Título: tdah, o desafio da escola no contemporâneo Luciane Martins Alfradique



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Título: TDAH, o desafio da escola no contemporâneo

Luciane Martins Alfradique


Resumo


O presente trabalho se insere em uma pesquisa de mestrado que se encontra na fase de revisão da literatura, tendo como objetivo traçar um percurso histórico e reflexivo acerca do (TDAH) Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, a medicalização e uma possível articulação com o conceito de angústia em psicanálise Na atualidade, este transtorno ganha destaque como a descrição médica mais empregada na infância, o que evidencia a biologização das vicissitudes que comparecem na vida infantil. Iniciaremos com definições do discurso médico, que defende ser este transtorno de origem neurológica e padronizam comportamentos como a desatenção, a agitação e a impulsividade com a sigla TDAH. Em contrapartida traremos o discurso psicanalítico com seu olhar específico para a subjetividade e a singularidade. A controvérsia entre o discurso médico e o discurso psicanalítico estarão presentes ao longo desta pesquisa.

Palavras chaves: TDAH; medicalização, psicanálise e angústia

O presente trabalho é parte da pesquisa de revisão da literatura, do curso de mestrado em psicologia na UFRJ, sob a supervisão da Prof. Dra. Cristiana Carneiro, sob a temática do TDAH, medicalização e angústia.

Iniciaremos com uma trajetória histórica deste transtorno, até a atual classificação do DSM -V(2013) demarcaremos as concepções dos diferentes discursos acerca desta problemática.

Embora muito já se tenha estudado a respeito da desatenção, inquietude e impulsividade, na contemporaneidade, esta problemática recebeu a nomeação de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade-TDAH pelo discurso médico. Esse transtorno tem sido endereçado ao discurso médico, especialmente à psiquiatria, à neurologia e à pediatria. Estaríamos diante de uma nova epidemia de transtorno mental que está acometendo as crianças contemporâneas em idade escolar? Diante de uma questão bastante complexa, polêmica e controversa, faremos um percurso histórico das possíveis origens etiológicas, a partir do discurso da medicina, em contrapartida apresentaremos as contribuições da psicanálise sobre esse transtorno. Existem autores que defendem ser um transtorno de origem predominantemente neurológica, em contra partida, o discurso psicanalítico que vai ler esse sofrimento psíquico como sintoma.

O discurso médico, que apóia o TDAH, utiliza o recurso à história como ferramenta de legitimação do transtorno. Podemos tomar como exemplo o manual ilustrado oferecido gratuitamente pela Associação Brasileira do Déficit de Atenção, apresentado na forma de 36 perguntas e respostas. A primeira pergunta que encontramos neste manual é a seguinte: ”Esse é um transtorno novo, descrito recentemente pela medicina?” (ABDA, p.4). Não há dúvida de que essa pergunta pretende representar uma indagação comum da população sobre a possível existência deste transtorno, pois existe um clima de desconfiança dentro da própria classe médica.

O TDAH, a princípio, era restrito aos setores da comunidade médica, a partir dos anos 90 passou a influenciar o raciocínio de outros especialistas e a fazer parte do vocabulário cotidiano de professores, pais e outros adultos. Crianças, anteriormente consideradas “peraltas”, ”mal educadas”, ”indisciplinadas” ou “desmotivadas”, começam a ser acometidas por uma disfunção nos circuitos cerebrais, possivelmente de origem genética, que provocam uma deficiência ou inconstância na atenção e um excesso nos níveis de ação. Acredita-se que cerca de dois terços dos casos desse transtorno persista após a adolescência (LIMA, 2015).

Considerado como o distúrbio psiquiátrico mais comum entre crianças em idade escolar é a “principal causa de encaminhamentos para serviços especializados” (ROHDE e MATTOS, 2003).

Segundo Moisés (2013), o diagnóstico de TDAH está sendo feito indiscriminadamente em uma porcentagem muito grande de crianças e o conhecimento médico exige que se assuma que isso é um produto social e não uma doença inata, neurológica e muito menos genética, é algo que socialmente vem se produzindo.

Tornou-se frequente, crianças em idade escolar, que apresentam comportamento de desatenção, agitação e impulsividade receberem facilmente o diagnostico de TDAH, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Este transtorno surgiu no início do século XX e há os primeiros conceitos de hiperatividade na “Instabilidade Motriz” (Ajuriaguerra, 1991)

Em 1947, a corrente anglo-saxônica desenvolveu uma concepção neurológica segundo a qual os distúrbios de comportamento e de aprendizagem das crianças estariam relacionados à existência de uma “lesão cerebral mínima” (LCM). Inicialmente, pensava-se que um dano cerebral era mínimo demais para causar tantas manifestações neurológicas, mas suficiente para alterar apenas o comportamento e as funções cognitivas. Em 1962, a constatação de que não havia nenhuma lesão fez com que o mesmo quadro passasse a ser denominado como “disfunção cerebral mínima” (Collares e Moysés, 1996).

A partir da década de 1960 e 70, nos EUA, a disseminação, no campo médico e entre os leigos, que o diagnóstico de hiperatividade se fortaleceu, pois se passou a ter um olhar mais preocupante com crianças que apresentavam problemas de conduta hiperativa, desatenta, anti-social, ou com problemas de aprendizagem.Sobre todos esses sintomas caía a suspeita ou o desejo de que portassem um mau funcionamento ou imaturidade cerebral,garantindo que seus desvios permanecessem referidos ao discurso médico.Esses fatos tornaram-se bastante preocupantes no interior de uma sociedade que já valorizava o indivíduo bem sucedido e produtivo, tanto é que diversas pesquisas se ocupavam de analisar a relação do TDAH com a criminalidade, desemprego, perdas econômicas, considerando tais problemas como um fator de risco para os pais ( LIMA,2005;CALIMAN, 2008).

O psiquiatra Peter Bregguin (2002) afirma não haver provas que evidenciem a existência do TDAH e que nunca foram encontradas diferenças orgânicas cerebrais ou reações bioquímicas diferentes em crianças hiperativas. Sendo o diagnóstico essencialmente clínico, o comportamento continua a ser o único quadro sintomático em que se apóiam os médicos para detectar o transtorno.
As descrições do TDAH NO DSM
O DSM-I(1952) consistia em um glossário de descrições de diferentes categorias diagnósticas para diferentes doenças mentais. Naquele momento, sob a influência de Adolf Meyer, os transtornos mentais eram entendidos como reações da personalidade a fatores psicológicos, sociais e biológicos, e o TDAH era nomeado de “lesão cerebral mínima” (LIMA, 2005).

De acordo com o DSM-II(1968), o TDAH foi denominado como “reação hipercinética da infância”, que demonstrava o rápido respaldo que essa nova descrição passou a receber da comunidade científica, entretanto a expressão reação indicava a influência que noções psicanalíticas ainda exerciam na compreensão do transtorno e em todo o DSM-II (LIMA, 2005).

O DSM-III(1980) nomeou o transtorno de “distúrbio de déficit de atenção” (DDA), após o surgimento de críticas sobre o exagerado destaque dado à atenção, a hiperatividade recupera sua importância na revisão da terceira edição (DSM-III-R), editado em 1987, na qual o distúrbio ganha sua atual denominação. (LIMA, 2005; LEGNANI E ALMEIDA, 2009) .

Essa não é uma simples mudança de denominação, pois a categoria transtorno exclui qualquer influência da psicanálise e legitima o domínio do discurso da psiquiatria biologizante que exalta e prioriza a medicação, localizando no corpo todas as questões mentais. .

O DSM-IV (1994) apresenta o transtorno dividido em três subtipos: 1 - predominantemente desatento 2 - hiperativo\impulsivo, 3- desatento \impulsivo\hiperativo (combinado). E segundo Caliman (2009), nesta publicação o transtorno é definitivamente reconhecido como um dos problemas mais graves da saúde pública americana.

As características deste transtorno situam-se em torno de três sintomas básicos: desatenção, hiperatividade e impulsividade. A característica essencial deste transtorno é o padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade, mais intenso e frequente do que o observado em crianças da mesma faixa etária e o mesmo nível de desenvolvimento (DSM-IV 1994).

O DSM-V(2013), utiliza a nomenclatura de Transtorno de Déficit de Atenção \Hiperatividade. Para o diagnóstico do TDAH o DSM-V não é o único instrumento utilizado para chegar ao diagnóstico, porém ele é o manual de referência, e é pouco provável que um diagnóstico de TDAH seja dado num caso que não corresponda aos critérios do DSM-V (LADMAN,2015).

Esse manual manteve os mesmos critérios e sintomas da edição anterior, e alterou os subtipos por especificadores de apresentação e passou a classificar o TDAH em leve, moderado e grave de acordo com o comprometimento na vida do sujeito, também passou a fazer parte do capítulo de desordens do neurodesenvolvimento, refletindo a correlação dele com a maturação cerebral (SIVA, 2016).

As principais modificações do DSM-V referem-se a limites de idade. Na publicação anterior, o limite era de sete anos, na atual publicação, o limite é de doze anos, assim é possível classificar de TDAH adolescente que, espontaneamente, ficam distraídos e impulsivos sem ultrapassar os limites do normal. É uma redução do limite de inclusão que pode levar a um aumento importante da prevalência, ou seja, da quantidade de casos de TDAH em adolescente e como conseqüência o abuso de estimulantes. No adulto, o DSM-V reduziu de seis para cinco o número de sintomas exigidos para o diagnóstico de TDAH e, nesta edição, os sintomas não devem corresponder ao nível de desenvolvimento, o que é muito vago e flexível, no DSM-IV era exigido que eles fossem mais freqüentes e mais severos que aqueles tipicamente observados em indivíduos com um nível de desenvolvimento similar (LADMAN, 2015).

O TDAH tem um nascimento e uma história estritamente ligados à perspectiva organicista americana, é a nova doença da moda, pois suas manifestações sintomáticas podem ser integradas numa perspectiva sociológica. Numa sociedade, em que a autonomia é um valor importante, para não dizer supremo, o TDAH é um obstáculo à estruturação do eu, à adaptação às exigências da vida escolar, ao desempenho esperado (LADMAN, 2015).

Apesar das sucessivas mudanças de denominação, raramente comentadas no debate público, podemos verificar que o quadro permanece o mesmo (SILVA, 2016).

Christian Dunker, (2014), ao comentar o DSM-V reitera que essa edição dá continuidade à descaracterização dos grandes quadros e à fragmentação de unidades sintomáticas cada vez menores, tornando-se clara a inversão entre quadros cujos diagnósticos se aplicam exclusivamente à infância. E acrescenta que um estudo holandês mostrou que a confiabilidade das categorias hoje usadas pelo DSM-V encontra-se em níveis menores do que os estabelecidos nas primeiras edições desse manual. Entretanto, seu triunfo como código de referência para saúde mental, se deu a partir do emparceiramento crescente com o CID, os patamares de confiabilidade, inclusive para inclusão de novos transtornos, foram sendo reduzidos, o que claramente reflete uma política “ampliacionista”, que redunda em uma inclusão indiscriminada de pessoas no campo da doença mental, e sendo muito provável que este movimento tenha favorecido as “epidemias” de déficit de atenção com hiperatividade.

Todos os estudos realizados para tentar descobrir as possíveis causas do TDAH, elas ainda continuam desconhecidas e embora existam hipóteses como origem genética ou mau funcionamento cerebral, dentre outras, nenhuma delas responde satisfatoriamente por todos os casos (ARNOLD e JENSEN, 1999).

Como se pôde ler neste breve histórico, para uma parte significativa de pesquisadores da saúde mental, esse transtorno é de base predominante neurológica e, portanto, assentada sobre causas orgânicas, o que, consequentemente, os leva a buscar aditivos farmacológicos para minimizar os possíveis “déficits”. De outro modo, há um segmento da área da saúde que discorda deste postulado, e se pergunta até que ponto estaria produzindo uma nova “doença” para a infância. Este grupo aponta para a importância de considerarmos os interesses econômicos envolvidos nesta questão, já que a proliferação do suposto transtorno é diretamente proporcional ao aumento do consumo de certas substâncias, portanto ao incremento da indústria farmacêutica.

Segundo Moisés (2013), o diagnóstico de TDAH está sendo feito indiscriminadamente em uma porcentagem muito grande de crianças e o conhecimento médico exige que se assuma que isso é um produto social e não uma doença inata, neurológica e muito menos genética, é algo que socialmente vem se produzindo.

O psiquiatra Peter Bregguin (2002), afirma não haver provas que evidenciem a existencia do TDAH e que nunca foram encontradas diferenças orgânicas cerebrais ou reações bioquimicas diferentes em crianças hiperativas. Sendo o diagnóstico essencialmente clínico, o comportamento continua a ser o único quadro sintomático em que se apóiam os médicos para detectar o transtorno.

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A medicalização da subjetividade



Utilizamos nesta pesquisa o conceito de medicalização como uma lógica e prática que parece está inserida no contemporâneo, principalmente no âmbito escolar. Segundo Guarido e Votolini (2009), a medicalização se insere “no conjunto da ideologia moderna e na formação do homem moderno, no que diz respeito à forma com que significa seu corpo, seu lugar político, suas vivências subjetivas e tudo o que decorre da difusão da medicina no ideário moderno”(GUARIDO,R, ;VOTOLINI,R2009).

A medicação muitas vezes tem sido utilizada como uma estratégia organicista, que tenta responder aos sintomas gerados pelo mal estar escolar das crianças contemporâneas, nomeados de TDAH. O Metilfenidato, conhecido como Ritalina ou Concerta, é da família das anfetaminas, prescrita para crianças que sofrem deste transtorno. Com o objetivo de melhorar a concentração, diminui o cansaço e potencializar o acúmulo de informação em menos tempo. Segundo Moysés (1992), essa droga pode trazer dependência química, pois tem o mesmo mecanismo de ação da cocaína, sendo classificada pela Drug Enforcement Administration como um narcótico. O Metilfenidato vem sendo prescrito de maneira indiscriminada e o Brasil se desponta na segunda posição mundial de consumo, figurando apenas atrás dos EUA; Ritalina é o nome comercial da conhecida “droga da obediência”.

Uma das conseqüências de um diagnóstico precoce e indiscrinado de TDAH é a prescrição da Ritalina, independente da gravidade. O uso da droga, apesar de submetido a rígido controle, tem de tornado um problema de saúde pública, especialmente nos EUA, onde sua produção cresceu 700% entre 1990 e 1998, quando quase cinco milhões de pessoas, em sua maioria crianças, usavam o fármaco (DILLER, 1998). No Brasil, segundo dados publicados na imprensa, houve um aumento de 140% na sua prescrição nos últimos dois anos, e em 2003 foram vendidas cerca de 500 mil caixas de Ritalina (LIMA,2005).

Ao ampliar seu campo de atuação ao ambiente escolar, a medicina passa a agir sobre esse espaço de acordo com sua própria ótica e promove a patologização e medicalização da educação, transformando problemas pedagógicos, sociais e políticos em questões biológicas e médicas (COLLARES e MOYSÉS, 1994; GUARIDO, 2007; LEGNANI; ALMEIDA 2008). Discutir a medicalização das dificuldades infantis é uma tentativa de não reduzir a criança a um discurso patologizante. No contemporâneo, têm se observado um aumento significativo na prescrição de medicamentos psiquiátricos para todos os tipos de sofrimentos psíquicos e mal-estar do cotidiano e principalmente as crianças não têm sido poupadas dessa lógica de tratamento.

O discurso psicanalítico lê a medicalização de crianças como um apelo ao silênciamento dos conflitos, que são inerentes à subjetividade e ao laço social. Assim, o uso de psicotrópicos desvela a ignorância de que a angústia é estruturante e participante das operações de constituição do sujeito (MAGALHÃES, 2006).

Birman (1999), na atualidade assistimos, a uma sedação indiscriminada da angústia humana, constituída a partir dos psicofármacos. E acrescenta: “A sedação indiscriminada da angústia humana, através dos psicofármacos, representa um marco da atualidade e merece atenção especial, pois não implica o sujeito em sua problemática” (BIRMAN, 1999).

A partir do exposto acima, podemos pensar no fenômeno da medicalização, e principalmente na medicação como uma estratégia de algumas escolas e famílias para lidar com o sofrimentos psíquicos, representado no corpo com sintomas de agitação, desatenção e impulsividade, nomeados no contemporâneo de TDAH.

Terminamos com a citação de Freud “a escola nunca deve esquecer que ela tem de lidar com indivíduos imaturos a quem não se pode ser negado o direito de se demorarem no seu desenvolvimento e mesmo para alguns um pouco desagradáveis”(FREUD, 1910 p.217).

TDAH- é da angústia que se trata?

Partirmos dos textos de Freud e Lacan para traçar uma possível articulação entre TDAH e os conceitos de angústia. Iniciaremos a partir das teorias de Freud sobre as neuroses atuais que nos levou a pensar que os chamados novos sintomas ou transtornos contemporâneos são quadros clínicos, há muito descrito por ele. A novidade, que geralmente é atribuída às patologias, nos parece estar, em realidade no aumento da incidência desses quadros no sofrimento infantil, principalmente em relação à vida escolar.

Desde seus primeiros trabalhos, Freud se preocupa com a questão da angústia, pois ela se comporta como sinal de uma ameaça. A angústia foi um dos principais temas presente em vários textos da obra de Freud. Foi no decorrer das suas investigação sobre as neuroses que Freud se defrontou inicialmente com o problema da angústia, e desde então, suas hipóteses sofreram poucas modificações ao longo de sua obra.

Em seu texto Projeto para uma psicologia científica (1895), primeiro artigo de Freud sobre esse tema, ele afirma: “a neurose de angústia teria sua etiologia na má ou não utilização da libido, que se transformaria em angústia de uma forma direta. A psique é dominada pelo afeto da angústia se sentir que é incapaz de lidar por meio de uma reação apropriada com uma tarefa (um perigo) que se aproxima de fora; porém na neurose de angustia há uma descarga de tensão sexual acumulada que escapa. Freud considerava esse processo puramente físico, porém na angústia que ocorria nas fobias e na neurose obsessiva a presença dos fatores psicológicos era um fator que não podia ser excluído” (FREUD, 1895).

Em 1900, no texto, A interpretação dos sonhos, a angústia é um impulso libidinal que tem sua origem no inconsciente, e é inibido pelo pré-consciente. No texto de 1907 Gradiva: nos sonhos de angustia, a angústia neurótica decorre da libido recalcada e no artigo sobre o “recalque” Freud (1915) explica que após o recalque a parcela quantitativa da enrgia libidinal é transformada em angústia. No texto Três ensaios (1905) em uma nota de rodapé, Freud acrescenta que a angústia neurótica se origina da transformação da libido, assim se relaciona com ela “como o vinagre se relaciona com o vinho” (vol. VIII p. 231).

No ano 1919, Freud escreveu conjuntamente: O Estranho; Uma criança é espancada; Introdução a psicanálise e às neuroses de guerra e deu inicio a um de seus principais textos: Além do princípio do prazer. Todos estes trabalham demonstram que era chegada a hora de introduzir no corpo teórico da psicanálise o que insistia e ainda insiste e persiste na clínica, o ruído silencioso da pulsão de morte,a angústia como impossível de representar.

A relação entre TDAH e a angústia nos faz pensar que no texto Inibição, sintoma e angústia (1926), Freud situa a angústia como anterior ao recalque, como único afeto proveniente do isso e diretamente relacionado à pulsão de morte. Até então, situava o desejo pela mãe como elemento fundamental da constituição do sujeito. Uma vez proibido, este desejo desencadeava o recalque e, conseqüentemente, o sintoma. A angústia seria um resto desta operação, resultado da transformação da libido correspondente ao desejo interditado.

Já num segundo tempo, esta angústia se transforma em angústia diante da perda do objeto, uma vez que a criança aprende que a ação específica da qual necessita está vinculada ao outro que cuida dela, a ausência da mãe se configura então como uma ameaça de que a situação traumática se estabeleça novamente:

“ ...Quando a criança houver descoberto pela experiência que um objeto externo perceptível pode pôr termo à situação perigosa que lembra o nascimento, o conteúdo do perigo que ela teme é deslocado da situação econômica para a condição que determinou essa situação, a saber,a perda de objeto.É a ausência da mãe que agora constitui o perigo, e logo que surge esse perigo a criança dá sinal de angústia, antes que a temida situação econômica se estabeleça”(FREUD,1926P.161-2). E acrescenta “...Um fenômeno automático é um sinal de salvação, verifica-se que a angústia é um produto do desamparo mental da criança, o qual é um símile natural de seu desamparo biológico”( FREUD,1926,P.162).

Nesse texto, Freud faz uma atualização e revisão dos conceitos que havia estabelecido em torno da angústia. Com isto, não invalida suas teses anteriores nem as superpõe às suas novas teorizações, reorganiza sua metapsicologia.

Poderíamos relacionar o TDAH, com a angústia descrita por Freud, como “atuante na etiologia das neuroses atuais”?

Podemos notar a existência de uma relação importante entre hiperatividade e angústia, apontada por Silva a parti das citações abaixo.

A criança descarrega corporalmente uma agitação. Podemos pensar que a manifestação corporal é uma angústia que não pode encontrar uma saída psíquica por meio das palavras e que extravasa corporalmente? (SILVA, 2016, P.93)

Pensar o TDAH buscando um entendimento apresentado pela psicanálise, como um tratamento frente ao real da angústia há de se buscar como fonte de entendimento, Lacan no seminário da Angústia.

Angústia, sinal do real. A angústia não é sem objeto (LACAN, 1962 p. 175).

A angústia funciona como sinal, é da ordem da irredutibilidade do real. E dentre todos os sinais, é aquele que não se engana. (LACAN, 1962). Para Lacan, a relação essencial da angústia é com o desejo do Outro. A angústia indica a aproximação ao desejo do Outro que se manifesta através da pergunta “O que ele quer de mim?” Por que será que o desejo do Outro nesse momento é predominantemente causa de angústia e não causa de desejo? Porque o sujeito não sabe que objeto ele é para esse desejo (LACAN, 1962-1963).

Lacan avança nesta questão ao dizer que a primeira resposta fantasmática a essa pergunta é dada quando o sujeito, lançando mão da experiência do momento anterior (o da alienação), propõe a esse desejo parental sua própria perda, sua morte, seu desaparecimento, dando início ao processo de separação. Isto quer dizer que, para que o sujeito possa ir construindo sua própria resposta ao desejo do outro, alguma distância se faz necessária, o que marcaria uma diferença entre o eu e esta imagem constituinte inicial. Justamente esta não coincidência entre o que o eu supostamente é, e aquilo que o determina, o desejo do outro- presentificaria uma divisão fundante na constituição do humano (LACAN, 1962-63).

Discussão

Pensar o TDAH como mal-estar contemporâneo relacionado à escola e dirigido a psiquiatria é pensar uma nova criança, calada enquanto sujeito na sua subjetividade. A criança diagnosticada com TDAH é considerada “desenquadrada socialmente”. Questões comuns da infância passaram a ser anexadas e nomeadas no manual de psiquiatria. Deparamos-nos com as seguintes questões: Para onde caminha a infância? Como será a vida adulta destas crinças medicadas precocemente com psicotrópicos para atender uma demanda de comportamento escolar dentro de padrões normativos sociais?

Medicalizar todos os comportamentos infantil,há um perigo de reduzir a criança a um estado doentio, e, perdermos de vista o que é uma criança, suas necessidades, suas demandas, e desejos, que, nesse contexto, são reduzidos a patologias sempre sustentadas por um tripé: todo problema da criança é um transtorno mental, todo transtorno revela uma desordem química e essa desordem química precisa ser corrigida por um medicamento; sendo essas as condições que têm transformado o TDAH em uma das principais causas de consulta a diferentes especialistas.

Assim sendo, o diagnóstico de TDAH reduz a dimensão subjetiva ao real do corpo. A psicanálise escuta o singular, no qual o sintoma é uma construção do sujeito, como expressão do funcionamento inconsciente. A medicina se contrapõe a este discurso calando o sujeito com a medicação.

“A sedação indiscriminada da angústia humana através dos psicofármacos representa um marco da atualidade e merece atenção especial, pois não implica o sujeito em sua problemática”. (BIRMAN1999).

O discurso médico entende o TDAH como um transtorno mental da infância de origem neurológica que precisa da intervenção medicamentosa que reduz a dimensão subjetiva ao corpo biológico, que, ao pretender dizer tudo sobre o paciente, reduz a dimensão e acaba por não dizer nada sobre o sujeito que ali se encontra. “Responde à realidade velando a angústia e esta, por sua vez, retorna como um sintoma e toda criança passa a ser coisa com base nesse diagnóstico comum”(SILVA,2016).

A criança diagnosticada com TDAH apresenta comportamentos que a escola e a sociedade não toleram no contemporâneo. Assim, questões comuns da infância passaram a serem diagnosticadas, nomeadas e inseridas no manual de psiquiatria DSM, calando essa criança enquanto sujeito na sua subjetividade. De acordo com a elaboração Freudiana, o sintoma é sempre uma manifestação do sujeito, uma expressão do inconsciente. E a criança diagnosticada com TDAH, utiliza o corpo para expressar perturbações que a acometem, nesse sentido o sintoma é a formação de compromisso entre várias instâncias psíquicas, não devendo ser eliminado, mas entendido como expressão da singularidade daquilo que traz o sofrimento psíquico.

O sofrimento não é possível de ser dito em palavras, precisa ser decifrado, pois o sentido oculto do sintoma revela a verdade da criança, opondo-se a lógica do discurso médico que tem como solução a medicação que visa eliminar os comportamentos inadequados socialmente (SILVA, 2016).

As manifestações da angústia afetam o corpo do sujeito que fala. Pensar o TDAH a partir desta inscrição no real do corpo pode-se pensar a desatenção, a impulsividade e a inquietação infantil encenadas corporalmente e nomeadas pelo discurso médico como um transtorno e a partir da psicanálise como um sintoma, que não consegue elaborar em palavra e encenam corporalmente o falar de si.

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