde que a conheço, essa foi a pior. Nós nem sabemos se a tal da flor existe. Não quero alarmar ninguém, mas a verdade é que ela pode ter partido numa busca inútil e se metido numa enrascada.

? O que quer dizer com isso, Nick? ? O rosto de Caroline empalideceu de ansiedade. Ela estivera passando mal pela manhã e ainda não se sentia disposta. Uma reação retardada a tudo o que havia acontecido na noite anterior na Cosméticos Fortune, pensou.

? Querida, como o invasor conseguiu escapar, não sabemos quem ou o que está por trás desse ataque. E também não sabemos quem ou o que pode ser o próximo alvo. Podemos teorizar que é por causa da fórmula secreta, mas não podemos ter certeza. Poderia ser Kate. Além disso, nem todas as tribos indígenas da América do Sul são amistosas. No passado, seus artefatos de guerra variaram desde dardos banhados em veneno de sapo a flechas envenenadas com curare. Uma infinidade de pessoas foram para a floresta amazônica e nunca voltaram. Uma expedição como essa precisava ser organizada com muita cautela. E não ser uma jornada improvisada em poucos dias ? afirmou Nick.

? Um de nós terá que tomar um vôo comercial para a América do Sul. ? Jake estava extremamente abalado. ? Sterling, acho que você devia ir. Apesar de estar preocupado com mamãe, sei que ela nunca me perdoaria se eu deixasse a Cosméticos Fortune sem pôr em prática todas as novas medidas de segurança.

? Concordo. ? Virando-se para a senhora Brant, Sterling a instruiu a ligar para as companhias aéreas e reservar um lugar no primeiro vôo para o Rio de Janeiro, o mais rápido possível. ? Mas não tenho certeza se vai adiantar alguma coisa ir até lá, se vou conseguir seguir a trilha de Kate. Ela pode estar em qualquer lugar.

? É verdade ? concordou Nick, pensativo. ? Quando estiver ligando para o aeroporto, senhora Brant, descubra se Kate arquivou algum plano de vôo. Se o fez, então pelo menos teremos alguma idéia de seu destino.

? Boa idéia, Nick ? disse Caroline, sem perceber que procurava a mão do marido em busca de conforto.

Nos últimos dias, seu amor por ele se aprofundara ainda mais. Ele havia entrado para a família com a facilidade de quem sempre pertencera a ela. E havia lidado com a invasão e o incêndio no laboratório com a autoridade de alguém que há muito tempo estava acostumado ao comando. Agora, sua preocupação pelo bem-estar de Kate era evidente e sua avaliação da situação e as sugestões que fizera eram inteligentes. Ela sabia que ele conquistara o respeito e admiração tanto de seu pai quanto de Sterling, algo que Paul Andersen jamais conseguira.

? Bem, acho que isso é tudo que podemos fazer agora, então é melhor voltarmos ao escritório. ? Jake esfregou as têmporas, como se começasse a ter uma dor de cabeça. -Tenho certeza de que não preciso lhe dizer o que penso de seu comportamento, senhora Brant. Sei o quanto é leal a minha mãe, mas, num caso como esse, a senhora devia ter me chamado.

? Sim, senhor Jake. Talvez o senhor tenha razão ? a empregada admitiu. ? Se algo acontecer a senhora Kate, eu nunca me perdoarei.

A vasta floresta amazônica se espalhava lá embaixo em uma miríade de tons de verde, cortada pelo enorme rio que tinha o mesmo nome da selva. Era uma visão espantosa, de tirar o fôlego, pensava Kate ao olhar pela janela do jato da empresa.

Ela não havia feito a viagem toda de uma vez só. Em vez disso, dividira o vôo em etapas, dizendo a si mesma que era a coisa mais sensata a fazer. Mesmo agora, ela não queria admitir que talvez a senhora Brant estivesse certa: ela não era mais jovem como no passado.

Apesar disso, ali estava ela. Aterrissaria no aeroporto do Rio de Janeiro, e em seguida começaria a organizar a expedição. Com os planos concluídos, ela entraria em contato com Jake e Sterling. Mas era tal seu entusiasmo com a aventura, com a idéia de que, depois de tanto tempo, Rosto Fabuloso estava a ponto de se tornar realidade, que Kate não foi capaz de resistir a sobrevoar a floresta.

Confiante, Kate nem se incomodara em verificar o interior do jato naquela manhã. Ela não sabia que, durante a noite, um seqüestrador havia invadido a aeronave e se escondido na parte de trás do avião. E tampouco percebeu sua presença quando ele saiu do esconderijo e se aproximou do painel de comando.

Antes que Kate se desse conta do que estava acontecendo, o seqüestrador tinha uma pistola automática apontada contra sua mandíbula.

? Ouça bem, sua velha ? disse, com uma voz dura, provocando-lhe um arrepio na espinha. ? Porque sua vida depende de fazer exatamente o que eu disser. Entendeu?

Engolindo em seco, Kate concordou com um movimento de cabeça, sem dizer nada, determinada a controlar o medo. Devia ser o mesmo homem que invadira a Cosméticos Fortune e ateara fogo no laboratório, pensou. O homem que havia tentado roubar sua fórmula. Como ele havia embarcado, ela não sabia. Mas uma coisa era certa: ele não ia aproveitar-se dela! Ela podia ser velha, mas não estava morta. Na verdade, Kate pensava, a idade às vezes trabalhava a seu favor, pois, sem dúvida, o homem acreditava que ela era frágil e desamparada. Bem, pois ele logo saberia o quanto estava errado!

? Quero que dê uma olhada e encontre um lugar onde possamos aterrissar com segurança ? ele ordenou.

? E onde sugere que eu aterrisse? ? ela perguntou, mordaz. ? Você pode ver que há muito pouco espaço lá embaixo, especialmente um trecho grande o suficiente para que um jato como este possa aterrissar. Não estou pilotando um Piper Cub, entende?

Ele bateu com a arma no crânio dela, como aviso.

? Nunca gostei de ruivas. Então, não brinque comigo ou estouro seus miolos ? resmungou. ? Agora, pouse este avião!

? Muito bem ? Kate concordou, firme. ? Ali, onde os nativos estão derrubando e queimando a floresta, parece haver uma clareira. Vou tentar descer. Mas não me culpe se algo der errado. Este não é o tipo de avião que possa pousar em qualquer lugar, e eu também não sou uma piloto exímia.

? Apenas pouse o avião, sua velha! ? ele gritou, rude. Sem retrucar, Kate manejou os controles do jato que começou a descer. O tempo todo, as engrenagens de seu cérebro giravam furiosas. Sem dúvida, o seqüestrador não sabia pilotar um avião. Senão, não precisaria que ela permanecesse viva. Mas, uma vez no solo, ela podia não mais lhe ser útil, e mesmo se fosse, não dava para dizer o que ele pretendia fazer com ela. Kate teve visões de todos os tipos de horror: o pior de todos foi ser mantida sedada e desamparada para que finalmente se tornasse uma mulher senil.

Ela preferia estar morta. Portanto, quando o jato se nivelou e pousou sobre o solo, ela subitamente arrancou a arma do bandido, arremessando-se do assento. O avião deu solavancos na estrada de terra ? que na verdade não passava de uma trilha ? e balançou. As asas começaram a sacudir e o motor a fazer pressão num barulho insuportável. O jato estava fora de controle, mas não havia nada que Kate pudesse fazer, já travava uma luta frenética com o bandido.

A pistola deslizou pelo chão do avião, assim como Kate e o seqüestrador. Mas ele era jovem e mais forte. Segurando-se num assento, ele conseguiu se endireitar e tentou alcançar a arma. No momento seguinte, ele a tinha apontada diretamente para ela, e Kate sabia que atiraria. Foi seu último pensamento coerente, antes que um movimento brusco do jato a atirasse contra a porta. Com o impacto, a porta se abriu, e ela foi lançada violentamente para fora.

Ela caiu no chão e rolou, sentindo uma dor súbita e aguda no quadril, o que a fez arquejar e gemer. Segundos depois, uma súbita luminosidade a cegou quando uma das asas do avião foi arrancada por uma fileira de árvores. O jato começou a rodopiar desgovernado, explodindo em seguida num barulho ensurdecedor e atirando destroços em todas as direções. Alguma coisa atingiu Kate na cabeça, e ela nunca soube o quê ? uma nuvem escura a envolveu.

Os nativos que assistiram à queda do avião e encontraram o corpo de Kate inconsciente eram amistosos e tinham algum conhecimento em medicina. Eles a deitaram numa maça improvisada e a carregaram para sua aldeia no meio da floresta amazônica.

Capítulo 19

? Caroline, meu amor, o que houve? Qual é o problema? ? perguntou Nick, correndo para a cozinha da casa à beira do lago, ao ouvi-la berrar e cair em lágrimas.

A mão dela tremia ao desligar o telefone, e lágrimas corriam por seu rosto. Sem enxergar, ela foi ao encontro dos braços dele.

? Ah, Nick! Nick! ? ela soluçava. ? Vovó está... morta!

? Morta? Não, não pode ser! Você... tem certeza, Caro?

? Sim, era papai ao... ao telefone. Sterling telefonou... da América do Sul. Eles localizaram o jato da empresa. Vovó deve ter... ter... tido um problema no motor, algo assim, porque estava tentando... pousar na selva. Ah, Nick, ela... bateu, o... o avião explodiu! Eles encontraram... o corpo em meio aos escombros... ou pelo menos o que restou dele. Sterling disse que... estava queimado... não dava para reconhecer. Ah, Nick!

? Calma, benzinho. Sinto muito... muito mesmo. Sei o quanto você amava sua avó. Vamos, vamos lá para cima, você se deita e eu preparo alguma coisa para você beber.

Caroline saiu da cozinha como que anestesiada. Chorava tanto que, sem enxergar por onde caminhava, tropeçou. Sem dizer nada, Nick pegou-a nos braços e carregou-a escada acima até o quarto dele, onde a deitou na cama. Fechou as cortinas por causa do sol que a cada dia brilhava mais intenso à medida que o inverno dava lugar à primavera. Entrou no banheiro, molhou uma toalha e, depois de torcê-la, voltou ao quarto e a colocou sobre a testa de Caroline. No criado-mudo a um canto do quarto, pegou uma pequena garrafa de conhaque, serviu uma dose e insistiu para que ela tomasse. Depois, deitou-se ao lado dela, abraçando-a e confortando-a até que finalmente ela caiu num sono profundo.

Ao olhar para a esposa que dormia, a testa de Nick franziu-se. Ela não parecia bem desde a noite da invasão. E, embora não tivesse lhe dito nada, ele suspeitava que ela estivesse grávida. Ele imaginou que tivesse havido algum problema com seus métodos contraceptivos e que a razão para ela não lhe contar era porque não queria o bebê e planejava deixá-lo. E Nick poderia até ser condenado, mas não deixaria que isso acontecesse. Se, para impedir, ele tivesse que amarrá-la e sentar-se em cima dela nos próximos nove meses, ele o faria.

De repente, seus pensamentos se voltaram para Kate Fortune. Ele não conseguia acreditar que ela havia partido, que não havia conseguido enganar a morte. Ela, que era sempre tão vibrante, tão indomável. Mas não havia motivo, supunha, para duvidar da identificação do corpo, já que não havia mais ninguém a bordo do jato da empresa. Ele se perguntava se o avião, que aparentemente havia sofrido alguma falha mecânica, teria sido sabotado. Sem dúvida, a mesma idéia havia ocorrido a Sterling, o que ele logo verificaria.

Sendo realista, não havia nada que Nick, de onde estava, pudesse fazer a não ser manter Caroline segura. Seus braços envolveram o corpo dela. Ele mataria qualquer um que tentasse fazer mal a ela ou ao bebê, pensou.

Caroline sentia que praticamente tudo, desde o começo do ano, estava dando errado, a começar pela tentativa do SIN de deportar Nick. Agora, pouco depois da notícia da morte da avó, chegou outra carta do SIN, insistindo para que ela e Nick comparecessem ao escritório local do SIN para uma entrevista formal e uma investigação sobre o seu casamento.

? O que vamos fazer, Nick? ? ela perguntou, depois que ele leu a carta.

? Não vejo o que mais podemos fazer, querida, senão comparecer ? respondeu ele, ponderado. ? Quero dizer, não podemos agir como se estivéssemos nos escondendo. Além do que, se eu realmente fizesse alguma coisa como fugir, o SIN tomaria isso como motivo para que legalmente eu nunca me tornasse cidadão dos Estados Unidos. Mas não precisa se preocupar, Caro. O SIN não pode provar que nosso casamento não é genuíno. No entanto, receio que isto signifique que não poderemos nos divorciar em breve. ? Na verdade, nunca, se eu puder fazer algo a respeito!, Nick pensou, embora não tenha pronunciado alto estas palavras.

? Eu... sinto muito ? Caroline disse, mordendo o lábio inferior, angustiada pelo pensamento de que ele devia estar ansioso para que se separassem. ? Eu... sei que isso o aborrece muito, e o quanto... o quanto você anseia ter de volta sua liberdade.

? Sem dúvida, você sente o mesmo ? respondeu Nick, ofendido e irritado pelo fato de que ele parecia significar pouco ou nada para a esposa, apesar de terem dividido a cama e de ela sem dúvida estar carregando um filho seu.

? Bem, não é como se eu acreditasse que nosso casamento duraria para sempre ? ela chamou atenção para o fato, virando-se de costas para que ele não visse as lágrimas que lhe surgiam aos olhos.

? Não, não é ? ele concordou, mas falou para um aposento vazio. Caroline havia deixado a cozinha e corrido para o quarto.

Resoluto, Nick subiu as escadas atrás dela. Mas ela havia entrado no banheiro, trancado a porta e aberto a torneira do chuveiro, para não ouvi-lo bater, ele pensou. Ele não sabia que ela estava com a água aberta apenas para esconder o som de seus soluços. Ele estava fora de si, desesperado em salvar seu casamento, em segurar a mulher que amava. Olhou em volta do quarto que ela havia escolhido. Aquilo era parte do problema, ele pensou, furioso. Sem pensar, abriu a porta do armário e começou a tirar, sem cuidado, as roupas de dentro.

Quando Caroline reapareceu algum tempo depois, encontrou seu quarto numa total desarrumação. Seu armário estava vazio, as gavetas abertas, as roupas espalhadas por todo o quarto.

? Nick, o que está fazendo? ? gritou, atônita.

? Você não pode continuar neste quarto ? ele respondeu, enquanto juntava mais uma monte de roupas para levá-las para seu próprio quarto. ? E se o SIN fizer uma visita de surpresa? Se eles descobrirem que temos quartos separados não vão acreditar em nada que dissermos. Você quer que isso aconteça?

? N-n-não, é claro que não. ? O coração de Caroline martelava forte em seu peito. Ele queria que ela se mudasse permanentemente para a cama dele também?, ela se perguntou.

Ela recebeu a resposta mais tarde, aquela noite, quando ela e Nick se recolheram. Quando ela se virou no corredor em direção a seu próprio quarto, ele agarrou-lhe a mão e sem que ela pudesse impedir, perguntou:

? Aonde você pensa que vai, benzinho?

? Para... para a cama ? ela gaguejou, nervosa, um misto de susto e excitação pela expressão no rosto bronzeado do marido enquanto seus olhos escuros e brilhantes a olhavam de cima a baixo, com interesse.

? Sim, você vai para a cama, Caro. Mas não aqui. Não mais ? ele disse em tom suave, mas uma pontinha inconfundível de dureza cobrindo a seda de sua voz. Então, como se ela quisesse protestar, ele a tomou nos braços e a carregou pelo corredor até seu próprio quarto.

O pulso de Caroline disparou, descontrolado, enquanto ela se agarrava firme ao pescoço dele. Ela se sentiu como uma prisioneira, levada por um cossaco determinado, que pretendia raptá-la. O pensamento era assustador e arrepiante. Nick a atirou na cama, no quarto ainda escuro, iluminado apenas pela luz prateada da lua que penetrava peIas janelas de cortinas abertas. Ele fechou a porta do banheiro e trancou-a.

? Tire a roupa, Caroline ? ele comandou, desabotoando a camisa.

As mãos dela tremiam de nervosa expectativa enquanto, sem dizer nada, obedecia às ordens dele. Então, puxou o lençol da cama e deslizou para baixo dele, com o coração pulsando tão forte que pensou que fosse explodir. Ela tentou cobrir-se com os lençóis, mas Nick a impediu. Nu, ele deitou-se na cama a seu lado, o colchão oscilando sob seu peso e fazendo-a deslizar involuntariamente para os braços dele.

? Não, não se cubra para mim. Quero vê-la inteira enquanto faço amor com você ? ele murmurou antes que sua boca tomasse a dela, sua língua mergulhando fundo, alvoroçando seus sentidos e forçando sua rendição.

Gemendo do desejo que ardia dentro dela, ela abriu os lábios, suplicando e querendo que ele os invadisse, oferecendo-se em silêncio. As mãos dela agarraram os cabelos grossos e escuros dele, querendo e precisando dele, amando-o com todo o coração. De alguma forma, ela o faria entender, pensou vagamente, em algum canto distante da mente, mesmo que não conseguisse se forçar a dizer as palavras em voz alta.

Ela não sabia que o mesmo pensamento enchia também a cabeça de Nick enquanto ele a beijava e acariciava com fervor.

? Sua pele é tão macia e delicada. Adoro a maneira como a sinto sob minhas mãos ? ele disse, deslizando as mãos possessivamente pelo corpo dela, tocando, explorando, excitando-a até fazê-la perder o controle. ? É minha, cada centímetro dela. Você sabe disso, não sabe, Caro?

? Sim, Nick... ? ela suspirou, arrepiada pela ânsia dele. Ele agarrou-lhe os seios, pressionou-os com a boca, os dentes e língua, numa provocação torturante. Pequenas ondas de deleite corriam por todo o corpo dela, que pulsava à medida que ele lhe estimulava os mamilos até que eles se contraíssem sob os lábios e as mãos dele. E ele se demorava ali, lambendo e sugando com avidez.

Caroline se sentia quente e febril, desorientada como se tivesse sido tomada por um delírio. Mal se dava conta dos gemidos suaves que emanavam de sua garganta, da maneira como suas mãos passeavam sem descanso pelo corpo de Nick, traçando a dura curva dos músculos que se agrupavam sinuosos sob suas palmas. Ela massageava-lhe as costas, as nádegas, apertava a boca em sua garganta e peito. A pele dele, encharcada de suor, tinha gosto de sal, cheiro de almíscar e dos cigarros Player que ele fumava; seu hálito quente deixava em sua própria pele o aroma da vodca que ele bebia, todas as coisas masculinas que a incitavam e intoxicavam.

Ela podia sentir seu sexo duro e vigoroso esfregando-se nela, uma promessa, quando ele abriu-lhe amplamente as pernas para passar a mão que buscava-lhe as pregas macias, provocando-a até que Caroline ardesse de ansiedade por ele. Mas ele ignorou-lhe os gemidos de súplica, a forma como ela arqueava o corpo e se contorcia junto a ele, buscando satisfação.

? Nick, por favor... ? ela implorava.

? Por favor, o quê? ? ele murmurou, beijando-lhe a boca e os seios, enquanto deslizava os dedos profundamente dentro dela, retirando-os em seguida, provocando-lhe sensações de calor. Nick repetiu o movimento de forma lânguida, hipnotizadora. ? Se há algo que você queira, meu bem, então, pegue.

Caroline sentiu-se chocada com a própria audácia. Mas em seu estado de excitação, não chegou a se importar muito com isso. Ela o empurrou, e, colocando-se por cima dele, empalou-se sobre seu sexo, a respiração ofegante na garganta ao senti-lo pulsante deslizar para dentro dela, preenchendo-a profunda e completamente. As mãos dele se fecharam firmes na cintura dela. Seus olhos escuros brilhavam de triunfo e satisfação quando ele começou a balançar o corpo dela de encontro ao dele, parecendo intuitivamente saber como segurá-la, de forma que cada empurrão tornava-se puro tormento para ela, levando-a à loucura.

Ele podia sentir a maré de sensações assomar dentro dela de maneira incontrolável. Como se, onda após onda de um prazer tão intenso a fizessem perder o fôlego. Ela gritou, e ele a apertou contra o próprio corpo, virando-lhe bruscamente o corpo e mergulhando dentro dela até que seu próprio jorro veio com a mesma violência, deixando-o também sem fôlego.

Ele então beijou seus lábios, puxando-a para ele e encostando-a contra seu peito. Com a mão livre, ele se esticou até a mesinha-de-cabeceira, pegou um cigarro do maço de Player's, acendeu, tragou e soltou uma nuvem de fumaça no ar. Acariciando o cabelo de Caroline, ele se perguntou no que ela estaria pensando.

? Lamenta que eu a tenha trazido para cá? ? perguntou ele finalmente.

? Não. ? A resposta dela foi tão baixa que ele quase não ouviu. Mas ouviu e seu coração deu um salto de esperança. ? Você... vai mesmo me manter aqui, Nick?

? Sim. ? Ele pensou que ela poderia protestar, mas não o fez. E tampouco protestou quando ele, depois de uma última tragada no cigarro e de esmagá-lo no cinzeiro, começou a beijá-la e acariciá-la novamente, querendo-a de novo.

Era apropriado, porém irônico, Caroline pensou, que a entrevista deles com o SIN tivesse sido agendada para hoje, primeiro de abril. Porque só podia ser mentira que ela havia se apaixonado por seu marido e se rendido inteiramente a esse sentimento. Se ela não estava grávida antes, certamente agora estava. Pelo menos era o que lhe informara naquela manhã o kit de teste de gravidez que havia comprado no supermercado no começo da semana. Ela não se arrependia pelo bebê; queria a criança de todo coração. Mas realmente se desesperava ao pensar que, apesar de tudo, Nick nunca lhe dissera nenhuma palavra de amor.

Em tamanho turbilhão interno, Caroline mostrava-se totalmente alheia aos olhares admirados de vários funcionários do SIN quando ela e Nick caminhavam pelo prédio. O marido, no entanto, encarava irritado cada homem que olhava para ela; deixando claro que ela estava acompanhada.

Como os senhores Howard e Sheffield tivessem provado que haviam se deixado facilmente enganar, o caso de Nick havia sido transferido para uma superior, a senhora Penworthy. Ela era uma mulher grande, de aparência formidável, com cabelos e olhos cinza metálico. Não parecia que algo pudesse escapar à sua percepção ou que ela seria enganada por alguém.

Quando Caroline e Nick entraram no escritório, a senhora Penworthy deu uma olhada dura para eles e, numa petulância que rivalizava com Kate Fortune em seu melhores dias, instruiu-os a sentar. Eles obedeceram; a expressão de Nick era desafiadora, a de Caroline, nervosa. A senhora Penworthy abriu uma pasta grossa e passou os olhos lentamente em seu interior.

? Eu não vou perder tempo fazendo aos senhores as mesmas perguntas que já lhes foram feitas anteriormente pelos senhores Howard e Sheffield ? ela começou, sem se alterar. ? Aparentemente, os senhores os deixaram satisfeitos quanto à validade de seu casamento. No entanto, estão aqui hoje porque, desde então, o SIN recebeu denúncias ainda não confirmadas de que, na verdade, se casaram somente para que o Dr. Valkov evitasse ser deportado de volta à Rússia. Que sua permanência nos Estados Unidos era tão vital para a Cosméticos Fortune que lhe pagaram um bônus para aceitar esse casamento de fachada. Isto é verdade?

? Não ? Nick mentia de forma bem direta.

? Então, Dr. Valkov, talvez o senhor tenha a gentileza de explicar por que, no dia do seu casamento, o pai da senhora Valkov, o senhor Jacob Fortune, transferiu a quantia de meio milhão de dólares para sua conta bancária pessoal, fato descoberto pelo SIN durante a investigação do caso.

? Se os senhores descobriram isso, então deveriam estar informados de que, logo depois, usei a mesma quantia para estabelecer um fundo de família para meus filhos com Caroline, senhora Penworthy. O dinheiro era um presente para esse propósito ? anunciou Nick, impassível, por mais que não fosse verdade.

Ao ouvir isso, Caroline não conseguiu conter um pequeno arquejo repentino. Nick não havia ficado com o bônus de cinco dígitos para si mesmo? Ele não queria dinheiro algum para se casar com ela! Oh céus!, ela pensou, quando se deu conta, subitamente, da importância das palavras dele. Filhos!, ele disse. Filhos deles! O olhar da senhora Penworthy parecia querer penetrar a moça.

? A senhora parece surpresa, senhora Valkov ? observou a agente do SIN, seca.

? Estou... um pouco ? Caroline confessou, ansiosa. ? Eu... bem... não tinha me dado conta até agora de como papai havia sido generoso. Nick controla toda as nossas... finanças.

? Senhora Penworthy, vamos esquecer toda essa lengalenga e ir direto ao ponto ? insistiu Nick, ajeitando-se na cadeira. ? Os relatórios que a senhora recebeu são uma tentativa, creio eu, de alguma empresa concorrente para causar problemas a Cosméticos Fortune. A senhora sem dúvida ouviu falar na morte da avó de Caroline, Kate, em um trágico acidente de avião na América do Sul. Acredito que essa morte tenha sido causada por alguém que sabotou o jato da empresa. Deveria ser visível para a senhora que Caroline e eu somos legitimamente casados... e muito felizes, devo acrescentar.

? Por favor, senhora Penworthy! ? Caroline gemeu, baixinho, quando a agente do SIN não pareceu tocada pela declaração de Nick. ? Eu amo meu marido! Realmente, eu amo! E nós... vamos ter um bebê! ? Ela despejou tudo, sem pensar, movida por uma terrível sensação de desespero. Percebendo o que havia dito, ela ficou vermelha e mordeu o lábio inferior, perguntando-se o que Nick pensava e totalmente incapaz de encará-lo naquele momento.

Mas para sua surpresa e total contentamento, ele se esticou e pegou-lhe a mão.

? E eu amo minha esposa com todo o coração. E estou tão orgulhoso e satisfeito com o bebê que vou distribuir charutos durante meses! Se for menina, estamos planejando lhe dar o nome de Katherine Fortune Valkov.

? E se for menino? ? A senhora Penworthy indagou, olhando para Caroline e esperando sua resposta.

? Alexander... Sasha... o nome do pai de Nick.

Pela primeira vez desde que começara a entrevista, a expressão dura da agente do SIN se suavizou.

? Bem, acho que não há mais nada a perguntar aos senhores. E preciso ser cego para não perceber o quanto vocês dois realmente se amam. Por favor, aceitem minhas desculpas em nome do SIN pelo transtorno. Estou satisfeita quanto à validade de seu casamento e convencida de que realmente deve haver alguma trama contra a Cosméticos Fortune na origem dessa história. O SIN não os incomodará novamente.

Do lado de fora do prédio do SIN, Nick ajudou Caroline a entrar no Mercedes-Benz, e sentou-se no banco ao lado, inserindo a chave na ignição. Mas, em vez de ligar o motor, ele virou-se para ela, ponderando; os olhos escuros buscavam algo e estavam cheios de uma luz estranha e esperançosa.

? Caroline, você realmente quis dizer o que disse... sobre me amar?

? Sim ? ela confessou, com suavidade. ? Eu realmente amo você, e eu... sinto muito se isso o deixa irritado, Nick, mas é realmente verdade que nós... vamos ter um bebê.

? Eu sei. Não tinha tanta certeza até hoje de manhã. Mas, querida, mesmo se não fosse químico, eu saberia ler os resultados de um kit de teste de gravidez tão bem quanto qualquer um. Acho que você não pensou nisso quando o jogou no lixo. Estou muito feliz pelo bebê. ? Abaixando-se, ele encostou a mão delicadamente na barriga dela. Espero que seja o primeiro de vários... porque nós não vamos nos divorciar, Caroline. Eu também amo você, e quero muito permanecer seu marido.

? Ah, Nick... ? A voz dela foi ficando mais fraca à medida que ele a beijava profunda e apaixonadamente.

Finalmente, depois de um longo momento, acariciando o cabelo dela e apertando-a, carinhoso, em seu peito, ele perguntou, em tom provocador:

? Então, o que você acha, senhora Valkov? Consigo o cargo de seu marido ou não?

Ela sorriu para ele e todo o amor que havia em seu coração transpareceu em seus olhos.



? Sim, Dr. Valkov. O senhor com certeza está contratado... para sempre!

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