Título da edição original: o relatório chapman autor: irving wallace



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Título da edição original: O RELATÓRIO CHAPMAN
Autor: IRVING WALLACE
Tradução: EDUARDO ALBERTO DE GOUVEIA AGUIAR

Revisão: ALICE ARAÚJO

Capa: PEDRO M. DIAS

Copyright © 1969, Irving Wallace

Reservados todos os direitos pela legislação em vigor

1 ,s edição — Lisboa — Fevereiro de 2003

ISBN 972-38-2641-0 VENDA INTERDITA NA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL

COLECÇÃO DOIS MUNDOS

IRVING WALLACE

O RELATÓRIO CHAPMAN

Tradução de EDUARDO ALBERTO DE GOUVEIA AGUIAR
EDITORA LIVROS DO BRASIL

LISBOA: Rua dos Caetanos. 22 -1200-079 Tei.: 21 346 26 21 Fax: 21 342 84 87 PORTO: Rua de Ceuta, 80 - 4050-189 Tel.: 22 205 25 41 Fax: 22 208 60 20

livbrasil@livbrasil.com

EDIÇÃO «LIVROS DO BRASIL» LISBOA Rua dos Caetanos, 22


A Sylvia
Todo o coito humano encerra em si algo da natureza de um drama; começa por certa forma de perseguição e pode acabar por atingir as culminâncias de uma intimidade total — coisa que não sucede com frequência. Só por si, o sexo não pode substituir a intimidade...»

NELSON N. FOOTE

Family Study Center

Universidade de Chicago

A MUITAS MULHERES E A ALGUNS HOMENS É possível que algumas das mulheres com quem me cruzei na vida, nos anos que decorreram entre a minha puberdade e o momento actual, pensem descobrir a sua presença neste livro, como se estivessem a oihar-se a um espelho, vendo nele, por qualquer alquimia pessoal, certo reflexo das suas personalidades. Quero assegurar a todas elas que me teria sido impossível reproduzir no papel, mesmo que o desejasse fazer, toda a sua beleza, hábitos, experiências e evasiva feminidade. Todas elas possuíam demasiada complexidade — e eu pouquíssima arte — para servirem de protótipo às mulheres que aparecem nestas

páginas.

As mulheres que intervêm na intriga moral que se segue são, na sua totalidade, produto da imaginação do autor, e se alguma das leitoras aqui encontrar, ainda que remotamente, a mais leve semelhança consigo ou, até, com qualquer outro ser humano, vivo ou morto, devo declarar com toda a veemência que tal semelhança não passa de uma incrível coincidência.

O mesmo afirmo relativamente aos leitores do sexo masculino. Se, algures nesta feliz terra, existir um homem que se sinta «maltratado» nestas páginas, na evidente suposição de nelas habitar, aliviemo-lo imediatamente desse peso: as personagens masculinas que figuram neste romance, da primeira à última página, são completamente fictícias.

Alguns dos leitores de ambos os sexos poderão sentir-se tentados a ver no Dr. Chapman e nos outros investigadores quaisquer das características e métodos de autênticos cientistas que se ocuparam dos problemas sexuais, tais como os Drs. Alfred

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C. Kinsey, G. V. Hamilton, Robert L. Dickinson, Lewis M. Terman e outros. Quem quer que sinta prazer em tecer tais fantasias pode continuar com esse divertimento, mas de sua própria conta e risco. Advirto porém que os seus devaneios carecem de qualquer base real. A partir de 1915, ano em que foi iniciada uma investigação sobre o comportamento sexual dos seres humanos por cientistas desse foro, nessa actividade participaram já, com toda a honestidade, dezenas de homens e mulheres notáveis. Nunca me encontrei nem vi sequer nenhum desses investigadores famosos, o mesmo se aplicando quanto aos seus colaboradores.



Numa obra de pura imaginação decidi utilizar uma actividade que constitui um verdadeiro fenómeno da nossa época, época em que me fiz homem, época preocupada com a sexualidade, com inquéritos, confissões e estatísticas. Inventei um grupo de sexólogos e descrevi-os realizando o seu trabalho. Se, devido à mais estranha das possibilidades, qualquer deles, desta ou daquela maneira, se parecer com um ser humano, vivo ou morto, ficarei apenas com a satisfação de verificar a acuidade da minha pena e da minha percepção. No entanto, semelhante coisa também me surpreenderá, dado que todas as personagens que refiro neste livro são produto total da minha fantasia de escritor.

Deixo o leitor paciente com as sensatas palavras de W. Somerset Maugham: «É bastante nocivo esse costume de atribuir modelos às criaturas que são produto da imaginação do escritor.»

IRVING WALLACE Los Angeles, Califórnia

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Uma vez por dia, precisamente às nove menos dez de cada manhã, um comprido autocarro cinzento, utilizado para digressões turísticas, subia com característica dificuldade o Sunset Boulevard e entrava na área do subúrbio de Los Angeles, conhecido por The Briars. O guia e motorista regular do autocarro aproximava o microfone interno dos lábios e continuava com a sua entorpecente descrição: «Minhas senhoras e meus senhores, neste momento atravessamos The Briars... »



Entre os passageiros, já saciados de terem contemplado as faustosas residências das celebridades do cinema em Beverly Hills e Bel-Air — ultrapassadas vinte minutos antes —, não se produzia a mais ligeira excitação. Sabiam que The Briars (e já o tinha pressentido mesmo antes de terem a certeza) não possuía mais exotismo do que as melhores zonas residenciais das cidades de que se haviam escapado por um breve lapso de tempo — cidades situadas na Pensilvânia, em Cansas, Geórgia e Idaho. The Briars aparentava ser um perfeito modelo do comum e, portanto, nada que merecesse qualquer referência nas cartas e postais a enviar para casa.

Muitos dos passageiros utilizavam aquele breve interlúdio para mudarem de posição, passarem um lenço pelo pescoço, acenderem um cigarro ou trocarem umas palavras com o vizinho de trás, aguardando a sua movimentação até uma zona muito mais prometedora: o oceano Pacífico com a magnífica colónia da praia de Malibu. No entanto, uns quantos passageiros, na sua maioria mulheres de rostos jovens e mãos envelhecidas, continuaram a


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olhar pelas janelas do autocarro admirando a beleza tranquila, graciosa e quase rural daquele subúrbio, pensando o que seria aquela comunidade e o que seria preciso para se fazer parte daquela selecta população.



Durante as várias décadas do seu desenvolvimento urbano, The Briars fora diariamente atravessado por muitos autocarros como aquele e, para o observador de passagem, sempre havia prevalecido aquela mesma visão superficial de recato, tranquilidade e convencionalismo. Na verdade, as vivendas e prédios que se deparavam à vista, bem como os dados estatísticos fornecidos pelo cicerone, tornavam-se reconfortantes e familiares, dado que The Briars era para Los Angeles o que Lake Forest é para Chicago e Scardsdale para Nova Iorque.

Desde que era uma parte formal da grande Los Angeles, sem

autonomia governamental própria, as fronteiras de The Briars

haviam sido traçadas, muito tempo antes, de modo bastante

irregular, por financeiros, corretores de imóveis e prósperos

directores de semanários videirinhos que haviam formado uma

boa combinação de investimentos e construção. Na generalidade

o subúrbio era considerado como uma subdivisão de treze

quilómetros quadrados localizada em ambos os lados do Sunset

Boulevard, entre Westwood, a leste, e Pacific Palisades, a Oeste.

As restrições da subdivisão eram de tal ordem que todos os

lotes de terreno eram acentuadamente desproporcionados, sendo

as construções, na sua maioria, vivendas de um andar em estilo

colonial ou modernas, à feição de ranchos, espaçosas e afastadas

cerca de vinte metros das largas ruas asfaltadas. As vivendas

ficavam parcialmente encobertas aos olhos alheios, escondidas

numa penumbra que se salientava devido aos montículos de terra

relvados que tinham em frente, aos círculos de renques de

eucaliptos em alguns locais, às sebes de hibiscos que as cercavam

ou a altos muros de pedra que serviam de divisórias.

The Briars era servido por uma só área comercial conhecida como The Village Green. A sua fama era em parte devida às lojas bizarras (a sapataria e a barbearia estavam instaladas num pagode, de estilo um pouco alterado, à maneira birmanesa de Moulmein) onde se vendiam exóticas mercadorias importadas e produtos domésticos caríssimos, sustento e distinção da zona. Outros

motivos que mostravam o conformismo social da área estavam expressos nas quatro escolas elementares, nas duas secções liceais e outros estabelecimentos de ensino. Os habitantes pareciam ter edificado igrejas em demasia; duas católicas, quatro evangélicas e uma sinagoga. Nos limites da zona comercial situa-va-se uma Central dos Correios, uma biblioteca pública, com reduzido número de livros e fracamente iluminada (a maior parte dos habitantes comprava livros), uma sala da Legião Americana, um Clube dos Optimistas, uma Câmara do Comércio e um edifício de tijolo e pedra, em estilo gótico modernizado, que pertencia à Associação Feminina de The Briars.

Com excepção de diversas ruas onde se erguiam modernos prédios de apartamentos, amplamente ocupados por empregados dos centros citadinos, as avenidas de The Briars estavam povoadas de vivendas, na sua maioria pertencentes aos próprios habitantes, em vez de estarem hipotecadas ao banco local. Os donos dessas casas eram pessoas que ganhavam por ano de 20 000 a 100 000 dólares. Poucos dos moradores eram demasiado avançados em anos para serem aposentados. The Briars era uma comunidade de gente jovem ou de meia-idade. Muito embora relativamente liberais em matéria de política, os habitantes tinham um aspecto exterior de pessoas sérias e conservadoras, coisa que desencorajava a invasão dos empregados nas indústrias de espectáculos. Os membros da indústria cinematográfica raramente avançavam para mais longe do que a opulência de Beverly Hills, e os elementos da indústria de televisão, a expandir-se cada vez mais, preferiam a actividade e bulício de áreas mais cosmopolitas.

Os agentes de vendas de imóveis computavam em 14 000, homens, mulheres e crianças, os habitantes de The Briars, e as páginas da pequena lista telefónica forneciam a indicação das ocupações dos donos das vivendas: um proprietário de armazém de artigos de vestuário, um engenheiro de estruturas, um psiquiatra, um construtor civil, um analista de gestões económicas, um escritor, o proprietário de uma tinturaria, o dono de um motel, o reitor de uma universidade, o director de uma agência de publicidade, um negociante de objectos de arte, o proprietário de uma loja de venda de animais de estimação, um advogado, um contabilista, um arquitecto, um banqueiro e um dentista.


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Em regra eram esses os elementos masculinos computados entre a população de The Briars, e, quando eles partiam para as suas ocupações habituais, situadas na remota cidade, a zona tomava-se exclusivamente uma comunidade de mulheres.



Tendo por moldura as janelas do autocarro, os passageiros e passageiras interessados em seguir a vida de The Briars, sobretudo as passageiras, seguiam com olhos, em que brilhava uma certa inveja, os elementos dessa comunidade feminina que iam descortinando no subúrbio. Era já um quadro habitual divisar-se uma espampanante loira que descia uma vereda particular no seu Jaguarilamante, uma matrona ainda atraente, de cabelos negros, envergando um rico vestido de orlon, que tagarelava com o jardineiro-chefe, empoleirada nos degraus da porta fronteira da sua vivenda, outras mulheres de calções brancos, justíssimos, a movimentarem-se ágil e graciosamente num court de ténis privativo, uma ruiva, com as madeixas metidas num lenço de seda, que seguia descontraidamente ao volante do seu Lincoln Continental ou que estacionava o carro junto das arcadas do centro comercial.

Aquilo que os passageiros e passageiras não viam era imaginado pelo melhor e temperado com a pitada de sal de uma beieza exclusivamente pensada. Podiam imaginar nitidamente como viviam aquelas mulheres de The Briars. De manhã a população feminina da zona suburbana enviava os seus filhos para escolas arejadas em autocarros alugados; tomava o pequeno-almoço, servido por criadas de cor, enquanto ia desfolhando as páginas da última Vogue ou da Harper's Bazaar; estendiam-se ao sol de blusas-boiero e calções, deitadas em ricos sofás de baloiço no meio de frescos pátios empedrados; vestiam-se com preciosas camisolas e saias de importação para almoçarem com as suas elegantes amigas nos faustosos restaurantes de Wilshire Boulevard, e pelas tardes divagavam ociosamente pelas magnificentes e selectas lojas de modas, semiexciusivas, descontraíam-se pelos salões de beleza ou assistiam a chás e garden parties. Pelas noites, quando não se encontravam com os maridos e amigos em Palm Springs, Las Vegas ou Sun Valley, estavam na cidade a assistir a uma película de arte, a uma peça de teatro ou num clube nocturno onde se exibiam as costumadas variedades.

Por vezes ofereciam um jantar íntimo nas suas vivendas ou, de vestido de noite em shantung, recebiam os seus convidados durante uma festa mais formal (oferecendo ao beijo dos homens o rosto quente e as mãos frias às outras mulheres) e bebiam sem moderação, rindo com as picantes anedotas que se contavam junto ao gira-discos estereofónico. Na manhã seguinte, enquanto a criada ficava, por assim dizer, encarregada de lhes despachar o marido para o emprego e os filhos para a escola, as donas de casa ficavam na cama a restabelecer-se da ressaca. Acordavam tarde lamentando vagamente não terem tido tempo para ler a lição a debater à noite na escola de arte. Era desta forma que, depois de uma rápida visão de algumas das suas habitantes, as passageiras do autocarro turístico imaginavam o modo de viver das mulheres de The Briars, favorecendo-o bastante com uma imaginação exaltada e invejosa, embora a vida fosse essa, em boa verdade, dentro de linhas gerais.

Mas, evidentemente, havia algo mais por detrás da fachada dos lenços, óculos de sol, camisolas justinhas e calças estilo Capri, muito mais por detrás dos carros de desporto estrangeiros, das sebes de verdura bem cuidadas, dos ulmeiros de copas simetricamente debastadas e das grandes e espaçosas vivendas. Para os estranhos que não faziam parte daquela vida invejada, não podia haver compreensão, nem sequer lhes passava pela ideia que ali, também, havia alegrias e tristezas, que para os 14 000 habitantes de The Briars a vida tinha igualmente os seus altos e baixos, as suas dificuldades e as suas facilidades.

O ambiente secreto de The Briars, mantido tão rígido como qualquer rito maçónico, constituía, para a maioria das suas mulheres, um reino de monotonia, de vazio, de aborrecimento e confusão. As nativas — como se dizia em ar de graça — sentiam-se com frequência desassossegadas. A doença era americana e da mulher casada, mas as mulheres de The Briars preferiam acreditar que lhes pertencia exclusivamente. Todavia raramente davam ouvidos àqueles sentimentos confusos de modo aberto e directo, porque não podiam reconciliar completamente o seu infeliz desassossego com a abundância material de que gozavam.

A aspiração das mulheres de The Briars, enquanto solteiras, tinha sido apenas^a de arranjarem marido e gozarem uma


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2 - O Relatório Chapman


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existência confortável, usarem a segurança emocional como um atavio favorito e as limitações duma livre escolha como um véu, habitando num paraíso silvestre como aquele em que presentemente se encontravam. Agora que, finalmente, estavam casadas (ou tinham estado) há dois, cinco ou quinze anos, agora que tinham o seu conforto, que tinham as vidas regularizadas e estavam a salvo numa comunidade admirada por toda a gente, o que possuíam já não bastava... queriam mais, mas não sabiam nem podiam explicar o que queriam, ainda que fosse na intimidade do seu próprio ser.

Perdiam-se por isso numa teia confusa de encontros sem significado, de reuniões de caridade, embrenhavam-se em actividades várias e nos passeios de evasão dos fins-de-semana; e, para cessarem de pensar naquilo que não tinham, embotavam os sentidos com vodca, soporíferos, remédios calmantes, experiências sexuais. Desse modo, tornando possível todas as pavorosas manhãs, faziam com que a vida permanecesse sem mudanças, fosse como que um vácuo, intemporal, salvo para a ocasional consciência de que lhes ousara aparecer uma branca no cabelo (rapidamente esquecida por meio duma pintura adequada), de que os seios começavam a ter uma certa flacidez (logo remediada pelo mais moderno e seguro soutien), de que a carne das ancas estava menos elástica (imediatamente tornada firme por meio de engenhosos aparelhómetros e de entregas aos cuidados das massagistas suecas), de que os seus filhos estavam cada vez mais crescidos (mas por fim, nessa altura, o tempo inimigo triunfava, porque era impossível arranjar um antídoto para o redemoinhar cada vez mais rápido dos anos).

Às nove e cinco da manhã, o comprido autocarro cinzento de turismo, saindo do cenário idílico de The Briars, pôs-se em marcha pelo cruzamento que levava ao Sunset Boulevard e principiou a descer a inclinada auto-estrada em direcção à colónia de Malibu.

Parada na vereda circular, asfaltada a cascalho solto diante da sua ampla vivenda em estilo georgiano, de um andar, Kathleen Ballard disse adeus uma última vez a sua filha Deirdre, uma menina de quatro anos, instalada no lugar traseiro da station wagon que a

levava para a progressiva escola infantil de Westwood.

Depois de a carrinha ter voltado a esquina, ficou ainda um momento na vereda privativa olhando o canteiro de rosas amarelas protegido pela sebe de hibiscos, observando em especial a fila daquelas rosas pouco viçosas que o pulgão atacara e lembrando--se que devia consultar o senhor Ito a respeito de qualquer espécie de tratamento por pulverização. Tinha dado fé da condição daquelas rosas alguns dias antes e esquecera-as rapidamente, por lhe terem feito recordar que a sua própria inflorescência ocultava aos olhos do observador casual a doença que lhe minava a raiz — o que não se podia revelar senão examinada de perto.

Deixando de fitar as rosas, percorreu com a vista a extensão do verde relvado que ficava em frente da casa; através da espessa folhagem das sebes, que a protegiam de tudo menos de si própria, Kathleen ainda pôde ver a retaguarda do familiar autocarro cinzento de turismo na altura em que ele começava a descer, vagarosamente, a encosta. Não tinha consigo o relógio de pulso — era o dia de folga de Albertine, e Kathleen dormira mal, de madrugada tivera que se levantar para tomar um comprimido e acordara tarde, de modo que apenas tivera tempo de envergar um roupão e vestir Deirdre à pressa para a enviar para a escola. Porém agora, por ver o autocarro, sabia que passava das nove horas e que tinha que fazer aquilo que prometera a Grace Waterton na noite anterior.

Com relutância, caminhando por entre as graciosas colunas caneladas e os altos ciprestes dispostos em largos vasos de madeira, entrou na casa elegante, vazia e cavernosa, numa ressentida resistência ao tempo que tinha diante de si. Uma vez chegada à cozinha, desligou o fogão e encheu uma chávena de café. Bebeu o conteúdo sem açúcar, sentada à branca mesa de fórmica, onde se servia o pequeno-almoço. Pousando a chávena, dirigiu-se para um armário, situado por cima do telefone, de onde tirou um maço de cigarros. Com os cigarros e o dossier, que Grace lhe deixara na noite anterior, numa das mãos, e o telefone na outra, voltou a sentar-se à mesa.

Depois do primeiro golo de café, Kathleen devotava-se ao ritual breve do cigarro matinal. Engolindo o fumo num hausto profundo para depois o soprar, sentiu uma acalmia momentânea. Mesmo


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os seus compridos dedos, manchados de nicotina no sítio em que seguravam o cigarro, tremiam menos à medida que ia fumando. Pouco depois, esmagou o cigarro, meio consumido, no cinzeiro de porcelana que continha a legenda quase apagada: «Hotel Imperial — Tóquio», cinzeiro que permanecia ainda sobre a mesa onde Boynton o colocava sempre para lhe relembrar velhas glórias. Pensava porque é que não substituía aquele cinzeiro por outro que a irritasse menos, mas compreendia que não o fazia por falta de coragem.



Agora o café estava apenas morno, e Kathleen bebeu-o todo de um só sorvo. Assim fortificada, abriu finalmente o dossier de Grace. Dentro estavam somente duas folhas de papel. Na primeira, esmeradamente dactilografada por Grace, havia os nomes de uma dezena de membros da Associação Feminina, com os respectivos números de telefone à frente. Percorrendo a lista, Kathleen viu que todos os nomes pertenciam a uma amiga, uma conhecida ou uma vizinha. Apesar disso adiou o encargo de telefonar a cada uma delas.

Quando, na noite anterior, Grace lhe entregara o dossier, Kathleen sentira-se imediatamente desamparada perante a entusiástica e agressiva franqueza da amiga, uma mulher já entrada em anos. Grace Waterton estava quase a atingir os sessenta. O seu cabelo grisalho, arranjado várias vezes por semana por um cabeleireiro especializado, tinha a aparência de uma cabeleira postiça. Grace era uma mulher pequenina, espalhafatosa e faladora. Depois de os filhos terem casado, ela tinha gravitado durante dois anos entre a esfera de influência de um pântiita de Reseda e de um psiquiatra de Beverly Hills, abandonando-os a ambos pela presidência da Associação Feminina de The Briars, que se tornara na razão de toda a sua vida. Algures, em certo banco, havia um presidente chamado Mr. Grace Waterton.

Embora Kathleen se tivesse oposto com veemência ao encargo, por fim Grace acabara por persuadi-la a aceitar o dossier e a tarefa que ele envolvia. Kathleen argumentara que se sentia exausta e que tinha muitos afazeres; além disso havia já vários meses que não se encontrava com ninguém, pelo menos desde a última reunião da Associação, e os telefonemas seriam

necessariamente longos e careciam de intimidade. «Patetice», fora a estridente resposta de Grace no seu tom de voz fremente. «Isto é puro negócio, e deves tratar o assunto como tal. Diz a cada uma delas que tens mais uma dezena de telefonemas a fazer. Além disso, penso que o assunto é bom para ti, Kathleen, não gosto nada da maneira de te sepultares aqui como se fosses uma eremita. É uma coisa pouco saudável. Se não queres sair para te encontrares com as pessoas, pelo menos fala com elas".

Kathleen não tinha nenhuma vontade de dizer a Grace, ou a quem quer que fosse, que não fora o que acontecera a Boynton que a tornara uma reclusa — ou talvez fosse, mas de um modo e por razões muito diferentes daquilo que poderiam imaginar. Durante o tempo em que estivera casada com Boynton e ele estava em casa, como sucedia com tanta frequência, ela desejava unicamente poder estar fora da vivenda, perdida no barulhento caos do companheirismo, muito embora isso fosse contra os seus naturais instintos. Mas naquele ano e quatro meses que finalmente se encontrara sozinha, desde que Boynton morrera, a fuga tornara-se desnecessária. Arrepiara caminho e mergulhara com verdadeiro prazer na solitária independência que conhecera antes do casamento, solidão que fora ao mesmo tempo tão amada e odiada.

Repentinamente dera-se conta d.e que Grace ainda estava a falar e que a voz dela se dulcificara levemente: «Acredita-me, querida Kathleen, todas nós sabemos o grande transe por que passaste. Mas ninguém te poderá ajudar se tu não te ajudares a ti mesma. Ainda estás uma jovem, és bela, tens uma filha adorável — uma vida inteira à tua frente, e tens que a viver. Se pensasse que realmente não te encontravas bem, seria a primeira a compreender a tua atitude. Claro que posso pedir a outra qualquer para fazer esses telefonemas. Mas o facto é que necessitamos de ti, isto é, queiras ou não, continuas a ser um dos membros mais influentes da nossa associação. Podes compreender porque é que eu escolhi vinte das nossas mais respeitáveis associadas para fazerem estes telefonemas. Significa que o poder de persuasão será maior. Acredita-me, Kathleen, precisamos de uma afluência total, de termos todos ao nosso lado — especialmente se as igrejas objectarem contra esta reunião. Não sei se o farão, mas no entanto fala-se no assunto».


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Até então, absorvida como estava pelo esforço de evitar uma tarefa desagradável, Kathleen não tinha compreendido o verdadeiro objectivo da reunião. Quando voltara a inquirir do que se tratava, e Grace lhe explicara o tema com vivacidade e orgulho (sem poder por completo ocultar a sua excitação pela ousadia e invulgaridade de toda a questão), Kathleen ficara ainda mais perturbada. Não estava com disposição de se reunir a uma multidão de mulheres para ouvir um homem debater os hábitos sexuais da mulher americana, por mais clinicamente que fosse. Pior ainda — por considerar nessa altura a realização a que a conferência conduziria —, não estava preparada para revelar os seus segredos íntimos a um bando de estranhos, desnudar-se, metaforicamente, diante de um grupo de lúbricos voyeurs.



Tudo aquilo era insensato, malfeito, por muito grande que fosse o entusiasmo de Grace — «isto tornará famosa a nossa comunidade; daí a razão por que Mr. Ackerman tratou do assunto» —, mas Kathleen, devido à veemência e empenho que Grace punha no assunto, compreendeu que qualquer objecção que levantasse nunca poderia ser entendida e a colocaria como sexualmente suspeita. De modo que resolvera não resistir por mais tempo e decidiu concordar.

Acendendo apressadamente outro cigarro, encarou o maldito dossier e tirou a lista de nomes para ler a outra folha de papel. Tratava-se de uma história feita em stencil e tirada ao copiador para efeitos de publicidade — estava datada para esse dia e «para imediata comunicação à imprensa» —, assinada por Grace Waterton. Grace explicara a Kathleen que aquele comunicado lhe forneceria todos os factos pertinentes quando telefonasse a notificar os membros acerca da reunião especial que se efectuaria daí a dois dias. Aspirando profundamente o fumo do cigarro, Kathleen leu o comunicado a ser publicado nos jornais.

Começava assim: «Na sexta-feira de manhã, dia 22 de Maio, às dez e trinta, o Dr. George G. Chapman, reconhecida e célebre autoridade mundial em questões sexuais, professor da Universidade de Reardon, Wisconsin, e autor do livro Um Estudo Sexual do Celibatário Americano, que foi best-seller do ano transacto, falará perante todas as senhoras que pertencem à Associação Feminina de The Briars. Durante duas semanas,

posteriormente a essa reunião, onde o Dr. Chapman debaterá os objectivos do seu actual estudo sobre as mulheres casadas, o mesmo Dr. Chapman e a sua equipa de assistentes, constituída pelo Dr. Horace Van Duesen, Mr. Cass Miller e Mr. Paul Radford, todos eles pertencentes ao corpo docente da Universidade de Reardon, entrevistarão os membros da Associação Feminina que são, ou foram, casadas.

«Durante catorze meses, o famoso Dr. Chapman e a sua equipa têm vindo a viajar através dos Estados Unidos, ocupados em entrevistar alguns milhares de mulheres casadas dos mais variados ambientes educacionais que representam todos os grupos, quer económicos quer religiosos, e dentro de camadas das mais diversas idades. Segundo o Dr. Chapman, as mulheres de The Briars serão as últimas a ser entrevistadas por si e pelos seus assistentes antes da final compilação dos dados recolhidos num livro que será publicado no próximo ano. O Dr. Chapman afirma: "O verdadeiro objectivo das sondagens é a determinação do verdadeiro padrão sexual das mulheres americanas, descobrindo o que há tanto está oculto, de modo que, através das estatísticas, possamos iluminar cientifi-camente uma zona da vida humana há muito mantida na escuridão e na ignorância. Temos esperança de que futuras gerações de mulheres americanas possam beneficiar das nossas pesquisas".

«Mrs. Grace Waterton, presidente da Associação Feminina de The Briars, exprimiu já, em telegrama enviado ao Dr. Chapman, o seu reconhecimento pela grande honra conferida à Associação e prometeu um êxito total ao inquérito do eminente cientista. As entrevistas só se efectuarão por meio de participação voluntária das associadas, mas Mrs. Waterton prevê que, depois de ser ouvida a conferência prévia do Dr. Chapman, onde será assegurado que as entrevistas serão levadas a efeito dentro de uma atmosfera de absoluto sigilo, excedendo, nesse aspecto, as que foram orientadas anteriormente por investigadores como Gilbert Hamilton, Alfred Kinsey, Ernest Burguess e Paul Wallin, poucas das 220 associadas (casadas) recusarão esta oportunidade de contribuírem decisivamente para o progresso da ciência.

«A Associação Feminina de The Briars, com edifício próprio onde existe um vasto auditório, foi fundada há quinze anos e dedica-
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-se não só a obras sociais e de benemerência como também a obras destinadas ao progresso urbanístico da zona ocidental de Los Angeles».



Acabando de ler o comunicado, Kathleen, com patente desagrado, manteve os olhos fitos naquelas palavras. Sentia-se ofendida de modo irracional com tudo aquilo e perguntava a si mesma: «Que espécie de espreitador de vidas íntimas será este Dr. Chapman?»

Claro que já ouvira falar nele. Aliás não havia cão nem gato que o ignorasse. O sensacionalismo do seu último livro (todas as mulheres que conhecia o tinham lido avidamente, embora ela não se tivesse dignado pedir emprestado um exemplar) e a progressão do seu actual estudo vinham a encher, há anos, as páginas dos jornais, e o seu retrato aparecera já na capa de uma dezena de revistas, pelo menos. Supunha que Chapman viria um dia a ser um extravagante símbolo da sua época, tal como acontecia com Emile Coué1, apontado como uma curiosidade do período dos anos vinte do século por um motivo diferente, mas também excêntrico.

Mas o que mais fazia admirar Kathleen era o motivo: «Que teria podido induzir um homem culto, em plena maturidade, a devotar a sua vida à investigação da mais íntima conduta sexual de homens, mulheres e crianças? A persistente zombaria do motivo "progresso científico" devia ser apenas uma camuflagem, disfarçando sob nobres propósitos uma mentalidade doentia e erótica, ou, o que era iguaL um espírito grosseiramente comercial decidido a realizar dinheiro à custa do proibido?» Para ser leal para com o Dr. Chapman, Kathleen lembrou-se de ter lido que ele não ficava com nada dos consideráveis proventos obtidos com os subsídios; não obstante, no presente estádio de cultura, poderia conseguir sempre transformar a sua celebridade em dinheiro ou ficaria ao abrigo de necessidades por meio de uma pensão vitalícia garantida pelo Governo. Além disso, era até possível que ele preferisse a notoriedade à riqueza.

Talvez Kathleen estivesse a ser demasiado severa para com

1 - Emile Coué (1857-1926), farmacêutico e psicoterapeuta francês que alcançou a celebridade devido à publicação de um método de cura pela auto--sugestão (N. do T.).

o Dr. Chapman. Talvez a culpa fosse dela própria, que se tornara formalista e bota-de-elástico, se é que alguém podia realmente ser bota-de-elástico aos vinte e oito anos. Todavia era sua convicção inabalável: que os órgãos reprodutivos de uma mulher lhe pertenciam exclusivamente e a sua utilização e actividade não deviam ser conhecidas de mais ninguém além dela, do seu companheiro e do seu médico.

Franzindo a testa preocupadamente perante o facto de ser obrigada a fazer uma coisa em que não acreditava, que lhe era desagradável e manifestamente indecente, Kathleen apagou a ponta do seu segundo cigarro do dia. Voltou a colocar à sua frente a lista com os nomes e números de telefones, pegou no auscultador e iniciou a sua tarefa ligando para Úrsula Palmer.

Úrsula Palmer era uma mulher de índole agressivamente objectiva, inquisitiva. Quando perguntava a alguém «como está?», queria significar com isso exactamente como é que a pessoa passara esse dia, levando até, por vezes, o interrogatório ao comportamento do dia anterior. Nunca a satisfaziam as generalidades vagas nem as exposições nebulosas. No mundo que os seus rasgados e luminosos olhos abrangiam, tudo tinha que ser tangível, perceptível, compreensível.

Nesse momento, com uma das mãos ainda pousada no teclado da sua máquina de escrever e a outra a segurar o auscultador, continuava — como há vários minutos o vinha a fazer

— a atazanar Kathleen com perguntas concretas acerca da

expedição do Dr. Chapman a The Briars.

— Na verdade, Úrsula, não faço a menor ideia do motivo por

que o Dr. Chapman escolheu a nossa comunidade para a sua

última sondagem — disse Kathleen, reprimindo a sua impaciência.

— Tudo o que sei é o que está contido no comunicado à imprensa

que tenho em frente de mim.

— Então, faça o favor de o ler — volveu Úrsula. — Quero

conhecer directamente todos os factos.

Úrsula ouviu o longínquo e vago farfalhar do papel e, de olhos fechados para melhor se concentrar, escutou a leitura do comunicado à imprensa.
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— Creio que é suficiente — disse Úrsula, abrindo os olhos logo que Kathleen terminou a arenga. — Pobre Dr. Chapman. Receio bem que venha a ficar decepcionado.



— Mas porquê?

— Porque penso que raio pode ele obter deste ramalhete de florzinhas fanadas que não saiba já? Imagino-o a perguntar a Teresa Harnish a sua ocupação favorita. Aposto dobrado contra singelo em como ela lhe dirá que é mulher de um negociante de obras de arte.

— Por mim não creio que sejamos diferentes das outras mulheres.

— É possível que não — replicou Úrsula em tom de dúvida.

— Posso anunciar a Grace que você assiste à reunião?

— Com certeza. Não a perderia por nada deste mundo.

Após ter desligado, Úrsula Palmer lamentou que tivesse irritado

Kathleen, como sentia que o tinha feito. Lamentava, porque respeitava Kathleen sinceramente e queria conservar a sua amizade. De todas as mulheres que conhecia em The Briars só Kathleen a igualava intelectualmente. Ademais, Kathleen possuía aquele aspecto indefinível e raro que transforma uma mulher numa senhora, aquele mágico toque de requinte a que popularmente se chama classe. A tudo isso se podia acrescentar o encanto da fortuna. Toda a gente sabia que ela herdara do pai uma pequena fortuna. Era uma mulher independente. Não precisava de trabalhar para garantir o pão de cada dia. Certa vez, no seu artigo mensal de colaboradora para a revista Houseday, Úrsula aproveitara Kathleen como modelo para descrever a mulher suburbana que vivia à sombra de elevados rendimentos. Invejava-lhe o ar de distinção, o cabelo negro e brilhante como as asas de um corvo, que usava curto e a tornava ainda mais elegante; os olhos verdes excitantes; o narizito petulante; a carminada boca, tudo isso e ainda o pescoço, como que saído de um quadro de Modigliani, bem plantado sobre um corpo de adolescente, flexível e gracioso.

Voltando a aproximar a cadeira giratória e rolante da máquina de escrever, Úrsula mirou de lado o espelho que ficava na parede fronteira da biblioteca e de novo tomou a séria decisão de fazer dieta. Todavia, examinando-se melhor, compreendeu que seria uma batalha perdida — jamais conseguiria ter a esbelteza de

Kathleen Ballard. Era de estrutura óssea larga e não conseguiria nunca pesar menos de sessenta quilos. Certa vez, numa festa, um homem já em adiantado estado de embriaguez dissera-lhe que ela parecia uma Charlotte Brontè com peso excessivo. Tinha a certeza de que a semelhança se devia a usar o cabelo castanho apartado ao meio. Mas, fosse como fosse, agradara-lhe a alusão literária. Para uma mulher com quarenta e um anos e mãe (a propósito lembrou--se que tinha de escrever a Devin nesse fim-de-semana, e ao mesmo tempo admirou-se de nunca conseguir recordar as feições do pai do rapaz), estava muito bem conservada. Tinha vaidade nas suas pequenas mãos e nas suas bem modeladas pernas. Fosse como fosse, Harold gostava dela assim. E, além disso, era Safo (a Safo de Musa, entenda-se, não a Safo de Lesbos) e de forma nenhuma Helena de Tróia.

Prosseguiu a bater nas teclas. Ainda tinha uma hora à sua frente antes de se dirigir para o aeroporto, onde tinha que ir esperar Bertram Foster e a esposa, Alma. Muito embora, por vários motivos, Foster não fosse o seu ideal de editor—a sua rudeza e vulgaridade obrigavam, muitas vezes, as pessoas a sentirem-se incomodadas, e os seus interesses na Houseday, de aspectos muito mais comerciais do que puramente literários, serem decepcionantes — , fora suficientemente astuto para a seleccionar a ela, Úrsula, entre os seus muitos colaboradores independentes, promovendo-a a redactora da popular revista da família para a parte ocidental do país.

Completado o resumo que tinha estado a dactilografar, Úrsula tirou a folha de papel da máquina e iniciou a revisão. Aquele sumário das suas actividades no primeiro semestre do ano fora habilmente concebido de forma a não fornecer matéria que contrariasse os preconceitos financeiros de Foster e pudesse melhorar as suas condições de trabalho. Salientava as pequenas economias feitas e as grandes realizações conseguidas. Sugeria uma segura autoridade e cobertura de todos os assuntos, à custa de pequenas despesas suplementares, e de um modo que poderia ser aliciante para os anunciantes potenciais.

— Queridinha?

Aquela era a voz de Harold.

Úrsula levantou os olhos do papel para encarar Harold Palmer,
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que entrava hesitante no escritório, transportando uma bandeja com o pequeno-almoço — ovos, torradas e café.



— Acho melhor que comas alguma coisa antes que fiques

com dores de cabeça.

Observou distraída o modo como Harold dispunha os pratos diante dela e deitava café numa chávena para si próprio. Embora, desde o princípio da sua vida de casados, ele preparasse todas as manhãs o pequeno-almoço, persistindo nesse hábito mesmo depois de terem arranjado uma criada para todo o serviço, parecia sempre que cumpria aquele ritual como se fosse um favor.

Harold era um homem alto, titubeante, desengonçado, de rosto pálido e chupado, dois anos mais novo que ela. Tinha a aparência de um manga-de-alpaca e na verdade era um contabilista.

Instalou-se na cadeira de couro em frente dela.

— Não é melhor começares a vestir-te? — perguntou fazendo

um gesto em direcção do roupão almofadado que ela envergava.

Úrsula continuou placidamente a mexer o café.

— Já me lavei e cuidei do rosto. Tenho vestida a roupa interior. Só é preciso que vista uma saia e uma blusa.

— Quanto tempo vão eles cá ficar?

— Creio que duas semanas. Depois seguem viagem para Honolulu.

— Eis a boa maneira de viver — disse Harold, beberricando o café. Se hoje conseguir convencer Berrey a entregar-me a contabilidade da sua firma, talvez que no ano que vem possamos ir ao Havai.

O pensamento de Úrsula estava muito longe dali.

— Qual Berret? — perguntou surpreendida.

— Berrey — repetiu Harold timidamente. — Trata-se do

proprietário dos Berrey Cut-Rate Drugstores. Possui uma cadeia

de dez estabelecimentos nesta área. Poderá vir a ser uma coisa

magnífica para eu singrar; falei com ele algumas vezes quando

ainda trabalhava na antiga firma.

Úrsula lembrou-se de que a antiga firma, a que ele se referia, era a Companhia de Contabilidade Keller, em Beverly Hills, um amplo cortiço que albergava muitos técnicos de contas e lhes pagava bastante mal, onde Harold começara a trabalhar depois de terminado o curso universitário. Num incaracterístico alarde de

independência, Harold deixara a Keller três meses antes para fundar o seu próprio escritório de contas. Arrastara consigo dois clientes de somenos importância, e as contas da nova firma eram pagas à custa de Úrsula.

— Belo — disse Úrsula. — Então boa sorte.

— Bem necessito dela — replicou Harold com voz velada. — Tenho que me encontrar com Berrey no centro da cidade às cinco

oras. É possível que chegue um pouco tarde para jantar.

— Harold, por favor! Bem sabes que está combinado levarmos

s Fosters ao Panero's. Tens que chegar a horas.

— Oh, chegarei. Mas quero que saibas que Mr. Berrey é um homem importante, não o posso despachar com duas cantigas. Significa muito para mim.

— Foster significa muito mais. Quero-te aqui cedo.

Harold não respondeu. Levantou-se, empilhou lentamente os pratos e chávenas na bandeja e encaminhou-se para a porta, enquanto Úrsula voltava à revisão do sumário.

Já com a porta aberta, Harold voltou-se, hesitante.

— Úrsula...

— Que queres?

Ao mesmo tempo que respondia, Úrsula riscou o termo nocivo na página que estava à sua frente e substituiu-o pela palavra prejudicial.

— Gostaria que fosses ao escritório. Ainda não tem uma única peça de mobília nossa. Tenho estado à tua espera.

— Quando puder passarei por lá — retorquiu ela com impaciência.

Logo a seguir, fitando-o com um sorriso, acrescentou num tom mais suave:

— Bem sabes como estou sempre muito ocupada. Mas um destes dias passarei por lá.

— Pensei que talvez na sexta-feira...

— Na sexta-feira tenho marcado o grande almoço em honra dos Fosters — todos os publicistas... e actores...

Subitamente deu uma palmada na testa.

— Meu Deus, e eu que prometi a Kathleen Ballard assistir à

conferência do Dr. Chapman na sexta-feira de manhã. Como é

que me vou arranjar?
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— Dr. Chapman? Será o especialista em questões sexuais?



— Sim... vai fazer uma conferência na Associação. Depois conto-te tudo a respeito do assunto. Agora tenho que pensar maduramente.

Harold acenou com a cabeça e partiu em direcção da cozinha, onde a criada negra, Hally, estava entretida a descongelar o frigorífico.

Úrsula recostou-se na cadeira e fechou os olhos. O Dr. Chapman poderia ter sido um divertimento, mas constituía agora um estorvo. Era uma mulher que tinha que trabalhar e não podia perder tempo com algaraviadas obscuras sobre a sexualidade. Telefonaria a Kathleen ou a Grace a solicitar um compromisso prévio para tratar do assunto como jornalista. Afinal de contas, Foster estava em primeiro lugar.

Todavia, não se sentia satisfeita com a solução. Levantou-se, agarrou num cigarro e acendeu-o, depois de o encaixar numa boquilha de prata. Teve a percepção de estar mais interessada no Dr. Chapman do que pensara inicialmente. Atravessou a sala e deteve-se em frente de uma estante. Localizou o grande volume de Um Estudo Sexual do Celibatário Americano, tirou-o do seu lugar e começou a folheá-lo lentamente, detendo-se aqui e ali para contemplar um gráfico estatístico ou absorver-se na leitura de um parágrafo. Quando lera o livro pela primeira vez sentira-se verdadeiramente fascinada, não pela relação que os números pudessem ter com ela, mas pelas portas de alcova que eles abriam para outras vidas.

A partir do momento em que arrumou o volume no seu lugar, já na sua imaginação se projectava o título de um artigo: «O Dia em Que o Dr. Chapman me Entrevistou».

Um artigo assinado por uma dona de casa suburbana que, claro, seria a própria Úrsula. Uma coisa ideal para a Houseday. Escrevê-lo-ia com leveza, com sentido de humor, misturado com a pitadinha de sal da excitação, e daria à parada de perguntas e respostas uma dissimulada provocação, um tom de mistério para que o êxito junto do grande público estivesse assegurado de antemão. Melhor ainda, pensou que a entrevista com o Dr. Chapman ou com um dos seus assistentes seria um bom tema de conversa com os Fosters, reforçando a sua reputação de mulher

competente e espirituosa que não perdia, de modo nenhum, o carácter de boa representante do Eterno Feminino.

Engendrando tudo aquilo, podia imaginar com prazer os olhares de soslaio que lhe lançaria Bertram Foster enquanto ela condimentava o facto com numerosas anedotas relativas ao caso. Anteviu a satisfação do seu editor, e o seu espírito já não hesitava na dúvida. Teria que estar presente à conferência do Dr. Chapman e iria oferecer-se para ser uma das entrevistadas. Uma vez que Foster soubesse que se estava a sacrificar pela revista não se importaria do atraso para o almoço de recepção. Antevia a sua entrada triunfal — seria o ponto focal de todos os olhares, dado que todos os convidados estariam a par do motivo — e via-se depois, majestosamente, a regalar o patrão e os convidados com uma história sexual privativa. Tinha a certeza de que Bertram Foster a ficaria a admirar mais do que nunca. Era um caminho que podia levar longe. Mesmo até Nova Iorque.

Para além da janela que ficava por cima do lava-loiça, ouviu a carrinha buzinar duas vezes; talvez porque uma avaria no motor atrasara um pouco o horário habitual, a buzina voltou a «secundar» o seu sinal.

— É capaz de fazer o favor de esperar um momentinho,

Kathleen? — pediu Sarah Goldsmith ao telefone. É a carrinha da

escola que está a chamar — tapou o bocal com a mão e chamou

'erome e Deborah, os seus filhos.

O rapazinho, com nove anos, estava a acabar de comer a sua papa de cereais, e a menina, de seis, mastigava um biscoito.

— Vamos embora, depressa, já é tarde. Não se esqueçam

das lancheiras.

Sam Goldsmith, com a boca ainda cheia de bolo, pôs de lado a secção financeira do matutino e apertou ao peito Deborah e Jerome, quando o foram beijar.

— Lembra-te bem das instruções que te dei quando fores

jogar durante o intervalo — disse para Jerome. — Mantém o bastão

bem levantado, como faz Musial, depois bate a bola por baixo.

Jerome acenou com a cabeça afirmativamente.

— Lembrar-me-ei, papá.


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Os pequenos agarraram nas respectivas lancheiras, deram um rápido beijo no rosto de Sarah e encaminharam-se para a porta. Jerome caminhava aos pulinhos e Deborah com lentidão. Desapareceram finalmente da vista dos pais e ouviu-se a porta a bater ruidosamente. Sarah pôs-se em bicos de pés, espreitando pela alta janela. Viu os filhos atravessarem a correr o caminho asfaltado e subirem apressadamente para a carrinha. Quando esta arrancou, retomou a sua posição normal e destapou o bocal.



— Desculpe, Kathleen. É isto todas as manhãs.

— Oh, sei muito bem por experiência própria.

— Voltando a essa palestra... diz que vão todas as associadas?

— É o que Grace afirma.

— Bem, não quero ser a ovelha ranhosa. Suponho que será uma coisa importante.

— «Para o progresso científico», citando as palavras do Dr. Cnapman. — Kathleen fez uma ligeira pausa. — Claro que se trata de uma questão voluntária, Sarah. Depois de ter ouvido a conferência pode pedir ou não para ser entrevistada.

— Guiar-rne-ei peio procedimento da maioria — replicou Sarah. — Li o último livro do Dr. Chapman e penso tratar-se de uma boa causa. O que acontece é que... bem, julgo que é uma coisa embaraçante. As entrevistas são na verdade feitas a coberto do anonimato?

— Pelo menos é o que diz o comunicado à imprensa.

— O que pretendo dizer é que... Li uma vez, numa revista de condensações, um artigo acerca dessas sondagens; relatava a maneira como é mantido secreto o material recolhido... mas lembro--me que era habitual até mesmo Kinsey sentar-se na frente das pessoas e fazer as perguntas directamente. E houve um outro antes de Kinsey... não me lembro do nome agora...

Kathleen consultou o comunicado.

— Seria Hamilton?

— O nome parece-me familiar. Sim, deve ser. Costumava apresentar as perguntas gravadas em cartões, mas de qualquer modo era necessário responder-lhes com a sua presença, frente a frente. Deve ser uma coisa terrivelmente desconfortável...

— Claro que sim — concordou Kathleen, quase automaticamente. Mas muito embora simpatizasse com o ponto de vista

de Sarah, sabia que não devia aceitá-lo.

— Segundo depreendo, o Dr. Chapman não procede dessa maneira. Não me recordo do que ouvi a respeito do seu método, excepto de que é o mais anónimo de todos eles... Na verdade você sairá da linha de montagem prontinha e selada, como se fosse uma vestal. Desejava poder dizer-lhe exactamente como se passam as coisas, Sarah. Diz a Grace que o Dr. Chapman explicará tudo muito bem durante a sua conferência.

— Muito bem. Lá estarei.

Depois de Sarah ter pousado o auscultador no seu lugar, mirou Sam de viés. Pensou se ele teria prestado atenção à conversa. Sam estava profundamente absorvido pelas últimas oscilações da bolsa e, aparentemente, distante de tudo o mais. Observando-o em silêncio, tal como vinha fazendo com frequência ultimamente, com a mão direita pousada caracteristicamente sobre o coração (local onde albergava aquele segredo), Sarah imaginou se Sam a continuava a ver como a vira durante o primeiro encontro que tinham tido. Julgou que ele poderia ficar agradavelmente surpreendido se a olhasse detidamente.

Sarah Goldsmith usava o cabelo preto e liso puxado para trás de modo a formar um carrapito, e muito embora os espessos óculos de aros negros lhe dessem um aspecto severo, o seu rosto, de sobrancelhas naturais e largo nariz, era notavelmente latino e suave quando, logo de manhãzinha, não o deformava por trás dos óculos. Tinha trinta e cinco anos, e os seus grandes seios e largas ancas ainda continuavam firmes e jovens. Era uma coisa que a orgulhava, e, diferente de Sam, não se deixara declinar fisicamente. Mesmo depois de doze anos de casada e com dois filhos, o seu peso nunca sofrera uma variação mais acentuada do que dois quilos.

Com um suspiro, chegou-se para a mesa, encheu uma chávena de chá para si e sentou-se em frente do marido. Olhou o braço e a parte visível, atrás do jornal, do rosto de maxilares salientes de Sam, não sem um sentimento de pesar. Conquanto fosse apenas quatro anos mais velho do que ela, o marido, pelo menos a seus olhos, tornara-se uma criatura desenxabida, pesadona. Olvidara há muito a necessidade que sentira da sua solidez durante os primeiros anos de casada, esquecera todo o seu encarniçado entusiasmo na luta que ele travara por conseguir
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3 - O Relatório Chapman

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uma independência económica para o lar. Após aqueles doze anos de casamento, tudo o que lembrava era o facto de Sam se ter tomado num homem obtuso, insensível, sem acção, sedentário; um homem sem interesse pelo mundo que o rodeava e pelas excitações e refinamentos que a vida comportava. Era um ser apático, apenas obcecado pelo seu armazém de vestuário masculino, pelos filhos e pela poltrona colocada em frente do aparelho de televisão. O acto sexual era para ele um dever ritual a cumprir, um dever que realizava uma vez por semana, todos os domingos, à noite, um dever que desempenhava a resfolegar como uma locomotiva e sem nunca a satisfazer. Sarah pensou que talvez pudesse suportar essa insipidez se pelo menos houvesse qualquer coisa engraçada ou um certo ambiente de romantismo a rodeá-la, mas tudo o que havia a acrescentar àquela imobilidade era a monotonia das prementes necessidades de comer, dormir e labutar no lar. Claro que Sam era um homem bom, uma pessoa gentil, ninguém podia duvidar disso. Mas era bom e gentil com aquela espécie de flacidez sentimental à maneira judaica, sempre pronto a apresentar desculpas, a lamentar-se, a querer mostrar-se prestável. Num mundo rodopiante e vivo, Sam era uma imagem da morte.



Outrora, Sarah lera a Madame Bovarye retivera na memória umas quantas linhas do romance: «No mais íntimo do seu ser, Ema esperara que alguma coisa viesse a acontecer. Considerando a enorme solidão da sua vida, como os marinheiros naufragados, volvera o desesperado olhar à procura de uma vela branca que se revelasse por entre a neblina do longínquo horizonte... Mas nada sucedera; Deus assim o tinha querido!... O futuro era um corredor escuro que depressa fechara a réstia de claridade daquela porta existente lá no fundo.» Mais tarde, mantivera sempre o pensamento de conhecer Ema Bovary melhor de que qualquer das suas amigas de The Briars.

— Já nove e meia! — exclamou Sam.

Estava de pé a ajeitar a gravata.

— Se continuo a chegar assim tarde todas as manhãs, aqueles

ladrões reduzem-me à penúria.

Encaminhou-se para a sala de estar e voltou, a enfiar as mangas do casaco de flanela.

— Quando os empregados nos apanham distraídos aprovei-

tam-se logo da ocasião. Mas quem é que tem coragem de arrancar

sentindo-se bem em casa? Adoro a companhia da minha mulher e

dos meus filhos. Gosto do meu lar.

Estava plantado em frente de Sarah, a abotoar o casaco.

— Será isto algum crime?

— Pelo contrário, é uma coisa muito naturai — respondeu

Sarah.


— Ou talvez seja eu que esteja a ficar velhote.

— Porque é que procuras fazer-te sempre mais velho de que és? — exclamou Sarah, mais acrimoniosamente do que

pretendera.

— Incomoda-te muito? Se assim é, posso dizer-te que ainda

estou nos meus frescos dezasseis anos.

Sam inclinou-se para ela, e Sarah fechou os olhos, à espera. Sentiu-lhe os lábios gretados a tocarem os seus.

— Bem, até logo. Cá estarei às seis horas — disse ele, endireitando-se.

— Até logo.

— Qual é o programa desta noite? Às sete aparece aquele cómico gorducho. Talvez fosse melhor pôr a mesa na sala de estar para vermos a televisão enquanto jantamos.

— Está bem.

Sam dirigiu-se para a porta.

— Tens alguma coisa especial para fazer hoje?

— As compras, levar o Jerry ao dentista depois da escola... enfim, um milhão de coisinhas.

— Porta-te bem.

Sarah ficou sentada, imóvel, a escutar o ranger dos sapatos dele no soalho. Depois ouviu o fechar da porta do automóvel, o ruído asmático do motor do sedan e o estalar do cascalho sob os pneus, ao descer a vereda.

Acabou de beber o chá apressadamente, tirou o avental e entrou no quarto de cama. Por momentos imobilizou-se em frente do espelho do guarda-fato, estilo Império. O cabelo estava bem penteado e aquela blusa de xadrez assentava-lhe bem. Abriu a malinha de mão encanastrada e tirou de dentro o baton e a caixa de pó-de-arroz. Procedeu a um leve arranjo, deitou uma olhadela


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atenta ao espelho e depois encaminhou-se para o telefone da banquinha-de--cabeceita, colocada entre as duas camas.



Levantou o auscultador, marcou apressadamente um número e aguardou. O sinal de desimpedido soou três vezes antes de ouvir a voz dele:

— Estou... Quem fala?

— É Sarah. Vou para aí imediatamente.

Desligou e dirigiu-se ofegante para o quarto de banho. Abrindo a gaveta do armário, que ficava ao lado do lavatório, procurou lá no fundo o estojo azul de fecho de correr. A sua mão mergulhou no estojo até sentir nos dedos o pequeno tubo que continha os óvulos gelatinosos de prevenção vaginal. Deixou cair o estojo dentro da mala de mão. Abriu um gavetão, tirou um casaco de malha de caxemira carmesim e apressou-se a sair de casa, encaminhando-se para a garagem.

Mary Ewing McManus estava sentada na cama desfeita, com as longas e finas pernas escondidas sob a camisa de noite de seda azul — casada há menos de dois anos mantivera o Ewing na sua assinatura sabendo que tal facto agradava muito a seu pai.

— Penso que é uma coisa formidável, Kathleen — dizia ela ao telefone. Com vinte e dois anos, sem complexos e apaixonada pelo marido, podia ainda mostrar-se exuberante às dez da manhã. —Assinale um grande ponto de exclamação à frente do meu nome. Não perderia essa reunião por nada deste mundo.

— Óptimo, Mary. Desejaria que fossem todas assim tão decididas.

Mary mostrou-se admirada.

— Mas quem é que não gostará de ouvir o Dr. Chapman? Isto

é, julgo que se pode sempre aprender qualquer coisa.

Mary Ewing oferecera-se a Norman McManus, após o casamento, como aquilo que realmente era, uma jovem alegre, saudável e virgem. Apesar de criada com inteligência e afecto, tinha sido de certa maneira mantida preservada de contactos directos com a vida, e por isso todas as coisas que se seguiram à noite de núpcias lhe pareciam novas e maravilhosas. Era tão curiosa acerca dos caminhos sexuais, na exploração dos seus

mistérios e aprendizagem das suas técnicas, como se se tratasse de aprender as receitas de novos cozinhados ou de novas técnicas de costura. Certa noite, no primeiro ano de casada, depois de terem lido um novo manual sobre o casamento, ela e Norman tinham passado toda a noite, inicialmente em louca hilaridade e depois em silenciosa excitação, a experimentar as suas várias zonas erogéneas.

— O Dr. Chapman não vem exactamente para ensinar nada — estava Kathleen a dizer. — Na verdade é um estudo muito sério que vem fazer.

— Oh, bem sei — disse Mary com a sua voz muito importante e adulta. De certa maneira é como que fazer parte da história... como se fosse Sigmund Freud a vir a The Briards falar a respeito da psicanálise ou Karl Marx a respeito do comunismo. Algo que mais tarde se poderá contar aos nossos filhos.

— Bem... — disse Kathleen indecisamente — penso que sim, de certo modo.

— Como vai a Deirdre?

— Excelentemente, obrigada.

— É uma criaturinha tão querida! Estou satisfeita por me ter telefonado. Bom, encontramo-nos na conferência.

Desligando o telefone, Mary colocou o aparelho em cima da mesinha-de-cabeceira. O convite emocionara-a tanto como se tivesse combinado um piquenique domingueiro, e sentiu-se repentinamente espicaçada pela urgente necessidade de contar a novidade a Norman, de partilhar com ele a agradável notícia.

Esticou a cabeça e ouviu o ruído abafado do chuveiro na casa de banho que ficava no extremo do quarto. Quando ele acabasse de se arranjar falar-lhe-ia sobre o caso.

Descruzou as pernas e recostou-se contra a almofada. Sentia todo o seu corpo fremente de vida e feliz por ter começado um novo dia e poder esperar pela magia da noite. O ruído da água a correr do chuveiro tornou-se persistente e pensou em Norman debaixo do jacto de água fria. Imaginava-o tal como o via quando tomavam banho juntos, o cabelo cortado quase rente, os grandes olhos, escuros e penetrantes, bastante afastados na quadratura do seu belo rosto, o peito cabeludo, o ventre liso e as compridas pernas musculosas. Para ela era ainda um milagre que, naquela
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festa de estudantes, três anos antes, Norman a tivesse procurado, sem se deter a olhar para nenhuma das outras moças mais atraentes que se encontravam na sala, e depois desse momento mantivera-se sempre assim, sem olhar para mais nenhuma mulher.



Mary Ewing McManus não tinha quaisquer ilusões acerca da sua beleza. Muito embora o seu cabelo castanho de certo modo descuidado lhe conferisse uma certa semelhança com a Wendy do Peter Pan — pelo menos era o que Norman lhe apontara por diversas vezes, admirativamente — e muito embora fosse uma alegre extrovertida, pouco familiar com os humores sombrios, nunca se iludira a respeito da sua aparência física. Era uma rapariga alta, ossuda, atlética, que andava em largas e decididas passadas. Os olhos castanhos ficavam muito juntos um do outro, e o nariz, embora direito, tinha um comprimento conspícuo (quando terminara os estudos havia colocado na parede, por cima da sua cama, uma romântica gravura de Cleópatra, isto depois de ter lido o comentário de Pascal de que tivesse o nariz de Cleópatra «sido mais curto e estaria alterado todo o aspecto do mundo»). A sua boca era pequena, muito embora os lábios fossem carnudos e os dentes regulares e alvos. O seu peito era liso — não havia soutien, por mais almofadado que fosse, capaz de esconder essa verdade — e escorreita de nádegas. E todavia não se sentia desatraente. Crescera como centro do seu lar, a menina bonita dos pais e da vasta família que tinha, sempre admirada e amimada. A sua jovialidade natural empanava muitas vezes o encanto de raparigas mais bonitas quando confrontadas com ela, e nunca lhe tinham faltado namorados. Mesmo quando chegara à idade de aspirar a um marido, Norman surgira e suplantara todas as suas afeições infantis com um amor intenso e adulto.

A partir do primeiro encontro, Norman McManus tornara-se o centro do seu universo. A princípio, Harry Ewing, que nunca recusava nada à filha, opusera uma certa resistência; com os seus modos corteses procurara fazer-lhe ver que era ainda muito jovem e Norman um pobretanas (Norman acabara de ingressar na Ordem dos Advogados californianos). Dado que adorava o pai, Mary escutara-o com toda a atenção filial, decidindo porém conseguir demovê-lo de qualquer objecção. Harry Ewing acabara por concordar com o casamento, não só porque não sabia recusar nada à

filha, como por ter compreendido que ela não desistiria dos seus intentos. Impusera apenas uma condição, à qual os noivos acederam prontamente: o casal passaria a viver sob o tecto dos Ewing, ocupando o andar superior da vivenda, em estilo espanhol, até ao dia em que pudessem montar casa própria. Depois, desejoso de poder proporcionar uma base económica mais estável à filha, Harry Ewing fora mais longe. Após Norman ter tentado arranjar colocação em várias firmas de advogados de relevo e prestes a constituir uma sociedade com Chris Shearer, seu antigo condiscípulo, para montarem um escritório num dos bairros mais pobres de Los Angeles, Ewing fez uma generosa oferta ao genro. Possuía uma fábrica construtora de secções de casas prefabricadas, que tinha um departamento de Contencioso com quatro advogados. Um dos jurisconsultos ia abandonar a firma, e Harry assegurou o cargo a Norman, com um salário inicial de 150 dólares semanais.

Mary sentira-se dominada pela generosidade paterna, mas Norman não se manifestara lá muito satisfeito. De certo modo, pensou que era uma renúncia a parte da sua independência em troca de uma segurança que tinha todo o sabor de um dote. Além disso, parecia-lhe muito mais tentadora a perspectiva de vir a ser um bom advogado, podendo participar activa e combativamente no auxílio à pobre gente da zona desfavorecida; a ideia de ser socialmente prestável, juntamente com Chris, não o abandonava. Contudo, depois de ter hesitado durante dois dias, convenceu-se de que a proposta de Harry Ewing seria acolhida com verdadeira alegria, pelo menos por uma centena de jovens advogados, e pensou que o seu conceito de defensor dos humildes era apenas romântico e nada prático. Afinal, Mary merecia o que fosse melhor. Contagiado pelo entusiasmo da mulher, Norman acabara por aderir à firma do sogro.

Ano e meio volvido sobre o caso, e pressentindo o desassossego do marido, que passava a vida amarrado a uma secretária do Contencioso, Mary tentou remediar a questão. Muito em segredo confabulara com o pai, explicando-lhe a inquietação de Norman e pedindo que lhe fosse dado trabalho do tribunal. Harry prometera que assim procederia na primeira oportunidade que surgisse, mas já se tinham passado uns quantos meses sem alteração da rotina.
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Nesse momento, voltando-se para olhar o relógio, Mary viu que faltavam vinte para as dez. Com certeza que o pai já finalizara o seu pequeno-almoço e devia estar à espera de Norman, visto que, normalmente, iam juntos para a fábrica no Cadillac de Harry Ewing. Pensava que era melhor lembrar a Norman as horas, quando deixou de ouvir o barulho do chuveiro.



Mary levantou-se e, descalça, dirigiu-se para a casa de banho.

Encostou o ouvido à porta.

— Norm?

— Que é?


— São vinte para as dez.

— Obrigado.

Veio-lhe à ideia o telefonema de Kathleen.

— Adivinha quem telefonou.

— Como?

— Adivinha quem telefonou — falou um pouco mais alto —, foi o que eu disse. Kathleen Ballard telefonou-me há um momento atrás a dizer que o Dr. Chapman vem a The Briars para nos entrevistar.



— Não consigo ouvir o que dizes. Entra. A porta está aberta.

Mary fez rodar o manipulo de vidro e entrou. Estava calor na

estreita casa de banho e o vapor da água aderia às paredes e embaciava o espelho. Norman estava ao lado da banheira, de pés nus em cima de um tapete cor de laranja. Limpava a cara e o cabelo, e os seus braços estavam levantados. Tinha as musculosas costas voltadas para a porta. Permanecia ainda completamente nu e corriam-lhe pelo dorso algumas gotas de água.

Fitando-lhe o corpo, enquanto fechava a porta, Mary voltou a sentir percorrer-lhe as ilhargas o mesmo dolorido prazer que experimentara na noite anterior. O marido tinha-a possuído e fora uma sensação martirizante e ao mesmo tempo maravilhosa. Teve consciência súbita do acelerar do seu ritmo cardíaco.

Tentou manter a voz com um tom casual.

— Estava eu a dizer que...

Norman voltou-se para ela a sorrir, e os olhos de Mary percorreram-lhe o corpo orgulhosa e possessivamente.

— Olá, minha querida. Pensei que ainda estivesses a dormir.

—Telefonaram-me — disse Mary ofegante. — O Dr. Chapman

vem na sexta-feira à nossa associação para fazer uma conferência. V—Chapman?

— Sim. Conheces muito bem o relatório Chapman a respeito

do sexo. Ele vem cá para nos entrevistar.

— Excelente para ti. Não escondas nenhum segredo. Estendia-lhe a toalha.

— Agora limpa-me as costas. Norman voltou-se e ela pegou na toalha.

— Devo também dizer que és o melhor amante do mundo?

— Não há mal algum em que isso conste.


— Sabes que és, não é verdade? — insistiu ela, ao mesmo tempo que passava a toalha, numa carícia, pelo dorso do marido.

— Vamos lá, como é que tu podes saber isso? — perguntou ele só com a intenção de a arreliar. — Ou será que dizes o mesmo a todos os teus homens?

Mary ficou imóvel, com a toalha ridiculamente suspensa entre ambos, enquanto ele se voltava e a fitava intensamente.

— Norman, amo-te muito.

O sorriso de Norman apagou-se e, estendendo os braços, puxou-a contra si.

— Desejo-te, queridinha — sussurrou-lhe.

Mary cerrou os dedos contra as costas do marido e a toalha tombou no chão.

— Querido... — começou a murmurar Mary.

Mas, de repente, lembrando-se das horas, tentou afastar-se.

— Não, Norman. Já é muito tarde. O papá deve estar lá em baixo à espera.

— O papá que vá para o inferno — disse Norman, beijando--Lhe o pescoço.

— Não digas isso — volveu ela em voz sumida.

Lentamente, e sob a pressão dele, Mary deixou-se escorregar,

colada ao corpo de Norman, para o tapete cor de Laranja. Aninhada contra o marido quase nem sentiu a fria humidade dos ladrilhos contra as costas, nádegas e pernas. De olhos fechados sentiu os dedos dele a desapertarem-lhe a camisa de dormir, era o seu bem--amado que marcava o ritmo de um compasso de amor, e abandonou-se completamente àquela doce sensação, esquecendo Por completo que o pai estava lá em baixo à espera.


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Em certa ocasião, durante um jantar festivo em casa de Úrsula e Harold Palmer, a dezena de convidados, para passar o tempo, organizara um jogo de associação de ideias. Úrsula, que estava a desenvolver uma série de palavras para um dos convidados, pronunciou o termo anti-séptico e logo o convidado respondeu automaticamente: Teresa Harnish. O facto provocara a hilaridade geral e gerara uma aturada análise, tendo-se chegado à conclusão quanto à propriedade de ligação. Mais tarde o caso fora referido a Teresa, que logo procurou no dicionário a exacta correspondência. Ao verificar que significava «agente desinfectante; o que impede a putrefacção», sentiu-se satisfeita e não fez nenhum esforço para compreender o verdadeiro significado da associação relativamente à sua pessoa.



Nesse momento, Teresa Harnish, encostada a uma estante do seu estúdio, que não continha livros mas sim exóticas reproduções de estatuetas pré-colombianas, escutava a voz de Kathleen Ballard a falar-lhe das coisas inerentes à conferência do Dr. Chapman.

Com trinta e seis anos, Teresa era o quadro perfeito da serenidade e da graça. Jamais algo de desagradável ou genuíno — por exemplo, suor, sujidade ou germes — tinha maculado a sua pele delicada; ou, pelo menos, assim parecia. Cada madeixa do seu cabelo loiro estava sempre no seu lugar. O rosto oval, os olhos rasgados, o nariz patrício, os lábios finos e carminados, formavam no seu conjunto o aspecto de um crisântemo que receasse o contacto de mãos menos dignas. Era de estatura mediana. No momento em que atendia o telefone envergava uma blusa de seda de gola aberta e decotada e calções cinzentos, tudo sem o mais leve vestígio de uma ruga. O seu ar e o maneirismo dos modos, mesmo na intimidade, conferiam-lhe um ar vago de intelectualismo sofisticado, aspecto que ela cultivava e exagerava. Lia muito, mas a originalidade e profundidade do seu pensamento permaneciam à superfície, não ultrapassavam a sua imaculada epiderme. Gostava de conversas que aludissem aos clássicos, que era paupérrima em compreender, e preferia que a sua actividade sexual fosse asseada e executada em boa ordem.

Ficava satisfeita se conseguia sair de qualquer experiência sem se sentir confusa. Achava Lord Byron vulgar, Gauguin repugnante, Stendhal ridículo e Rembrandt larvar. As suas preferências artísticas iam todas para Henry James e Thomas Gainsborough. Admirava extraordinariamente Louise de la Vallière e a pobre Lady Blessington (não sem um certo sentimento de culpa). Considerava como um dos fardos que o casamento impunha conformar-se com o respeito dedicado por seu marido a pintores abstractos, sem densidade, como Duchamp, Gris e Kandinsky.

— Sim, Kathleen, julgo que é perfeitamente evidente — disse por fim ao telefone, com um sotaque há longo tempo cultivado que muito teria perturbado um filólogo (e talvez o levasse a considerá-lo como sendo uma mescla da pronúncia de Beacon Hill, Boston e do West End londrino). — Tanto Geoffrey como eu pensamos que o Dr. Chapman é uma verdadeira preciosidade, um monumento erguido à verdade.

Geoffrey Harnish, que, sentado à enorme escrivaninha estilo Médicis, toda em ornatos e lavores, copiava absorto alguns trechos da obra de Giorgio Vassari Deite Vite de piú ecceentipittori, scultori, ed architettori (a edição italiana publicada em 1878 em Florença) para um seu cliente de Pasadena interessado em manuscritos renascentistas com iluminuras, levantou a cabeça com vivacidade ao ouvir pronunciar o nome do Dr. Chapman. Teresa inclinou a cabeça timidamente, lançando-lhe um sorriso secreto, e Geoffrey ergueu as sobrancelhas cabeludas, manifestando uma agradável surpresa. O nome do Dr. Chapman ultrapassara a sua atenção em Vassari, e Geoffrey Harnish recostou o dorso curto e compacto contra o espaldar da frágil cadeira, ficando a escutar. Alisou com a mão um dos lados do seu ralo cabelo cor de areia, passou depois os dedos pelo farfalhudo e incongruente bigode à oficial dos granadeiros e pensou vagamente se o Dr. Chapman poderia ser induzido a escrever uma introdução ao catálogo que ia mandar imprimir e que anunciava a próxima exposição dos quadros abstractos de Boris Intronsky, alguns dos quais se relacionavam com a vida conjugal.

Teresa tinha estado a escutar e agora, por seu turno, falava a Kathleen.

— Com certeza, eu e Geoffrey lemos conjuntamente o livro
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sobre o seu último inquérito... isto é, lemos quase em conjunto... e ficámos literalmente maravilhados pelo confronto científico da sexualidade. O livro é absolutamente olímpico, minha querida. Claro que tinha as suas falhas. Qualquer pessoa com razoáveis conhecimentos de sociologia podia verificar esse facto, e, como deve estar lembrada, houve muita gente que o notou. Julgo que o que objectámos acerca do Dr. Chapman foi o caso de ele tratar o sexo como um facto inteiramente biológico, sem relação com outras características humanas. Porém, Kathleen, devemos ser tolerantes com os problemas desse homem. Afinal, como pode alguém catalogar os prazeres do amor ou, o que é mais perturbante, descrever as sensações experimentadas após a primeira contemplação da Mona Lisa do Louvre?



Recostado na sua cadeira, Geoffrey aprovou sabiamente aquela tirada da mulher com um movimento de cabeça; porém, no outro extremo do fio, Kathleen, àquela hora, não se sentia preparada e disposta para ouvir um discurso sobre o método do Dr. Chapman. Retorcendo-se impacientemente no banco de cozinha em que estava sentada, pensou por que raio é que tinha aceitado aquela tarefa. Não sabia que responder a Teresa. Finalmente lá conseguiu articular:

— Mas não me disse que aprovava o Dr. Chapman?

— Claro que sim, minha cara, será uma experiência memorável.

— Podemos então contar consigo?

— Querida, perderia antes as conferências sobre Milton e Shakespeare na Sociedade Filosófica.

Kathleen sentiu-se mais tranquila por considerar aquelas palavras como uma aceitação e fez o sinal respectivo à frente do nome de Teresa Harnish, enquanto esta lhe fazia lembrar as obrigações e prazeres sociais, sugerindo um almoço num futuro próximo.

Depois de Teresa ter colocado o auscultador no descanso, Geoffrey levantou-se, meteu no bolso do casaco os apontamentos tomados sobre Vassari, e, em companhia da mulher, saiu de casa, dirigindo-se para o soberbo descapotável Thunderbird amarelo--canário, que recentemente substituíra o antiquado Citroen.

Teresa ocupou o seu lugar ao volante, e Geoffrey, que nunca

conduzia («Nunca lhe permitiria que o fizesse — explicara Teresa muitas vezes aos amigos —, seria uma imprudência. Geoffrey anda sempre nas nuvens. Imagine-se Goethe a conduzir um automóvel pelo trânsito de Los Angeles!»), sentou-se no outro lado.

A viagem matinal de The Briars até à galeria de arte de Geoffrey, em Westwood Village, foi feita sem pressas, deslizando suavemente pelas curvas e rampas do Sunset Boulevard para depois atravessarem a recta dos terrenos que circundavam o complexo da Universidade, e levou-lhes catorze minutos. Entretanto, foram conversando a respeito do Dr. Chapman, não como pessoas que sentissem curiosidade acerca da sua vida sexual conjugal — que era regular e eficientemente cumprida duas vezes por semana, sempre em dias certos e depois de terem bebido alguns brandes, realizada com certa serenidade, alguns murmúrios românticos e completa satisfação, pelo facto de saberem que uma tal união clássica havia sido sancionada por Abelardo e Heloísa, Gustave Fleubert e Louise Colet, pelo Arquiduque Rudolfo e Maria Vetsera, por Apollinaire e Marie Laurencin —, mas antes como mais um fenómeno cultural nas suas esplêndidas vidas. Ficara tacitamente estabelecido que seria interessante, quando Geoffrey escrevesse as suas memórias referentes à vida que levara no mundo da arte e dos artistas (com a intima colaboração de Teresa, claro), dedicar uma página, ou alguns parágrafos, ao Dr. Chapman — o estatístico do amor.

Ao passarem pelos edifícios da Universidade, lembraram-se do encantador jantar da noite anterior na maravilhosa vivenda do professor Eric Mawson, construída nas colinas; Mawson leccionava uma cadeira de arte impressionista (embora eles lhe perdoassem isso como perdoavam a Dickens os romances mercenários) e vivia com uma irmã solteirona e desagradável. O convidado de honra tinha sido um jovem artista holandês, com um nome difícil de pronunciar (coisa que não interessava, porque Geoffrey tinha imediatamente decidido que ele não tinha talento), que enfurecera toda a gente com as suas dogmáticas opiniões a respeito dos clássicos, entre eles Rubens, que o jovem desdenhava. Quando o holandês declarara gravemente que Hans van Meegeren, o criativo felsificador, era um artista que podia perfeitamente ombrear com Vermeer (a quem, de preferência, imitara), Geoffrey perdera as
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estribeiras e replicara com grande acrimónia (enaltecendo com notável precisão os inimitáveis tons das cercaduras de Vermeer), apenas parando na sua diatribe para permitir que Teresa pronunciasse um bon mot, muito bem acolhido por todos.



Geoffrey irritara-se mais porque a arte clássica e académica fora a sua primeira paixão e por isso sentira um resto de culpa por ter abandonado uma amante fiel pelos instáveis futuristas, e manifestou de novo o seu desagrado dizendo para Teresa:

— Aquele jovem idiota... ousar até relacionar o nome de van Meegeren com o de Vermeer. É como dizer que William Ireland foi um emulo de Shakespeare só porque inventou e falsificou o Vortigern apondo-lhe o nome do Bardo, e o livro foi assim aceite durante um breve período. Fico espantado do que estes amadores sem maturidade são capazes de fazer só para chamarem as atenções sobre si.

— Penso que lhe deste uma boa ensinadela, querido — apoiou Teresa.

— O palerma — murmurou Geoffrey com satisfação, ao mesmo tempo que tirava um pequeno charuto negro (de uma marca que lhe era fornecida mensalmente por um desorientado negociante de arte de Paris) e o acendia.

— Ora, cá estamos — disse Teresa.

Tinham parado na movimentada rua lateral que se ligava ao Westwood Boulevard. Teresa cortou a ignição ao motor enquanto deitava uma olhadela para as duas montras da acanhada, mas excelentemente localizada, loja. O bronze de Henry Moore ainda estava numa das vitrinas e, na outra, ainda se estadeava a enorme tela de D. H. Lawrence. Um cartaz, com uma cercadura dadaísta, convidava os clientes interessados para o habitual chá semanal (todas as quartas-feiras à noite) e para a conversazione.

— Começo a estar cansada daquele Lawrence — disse Teresa. Não fica ali bem. É uma coisa que pertence a uma livraria e não a uma galena de arte.

— Serve como curiosidade — replicou Geoffrey, não se esquecendo de que aquela coisa lhe valera, duas semanas antes, um parágrafo num jornal dominical.

— Preferia muito mais aquela nova tela de Marinetti — acrescentou Teresa.

Geoffrey adquirira recentemente, por um preço exorbitante, a um negociante italiano, uma obtusa representação de uma locomotiva pintada por Filippo Tommaso Marinetti, o pai do futurismo, em 1910. Teresa detestava o quadro. Considerava o futurismo como Philip Wilson Steer outrora considerara as obras dos pós-impressionistas, lembrando-se que ele tinha declarado, após visitar uma exposição impressionista: «Suponho que estes pintores devem ter rendimentos particulares». Teresa sugerira o Marinetti para a vitrina por desejar recordar a Geoffrey que era tão intelectual e tão progressiva como ele.

— Ah, o Marinetti—disse, abrindo a porta do carro. — Grandes

cérebros, et caetera. Vou expô-lo amanhã.

Saiu, fechou a porta do automóvel e depois debruçou-se na janela.

— Que temos hoje? Praia?

— Sim, mas só por uma hora. É uma coisa que me põe em forma para o resto do dia.

— Antes das seis e meia não saio da loja.

— Cá estarei a essa hora, querido. Não trabalhes demasiado.

Depois de o marido ter desaparecido pela porta da galeria,

Teresa conduziu o descapotável em volta do quarteirão encaminhando-se para o Wilshire Boulevard, ignorou vários estudantes que lhe fizeram sinais perto de São Vicente (desdenhando a rudeza deles, sentia-se inexplicavelmente satisfeita), e, voltando, continuou o seu caminho para Santa Mónica. Após vinte e cinco minutos atingiu a auto-estrada da costa do Pacífico, onde o trânsito era pouco àquela hora, e prosseguiu respirando a brisa marítima até chegar ao seu destino, cerca de um quilómetro antes de Malibu. O seu destino era um pequeno promontório rochoso que forma-va uma saliência precária sobre a ampla praia arenosa que descia para o oceano, e nessa ponta vinham quebrar-se as espumantes ondas da ressaca. Há alguns anos que frequentava aquele local; primeiramente aparecia por ali ocasionalmente, depois Passou a ir uma vez por semana, e mais recentemente a frequência Passara a ser de duas a três vezes por semana. Teresa passava aqueles pedaços da manhã na solidão da praia, que ficava sobranceira e formava uma enseada natural. Muito embora a praia fosse pública, a sua angra era privada, não maculada pelos
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banhistas, pelas famílias em piqueniques ou pelos acrobatas e atletas que gostavam de mostrar as suas habilidades.



A descoberta daquele refúgio — a angra de Constable, como Geoffrey a crismara quando vira o local pela primeira vez, iembrando-se da «Weymouth Bay» de John Constable exposta na National Gallery — tinha sido um pequeno milagre para Teresa. A partir do momento em que ela e Geoffrey tinham decidido que certas pessoas não eram feitas para ter filhos — canibais da vida e da arte —, as manhãs para ela passaram a ser intoleráveis. As tardes eram passáveis — havia sempre muito que fazer em casa e também as compras em The Village Green e as visitas às amigas — e as noites bastante ocupadas com a vida social, mas as manhãs tornavam mais agudo o desejo das noites e cada vez custavam mais a passar. Então, descobrira a angra de Constable, durante uma ociosa volta de automóvel, e nunca mais cessara de ir estender-se naquela areia, a tomar banhos de sol, sonhando acordada, dormitando ou lendo embalada pelo ritmo das vagas azuis que se vinham quebrar na areia quente e loira.

Depois de ter arrumado o carro, deu a volta, abriu a mala do descapotável e dela tirou um cobertor e um pequeno volume de versos de Ernest Dowson, que incluía um ensaio crítico à obra do poeta. Olhando para trás viu que o Sol, muito embora na sua potência, estava velado por um ligeiro manto de nuvens e os seus raios não eram ainda abrasadores. Resolveu não levar o guarda--sol.

Com o livro debaixo do braço e o cobertor na mão, utilizou o braço livre para se equilibrar pelo ligeiro declive rochoso que levava à praia. A curta distância do ponto onde descera havia um ligeiro recorte na rocha. Era aí que ficava o abrigo de Constable. Teresa deu uns passos pela areia mole e, chegada ao seu retiro privado, poisou o livro no chão, desdobrou o cobertor e sentou-se com um suspiro de alívio e bem-estar. Durante alguns minutos ficou abraçada aos joelhos, de rosto erguido, olhos fechados, para a vastidão da abóbada celeste, a deixar-se possuir pelos doces raios de sol e pela suave brisa marítima. Finalmente abriu os olhos, como que despertando de um sonho delicioso, e deitou-se no cobertor. Ficou de lado, apoiada sobre um cotovelo, a atenção posta no livro de poemas.

Seguiu a primeira e a segunda estâncias pacientemente, na doce antevisão daquilo que viria a seguir, e ao chegar à terceira estrofe sorriu de contentamento, saboreando melhor a leitura, com os lábios a pronunciarem os versos silenciosamente.

Cynara! Quanto te tenho procurado olvidar

seguindo infatigável o rumo do vento, Indo com a multidão a desfolhar rosas tumultuosamente, Seguindo a dançar para arrancar da ideia

os teus pálidos, os teus perdidos lírios. Porém, sentia-me saudoso e doente

de uma velha paixão, Durante todo o tempo, Cynara, porque a dança

foi longa, Fui-te fiel à minha maneira.

Há muito tempo que lera aquelas palavras melodiosas e voltava agora a lê-las com a mesma emoção e o mesmo sentido de frescura. Instintivamente compreendeu o valor social e o poder discursivo dos versos (graças a Deus, Dowson não era um poeta árido) e quis retê-los na memória, saboreá-los melhor. Voltando a mergulhar na leitura, ouviu vozes, não propriamente vozes, mas uma espécie de bramidos selvagens como os que deviam ter sido emitidos pelos homens primitivos antes da palavra, que a fizeram estremecer e voltar à realidade.

— Vamos, lesma... corre... passa o ovo! Estou sobre a linha das vinte jardas... passa e corre...

Levantou a cabeça e procurou a origem dos desagradáveis sons que interrompiam a sua concentração. Na faixa de areia húmida perto da água, talvez a uma centena de metros do sítio

1 - Tentativa libérrima de tradução. Eis o original:

I have forgot much, Cynara gone with the wind, Flung roses, roses riotously with the throng, Dancing, to put thy patê, lost lillies out of mind; But I was desolate and sick of an old passion, Yea, ali the time, because the dance was long I have been faithful to thee; Cynara! in my fashion.


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O Relatório Chapman

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onde se encontrava, viam-se quatro homens. Embora a distância e a perspectiva não auxiliassem muito a uma perfeita visão, pôde reconhecer que eram jovens e altos e musculosos. Dois deles, ombro com ombro, empurravam-se como dois elefantes em fúria naquilo que parecia ser um jogo pleno de primitivismo. Os outros dois corriam pela areia atirando uma bola oval de um para o outro. O seu olhar fixou-se melhor num deles, o mais alto e vigoroso dos quatro, que corria em sprints curtos e explosivos para apanhar a bola que lhe era arremessada.



Teresa manteve-se a observar aqueles invasores bárbaros com a testa franzida em manifesto sinal de contrariedade. Os quatro colossos, como autómatos, prosseguiam nos seus movimentos rítmicos, como se tivessem descoberto a mecânica do moto contínuo, sublinhando tudo com berros incompreensíveis e por vezes profanos. No impulso do seu jogo, os dois que corriam aproximaram-se do seu abrigo; o mais alto e mais forte estava agora a cerca de vinte metros. Deu um salto no ar para agarrar a bola ovóide e caiu de joelhos na areia. Levantou-se com certo esforço, com todo o corpo a arfar, e, nessa altura, Teresa pôde observá-lo perfeitamente. Usava o cabelo preto cortado curto e tinha uma cara larga, encarniçada pelo esforço, talhada de uma maneira que não se coadunava com os nativos da Califórnia. Vestia uma camisola de um cinzento muito desbotado, com a palavra «Rams saliente no seu peito de mamute. A camisola mal lhe chegava ao umbigo e, para baixo, exibia uns calções reduzidos que quase lhe expunham as partes pudendas, tão curtos que mais pareciam o saco seminal dos selvagens e podiam funcionar perfeitamente como a velha folha de parra. As coxas avultavam como dois troncos de árvore, com as massas musculares salientes, apoiadas nas colunas de umas pernas surpreendentemente finas.

Parando para retomar fôlego, o jovem levantou os olhos e viu Teresa a fixá-lo atentamente. Esboçou um sorriso. Enfadada, ela mergulhou no seu livro. Depois de guardar um intervalo suficiente, voltou a olhar dissimuladamente. O jovem bárbaro encaminhava-se agora na direcção dos companheiros, fazendo saltar a bola.

Resolvida a ignorar aquela intrusão momentânea dos seus domínios, Teresa, com um movimento depreciativo dos lábios, voltou a inclinar-se para os versos de Dowson. Releu cinco vezes

a terceira estrofe, mas as palavras não faziam sentido, esf umavam--se. Podia detectar o ritmo dos movimentos sensuais e sadios e ouvir os gritos ocasionais e por mais que tentasse concentrar-se em Dowson o seu pensamento fugia para o Dr. Chapman.

Afinal quais seriam as perguntas que ele faria às mulheres? Que respostas esperaria ouvir? Quais os padrões de uma vida sexual satisfatória? Reflectiu que o cientista não devia saber o caso com exactidão. O Dr. Chapman devia apenas ter conhecimento do padrão quantitativo, mas não do qualificativo, do melhor e mais adequado. Quem poderia determinar o que era melhor, mais harmónico ou aprazível? Teresa, repentinamente, relacionava pela primeira vez o inquérito Chapman consigo, com a sua carne, com o seu próprio leito, e teve uma premonição do perigo, sentindo um frémito de apreensão.

De novo os seus olhos passearam pela praia. Os quatro homens continuavam com o seu jogo, correndo, lançando a bola de uns para os outros, placando-se. Poucos minutos lhe levou a observar que o mais alto e robusto, aquele que pouco antes lhe sorrira, era o mais hábil, muito mais destro do que os seus companheiros.

Num assomo repentino, ergueu-se. Não estivera no abrigo Constable mais de meia hora; habitualmente fazia permanências de uma hora ou mais, mas naquele momento tudo o que desejava era encontrar-se em casa, cercada pela segurança e salvaguarda da sua estatuária, dos seus quadros abstractos e dos seus livros antigos e raros, tanto quanto possível longe da transpiração, da agilidade e da força muscular. Queria sentir-se no conforto e santidade da arte civilizada, não da tosca habilidade do primitivismo.

Segurando o livro de versos de Dowson, agarrou o cobertor e dobrou-o sem se importar em sacudi-lo da areia, tomando a direcção do carreiro talhado no caminho rochoso, sem levantar os olhos da ondulante areia que os seus pés iam pisando.

Parou por momentos no sopé da garganta que levava ao cimo da rocha e voltou a contemplar os quatro bárbaros. O mais alto e mais forte estava imóvel, de mãos nos quadris, pernas bem afastadas, a observá-la ousadamente (talvez se considerasse como que a incarnação de Hércules ou Apolo) e, de repente, quase com insolência, levantou o braço num gesto de adeus. Teresa estremeceu, voltou-se e galgou o caminho apressadamente.
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— Claro que estou a compreender, Kathleen — disse Naomi



Shields, enquanto se afundava na água tépida que enchia a

banheira, vendo-se aflita para conseguir manter o auscultador de

modo a que se não molhasse —, mas repito que não estou nada

interessada. Não dou um chavo furado por qualquer Dr. Chapman,

e não estou disposta a fazer uma sessão de strip tease para agradar

a qualquer cientista barato.

Muito embora Naomi, ainda que com desnecessária rudeza, se fizesse eco dos seus sentimentos a respeito do caso, Kathleen, naquele momento, sentiu que devia uma certa lealdade ao cargo que tinha aceitado.

— Você fala como se o Dr. Chapman fosse um charlatão.

— Oh, claro que sei muito bem quem ele é. Li tudo o que publicaram a respeito dele... é uma espécie de Jesus Cristo, etc... e isso dá agora a possibilidade a todas as mulheres casadas de poderem cair de costas no feno, sem se sentirem culpadas, tantas vezes quantas desejarem, porque afinal é uma coisa que toda a gente faz.

— Evidentemente que não se trata bem disso, Naomi.

Kathleen não conhecia Naomi tão bem quanto conhecia as

outras mulheres de The Briars. Encontrara-a várias vezes, por pura casualidade, nas raras visitas que Naomi fazia à Associação. Porém, esparsamente, ouvira contar algumas histórias a respeito dela e, mesmo descontando cinquenta por cento aos rumores, Naomi ficava ainda completamente desinibida no que se referia à sua conduta com o sexo forte. Uma vez que estava a tratar com alguém cuja descontracção sobre o assunto era manifesta, Kathleen tinha que proceder com uma excessiva cautela. Apesar de tudo, antes de a riscar da lista, decidiu dar a Naomi mais uma oportunidade.

— Talvez certas de nós tenhamos... sintamos o mesmo que

você a respeito de pesquisas como esta, mas continuo a manter

que o currículo do Dr. Chapman o mantém acima de todas as

suspeitas e que as suas intenções são as melhores e mais bem-

-intencionadas. Sendo assim, bem sabemos que os resultados

poderão trazer algum bem...


— Ajudará a curar as criancinhas estropiadas, obstará a que as mulheres envelheçam ou fará com que os maridos deixem de ser enganados?

— Não, mas como a Grace diz...

— Ah, esse velho frasco.

— A verdade, Naomi, é que ela apenas está a tentar coordenar as coisas. Grace diz, e nós bem sabemos ser um facto comprovado, que a respeito do sexo existe demasiada ignorância. Será bem-vinda, normalizante e saudável qualquer coisa que possa iluminar um pouco o assunto. Quando éramos rapariguinhas, as crianças estavam completamente às escuras...

— Deve falar apenas por si! Oiça, Katie, quando eu tinha doze anos... vivia connosco um tio, um velho tratante, um devasso de primeira apanha — o meu velhote era caixeiro-viajante, andava sempre por fora — e, um dia, esse filho da mãe do meu tio fez-me cair de costas e tirou-me as calcinhas... — parou de repente, enojada pela odiosa recordação. — Diabo, isto afinal nada tem a ver consigo. Desculpe, perdi as estribeiras. Acordei com uma dor de cabeça horrível. As têmporas latejavam. Os dois comprimidos que engolira pouco antes de o telefone ter tocado ainda não tinham produzido qualquer efeito.

— Se não se sente bem...

— É sempre a mesma coisa — atalhou Naomi. — Acabarei por me pôr fina. A verdade é que estou sempre de péssimo humor às dez horas da manhã.

Kathleen, veterana secreta do sofrimento, sentiu um impulso de pena e compreensão, e começou a esboçar uma retirada.

— Naomi, afinal tudo isto é uma patetice. Não há nada que a obrigue a estar presente. O Dr. Chapman terá cobaias suficientes. Esqueça o meu telefonema.

— Agradecida, Katie — disse Naomi, empertigando-se na banheira. — Mas não estou disposta a pôr o assunto de lado. Ainda não pedi a demissão de sócia da raça humana.

Ultimamente, cada vez com mais frequência, sabia que tinha que tomar uma posição contrária, argumentativa e pirrónica a aspeito do que quer que lhe fosse proposto em primeira mão, e quando as pessoas começavam a desistir de convencê-la tomava então a atitude diametralmente oposta.


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— Pensa que quero que esse professor se vá embora de The Briars com má impressão? Se ele só tiver para analisar tipos do quilate de Grace Watreton e Teresa Harnish, pensará que mantemos aqui uma espécie de culto do celibato voluntário. Tal coisa arruinaria a reputação da comunidade. Tenho um certo orgulho cívico. Creio bem que é melhor contar com a velha Naomi; será uma maneira de equilibrar a balança.



— Tem a certeza de que...

— Querida, sou absolutamente positiva. Perdi Havelock Ellis e Kraft-Ebing por ainda não ter idade suficiente, mas por nada deste mundo vou deixar escapar o Chapman. Seja como for, pode contar comigo.

Após ter desligado, Naomi sentiu que a dor de cabeça que a afligira quase se desvanecera, restando porém, ainda, um certo resíduo indefinível de depressão. Apaticamente, esfregou o corpo com a esponja, procedendo ao seu banho. Quando acabou, abriu a válvula e, enquanto a água ia baixando de nível, a gorgolejar pelo ralo, saiu da banheira.

Agarrando numa toalha, começou a esfregar-se vigorosamente em frente do grande espelho que a reflectia de corpo inteiro. Com uma espécie de fascinação objectiva, começou a observar minuciosamente a sua figura baixa mas perfeita. Havia gozado e sofrido muito com aquele corpo, ofertara-o num misto de amor, de ódio, de intolerável narcisismo. Tendo-se divorciado de toda a lógica, muito mais facilmente que, três anos antes, se divorciara do marido, lançava as culpas ao corpo por haver contribuído tão altamente para a sua delinquência e para o rumo errado que seguira na vida. Sabia que era uma mulher muito atraente, sempre o fora, não se lembrava de alguma vez não o ter sido. Agora, com os seus trinta e um anos, o ousado corte do cabelo preto, os escuros olhos cor-de-amora, o nariz pequeno e reluzente e a boca de lábios carnudos, era uma promessa de prazeres estranhos e plenos de erotismo. O seu corpo, com pouco menos de um metro e sessenta de altura, parecia ter sido esculpido em marfim por um mestre artesão. As feições, os membros, todas as partes do seu corpo tinham as devidas proporções, as necessárias redondezas, os exactos torneamentos, abrindo-se apenas uma excepção para os abundantes seios de prodigiosos

mamilos castanhos que reduziam os homens a escravos e conferiam a Naomi um sentimento de superioridade física, mais habitual nas jovens ainda virgens.

Pondo de lado a toalha, polvilhou a pele de talco e espalhou--o com a mão numa suave carícia. Depois desarrolhou um frasco de perfume e pôs um pouco do aromático líquido atrás das orelhas e no profundo vale cavado entre as montanhas dos seios.

Dirigiu-se nua para o quarto de vestir, ligado ao quarto de cama e, tirando um penteador transparente do cabide que o suportava, vestiu-o e entrou no quarto de dormir. Observou aquilo a que costumava chamar, conforme lhe dava na gana, o seu mausoléu ou o seu purgatório. A metade superior da cama era um autêntico caos — como se por ali houvesse passado um tornado —, a colcha, cor-de-rosa-pálido, formava um enorme monte e a mesinha-de-cabeceira fornecia uma certa explicação do caso: o cinzeiro transbordava de pontas, o frasco de comprimidos verdes estava destapado, a garrafa de gim apresentava-se quase vazia e no alto e esguio copo flutuava uma enrugada casca de limão num fundo de líquido. O aposento, com as janelas fechadas — Naomi tinha um medo irracional dos ladrões —, tresandava a uma mistura de tabaco e álcool. Que quantidade consumira na noite anterior? Talvez um terço do conteúdo da garrafa, talvez mais, não conseguia recordar-se. Lembrava-se apenas que os dois comprimidos — ou teriam sido três? — não lhe haviam trazido o ansiado esquecimento, e por isso, contrariamente à decisão que tomara, começara a emborcar um copo, depois outro e nunca mais parara. Tinha dormido como uma morta, mas os cobertores enrodilhados e o travesseiro comprimido contra a cabeceira da cama mostravam-lhe que, todavia, o dormir continuara ainda a ser sonhar.

Abriu apressadamente uma das janelas para arejar o quarto e, como o banho a despertara e limpara da sujidade, fugiu daquele ar viciado e repugnante. À medida que ia atravessando o pequeno hall, a sala de visitas, a de jantar até à porta da cozinha, tentava idealizar um plano para ocupar o longo dia que se aproximava. Ao colocar a cafeteira em cima da boca do fogão e enquanto tirava do armário, com mão tremente, uma chávena e um pires, pensou que devia ir visitar os velhotes a Burbank. Não os via há já algumas semanas. Porém, passar um dia com aquele casal tão pouco en-


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cantador e agressivo — um pai senil e suplicante e uma madrasta de cuja boca jorravam os lugares-comuns em berros incómodos e estridentes — era mais do que podia aguentar mesmo com boa vontade. Poderia telefonar à encantadora pequena que morava no fim do quarteirão, Mary Ewing McManus, e irem as duas fazer compras; mas receava a volubilidade e energia da jovem, e no fundo sabia muito bem que a presença de Mary a fazia sentir-se pouco limpa. Poderia ir de carro até Beverly Hills e conversar um pouco com uma das funcionárias da biblioteca — apesar de ter ainda três livros emprestados por ler que já devia ter entregue — e ir, seguidamente, comprar uma camisola e uma saia. Por negligência e inércia, ainda tinha por depositar alguns cheques da pensão alimentar. Beverly Hills parecia-lhe porém estar situada a um milhão de quilómetros de distância, e Naomi não sentia a mínima disposição para andar por aquelas ruas pejadas de mulheres exuberantemente ruidosas, muito ocupadas e vestidas em excesso.



Passeando de um para outro lado, enquanto esperava que o café estivesse quente, experimentou a sensação inquietante de estar suspensa entre o céu e a terra, desenraizada. O vaporoso penteador abrira-se, expondo-lhe parcialmente o bem modelado corpo. Mais confusa do que nunca pelas ideias que lhe acudiam, apertou distraidamente o penteador. Desconhecia o que devia fazer, mas sabia muito bem o que íhe deveria ser interdito. Não devia beber, mas o pensar na bebida desvendou-se-lhe imediatamente como uma poderosa ajuda contra a solidão. Transigira mais uma vez até ser capaz de tomar uma decisão irrevogável. Apressadamente, dirigiu-se ao armário, abriu-o, e examinou a fila de garrafas há pouco tempo adquiridas. Havia entre elas uma garrafa de gim ainda intacta, mas rejeitou-a mentalmente, ainda enjoada pelo cheiro pestilento do quarto. Então, agarrou numa garrafa de conhaque, tirou um copo da prateleira superior e dirigiu-se para a sala de jantar. Assim que lá chegou, sentou-se no sofá, encheu o copo com o líquido aloirado e, aproximando-o do nariz, inalou profundamente aquele aroma forte e viril. Fechou os olhos e bebeu de um trago.

Chegou-lhe aos ouvidos o chiar da cafeteira. Voltou a encher o copo e a esvaziá-lo apressadamente e encaminhou-se para a cozinha. O café parecia-lhe agora uma coisa supérflua e injustificada.

Queimava-lhe a garganta o sabor acre do conhaque francês e começava a invadi-la um doce calor que lhe esbraseava o rosto. Pensou no jovem gerente do supermercado de Village Green, um homem louro, simpático, sempre muito amável. Talvez ele quisesse ser uma pessoa decente. Talvez ela devesse encorajá-lo. Poderiam ir nessa noite ao cinema. Era possível que isso fosse o início de algo agradável que, finalmente, viesse trazer um sentido à sua vida. Por que carga de água se portara tão estupidamente naquela universidade? Como é que consentira que aquele estudante, ainda um garotelho, a levasse para o relvado das traseiras? Ou fora ela quem conduzira o jovem para lá? Era difícil lembrar-se dos pormenores. De qualquer forma fora uma coisa horrível. Nessa altura, ela era mais nova uns anitos e o estudante estava próximo da formatura, já não era positivamente um menino. Ele... Ele quem?... Ele (referia--se ao marido) dissera que ficaria no laboratório até às dez horas. Ou teria sido até às nove? Oh, como era difícil recordar-se dos pormenores.

Baixou os olhos embaciados para o copo que conservava na mão. Estava vazio. Parecia-lhe que o tinha enchido. Talvez tivesse entornado a bebida. Olhou para o chão de azulejos. Nem o mínimo indicio. Lançou a mão à garrafa e voltou a encher. Desta vez estava resolvida a beber lentamente e depois iria ao drugstore. O homem comportava-se sempre com muita simpatia, parecia que gostava realmente dela. Era possível que fosse tímido em demasia para lhe propor um encontro. Era positivamente tímido. Ah, de que maneira o vira corar quando, na semana anterior, lhe pedira uma caixa de pensos higiénicos! Que coisa tão engraçada! Quando ainda uma jovem liceal, era com acanhamento que pedia os seus pensos, como se o facto constituísse um verdadeiro crime, uma obscenidade das piores. Mais tarde, já com vinte anos, costumava pedi-los com desenvoltura mas o mais rapidamente possível. Agora, entrada na casa dos trinta, fazia a encomenda em voz alta e arrastada, como se sentisse orgulho em mostrar que era uma mulher em plena maturidade física.

Pareceu-lhe ouvir retinir a campainha da porta. Como sentia uma zoada nos ouvidos, escutou melhor para se certificar. Não havia dúvida de ser a campainha. Levantou-se — quando é que se sentara? — e, com passo cuidadoso e estudado, atravessou o
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varandim, libertou a corrente da porta de serviço e espreitou.



— Bom dia, minha senhora.

O homem estava parado, com um dos membros um pouco descaído, porque transportava sobre ele uma enorme garrafa de água esterilizada que constituía a carga semanal. Como ele tinha a cara inclinada, Naomi inclinou também a sua para o examinar. Tinha uma farta cabeleira castanha, olhos pequenos, nariz comprido, lábios muito carnudos. Tudo excessivo nas suas feições. Mas sorria-lhe. Era amável. Talvez gostasse dela. E era alto e bem desenvolvido.

— Mais um lindo dia para nós — disse o homem à guisa de

cumprimento.

Naomi abriu a porta e o homem, atravessando o varandim, entrou na cozinha e poisou a garrafa no chão.

— É novo no serviço? — perguntou Naomi com voz pastosa.

— É verdade, minha senhora.

Limpou rapidamente a garrafa com um pano que trazia no bolso do fato-macaco, foi tirar a garrafa vazia e, aparentemente sem esforço, colocou a nova carga no tanque de pressão, ajustando-a. Ficou a observar com certa satisfação ao ver a água borbulhar no tanque.

— Pronto, está fornecida para mais duas semanas — disse o homem, voltando-se.

— Excelente serviço — retorquiu Naomi, gentilmente.

Viu que ele a olhava à socapa e lembrou-se que por baixo do transparente penteador não tinha soutien nem calcinhas. O tecido, porém, era de pano duplo, o que obstava a uma visão nítida. Porque é que ele a fixava daquela maneira? Talvez se interessasse por ela. Devia ser um bom rapaz.

— Bom... — começou o homem.

— Quer que lhe pague, não é?

— Quero sim, minha senhora.

— Muito bem, venha comigo.

Naomi encaminhou-se para a sala de jantar, sentindo-lhe os passos atrás.

— Quer que espere aqui, minha senhora?

— Chame-me Naomi, é o meu nome — disse ela aborrecida com tanta formalidade.


— Mas...


— Venha comigo. Tenho a bolsa lá dentro.

Naomi tentou caminhar sem vacilações, atenta aos passos dele. Atravessaram a sala de jantar, a saleta de visitas, o pequeno hall e entraram no quarto de cama.

Naomi fitou-o. O distribuidor da água estava parado junto à porta, mas da parte de dentro do quarto, e parecia não saber o que havia de fazer às mãos. Na verdade era um mocetão muito alto. Sorria. Naomi retribuiu-lhe o sorriso, tirou a bolsa da mesinha--de-cabeceira e estendeu-lha.

— Aqui está o dinheiro, tire-o.

— Mas...

— Tire-o.

O homem aproximou-se numa atitude tensa, pegou na bolsa que Naomi lhe estendia e meteu a mão no interior, encontrando somente uma nota de cinco dólares.

— Vou fazer o troco.

Naomi atirou a bolsa vazia para cima da cama e sentou-se à beirinha. Observava-o atentamente enquanto ele fazia o troco.

— Simpatizo consigo. Como é que se chama? — disse Naomi,

cruzando as pernas.

O homem levantou os olhos das notas que tinha na mão. O penteador tinha-se aberto nas pernas e as coxas de Naomi estavam à mostra.

— Johnny — disse ele muito corado, estendendo-lhe o troco. Naomi estendeu a sua mão simultaneamente e agarrou a dele.

— Venha cá — disse ela. — Não é isso o que eu quero... Puxou-o para ela ao mesmo tempo que se levantava.

O penteador abriu-se mais e Naomi viu a maçã-de-adão do distribuidor mover-se para baixo e para cima e compreendeu que ele vira os grandes mamilos castanhos. Aquele dia ainda podia vir a ser uma coisa magnífica.

— Venha cá — disse-lhe com um sorriso alvar.

O homem ofegava.

— Não me é permitido, minha senhora... O caso poderia criar Problemas...

— Não seja estúpido.

Naomi encurtou a distância que os separava, lançando-lhe


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os braços em torno do pescoço.



— Vamos, beije-me.

O homem procurou afastá-la, mas em vez de lhe colocar as mãos nos ombros pousou-as nos enormes e túrgidos seios. Retirou as mãos repentinamente como se as tivesse colocado cm cima de brasas.

— Sou casado — disse ele arquejante. — Tenho filhos pequenos...

— Beije-me, ame-me.

— Não posso...

Com frenesi, afastou os braços de Naomi dos ombros e, virando-se, saiu do quarto quase a correr, em passadas grotescas.

Naomi ficou imóvel, rígida, estupidificada, ouvindo os passos que se afastavam a calcorrear no lajedo da cozinha. Logo a seguir a porta de serviço bateu com violência.

Naomi não se mexeu. Pensou que agora o empregado iria contar o caso aos seus colegas. Porco safado. Talvez fosse castrado. Que poderia ele saber do amor? Mirou os tumefactos seios. O estado de semiembriaguez dissipara-se. Sentia vir-lhe à boca o acre gosto do conhaque e, além disso, experimentava repugnância por tudo.

Aguentara-se durante três semanas e por pouco que agora... Mas porquê? O que é que havia de errado nela? Atirou-se para cima da cama, sentando-se com as pernas dobradas debaixo do corpo, sentiu as ardentes lágrimas que lhe deslizavam pelas faces. Depois foi sacudida por violentos soluços. A náusea acentuou-se e sentiu vontade de vomitar. Levantou-se e, a cambalear, tacteando como uma cega, dirigiu-se para a casa de banho. Muito tempo depois, pálida e trémula, voltou para a cozinha. Tornou a acender uma das bocas do fogão e, enquanto aguardava que o café aquecesse, encaminhou-se para a janela, olhando para fora. O ulmeiro chinês estava em plena floração, e os passarinhos, espalhados pelos seus densos e acolhedores ramos, chilreavam cheios de alegria. Algures, ao longe, um cão ladrava; ouviam-se vozes de crianças que brincavam. O dia prometia ser cálido. Naomi interrogou-se sobre como iria preencher aquelas horas de ócio.

Mais uma vez sentada à mesa da cozinha, Kathleen Ballard examinou a lista que tinha diante de si. Depois do telefonema a Naomi Shields, concedera-se uns minutos de repouso e fumara um cigarro. Reviu, retrospectivamente, as mulheres a quem já falara: Úrsula. Sarah, Mary, Teresa, Naomi. Quase uma hora tinha--se escoado com aquelas chamadas, e agora já conhecia o comunicado de cor e salteado. Restavam ainda sete pessoas para completar a sua lista. Pensou que talvez tivesse sido preferível imprimir uma carta-circular e enviar uma cópia a cada uma das sócias, mas compreendeu de imediato que seria uma coisa muito menos eficiente. Tinha a certeza de que Sarah Goldsmith e Naomi Shields não teriam feito caso de convites impressos. E quantas mais como elas? A conversa directa tinha o aliciante do convencimento. No entanto havia naquilo uma verdadeira ironia, uma armadilhazinha do destino: fora ela, Kathleen, a mais alérgica e menos convencida dos efeitos terapêuticos, quem «passara» às outras o Dr. Chapman e a sua equipa de voyeurs. Seguramente que não havia nenhuma entre elas que assistisse à conferência ou que consentisse em ser examinada com mais desagrado.

Voltou os olhos para o telefone. Fosse como fosse, o dever era imperativo. Relendo os nomes que faltavam, estendeu a mão para o aparelho. Repentinamente, antes que tivesse tido tempo de levantar o auscultador do descanso, a campainha do telefone começou a retinir. Perturbada, retirou instintivamente a mão. Por fim, os toques insistentes e prolongados levaram-na a atender.

— Está lá?

— Katie? Querida, é o Ted...

Kathleen não tinha a certeza se se sentia contente ou descontente.

— Olá, Ted. Como estás? Quando é que regressaste?

— Há cinco minutos, se tanto. Continuo ainda em serviço. Senti desejos de ouvir a tua voz antes de entrar em. contacto com Metzgar.

— Então como é que as coisas correram?

— O sítio onde estive, no Norte de África, pareceu-me a base ^arswell do Texas.

— Nem sequer chegaste a encontrar-te com Livingstone ou

com um mau-mau?


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— Tudo o que vi foi o mapa de operações. E tu, como é que passaste? Sentiste a minha falta?



— Claro...

Em boa verdade, não sentira nada a falta dele. Pelo contrário, ficara bastante aliviada quando Ted, duas semanas antes, lhe anunciara que tinha que representar Radcone num voo experimental na África, teste apadrinhado pelo Comando Aéreo Estratégico. Depois da morte de Boyton, ocorrida dezasseis meses antes, Ted Dyson passara a ser uma visita assídua da sua casa e tornara-se um amigo. Ted conhecera Boy — como ele e a maioria dos americanos gostavam de chamar a Boyton — muitos anos antes de Kathleen o ter conhecido. Boyton e Ted tinham sido companheiros de armas, tinham flirtado com os «Mig» por cima do Yalu, durante a Guerra da Coreia. Logo a seguir, Ted ingressara como piloto de ensaios na Radcone Aircraft, em Van Nuys, companhia que pertencia ao magnate J. R. Metzgar. Mais tarde, após uma extraordinária publicidade feita à volta do seu nome, Boyton Ballard ingressara também na companhia. Ted reivindicava sempre com orgulho a quota-parte do êxito em ter trazido Boyton para a Radcone.

Depois de Kathleen se ter consorciado com o herói, Ted Dyson passou a ser considerado o amigo solteirão número um do casal — excelente para fazer companhia, para prestar serviços de fórmula social, principalmente quando havia qualquer visita feminina de Nova Iorque, e levar Kathleen a qualquer espectáculo quando Ballard estava ausente. Naturalmente, com a morte de Boyton, Ted transformou-se no elemento condutor do luto oficial da família, no «pranteador» mais qualificado. Todo o país, Metzgar e o próprio presidente na Casa Branca, haviam chorado a morte de Boyton, mas Ted excedera toda a gente no desgosto. Depois do funeral, a princípio, talvez por respeito pela dor de Kathleen, começara a aparecer a intervalos irregulares, mas mentalizando--a para o facto de não se encontrar muito afastado; bastava que ela o chamasse para que ele acorresse rapidamente. Depois, as suas visitas tinham-se tornado mais insistentes e, a partir de certa altura, a sua atitude para com Kathleen sofrera uma modificação radical. Fora o amigo dilecto do herói e tomou-se no herdeiro do seu ceptro. Promovido à posição de primeiro-piloto de ensaio, começaram a ser-lhe dispensadas parte das atenções gerais que antes pertenciam a Boyton e, muito em breve, Kathleen veio a compreender que Ted Dyson se julgava o único homem à face da terra capaz de possuir e satisfazer plenamente a viúva de Boyton Ballard. Era o sucessor do herói e como tal se começou a comportar. A sua imposta presença exercia-se com mais regularidade e a sua familiaridade tornou-se potencialmente mais agressiva. Como alguém que já se sente em terreno conquistado e sem hipótese de contestação, no último encontro com Kathleen, pouco antes de partir para o continente africano, talvez devido à euforia de uns copitos a mais, beijara-a à porta da residência e tivera a coragem suficiente para lhe acariciar os seios. Kathleen metera-o na ordem com rispidez, furtando-se às suas carícias que prometiam tornar-se mais audaciosas ainda e, como por acordo tácito, ambos tinham resolvido atribuir o incidente ao excesso de álcool. E eis que Ted regressara...

— ...julgo que as coisas vão decorrer desta forma — dizia

Ted.

Kathleen, ensimesmada nos pensamentos, não havia escutado uma só palavra do discurso dele.



— Muito bem, Ted, excelente...

— Bom, seja como for, agora não me vou afastar daqui; além disso tenho muitas coisas para te contar. Quando poderemos encontrar-nos?

— Bem, eu... não sei. Tenho estado tão ocupada...

— A partir deste momento ainda vais ficar mais ocupada.

Antes que tivesse tido tempo em pensar no que lhe

responderia, Kathleen ouviu o ruído dos pneus de um carro a chiarem na brita solta do caminho privativo. Perturbada, disse para o bocal:

— Um momento, Ted. Vem alguém em direcção da casa. Volto

já.


Encaminhou-se para a janela com rapidez e olhou para o exterior. Uma station em muito mau estado de conservação rodava Pela vereda circular. O carro era-lhe vagamente familiar e, quando parou, reconheceu o condutor sentado por trás dos sujos vidros do Para-brisas.

A memória funcionou automaticamente. Na noite anterior,


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pouco antes da visita de Grace Waterton, James Scoville tinha-lhe telefonado. Esquecera-se imediatamente que, na presença e na confusão do momento, anuíra em recebê-lo, marcando o encontro para de manhã. Scoville dissera-lhe que a empataria pouco, queria somente esclarecer uns quantos pontos duvidosos do quarto capítulo.



Kathleen voltou ao telefone.

— Ted, sinto muito, mas tenho que desligar. Vem aí James Scoville. Prometi que o ajudava esta manhã.

— Então o livro ainda não está terminado?

— É uma coisa que leva o seu tempo.

— Muito bem. E quanto ao nosso encontro?

Compreendia que não se podia recusar. Três semanas antes

não havia qualquer constrangimento; Ted, antes disso, era até frequentemente recebido com alegria. Sempre era uma companhia, alguém com quem podia falar, servia-lhe de pretexto para ir mais vezes ao cinema. Mas depois da lamentável despedida daquela ncite, as relações entre ambos quase se tinham tornado impossíveis. Só havia uma desculpa: afinal ele estava embriagado.

— Bom, então na quarta-feira. Vem jantar comigo e com Deirdre. Depois podemos ir ao teatro.

— Óptimo, Katie. Fica combinado. Até quarta-feira.

Ouviu o discreto bater de Scoville. Após ter lançado um último olhar perturbado para a lista traçada por Grace Waterton, Kathleen apressou-se a ir abrir a porta ao escritor.

— Como está, Jim? Sabe, esqueci-me de lhe telefonar esta manhã a anular a entrevista. O facto é que hoje estou imensamente ocupada.

— Não me demoro mais que um minuto — respondeu o escritor, desculpando-se.

— Se é assim...

— É. Terminei o quarto capítulo, mas resta-me ainda fazer um cotejo das datas e esclarecer algumas discrepâncias.

— Estou pronta — Kathleen fez um gesto de perfeito assentimento. — Vamos sentar-nos. Precisa de papel?

— Não, muito obrigado. Tenho tudo o que é necessário.

Sentaram-se em frente da mesinha de chá. Kathleen instalou-

-se no sofá e Scoville sentou-se à beirinha da cadeira estofada,

cor de turquesa, tirando um bloco de papel do bolso do amplo casaco de sport. Depois a sua mão mergulhou nas profundezas do bolso interior para de lá extrair uma esferográfica.

— Como é que vai a obra?

— Creio que a posso terminar dentro de dois meses.

— É rapidíssimo.

— Na verdade. Confesso que o meu entusiasmo não tem limites. Tenho-me entregado ao livro de alma e coração. Calcule que ontem foi preciso a Sónia obrigar-me a ir para a cama à meia-

-noite.


Kathleen sentia uma certa afeição por James Scoville. Era um homem muito tímido, muito reservado. O seu modo de esticar o pescoço como uma tartaruga tornava um pouco difícil o cálculo exacto da sua altura, que devia andar pelo seu 1,90 m. Tinha o cabelo loiro-branco, um cabelo baço, deslavado; a sua cara era sardenta, rosada como a de um albino, mas era um rosto suave, tranquilizante, bondoso. Olhando-se para o seu vestuário dava a ideia de que dormia com o fato.

James Scoville fora encarregado por Metzgar, o dono da Radcone Aircraft, de escrever a biografia de Boyton Ballard.

Metzgar era um homem riquíssimo, importante, mas, como todos os homens sedentários cuja carreira fora traçada por detrás de uma secretária comandando o mundo exterior através do fio de um aparelho telefónico ou de um ditafone, venerava os chamados homens de acção. Muito embora tivesse contratado Boyton para a sua companhia e, virtualmente, fosse o seu patrão, sabia muito bem que Boyton não era um empregado no sentido literal do termo, não trabalhava para si nem para ninguém. Boyton era um desses seres independentes que não guardam respeito seja ao que for e a quem for, a não ser, talvez, às vias de condução a Deus; mas, fosse como fosse, vias directas, sem intermediários. Estas circunstâncias, bem como a intrepidez que alardeava (nalguns homens provocada pelo medo íntimo, mas em Boyton originada pela insensibilidade e por um estranho senso egotista do divino e por se julgar demasiado necessário para que a morte o ousasse tocar), tinham-no tornado um verdadeiro ídolo aos olhos de Metzgar.

Quando, durante um voo experimental, o jacto de Boyton se


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O Relatório Chapman 65

despenhara em chamas, desintegrando-se positivamente no deserto, nas proximidades de Victorville, Metzgar (e não apenas ele) recusara aceitar o implícito facto de que o seu herói era um mortal comum. A fim de manter o seu ídolo bem vivo e eternamente conservado na memória do mundo, Metzgar acabara por conceber a célebre biografia. Prometera a um bem conhecido editor de Manhattan uma aquisição garantida de cinco mil exemplares (para serem distribuídos pelos seus clientes e pelo pessoal da Força Aérea) e, assim, tornara o livro uma realidade gritante. A tarefa seguinte a que Metzgar se devotou foi a procura de um escritor à altura da homérica tarefa. Não pretendia alguém que fosse um jongleur da palavra, alguém que tentasse introduzir a sua própria personalidade naquele testemunho de grandeza humana, de heroísmo puro; queria uma pessoa maleável, uma espécie de linha de montagem da literatura que se limitasse a agarrar no produto em bruto, o trabalhasse de acordo com os planos previamente traçados, em cremalheiras perfeitamente calibradas, que o embalasse dentro das melhores tradições de acondicionamento, lançando o produto acabado ao público sem qualquer margem para reparos.

Ao pensar nos escritores a quem pagava para os utilizar nos seus trabalhos, Metzgar lembrou-se de James Scoville. Recordou--se que Scoville escrevera alguns artigos interessantes sobre a Radcone, e analisando o trabalho do escritor e desprezando a sua personalidade, compreendeu que era ele o homem necessário para escrever a biografia do herói. Assim, Metzgar passara a palavra ao escritor, localizado na sua casa de praia em Venice (certo dia, Kathleen, de passagem, fora entregar algumas cartas de Boyton e entrara na pequena e frágil residência, achando-a lastimavel-mente mal mobilada e sentindo-se pouco à vontade diante da mulher de Scoville, uma senhora magríssima, com a aparência e o vestuário de uma cigana ledora de sinas) e oferecera-lhe o contrato. Scoville receberia três mil dólares do editor e a mesma quantia da Radcone.

Deslumbrado pela perspectiva de ganhar uma soma que nunca recebera até então pelos seus serviços de escritor, Scoville ouvira atentamente as instruções de Metzgar e preparara-se para escrever segundo os desejos do magnate e segundo as suas ideias

pré-fabricadas. Depois de aplainados os preliminares, restava somente a formalidade da colaboração de Kathleen. Tudo nela resistira àquela panelinha, mas acabou por compreender que Metzgar

— e os da sua igualha — acabaria, fosse como fosse, por elevar o

seu falso monumento. Durante duas semanas, à noite, com o auxílio de um gravador, as cartas fornecidas por Kathleen e os recortes

dos jornais e revistas, Scoville delineara a história. Agora estava a

escrever furiosamente e, se tudo corresse bem, como esperava,

poderia mudar-se com a mulher para uma casinha mais confortável

no vale de S. Fernando.

Kathleen acabara por gostar de Scoville. Talvez por todo um conjunto de circunstâncias que também o tornavam uma vítima do mito criado por Metzgar ou porque, apesar de tudo, o homem possuía uma certa fibra.

— E possível que da próxima vez possamos trabalhar durante

mais tempo — disse Kathleen, pesarosa. As associadas do meu

clube feminino vão ser entrevistadas pelo Dr. George Chapman, e

eu estou encarregada de contactar com elas e informá-las sobre

o assunto.

Scoville levantou os olhos do papel; no rosto revelava-se-lhe um certo sentimento de pânico.

— Chapman? Quer dizer que ele também a vai entrevistar?

— Pois com certeza. De resto todas nós seremos entrevistadas

— respondeu Kathleen ligeiramente surpreendida pelo tom da

pergunta.

— Penso que não devia prestar-se a um tal exame.

— Mas porquê? — Kathleen sentiu-se invadida pela perturbação.

— Ora... não está certo. Afinal a senhora não é uma pessoa qualquer. Bem... o facto é que foi casada com Boyton Ballard. Não é... não seria normal e decente contar a um estranho a sua vida íntima com ele.

O ele foi pronunciado com autêntica veneração.

Kathleen observou atentamente Scoville e compreendeu que também aquele homenzinho, tal como Metzgar e como a multidão anónima, sentia uma profunda necessidade de acreditar em Alguém. Tecer um mito que o prendesse a algo fora do ramerrão comum. A autenticidade dos heróis é uma coisa rara, em geral os heróis ver-


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dadeiros ousam ser pessoas longevas. Um escritor alemão (talvez Goethe) dissera um dia: «Todo o herói, com o correr do tempo, acaba finalmente por se transformar num maçador, numa coisa incomodativa.» E tais palavras retratavam a verdade. Mas um herói morto no auge da sua carreira tem a imortalidade garantida. Kathleen, de certo modo, por ter sido uma propriedade do ídolo, devia ser preservada para o culto, devia ser santificada, queimada com ele na mesma pira, enterrada com ele no mesmo túmulo. Quer quisesse quer não devia continuar a manter bem acesa a chama da pureza e da virtude intocáveis — duas qualidades que não faziam parte da estrutura dos simples mortais. Compreendia pois o pesar de Scoville. Se fosse revelar a um estranho os hábito animais do herói, os íntimos pormenores da fornicação em que havia participado, seria como que a profanação de uma memória que devia manter-se sagrada, e a verdade é que, em semelhante aspecto, Boyton fora um homem demasiado comum, movido por necessidades básicas e devotado às fraquezas da carne.



Olhando de viés, viu Scoville de cabeça curvada para a folha de apontamentos, que ainda estava vazia. Kathleen perguntou aos seus botões qual seria a reacção do escritor se pudesse saber, mesmo vagamente, o que ela pensava sobre o caso. A sua mente deteve--se bruscamente naquele cinzento fim de tarde, dezasseis meses antes, em que o homem morrera dando nascimento ao herói.

Evidentemente que tinha chorado e sentira uma certa mágoa. Mas se houvesse uma balança que pudesse pesar toda a emoção da sua mágoa e do seu luto, a dor colocada num dos pratos não acusaria mais peso de que a sentida pela morte de um longínquo e desconhecido húngaro varrido pela metralha numa rua de Budapeste durante a sublevação contra os Russos, pela morte de um peruano vitima de um acidente ferroviário nos Andes ou, ainda, pela dor sentida com a morte de uma criança cujo corpo fora encontrado no fundo de uma piscina de Bel-Air.

Sentira apenas dor perante o malogro da condição humana, pela injustiça que a morte representava, sobretudo na faceta de cortar cerce a glória depois de a ter amplamente oferecido. A dor sentida fora simplesmente essa. Nada de mais profundo que isso. Porém, quanto ao homem, ao homem essência individual, ao homem que lhe dera uma filha, as lágrimas que chorara tinham

sido de alívio, não de amor. Quem é que poderia compreender semelhante coisa?

— Talvez tenha razão naquilo que diz — volveu por fim Kathleen a Scoville. — Ora... então o que é que queria saber?
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Quando o comboio entrou naquela curva fechada, eles procuraram equilibrar-se contra o súbito balancear da carruagem; depois, quando o movimento voltou a estabilizar-se e o comboio de novo ganhou velocidade através da recta, com as rodas de ferro a ritmarem o seu ruído pelos carris polidos, descontraíram-se da tensão provocada.

Estavam a cotejar os resultados de uma semana de entrevistas em East St. Louis. Naquele momento aproximavam-se do termo do intervalo de cinco minutos que se tinham proporcionado, fumando distraídos ou fazendo umas quantas observações esporádicas e inconsequentes.

Paul Radford ouviu um silvo proveniente da boquilha do seu cachimbo ao aspirar o fumo e compreendeu que todo o tabaco se tinha transformado em cinzas. Cuidadosamente começou a escarafunchar o fornilho, ao mesmo tempo que perguntava:

— Pensa que o nosso trabalho em Los Angeles seguirá um

curso normal?

Do outro lado, o Dr. George Chapman levantou os olhos do maço de papéis:

— Não posso ter uma certeza absoluta sobre o assunto. É provável que as coisas decorram dentro da normalidade habitual. Recebemos um telegrama daquela mulher... a Sr.â... Waterton... presidente da... da... — fazia esforço para se recordar.

— ... Associação Feminina de The Briars — completou o Dr. Horace Van Duesen.

O Dr. Chapman fez um gesto de assentimento.

— Sim, é isso mesmo. Ela promete-nos uma colaboração cem

por cento eficaz.

— Colaboração que, apesar das promessas, nunca nos é prestada na íntegra — replicou amargamente Cass Miller.

O Dr. Chapman franziu a testa.

— É possível. Mas digamos que poderemos contar com uma

colaboração eficaz em setenta por cento. Julgo que temos andado

à roda dessa média. Será mais que suficiente. Poderemos cancelar o trabalho de opção em S. Francisco. Também poderíamos dar

as entrevistas por terminadas e passar à parte da análise escrita

dos resultados. Creio que vocês ficariam contentes com isso —

concluiu com um sorriso forçado.

Ninguém deu resposta. Paul Radford ocupava-se em limpar o fornilho do seu cachimbo; Horace van Duesen olhava as lentes dos seus óculos, contra a luz; Cass Miller manteve os olhos fitos no chão, com as mandíbulas a trabalharem furiosamente a pastilha elástica.

O Dr. Chapman suspirou.

— Bem, muito bem, parece-me que é melhor voltarmos aos

apontamentos — passava a mão nervosamente pela juba de

cabelos brancos.

Por momentos os seus olhos mantiveram-se a perscrutar os três homens que, juntamente com ele, viajavam naquela carruagem-cama cujo odor, agora familiar, era uma mistura de tinta e metais. Podia muito bem ver o aborrecimento, o cansaço, a desatenção nos seus rostos, mas, com determinação, ignorou aqueles sinais e, mais uma vez, inclinou a cabeça com os olhos quase a tocarem as páginas dactilografadas que tinha na mão. Era difícil ver os números bem à luz baça e amarelenta do comboio.

— Temos agora as pesquisas de East St. Louis incorporadas ao nosso trabalho, o que significa, segundo os dados que tenho aqui, entrevistas com 3107 mulheres — levantou os olhos para Paul, como era hábito fazer. — Certo?

— Certo — respondeu Paul, consultando as páginas que tinha nas mãos. À direita de Paul, Cass e Horace olharam igualmente Para os papéis que tinham nos joelhos e, com ar fatigado, fizeram 9estos de concordância.

Muito bem. Temos que cotejar estes números cuidadosamente; assim pouparemos muito trabalho logo que chegarmos a Reardon para rematar a obra.


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Mudou ligeiramente de posição, aproximou mais o monte de páginas dos olhos e, audivelmente, num tom monótono, em voz completamente isenta de qualquer emoção ou crítica, começou a ler:



— Pergunta: «Sente algum desejo sexual ao ver exposto o

órgão genital masculino?» Resposta: Catorze por cento revelaram

sentir um intenso desejo sexual; trinta e nove por cento apenas um

leve desejo, seis por cento declararam que dependia do físico do

homem e quarenta e um por cento disseram não sentir qualquer

desejo.


Chapman levantou a cabeça; tinha um ar satisfeito.

— É bastante significativo, especialmente se nos recordarmos

das percentagens fornecidas pelos celibatários do inquérito anterior,

em relação à nudez das mulheres. Paul, escreva um apontamento

relacionado com este tópico. Quero mencionar a analogia quando

redigir o relatório final.

Paul fez um gesto afirmativo com a cabeça e escreveu qualquer coisa à margem do papel, muito embora, nesse último mês, já lhe tivesse sido solicitado por duas vezes o mesmo apontamento. Perguntou a si mesmo se o Dr. Chapman não estaria tão fatigado como ele, como Horace e Cass Miller. Na verdade o velho professor não costumava olvidar o mais pequeno pormenor nem era seu hábito repetir as coisas. Era inevitável que aqueles catorze meses de viagens quase ininterruptas de um para outro lado, de entrevistas, sondagens, gravações, conferências e análises de apontamentos começassem a fazer sentir os seus efeitos devastadores.

O Dr. Chapman continuava a olhar para os seus papéis.

— É interessante, estes números pertencentes a East St. Louis aproximam-se muito da média nacional.

— É evidente que as mulheres são iguais em toda a parte — retorquiu Cass Miller.

Horace voltou-se para ele:

— Como explica então as percentagens divergentes obtidas em Connecticut e na Pensilvânia?

— Não se trata de uma divergência regional — respondeu Cass. — Acontece apenas que aquelas mulheres tinham mais aventuras extraconjugais pelas frequentes ausências dos maridos.

Além disso dispõem de muito dinheiro e de poucos afazeres sérios em que se ocupem. Existe pois a intervenção de um factor social e

económico.

— Muito bem, rapazes — atalhou rapidamente o Dr. Chapman. — Vamos continuar com as análises.

— Deitei uma olhadela à folha informativa de The Briars — continuou Cass, ignorando a intromissão do Dr. Chapman. — Com tais níveis de rendimentos, aposto dobrado contra singelo em como vamos proceder a sondagens reveladoras de uma enorme percentagem de aventuras extramatrimoniais.

Horace ergueu as mãos num gesto de simulada rendição.

— Muito bem, muito bem. Estou convencido das suas propriedades de adivinho.

— Não gosto de discussões deste teor—disse o Dr. Chapman com firmeza, dirigindo-se a Cass. — A verdade é que somos cientistas e não meninos de escola curiosos.

Cass mordeu os lábios e não deu resposta. O Dr. Chapman observou-o tranquilamente durante uns momentos. Depois a sua voz soou menos áspera:

— Estamos todos esgotados. Sei isso muito bem. O cansaço

produz impaciência e a impaciência desvirtua a objectividade e a

isenção de critério. É porém necessário que sejamos prudentes.

Não podemos permitir-nos emitir juízos apressados e propalar

generalidades não comprovadas. Tudo o que queremos são factos,

factos e nada mais. Espero que se lembrem bem desse princípio

nestas duas semanas mais próximas.

Paul Radford pensou qual seria a reacção de Cass Miller àquelas palavras, olhando-o de esguelha. Mas Cass tinha um sorriso a aflorar-lhe aos lábios finos, um sorriso indefinível.

— As minhas desculpas, professor — disse ele por fim.

O Dr. Chapman respondeu-lhe com um resmungo e voltou a atenção para os números que tinha à sua frente.

— Onde é que íamos?

— Pergunta: «Sente algum desejo sexual ao vero órgão genital masculino?» Resposta: etc, etc... — elucidou Paul rapidamente.

— Os nossos números concordam nessa parte? — perguntou o Dr. Chapman.

— Quanto aos meus apontamentos a concordância é perfeita
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— respondeu Paul, olhando para os colegas.



Horace e Cass Miller abanaram a cabeça afirmativamente.

— Prossigamos — disse o Dr. Chapman, enquanto o seu

indicador percorria a página até encontrar o Sítio adequado.

Pergunta: «Excita-a ver esta fotografia de um homem nu num

campe de nudistas?» Resposta: dez por cento sentiram uma pro

funda excitação; vinte e sete por cento sentiram uma leve excita

ção, e sessenta e três por cento não experimentaram qualquer es

pécie de excitação.

Virou a cabeça para Paul Radford.

— Correcto?

— Correcto.

Horace endireitou-se e sacudiu os ombros, numa tentativa para descontrair os músculos e combater a rigidez da forçada posição.

— Se quer saber — disse ele, dirigindo-se ao Dr. Chapman —, essa categoria tem o condão de me perturbar mais que qualquer outra. As respostas, com muita frequência, não fornecem um esclarecimento preciso.

— Que pretende dizer com isso?

— Bem, posso citar-lhe uma dezena de exemplos. Quer que lhe dê um?

— Se for pertinente.

— Quando estávamos em Chicago, no mês passado, perguntei a uma mulher se as fotografias de arte ou as pinturas representando homens nus, que lhe mostrava, lhe transmitiam qualquer excitação. Ora essa mulher, que andava na casa dos trinta e cinco anos, respondeu que os nus artísticos nunca a tinham excitado, com excepção de uma obra de estatuária exibida no Instituto de Belas-Artes, reprodução de um atleta inteiramente nu. Confessou-me que sempre que contemplava a escultura tinha que ir para casa e ter relações sexuais com o marido.

— Creio que isso é indicativo suficiente de reacção a um estímulo — asseverou o Dr. Chapman. — Como é que classificou a resposta?

— Quis certificar-me de que não havia nenhum motivo pessoal associado que transformasse essa estátua numa coisa excepcional. Mantive-me vigilante enquanto ia fazendo outras

erquntas. Finalmente acabei por descobrir que ela, aos dezasseis nos, costumava ter o recorte de uma revista, representando um nadador olímpico apenas com uns calções resumidos, como as bolsas seminais dos selvagens, escondido num gavetão por baixo de peças de vestuário. Sempre que, às escondidas, espreitava a reprodução fotográfica, tinha que se masturbar. O caso é que nada mais, excepto esse recorte e a estátua, lhe transmitiam qualquer qrau de excitação. Julgo que é muito difícil obter uma resposta

decisiva.

— Eu tê-la-ia classificado no «grupo fortemente excitável».

— Sim, foi o que eu fiz. Mas, frequentemente, é difícil.

— É natural. O facto é que temos que nos dar conta que estamos a lidar com todos os cambiantes. As emoções humanas não parecem poder ser medidas matematicamente. Mas pode chegar-se a resultados positivos se o entrevistador aplicar a sua inteligência temperada com a experiência.

Coçou pensativamente o lóbulo da orelha direita.

— Nós não somos infalíveis. Os críticos e os leigos pretendem que sejamos infalíveis, mas não somos. Há-de sempre haver

uma margem de erro enquanto as mulheres distorcerem a verdade

devido a um exagero defensivo, a bloqueios emocionais

involuntários ou a preconceitos orgulhosos. No entanto, Horace,

eu acredito no nosso sistema de perguntas feitas em duplicado,

especialmente nas psicológicas; essas perguntas, tanto quanto a

atitude total e a receptividade da entrevistada, são salvaguarda

suficiente. Nos casos de dúvida grave, há sempre o recurso à

sondagem duplicada. Afinal de contas, na sondagem duplicada,

temos os benefícios dos quarenta anos que o Dr. Julien Gleed

devotou a analisar casais, consorciados à face da lei, em separado,

estabelecendo-nos uma base estatística para as discrepâncias ou

Para as prováveis percentagens de erro. As suas notas são uma

verdadeira mina de oiro que nós negligenciamos com demasiada

frequência. Seja como for, Horace, estou certo que sabe quando

uma entrevistada está fora de qualquer hipótese de chegarmos a

uma conclusão e por isso deve ser posta de parte.

— Evidentemente — respondeu Horace.

— Então isso basta. Indecisões ocasionais a respeito de classificar uma resposta não afectam o todo.

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Paul deu-se conta que sempre que um deles discutia o método, coisa que vinha a ser frequente nos últimos meses, Chapman tinha sempre na ponta da língua o seu discursozinho tranquilizador. E o que era mais curioso ainda é que o discurso se adaptava sempre às circunstâncias, por mais peculiares que fossem. O Dr. Chapman irradiava uma autoridade protectora e messiânica que emprestava validade ao trabalho de que se ocupavam. Paui pensou que Maomé devia ter utilizado a mesma confiante autoridade na defesa do Corão, tal como Joseph Smith ao apresentar o «Livro dos Mórmones». Apesar de todos os problemas que surgiam, a fé de Paul na missão e no método do Dr. Chapman era inabalável, e sabia que Horace também experimentava os mesmos sentimentos. Possivelmente, Cass Miller era o único apóstata potencial do grupo, mas ninguém podia ter a certeza dos sentimentos que circulavam pelo complexo sistema nervoso de Cass.



Entretanto o Dr. Chapman continuava com a sua leitura, e Paul também se concentrou nas estatísticas.

Enquanto pronunciava o enunciado das perguntas e respostas, o Dr. Chapman tinha a cabeça inclinada para as páginas dactilografadas, cotejando as percentagens:

«A observação destas três fotografias de cenas românticas tiradas de filmes recentemente exibidos e de peças de teatro fidedignas excitam ou perturbam a sua imaginação?»

Seis por cento de respostas fortemente positivas: um pouco, vinte e quatro por cento; mesmo nada, setenta por cento.

«A observação desta revista de cultura física masculina que acaba de desfolhar fá-la desejar que o seu marido seja um outro tipo de homem? Quinze por cento de respostas afirmativas e sem hesitação; trinta e dois por cento intermitentes no desejo; negativamente, cinquenta e três por cento. «Para aquelas que responderam desejar que o marido fosse um tipo diferente de homem, definam, por favor, de que modo o desejariam diferente?» Quarenta e sete por cento mais alto e mais atlético; mais inteligente e compreensivo, vinte e quatro por cento; meigo e gentil, quinze porcento; treze porcento: mais autoritário e masculino.

«O conhecimento desta cena sexual que acaba de ler e que é extraída do manuscrito original, sem cortes, de O Amante de Lady Chartterley, de D. H. Lawrence, a cena passada entre "os densos

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abetos", causa-lhe qualquer estímulo erótico?» Sim, trinta por cento' um pouco, vinte e um por cento; nada, quarenta e nove por



cento.

Embora a sua mão movimentasse o lápis pela página, o

espírito de Paul não se concentrava no trabalho, errava por outros

planos. Contemplou o matagal de cabelos que coroava a cabeça do

Dr. Chapman e pensou qual seria a vida sexual daquele homem;

pensamento, aliás, que já o tinha absorvido muitas vezes. Por

hábito e sentido de disciplina tentava sempre alhear-se do caso,

porque, de certa maneira, julgava-o um acto de lesa-majestade,

mas a irritante curiosidade persistia. Paul tinha a certeza de que

entre os milhares de questionários depositados algures na cidade

de Reardon existia um que revelava a história sexual do Dr.

Chapman. Quem o examinara, traçando o diagrama das

perguntas? Mas, na verdade, quem poderia ter criado Deus? Quem

seria competente para analisar Freud? No princípio era Deus; Freud

analisara Freud; e o Dr. Chapman auto-entrevistara-se.

O projecto Chapman tinha o seu evangelho, os seus livros de

revelação sagrada e, até, o seu génesis. Paul podia, agora, recitar

essa história a partir do caos inicial: havia precisamente seis anos

e dois meses, o Dr. George Chapman, então com 51 anos, era

professor de Biologia, secção dos primatas, na Universidade de

Reardon, Wisconsin meridional. Exceptuando a autoria de um

ensaio a respeito dos hábitos de cópula do lémure e do saguim

era um académico sem notoriedade. Os seus proventos eram

bastante confortáveis, auferindo um ordenado anual de 11 440

dólares. Residia fora do complexo universitário com uma irmã mais

nova, que o venerava, com o marido dela, com quem jogava umas

partidas de xadrez quando ele não estava cansado pelo exercício

da sua profissão de dentista ou pela prática do golfe, e com três

jovens sobrinhos, que o consideravam como um segundo pai.

Outrora, uma memória perdida no tempo, existira uma Sr.a

Chapman. George G. Chapman, quando a conhecera, era

assistente de uma universidade do Noroeste. O encontro dera-se durante um baile de caridade e pouco tempo passou entre o

conhecimento e o casamento. A Sr.a Chapman era filha de um

Prospero editor de livros técnicos de Chicago. Após o enlace, o

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casal passara uma breve lua-de-mel em Kay e em Havana (a rara e única fotografia que Paul conhecia dela, aquela que fora reproduzida insistentemente em revistas, estava enquadrada por uma bonita moldura de couro sobre a secretária do cientista em Reardon e mostrava uma rapariga alta, desempenada, metida num vestido rodado que lhe chegava aos joelhos, de acordo com a moda da época. A sua testa era alta, de rosto ossudo, nariz fino e boca rasgada, feições que denunciavam uma pessoa bem-humorada e sem vaidades supérfluas. O instantâneo apanhara-a com os olhos semicerrados, dado que o esplendoroso sol cubano lhe batia em cheio no rosto. Por cima das longas pernas, numa caligrafia nervosa — muito sumida —, havia a seguinte dedicatória: «Ao cérebro da família. Com o amor da Lucy». Da última vez que Paul observara a fotografia, o vidro exibia uma arcaica camada de poeira).



Após quatro anos de casamento — entretanto o Dr. Chapman já tinha obtido o seu primeiro contrato como professor efectivo de uma universidade no Orégão —, a Sr.a Chapman sofrera um incrível choque de paralisia que a prostrara num estado de semicoma durante seis semanas. Então, por uma fria manhã de Primavera, falecera quando as flores começavam a desabrochar. Menos de um ano após a sua morte, quando a Universidade de Reardon lhe oferecera a cadeira de Biologia dos Primatas, o Dr. Chapman mudara-se para a encantadora região dos lagos de Wisconsin, cenário onde decorrera a sua infância e o período escolar. Vários anos depois, sob o isco de assistência financeira, convencera o seu cunhado a estabelecer um consultório dentário na cidadezinha de Reardon, situada a dois quilómetros do centro universitário, e depois ajudara a irmã a comprar uma casa, onde ficara a residir também.

Até ao nascimento dos sobrinhos, o Dr. Chapman estivera perdido no mundo dos livros, e era considerado um pouco anti--social e sem interesse pelas mulheres dos outros professores. Após a publicação do seu estudo sobre o lémure e o saguim, houve um despertar de atenções para a sua pessoa, mas como continuou a mostrar-se um ser vago e apático nas reuniões mundanas, as atenções voltaram a afastar-se. Porém, bem depressa, à medida que iam crescendo, os sobrinhos, que Chapman considerava como seus próprios filhos, o obrigavam a ligar-se à realidade do ambiente que o cercava levando-o a participar na comunidade dos vivos. Era

frequente vê-lo discursar sobre os problemas da paternidade e da actividade escolar, em reuniões destinadas a tais efeitos, estabelecendo um diálogo permanente com o Dr. Spock — encarregado educacional — e propalando mesmo certas graças sobre como descobrir as melhores noivas para os rapazes entre as filhas dos outros professores de Reardon.

Algumas famílias começaram gradualmente a aceitar o Dr. Chapman no seu círculo de amigos, considerando-o uma criatura bastante gentil e tolerável. Finalmente veio o evento — que a imprensa especulativa comparou ao momento em que Franklin lançou para o ar o seu papagaio e Newton viu cair a maçã — que, do anonimato, levou Chapman a ser considerado uma celebridade nacional, projectando-o para um conhecimento público que ombreava com a fama das estrelas do basebol e com as vedetas de cinema.

O agente catalítico da transformação do Dr. Chapman foi Jonathan, o mais velho dos seus sobrinhos. Tinha Jonathan treze anos e estava prestes a entrar para o liceu quando, certa tarde, ouviu alguns rapazes das vizinhanças, pouco mais velhos que ele, discutir a procriação e o acto da prática do amor numa linguagem que lhe causou espanto. Anteriormente já escutara algumas conversas semelhantes, mas, como era uma criança tranquila e ingénua, nunca ligara qualquer atenção ao assunto — estava muitíssimo mais interessado no desporto e em truques com cartas. Mas, a partir da altura em que ouvira a discussão sobre o sexo, descobrira o que havia de fundamental e agradável nas raparigas que o cercavam e desejou conhecer com clareza a estranha natureza das relações íntimas entre o macho e a fêmea, que geravam tais expressões excitantes entre os outros rapazes. Sem inibições com a mãe, Jonathan pediu-lhe que o elucidasse. A mãe enviou-o para o progenitor como o veículo de esclarecimento mais apropriado em matérias daquele teor. Por sua vez o pai, mais Preocupado em descobrir a melhor maneira de extrair um dente do siso, e pensando, logicamente, que uma autoridade em matéria de biologia dos primatas era a pessoa mais indicada para explicar cabalmente o caso, recambiou o filho para o cunhado.

Sem enredos ou linguagem velada — dado que no seu entender o acto sexual não assumia mais importância que qual-


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quer outra actividade motriz —, Chapman imediatamente começou a explicar ao sobrinho a mecânica da cópula em termos secos, precisos, científicos. Passados quinze minutos, depois de o tio ter chegado ao fim da arenga, Jonathan possuía já enormes conhecimentos sobre o acasalamento entre os macacos e os burros, mas continuava em branco quanto à prática do amor entre os seres humanos. Balbuciante, confessou ao tio a sua conclusão na matéria. Surpreendido, o Dr. Chapman observou Jonathan mais atentamente e deu-se conta de que o sobrinho entrara na fase adolescente e sentiu que o assunto não era assim tão fácil de ser explicado como parecia à primeira vista. Se a singeleza devia ser um apanágio para afugentar o obscurantismo, era necessária uma precisão de termos que só se podia encontrar entre homens habituados a manusear as palavras e os dados com mestria. Aconselhou então Jonathan a conter a sua curiosidade e a praticar a abstinência durante alguns dias, enquanto fazia um esforço para descobrir uns quantos livros sérios que debatessem o assunto com lógica e propriedade.



Embora impaciente, Jonathan aguardou, ao passo que a impaciência também se ia apoderando do Dr. Chapman nas suas buscas. Os livros objectivos e lúcidos sobre a questão eram raríssimos. Encontrou alguns que, embora actualizados, não passavam de esboços muito pobres — afloravam apenas o caso em vez de irem ao seu âmago. Nas buscas feitas com afã e consciência descobriu os estudos académicos e os inquéritos de David, Hamilton, Dickinson e Kinsey, mas eram tão limitados, especializados ou incompreensíveis para os leigos, que se tornavam inúteis para uma especificação, a não ser que fossem interpretados a uma luz inteiramente nova, o que demandava um trabalho terrivelmente fatigante. Foram-lhe parar às mãos alguns romances que, em geral, não eram bem informados, tratavam o caso com um cediço romantismo e, com frequência, incluíam doses substanciais de pura pornografia. A procura veio a provar-se inútil; em parte alguma encontrou um estudo de divulgação simples adaptado a adolescentes que incluísse uma informação séria, vital, completa e sã sobre a vida sexual dos seres humanos.

Aquilo que começara como uma tarefa de rotina veio a transformar-se num desafio científico que se tornou obsessivo. O

lémure e o saguim foram esquecidos. O que importava era o homem. Muito mais tarde, quando a sua voz se tornou autorizada e o mundo escutava já atentamente as suas palavras, o Dr. Chapman explicava desta maneira as emoções sentidas naqueles primeiros

tempos:


«Tal como Colombo, via à minha frente um mar ignoto povoado de fantasmas. É verdade que já tinham sido descobertas algumas vias da experiência humana, mas o continente principal das relações sexuais da espécie eram ainda uma área terrível, um pélago por explorar, uma gigantesca zona obscurecida pela ignorância. A carta do grande mar continuava por traçar. Alguns eruditos brilhantes haviam, sem dúvida, explorado as generalidades do vasto campo. Homens como Darwin, Freud, Dickinson e Havelock Ellis tinham feito um heróico trabalho de autêntico pioneirismo. Houve também outros historiadores e investigadores do caso sexual, mas sentia a não existência de verdadeiros dados actuais compreensíveis e que fossem úteis para as massas, e aquilo que existia havia sido, com frequência, estragado pelos preconceitos sociais e moralistas dos autores. Após ter feito as minhas primeiras e hesitantes sondagens sobre a vida amorosa dos adolescentes, antevi que existia um trabalho de gigantes a realizar no respeitante a categorias específicas do comportamento sexual, pensei numa série de estudos a fazer como meio de informação e esclarecimento, tanto para os jovens como para os seus pais, a respeito dos problemas sexuais comuns. E foi assim, primeiro com as minhas reduzidas economias, depois com a ajuda e contribuição de amigos e, finalmente, com o patrocínio da Universidade de Reardon que iniciei o ciclo das minhas investigações. Quando consegui provar o êxito da informação científica como uma nova descoberta da América, chegou-me finalmente o apoio dos subsídios das entidades nacionais».

Prevê-se que Jonathan teve que abrir o seu próprio caminho no assunto e esperar, para seu completo esclarecimento, alguns anos mais tarde, a publicação de Padrões Sexuais em 307 Adolescentes e Um Estudo Sexual do Celibatário Americano.

Nos primeiros tempos, após ter iniciado as suas investigações, 6 antes de receber a aprovação das entidades oficiais e os favores com o público, Chapman encontrou grandes resistências em conseguir
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6-O Relatório Chapman 81


obter entrevistas voluntárias convincentes. Necessitou de cobaias de choque para a demonstração do valor das suas perguntas. A maioria dos elementos do corpo docente da Universidade, principalmente as esposas dos professores, ficaram chocados com o desplante de se tocar num assunto considerado tabu e desaprovaram solenemente as investigações. Após tentativas honestas goradas, Chapman foi forçado a subornar, por meio de ofertas de dinheiro, certos estudantes universitários e alguns dos mais ociosos habitantes da cidadezinha local. Pagava-lhes as fragmentadas recordações da adolescência dentro do mesmo princípio por que os hospitais são, na maior parte dos casos, obrigados a comprar sangue para as suas transfusões.

Os membros das igrejas da localidade, principalmente o clero, advertiram-no várias vezes, com o maior tacto possível, que, à luz teológica, as investigações que realizava nos adolescentes constituíam um pecado, uma inutilidade e, sobretudo, corrompiam a juventude. Desesperado, o Dr. Chapman entrevistou a irmã, o cunhado e muitas pessoas amigas atraídas àquela casa da infâmia (como passou a ser conhecida) durante as férias de Verão. Finalmente, veio a entrevistar-se a si próprio, incluindo na confissão íntima não só as experiências de adolescente como toda a sua vida sexual.

Os primeiros dados, obtidos com a colaboração de um investigador auxiliar, depois de coligidos em livro, granjearam-lhe alguma fama, trouxeram-lhe algum dinheiro e uma volumosa correspondência de certos admiradores, cartas nem sempre concordantes com as mais elementares regras gramaticais. Porém, o renome nacional continuou arredio. Só depois que confinou os seus estudos ulteriores a jornais especializados é que conseguiu impressionar os seus colegas e conquistar o grande público através dos órgãos de informação, tornando-se a breve trecho uma instituição e uma força poderosa.

Todavia, Paul continuava a pensar quais teriam sido as respostas do Dr. Chapman na sua entrevista pessoal.

O comboio entrou numa curva apertada e Paul foi arremessado contra Horace, deixando cair o lápis. Com um certo sentimento de culpa pela distracção, apressou-se a recolher o seu veículo de escrita.

— Apanhou os últimos números? — perguntava o Dr. Chapman.


— Julgo que é melhor repeti-los — respondeu Paul.

— Trata-se agora de uma pergunta suplementar às mulheres casadas que declaram ter participado em relações extraconjugais.

— Estou pronto.

— Pergunta: «Pretendemos saber com quantos homens, fora o seu marido, teve relações sexuais desde que se casou?» Resposta: «Cinquenta e oito por cento, apenas um outro homem; vinte e dois por cento, entre dois a dez amantes; catorze por cento, entre onze e vinte e cinco; seis por cento, de vinte e cinco a cinquenta amantes». Certo? — perguntou sem levantar os olhos dos seus apontamentos.

— Certo — respondeu Paul.

— E eu que pensava ser East St. Louis uma cidadezinha de

rústicos — murmurou Cass.

O Dr. Chapman lançou-lhe um olhar onde se lia a reprovação.

— Desculpe. Sinto-me hoje pirrónico — disse Cass, com um encolher de ombros.

— Estou a ver isso mesmo. Dentro de dez minutos, o mais tarde um quarto de hora, teremos terminado as nossas comparações.

Prosseguiu na leitura num tom persistentemente monótono. Por vezes as suas palavras perdiam-se no ruído mais vivo das rodas a deslizarem nos carris. Paul escutava o soporífero efeito do dueto formado pelo aço raspejante e pela voz, e desejava que o Dr. Chapman os tivesse deixado viajar por avião. Mas, uma vez que só eles quatro possuíam o conhecimento da complexa linguagem simbólica dos questionários, o professor considerava como muito perigosas as viagens por via aérea, e não lhes permitia também viajarem separadamente por considerar utilíssimas as leituras e cotejos de apontamentos. Era aquela, na opinião segregada de Paul, a parte mais enfadonha de todo o inquérito. Após as entrevistas em cada comunidade, para comprovar a exactidão, o Dr. Chapman e o seu grupo encarregavam-se de estudar separadamente os resultados obtidos, calculando as Percentagens das diversas categorias de perguntas e respostas; depois cotejavam em conjunto, de modo que as variações regionais Pudessem ser calculadas com a maior precisão possível em rela-Çao ao conjunto nacional.


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Era uma coisa monótona, entorpecente, mas daquele esfalfante e miraculoso trabalho iria sair um relatório que causaria sensação. O primeiro dos inquéritos do Dr. Chapman tivera o público leigo como objectivo e, à parte as críticas inseridas nas revistas Timee News Week, um simples parágrafo de considerandos num programa de Walter Winchell e um editorial na Scholastic, fora recebido como mais uma bizarria passageira sem outro valor do que aquele que lhe era emprestado pelas cartas ao director escritas por umas quantas pessoas curiosas.

Embora acabrunhado por uma recepção tão fria, o Dr. Chapman recebeu-a como uma lição, lembrando-se de que, quando alguém tem alguma coisa de importante a comunicar ao público, em geral deve fazê-lo directamente se pretende que da parte deste haja um movimento voluntário favorável.

Porém, em breve viu que não havia possibilidade de aplicação prática da lição que acabava de aprender. Parecia que os ventos da história desdenhavam soprar a favor das velas da nau do capitão Chapman, e ele mantinha-se sossegado no meio da calmaria. Faltavam-lhe recursos financeiros, ainda que o seu espírito estivesse pleno de projectos — especialmente no que se referia a um inquérito de grande envergadura aos adultos americanos celibatários. É verdade que o seu primeiro trabalho lhe garantira um pequeno subsídio do Gabinete de Ciências Sociais de Reardon, bem como o direito de utilizar um pequeno departamento (construção que era uma espécie de museu e relíquia dos estudantes que haviam combatido na II Guerra Mundial) e o de utilizar o nome da Universidade no timbre das suas cartas particulares, mas sem um auxílio mais substancial de qualquer entidade privada ou governamental não poderia seguir o curso das suas investigações, e as autoridades federais pareciam não se importar nada com as suas necessidades.

No entanto, como não há bem que sempre dure nem mal que se não acabe, de um momento para o outro surgira-lhe a ajuda providencial vinda de onde nunca ousara pensar. O director de uma importante agência de publicidade, em Madison Avenue, progenitor de dois pequenos delinquentes que frequentavam colégios particulares onde a instrução era severamente ministrada com resultados negativos, lera o inquérito do Dr. Chapman acerca

dos adolescentes, admirando tanto os dados fornecidos como a técnica das entrevistas, e pusera os necessários recursos à disposição do desconhecido professor de Reardon. Em breve se seguiram outros auxílios estimulantes, e Chapman, finalmente, colocara todo o seu tempo ao serviço do ideal informativo. Com o dinheiro obtido em três inquéritos de carácter comercial — um para uma fábrica de cigarros e manufacturação de tabacos que quisera saber o motivo selectivo do público em relação a determinadas marcas do produto, outro para um partido político que pretendera saber quais os atributos que o público poderia considerar para votar num candidato ao Congresso, e o terceiro a favor de uma firma de produtos de beleza, que queria saber as razões determinantes das reacções dos indivíduos do sexo masculino à cor e perfume de certo tipo de maquilhagem e de artigos de toilette feminina —, o Dr. Chapman conseguira o apoio inicial para se abalançar à sua segunda investigação de carácter sério.

Nessa altura, o antigo professor constituíra com os seus auxiliares um grupo sem intuitos lucrativos chamado Centro de Pesquisas e Estudos. A partir daí o grupo veio a ter duas faces distintas: a científica, amada e centro de grande publicidade, e a comercial, desprezada e sem alardes de publicidade. Era a última que tornava possível a primeira. Tanto a Universidade de Reardon como o Dr. Chapman continuaram a emprestar a cobertura dos seus nomes à secção comercial do Centro de Pesquisas e Estudos, justificando essa participação grosseira como outras universidades justificavam a prática do futebol, mas os seus espíritos pertenciam declaradamente ao departamento científico.

Ao passo que a secção comercial era dirigida por um erudito de pernas arqueadas e olhos protuberantes devido a uma deficiência da tiróide, Marke Hildenfand, antigo empregado das sondagens Gallup e Roper, o Dr. Chapman concentrava todas as suas energias, que eram consideráveis, na segunda pesquisa. A Partir de então, finalmente, pudera beneficiar da lição proporcionada Pelo seu primeiro malogro. Essa segunda pesquisa, sobre o comportamento sexual dos adultos americanos celibatários dos Estados Unidos, foi cuidadosamente organizada em intenção de Uma audiência limitada de pesquisadores, investigadores e professores — todos eles cientistas, sendo escrita, no seu todo, numa
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linguagem estritamente técnica. As percentagens demonstrativas dramatizadas em gráficos exactos e muito descritivos, como sagazmente foi compreendido pelo Dr. Chapman, não se revestiam, porém, de formas essencial-mente técnicas e, de um dia para o outro, as estatísticas foram amplamente adoptadas pelos jornais e revistas, empregando uma linguagem singularmente perceptível aos leigos, de onde se eliminaram os chavões científicos, e apresentadas a um público que se quedou atónito perante os números.



O Dr. Chapman veio a tornar-se um nome vulgarizado nos lares, um nome ciciado nos quartos de cama, um trampolim destinado a anedotas, gracinhas e comentários sabichões. «O Relatório Chapman», como a imprensa leiga se referia ao Estudo Sexual do Celibatário Americano, tornou-se parte integrante do ambiente dos Estados Unidos. No espaço de quatro semanas, o livro impusera--se e figurava no topo das listas de best-sellers do New York Times, do New York Herald Tribuneeóa Publishers' Weekly. Pouco tempo levou a que se tivessem vendido quase 500 000 exemplares.

Com excepção de um fundo liberal posto de parte para gastos pessoais e relacionado com o seu trabalho, o Dr. Chapman não se dignava ficar com um único dólar da venda dos livros e das conferências que fazia. Tudo o que amealhava destinava-se a apoiar o seu terceiro projecto de carácter científico — Uma História Sexual da Mulher Casada Americana, que, diferente das suas duas sondagens anteriores, começou a ser levado a efeito à luz brilhante de grande publicidade, coisa fervorosamente esperada e seguida com enorme curiosidade por milhões de homens e mulheres de todo o país.

Todavia, a investigação não era coisa fácil, ainda que fosse por vezes divertida — tal como Paul dizia com os seus botões. A graça residia no facto de estar sob o foco das luzes da ribalta e ligado a um projecto que toda a gente considerava importante. Igualmente — e era coisa que não se podia esquecer—, o aliciante do caso residia também em se saberem os segredos da vida privada de toda uma população, segredos em geral desconhecidos ou furtados à curiosidade alheia. Era esse o estímulo real do trabalho e não como se poderia pensar, o facto de haver motivos fortemente sexuais. Era possível que os seus colegas universitários nunca viessem a compreender esse aspecto da questão. Onde quer

nuer que o Dr. Chapman estivesse presente, havia sempre qualquer professor ou assistente universitário (pessoas com obrigação de conhecerem o assunto com lucidez) que insinuava advir o estímulo do facto de mergulharem na vida amorosa íntima das mulheres, mas Paul bem sabia que a asserção não continha a mínima parcela de verdade. Ele, como Horace e Cass eram semelhantes a três obstetras, pesquisando, todas as semanas, centenas de vaginas sem a mais ligeira comoção, desligados do valor sexual estimulante, ocupados e preocupados apenas com o seu trabalho. Os milhares de palavras de conteúdo sexual murmuradas aos seus ouvidos, durante as sondagens, tinham perdido todo o seu significado de mistério e ocultismos gerador de excitação, e a cópula tornara-se coisa tão neutra como os desenhos anatómicos de um livro de Biologia. Apesar disso, em East St. Louis, após muitas horas de entrevistas, Paul surpreendera-se a analisar atentamente as pernas das mulheres que passavam na rua — e, finalmente na última noite da sua permanência na localidade, acabara por encontrar uma rapariga italiana, baixinha e morena, com um seio volumoso. O encontro ocorrera num bar elegante e dispendioso e, após os primeiros contactos exploratórios, encontrava-se deitado ao lado dela num quarto de hotel, gozando o saboroso manjar que o corpo dela lhe oferecia, mas o prazer sentido fora muito menor do que tinha previsto.

Nessa altura, sentado no duro e baloiçante assento do comboio, meio consciente da voz monótona e entorpecente do Dr. Chapman, do denso fumo produzido pelo charuto de Horace e do cruzar e descruzar perturbante e agressivo das pernas de Cass, deixou que a mente o levasse até à recordação da sua entrada como elemento da equipa de pesquisas. Naquele momento, com a aproximação de Los Angeles, quase em The Briars e com mais duzentas mulheres para terminar o surto de entrevistas, afigurava-se-lhe que desde sempre estivera integrado no projecto. Contudo, só se lhe agregara três anos antes.

Quando a proposta lhe fora apresentada, contava apenas trinta e dois anos e estava há menos de um ano na Universidade de Reardon. Leccionava «Literatura Inglesa — de Borrow a Beardsley», e era o seu terceiro cargo de feição académica. Antes disso tinha editado e escrito uma pequena revista literária trimestral


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de lowa e, em resultado de uma série notável de ensaios sobre as escritoras ingleses do século XIX, fora convidado (com um salário mais elevado e transportes pagos) a leccionar numa escola feminina da Suíça, e mais tarde contratado como leitor para uma universidade de Illinois.



Durante os vários anos passados em Berna, Paul tinha viajado consideravelmente e, numa visita feita ao Vaticano, viera a ficar enormemente interessado no Index Librorum Prohibitorum. Daí nascera um livro da sua autoria, No Âmbito da Censura, um estudo erudito, mas vivo e directo, sobre os autores submetidos à censura apostólica. Os escritores iam de Tyndale e Rabelais a Cleland e a Joyce. A obra fora publicada pela editorial de uma universidade do Leste, enquanto Paul ainda cumpria as suas obrigações contratuais como leitor da Faculdade de Illinois. O facto conferiu-lhe um certo, ainda que limitado, nome académico e várias e insistentes ofertas para ingressar nos quadros de professores de algumas universidades, entre elas uma apresentada por Reardon. Muito embora Paul sempre houvesse considerado o escrever como a sua verdadeira vocação e a actividade de leitor e conferencista como um acessório, não estava em posição financeira para resistir à oferta feita por Reardon. A contar para a decisão tomada havia o facto de ter outro livro na forja e necessitar de apoio, sendo essa a principal razão que o levara a aceitar o cargo no Wisconsin meridional.

Em Reardon, Paul tornou-se rapidamente muito popular — primeiro entre os estudantes, que gostavam dos seus irreverentes comentários sobre os imortais da literatura mundial, e logo a seguir entre as mulheres dos professores, bastante atraídas pela sua boa aparência física e pelo facto de ser um solteirão. Paul tinha perto de um metro e noventa de altura e um andar descontraído de intelectual que ainda o fazia parecer mais alto. Os seus cabelos negros estavam prematuramente tocados nas têmporas por tons grisalhos — alguém fizera notar que as brancas lhe davam o ar de homem com um passado —, e o seu rosto, se bem que alongado, era por de mais regular e atraente no seu conjunto para poder ser considerado lincolnesco. Alugara na cidade um apartamento de três espaçosos quartos, trabalhava nos apontamentos para um livro sobre Sir Richard Burton como escritor, jogava ténis todos os

domingos, ia ver jogar os Braves a Milwaukee, uma vez por mês e, ocasionalmente, levava raparigas de Lake Forest para uns passes de dança em Chicago.

Não passara ainda um mês que se havia instalado no complexo universitário quando começou a ouvir falar do Dr. George G. Chapman e dos seus estranhos afazeres, levados a efeito na cabana que se erguia atrás da Faculdade de Ciências. Na maior parte dos primeiros seis meses em que Paul começou a trabalhar na Universidade o Dr. Chapman e a sua equipa percorriam as estradas do país, realizando, calmamente, as suas entrevistas com os celibatários. Uma vez por outra, voltavam às cinco salas da pequena construção, cedida pela Reitoria como departamento privativo do Dr. Chapman, mobilada com os grandes arquivos à prova de fogo, cofres-fortes volumosos e uma monstruosa máquina fotográfica electrónica, concebida e desenhada pelo Dr. Chapman de modo a reproduzir e classificar questionários, e conhecida pelo nome de máquina STC. Paul, por várias vezes, assistira à meteórica passagem do Dr. Chapman pelos relvados do campo universitário, sempre metido no seu fato cinzento. O professor embicava persistentemente para o edifício da Faculdade de Ciências sem se dignar lançar um olhar quer para a esquerda quer para a direita, sempre apressado e sempre transportando uma pasta bojuda, que parecia cheia de documentos. A primeira impressão de Paul fora de que Chapman era um homem altíssimo, embora mais tarde viesse a verificar que o professor era um homem de altura mediana que dava a impressão de ser mais alto. Usava a juba grisalha domada à custa de um preparado muito caro e apartada por um risco de perfeita simetria; o seu rosto era bolachudo e de cor vermelhusca, sem ser flácido; o peito e o abdome formavam a perfeita meia circunferência de um barril, contidos pelo milagroso equilíbrio do cinto; e todo o volumoso bojo do seu corpo repousava sobre o envasamento das frágeis e delgadas colunas constituídas pelas suas pernas.

Foi através de Horace Van Duesen que Paul acabou por vir a ser apresentado ao Dr. Chapman. Horace era um jovem professor de Obstetrícia e Ginecologia, desinteressado da sua especialidade, e que sempre desejara exercer as funções de estatístico. Quando Se conseguiram, por fim, as dotações suficientes para vingar o Segundo projecto, o Dr. Chapman resolveu contratar auxiliares em
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regime de tempo livre, e Horace Van Duesen fora o primeiro a fazer parte do seu estado-maior. Horace era um homem magro e ossudo, e quando se levantava ao longo de toda a sua estatura quase se podiam ouvir os ossos ranger. Os seus olhos eram límpidos e francos, apesar de sofrer de miopia, o nariz aquilino e o mento recuado. Quando Paul o encarava, lembrava-se logo das palavras de Aldous Huxley sobre Shelley: «Não tinha características humanas, faltava-lhe a fortaleza de um homem. O seu ser era uma mistura de efeminização, contida no corpo de uma lesma branca, sem sangue, invertebrado e falho de toda a coragem. Apenas polpa e muco branco». Na verdade, parecia que o jovem professor estava consciente da sua condição e que disfarçava o seu conteúdo líquido dentro da armadura dos colarinhos altos, das gravatas azul-marinhas e dos fatos de tons escuros. Todavia, era muito mais do que aquilo que aparentava. Era rígido dentro da norma de uma decência essencial, quase tocando as raias do puritanismo, e devotado à crença de que a única realidade, compreensão e comunicação se cifravam nos números.



Paul sentiu-se imediatamente atraído para o Dr. Van Duesen porque, para além das meras aparências, era um homem fundamentalmente bom, leal, acessível e, após um conhecimento mais íntimo, chegou à conclusão de que com Horace não podia haver confusões ou desentendimentos possíveis. O destino encaminhou-os para uma grande amizade de um modo naturalíssimo. Ambos eram homens solitários, ou, melhor, porque ambos não possuíam verdadeiras raízes no mundo que os pudessem prender, proclamavam-se a si próprios solitários e solidários nesse ponto de vista comum. Em breve Paul foi informado de que Horace fora casado durante um brevíssimo período, que a mulher o abandonara ou ele a mandara embora, e que, na ocasião do conhecimento de ambos, a mulher movera contra ele uma acção de divórcio no estado da Califórnia. Segundo se murmurava, tinha havido um certo escândalo ligado à dissolução do casal Van Duesen, mas Paul nunca conseguira esclarecer esses factos, nem o desejava, e Horace nunca falava da ferida. Por várias vezes Paul ouvira as mulheres dos professores, ou as suas filhas, já senhoras, referirem-se à Sr.a Van Duesen com animosidade e repugnância. Uma vez que aquilo partia de mulheres e o anta-

gonismo era unânime, Paul quase teve a certeza de que a ex--mulher de Horace fora uma mulher bonita, que exercia uma certa atracção sobre os homens.

À medida que a amizade entre os dois se foi desenvolvendo (partidas de póquer e de ténis, filmes, encontros com raparigas, longos passeios e, de permeio, conversas sobre os trabalhos respectivos), Paul veio a saber do projecto Chapman, e Horace, por seu turno, foi informado do livro escrito por Paul e dos seus planos para novos volumes.

Certa noite de Estio, Horace pediu emprestado a Paul o volume do No Âmbito da Censura. Passada uma semana, após o ter lido e apreciado, declarou a Paul que havia emprestado o livro ao Dr. Chapman. Mas alguns dias depois e, num breve intervalo entre duas aulas, com grande excitação, Horace transmitiu a Paul que o Dr. Chapman teria muito prazer em conhecê-lo.

Finalmente veio o encontro decisivo. Horace conduzira Paul a um restaurante típico sueco que havia na cidade de Reardon, onde, num gabinete privado, eram aguardados pelo Dr. Chapman. Jantaram juntos e conversaram infatigavelmente. Regressaram juntos ao complexo universitário e o Dr. Chapman levou-os para o departamento que lhe fora reservado, descrevendo-lhe o trabalho que realizava. Mais tarde, sob o pretexto de respirar ar fresco e puro, Chapman convidou-os para um longo passeio pelos recreios da Universidade, a essa hora mergulhados numa aliciante escuridão e numa calma que convidava a mais conversa.

Fora uma noite admirável e estimulante. Paul achou o Dr. Chapman um homem cheio de espírito, embora o seu humor não se manifestasse em relação ao trabalho em que estava empenhado. Era um homem que ombreava com ele, Paul, em cultura e um conversador fascinante. Por várias vezes, durante a memorável noite, Paul, evitando deixar-se envolver pela torrente verbal do cientista, avaliou o Dr. Chapman, encarando-o como uma personagem de comédia. A eloquência e o dogmatismo tornavam--no um fanático da missão que pretendia levar a cabo, mas, fora disso, era uma pessoa acessível e despida de preconceitos. Chapman falou dos homens e mulheres que sondava com a perfeita indiferença com que qualquer outra pessoa falaria de nabos e cenouras, e conversou sobre sexualidade com a naturalidade


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despretensiosa com que qualquer pessoa banal se poderia referir a uma peça de mobília ou ao corte de um fato.



Durante aquela noctuma travessia das grandes paradas da Universidade, Paul apercebeu-se — coisa que veio a ser amplamente confirmada nas viagens ulteriores em conjunto — que não havia qualquer sensibilidade ou consciência do Dr. Chapman em relação aos pormenores externos ao trabalho. Era um homem que não prestava atenção aos ambientes ou às paisagens e que tinha uma carência nítida de reacções sensoriais. Nem sequer estava interessado nas criaturas pelo seu valor intrínseco de seres humanos fora da contribuição que davam às suas preciosas estatísticas. Foi também durante aquela noite que Paul, pela primeira vez, pensou na vida sexual do Dr. Chapman. Mais tarde, Horace informou-o sobre a falecida Sr.8 Chapman e do boato persistente que corria a respeito das relações do cientista com uma mulher, de meia-idade, residente em Milwaukee (sem dúvida boatos que se fundamentavam no simples facto de ele ir muitas vezes, e sempre só, a Milwaukee...). A julgar pelo comportamento do professor, se o caso fosse verdadeiro, tratar-se-ia, possivel-mente, de uma simples curiosidade anatómica.

Durante toda aquela noite, Paul soube o que iria suceder, e esperou, ao mesmo tempo receoso de que não sucedesse (um receio enraizado na incerteza da sua posição académica, dado que nem sequer era um monitor com uma licenciatura, mas somente um leitor, o que por vezes o fazia sentir como se não pertencesse à congregação). Mas afinal o que esperava aconteceu, e a verdade é que não ficou surpreendido.

— Nesta altura é uma pena, mas não tenho outro remédio

senão deixar que o Dominick se vá embora — dissera o Dr.

Chapman.

Tinham ultrapassado uma das faculdades e o cientista parara na esquina para acender um novo charuto.

— Sem dúvida um óptimo elemento e uma boa criatura — con

tinuara Chapman, exalando o fumo —, mas o caso é que se casou

com uma rapariga católica, e tanto ela como toda a família censuraram-no pela sua desgraçada vocação. Agora pretende regressar

ao seu trabalho anterior (quando o encontrei ocupava- -se de

química fisiológica) muito embora tenha uma certa lealdade em relação a mim. Esteve connosco, como entrevistador, viajando por todo o país, durante este passado ano, mas presentemente sente-se impaciente e intranquilo pelo mau ambiente gerado, e neste trabalho não faz sentido que uma pessoa tenha quaisquer inibições ou remorsos — subitamente fitou intensamente Paul através do espesso fumo. — Não é católico, pois não?

— Minha mãe aderiu aos ensinamentos de João Calvino e

meu pai aos de Bob Ingersoll — respondeu Paul. — Tenho uma

irmã em Nova Iorque que é devotada a Mary Baker Eddy. Eu...

bem, suponho ser mais fiel a Voltaire.

Durante um instante, Chapman permanecera com os olhos cravados no chão.

— Acho melhor voltarmos para trás — disse.

Nessa altura já caminhavam com mais lentidão e, após umas quantas passadas, o Dr. Chapman retomou o fio à meada:

— Estamos nos preparativos para apresentação do trabalho.

Entrou-se na fase final e será ela a única responsável pelo nosso

julgamento. Tenho comigo especialistas em fisiologia, psiquiatria,

sociologia, endocrinologia e antropologia, mas nesta fase necessito

de alguém que saiba qualquer coisa de literatura, além de perceber

um pouquito de tudo o mais no âmbito da cultura geral, para me

ajudar a redigir o manuscrito — fitava Paul de lado. — Preciso

exactamente de um homem com a capacidade daquele que

escreveu o seu livro.

E fora essa toda a sua concessão à frivolidade de um empréstimo durante toda aquela noite.

E assim, no espaço de uma semana, em base de part-time, Paul veio a tornar-se um dos elementos da equipa. Durante o ano que se seguiu, a última sondagem foi preparada para a publicação. Quanto mais intimamente ia trabalhando com o Dr. Chapman, mais Paul ia descobrindo e admirando nele os traços de carácter forte que almejara ter visto no pai. Aos olhos de Paul, o Dr. Chapman revelava-se possuidor das três prendas raras que formam um verdadeiro ídolo: Direcção, Dedicação e Confiança.

A admiração de Paul pelo Dr. Chapman transportou-se para o

Projecto em si mesmo, de modo que, por vezes, lhe parecia que. O mundo, para além do departamento de elaboração e recolha dados das sondagens, não passava de um lugar primitivo e
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cheio de ignorância aguardando apenas a mensagem para dar à sua Idade Média uma Renascença. O Dr. Chapman era constante no trabalho durante as manhãs, as tardes, e consagrava-lhe igualmente todas as noites das oito às vinte e quatro horas. Paul permanecia constante a seu lado. Os apontamentos sobre a vida de Sir Richard Burton como escritor cobriram-se da poeira do olvido, os Braves de Milwaukee não o voltaram a ter como espectador, e as pequenas de Lake Forest tiveram que procurar perspectivas mais adequadas.



Quando o projecto foi elaborado e o livro enviado para a composição, Paul sentiu-se singularmente vazio, como que despojado de algo que muito prezava. E depois das revisões, quando o livro finalmente foi posto à venda, experimentou uma ansiedade terrível. Seria na verdade aceite incondicionalmente, ou toda a sua fé e devoção teriam sido pura e efémera ilusão destinada ao negro malogro? A verdade é que foi aceite — aliás como muito poucos na história da literatura ensaísta americana — tanto pelos especialistas como pelos leigos. Na excitação alucinante que se seguiu, Paul esqueceu todos os seus sonhos de escritor, olvidou a voz da verdadeira vocação, relegou a sua carreira universitária para o sótão dos trastes inúteis. Tudo o que desejava era poder continuar a participar naquela maravilhosa aventura.

O terceiro inquérito Chapman, Uma História Sexual da Mulher Casada Americana, estava já em preparação quando o clamoroso êxito da segunda sondagem veio trazer a certeza de se poder prosseguir na senda traçada, e foi oferecido a Paul um emprego de carácter permanente na equipa de entrevistadores. O seu salário foi aumentado numa proporção de vinte e cinco por cento, mas mesmo sem isso sabia muito bem que teria aproveitado a oportunidade que considerava única. Abandonou por completo, e sem pena, o leitorado da cadeira de Literatura Inglesa e transformou-se num constante investigador do comportamento sexual feminino.

O itinerário foi escolhido após o lançamento dos alicerces — estudo, orientação, planificação dos objectivos, exame cuidadoso sobre as perguntas a fazer, limando todas as arestas que podiam constituir melindre: correspondência trocada com grupos de

estudos afins, organizações religiosas e clubes de carácter comunitário. Era o Dr. Chapman quem escolhia o pessoal que o devia seguir. Na sua primeira sondagem a equipa fora constituída por dois homens — ele mesmo e um assistente. Na segunda sondagem, a fim de ser coberto um maior espaço, tinha sido estabelecida uma equipa de sete entrevistadores dividida em duas forças de tarefa. Mas para a terceira pesquisa, Chapman resolveu limitar o seu estado-maior. O grupo funcionaria apenas com quatro elementos e uma secretária para os assuntos de natureza burocrática e formalidades de contacto e informação: o Dr. Chapman, Horace Van Duesen, o Dr. Theodore Haines, um jovem psicólogo corpulento, e Benita Selby, uma mulher de vinte e nove anos, pálida, reservada e de cabelos muito loiros, quase da cor das espigas, pessoa eficientíssima e bem escolhida para o cargo de secretária pelo seu dinamismo no foro que lhe competia.

Estava destinado a Benita Selby partir de avião para cada cidade onde as sondagens seriam efectuadas dois dias antes de o grupo de entrevistadores chegar, de modo a pôr em movimento o maquinismo das formalidades legais e estabelecer os necessários contactos. A digressão estava planeada para uma duração de catorze meses, com uma rota que começaria por Minesota, passava por Vermont e, após ziguezaguear pelo Norte e Sul, acabaria na Califórnia.

Um mês antes da partida ocorreu a demissão do Dr. Theodore Haines. De Washington haviam-lhe oferecido um cargo no funcionalismo público — aliás como motivo da sua ligação com o Dr. Chapman — e o psicólogo achara mais próprio garantir o futuro. Foi debalde que o Dr. Chapman o procurou reter; por fim resignou--se e admitiu Cass Miller para ocupar o lugar vago.

O contrato de Cass Miller devera-se a uma viagem do Dr.

Chapman a Chicago para examinar possíveis candidatos ao lugar.

Cass, zoólogo de um instituto de ensino superior de Oaio, pequeno

em extensão mas grande na reputação de que gozava, oferecera-

se de imediato. Cass Miller era um bacharel que leccionava quatro

classes, ao mesmo tempo que preparava a tese para o seu

°utoramento. Eram excelentes os seus antecedentes culturais,

O Dr. Chapman deixara-se influenciar por uma carreira tão

ernelhante à sua, ao mesmo tempo que, na pressa com que
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estava, interpretou erradamente a vibração e dinamismo manifestados pelo candidato como um sinal de devoção à causa científica. Após ter resistido às perguntas penetrantes do Dr. Chapman e a uma verificação superficial do seu curriculum, Cass tomou posse do cargo de quarto membro da equipa de entrevistadores, embora não tivesse partido logo com o director da sondagem.



Uma semana depois, após arrumados os seus assuntos, Cass Miller fixou-se em Reardon para trabalhar noite e dia, infatigavelmente, no grande projecto. Desde logo Horace o considerou uma pessoa simpática, mas Paul não tomou posição quanto a esse caso, reservando-se um conhecimento mais directo para poder manifestar qualquer opinião definitiva. Cass era um homem baixo, mas sólido e de porte atlético, moreno, de feições regulares, e com um sistema de introversão que fazia lembrar o Hamlet — nisso e nas manifestações de cinismo e dúvida. O seu cabelo era acentuadamente negro e ondulado, os olhos, quase sem linha divisória do nariz, eram pequenos e muito próximos um do outro, e os lábios eram carnudos. Usava sempre os fatos e restante vestuário impecavelmente limpos e vincados, e caminhava com aquela atitude de altivez utilizada pelos galos capões e pelos homens de baixa estatura, predominando na sua personalidade o fulgor de um ser obstinadamente sensitivo. Era com frenesim que realizava o trabalho que lhe competia, mergulhando com frequência num mutismo insondável — coisa que a princípio iludiu Paul. fazendo-o acreditar que por baixo daquele hermetismo existia o estofo de um erudito. Se bem que fosse notória a sua cultura e profundos os seus conhecimentos, Cass era um tanto rude e intempestivo na maneira de falar. Bebia moderadamente e gostava de dar longos passeios sozinho. Paul pensou que para se não gostar dele era preciso conhecê-lo muito bem.

Durante os penosos catorze meses que se tinham escoado na ampulheta do tempo, Paul tivera oportunidade de sobejo para vir a conhecer Cass muito bem. Pesando todos os factores da atenta observação, Paul veio a concluir que uma das facetas mais repugnantes no carácter de Cass Miller era a sua atitude relativamente às mulheres e ao sexo. Dado que todos eles se tinham que dedicar, dia após dia, ao estudo do comportamento sexual das mulheres, qualquer desvio de uma atitude meramente académica e científica poderia gerar uma situação de melindre. Além do teor obrigatório do trabalho, o Dr. Chapman não se envolvia em conversas sobre questões sexuais; Horace mostrava-se apático ao problema, como se tivesse exaurido todas as suas energias copulativas com a ex-mulher, o que levava Paul a suspeitar que o quociente sexual dele era de nível baixo e, regra geral, tornara-se um recluso do seu mundo privado. A avaliar pelos dados de código inventado pelo Dr. Chapman, o próprio Paul, antes de fazer parte do grupo, podia considerar-se como um celibatário mais ou menos normal nos seus estímulos e actividades sexuais. Porém, recentemente, conseguira dominar grande parte das suas necessidades fisiológicas, subli-mando-as com uma entrega devotada ao trabalho, e era capaz de manter continência durante várias semanas. Acontecia que o excesso quotidiano de assuntos sexuais se tornava enervante, as constantes viagens fatigavam, e por isso um pouco de álcool e o sono eram de certo modo sucedâneos satisfatórios da prática do amor. Vinha porém um momento súbito em que se dava uma explosão, e bastava para isso ouvir uma voz feminina, ver umas lindas pernas, contemplar um busto desenvolvido...

Dado que todos os membros do grupo de entrevistadores desafiavam a constante atenção do público e eram atentamente vigiados por uma caterva de moralistas, a sua conduta tinha que estar acima de toda a suspeita e para além de qualquer motivo de censura. O Dr. Chapman lembrava isso com frequência aos seus colaboradores, e Paul jogava pela certa procurando as mulheres no anonimato de bares cheios de clientela ou por intermédio de qualquer colega universitário, solteiro como ele, que colaborativo lhe apresentava uma rapariga conhecida de uma sua amiguinha. O amor nada tinha a ver com tais escapadas, havia apenas satisfação física, descontracção, uma válvula de escape. O chamado amor verdadeiro (fosse lá o que fosse) nunca Paul o saboreara, nem se Permitia o envolvimento em malhas românticas. Paul pensava que, de certo modo, o seu comportamento não andava muito longe do e Cass Miller a respeito desses problemas; apesar disso, era essencialmente diferente do antigo bacharel de Óaio: tinha a certeza e que o homem detestava as mulheres. O Dr. Chapman, geralmente atento e perceptivo aos problemas íntimos daqueles que o rodeavam, manifestava-se agora demasiadamente ocupado para se
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aperceber do caso, mas Paul estava certo do misoginismo que se escondia por trás do pretenso sexualismo agudo de Cass. A neurose de Miller manifestara-se de maneira evidentíssima na primeira fase da sondagem, todavia ainda temperada por um certo humor sombrio, mas à medida que o trabalho se desenvolvia, em especial quando o Dr. Chapman se encontrava ausente, Cass perorava sobre as mulheres de uma maneira cheia de irritação e agressividade. Pela sua fala dava a impressão de que as mulheres de modo algum eram seres humanos, não passavam de fêmeas sem manifesta evolução relativamente aos animais com um orifício vaginal que dissecar nas suas aulas de zoologia.

Paul sabia que Cass sentia uma necessidade compulsória de possuir sempre muitas mulheres, mulheres de tipos variados, e arranjava-as em quase todas as cidades que visitavam, por vezes com manifesto desrespeito da sua posição. Pretendia com isso mostrar-se mais sexual do que na verdade era, ou seria uma maneira de rebaixar todas as mulheres? Paul não podia definir, mas sentia que Cass praticava a cópula nas mulheres, não com as mulheres. Era essa a diferença básica entre Cass e ele. Cass amava sem esperança. Paul, até nas suas mais calculadas aventuras, esperava sempre mais de que aquilo que lhe davam, buscando sempre não apenas o sexo mas o amor total, que nunca encontrava.

Por entre as trevas nebulosas do seu pensamento, Paul ouviu pronunciar o seu nome e, afastando os sonhos que o levavam para o passado, entrou decididamente na realidade daquela carruagem-cama.

Tinha a certeza de que o Dr. Chapman se estava a dirigir a ele.

— ...temos definidas as linhas gerais de East St. Louis.

Paul acenou solenemente.

— Está tudo nos devidos lugares — disse, desatando a ocu-

par~se afadigadamente dos papéis que tinha em cima dos joelhos.

O Dr. Chapman voltou-se para Horace e Cass:

— Muito bem, temos que repousar para nos levantarmos cedo

e com boa disposição. É preciso que estejamos no melhor do nosso

espírito quando entrarmos em The Briars.

Horace levantou-se e distendeu os membros.

— A nossa sondagem tem tido grande publicidade?

_- Creio que sim — murmurou o Dr. Chapman.

_- É que detesto ver a minha fotografia escarrapachada nos jornais — declarou Horace.

O Dr. Chapman sorriu.

—Temos que pagar o preço da fama e celebridade — pronunciou com satisfação, ainda que houvesse um pouco de ironia na sua voz. — E agora, boa noite.

— Boa noite—correspondeu Horace, dirigindo-se para a porta

do compartimento.

Paul e Cass também já estavam de pé guardando os apontamentos nas pastas. Cass foi o primeiro a sair para o corredor estreito e Paul preparava-se para o seguir, quando ouviu a voz do Dr. Chapman:

— Paul, posso demorá-lo por mais um minuto?

Paul olhou as figuras de Horace e Cass a caminharem pelo corredor de braços abertos, como asas, a apoiarem-se às paredes procurando o equilíbrio contra os balanços do comboio, em direcção ao bar.

Seria a última noite passada num comboio antes de seguirem para Reardon e Pau! queria celebrar o facto.

— Cass — chamou ele —, se você vai beber um trago...

— Claro que vou.

— Então espere por mim. Faço-lhe companhia.

Ficou ainda um momento a vê-los seguir pelo estreito caminho, cambaleantes, como se fossem batidos por um temporal no mar, e depois voltou a entrar no compartimento do Dr. Chapman.

— Poderá ficar admirado, mas a verdade é que sem homens como Ackerman o nosso trabalho seria dez vezes mais difícil, ou talvez impossível — dizia o Dr. Chapman.

O professor molhou os lábios no seu copo de gim temperado com água tónica, e Paul, sentado em frente dele, aproveitou também para beber um trago do seu uísque com soda.

Durante os primeiros cinco ou dez minutos a conversa tinha decorrido assim, não a incidir exactamente sobre o trabalho que realizavam, mas em pormenores circundantes. O cientista tinha tocado a campainha que alertava o criado, e mandara vir as
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bebidas. Ao que parecia, também ele se sentia contente, satisfeito com o progresso das coisas.



O Dr. Chapman começara a falar sobre assuntos vários e inconsequentes — Califórnia, The Briars, de alguns amigos que tinha na Universidade de Los Angeles, de umas possíveis férias (bem merecidas) quando regressassem finalmente a Reardon, e de novo voltara ao tema Califórnia. Coisa singular, no entender de Paul, porque não era hábito que o professor conversasse de maneira tão volúvel. Pressentiu, pois, que se devia tratar de um preâmbulo a coisa mais importante e, por isso, beberricando o seu uísque, aguardou.

O Dr. Chapman estava agora a referir-se a Emil Ackerman, um abastado habitante de Los Angeles, que os auxiliara quanto aos preparativos das sondagens quatro anos antes e que fora o responsável pelo actual contacto com a Associação Feminina de The Briars.

— Mas então em que é que ele se ocupa precisamente? — perguntou Paul.

— Ah, isso ó coisa que ignoro — respondeu Chapman. — Só sei que é representante de certa profissão não classificada, anónima na América, que ajuda o país a manter o seu progresso. É riquíssimo. Possui residências em Bel-Air, Palm Springs, Phoenix. A vocação dele é a política, e talvez seja nela que faça o seu dinheiro, ajudando a eleger um governador ou um presidente de Município ou, ainda, trapaceando com a legislação fiscal. Sei que está ligado aos intrigantes dos bastidores políticos em Sacramento e que tem participação em mais de uma dúzia de diferentes actividades. Não é porém uma pessoa muito falada. Não lhe interessa a publicidade nem o desempenho de qualquer cargo público. É uma espécie de eminência parda. Sobretudo, a profissão a que Ackerman mais se dedica é a de fazer favores.

— Altruísmo?

— Tenho as minhas dúvidas. Pesca em vários mares, em águas turvas, e recolhe variado peixe, por vezes até mesmo uma baleia. É um desporto muito lucrativo. A grande maioria dos governantes do país de modo algum são titãs, quer em inteligência quer em integridade; existe neles, como em toda a gente, a natural fraqueza humana, a mistura de defeitos e virtudes. A propósito,

vou contar-lhe uma história que ocorreu sobre o presidente Harding. Certo dia o pai do presidente disse-lhe: «Warren, se fosses uma rapariga estarias sempre grávida. Não sabes dizer não a ninguém». Bem, há pessoas assim, não sabem dizer que não quando Ackerman se oferece para lhes prestar um favor, e depois não podem dizer não quando o homem reclama a sua paga. O negócio de Ackerman é ser pago pelos favores que presta.

— Mas então que poderá ele receber do senhor?

O Dr. Chapman considerou com atenção o copo que rodava entre os dedos.

— Nada. Creio que não espera nada de mim em retribuição...

Levantou os olhos e sorriu para Paul.

— Talvez deseje alguns números de telefones das nossas entrevistadas, como sugeriu Cass.

— Não me surpreenderia que fosse isso.

— Com seriedade, julgo que constituo para ele uma espécie de passatempo. Gosta de se sentir ligado a nós, coisa que, entre os amigos, lhe confere uma certa elevação, um lugar de mais realce, isto é, finge que faz parte do nosso grupo, que também é um devotado à ciência, e essa posição é coisa que não se pode vender nem comprar.

— Sim, isso faz sentido — replicou Paul.

Bebeu com estudada lentidão, intrigado por não saber ao que a conversa levaria.

— E como é que o conheceu?

— O Paul conhece profundamente a nossa maneira de operar. É-nos sempre oposta uma certa resistência. Desde o início que decidimos trabalhar com grupos de pessoas e não com indivíduos isolados, uma vez que o indivíduo, em si, é na maior parte dos casos uma criatura tímida, receosa, resistente. Escorado, porém, no anonimato de um grupo, a pessoa humana entrega-se, abre-se, coopera. Logo, o nosso problema foi o de estabelecer contacto com grupos comunitários civis ou de carácter religioso para uma informação e uma colaboração mais eficientes e verdadeiras. Não foi tarefa fácil. Revelou-se impossível a aproximação directa. Suspeitavam de nós, das nossas intenções. Quem éramos? Que Pretendíamos na realidade? Surgiam frequentemente reacções de resistência como estas, entre muitas outras. Finalmente, considerei


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que só ganharia a confiança dos grupos e agrupamentos por intermédio de dirigentes, quer académicos, quer políticos, quer de qualquer outro teor de chefia. Sobretudo, apoiei-me imenso nos meios universitários, quer dizer, nas pessoas que neles conhecia. Em cada centro social que visitava, havia sempre um professor ou um membro da reitoria que me endossavam para um político local, para um manobrador dos cordelinhos sociais, e estes, regra geral, abriam-me sempre uma porta. Claro que agora em nada se compara com os primeiros inquéritos, é tudo muito mais fácil. Já somos aceites pelo público, possuo uma reputação sólida em quase todos os meios. De qualquer maneira, é até uma honra alguém estar relacionado com o nosso projecto.

Interrompeu o discurso para beber mais um golo. Passou a língua pelo lábio superior, e continuou:

— Bem, é melhor contar-lhe como foi que conheci Ackerman. Há quatro anos pretendemos realizar sondagens em três grupos na área de Los Angeles. Eu conhecia certa pessoa na Universidade na Califórnia que, por sua vez, estava relacionada com alguém do gabinete do Mayor da cidade, e esse alguém dava-se com Ackerman. O homem jogou futebol por Stanford, parece, e tem um certo prazer em mostrar-se uma pessoa acessível, popular, comum. Mas, acima de tudo, é uma criatura esperta, que conhece toda a gente e, como já frisei, toda a gente, sobretudo, lhe deve favores. O caso é que Ackerman, ao saber das nossas dificuldades, se limitou a fazer três rápidos telefonemas: logo encontrámos os nossos três grupos para realização das entrevistas. Quando o inquérito foi completado enviei-lhe um exemplar do livro, autografado e com uma dedicatória, e ele ficou contente como uma criancinha a quem se desse um brinquedo. Agora, quando pensei em voltar de novo a Los Angeles para trabalho de pesquisa, escrevi-lhe a contar o que queria e, mais uma vez, obtive os seus favores. Foi tudo arranjado a contento. Mas não me pergunte como, porque não sei.

— Gostava de o conhecer pessoalmente — disse Paul.

O pensamento do Dr. Chapman parecia andar por outras paragens, desinteressado do assunto.

— Há-de conhecê-lo — disse, meio distraído. — Não duvide

que estará presente à conferência. — Fitou Paul atentamente. —

Na verdade desejo que conheça antes outra pessoa que, neste momento, é muito mais importante para nós.

«Lá vem a confissão», pensou Paul, limitando-se a levar o seu copo aos lábios e a aguardar.

— Mas antes de entrar no assunto propriamente dito, será

melhor que lhe explique as coisas pormenorizadamente. É um

problema de extrema importância, e sei que posso contar com o

seu sigilo.

Paul acenou afirmativamente.

— É um assunto só entre nós dois.

Fez uma pausa como para procurar a melhor maneira de dizer o que pretendia.

— Sem necessidade de afirmativas da minha parte, creio bem que sabe o muito respeito e afeição que sinto por si.

— Estou-lhe deveras grato.

— Não é para agradecer, e como não quero desperdiçar mais tempo com palavras rebuscadas, é melhor entrarmos no que interessa. Já há algum tempo que tenho o caso na ideia, mas pensei que seria melhor terminar primeiro a nossa digressão e manter a coesão absoluta da equipa que formamos. É muito, muito importante para o nosso trabalho operarmos sem dissenções, unidos como um bloco, sem medidas de excepção, no ambiente mais democrático. Chega porém um momento em que, apesar de tudo, é preciso escolher uma chefia. Não se podem confiar as missões mais melindrosas a três homens, tem que se destacar um para segurar as rédeas. Ora, põe-se agora o problema da minha escolha entre os meus três colaboradores mais directos. Bem, claro que Horace tem a antiguidade a seu favor, é um posto. Claro que todos gostamos dele. Que se pode confiar nele. Que é um moiro de trabalho. Mas o facto é que não possui dotes de imaginação, não tem qualquer vocação de manuseio social, nem instinto de improvisação, e além disso é despido de todo e qualquer dinamismo. Reflecte o rosto da grande massa anónima, é uma cara amorfa entre a multidão. Quanto a Cass... bem, é melhor ser sincero: está deslocado nesta espécie de trabalho. Não possui a serenidade de um cientista frio e objectivo, é um espírito perturbado, disperso. Há já muito tempo que me certifiquei disso. Claro que cumpre o seu dever e de maneira completamente satisfatória, mas
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a verdade é que não tem condições de espírito para o embate, pode um dia gerar um conflito, e sem dúvida que tenho de o dispensar logo que o inquérito esteja concluído.

Paul ficou ligeiramente surpreendido perante a percepção do Dr. Chapman — não verdadeiramente a percepção, mas a amostra da sua visão quase omnipotente das coisas. «Muito bem, tanto melhor em relação a Horace e tanto pior para Cass. Adeus a Cass Miller— um indiozinho abandonado no deserto».

— Resta falar de si — prosseguiu o Dr. Chapman. — A verdade é que o tenho vindo a observar atentamente, em tudo aquilo que faz e em todas as circunstâncias que nos são impostas, e sinto um enorme prazer em confessar-lhe que nunca, nunca me decepcionou. Creio que gosta do trabalho que realiza.

— Muito.


— É um colaborador magnífico e a única pessoa em quem realmente posso confiar. O Paul deve compreender que neste trabalho há mais qualquer coisa para além da ciência. Evidentemente que a parte científica é a mais importante, mas não é tudo. O mundo exige mais que isso, e eu, para manter esta posição, necessito de possuir uma segunda faceta, uma máscara para afivelar ao rosto, uma aparência. Refiro-me ao aspecto social, político; isto é, para resumir, não basta que realizemos o nosso trabalho de um ponto de vista puramente científico, também é preciso colocá-lo, vendê-lo. Compreende?

— Penso que sim.

— Se eu apenas tivesse seguido o processo científico sem me dispersar por outras tarefas, sem possuir outros dons mais comerciais, o projecto não teria existência e, se existisse, estaria relegado ao mero aspecto estatístico com os livros a criarem poeira nas estantes das bibliotecas; sem a dinâmica social e sem aplicabilidade prática não poderia ter sobrevivido, não floresceria.

Paul terminou a sua bebida. A conversa começava a ter algo de perturbante — talvez decepcionante fosse o termo mais exacto. Todavia era uma exposição razoável; aliás o Dr. Chapman era sempre uma criatura razoável.

— Estou a compreender — asseverou Paul.

— Estava seguro de que entenderia — volveu o Dr. Chapman. Poucos homens possuem as necessárias qualificações para

poderem dirigir um projecto de tanta envergadura como este. Eu sou um dos poucos com capacidade para isso... — fez uma ligeiríssima pausa. — Você também, Paul.

Paul quase tinha receio de ter tido uma dilatação ocular no seu aparelho de visão. Não sabia o que havia de dizer. Limitou-se a fitar o Dr. Chapman e a esperar o que viria a seguir.

— É preciso agora que lhe conte o que se passa nos

bastidores. Volto porém a repetir que será um segredo apenas

partilhado por nós os dois.

Procurava as palavras com o maior dos cuidados, como alguém a passar em bicos de pés por um fosso de víboras adormecidas, procurando não pisar os animais.

— A Fundação Zollman contactou comigo... conhece o lugar

de destaque e importância da Fundação...

Paul fez um gesto de anuência. Conhecia muito bem. —... a instituição pode fazer coisas que a Rockeffeler e a Ford nunca fizeram. Em resumo, o seu conselho de administração está bastante impressionado com o meu trabalho, com o meu currículo. Têm-me rondado sobre uma possível expansão. Gostariam de financiar a criação de uma academia científica no Leste... um vasto laboratório semelhante ao Instituto de Altos Estudos de Princeton, um instituto que seria inteiramente devotado ao trabalho que tenho estado a fazer. Mas claro que numa escala muitíssimo mais ampla.

— Que oportunidade! — murmurou Paul, maravilhado pela enormidade do programa.

— Exactamente — disse tensamente o Dr. Chapman. — O trabalho seria produzido a uma escala verdadeiramente inconcebível. Já debati com os membros do conselho de administração os projectos actuais. Repare bem que em lugar da habitual aproximação com todos os seus limites, a academia poderia preparar simultaneamente dezenas de planos, treinar fornadas de pessoal para as sondagens, enviando numerosas equipas para todo o mundo. Pela primeira vez na história da humanidade haveria a possibilidade de se fazerem estudos comparativos sobre o comportamento sexual das inglesas, francesas, italianas e americanas. No pé em que actualmente as coisas permanecem, temos que nos limitar aos inquéritos nos Estados Unidos e em grandes zonas desconexas e dispersas pelo país, não uma cobertura total,
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do mesmo modo que brilhantes sexólogos, como Eustace Chesser, na Inglaterra, Marc Lanval, na França, Jonsson, na Suécia, o têm feito isoladamente. Ora antevê--se o gigantismo das sondagens sexuais serem feitas em conjunto pela organização. Claro que surgiriam, mesmo assim, problemas, mas seriam eliminados ou confrontados com muito melhor eficiência e com uma força de pressão muito mais poderosa.

— Que pretende dizer com isso?

— Bom, o caso é que haveria dificuldades, tanto aqui como no estrangeiro. Lembra-me que aquela sondagem francesa que o Dr. Marc Lanval iniciou em 1935... foi constantemente dificultada pelas autoridades. Mesmo por muito liberais a respeito de coisas sexuais como os franceses aparentam ser, a verdade é que parecem não gostar de inquéritos sobre a questão. Lanval queixou--se de ter sido importunado mais de uma vez pela própria Sureté. Todavia veio a obter o que pretendia, como nós também temos obtido o que desejamos.

Parou a reflectir antes de continuar.

— Ora, recordo-me de que uma das perguntas feitas por Lanval às mulheres francesas e belgas era a seguinte: «Foi uma boa ou má experiência a sua iniciação sexual na noite de núpcias?» Cinquenta e um por cento das sondadas declararam boa a experiência e quarenta e nove por cento anunciaram ter sido má. Acaso não seria maravilhoso se o mesmo investigador pudesse fazer a pergunta, com sabor comparativo, a americanas, espanholas, alemãs e russas? É o que denomino de estudos comparativos internacionais. Porém, tal como eu disse aos chefões da Zollman, isso constituiria apenas uma parte dos nossos programas.

— Apenas uma parte?

— Precisamente. Prevejo muitos outros estudos de envergadura, ramificações do nosso trabalho actual — investigações sobre a poligamia e a poliandria; sobre o efeito das doenças venéreas na vida sexual; um exame à ilegitimidade na Suécia; uma sondagem confinada às mães e aos efeitos que os filhos exercem na sua vida amorosa; outros inquéritos somente respeitantes aos negros, católicos, judeus e grupos raciais ou religiosos similares; um estudo sobre os efeitos do controlo da natalidade sobre o prazer sexual;

uma sondagem, à escala mundial, dos artistas que se devotam a escrever ou pintar cenas românticas, e por aí adiante. Não existem fronteiras para os nossos estudos e não há linguagem capaz de exprimir o bem que isso pode fazer à humanidade. A Fundação Zollman está a pensar em termos de milhões de dólares — a academia tornar-se-á uma verdadeira maravilha, um sonho, um marco miliário da civilização, aquilo por que Plínio, Aristóteles e Platão seriam capazes de se tornar escravos para conseguirem estabelecer.

— Nem sei que dizer. Não há palavras que...

— Esperava que apreciasse a minha discrição. Estou contente por tê-lo interessado. Se a academia for constituída, serei o seu presidente, o seu mentor — por momentos fixou os olhos num ponto indefinido e longínquo, depois voltou a fitar Paul. Não sei se compreende, estaria imensamente ocupado para desempenhar as funções que hoje me competem. O nosso trabalho seria realizado a uma escala nacional e internacional. Seria elevado a um nível quase governamental. A minha posição obrigar-me-ia a que, em dado momento, estivesse na Casa Branca, e, no dia seguinte, talvez me viesse a encontrar em Estocolmo com as pessoas do Prémio Nobel ou em África com Schweitzer, etc. Por isso precisaria de alguém que conduzisse o trabalho de sondagem, a recolha de material, o alimento verdadeiro da grande máquina que será a academia. É esse o cargo que lhe ofereço.

Paul sentiu que lhe subia um calor afogueante ao rosto. Queria levantar-se, estender a mão, tocar no Dr. Chapman, fazê-lo conhecer a sua expressão de significado mental.

— Sinto-me confuso, doutor. Eu... eu nunca sonhei com uma coisa dessa envergadura...

— Teria o dobro do vencimento, autoridade e uma certa... como dizer?, uma certa posição de relevo. Sim, uma posição social de relevo.

— Dentro de um ano... pouco mais. A partir do momento em que fosse publicado o actual inquérito sobre as mulheres casadas. Certamente (levantou-se subitamente, aproximou-se do cabide onnde estava pendurado o seu casaco e procurou num bolso, acabando por retirar a mão munida de um charuto; mordeu-lhe a Ponta, riscou um fósforo, exalou uma baforada e tornou a sentar-


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se...) que está a compreender que o plano só se transformará em coisa real e concreta quando tivermos a aprovação final do conselho de administração da Fundação Zollman.

— Mas eles conhecem o seu trabalho.

— Conhecem até mais que isso. Apresentei-lhes, por escrito, não só a explicação cabal e completa dos meus métodos e realizações como também um esboço pormenorizado dos meus futuros planos e daquilo de que necessito. Contudo, como a dotação será tão ampla, é preciso um estudo individual de cada membro do conselho e uma maioria favorável de votos, quando a junta se reunir no Outono. Tal como as coisas agora se encontram, creio que a maioria se sente inclinada a apoiar a criação de uma academia devotada aos estudos sexuais no âmbito internacional. Mas é claro que muita coisa pode acontecer entre este momento e a reunião aprovativa. Os homens do conselho de administração são seres humanos; são, em geral, homens inteligentes, mas são também produto de todas as camadas sociais, criados dentro de toda a estrutura, preconceito e susceptibilidade (com esta susceptibilidade quero significar o criticismo desfavorável) e podem ser influenciados a votar contra ou a favor. Observei casos destes muitas vezes.

Paul sabia agora que o Dr. Chapman tinha algo de específico na ideia, mas não atingia o que fosse.

— Penso que não tem qualquer razão para estar preocupado.

— Mas claro que tenho, Paul. Claro que tenho todas as razões para estar preocupado. Não lhe quero esconder nada sobre o assunto. Está ao meu alcance a maior oportunidade da minha vida... e da sua também. Está quase à vista a realização de um grande sonho e, todavia, um ligeiro erro cometido até fins do Outono, por muito insignificante que seja, poderá derrubar todos os nossos planos e fazer com que os homens da junta directiva da Zollman se voltem contra nós — fitou Paul intensamente. — Já ouviu falar no Dr. Victor Jonas?

— Evidentemente.

Todas as pessoas ligadas ao Dr. Chapman conheciam, por dever de ofício, o Dr. Jonas, um psicólogo e um conselheiro matrimonial bastante iconoclasta e sem papas na língua. Quando o segundo livro do Dr. Chapman fora publicado, o Dr. Jonas tinha-o

comentado em vários jornais académicos e havia feito uma crítica acentuadamente desfavorável. O seu talento retórico e a riqueza de imagens de que se servira para criticar levaram muitos jornais e revistas a citarem-no como contraponto das sondagens Chapman.

— É o nosso advogado do Diabo — disse o Dr. Chapman.

— Como?

— Em todos os processos destinados a promover à santidade um obscuro e corajoso missionário suspeito de haver praticado alguns milagres, isto é, no estudo evolutivo para uma canonização, além das fontes legítimas de defesa, o Vaticano nomeia um chamado advogado do Diabo, que, pesando os prós e os contras, tenta encontrar causas contrárias que impeçam a canonização. Frequentemente esse advogado tem êxito na sua obra de demolição. Ora bem, o Dr. Jonas é o nosso mais forte obstáculo, a nossa oposição. Presentemente está a escrever um desenvolvido estudo sobre o trabalho que levamos a cabo.



— Tem a certeza disso?

— Absoluta. Tal como já lhe disse, Paul, de modo nenhum posso ser somente um cientista puro. Travo uma batalha de todos os dias e por isso tenho que ter as minhas fontes informativas. O Dr. Jonas está a escrever o seu estudo sobre a minha obra e, acidentalmente, tenho conhecimento que é fortemente desfavorável. O livro do Dr. Jonas sairá a lume antes da reunião da junta administrativa da Zollman.

— Mas porque é que ele faz isso?, quero dizer, porque é que ele empreende essa obra?

— Porque foi comprado para a fazer. Não estou senhor de todos os factos, o caso é bastante melindroso e secretivo, mas a verdade é que existe um pequeno grupo dissidente no conselho de administração, a facção Anthony Comstock, que se opõe ao auxílio financeiro para a edificação da minha academia. O grupo tem outros planos com respeito à dotação. Quando lançaram os olhos em redor em busca de alguém que se pudesse fazer eco da sua oposição, encontraram o Dr. Jonas como escolha natural. Sem dúvida que ele é contra nós — não sei porém dizer se será por inveja, por maldade, por desejo de publicidade ou por qualquer outra razão —, o que sei é que não gosta de nós, e essa minoria de gentes da Zollman resolveram explorar, servir-se da sua atitude.


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Estou seguro de que lhe ofereceram dinheiro para fazer uma análise cuidadosa e desvirtuante dos nossos métodos e realizações, reduzindo-nos a pedaços. A sua obra, uma vez pronta e publicada, pode ter um efeito devastador... não no público, mas no julgamento da junta administrativa da Fundação Zollman. Poderá muito bem ser o veículo de destruição da minha... da nossa academia.

— Quer dizer com isso que tem conhecimento do caso e não

fez nada para o solucionar?

O Dr. Chapman encolheu os ombros.

— Que posso eu fazer? Não me ficaria bem que eu... que eu reconhecesse até esse homem.

— Então reforce o seu caso perante o público. Compre publicistas que rebatam o caso.

— Não serviria de ajuda para o melindre da questão, nem seria o remédio mais adequado para uma solução que tem que ir direita ao núcleo do problema. Só há uma coisa a fazer... procurar Jonas; ele encontra-se em Los Angeles. Procurá-lo e falar com ele.

— Duvido que ele escute a voz da razão.

— Não se trata da voz da razão — Chapman sorriu. — Trata--se de dinheiro. Obviamente, é um homem que pode ser comprado.

— Como?

— Fazendo-o ingressar no nosso projecto como consultor, como associado. Prometendo-lhe um lugar importante na academia. Não podemos batê-lo, logo temos que o absorver e neutralizar. Jonas não poderá criticar um organismo de que faça parte.



Paul abanou a cabeça negativamente.

— Uma pessoa do seu nível, Dr. Chapman, não pode contactar com Jonas para procurar suborná-lo.

— Suborná-lo? — o largo rosto do Dr. Chapman exprimia uma surpresa genuína. — Ora, não se trata bem disso. Esse homem, em boa verdade, poderá ser-nos muito útil. Devia já ter sublinhado esse facto. Ele podia impedir-nos de nos tornarmos complacentes em demasia. Podia continuar a desempenhar o papel de advogado do Diabo, mas para nos apoiar, para nosso benefício, para nos melhorar, não em nosso detrimento.

Paul desejava acreditar naquelas palavras. Tentava ver o valor

Dr. Jonas quando ele abandonasse o grupo dos dragões para se integrar no grupo de cavaleiros daTávola Redonda. Pensava que os valores lançados por Jonas no prato da balança da justiça poderiam ser consideráveis para vencer uma causa justa.

— Estou a compreender. Mas sejam quais forem os motivos que pretenda apresentar, o caso é que se procurar contactar com ele pessoalmente continuará a parecer um suborno.

— Mas não faço tenções de o procurar. Claro que você, Paul, tem razão quanto a esse ponto. Nem podia tomar uma atitude dessas. É evidente que não sou o homem indicado para essa missão, Paul, mas você está talhado para ela, é a pessoa mais qualificada para se encarregar do caso. Espero que aceite — sorriu. — Não se trata agora só de mim, trata-se de nós... ambos estamos em causa.
— Ora, ora, até que enfim que temos entre nós o herdeiro aparente da coroa — disse Cass Miller logo que Paul entrou no bar do comboio, reunindo-se à mesma mesa em que estava sentado o antigo zoólogo juntamente com Horace Van Duesen.

— Foi longa a sessão — continuou Cass, dando ênfase especial à pronúncia das palavras. — Qual foi a conjura que você e o velho romano planearam para os Idos de Março?

— Estivemos a elaborar o projecto de um novo inquérito — respondeu Paul suavemente. — Sabe, resolvemos fazer entrevistas aos homens que estão a realizar entrevistas sexuais com as mulheres para ver se conseguimos estabelecer o que é que os faz serem tão amargos e cínicos.

— Eis uma resposta com piada — retorquiu Cass, rindo ruidosamente, ao mesmo tempo que emborcava o conteúdo do seu copo.

Paul olhou de relance para Horace, que fazia rodar lentamente o copo que tinha na mão, absorto.

— Que se passa consigo? Efeitos da companhia de Cass?

Van Duesen fitou-o, levantando a cabeça.

— Não. Estava a pensar em Los Angeles. Não gosto de Los Angeles. Preferia não ir lá.

— E perder todo aquele clima magnífico?

— De boa vontade lhe abandonava esse gozo.


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Paul premiu uma campainha que havia no rebordo da mesa e, pouco depois, apareceu um criado negro, de clássico casaco branco. Paul pediu-lhe que tornasse a encher os copos dos seus colegas e que trouxesse um uísque para si. Ao seguir o criado com os olhos, Paul reparou que na carruagem havia três outras pessoas: um casal já de idade, folheando revistas e, quase no outro extremo do compartimento, sentada, uma loira que fingia ler um livro e levava aos lábios, de vez em quando, um copo que tinha à sua frente.
Cass seguiu a direcção do olhar de Paul e voltou-se um pouco para observar a loira.

— Belas tetas, hem! — disse ele com ares entendidos. — Na verdade são umas belíssimas tetas.

— É preciso cautela com a lingua. Mais baixo que ela pode ouvir.

— É isso precisamente que pretendo — Cass sorriu para Paul. — Ela deve sentir-se orgulhosa dos seios que exibe. De acordo?

— De acordo — respondeu Paul.

— E talvez queira partilhar um bocadinho connosco — disse, rodando o corpo o mais que pôde para olhar bem para a loira.

A rapariga cruzou as pernas, puxou um pouco a saia para baixo e concentrou-se no livro.

Cass, uma vez mais, desatou a contar uma anedota carregada de pornografia e sem graça, a respeito de uma loira com quem tivera relações antigas em Oaio. Pouco depois o criado trouxe a pedida rodada, paga por Paul, e os três procuraram na bebida o esquecimento de todos os seus agravos.

— Com mil raios, gostava de saborear aquela loira — exclamou Cass, ingerindo o conteúdo do seu copo.

— Esse estímulo deve-se ao andamento do comboio — disse Horace com ponderação.—Tenho observado frequentemente que as pessoas se sentem mais pronunciadamente estimuladas no que diz respeito ao sexo quando viajam de comboio, barco, avião, etc.

— Cantigas — replicou Cass.
— Começa a estar embriagado. Porque é que não se vai deitar?

— Não, nada de ir para a cama — Cass afastou a cadeira. Preciso de me devotar ao trabalho de missionário esclarecedor das

massas, é necessário que seja um propagador do evangelho do Sr. Chapman. Vou fazer daquela pecorazinha um símbolo estatístico.

— Cale essa imunda boca! — E os olhos de Paul chamejavam

de cólera.

Cass, por momentos, fitou-o com uma centelha de ódio, depois esboçou um sorrisinho perverso.

— As minhas desculpas, apóstolo, por ter invocado em vão o

nome do senhor.

Levantou-se e, cambaleante, dirigiu-se para o extremo da carruagem-bar. Pegou numa revista que estava em cima de uma cadeira e sentou-se ao lado da rapariga loira. Ela, muito empertigada, continou a ler. Cass, deitando-lhe um olhar de viés, começou a desfolhar com lentidão as páginas da revista.

Paul bebeu o resto do líquido que estava ainda no seu copo.

— Preparado para ir para vale de lençóis? — perguntou a Horace.

— Parece-me bem que sim — todavia, Van Duesen não fez o mais leve movimento para se levantar, ficou absorto, contemplando o copo que tinha na sua frente.

Observando o sombrio rosto do amigo, Paul perguntou-lhe:

— Passa-se alguma coisa consigo?

Horace não respondeu imediatamente. Continuou imóvel, contemplativo, inerte. O único movimento que havia nele era o cruzar e descruzar dos dedos enclavinhados no copo. Finalmente ajeitou os óculos que lhe tinham descaído para o meio da cana do nariz e fitou Paul com os olhos míopes.

— Sim, estou um pouco preocupado — disse com um tom de

voz profissional, um tom que parecia singularmente destituído de

conteúdo emocional. — No entanto tal preocupação parece ser

uma rematada tolice da minha parte.

Paul ficou sem saber que dizer.

— Se quer falar acerca daquilo que o preocupa estou às suas ordens.— Bem... — hesitava visivelmente, com uma profunda ruga Vincada na testa larga de homem inteligente. — Bem... sabe que eu fui casado, não é verdade?

Era mais uma confirmação do que uma pergunta. paul não procurou iludi-lo.


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0 Relatório Chapman 113

— Decerto, é voz corrente em Reardon.

Conquanto Paul conhecesse Horace Van Duesen já há três anos e tivesse trocado com ele confidências de carácter banal nunca o ouvira falar do seu casamento. Para ele parecia ser assunto tabu, olvidado, passado à história.

Paul ouvira falar na Sr.s Van Duesen ocasionalmente, outros a haviam mencionado em várias ocasiões e sempre de passagem. Por tudo que ouvira, Paul acabou por compreender que a mulher de Van Duesen deixara a marca da sua passagem pelo complexo universitário, tendo partido cercada de desonra.

— Acontece que a minha mulher vive no distrito de Los Angeles — disse repentinamente Horace. — Ora eu detesto-a, nem por sombras quero tornar a vê-la.

— E quem lhe diz que voltará a encontrá-la? Los Angeles é uma cidade enorme. Que diabo, Horace, você esteve na cidade há quatro anos aquando do inquérito aos celibatários. Penso que ela já estava em Los Angeles nessa ocasião, e você sobreviveu à perigosa prova.

— Há quatro anos era diferente. Nessa altura ela vivia em Burbank, mas agora vive em The Briars.

Paul franziu a testa e tentou pensar em qualquer coisa que pudesse dar tranquilidade ao amigo.

— Tem a certeza de que ainda lá vive?

— Pelo menos há um ano vivia.

— Ora, então não é caso para se impressionar. Todas as probabilidades se encontram do seu lado. A localidade deve fervilhar de mulheres e só contactaremos com uma ínfima parte.

Horace abanou a cabeça com incredulidade, mas resignado, como um condenado a quem não é oferecida outra alternativa senão entregar-se ao carrasco que o irá supliciar.

— O caso não me agrada. É tudo. O que sei é que não a

quero ver nem de longe. Não vislumbro o que faria se me

encontrasse cara a cara com ela... — fez uma pausa deliberada e

fitou Paul furtivamente. — Se soubesse o que se passou

compreenderia a minha atitude.

Apesar daquelas palavras, que pareciam ser o preâmbulo de uma confissão, Horace comprimiu os lábios e não deixou passar o esperado desabafo.

Paul sentia-se tão inútil como um bom samaritano que tivesse de se defrontar com uma noite brumosa, onde não fosse possível ver um palmo diante do nariz.

— Julgo que pode confiar em mim, creio que pode ter confiança em si mesmo. Ao que parece não foi você que procedeu mal em... abandoná-la à sua sorte.

— Na altura da ocorrência não tive tempo para pensar. Procedi no meio da excitação natural. Aliás era impossível poder pensar friamente — disse Horace num tom ambíguo. — Mas já tive quatro longos anos para pensar maduramente no que ela fez.

Paul pensou que espécie de escândalo teria sido para conseguir alterar um homem tão desapaixonado como Horace Van

Duesen.


Aguardou que o amigo prosseguisse na sua narrativa, mas Horace de novo se fechara na sua concha íntima, recolhera-se na fronteira privativa do seu espírito segregante.

— Bom, o melhor é não pensar no assunto. Mesmo que a

encontre estou certo de que será capaz de dominar-se. Mas

apostaria o meu salário de uma semana em como nem sequer de

fugida lhe pousará a vista em cima.

Horace pareceu não ouvir as palavras de consolação. Sacudiu a cabeça com resignada tristeza, uma tristeza em que havia algo de inevitabilidade.

— Pedi ao Dr. Chapman para optarmos pelo inquérito em

S. Francisco em vez de virmos a Los Angeles, mas bem sabe que

quando se lhe mete uma coisa na ideia...

Paul compreendeu que o amigo não acrescentaria mais nada. Como a maioria dos homens que vivem sós, Horace Van Duesen entregava-se a uma contínua revivescência do passado. A apreensão pelo temido encontro tinha um número infinito de Probabilidades favoráveis para que não ocorresse, mas era Ridente que ninguém seria capaz de o convencer disso.

Finalmente, Paul optou por levantar-se.

— Vamos, meu velho, trate de vir esquecer as tristezas nos

braços de Morfeu. Já será muita sorte se conseguirmos dormir

Urr)as cinco ou seis horas. Quanto ao futuro, amanhã estará

dernasiado ocupado para pensar seja no que for além do trabalho.

Horace anuiu com a cabeça, sem convicção, mas levantou-se.


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Esperando para dar passagem ao amigo, Paul lançou um olhar a Cass e à loira. Ao que se afigurava, estavam já a entabular um amigável diálogo; Cass acabara de lhe dizer qualquer coisa engraçada, porque ela ria. Então, a rapariga inclinou-se mais para Cass, e este afagou-lhe levemente o braço. Teve tempo de ver que a mão de Cass, do braço, passara às costas e que descia ousadamente, fixando-se no traseiro rechonchudo. Entretanto, um pouco perturbada, a loira dizia-lhe qualquer coisa.

Sim, talvez se tratasse do movimento embalador do comboio, provocador de excitação sexual. Também aquela rapariga devia ter uma história sexual conveniente para a estatística do inquérito. No fundo tudo se resumia à pergunta: «À vista do órgão genital masculino sente-se excitada?» Existe uma profunda excitação em catorze por cento das sondadas. Era a resposta fria e objectiva.

Paul voltou-se. Horace já tinha desaparecido do salão. Bruscamente, Paul recordou-se do modo como certa pessoa se referira à mulher de Van Duesen. Fora um professor cheio de preconceitos que a designara pelo eufemismo erudito de hetaera. Seria o símbolo adequado? Paul fatigou-se de dar tratos à imaginação para se orientar naquele caminho nebuloso. Apressou o passo na peugada de Horace, impelido contra as paredes do estreito corredor a cada balanço.

Lá à frente fez-se ouvir o silvo da máquina. O comboio, indiferente a todos os problemas humanos, furava a noite em direcção do ocidente.

3

Quando Kathleen Ballard reduziu a velocidade de aceleração do Mercedes, cuidadosa, devido ao intenso trânsito de Village Green — sempre maior de manhã, na medida em que as residentes convergiam para o centro comercial a fim de fazerem as suas compras antes de almoço — e acabou por parar junto ao sinal vermelho de Romola Place, compreendeu que, afinal, o seu devaneio não fora mais de que uma fantasia, um ardente desejo a que nenhuma verdade corresponderia.



Acordara relativamente cedo e, na opaca manhã, onde o sol se começara a levantar, ficara deitada, de costas, imóvel, de olhos fechados, mas com a consciência de tudo o que a rodeava. Reflectira sobre o longo dia que iria ter à sua frente e, eivada de desejo de vida, pensara intensamente que poderia ser o dia em que se iria passar qualquer coisa de novo, fora do comum.

Na noite anterior os jornais tinham noticiado amplamente, com uma incrível soma de pormenores, a chegada do Dr. Chapman a The Briars, a conferência do Dr. Chapman (em grande parte os periódicos baseavam-se no comunicado fornecido à imprensa por Grace Waterton) e muitos inseriam fotografias do famoso cientista. Muito embora a equipa de sondagens tivesse chegado, Kathleen ainda se agarrava ao devaneio de haver uma possibilidade de que a reunião se malograsse, que fosse cancelada à última hora. Talvez acontecesse alguma coisa ao Dr. Chapman. Podia morrer repentinamente com um colapso cardíaco... não, tal pensamento não era uma coisa justa; era melhor que fosse atropelado e que, aPós uma longa convalescença, voltasse a ficar bom. Num tal caso era natural que os assistentes cancelassem as entrevistas, uma


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vez que o material recolhido já devia ser mais que suficiente... Ou era possível que as coisas viessem a passar-se de uma outra maneira mais convincente: de per si, cada uma das mulheres de The Briars podia decidir firmemente esquivar-se a comparecer àquela provação, àquela humilhação. Não havendo nenhuma presença, a sua falta não seria notada, era óbvio. O Dr. Chapman, desencorajado, anularia a conferência e, com o seu estado-maior, partiria para um inquérito em Pasadena ou San Diego.

Quando por fim o Sol, em pleno desenvolvimento, se insinuou através dos cortinados, e soou o estridente grito de alarme da campainha do despertador, abriu finalmente os olhos. Ouviu Deirdre a mexer-se no quarto contíguo e resolveu-se a saltar da cama, convencida de que a conferência e a sondagem eram um caso definitivamente arrumado. Não precisava de se preocupar mais com o assunto.

Todavia, após abluções, o pequeno-almoço e a questiúncula com Deirdre, voltou ao quarto de cama para tirar o roupão e envergar uma camisola e uma saia, apressando-se a sair.

Agora, à medida que se aproximava do local da Associação Feminina, conduzindo o seu Mercedes, iam-se-lhe desvanecendo as esperanças tão laboriosamente tecidas durante aquele espaço matinal. Ao chegar a Romola Place, escrutinando a longa e íngreme rua, as esperanças varreram-se-lhe por completo do espírito. Para lá da curva, as bermas dos passeios estavam pejadas de carros. Havia automóveis estacionados em frente dos Correios, do Clube dos Optimistas e no parque da Câmara de Comércio. Olhando para o edifício de dois andares da Associação, descortinou à entrada três mulheres — não estava bem certa por causa da distância, mas uma delas parecia Teresa Harnish.

Ouviu um buzinar impaciente atrás de si; Kathleen espreitou pelo espelho retrovisor e viu um pesado camião de transporte de lacticínios. Carregou no acelerador e, descrevendo uma curva, desceu Romola Place. Seguia com lentidão, procurando um lugar para estacionar na berma da direita. Uma nova esperança lhe surgia, uma espécie de saía mental infantil da última hora; claro que se não encontrasse sítio para estacionar teria que perder a conferência. Mas até aquilo lhe foi negado. Um pouco para além da Câmara de Comércio viu um Cadillacafastar-se do seu buraco.

Relutantemente, realizou a manobra correcta e entrou no espaço livre. Não havia qualquer desculpa plausível para não assistir à palestra do Dr. Chapman.

Caminhando em direcção da Associação Feminina, Kathleen começou a pensar em Deirdre. No capítulo das suas relações com a filha, aquela fora uma das manhãs mais infelizes. Sem dúvida que Deirdre era um verdadeiro encanto de criança (toda a gente a achava parecida com Kathleen), com excepção daquelas manhãs em que tinha os seus ataques de mau génio. Ora naquela manhã comportara-se como uma furiazinha, gritara, barafustara, não se quisera deixar vestir e, depois de vestida, fizera chichi nas calcinhas, obrigando-a a substituir-lhas. Já à mesa recusara-se a comer o pequeno-almoço, e, quando a monitora, Olive Keegan, aparecera com a carrinha da escola, fizera uma fita para tomar o seu lugar no veículo. Detestando-se pelo acto, Kathleen tivera que entrar no campo dos subornos, dando a Deirdre um pacote de pastilhas elásticas e um livro de historietas que tinha guardados para lhe dar no próximo domingo.

Tais rebeliões, um dia em cada semana, deixavam Kathleen esgotada e nervosa. Por diversas vezes falara no caso ao pediatra, o Dr. Howland, mas este, sempre apressado com as suas consultas, respondera-lhe resumidamente que todas as crianças de quatro anos necessitavam de uma certa severidade na maneira de as educar «...Fronteiras do comportamento... necessidade de autoritarismo... com as birras, as crianças pretendem saber até onde podem ir...»). Uma das coisas que Kathleen mais detestara em Boynton fora a incompletude da tarefa que lhe competia como pai. A partir do parto, compreendera imediatamente que seria inútil Pedir qualquer comparticipação na educação da criança ao marido. O verdadeiro defeito das crises de Deirdre talvez residisse, porém, nela própria, talvez fosse ela a culpada. Talvez fosse diferente se deixasse de viver como uma reclusa...

Ted Dyson era um candidato, mas Kathleen não alimentava ilusões acerca dele. Sabia que Ted só estava interessado nela e nao numa pobre criança de quatro anos; não tinha paciência para aturar crianças. Mas talvez o fulcro da questão não residisse em era um homem em casa como símbolo de uma pretensa autoridade eaucatória, talvez que Deirdre pretendesse dela, Kathleen, uma
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coisa que ela não lhe — dava calor humano, calor de mãe. Não lhe tinham, porém, dito que era falha de todo o calor? Atrás dela ouviu uma voz chamar.

— Kathleen!

ela ia precisamente a entrar. Voltou-se e viu Naomi Shields, que atravessava a rua. Kathleen ficou à espera dela.

— Cuidado, Naomi! — gritou, ao ver que se aproximava um

carro a grande velocidade.

Naomi deteve-se a meio da faixa, depois olhou, sorridente, para o descapotável que se aproximava, esperando que passasse. O condutor do automóvel de luxo, um homem ainda jovem, moreno, envergando um casaco desportivo às riscas azuis e brancas, freiou o carro mesmo em frente de Naomi. Esta, acentuando o sorriso, fitou o homem e, contornando a parte dianteira do descapotável, encaminhou-se para o passeio.

Kathleen viu que o condutor do veículo ia observando com gulosos olhos de apreciador o manear das ancas de Naomi. Por fim, com um suspiro de resignação (pensando na mulher ou falta de ousadia?), pôs o carro cm andamento e afastou-se.

Kathleen olhou atentamente para Naomi. Tentou apreciá-la do ponto de vista do condutor do veículo e teve a certeza de que Naomi Shields seria sempre capaz de atravessar as ruas em segurança no meio do mais infernal trânsito. A figurinha pequena e compacta de Naomi exsudava uma sensualidade evidente, clara, sem subterfúgios, e o vestido de malha, colado ao corpo, que envergava, mais fazia acentuar a chamada atractiva. Kathleen pensou que muito poucas mulheres, sobretudo na casa dos trinta anos, podiam envergar com êxito vestidos de malha justos. Para Naorni não oferecia qualquer problema. O seu rosto de bonequinha, as pernas bem torneadas, a esplendente linha da cintura e ancas e o extraordinário busto deviam ser coisas de enlouquecer os homens. Mas que espécie de homens? Bem, isso seria uma coisa a que o Dr. Chapman, dentro de alguns dias, poderia responder cabalmente.

Entretanto, Naomi chegara ao local onde ela estava.

— Sinto-me muito contente por tê-la encontrado, Katie. Detesto

ter que encarar sozinha aquele verdadeiro jardim zoológico.

Kathleen olhou-a atentamente, e o seu apurado olfacto

percebeu, por baixo do perfume, um acentuado odor a gim.

— Também eu estou contente por você ter vindo—respondeu, não conseguindo encontrar outra frase que fosse menos banal.

— Em boa verdade estive quase para não vir. Acordei com uma terrível dor de cabeça, mas agora já me sinto muito melhor.

Parou para examinar Kathleen dos pés à cabeça.

— Você tem um aspecto maravilhoso; como é que consegue

estar tão fresca a esta hora?

— Creio que se deve a uma vida regrada — respondeu

impulsivamente Kathleen.

Só depois se lembrou das histórias que corriam sobre a vida de Naomi, e detestou-se por ter proferido tais palavras.

No entanto, Naomi pareceu não prestar qualquer atenção ao facto. Olhava para a porta da Associação.

— Imagine-se, uma conferência sobre a sexualidade às dez e meia da manhã! — exclamou.

— Pensa que seria melhor e mais apropriado à noite?

— Bem... não era isso exactamente o que queria dizer. Penso que o sexo é uma coisa magnífica pela manhã... depois de uma pessoa ter lavado os dentes.

Soltou uma súbita gargalhada e enfiou o seu braço no de Kathleen.

— Vamos juntar-nos ao rebanho de ovelhinhas imbeles.

No enorme e acinzentado átrio estavam quatro mesas em fila indiana, com um afastamento de alguns metros entre elas, onde se achavam colocados cartões, destacados, em que se podia ler «de A a G», de «H a M», «de N a S» e «de T a Z». Por detrás de três das mesas viam-se três raparigas com todo o tipo de dactilógrafas-estenógrafas, bastante feiotas, e numa das mesas da extremidade, mais perto da porta, estava uma quarta rapariga, alta, bastante magra, mas não deselegante, e de cabelos loiros, com um ar imperativo e absolutista.

— Eis o centro de mobilização — disse Naomi em voz

suficientemente audível.

Ao que pareceu, foi ouvida pela rapariga alta e loira, pois que se levantou com um sorriso de incerteza a vogar-lhe no rosto pálido e acabou por avançar.

— Sou Miss Selby, secretária particular do Dr. Chapman. As


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senhoras vêm para assistir à conferência?

— Houve alguém que nos disse que iam exibir umas

peliculazitas pornográficas. Será verdade? — perguntou Naomi

em ar zombeteiro.

Miss Seiby pareceu ficar um pouco confusa. Mas acabou por pigarrear e declarar com um forçado sorriso:

— Informaram-na mal, minha senhora.

— Espero que não tenhamos chegado demasiado tarde — disse Kathleen para deitar água na fervura.

— Não, a conferência só começará dentro de cinco minutos. Mas o auditório já está quase cheio.

Kathleen seguiu atrás de Naomi pelo corredor e as duas entraram no vasto hemiciclo. O auditório recebia luz por três amplas janelas rasgadas no lado dos lugares da assistência; na parede que servia de pano de fundo à tribuna dos conferencistas havia uma enorme bandeira. O salão de honra, com trezentos lugares, parecia naquele momento um vasto e irregular oceano de cabeças femininas e de coloridos chapeuzinhos. Muitas daquelas cabeças voltaram-se para a porta, e Kathleen, de modo vago, sorriu para os rostos que lhe eram familiares.

— Vamos sentar-nos — disse Naomi.

— Úrsula Palmer ficou de me guardar um lugar.

Kathleen estendia o pescoço para localizar Úrsula.

De uma fila quase à frente, via-se alguém a acenar com um bloco de apontamentos. Kathleen pôs-se em bicos de pés. A mão pertencia a Úrsula, que, nesse momento, ergueu também a outra mão com dois dedos espetados para o ar.

— Parece-me que ela também tem um lugar para si — disse Kathleen.

— Ou talvez deseje ir à casa de banho, é a maneira como as meninas de escola costumam pedir à professora para ir lá fora — replicou Naomi chocarreiramente.

Seguiram pela coxia central, Naomi muito empertigada fazendo avultar o abundante seio e encarando as outras sócias com sobranceria, e Kathleen com a sua costumada naturalidade de senhoril elegância.

O lugar ocupado por Úrsula Palmer ficava precisamente na coxia da quinta fila, a partir do estrado, e foi com alguma dificuldade

ue se levantou para deixar passar as duas mulheres para os luga-yes que lhe ficavam imediatos.

— Viva, Naomi. Olá, Kathleen.

Depois dos cumprimentos da praxe, sentaram-se.

— Sarah Goldsmith queria que eu lhe guardasse um lugar, mas, segundo creio, não conseguiu chegar a tempo.

— Provavelmente ficou presa por causa dos filhos — disse Kathleen, voltando a pensar em Deirdre.

— Os pequenos monstros — pronunciou Úrsula, que, a maior parte das vezes, se esquecia de que também era mãe.

Naomi apontou, com o indicador muito espetado, e num gesto interrogativo, para o bloco de apontamentos que Úrsula pousara

nos joelhos.

— E possível que possa escrever um bom artigo sobre o caso

— respondeu Úrsula com certo ar de aborrecimento, à indirecta

pergunta.

Kathleen sentiu que uma mão lhe batia ao de leve no ombro. Voltou-se e encarou com Mary McManus sentada atrás, que lhe

sorria.


— Não se sente emocionada, Kathleen?

— Sim, pelo menos bastante curiosa.

— Olá, Mary — disse Naomi. — Como é que vai o nosso Clarence Darrow?

— Se é a Norman que se refere, está magnífico. Na próxima semana, o papá vai entregar-lhe o primeiro caso da firma para defender em tribunal.


— Bravíssimo — e Naomi acrescentou: — Tem algum compromisso para antes do almoço?

— Não. Estou livre até às duas. E você?

— Idem, idem. Podemos sair juntas.

Úrsula apontou com o bloco de apontamentos para a tribuna.

— Parece-me que o pano vai subir.

Voltaram-se, expectantes, para o tablado, ainda deserto. Numa das entradas laterais, surgia agora Grace Waterton, transportando um jarro de prata com água e um copo, objectos que colocou em cima da mesa do conferencista, abandonando a ribalta tão silenciosamente como entrara. Pouco depois surgiu nos lugares da orquestra e seguiu pelo corredor central, vendo que Teresa


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Harnish, como sempre exoticamente elegantíssima e com uma banda cor-de-coral a apanhar-lhes os cabelos, a chamava de uma das primeiras filas. As duas mulheres entretiveram um breve conciliábulo

— Se estão a falar da vida sexual, parece-me que repetem a

fábula dos cegos que se guiavam uns aos outros — disse Naomi

com entonação ferina.

Grace continuou o seu caminho pela coxia central. O seu cabelo, que parecia ter sido frisado com todo o cuidado, tinha um tom cinzento-púrpura, e o seu estilizado corpo parecia estar em vias de se desengonçar todo. Dando com os olhos em Úrsula e Kathleen, fez-lhes um aceno.

— A função começa dentro de momentos. O Dr. Chapman está

a acabar a conferência de imprensa — disse Grace, prosseguindo

no seu caminho.

Úrsula Palmer franziu a testa.

— Não sabia que ele dava uma conferência de imprensa. Devia estar a assistir.

— Você não quer deixar escapar nada, hem? — perguntou Kathleen. — No entanto, pergunto a mim mesma que novidades poderá o Dr. Chapman dar aos jornalistas que não sejam relatadas aqui.

Kathleen Ballard fixou o solitário palco da tribuna com inquietação, deixando os olhos vaguear pela mesa, pelo jarro de prata, pelo copo e pelo microfone postado em frente. Depois deitou uma olhadela em tormo de si, pela assistência. O zunzum das conversas terminara. Todas as mulheres que se encontravam no salão pareciam aguardar a chegada do conferencista com uma certa apreensão, dir-se-ia com um certo receio (ou seria ilusão sua?), e a tensão que reinava quase que estabelecia um bloco solidificado que se podia apalpar.

«Mas afinal que novidades nos poderá ele fornecer?», perguntou Kathleen aos seus botões.

Na ampla sala que servia de vestiário, o Dr. George G. Chapman, vestindo um fato cinzento, de camisa de uma brancura imaculada e gravata preta, estava sentado atrás da larga mesa de tampo de vidro, que abarcava com as mãos estendidas. Fazia uma declaração à imprensa sobre o término da sua longa viagem,

e fora coroada do mais espectacular êxito, acabando por afirmar e lhes queria contar algumas novidades. Às palavras do Dr. Chapman a reacção foi imediata. Paul Radford, sentado a alguma distância do Dr. Chapman, pôde ver a curiosidade brilhar nos rostos dos jornalistas presentes: cinco repórteres, quatro homens e uma mulher, pertencentes aos órgãos de informação e agências noticiosas locais, e dois fotógrafos, todos sentados em semicírculo em volta de Chapman. Um pouco mais afastado, Emil Ackerman, um homem obeso, de rosto largo e oleoso, esparramava-se numa cadeira de lona, de pernas e braços cruzados como um paxá. Paul observou-o, depois, a procurar qualquer coisa no bolso do impecável casaco de casimira castanha, retirando finalmente uma cigarreira de ouro, finamente cinzelada, de onde tirou um cigarro. Não obstante todos aqueles cuidadosos gestos, não retirara os olhos de cima do Dr. Chapman.

Entretanto, o Dr. Chapman, empertigando-se no seu lugar, contemplou os jornalistas um a um e começou a falar:

— Por toda a parte por onde tenho passado me pediram que lhes apresentasse um sumário da nossa sondagem sobre a história sexual da mulher casada americana, e eu em todo o lado me tenho recusado a fazer semelhante concessão...

Paul mexeu-se na sua cadeira, incomodado, acabando por fixar os olhos na carpete que cobria o soalho. O que o Dr. Chapman contava aos jornalistas não era inteiramente verdade, sabia-o muito bem. No decorrer do primeiro semestre do inquérito, como ponto fulcro de todas as conferências de imprensa, o Dr. Chapman insinuava generalidades respigadas das estatísticas de sondagem. Pensava, e bem, como o tinha confessado, que os fragmentos insignificantes que fornecia aos órgãos de informação seriam logo aproveitados pelos jornais ávidos de sensacionalismo e teriam as honras de primeiras páginas com títulos fabulosos, para serem devorados por um público fremente de novidades, fossem elas quais fossem. Dessa forma, o cientista estava certo de que o Projecto se manteria como uma permanente atracção pública, num constante dinamismo publicitário que, sem custar dinheiro e sem fujir à verdade, mantinha o suspense e aguçava os apetites até ao aparecimento do livro definitivo. Claro que a ciência pura ficava muito acima daqueles cozinhados preparados para o público, mas


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era tão forte o instinto de sobrevivência do projecto sobre a coesão do espírito científico que, quase involuntariamente, o Dr. Chapman nunca deixava de lhe administrar aquelas transfusões de plasma de publicidade.

Porém, nunca antes, e isso admirava Paul, o Dr. Chapman fora tão peremptório e afirmativo em registar um facto novo para apreciação do público. Paul disse para consigo que o cientista desejava terminar a digressão com nota alta, ou talvez se tratasse do início da campanha para combater o Dr. Jonas perante o júri da Fundação Zoilman. Até então, Radford procurava não pensar na desagradável missão que o esperava. Fugia à ideia de contactar com o Dr. Jonas para o tentar subornar, mas não havia dúvidas de que o futuro do projecto estava em perigo. Parecia que isso acabava por justificar a missão que lhe estava destinada e a atitude do Dr. Chapman naquele momento.

— ...Sempre recusei — continuou o Dr. Chapman, pousando

no cinzeiro a ponta do seu charuto —, porque sentia não termos

ainda recolhido dados suficientes para esclarecer tendências

definidas; mal obtivemos esses dados mostrei-me ainda reticente

porque queria estudar e comprovar os totais entre os meus

apontamentos e as notas dos meus assistentes. Agora, que nos

encontramos no distrito de Los Angeles, onde o nosso inquérito

encontrará a sua conclusão, e que já entrevistámos mais de três

mil mulheres americanas casadas, divorciadas e viúvas, sinto ser

meu dever revelar ao público parte dos nossos dados, pelo menos

aqueles que são mais precisos e que, de modo geral, podem ter

um significado imediato, sobretudo para as mulheres casadas do

nosso país.

Observando as expressões ávidas dos jornalistas, Paul imaginou os grandes títulos, os balões inseridos nas colunas, com destaque para certas palavras proferidas pelo Dr. Chapman.

O Dr. Chapman prosseguia:

— Para os elementos do nosso grupo tornou-se inteiramente

evidente, a breve trecho, que o maior... — parou no meio da frase,

como que pesando as palavras, para rectificar — ... que um dos

maiores mal-entendidos entre os dois sexos se baseia na crença

de que os homens e as mulheres possuem emoções e impulsos

orgânicos iguais ou similares. Muito embora seja verdade que

homens e mulheres são de flagrante semelhança no composto físico das reacções genitais e naquilo que se refere à localização das zonas erógenas, a semelhança não se torna extensiva aos desejos e necessidades sexuais. Em geral o grande público parece alimentar a crença de que, no que respeita às relações sexuais, homens e mulheres sentem da mesma maneira, isto é, têm o mesmo género de reacções durante a cópula. Se bem que, e insisto neste ponto, ainda não esteja preparado para apresentar, de momento, provas estatísticas sobre tão importante pormenor, estou, todavia, preparado para fornecer sobre o caso uma declaração em termos generalizantes. Dentro desse princípio, posso pois dizer-lhes que os dados recolhidos por nós até à data indicam que a participação sexual é menos importante para a mulher do que para o homem.

Uma longa pausa. Um sorriso a aflorar-lhe aos lábios, enquanto os jornalistas se afadigavam para os seus blocos de apontamentos. Depois, os olhos do Dr. Chapman voltaram-se, num lampejo, para Paul, que inclinou a cabeça num gesto de muda aprovação. Ao olhar do Dr. Chapman, Emil Ackerman levantou uma das mãos gordalhufas numa breve saudação, como é hábito dos líderes políticos durante as campanhas eleitorais.

O jornalista que estava em pé por detrás das cadeiras dispostas para a entrevista, e que tinha um engraçado chapéu cinzento, fitou o Dr. Chapman.

— Doutor, quer o senhor dizer que, após ter entrevistado três mil mulheres, acredita que elas não estão tão inteFessadas quanto os homens nas relações sexuais?

— Sim, segundo os dados do nosso inquérito — respondeu afavelmente o cientista, apressando-se a acrescentar: — Evidentemente que me refiro à mulher casada americana. Como é óbvio, não posso falar da mulher inglesa ou da francesa.

— Pois falarei eu da francesa! — exclamou Ackerman. —

Quando, no ano passado, estive em Paris... — Parou e sorriu. —

Ora, parece-me melhor não continuar, dado que se encontra entre

nós uma senhora. Rapazes, mais tarde encontramo-nos no bar.

Houve uma risota geral, e a jovem repórter fez uma careta fingida de desagrado.

— Por mim pode falar, sou apenas uma jornalista.

Ackerman sacudiu a cabeça.
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— Não se esqueçam de que a nossa sondagem apenas inclui americanas e casadas — frisou o Dr. Chapman.

— Pode acrescentar mais alguma coisa sobre o caso, Dr. Chapman? — perguntou a jovem repórter.

Paul notou que muito embora ela tivesse uma trunfa de cabelo desgrenhada, o que lhe dava um certo ar boémio de «maria-rapaz», as pernas bem torneadas e os olhos rasgados e muito brilhantes, o rosto era atento e severo. Iria apostar que aquela rapariga era na verdade uma jornalista e não uma libidinosa, mais interessada na história do que propriamente no sexo.

— Decerto que posso — disse o Dr. Chapman, dirigindo-se à

jovem. As descobertas sobre o comportamento da mulher casada

adquirem agora mais valor à luz dos conhecimentos, em estatísticas exactas, do comportamento do americano celibatário, que serve

como termo de comparação. As respectivas sondagens mostram

que o celibatário, em regra, se preocupa mais, ou está mais obcecado, com o sexo do que a americana média. São muito frequentes

os homens que casam por via de uma razão básica imperativa: o

desejo de possuírem uma mulher sexualmente. Mais tarde, se a

decepção o fustiga ou se se cansa da mulher (não se esqueçam de

que me refiro unicamente à parte sexual do problema), o homem

que assim procedeu pode enveredar pelo divórcio, tornar-se infiel,

voltar-se para a psicanálise ou afogar no álcool as suas frustrações. Ao contrário, a mulher não casa porque deseja essencial

mente ser possuída sexualmente por determinado homem. Claro

que isso constitui uma motivação forte, mas não básica. Na sua

atitude em relação ao amor físico, a mulher é o parceiro que

desempenha o papel passivo. Casa por vários motivos: por segurança, por aceitação social, por conformismo, pelos filhos, por companhia. Claro que anseia as normais válvulas de escape sexuais,

mas em caso de decepção, em regra, resiste a tomar atitudes ex

tremistas como o divórcio, um amante, um psicanalista ou uma

garrafa. Para ela esses meios não constituem sucedâneos nem

substitutos. Se o amor físico não satisfaz a mulher, reprimirá os seus

desejos, sofrerá mas sobreviverá intacta aos choques emocionais,

sublimando as suas necessidades com outros tónicos igualmente

importantes e que são uma diversão para não descambar no desespero: os filhos, a vida e arranjo do lar, a vida social intensa, etc.

O Dr. Chapman parou, enquanto os jornalistas traçavam rapidamente as suas garatujas nos blocos. Quando todos pararam de escrever, prosseguiu:

— Com base nas nossas sondagens, suspeito bem que os homens criaram um mundo feminino inteiramente fictício, um mundo de mulheres que, em boa verdade, não existem na América dos nossos dias. É este um dos pontos mais significativos que espero poder esclarecer e sustentar por meio das estatísticas a serem explanadas no livro Uma História Sexual do Comportamento da Mulher Americana Casada, que pensamos publicar na próxima Primavera. Considerando os meios usuais de evasão e diversão — e refiro-me em especial aos romances, peças de teatro, filmes e televisão —, parece-me que os homens que são veículos de execução desses meios inventam com frequência heroínas devoradas por uma fome intensa de amor sexual, mulheres que em regra não são capazes de receber esse amor com a suficiente intensidade do seu desejo, mulheres que reagem eroticamente e sem inibições de qualquer ordem. Mas essas americanas são de pura ficção, criadas pela mente dos homens, são mulheres que se comportam exactamente como o seu parceiro masculino, isto é, comportam-se da maneira como os homens pensam ou desejam que elas se deviam comportar. Porém, as nossas entrevistas indicam que as mulheres desse tipo são raríssimas, se é que existem. As mulheres que eu e os meus assistentes temos entrevistado são precisamente o contrário disso. São essas as mulheres reais, cuja maioria, embora possa fruir ou não de uma intensa vida sexual, não fantasia sobre o sexo nem sofre a mesma excitação a que os homens são contingentes. São mulheres que, em regra, não se sentem estimuladas por verem homens nus ou seminus; que não se sentem subjugadas só pelos homens belos ou de aspecto pronunciadamente viril. Nos romances e nos filmes, habitualmente, as mulheres são flageladas por esses impulsos e estímulos, mas a realidade é diferente. No entanto a maioria dos americanos prefere pensar que as mulheres correspondem à medida-padrão apregoada pela ficção. Não é assim, não é verdade. Factos são factos.

Os jornalistas tinham as cabeças pendidas para os blocos, e as mãos que seguravam os lápis pareciam agitados de delirium tremens. A jovem repórter, porém, de testa franzida, levantou uma


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" O Relatório Chapman 129

das mãos, chamando a atenção do Dr. Chapman.

— Se o que afirma corresponde à verdade, Dr. Chapman,

porque é então que tantas mulheres apreciam esses romances,

peças de teatro e filmes inspirados em questões sexuais? Explico-

-me melhor: esses livros, especialmente, vendem-se com tal êxito

que uma pessoa acaba por ficar com a impressão que de facto as

mulheres se sentem estimuladas por eles.

O Dr. Chapman comprimiu o lábio inferior com dois dedos e levantou os olhos para o tecto.

— Estou satisfeito por me ter posto essa pergunta — disse ao

cabo de uns momentos. Não possuo dados estatísticos sobre o

assunto. Faltam-me factos comprovados. Será verdade que tais

livros têm essa aceitação espantosa entre as mulheres? Não sei.

Mas vamos partir da hipótese que isso corresponde a uma verdade.

E provavelmente corresponde. Do meu ponto de vista, só há uma

resposta para isso. Uma resposta que, muito embora pareça

contradizer aquilo que há pouco declarei, em nada altera o facto

alicerçado pelos dados que colhi. Claro que muitas mulheres se

sentem absorvidas pelo sexo, mas de uma maneira muito diferente

daquela que os maridos ou os amantes supõem. As mulheres são

atraídas para a ficção romântica, não para buscarem um aspecto

de identificação ou para serem estimuladas, mas sim para

satisfazerem um sentido de irritante curiosidade. Primeiramente

porque sabem que os homens têm em grande conta a atracção

sexual, e são muito grandes as compensações existentes na nossa

sociedade a respeito de se possuir tal poder de atracção e

compreendem que têm de se devotar a isso, quer queiram ou não,

de modo a atingirem determinados fins. Em segundo lugar, a

maioria das mulheres tem que se submeter à propaganda sexual

dos homens. Moem-lhes, diariamente, o bichinho do ouvido com

doses maciças da maneira como se devem comportar e sentir,

segundo a opinião masculina, aquilo que deve ser adequado a

uma mulher que se preze. Apesar disso, os homens sabem muito

bem que as mulheres não se comportam nem sentem, senão

aparentemente, do modo como eles pretendem. O facto perturba-

-os, preocupa-os, inferioriza-os. Isso, juntamente com todo o defeito da nossa cultura — refiro-me a caminho sem propósito e sem

objectivo que a maior parte das mulheres segue no casamento —,

faz com que as mulheres se sintam frustradas. Mas este último caso é um outro aspecto da questão em que não pretendo falar. O que interessa agora é a pergunta que se põe: o que é que há com as mulheres? Que se passa de errado com elas? Posto isto, todas desejam ter conhecimento sobre o assunto, daí que se entregam aos livros, às peças de teatro, aos filmes, invejando, secretamente, as heroínas que lhes apresentam, heroínas que não existem senão na imaginação dos seus criadores. Dada a enorme soma de propaganda, grande número de mulheres casadas pensam-se anormais, julgam possuir deficiências sexuais, mas a realidade é muito diferente. Essas mulheres constituem a americana casada média, são a quota dos vinte e cinco a setenta e cinco por cento das mulheres comuns. Creio que a nossa sondagem... — parou ao entrever Grace Waterton que, da porta, fazia frenéticos sinais a Paul. — Depois — voltou a encarar os jornalistas — provará este ponto de forma altamente dramática. Alimento esperanças de que contribuirá em muito para reduzir a tensão que se verifica entre a mulher americana.

— Falando por mim, há uma coisa que não me parece muito

clara... — começou a jovem jornalista.

Paul levantou-se do seu lugar e inclinou-se para o cientista.

— Desculpe, Dr. Chapman — interrompeu. — As senhoras já

estão todas reunidas e à espera.

O Dr. Chapman fez um gesto de compreensão e ergueu-se repentinamente do seu lugar.

— Tenho muita pena — disse ele dirigindo-se em primeiro lugar à repórter e depois aos outros jornalistas — mas certamente que se lembram de eu lhes ter dito que a conferência de imprensa terminaria logo que chegasse o momento de iniciar a palestra. As senhoras da Associação mostram-se muito amáveis em vir e não as devo fazer esperar — sorriu cordialmente. — Evidentemente que estão convidados para assistir à minha conferência. Mas, para lhes poupar tempo, dado que sei o interesse posto na reportagem, O rneu assistente Paul Radford vai distribuir-lhes cópias da minha c°rnunicação.

— Os meus agradecimentos em nome de todos, Dr. Chapman """" disse urbanamente o repórter do chapéu cinzento, que devia ser

decano dos jornalistas locais.


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—O prazer foi todo meu, eu é que devo agradecer-lhes a atenção que me dispensaram. Muito obrigado.

Chapman, já à porta, esperou por Emil Ackerman, pousando-lhe, amigavelmente, a mão no ombro.

— Emil, porque é que não procura um lugar na sala? A comunicação não excederá uma hora, poderemos depois almoçar juntos.

Paul agarrou no monte de cópias mimeografadas e começou a distribuí-las pelos jornalistas.

A maneira fácil, despida de formalismos, como o Dr. Chapman começou a falar, fez com que a tensão e a ansiedade se dissipassem entre a assistência. Até essa altura, embora de modo obscuro, todas aquelas mulheres pareciam sentir que houvera uma espécie de violação daquilo que tinham de mais íntimo, tinham receio de ser obrigadas a encarar certas verdades, mas tudo isso desapareceu perante a amabilidade, a simpatia e a descontracção com que aquele homem encanecido falava com elas. A personalidade do Dr. Chapman mostrava-se tão tranquilizadora como a de um velho médico de família sentado na borda da cama durante uma doença.

Até então, Kathleen Ballard, mal se apercebendo, e compreendendo, do real conteúdo das observações iniciais do Dr. Chapman, tão decidida estava a rejeitá-lo, mantivera-se rígida na cadeira. Porém, gradualmente, começou a sentir um desvanecer da sua hostilidade, pelo modo afável e regular do discurso do professor. Poucos momentos depois, conseguiu recostar-se na cadeira, o mais confortavelmente que lhe foi possível, tentando compreender o que o cientista dizia, em termos tão acessíveis.

O Dr. Chapman, perfeitamente à vontade, à medida que falava, colocou os cotovelos na mesa, inclinando-se para o microfone como para uma entidade viva e amiga.

— Houve um tempo, ainda não muito distante da nossa época, em que estava na moda uma excessiva afectação de certos preconceitos tidos como virtuosos. Pensava-se que, além de outras coisas, a virtude residia em não mencionar as pernas dos pianos ou os peitos dos animais para não haver confusões que podiam pôr em xeque as boas maneiras e a boa educação, sobretudo por

um princípio que proclamava a ingenuidade como uma das melhores prendas femininas. No entanto, duas guerras mundiais bastaram para derrubar todos esses conceitos, e o sexo começou a ser discutido francamente, com a merecida honestidade. Os responsáveis principais por essa revolução pacífica foram Susan B. Anthony, Sigmund Freud, Andrew J. Volstead e o general Tojo. Quero eu dizer com isto que a contribuição para dissipar essa falsa sombra de pudor se ficou a dever à emancipação da mulher, ao arejamento psicanalítico da libido, à reacção excessiva ao Oitavo Mandamento e a duas guerras mundiais que impuseram o envio de americanos de ambos os sexos para o estrangeiro, forçando-os a absorver os padrões sexuais e os costumes de outros povos e outras culturas.

«No entanto a afectação exagerada da virtude e o falso pudor ainda estão muito longe de terem desaparecido da nossa sociedade, que se jacta de civilizada, e o sexo continua a ser uma função secreta e vergonhosa, que se evita discutir e compreender no seu valor intrínseco, para além da mera pornografia. Muito embora as mulheres tenham adquirido um certo grau de liberdade através da igualdade de trabalho, de direito ao divórcio, de uso de contra-ceptivos, de controlo das doenças venéreas, de abandono das áreas rurais menos favorecidas por troca pelos grandes centros urbanos, mais esclarecidos, onde as actividades tendem mais para o anonimato e para a diversificação e informação paralelas, apesar de tudo isso, de todos esses chamados instrumentos de liberdade ou de libertação, as mulheres não são livres nem estão libertas. Em relação à sexualidade continua a persistir uma atitude doentia e falha de senso. E muitas mulheres há que continuam a desconhecer, ou possuem um conhecimento deficientíssimo a respeito de um assunto que, quer queiram quer não, ocupa uma parte vital da vida humana, logo a vida delas mesmas.

«Consequentemente, o sexo é o único aspecto da fisiologia e biologia humana que requer um mais curado inquérito científico. Modernamente, foi iniciado um pioneirismo na direcção certa. Parece persistir a má interpretação de que fui eu que inventei a sondagem sexual moderna. Ou que ela foi criada, antes de mim, Pelo Dr. Alfred C. Kinsey. Tal não é verdade. A profissão de investigador sexual, de historiador sexual, de estatístico sexual —
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aquilo que preferirem — é relativamente recente, mas muito mais antiga do que muita gente imagina. Os autênticos inovadores nesse especial campo de sondagem foram Max Joseph Exner, que, em 1915, inquiriu 948 estudantes universitários ou recém-formados em vários ramos de ensino; Katherine B. Davis que, em 1920, sondou 2200 mulheres; Gilbert V. Hamilton que, em 1924, entrevistou 200 homens e mulheres de vários níveis sociais; Robert L. Dickinson que, antes de 1931, estudou a questão sexual em 1000 casamentos; e Lewis M. Terman que, em 1934, examinou 792 casais; além de muitos outros que lhes seguiram as pegadas.

«Um breve olhar sobre as actividades dos meus predecessores neste campo pode, ao mesmo tempo, ser instrutiva e confortante. Em 1915, um ano que foi dominado por acontecimentos de vulto, tais como o afundamento do «Lusitânia», a primeira ligação telefónica transcontinental efectuada por Alexandre Graham Bell, a estreia, nesta mesma cidade de Los Angeles, do filme O Nascimento de Uma Nação, a prisão de Margaret Sanger por instigação da Sociedade para a Supressão do Vício, de Nova Iorque, um ano preenchido pelo eclodir de nomes famosos como Woodrow Wilson, Jess Willard e William Jennings Bryan, viu também a publicação de um opúsculo de trinta e nove páginas, Problemas e Princípios da Educação Sexual, da autoria de Max Joseph Exner. O opúsculo anunciava os resultados daquilo que, quiçá, deve ter sido o primeiro estudo formal do sexo na história da América. O questionário de Exner foi posto a 948 estudantes de escolas superiores e, além de outros tópicos, continha a seguinte pergunta específica: "Já em qualquer altura da sua vida se entregou à prática de qualquer actividade sexual?" Em dez dos entrevistados, oito responderam afirmativamente, dentro da mesma proporção-padrão de dez, quatro admitiram ter tido relações sexuais com mulheres, e seis em dez confessaram que as suas práticas se limitavam ao que então era delicadamente referido como "onamismo". Conquanto Exner tivesse levado a cabo a sua sondagem para provar que a educação sexual era nociva, os resultados obtidos provaram exactamente o contrário: sem que o desejasse, havia estabelecido um novo método para a aquisição de informações sobre um assunto que até então tinha sido considerado tabu.

«Cinco anos depois, em 1920, ano em que foram presos os

anarquistas Sacco e Vanzetti, Harding eleito presidente e F. Scott Fitzgerald publicou o seu primeiro livro de combate, uma mulher chamada Katherine B. Davis empreendeu um corajoso estudo sobre o comportamento sexual das mulheres, o qual mais tarde viria a ser publicado sob o título: Factores na Vida Sexual de Duas Mil e Duzentas Mulheres. A ousada Katherine elaborou um questionário de oito páginas relacionado com os hábitos sexuais femininos desde a infância à menopausa e enviou-o a 10000 elementos de clubes femininos e a diversos centros universitários também femininos. As suas sondagens tratavam de tudo, desde a frequência do desejo sexual às experiências emocionais, nesse campo, com outras mulheres. Dos 10 000 questionários, conseguiu 2200 respostas perfeitamente utilizáveis, e dessas, 1073 pertenciam a mulheres casadas. As respostas compiladas foram publicadas, para cada pergunta específica, em escalas gráficas estatísticas. O facto marcou época, é preciso que não esqueçam que tudo ocorreu quando as vossas avozinhas ainda eram jovens, e sessenta e três raparigas confessaram ter relações sexuais diárias, enquanto cento e dezasseis admitiram ser sexualmente infelizes com seus maridos.

«Em 1924, o psiquiatra Dr. Gilbert V. Hamilton realizou uma sondagem secreta entre 200 mulheres e homens na cidade de Nova Iorque. Os inquiridos foram ouvidos numa sala do seu consultório particular e Hamilton fazia-os sentar num cadeirão preso à parede (na sua avidez de falarem sobre questões sexuais, os sondados, quando a cadeira estava livre, iam-na arrastando de tal maneira que com frequência, passados uns momentos, quase estavam sentados no colo do médico), apresentando a cada um cartões com perguntas de vários teores (quarenta e sete cartões Para as mulheres e quarenta e três para os homens). Havia onze Perguntas sobre o orgasmo, cinco sobre variações do acto sexual, onze sobre relações sexuais normais, quinze sobre homossexualidade, etc. Algumas das perguntas, tomando em linha de conta a éPoca em que foram postas, eram extremamente valiosas. Hamilton, por exemplo, fez a seguinte pergunta a todas as mulheres: Se, por uma obra de magia, pudesse premir um botão que invalidasse o seu casamento fazendo até desvanecer-lhe da mente a ideia da existência de seu marido, premiria esse botão?
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A Senhora e seu marido nas primeiras vinte e quatro horas após o acto sexual sentem-se mais, ou menos afectuosos um para o outro"?

«Em 1931, RobertL. Dickinson, psicanalista freudiano, publicou as suas descobertas sobre o casamento, tendo sido as sondagens elaboradas e conduzidas sob sua orientação pessoal. Lewis M. Terman, durante os anos de 1934-35, submeteu 792 casais a um teste que continha nove perguntas.

«Frisei também que, além destes pesquisadores, houve também outros que realizaram trabalho útil e desbravador, sendo a maior parte deles completamente desconhecidos do público leigo. Devo referir-me a Ernest W. Burguess e Paul Wallin, que, entre 1940 e 1950, sondaram 1000 pares de noivos no estado de Illinois, e a Harvey J. Locke e seus assistentes, que fizeram trabalho de vulto em Indiana na década de 1939-1949. E devo ainda mencionar investigadores sexuais como Clifford Kirkpatrick, trabalhando no Minesota; Clarence W. Schroeder, em Illinois, e Judson T. Landis, em Michigão.

«Sem dúvida que o grande popularizador em campo tão pouco conhecido até então foi o Dr. Alfred C. Kinsey, da Universidade de Indiana, falecido em 1956. Os dois inquéritos efectuados sob a sua orientação foram iniciados em 1938. Em 1948, justamente dez anos depois, publicou um livro de 820 páginas, em que apresentava o estudo das actividades e comportamentos sexuais de 5300 homens: Comportamento Sexual do Macho Humano. Cinco anos'mais tarde publicou um livro similar sobre a mulher, tendo utilizado treze assistentes para a realização do seu inquérito. Não obstante ter tido que enfrentar o bloqueio e malevolência por parte até mesmo de outras personalidades ligadas a esse especial campo de actividade, Kinsey foi um cientista puro e um grande cientista. Nenhum sexólogo do passado utilizou mais e de melhor maneira conhecimentos específicos sobre o assunto nem usou de mais paciência para levar a cabo um trabalho honesto. Kinsey é credor de todos os louvores por ter refinado a técnica de entrevistas e ter contribuído poderosamente para o conhecimento dos problemas sexuais e dos problemas de sondagem nesse terreno praticamente desconhecido.

«Se me permitem a imodéstia de mencionar o meu trabalho já publicado, direi ter tentado fazer com que um tal campo de

actividade científica, criado por Exner e Davis e alargado por Dickinson e Kinsey, fosse dilatado a uma amplitude e desenvolvimento mais poderosos. Certamente que gozei do privilégio de poder estudar o trabalho dos meus antecessores na matéria, e, gradualmente, pude, onde era possível, evitar determinados escolhos. Nas minhas primeiras sondagens iniciei ;um programa pouco vulgar visando a obtenção de dados íparticulares e não de dados gerais. Em lugar de realizar um inquérito entre jovens, fixei-me num tipo único — o adolescente. Em vez de realizar pesquisas sobre todos os tipos de homem, determinei concentrar-me sobre um tipo único — o homem celibatário. Em vez de examinar todos os tipos de mulheres, empe-nhei-me em sondar um único tipo — a mulher casada ou que tivesse sido casada. É um processo a que sou fortemente favorável, dado que fornece a possibilidade de concentração num só tipo de resultados mais exactos e pormenorizados, resultados esses que compreendi que seriam mais lógicos e úteis tanto à ciência em particular como a todo o público em geral. Estou convicto, através da experiência, que as minhas sondagens são uma grande contribuição para o esclarecimento da educação sexual como factor preponderante.

«Permitam-me também acrescentar, sem que pareça sofisticado da minha parte, que fui o primeiro sexólogo a aperfeiçoar uma técnica de entrevistas privadas em que, embora entrevistador e entrevistado se encontrem na mesma sala, se mantém o mais rigoroso anonimato de modo a favorecer, o mais possível, a honestidade da confissão estimulada pela honestidade de processos. Mais adiante descreverei sucintamente os pormenores da minha técnica. Além de tudo o mais, creio sinceramente que aperfeiçoei, no que se refere às entrevistas como ponto fulcro, um novo método de aproximação, de confronto, em que nada é omitido Para uma busca da verdade. Hamilton fazia as suas perguntas por escrito e recebia-as verbalmente. Terman apresentava as perguntas por escrito e recebia-as igualmente pela mesma via. Em todos os casos, as perguntas sobre o comportamento, os estímulos e excitações sexuais eram feitas de modo directo. Eu fui mais longe nesse capítulo: as perguntas feitas por mim e pelos meus assistentes são divididas em três categorias distintas, isto com o
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intuito de determinar a actividade sexual do entrevistado e individualizar a história por relação implícita, determinando de forma mais objectiva a atitude psicológica de cada sondado perante o sexo e a sua reacção primária aos estímulos sexuais. Mas não deixem que estas explicações vos confundam ou metam medo. Prometo-vos que nada há de penoso no meu inquérito e que ele é sem dúvida fascinante e, até certo ponto, divertido.

«Perdoem-me, porém, tenho estado a dissertar. O ponto que eu desejo esclarecer é que, com excepção dos nomes que citei e de outros que omiti, o assunto do comportamento sexual dos cônjuges tem sido agitado por pessoas lastimavelmente pouco informadas ou mal informadas, ou por pessoas tendenciosas e que possuem um dogma especial sobre a questão. Exceptuando aquilo que as mulheres casadas, sobretudo, aprendem por intermédio dessas fontes pouco dignificantes, ou pelas suas experiências com um ou com vários homens, geralmente tão mal informados como elas próprias, ou através de conversas exageradas, ou, ainda, tendo como veículo a falsidade da ficção novelística, a maioria das mulheres casadas continua pela vida fora a suportar o fardo de uma ignorância medieval. Em resultado disso, a eficiência e felicidade de que poderiam desfrutar está gravemente ameaçada. É facto incontestável que a questão do sexo permanece como um assunto escuso, um assunto que se debate às escondidas, entre murmúrios, em segredo, coisa suprimida pelos falsos moralistas, desconhecida do grande público e considerada, quase sempre, indecente.

«Os meus colegas e eu dedicamo-nos à tarefa sociológica de colocar o sexo como assunto de debate e abrir esse debate a toda a gente, melhorando o destino feminino por meio do conhecimento objectivo dos factos. Essa é a nossa cruzada. É esse o motivo por que hoje nos encontramos em The Briars. Queremos ajudá-las, e para isso têm que nos ajudar a provar que o sexo é uma função fisiológica e biológica natural, uma função dada por Deus a todos os seres humanos, sancionada pelo Supremo Criador, uma função que merece ser reconhecida como um acto perfeitamente decente, dignificante e agradável.»

Ouvindo o Dr. Chapman, Kathleen pensou: «Decente, limpo, dignificante e agradável... Como é que vais provar isso? Entrevistando-me a mim? Extraindo de mim os infernozinhos em

que tenho vivido? Conseguirá esse conhecimento dos factos liber-tar-nos, libertar os nossos carrascos? Será isso uma prova de casta? Oh, estúpida ciência! que sabes tu de ser mulher — um elo de ligação quase escravo, um receptáculo, a sancionada prostituta de Boynton Ballard?»

Por fim a cólera de Kathleen cedeu ao raciocínio, e o raciocínio deu lugar à dúvida que sempre a assaltava: «Será minha a culpa e não de Boynton? Poderia qualquer outro homem tornar-me uma criatura normal, proporcionando-me prazer e recebendo prazer em troca? Serei eu... não, não usarei a palavra frígida, prefiro usar outra... Serei eu como carne de carneiro fria?Mas porque me lembrei eu agora dessa frase? Ah, está relacionada com a história da vida de Oscar Wilde. Ernest Dowson tentou regenerá-lo, afastá-lo da sua homossexualidade e, por isso, certo dia, incitou o escritor a acompanhá-lo a um prostíbulo de Diepa. Ao sair do bordel, Oscar Wilde confessou: Foi a primeira e a última vez em dez anos. É como comer carne de carneiro fria. • Sou carne de carneiro fria e detesto sê-lo, abomino-me a mim própria por isso. Tenho que descobrir um homem. Tenho que ter um homem. Preciso de um homem. A pobre Deirdre também necessita de um pai. Porém, a maior necessidade é a minha. Preciso de um homem. Talvez Ted Dyson... Quando é que o verei?»

A breve trecho, Úrsula Palmer descobriu que era dificílimo tirar apontamentos. Por diversas vezes, absorta pelo que dizia o Dr. Chapman, menos em relação com o artigo que tencionava escrever do que consigo mesma, deixara de registar períodos inteiros do discurso.

Agora que o cientista fazia uma breve pausa para beber um copo de água, Úrsula rabiscou apressadamente no bloco «Princípios do casamento nas épocas primitivas. Grupos de homens relacionados sexualmente com grupos de mulheres. Mudavam de parceiros com frequência. Partilhavam as crianças

1 - O episódio relatado é verdadeiro, passado nos anos finais da vida de Oscar Wilde enquanto no seu voluntário exílio em França. A frase de Oscar Wilde gravada para a posteridade foi: «The first theese ten Years and it will be tne last It was like cold mutton!» (N. do T.).
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em comum... A Igreja regulamentou os princípios, tomou-os lei... O casamento é uma invenção puramente humana... O casamento como instituição social tem exigências, comporta deveres — principalmente nas relações sexuais».

De novo se voltou a escutar a voz do Dr. Chapman a perorar:

«Evidentemente que temos os nossos inimigos, mas esse é o estigma que acompanha todos os que tentam investigar a verdade. Desde o tempo memorável em que Sócrates, em Atenas, foi condenado por 280 dos 500 jurados do tribunal, por ter dito a verdade, até recentemente, quando Scopes, em Dayton, foi julgado culpado por ter enunciado outras verdades, os pioneiros do conhecimento humano sem pelas sempre sofreram o ostracismo, castigo e morte às mãos dos guardiães da tradição, do conservantismo, do conformismo e do obscurantismo.

«Quando foram publicados os relatórios sobre os padrões sexuais do celibatário americano, muito nos satisfez a enorme aceitação que tiveram não só entre os cientistas e eruditos como entre os leigos, que apenas estão ocupados na difícil actividade de viver e extrair da vida a maior dose possível de felicidade. Mas decerto que encontramos opositores. Estou certo de que sabem muito bem quem são esses indivíduos com o espírito empedernido, fossilizados, homens que preferem o triste e medonho statu quo da ignorância à recolha de factos através da investigação. Os homens desse tipo foram particularmente activos e férteis nas suas dissertações. Continuam ainda agora a sê-lo. Anunciaram que as nossas estatísticas constituíam um convite para uma promiscuidade à escala nacional. Anunciaram que os nossos dados, colhidos por sondagens aos homens celibatários e às mulheres casadas, eram pura subversão contra a sagrada instituição do matrimónio. Acontece porém que a maioria dos americanos de ambos os sexos, uma maioria que deseja, tanto como nós, conhecer a verdade, acreditou, como nós, que o conhecimento é melhor que a ignorância, e que a verdade, pelo contrário, poderá ser mais um elo a reforçar o ciclo do casamento e a sua moralidade intrínseca em vez de o enfraquecer e dissolver.

«Em 1934-35, Lewis M. Terman perguntou a 792 mulheres californianas: "Antes do casamento a vossa atitude a respeito do sexo era de repugnância e aversão, de indiferença, de interesse e

expectativa ou de avidez e apaixonado desejo?" Trinta e quatro por cento das sondadas, cerca de um terço, declarou com franqueza que a sua atitude fora de repugnância e aversão. Penso que poderei ir mais longe. Aventuro-me a considerar, baseado nas informações por nós obtidas, que cinquenta a sessenta por cento de todas as uniões deste país vinculadas pelo casamento encerram em si uma grave ignorância e incompreensão em tudo o que se refere à esfera sexual. Em suma, julgo que uma média de cinco ou seis entre dez senhoras que se encontram nesta sala são, provavelmente, vítimas do silêncio que rodeia a questão sexual, um silêncio que é contra a própria natureza humana. A nossa sondagem sobre as vossas normas de vida tanto quanto sobre as normas de vida de vossos maridos, no que se refere ao sexo, pode resolver grande parte dos problemas. Não podemos garantir resultados de magia, não somos mágicos, mas é meu dever recordar-lhes que onde quer que esteja a Verdade é acompanhada pela Esperança.»

Úrsula pensava, à medida que ia escutando: «Com que então cinco ou seis, em dez das mulheres que se encontram nesta sala, são vítimas do silêncio que rodeia a questão sexual!?... Sim, vitimas da incompreensão do problema sexual — eufemismo para um mau casamento —, mas mesmo assim uma coisa sem resolução se se partir da hipótese que todos os mal-acasalados podiam separar-se do seu cônjuge e ter relações com outras pessoas, não deixando por isso de continuarem a percorrer o caminho do erro. Talvez o facto se deva aos importantes direitos do homem? Mas se não são os indivíduos que estão errados e sim os princípios! Devo dizer que a coisa não está mal. Talvez a venha a utilizar. Sou então uma destas cinco ou seis, em dez? Isto relacionar-se-á comigo e com o Harold? Mas o facto é que nos vamos entendendo menos mal. Talvez não nademos em felicidade. Mas haverá alguém que seja completamente feliz? E no que respeita à paixão? Bem, já não somos nenhumas crianças. Mas já fomos, e havia paixão e fogo em nós. Que diabo, a nossa vida sexual não é muito diferente da dos outros casais. E também temos outras coisas em comum. Harold vai obter a contabilização Berrey e eu tenho o interesse de Foster. Nova Iorque. Que coisa será trabalhar sob as ordens de Poster? Sob as ordens dele uma figa! Que raio estou eu a imaginar? Estou a tornar-me uma contumaz freudiana. Se ao menos ele
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não fosse um enfatuado repulsivo! Como é que Alma o aguenta? Como é que ele aguenta Alma? Devem ter com certeza alguma vida sexual. Ainda que um homem tenha sempre o recurso das mulheres de vida fácil, possua ele o tipo e o parecer que possuir, porque o dinheiro opera maravilhas, penso que Alma o aguenta' porque não há outro remédio. Quem mais é que ela poderia arranjar? Afinal de contas não possui ela aquele castelo com fossos e tudo em Connecticut e a vida doirada e fácil? Seria eu capaz de entrar nessa negociata? E no caso de ele ser exigente, de pretender ter relações comigo três ou quatro vezes por semana? Pelo menos, Harold tem uma certa consideração por mim. Toma atenção ao que lhe digo e não se atravessa demasiado no meu caminho, isto é, entre nós não há perturbações violentas. Todavia, seria magnífico aquele emprego em Nova Iorque... Passaríamos a ser pessoas de importância, seria possível que tivéssemos também um feudo em Connecticut... Harold podia... que diabo podia fazer Harold? Ah, administrar. Podia administrar os meus rendimentos. O dinheiro correria. As estrelas de cinema também costumam arranjar maridos que lhes administrem os bens—juntam o útil ao agradável. Aliás, o papel de cavaliere servente era bastante honroso em tempos recuados. Sim, porque não? Este artigo podia levar-se a tal posição. Colocá-los literalmente a meus pés. Seria aproveitado pela Time, publicado pelo Reader's Digest. Parece-me que é melhor guardar estas notas, prestar mais atenção a tudo o que se passa. O que é que ele disse? Ah, sim, cinco ou seis em dez... desentendimentos na esfera sexual. O silêncio anormal que nos rodeia... Não garante resultados mágicos...»

Sabendo que estava atrasada um quarto de hora, Sarah Goldsmith ainda pensou em faltar à conferência. Tinha um monte de coisas para fazer em casa. Ultimamente havia descurado muito os seus arranjos caseiros e estava tudo num caos. Enfim, mais como medida de precaução, resolveu-se a seguir até Romola Place. Tinha anuído a estar presente à reunião, e a sua ausência poderia ser notada. Além de tudo o mais, afirmara a Sam que assistiria à conferência. O marido não manifestara a mínima preocupação com o assunto, mas podia vir a recordar-se e fazer-lhe

algumas perguntas sobre o caso. Se lhe dissesse que não estivera na conferência do Dr. Chapman, Sam poderia começar a fazer-lhe perguntas embaraçosas. Se mentisse, declarando-lhe que assistira à conferência, seria pouco provável que Sam lhe fizesse quaisquer perguntas, mas era coisa que tinha os seus perigos. Havia que ser encarada a hipótese de, nas suas relações sociais, ele e Sam se encontrarem de frente com Kathleen — ou com qualquer das outras mulheres pertencentes à Associação Feminina — e ser-lhe perguntado o motivo por que não comparecera à reunião. Seria caso para levantar suspeitas... Tal como naqueles estúpidos filmes detectivescos da televisão, em que um crime era cuidadosamente planeado, e o criminoso, depois de se começar a sentir salvo e seguro, deixava escapar um pormenor, aparentemente sem importância, que levava ao deslindar de toda a meada. Se dissesse a verdade tudo estava resolvido com êxito.

No momento em que Miss Selby lhe abria, devagarinho, a porta que dava para o auditório, Sarah começou a sentir-se satisfeita por ter comparecido. A secretária fez-lhe sinal de que podia entrar, e Sarah Goldsmith viu o lugar desocupado na penúltima fila, a terceira a contar do corredor central. Inclinou a cabeça em mudo agradecimento a Miss Selby e entrou no auditório. Cumprimentou cerimoniosamente a Sr.ã Keegan e a Sr.8 Joyce, suas vizinhas de lugar, e sentou-se.

Por momentos ficou muito hirta, com aquela vaga sensação de desconforto que sentem todas as pessoas que entram numa sala depois de um espectáculo já ter começado. Só alguns minutos depois se atreveu a olhar em volta para verificar se estava a ser observada. Viu então que todos os rostos contemplavam o palco e, de súbito, compreendeu que estava a assistir a uma conferência do Dr. Chapman sobre motivos sexuais. A partir da altura em que Kathleen lhe fizera o telefonema do convite, Sarah não voltara rnais a pensar no assunto. Estava demasiado ocupada a pensar em Sam ou Fred, especialmente no último. Ah, como ele fora ardente e vigoroso naquela manhã! Procurou concentrar toda a sua atenção no proscénio e no estranho homem de juba branca Çue se encontrava a falar na tribuna. Apesar disso, a princípio não °i capaz de assimilar as palavras. Só depois que o Dr. Chapman 62 uma pausa prolongada, no reatamento do seu discurso, é que
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Sarah começou a compreender o sentido da palestra. O Dr. Chapman prosseguia:

— Necessitamos da vossa confiança para podermos continuar esta obra e obter êxito nas sondagens. Baseado nos nossos antecedentes e credenciais, creio que poderemos ganhar a vossa confiança. A pedra angular da nossa técnica de entrevistas é a confiança das entrevistadas. Tudo se apoia nesse fundamento. Pedimos pois a vossa confiança ilimitada, e podem estar de antemão convencidas de que nunca as trairemos, como nunca traímos as mulheres que antes de vós foram escutadas por mim e pela minha equipa. São três os assistentes que comigo colaboram neste empreendimento.

«Durante estes catorze meses que ficaram para trás, tanto eu como os meus assistentes entrevistámos todos os tipos de mulher casada, desde a dona de casa à empregada profissional e à prostituta. Fizemos inquéritos a secretárias de empresas, enfermeiras, bailarinas, estudantes universitárias, criadas, auxiliares de jardins infantis, mães de família, professoras e representantes de instituições femininas de carácter recreativo ou que se ocupam de política. Falámos com recém-casadas e com consorciadas há longos anos, com viúvas e divorciadas. Inteirámo--nos de todos os tipos concebíveis de actividade sexual feminina, tais como, por exemplo, a masturbação, a homossexualidade e a infidelidade conjugal. Em todos os casos as nossas sondagens foram conduzidas com perfeita objectividade e isenção científica. Se fosse preciso uma palavra para definir e caracterizar o nosso método de aproximação utilizaria como mais adequado o termo objectividade.

«Quero que fiquem bem cientes de que só procuramos factos, apenas factos. Não estamos interessados em avaliar, comentar ou procurar corrigir aquilo que fazem ou a maneira como se comportam. Não louvamos nem condenamos e jamais tentamos modificar os padrões sexuais de quem quer que seja. As perguntas por nós feitas são muito simples e formuladas a todas as entrevistadas. São perguntas preparadas cientificamente com grande antecipação e estão impressas em folhas de papel especial. Por baixo de cada pergunta encontra-se um espaço em branco destinado à resposta, e a resposta é registada sob o aspecto de um símbolo, sinal

esse somente conhecido pelos quatro entrevistadores da nossa equipa e sem significado para mais ninguém. Chamo a vossa melhor atenção para isto, no intuito de as tranquilizar. Quando fundei o Centro de Estudos e Inquérito, considerei o uso de vários sistemas obsoletos de estenografia e até velhos códigos militares, a fim de que o sigilo das respostas não pudesse ser desvendado por pessoas alheias. Nenhum desses sistemas me satisfez. A seguir iniciei um estudo das línguas mortas, talvez umas duzentas, e das trezentas e vinte e cinco línguas universais-artificiais inventadas nos últimos cinco séculos. A mais conhecida dessas línguas, como todas sabem, é o esperanto, que foi inventada por um oftalmologista polaco em 1887. Mas o que eu procurava era a mais desconhecida dessas línguas, uma que há muito estivesse extinta e se tivesse perdido da memória dos homens. Vim a descobrir a lógica que havia naquilo a que me propunha, e na verdade encontrei a linguagem chamada sol-ré-sol, concebida em 1817 e baseada nas sete notas da escala musical. Adoptei então a sol-ré-sol para as nossas sondagens, acrescentando ao seu esquecido alfabeto vários símbolos consentâneos. Nunca tive conhecimento de um ser humano, quer ele fosse linguista ou criptógrafo, capaz de ler o sol--ré-sol e muito menos a adaptação da linguagem aos nossos propósitos. Esse será o idioma, por assim dizer, utilizado por nós para registo das vossas respostas. É fácil compreender que desta maneira tudo se passará no maior sigilo.

«Quando, dentro de duas semanas, partirmos de The Briars

para regressar à Universidade de Reardon com as vossas

| respostas em código sol-ré-sol, estas serão expressamente

1 depositadas em cofres alugados para o efeito no Eather Marquette

| National Bank, organização completamente estranha ao complexo

universitário, e de onde só serão retiradas para serem introduzidas

numa máquina também por mim concebida. A máquina é por nós

designada sob as iniciais STC — o que significa Solresol Translating

Compiling Machine (Máquina de Compilação e Tradução Sol-Ré-

■Sol). Os vossos questionários irão alimentar directamente a

máquina. Primeiro os símbolos sol-ré-sol serão fotografados e

depois, por meio de um complexo processo electrónico, serão aduzidos em números, a fim de se concluírem as totalizações

necessárias às estatísticas Nada é vertido para o inglês antes de


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obtidos os nossos totais comparativos. Finalmente, para bem de toda a gente, os nossos resultados serão tornados públicos. Contudo, na altura da sua publicação, cada resposta pessoal já se terá transformado e sido absorvida pelo todo de modo a perder--se no anonimato comum. Seja como for, não há quaisquer possibilidades, ainda que remotas, de os resultados estatísticos criarem problemas a um indivíduo ou serem atribuídos a uma única pessoa».

À medida que escutava aquelas palavras, Sarah pensava: «De acordo com a maneira como o homem explica tudo, creio que é um método seguríssimo, além de os resultados serem publicados por uma boa causa. Talvez que a minha vida tivesse seguido um rumo diferente se anos atrás tivesse existido uma sondagem como esta. O Dr. Chapman parece um homem em quem se pode confiar. Contudo, como é possível avaliar um homem antes de o conhecermos? Antes de entrar na fase da maturidade apreciativa gostava um bocadinho de Sam, ou pelo menos pensava que gostava, e veja-se naquilo em que ele se transformou. Pelo contrário, a primeira vez que me encontrei com Fred, ele irritou-me. Parecia tão seguro de si, tão imperativo a mandar em toda a gente! Repare-se no que ele é na realidade. Ninguém neste mundo pode ser mais decente e encantador. Seja onde for, não pode haver nenhum homem que a ele se assemelhe».

Sarah fixou intensamente o Dr. Chapman, estava a vê-lo mas não a ouvi-lo, o seu cérebro continuava a elaborar pensamentos relacionados com o caso: «Julgo que para benefício da ciência será justo que lhe conte a verdade. Mas porquê arriscar-me a contar a verdade seja a quem for? Evidentemente que se contar uma mentira durante a entrevista ele acabará por descobrir—é um cientista. Além de que o caso poderá ocasionar-me problemas. E se não me oferecer para a sondagem? Sem dúvida que será mais arriscado fugir do que oferecer-me como voluntária para a entrevista. É possível que fosse eu a única e toda a gente viria a saber, desabando as perguntas. Inferno, afinal porque é que tudo parece tão simples e sai tão complicado? Creio que me sinto perturbada. A verdade é que esta manhã pretendia falar a Fred da conferência e das entrevistas e não o consegui. Porquê? Penso que por receio de que ele levantasse objecções. Fred e aquela maldita esposa! Se ao menos

vivessem juntos, ainda poderia compreender, mas ele é praticamente um homem solteiro. Que teria Fred a perder se o caso se soubesse? Talvez o filho seja um motivo, mas a verdade é que nenhum deles parece visitar o rapaz, e além disso o moço é quase um homem. Eu devia ser a pessoa com mais preocupações no caso e a verdade é que não me importo mesmo nada. De certo modo até penso que gostaria que tudo se soubesse. Tenho tanto orgulho do meu Fred! Nunca mais haverá outro homem na minha vida. É estranho, até casar só tive relações com rapazes judeus, talvez devido à maneira como fui educada. Pensava até que os outros homens eram diferentes. Era o que a mamã me costumava dizer. Estou satisfeita por a mamã já não estar cá, não o devia dizer, mas a verdade é que estou. Talvez não deva contar nada do caso ao Dr. Chapman e talvez ele não faça perguntas desse teor. E se houvesse alguém capaz de ler a linguagem cifrada sol-ré-sol? O que aconteceria se tudo se viesse a saber? Como é que eu poderia olhar de frente para Debbie e Jerry? Se fossem crescidos e pessoas com certa experiência da vida, poderiam compreender, poder-Lhes-ia explicar as coisas, mas assim... Não, terei que esperar, embora seja muito duro e penoso viver nesta mentira. Como funcionará aquela máquina STC? Quantas mais mulheres haverá na minha situação? Aqui, em The Briars, a Sr.a Webb fez o que muito bem quis e deixou o marido, la a apostar que ainda se continua a encontrar com aquele vendedor de automóveis. Por que raio é que não se casa com ele? E Naomi Shields? Ouvi falar muito dela, mas de certa maneira o seu comportamento é diferente — não se trata de amor. Estou deveras cansada destas saídas às escondidas e das preocupações que isso ocasiona. Afinal como raio escreverão eles a tal linguagem cifrada?»

Mary Ewing McManus sentia-se decepcionada. Esperara que um homem com a experiência e a capacidade do Dr. Chapman fosse bastante mais prático. Pensara que depois de ouvi-lo ementaria os seus conhecimentos e poderia ter algo que pudesse utilizar ao vivo. Mas até àquele momento nada fora dito de especial, aPenas generalidades. Evidentemente que houvera umas quantas Coisas interessantes, que podia repetir ao marido e ao pai à hora do
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jantar. Também houvera umas quantas coisas divertidas. Mary tentou lembrar-se de alguma graça para repetir, mas foi-lhe impossível.

Deu-se conta de que estava a fixar a nuca de Kathleen. Admirava-lhe o cabelo preto, brilhante como a asa de um corvo, cortado curto e bem arranjado. O pescoço dela era branco como alabastro. Como uma oferta de amor a Norman, desejou ser tão bela como Kathleen. Sem dúvida que Naomi Shields era tão bela quanto Kathleen, mas de um tipo diferente, com uma beleza mais evidente e agressiva. O que distinguia Kathleen era o tranquilo ar de tristeza, de sofrimento interior, de profunda melancolia, coisa que formava como que uma barreira em volta dela, mantendo todos a uma certa distância. Mary sorriu. Kathleen ia ser imortalizada nas páginas de um livro, lera algo sobre o caso nos jornais. O livro era a heróica história de Boynton Ballard — a imortal história de amor de Kathleen com Boynton Ballard. Como era emocionante estar tão perto dela, conhecê-la! Afigurava-se-lhe que também fazia parte da importante história. Tal como estar a escutar o Dr. Chapman era também fazer parte da história.

Mary decidiu prestar toda a sua atenção à conferência do Dr. Chapman. Seria possível que o cientista ainda viesse a dizer algo de utilizável sobre o sexo. Desejava poder ser a melhor esposa do mundo. Isso era o que mais importava. Queria fazer Norman um homem muito feliz. Ultimamente o marido parecia bastante tristonho e abatido, e era invulgar nele a maneira como se dirigira ao papá durante o jantar da noite anterior.

O Dr. Chapman falava, e, muito embora não estivesse ainda a dizer nada de utilizável na prática, Mary começou a escutá-lo com toda a atenção.

«Os órgãos de informação chamaram-nos pesquisadores da opinião pública, mas nós preferimos intitularmo-nos investigadores e estatísticos sexuais. É isso precisamente o que somos e nada mais. Quero repetir-lhes que, de modo nenhum, representamos a vossa consciência. Não somos vossos pais, irmãos ou conselheiros morais. Não estamos aqui para criticar ou elogiar a vossa conduta moral ou para vos dizer se sois boas ou más. Somente nos encontramos aqui para recolher uma parte da história das vossas vidas, uma parte acentuadamente privada, íntima, para que aquilo

que descobrirmos vos possa ajudar no futuro bem como a toda a imensa família humana».

O conferencista fez uma pausa, tossiu, levou o copo de água aos lábios e, quando recomeçou a falar, notava-se uma ligeira rouquidão na sua voz:

«Muitas de vós poderão considerar embaraçante a ideia de falar com um estranho sobre relações sexuais, ainda que esse estranho não esteja à vista, separado como estará por um biombo opaco, e seja um cientista. Não obstante todas essas razões de peso, perguntareis a vós mesmas: como poderei revelar a um estranho aquilo que nem a meu marido conto? Afinal é um receio naturalíssimo visto que, nalguns casos, o facto de os outros terem um conhecimento real do nosso secreto comportamento sexual da infância à maturidade pode levar ao ostracismo social, à vergonha pública, a dissenções domésticas e até ao divórcio. Afastem porém tal receio porque, ainda que as vossas personalidades sejam únicas e intransmissíveis, está longe de ser exclusivo o vosso comportamento sexual. Em toda a minha já longa carreira nunca escutei uma história sexual que não me houvesse sido antes repetida vezes sem conta. Solicitadas como serão a apresentar factos que estiveram e mantiveram ocultos durante meses, anos, por uma vida inteira, imaginem que não estão a falar para um ser humano mas sim para uma máquina, um aparelho que não emite juízos críticos; imaginem que estão apenas a falar para um gravador e lembrem-se de que os dados fornecidos por essa máquina só poderão vir a melhorar a vossa existência».

Escutando aquelas palavras, Mary pensou: «Claro, Dr. Chapman, mas como é que isso funcionará?»

Embora o pescoço lhe começasse a doer, Teresa Harnish continuou a olhar para cima, para a figura impressionante do Dr. Chapman. Verdadeira maravilha, pensou que era um homem ""•finitamente mais importante do que a maioria dos seus contemporâneos, um homem feito à imagem do Dr. Schweitzer;

udo o que ele dizia estava certo, tinha autenticidade e seria purificador para o resto das mulheres que se encontravam naquela sala.

eresa não se considerava como fazendo parte do resto das


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mulheres que se encontravam naquela sala. Na inteligência esclarecida do orador, que era transparente, identificava-lhe o espírito progressista. Naquele preciso dia, por afinidades, ela e o Dr. Chapman estavam em missão civilizadora das habitantes de The Briars.

Aguardara a sua sapiência, mas o que mais a encantava nele era a perfeita urbanidade e a cintilação de um espírito mundano. Já por duas vezes mergulhara a mão na malinha de mão para retirar a agenda com capa de coiro branco, o livro de Geoffrey, como o denominava, e no qual anotava epigramas que às vezes lhe ocorriam ou que eram ouvidos e lidos. Várias vezes por semana, habitualmente depois de jantar, lia esses epigramas a Geoffrey, e o rosto patrício do marido reflectia sempre a sua grande apreciação pelos ditos registados. Já inscrevera duas citações retiradas ao texto de apresentação do Dr. Chapman — decoradas para uso das reuniões mundanas. Eram sem dúvida as mais divertidas que registara. A primeira era uma frase de um tal Dom Horold (quem seria o homem?): «As mulheres não valerão muito, mas são sem dúvida o melhor sexo oposto que temos». A segunda fora citada pelo Dr. Chapman como pertencendo ao romancista e crítico Remy de Courmont: «De todas as aberrações sexuais, talvez a mais extravagante seja a castidade». A frase deliciara-a. Era na realidade tão picantemente francesa!

De novo levantou a vista para a tribuna e, por momentos, pensou que os olhos do Dr. Chapman se haviam fixado nos seus com um lampejo de compreensão pela afinidade existente entre ambos. Ajeitou a fita que lhe prendia os cabelos. Nesse momento o Dr. Chapman já tinha desviado o olhar, contemplando o auditório indiscriminadamente. Decerto não queria manifestar qualquer favoritismo.

Muitas de vós também farão a si mesmas a seguinte pergunta: «Por que razão ele se dirige a nós como grupo em vez de nos sondar individualmente?»

O Dr. Chapman frisou a palavra individualmente com um leve sorriso a pairar-lhe nos lábios, prosseguindo:

«Seria uma pergunta franca a merecer uma resposta directa. Foi durante o inquérito que realizei aos celibatários americanos que me decidi pelos grupos comunitários e não pelo indivíduo como

identidade isolada. Previ, evidentemente, que as sondagens a grupos poderiam poupar tempo e movimentos. Compreendi também alguns indivíduos seriam menos relutantes em cooperar se procedessem como a grande massa humana. Mas a principal razão para a minha acessibilidade aos grupos tem ainda uma base mais científica.

«Se eu tivesse chegado a Los Angeles e anunciasse simplesmente que desejava voluntárias, estou certo de que conseguiria obter um número sensivelmente igual ao que a vossa organização me pode oferecer. Infelizmente, porém, receberia, nesse caso, somente um tipo de mulher — um tipo que, de moto próprio, estaria desejoso e ávido de debater a sua vida sexual. Isso seria valioso, mas não seria representativo de The Briars. Nesse caso estaríamos a estabelecer registo da história de uma única espécie de mulher, uma mulher exibicionista, sem inibições ou de alto nível de educação. Para um julgamento honesto, ser-nos-á necessário conhecer também as histórias das mulheres que são tímidas, envergonhadas, receosas, inquietas, pouco seguras de si ou traumatizadas. Um verdadeiro perfil de todas as mulheres casadas só pode ter validade obtendo a cooperação de um grande grupo, um grupo que inclua tipos de todos os matizes. Parece-me que consegui esclarecê-las da melhor maneira, minhas senhoras, dos motivos que me levaram a seleccionar e pedir a ajuda da vossa Associação Feminina em vez de fazer um apelo individual».

Escutando-o, Teresa Harnish pensou: «O professor é um homem extremamente sensível e objectivo. Prestar-lhe-ei toda a minha colaboração. Farei parte do seu grupo sem relutância, conquanto gostasse que ele viesse a considerar que a minha cooperação tem também o cunho do individualismo, e não porque seja uma exibicionista. Tenho a certeza de que ele se aperceberia imediatamente disso. Oferecer-me-ia individualmente, porque a causa que ele defende é boa e justa e porque devo participar na libertação do meu sexo. Julgo que direi isto mesmo a quem me entrevistar para que a compreensão do meu caso seja clara e sem reticências». Repentinamente, como um lampejo, à mente de Teresa acudiu

uma pergunta: «Mas afinal o que será que eles esperam de mim?

era que querem conhecer os meus sentimentos mais íntimos e er a maneira como reajo? Parece-me que desejarão ambas as
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coisas. Muito bem, não há que ter receios, Geoffrey e eu somos normalíssimos. Fazemos amor naturalmente, participando no acto por mútuo acordo e temos as nossas relações de um modo civilizado. Gostaria que Geoffrey também fosse entrevistado, assim o caso ficaria bem comprovado. Quanto aos sentimentos íntimos... que emoções pode qualquer mulher ter nas suas relações sexuais conjugais? Desejo que Geoffrey se sinta satisfeito e realizado. Estou certa de que ele se sente assim. Ele diz-me sempre que sim. Não será esse o objectivo do amor e o papel da mulher? Ah, claro: a moralidade nas relações sexuais, quando essas relações são livres de superstições, consiste essencialmente no respeito de um parceiro pelo outro e não na utilização de um dos participantes somente como um meio de satisfação pessoal sem consideração pelos seus desejos, Ámen. A verdade é que eu respeito Geoffrey e os seus desejos, e estou certa de que ele procede de igual modo para comigo. Julgo que é tudo o que um ser pode esperar. Se o Dr. Chapman me entrevistar, dir-lhe-ei isto mesmo. O facto é que existe muita vulgaridade ligada ao amor sexual... todos aqueles livros que falam de louca paixão, de verdadeira voracidade, de gemidos, mordedelas, êxtase... mas já houve alguém que tivesse conhecido esse êxtase? As relações sexuais podem ser limpas, ordeiras, civilizadas. Ovídio foi um velho e sujo libertino. As relações sexuais podem ser realizadas sem que se venha a ter vergonha do que se faz ou não se faz. O que conta para o caso é o domínio e a moderação. Graças a Deus, não somos seres em estado selvagem nem animais bravios. Deve fazer-se o que é necessário, com toda a dignidade, e assim seremos mais respeitadas pelos nossos maridos. Ah, que sujeira todas essas histórias reles de mulheres que se perdem, que se comportam como verdadeiras prostitutas... que mentem aos seus consortes... Está aqui um calor abominável! Creio que depois disto irei para a praia, para a Angra de Constable, pelo menos para me descontrair, nem sequer levarei um livro para ler... Isto é, ficarei na praia se aqueles bárbaros não estiverem lá. Especialmente aquele mastodonte. Que grosseirão! Que animal tão insolente! Mas haverá alguma mulher civilizada capaz de permitir que aquele selvagem pratique amor com ela? Terá o bárbaro uma amante? Com certeza que o pode cercar um verdadeiro harém constituído por rameiras das mais baixas e talvez que na composição do

seu serralho entrem também algumas caixeirinhas de lojas de segunda ordem e colegiais curiosas de brutalidade física. Julgo que a sua atracção deva residir naquelas pernas como colunas e naquele torso musculoso. Se se comportasse como um cavalheiro, é possível que não lhe fosse difícil seduzir uma mulher culta; mas nunca passará de um selvagem. Um homem como aquele atleta precisa de uma mulher que o auxilie, que o esclareça, isto é, uma mulher educada que o cultive, que seja melhor do que ele em todo o sentido estético. Claro, não é necessário que seja eu essa mulher. Afinal de contas julgo que as perguntas do Dr. Chapman incidirão sobre o modo como nos comportamos e não na maneira como sentimos. O comportamento é uma coisa definida, pode verificar-se, contar para resultados. Os sentimentos, por essência, são habitualmente muito confusos».

Naomi Shields não sentia mais de que uma grande secura na sua boca. Decorrera quase uma hora desde que estava ali e tinha uma sede incontrolável. Pensara por momentos em abandonar o auditório para ir beber um copo de água, mas compreendeu que, devido ao lugar que ocupava, a sua saída iria causar grande perturbação em toda aquela assistência tão enfronhada no que o homem dizia. Além disso, afinal não era água o que desejava beber... A sua sede não era de água, era de gim. Ao pequeno--almoço só ingerira dois copos, e a sensação de bem-estar que eles lhe haviam produzido já se dissipara há muito.

Procurou cigarros na mala, mas antes de tirar o maço olhou em redor para ver se alguém fumava. Como observasse que ninguém estava a fumar, concluiu que não era permitido durante a conferência. Perturbada, fechou a malinha. De relance, fitou primeiro Kathleen e depois Úrsula. Kathleen Ballard parecia profundamente absorvida pelas palavras do Dr. Chapman e Úrsula Palmer ocupava-se com os seus apontamentos. Sentiu inveja delas. Quis interessar-se pela palestra, distrair a atenção de si rnesma. Acima de tudo considerava, porém, que se devia ter deixado ficar na cama. Afinal porque estava ali? Determinara mudar de vida, tentar ser como as outras mulheres, interessar-se por qualquer coisa, preencher as suas horas arrastantes com uma activi-


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dade social normal. Se ao menos aquele homem não fosse tão

enfadonho!

Tentou pensar em qualquer coisa que o Dr. Chapman tivesse dito, mas não conseguiu lembrar-se de uma única palavra. Aconteceria que ficava aborrecida por ouvir falar em sexualidade? Era cada vez maior a sua impaciência em relação a todos os homens que falavam de sexualidade de um modo natural. Ah, aquela chata sedução verbal, aquela postiça e teatral representação do amor... Sobre a sexualidade só havia uma coisa a dizer: deseja-se ou não se deseja. Eis tudo. Uma dualidade bem simples.

Sentou-se muito direita, com os firmes seios espetados para a frente, fixando o proscénio. Havia que cultivar a arte da atenção que fazia parte de uma actividade social normal. Devia pois aprender a ouvir. Rígida, escutou o que o Dr. Chapman dizia:

«É possível que consigam tranquilizar os vossos espíritos se conhecerem o método exacto daquilo que terão que enfrentar na hipótese de resolverem oferecer-se para serem entrevistadas logo que termine esta conferência. No átrio encontrarão quatro secretárias, cada qual com quatro secções distintas de letras do alfabeto, que correspondem, respectivamente, à inicial dos vossos apelidos. Podem escrever o vosso nome completo e a morada, e na segunda-feira receberão um postal onde estará indicado o dia e a hora para a entrevista. Segundo os dias e horários apontados, deslocar-se-ão a este edifício da Associação, e no corredor do andar superior encontrarão montada a mesa de expediente da minha secretária particular, Miss Selby, que vos conduzirá até um dos gabinetes destinados às entrevistas. Aí, encontrarão um biombo separativo, uma cadeira confortável e o material destinado à sondagem; por detrás do biombo ficará instalado um membro da nossa equipa para escutá-las, tendo como único equipamento de trabalho um lápis e o seu conhecimento da cifra sol-ré-sol. Como já antes frisei, as senhoras não verão o entrevistador nem ele as poderá ver.

«Após terem-se instalado o mais descontraidamente que vos for possível, o entrevistador inquirirá a vossa idade, certos pormenores sobre os vossos antecedentes e grau de cultura, e fará também algumas perguntas a respeito da vossa situação matrimonial. Seguir-se-á uma série de perguntas mais objectivas e pormenorizadas, perguntas essas que, como já disse, se encontram elaboradas em três categorias distintas. São essas categorias que vou explicar.

«A primeira só se relaciona com a história sexual e respectiva actividade. Pode ser-vos perguntado: "Qual é a frequência actual das relações sexuais com seu marido"? Ou: "Logo a seguir ao casamento, qual era a frequência das relações conjugais"? Ou ainda: "Em que altura do dia tem, habitualmente, relações sexuais com seu marido — de manhã, à tarde, à noite"?

«A segunda categoria de perguntas está em relação com as vossas atitudes psicológicas no que respeita à sexualidade dentro do casamento. Pode ser-vos perguntado: "Se, devido a uma qualquer formalidade inopinada e insólita, soubesse, neste momento, que o seu casamento não tinha validade, que se podia considerar legalmente livre de tal união, aproveitaria a situação para abandonar imediatamente o seu marido"? Ou podem por--vos a seguinte pergunta: "Esperava, antes do casamento consumado, que seu marido fosse virgem, um amante experiente ou nem sequer pensou em tais coisas?"

«Quanto à terceira categoria de perguntas, relaciona-se com as vossas reacções aos estímulos sexuais. Durante as entrevistas, em momento oportuno, chamar-se-á a vossa atenção mais directa para uma caixa de coiro colocada ao lado da cadeira, pedindo o entrevistador que a abram. Apelidamos a caixa sob as siglas C.O.E. — Caixa dos Objectos Especiais. Ser-vos-á então pedido que tirem lá de dentro certos objectos artísticos e que os observem com toda a atenção. Depois virão perguntas directas no respeitante às vossas reacções a esses estímulos visuais. Poderão encontrar-se a observar a fotografia de uma colónia de nudistas ou a reprodução de uma estátua de Praxíteles representando um varão nu, com o acompanhamento da seguinte pergunta: "Sente-se eroticamente estimulada por aquilo que vê? Até que ponto vai esse estímulo?" Ou poderão encontrar-se a ler uma determinada passagem, previamente assinalada, da edição original e sem cortes do romance clássico de D. H. Lawrence O Amante de Lady Chatterley, seguida por esta Pergunta: "A passagem que acabou de lerexcitou-a? Se a excitou Pode dizer qual a intensidade dessa excitação?"

«A estas três categorias de perguntas podem responder com rapidez, com lentidão, desenvolvidamente ou resumidamente, como


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preferirem. Poderão ser feitas 150 perguntas, quase nunca mais do que essa conta, e a entrevista, média geral, deve durar uma hora e um quarto. Uma vez terminada, as entrevistadas retirar--se-ão dentro do mesmo sigilo com que vieram, podendo ter a certeza de que tudo o que revelaram apenas faz parte de um conjunto de dados a fornecer à nossa máquina STC, e que os resultados totais apurados servirão para iluminar uma zona da vida humana durante tanto tempo mergulhada na penumbra da ignorância. Como podem perceber, a operação não reflecte a mínima complicação. Não ocorrerá nada de mais ou de menos a não ser, exactamente, o que acabei de explicar. Aguardo esperançado que queiram participar sinceramente em tão meritória tarefa — com a compreensão plena de que a vossa vida, bem como a vida das gerações futuras, poderá vir a ser mais saudável, mais consciente e mais feliz, graças a um momento de verdade.

«Posto isto, só me resta agradecer ao gentil auditório toda a bondade e atenção com que me escutou».

Enquanto reboava pela sala uma calorosa salva de palmas, Naomi dizia para consigo: «Se é certo que me podes vir a tornar mais saudável, mais consciente e mais feliz, não há dúvida que me conquistaste, meu velho. Só não compreendo o motivo de toda essa encenação que me parece de falsa modéstia e humildade exagerada. Para quê todos esses biombos, línguas mortas, cofres, máquinas computadoras e segredos? Nunca fiz nada de que tivesse que me envergonhar. Não passo de uma mulher que aprecia as relações sexuais, necessito delas, e existem milhares de mulheres como eu. Quanto tempo disse o velhinho que demorava a coisa? Uma hora e um quarto? Só à minha parte seria capaz de te moer o bichinho do ouvido sem parar durante vinte e quatro horas e um quarto».

— Naomi!


Sacudiu a cabeça e voltou-se para o lugar de onde partia o chamamento. Mary McManus estava inclinada para a sua cadeira, e Naomi compreendeu que ficara sozinha sentada no seu lugar, enquanto as outras já iam a sair.

— Então quanto ao nosso almoço... vamos? — perguntava--Lhe Mary.

— Claro que sim.

Naomi levantou-se prontamente e aprestou-se a seguir Úrsula e Kathleen, já a meio da coxia.

Mary McManus aguardava-a no fim do corredor, com os olhos a brilharem de emoção.

— Foi apaixonante, não foi?

— Muito apaixonante — respondeu Naomi, com a entonação de quem faz uma festa a uma criança —, exactamente como a primeira festa para uma menina de coro.

O Dr. Chapman estava nos bastidores ao lado de um descarregador de água. Tirou um dos copos de papei, soprou-o para o encher e depois carregou na válvula de descarga. O líquido gorgulhou no recipiente de vidro.

— Então que tal? — perguntou, dirigindo-se a Emil Ackerman.

— Até eu fiquei ansioso por me inscrever para uma entrevista — respondeu Ackerman com um sorriso escarninho. — Mas é fora de dúvida que esta conferência foi de longe melhor que a palestra feita há dois anos para os celibatários.

O Dr. Chapman riu-se.

— Diz isso só porque me dirigi a mulheres. E você é um homem...

— Julgo que sim — concordou Ackerman.

— Então ainda não tem apetite?

— Tenho, e muito, mas não daquilo em que está a pensar — replicou Ackerman em jeito de trocadilho.

Enquanto Emil Ackerman ria a bandeiras despregadas pela sua facécia, o Dr. Chapman correspondeu apenas com um leve esboçar de sorriso, olhando cautelosamente em volta para verificar se havia alguém a escutá-los. De modo nenhum gostava de ser surpreendido em situações em que o cientista puro pudesse não parecer mais de que um simples mortal.

— Julgo que um bom bife lhe satisfará esse apetite bizarro —

volveu o Dr. Chapman, voltando a concentrar a sua atenção em

Ackerman.

Pouco depois, segurou o braço do gordo Emil e encaminharam-Se Para a porta dos bastidores.


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Ao chegar ao átrio, Kathleen Ballard viu que já havia compridas bichas em frente de cada uma das secretárias dispostas para o efeito. Na confusão da saída do auditório perdera-se de Úrsula, Naomi e Mary. Considerou, olhando, que a porta da rua não ficava muito longe do lugar onde estava. Sentiu-se segura de que podia partir sem que ninguém a notasse, e já começara a movimentar--se por entre aquela multidão de mulheres quando ouviu que a chamavam de maneira bastante audível.

Subitamente invadida por suores frios, voltou-se e avistou Grace Waterton, que, rompendo através da concentração de pessoas que se aglomeravam no átrio, se dirigia para ela.

— Julgo que não nos ia abandonar neste momento, não é verdade? — perguntava a presidente da Associação.

— De modo nenhum... eu... sim... ia sair por uns instantes... as bichas são já muito grandes, e tenho uns assuntos a tratar. Pensava em voltar dentro de meia hora.

— Que soberana tolice, minha querida. Venha comigo.

Grace agarrou-lhe na mão e levou-a até perto da mesa na

extrema-esquerda, assinalada pelas letras de «A a G». Na fila, que a cada momento ia engrossando, estavam cerca de vinte senhoras.

— Se tem assuntos importantes a tratar, as outras saberão compreender e dar-lhe prioridade — disse Grace Waterton, chamando a atenção de uma das candidatas:

— Sarah!

Sarah Goldsmith acendia um cigarro. Era a segunda da bicha e esperava que a mulher gorducha, à sua frente, inclinada para a secretária a escrever o seu nome e morada, se despachasse. Levantou os olhos.

— Sarah, desculpe incomodá-la, mas Kathleen tem de se

retirar com brevidade para um encontro marcado a que não pode

faltar. Importa-se que ela se inscreva à sua frente?

Sarah fez um gesto de consentimento.

— De modo nenhum. Com certeza; Kathleen, pode passar à minha frente.

— Lamento muito incomodá-la, na verdade não me parece muito próprio usurpar-lhe o lugar — disse Kathleen, que se voltou para dizer qualquer coisa a Grace.

Mas esta já se tinha retirado para junto de outra das mesas.

ntretanto, Sarah afastara-se um pouco, dando-lhe lugar.

— A senhora que se segue — dizia Miss Selby.

Kathleen avançou incerta, mas aceitou a caneta que lhe era estendida e escreveu o seu nome e morada na comprida folha das inscrições.

— Gostou da conferência? — perguntou Miss Selby com um sorriso de urbanidade.

— Gostei muito — respondeu Kathleen, um pouco contrafeita pela mentira. — Na verdade foi muito instrutiva.

Devolveu a caneta, deu um passo para o lado e preparava-se para se retirar, quando se lembrou de Sarah.

— Muito obrigada pela sua gentileza, Sarah. Como vai a sua

família?

— Em statu quo. Tudo na mesma, como sempre.

— Um destes dias temos que almoçar as duas. Se não se importa, dou-lhe uma telefonadela.

— Terei até imenso prazer nisso.

Liberta por fim daquefe ambiente escaldante, conquanto se sentisse presa àquele compromisso que não queria aceitar (condenada ao terror sombrio do nome e morada que inscrevera naquela página), Kathleen encaminhou-se para a porta quase a correr.

Já no passeio, em frente da Associação Feminina, ficou por momentos parada ao sol ardente a pensar onde é que tinha estacionado o carro. Por fim começou a descer a rua, felizmente ainda vazia, o que a libertava do tormento de encontrar quem lhe falasse da conferência.

Com passo lento deslizou pela ladeira da Romola Place.

De uma das janelas do segundo piso da Associação, Paul Radford olhava para Romola Place.

Viu uma mulher que descia a íngreme ladeira compassadamente. Não lhe podia ver o rosto, mas o cabelo escuro e luzidio cintilava em escuros reflexos, batido pelo sol. O vestuário que envergava — uma camisola e uma saia — tinha todo o ar de ter sido adquirido numa das elegantes lojas da zona. Paul ficou com Pena de não lhe poder ver a cara. De costas era notória a sua elegância.
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Mudou o cachimbo de um para o outro canto da boca, soprando uma baforada de fumo azulado sem tirar os olhos daquela silhueta de mulher. Via-a agora a atravessar a rua e abrir a porta de um Mercedes. Por momentos a porta da frente do veículo ficou escancarada, mostrando uma das torneadas pernas de mulher solitária. Mesmo àquela distância o panorama era magnífico. Em breve a perna desapareceu e ouviu-se a pancada seca da porta do automóvel ao fechar-se, seguida pelo roncar do motor.

Com um suspiro, Paul voitou-se para o interior da sala onde, sentados a uma mesa, Horace e Cass, afadigadamente, classificavam um monte de questionários.

— Dá a impressão de que o velhote as conquistou totalmente.

A conferência já terminou há algum tempo, mas foram poucas as

mulheres que se retiraram — disse Paul.

Horace continuou com o seu trabalho, mantendo-se silencioso, mas Cass parou de manusear as folhas.

— Felizmente que tudo vai terminar aqui — pegou num dos questionários. — Com mil diabos, a verdade é que estou farto destas perguntas.

— Não se esqueça de que são destinadas a iluminar uma zona até agora mantida na escuridão — disse Paul, com um sorriso zombeteiro.

— Ora, ora... repare bem nisto — replicou Cass, lendo em voz alta: «dado que já teve relações extraconjugais, poderá responder à seguinte pergunta suplementar: "Na primeira vez que efectivou essas relações foi a promotora, a seduzida, ou o acto foi praticado de mútuo acordo"?»

Colocou a página em cima da mesa e levantou os olhos para encarar Paul.

— Cadelas! — disse com veemência.

— Quem? — perguntou Paul, franzindo a testa.

— Ora, as mulheres casadas. Todas as mulheres casadas — respondeu Cass sibilantemente.

Depois baixou os olhos e continuou a seleccionar os questionários destinados às matrimoniadas da área de The Briars.

4

A Villa Neapolis era um motel a respeito do qual, sem relutância, poderia ter sido escrito um opúsculo publicitário assinado pelo esteta Petrónio. O arquitecto do complexo baseara-se em vivendas da Roma primitiva e nas modernas villas italianas das costas do Mediterrâneo. O conjunto resultante ficara vincado numa construção híbrida, de madeiramentos e estuques, que conseguia impressionar, e possuía um certo mérito estético, do qual o «Árbitro das Elegâncias» não desdenharia falar.



Os sessenta apartamentos e quartos da Villa Neapolis estavam divididos por dois pisos e assentavam no cimo de uma alta colina. Do terraço superior tinha-se uma vista espectacular — a norte, nas traseiras do motel, havia uma nesga azul de oceano esfumada numa cortina de névoa; a oeste, o verde de um terreno arborizado do campo universitário; a leste, para além do amplo espaço da piscina e da pequena divisão de pátios em estilo espanhol, a mancha azulada das altas montanhas e, a sul, logo no fim da colina onde a Villa estava construída, a serpenteante estrada ladeada de palmeiras, a atravessar o subúrbio de The Briars, que era o Sunset Boulevard.

Emil Ackerman resolvera reservar alojamentos em Villa Neapolis — uma suite para o Dr. Chapman e quartos para os outros membros da equipa — porque o proprietário do motel lhe devia uns quantos favores anteriormente prestados. O complexo era uma coisa nova e muito frequentado por celebridades de passagem na área de Los Angeles e, além de ser um local agradabilíssimo para uma estadia de duas semanas, ficava somente situado a cerca de


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O Relatório Chapman 161

dois quilómetros de Village Green e de Romola Place, onde se erguia o edifício da Associação Feminina em que decorreriam as entrevistas.

Até o Dr. Chapman, habitualmente preocupadíssimo com o seu trabalho para aprovar ou desaprovar qualquer habitat provisório, se sentira impressionado com a Vila Neapolis e manifestara já o seu reconhecimento ao patrono político pelo gosto revelado em alojá-los o melhor possível.

Estava-se na manhã de domingo. O Dr. Chapman, envergando uma camisa desportiva e umas calças de linho, encontrava-se, com Cass e Horace, a tomar o pequeno-almoço sentado à beira da piscina, numa mesa metálica coberta por um largo toldo circular aos gomos coloridos.

O Dr. Chapman tinha à sua frente um prato com ovos estrelados e presunto fumado; Horace estava à volta com as suas panquecas e Cass deixara de prestar atenção ao seu pequeno--almoço à francesa — torradas e café com leite — para observar uma tímida donzela loira, aparentando uns dezasseis anos, que se dirigia para a prancha de saltos, acabada de sair dos pequenos bungalows que serviam de vestiários aos utentes do motel.

— Ora bem, estou satisfeitíssimo por terminarmos aqui a nossa sondagem — disse o Dr. Chapman, enquanto cortava um bocado de presunto fumado.

— Embora o senhor já me tenha informado, esqueci-me do número de voluntárias. Quantas temos? — perguntou Horace.

— Um número bastante promissor—respondeu o Dr. Chapman. A Associação Feminina possui 286 sócias, das quais estão qualificadas 226 para as nossas entrevistas. É Benita que possui a estatística exacta, mas creio que poderemos contar com 201 ou 202 entrevistas. Descontando que, por este ou aquele motivo, não comparecem de 7 a 10 por cento, ficamos com um razoável número de elementos válidos. Já enviei um telegrama para S. Francisco a cancelar a opção.

O silêncio voltou a pairar, com Chapman ocupado com o presunto e os ovos, Horace a deglutir os últimos pedaços de massa frita com molho e Cass a observar a jovem loirita.

A adolescente, antes de chegar à prancha, sentara-se por um momento à borda da piscina, metendo um pé dentro da água

a experimentar a temperatura. A seguir subiu a escadinha e caminhou, baloiçando, pela tábua de saltos. Tomou posição, e o seu corpo núbil descreveu um gracioso arco em pleno ar, mergulhando na esverdeada água, para reaparecer um pouco mais longe. Em amplas braçadas dirigiu-se para a escada de ferro e saiu. Todo o seu corpo gotejava, e o fato de banho, de um amarelo vivo, modela-va-lhe agora mais vincadamente os pequenos mas rechonchudos seios e as elegantes mas fartas nádegas. Vendo, num relance, que era observada por Cass, corou e procurou descer um pouco o fato de banho que se lhe apertava junto ao púbis.

Quando de novo a pequena se dirigia para a prancha, Cass deu uma cotovelada em Horace e disse-lhe:

— Olhe para aquele traseiro.

Horace procurava um cigarro nos bolsos.

— A única coisa que eu vejo é uma prisão por detrás dela. Prefiro-as bem mais crescidas e maduras, assim já não há perigo.

— Gostos não se discutem. Que seria do amarelo... Para mim, todas as rapariguinhas entre os dezasseis e dezassete anos são bonitas e elegantes — replicou Cass, cujos olhos não se desviavam da adolescente. — Nestas idades todas são belas. Daqui a uns anitos a maior parte das moças de agora perdem toda a graciosidade. Mas sem dúvida que a juventude é beleza em si própria. Repare nos contornos magníficos daquele corpo...

Desviou os olhos para Horace e sacudiu a cabeça.

— Passados uns anos... quase todas se gastam depois de

muito usadas, e é pena.

O Dr. Chapman não escutara a conversa dos seus assistentes, mais ou menos murmurada. Ouviu, porém, as últimas palavras de Cass Miller e levantou os olhos da comida.

— Afinal o que é que o preocupa, Cass?

— A condição humana, especialmente a condição especial das mulheres.

Antes que o Dr. Chapman pudesse dizer qualquer coisa, ouviu-se o ruído produzido por alguém que descia as escadas de madeira que levavam ao andar superior. Todos olharam na direcção do ruído para verem Paul Radford em alva camisa de ténis e calções. A sua estatura ficava ainda mais acentuada por aquela indumentária. Paul cumprimentou os seus colegas e, de modo


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imperceptível, fez um rápido sinal ao Dr. Chapman, que se levantou prontamente da cadeira.

Paul e o Dr. Chapman caminharam até um dos pátios, em estilo espanhol, parando em sítio onde não podiam ser ouvidos pelos outros.

— Acabo de falar com o Dr. Jonas — anunciou Paul.

— Foi mesmo ele que atendeu o telefone?

— Foi.

O Dr. Chapman manifestava no rosto uma certa ansiedade para além da máscara de compustura que era hábito usar.



— A nossa conversa foi curta. Não tive mais que me apresentar. Declarei-lhe que a nossa sondagem termina aqui em Los Angeles, que permaneceríamos duas semanas em The Briars e que... bem, que pretendia avistar-me com ele.

— O que é que ele disse? Mostrou-se surpreendido?

— Não, julgo que a sua voz não era de surpresa. Até me deu a impressão de que já esperava ser contactado por um elemento da nossa equipa. Afirmou-me que já sabia da nossa estada em Los Angeles por ter lido as notícias vindas a lume nos jornais.

— Não se esqueça de que Jonas é uma criatura possuidora de muita astúcia.

— É possível que sim, mas durante a nossa conversa pelo telefone afigurou-se-me ser uma pessoa terra-a-terra, bastante atencioso e gentil.

— Não se deixe enganar pelas suas falinhas mansas.

Conheço-o muito bem. Mantenha-se em guarda.

— Sem dúvida. Aliás fui até muito cauteloso.

— Quis saber porque é que você deseja encontrar-se com ele?

— Nem uma só palavra foi pronunciada sobre esse assunto. Afirmou-me que estava encantado com a visita e fui eu que pensei em dar-lhe qualquer explicação. Disse-lhe que sabíamos dos seus artigos sobre o trabalho da nossa equipa e que estávamos interessados em auscultar a sua opinião ao vivo. Frisei-lhe estarmos preocupados com certas observações tornadas públicas e impressionados com certos aspectos dos artigos dele. A modos de complemento, disse-lhe depois que, de certo modo, ele e nós pugnávamos no mesmo lado da barricada e tínhamos um objectivo

comum, muito embora fossem diferentes as nossas maneiras de estudo e aproximação. Finalmente, afirmei-lhe que talvez conseguisse aprender alguma coisa em falar directamente com ele e que, para ele, seria possível que o nosso encontro também tivesse a sua utilidade. O homem mostrou-se compreensível e urbano.

— Ele falou em mim?

— Só depois de o encontro já estar combinado. Foi então que me disse: «Senhor Radford, diga ao seu chefe que também fica convidado a vir a minha casa».

— Chefe...

— A palavra não foi pronunciada de maneira depreciativa. Todo o vocabulário empregado pelo Dr. Jonas teve características puramente informais.

— Quando é que se encontra com ele?

— Na segunda-feira... isto é, amanhã à noite, depois do jantar, por volta das oito horas. O Dr. Jonas mora em Cheviot Hills, a cerca de meia hora de carro do motel.

O Dr. Chapman ficou por instantes pensativo, mordendo o lábio inferior como era seu hábito.

— Sinto-me satisfeito — disse por fim. — Se se mostrou urbano e compreensivo, é natural que acolha sem relutância a nossa proposta. Vou pensar um pouco no caso e, esta noite, depois do jantar, voltaremos a falar.

— Certo.


— São necessários preparativos aturados — acrescentou o Dr. Chapman. — A proposta deverá ser o mais atractiva possível.

Benita Selby atravessava o empedrado do pátio, fazendo soar os saltos numa espécie de eco abafado, e trazia um gigantesco e volumoso envelope debaixo do braço. Ao chegar junto dos dois homens, apontou para o grande envelope, em forma de saco, com um sorriso triunfal.

— Está tudo feito.

— Tudo? — a interrogação era do Dr. Chapman.

— Tudo. Preparei os horários das entrevistas e terminei os postais — bateu no saco. — Estão todos aqui.

— Quantos?

— Exactamente duzentos e um.

— Ora vejamos... — começou o Dr. Chapman num esforço


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de cálculo mental. — Serão três entrevistadores — desta vez fico de fora, quero dedicar-me aos estudos e comparações dos inquéritos. Paul, vocês três podem entrevistar, individualmente, seis mulheres por dia, dezoito entrevistas na totalidade; logo, em onze dias úteis de trabalho, terão entrevistado 198 mulheres, o que é um número que ultrapassará as apresentações. Garantido que haverá uma pequena margem de desistência, como aliás é normal dentro da nossa média prevista. Magnífico. Significa que, tirando os domingos, estaremos de partida em... Benita, quando é que se iniciam as primeiras entrevistas?

— Terça-feira de manhã. Amanhã serão os postais distribuídos.

— Ora... poderemos estar longe daqui de... de hoje a quinze dias. Bem, o melhor é que vá meter esses postais no correio. A estação dos Correios fica perto da Associação Feminina. Está fechada hoje, mas em frente há um marco. Esta tarde fazem-se sete tiragens, fui informado disso. Também já chegaram os dois automóveis que alugámos para as deslocações — um Forde um Dodge. Estão nos parques 49 e 50 — o Dr. Chapman levou a mão ao bolso das calças e tirou dois molhos de chaves. — Leve o Ford — disse para Benita Selby.

— Eu vou consigo — afirmou Paul. — Preciso de comprar tabaco.

Cavalheirescamente tirou o enorme envelope a Benita e sopesou-o.

— Que a nossa última sondagem seja a melhor de todas.

— Não se preocupe com isso — retorquiu-lhe o professor. — Anteontem examinei bem aquelas mulheres. Tenho a impressão de que são das mais evoluídas que conheci nos últimos meses. Além disso, Emil Ackerman falou-me delas com palavras de muito apreço. Fazem parte de algumas das melhores e mais distintas famílias da cidade.

— Essa qualidade pouco me importa — proferiu Paul. Tudo o que desejo é que se mostrem inteligentes e manifestem interesse. Vou escutar sessenta e seis em onze dias.

— Vá então deitar esses postais no marco — disse o Dr. Chapman afavelmente a Benita Selby, manifestando aquela insistência de dedicação de um homem que já havia estudado o

humilde sagui, o lémure e o macho humano.

A estação dos Correios que servia The Briars provia os seus carteiros, para uma distribuição mais eficiente às vivendas esparsas, separadas entre si, por vezes, por amplos jardins e pátios, de motoretas de garridas cores em listas brancas e azuis. Os carteiros podiam assim deslocar-se com rapidez de casa a casa.

Por isso, na segunda-feira, antes do meio-dia, já todos os postais a marcar as entrevistas estavam pontualmente distribuídos.

O postal dirigido a Kathleen Ballard era do seguinte teor: «A entrevista a que V. Ex.a anuiu está marcada das 16 às 17,55 de quarta-feira, dia 28 de Maio, efectuando-se na sede da Associação Feminina de The Briars».

Com excepção da data e da hora — escritos a tinta —, o resto do postal era impresso.

O postal encontrava-se em cima da mesinha da sala de visitas juntamente com todo o outro correio recebido todas as segundas--feiras de manhã — duas revistas, a circular de um armazém, a conta da leitaria, o novo cartão de crédito para compra de gasolina e a carta, bimensal, de uma irmã mais velha, casada, residente em Vermont; uma página sempre cheia de trivialidades.

Kathleen levara aos lábios a chávena de café fumegante e, por sobre o rebordo da chávena, podia ver a pilha da correspondência. Alguns minutos antes da chegada de J. Ronald Metzgar passara já em revista o correio e dera pelo postal. Estava decidida a rasgá-lo logo que Metzgar se fosse embora; se alguém telefonasse a inquirir porque não comparecia, responderia que estava doente. A persistente doença duraria tanto tempo quanto as duas semanas que o Dr. Chapman e o seu grupo passariam em The Briars.

Como Metzgar continuava a falar — não fizera outra coisa durante a última meia hora —, voltou um pouco a cabeça e fingiu escutá-lo profundamente atenta.

Há muito que Kathleen havia notado que Metzgar fora moldado Para o papel que desempenhava na vida. Tinha o tipo exacto do homem que, aos sessenta e dois anos, ainda jogava ténis em vez


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de golfe, que casa pela terceira vez com uma mulher da melhor sociedade (sendo cada uma das mulheres progressivamente mais jovem e de mais destaque senhoril) e era presidente de certa coisa terrivelmente rica e importante conhecida como Radcone Aircraft.

Metzgar, com o seu cabelo grisalho, ondulado, o pequeno bigode bem aparado e o rosto sempre meticulosamente barbeado, tinha um aspecto de banqueiro próspero, esse ar realçado pelos óculos com armação de oiro. Era um homem corpulento, sem ser gordo, talvez com 1,80 m de altura, que demonstrava a sua vaidade pela boa saúde de que sempre gozara. A voz tinha um tom demasiado agudo e falava num fluxo de palavras que, às vezes, se tornavam difíceis de apreender por um interlocutor menos prevenido. Dizia-se que era espertíssimo para os negócios e tinha fama de levar sempre a água ao seu moinho, aliás uma coisa que Kathleen pensava ser muito evidente nele.

Ainda de manhã cedo, Metzgar telefonara para a vivenda da viúva de Boynton Ballard, dizendo que, antes de ir para a fábrica, gostaria de a visitar. Marcara a visita para as dez horas e chegara cinco minutos atrasado, transportado na sua limusina preta, guiada por um motorista fardado a preceito e, durante meia hora, falara sem parar de uma recente visita em Havai, das dificuldades com a mão-de-obra e dos conflitos resultantes da exagerada intromissão dos agentes governamentais no que se referia à aplicação da energia atómica à aviação comercial; durante esse tempo Kathleen in-terrogara-se se ele viera com um fim especial ou quisera simplesmente fazer uma visita ao santuário do herói.

Nesse momento, reparando que Metzgar esvaziara a sua chávena, Kathleen interrompeu a verborreia do magnata da aviação.

— Jay (Boynton tratara-o sempre por Jay, e Kathleen, por decalque, fora quase obrigada a adoptar o mesmo tratamento), dá-me licença que chame a criada para lhe servir mais café?

A criada a que se referia era Albertina, uma mestiça magra, sempre vestida sobriamente — com dentes chapeados a ouro, que era a admiração de Deirdre —, que, cinco dias por semana, estava determinadas horas na vivenda a fazer as camas, limpar o pó a metade da mobília, quebrar alguns pratos e chávenas e ler ou contar, em voz cantante e arrastada, umas histórias a Deirdre, para esta adormecer com mais rapidez.


— Não, Katie. Não se incomode, muito obrigado. Vou-me embora dentro de alguns minutos.

— Mas quase que mal acabou de chegar... (era a velha delicadeza ritual).

— Bem sei que não é nada bom andar sempre a correr desta forma, mas o caso é que tenho muito que fazer. Às vezes nem sei para onde me hei-de voltar, mas nunca gostei de encarregar outras pessoas de arcarem com os meus deveres. Quando Boy era vivo, segui muitas vezes o invariável conselho que ele me dava. Boy costumava dizer-me: «Jay, não pense mais nisso, só se vive uma vez. Goze a vida e faça os escravos trabalhar por si». Era um autêntico manancial de filosofia da vida, e eu, durante um ou dois dias, quebrava as amarras que me prendem à secretária. Nunca conheci outro homem que melhor soubesse o real significado dos verdadeiros valores da existência humana.

Kathleen conservou-se silenciosa.

Metzgar fitou-a de soslaio e, como quase toda a gente, interpretou a sua atitude pelo lado mais favorável à unção do culto do herói.

— Lamento imenso, Kathleen. Creio que Boy está presente no

seu espírito... Bem, de certo modo, não é uma situação nada justa

para si... uma mulher ainda tão nova...

Ao ouvir aquelas palavras, o desejo de Kathleen foi gritar a sua cólera, desfazer aquele engano, que era o martírio da sua vida, mas o desenvolvimento civilizante que nela se iniciara vinte e oito anos antes afogou os gritos.

— A dor já passou — disse com firmeza. — A vida não pára,

continua sempre. Boynton morreu. É um facto que não podemos

modificar. O mesmo nos acontecerá a todos um dia.

Kathleen sabia que Metzgar não apreciaria o seu desabafo, e viu-o a alisar os pêlos do bigode com as pontas dos dedos, piscando os olhos repetidas vezes por detrás dos óculos de arcos de oiro, o que era uma maneira de manifestar a sua desaprovação.

— Ora... claro que a sua atitude é a única saudável a tomar... gaguejou ele por fim, desta vez espaçando as palavras. Na

verdade queria trocar umas palavras consigo sobre Boy... De certa

Janeira é um assunto com relação directa entre nós. Jim Scoville

falou-me da última vez que esteve aqui em sua casa...


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— Sim, Jim esteve aqui durante alguns instantes. Tinha umas certas perguntas a fazer-me acerca do quarto capítulo do livro.

— O Livro — e Metzgar sublinhou a palavra, tal como um rabino judeu que se estivesse a referir ao Deuteronómio.—A Katie bem sabe que queremos que o livro seja um símbolo de tudo aquilo que Boy representava.

— Sim, estou certa disso. E em boa verdade Jim Scoville é um homem muito consciencioso, muito meticuloso... e profundamente acatador das directrizes.

Pelos olhos de Metzgar perpassou uma rápida centelha da desaprovação que a última palavra provocara.

— Sinto bem dentro de mim, e sei que a Katie também sente o mesmo, não devemos permitir que haja qualquer sombra que possa prejudicar a grande figura pública que foi; não devemos permitir que nada seja alterado da recordação que dele existe e da forma como será retratado ao vivo no livro.

— Não estou a compreender.

— Por acaso, Jim Scoville observou que a Katie parece estar ligada, por assim dizer, a essa sondagem sobre questões... sobre questões... bem... sexuais, levada a efeito por um tal Dr. Chapman. No entanto, capacito-me que Jim deve ter compreendido mal o assunto.

— Não. Na verdade Jim não se enganou. Faço parte de um clube feminino perfeitamente respeitável, que foi escolhido para colaborar no inquérito do Dr. Chapman. De resto, ofereci-me tal como quase todas as outras componentes da associação.

— Mas a Katie não compreende que não é... não é uma mulher como... como as outras? Perante o público a sua figura é de excepção. Foi a mulher do herói. É a viúva e depositária do melhor que Boy teve. Para muita gente, se não para toda a gente, a colaboração nessa sondagem seria a violação da confiança que o herói em si depositou... Se me permite, seria um autêntico descalabro discutir publicamente certas questões da sua vida conjugal com Boy... Coisas íntimas e que devem ser preservadas a todo o custo, assuntos que só a Boy e a si pertenceram e a ninguém devem ser reveladas.

Kathleen sentiu os nervos em franja.

— Por amor de Deus, Jay, afinal o que é que o senhor pensa

da minha vida com Boynton? Éramos casados, marido e mulher à face da Lei, um casal comum, como qualquer outro, a despeito de tudo o que possa pensar sobre o caso. Nem interessa o que o grande público possa pensar disso. Aos olhos do Dr. Chapman não passo de uma mulher. Uma mulher que hoje é viúva e que antes foi casada com um homem chamado Boynton Ballard. Tudo isto é afinal a coisa mais natural deste mundo...

— Não está certo — interrompeu-a Metzgar. — A sua posição deve ser salvaguardada a todo o custo. Não terão um efeito salutar e decente aos olhos do público. A Katie é por de mais conhecida como a viúva do herói, toda a gente sabe que foi casada com Boy, e de certeza que coisas ambíguas como essa começam logo a propaiar-se...

— E depois? Todas as pessoas que lerem o livro devem saber muito bem que nem eu continuei a ser virgem após o casamento, nem Boynton, como é óbvio, era nenhum eunuco.

— Na verdade, Kattie...

— Não, não se traia de nenhum gracejo. Estou a falar com sinceridade. Fomos casados. Dormimos juntos. Afinal como é que as pessoas pensarão que Deirdre nasceu... por milagre, como a Imaculada Conceição?

— Quanto a Deirdre é um assunto diferente. Foi uma coisa normal, decente, limpa. Mas deve saber que... bem... ao inquérito desse Dr. Chapman estão associadas coisas anormais e indecentes. Quando o seu relatório sobre a vida sexual das mulheres casadas americanas for publicado, toda a gente saberá que a Katie participou nele...

— Juntamente com mais três ou quatro mil mulheres...

— Não é a questão que se põe. Por favor, desligue-se disso,

Katie. Aliás nem parece uma coisa sua.

Naquele trémulo apelo, Kathleen sentiu a ânsia infantil e humilde de Metzgar, sentiu que aquele tubarão dos negócios, aquele grande homem vivia inteiramente dominado pela figura representativa de Boynton, o herói que ele sempre desejara ser e cuja memória cultivava como um prolongamento de si mesmo. Seria inútil continuar aquela conversa. Metzgar de modo nenhum Poderia compreender a verdade verdadeira ou talvez que não lhe interessasse compreender, o que era ainda pior. Tudo o que nesse
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momento desejou foi ver aquele homem longe da sua vista, fora de sua casa, afastá-lo como se afugentasse um pesadelo que lhe lembrava a personagem de um antigo tormento.

— Bom, se na verdade o assunto tem para si tanta importância...

— Decerto que tem. Mas repare que só penso no seu bem--estar. Telefone a esses homens da sondagem e anule a sua entrevista.

— Muito bem, Jay. Farei o que pede.

— É uma mulher maravilhosa e de espírito sempre dentro da rectidão. Estava certo de que viria a proceder dentro do que é absolutamente razoável.

Metzgar levantou-se, impando de orgulho pelo seu poder de persuasão. Kathleen pensou que o homem devia manifestar aquele ar de satisfeito consigo próprio quando concluía um daqueles complicados negócios em que estavam envolvidos milhões de dólares.

— Faz com que regresse ao trabalho com o espírito liberto, desanuviado. Uma noite destas, se não se importar, jantaremos juntos.

— Terei grande prazer nisso.

— Direi a Irene para lhe telefonar.

Depois de Metzgar ter partido na sua sumptuosa limusina preta, que parecia um cruzador, Kathleen fechou a porta, e o seu olhar, distraidamente, passeou pelas paredes cor-de-mel do pequeno átrio de entrada. Depois, perturbada, regressou à ampla sala de visitas. Frequentemente, quando se sentia deprimida, apreciava a elegância sóbria e tranquilizante da sala. Nesse momento, porém, contemplando o comprido sofá de seda veneziana, as cadeiras estofadas num tecido cor de turquesa, a elegante mesinha de chá, a distinta colecção de porcelanas chinesas, os móveis de laca em estilo chinês, que ladeavam o bar, situado à esquerda da grande e acolhedora lareira, e as três estantes cheias de livros finamente encadernados, não encontrou prazer em fruir toda aquela tranquila harmonia; parecia-lhe até que agravava a sua perturbação.

Finalmente, sacudiu a cabeça e, chegando-se à mesinha de chá, começou a colocar as chávenas e pires na bandeja. Ao proceder à operação, os seus olhos viram o correio e pegou no postal do

Dr. Chapman. Sem o ler, volteou-o entre os dedos. Era estranho, mas aquele postal adquiria agora para ela uma importância que não tivera uma hora antes.

Tencionava rasgá-lo e atirá-lo para o caixote do lixo, pensando em telefonar a Miss Selby a anular a entrevista sob a invocação da doença, mas compreendia repentinamente que proceder assim a agrilhoaria ao passado ainda mais. Continuaria sob a tutela de Metzgar, Scoville e do público anónimo. Aquele postal (das 16 às 17,15 horas de quarta-feira 28 de Maio) era um convite à libertação, a uma vida sem os grilhões do passado. Era um convite a um futuro sem a sombra de Boynton, senhora de si mesma; mas, para além de tudo isso, o postal era um desafio directo à rebelião contra os cânones a que procuravam sujeitá-la.

Sem hesitar, meteu o postal no bolso da saia e, agarrando na bandeja, dirigiu-se para a cozinha.

Úrsula Palmer, tirando o postal da sua mala de mão, estendeu--o a Bertram Foster.

— Eis aqui a prova de que sou agora um elemento de valia do clube sexual do Dr. Chapman — disse ela, com um largo sorriso.

Foster segurou o postal nas mãos ambas e começou a lê-lo, mexendo os lábios como se estivesse a soletrar. Úrsula observou--o, interrogando-se sobre o que o ocupava tanto naquele rectângulo de cartão onde havia tão pouco para ler. No entanto, os olhinhos do editor brilhavam de malícia, e Úrsula estaria inclinada a afastá-lo da sua existência como um ser libidinoso e repugnante, se não fora o facto de ser quem era. Com rapidez, afastou do espírito aquele súbito desagrado, preferindo considerá-lo como um próspero e azou-gado querubim. Bertram Foster já de si tinha uma cara de lua cheia, que parecia ainda mais redonda devido à pronunciada calva. Mas abstraindo aquela semelhança com um querubim, o resto tinha uma aparência grosseira — um nariz largo e lábios amplos como de um negro. E embora utilizasse os serviços do melhor alfaiate de Nova 'orque, os fatos não eram capazes de disfarçar a sua baixa estatura, avolumada por um porte atarracado.

Sentado como estava — quase reclinado — no sofá em frente de Úrsula, naquele aposento mobilado em estilo rústico francês da


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suite do hotel, a franzir os grossos lábios, tinha o ar de um Cupido sensual — não, acabou por decidir que se parecia mais com um daqueles senadores romanos depravados.

— Das 13 às 14,15 horas — disse Foster, soletrando ainda o postal. — Mas é já amanhã.

— É verdade.

Bertram Foster deitou nova olhadela ao postal, devolvendo-o depois a Úrsula com certa relutância, como se se tratasse de uma entrevista amorosa.

— Uma hora e um quarto... Mas, minha querida, que lhes poderá você contar durante uma hora e quinze minutos?

— Que sou uma mulher já amadurecida — replicou Úrsula, num tom deliberadamente provocador.

Detestou-se por agir assim, mas bem sabia que era o que ele gostava de ouvir e que aquilo fazia parte do jogo.

— Quer dizer que vai fazer pesar na balança a sua grande experiência? — perguntou Foster, com um sorriso lúbrico.

— Não faça ideias erróneas sobre o meu passado, Sr. Foster. Sou uma mulher normal... e casada.

— Tenho conhecido bastantes mulheres normais e casadas que forçam a essas ideias.

— Acredito que sim.

— Há quanto tempo é casada?

— Há quase dez anos.

— Logo, teve uma larga vida antes disso, não é verdade?

— Bem... pode dizer-se que sim.

Úrsula começava a sentir-se incomodada na posição em que estava, positivamente afundada no sofá com as pemas num ângulo muito mais elevado em relação ao traseiro. Era obrigada constantemente a puxar a saia para os joelhos e a ter as pernas firmemente unidas devido aos olhares concupiscentes com que era mimoseada.

Bertram Foster recebera-a sozinho nos seus aposentos privativos do hotel, enquanto sua mulher, Alma Foster, saíra para ir ao instituto de beleza. Úrsula tranquilizou-se a respeito do perigo que aquilo poderia envolver, pensando que geralmente os homens não costumavam forçar as mulheres a uma hora tão matinal e que, sobretudo, talvez o instituto de beleza fosse o do próprio hotel e, por isso, Alma Foster devesse regressar a qualquer momento.

— Julgo que você não será muito diferente da maior parte das

mulheres—continuou ele — e terá muito que responder às pergun

tas que lhe fizerem durante uma hora e um quarto.

Os seus olhos fixaram insistentemente os joelhos de Úrsula, que os manteve unidos com firmeza, embora isso lhe fizesse doer os músculos.

— O caso poderá dar um artigo emocionante, Sr. Foster —

disse, esforçando-se por distrair a atenção das suas pernas.

— Um artigo que poderá esgotar um número da Housedayse for

publicado.

— As agências devolvem sempre exemplares — retorquiu ele, evasivo, afastando o olhar daqueles joelhos. — Desde que me contou o caso tenho estado a pensar seriamente nele. Talvez fosse melhor dividi-lo em três partes...

— Magnífico, Sr. Foster! — exclamou Úrsula, batendo as mãos de contente.

Na sua excitação os joelhos desuniram-se, e os olhos do homem voltaram a fixar-se neles. Desta vez Úrsula não cuidou em uni-los, pensando subitamente que, se o fazia feliz, não era uma coisa assim tão importante. Diabo, havia muito em jogo.

— Úrsula, talvez seja melhor dizer-lhe o que pensei do assun

to. No dia anterior à partida de Nova Iorque, estive a falar com Irving

Pinkert—conhece-o, não é verdade?

Úrsula acenou afirmativamente com a cabeça. Pinkert era sócio de Foster na direcção e propriedade da revista. O seu poderio, embora se mantivesse oculto nos bastidores, era imenso. Permitia que o nome de Bertram Foster brilhasse como cabeça de cartaz, parecesse dominar o conteúdo da editorial e fizesse as viagens de inspecção e divulgação, mas permanecia vigilante como o verdadeiro patrão do negócio tratando com eficiência da parte tipográfica, da publicidade e da distribuição.

— Bem, disse a Irving que tinha os olhos postos em si, que pensava em si como editora associada da Houseday... e talvez mais tarde se possa arranjar uma posição ainda melhor.

— Sr. Foster, realmente não encontro palavras...

Os grossos lábios de Bertram arreganharam-se num sorriso.

Úrsula dispôs-se imediatamente a modificar todos os conceitos que

2era dele. Agora tomava-o como um patrono benevolente e sábio.
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— Claro que você está afastada de tais assuntos — continuou ele —, mas a verdade é que as grandes empresas também têm as suas políticas internas. A editora a quem quero que substitua foi colocada no lugar há dois anos por Irving. Ela não presta, é uma lésbica. Irving sabe isso muito bem e também não gosta dela, mas o facto é que está o seu orgulho em jogo, foi ele que a meteu na revista. Não admitirá facilmente que se enganou de modo a despedi-la, sem que haja uma razão forte para isso. O meu argumento a seu favor é que você é uma cabeça sólida, uma mulher inteligente, combativa, e que pode ser uma lufada de ar fresco na revista. Irving não está em desacordo sobre isso, mas para ele você ainda não deu verdadeiras provas. De modo que só será necessário um empurrãozinho para o pôr do meu lado, provar que você é a melhor. Penso que esse artigo sobre o sexo será justamente o ponto fulcral. E é uma coisa na qual todas as mulheres e homens estão interessados, até mesmo Irving.

— Sr. Foster, sinto vontade de beijá-lo!

— E o que é que a impede?

Úrsula levantou-se num impuiso e inclinou-se para ele, mas em vez de os seus lábios tocarem a testa, para onde se tinham dirigido, sentiu de repente que os grossos lábios dele se colavam aos seus, sentiu a sua boca ávida que cheirava a tabaco de mistura com o presunto fumado do pequeno-almoço. As mãos dele tinham--se enclavinhado por baixo dos seus sovacos e a direita tacteava o seu seio esquerdo. O instinto primário de Úrsula foi afastá-lo num sacão, mas a verdade é que se ele desejava aquele pouquinho, tal como ela desejava tanto de outra coisa, a troca parecia eminentemente favorável. Permaneceu naquela posição por mais tempo de que tencionara, depois descolou os lábios dos dele e afastou--Lhe a mão do seio.

— Pronto — disse Úrsula, endireitando-se e sorrindo.

— Esse é o género de agradecimento que eu aprecio. Sente--se. Ainda temos alguns minutos para tratar dos nossos negócios antes que Alma venha e me arraste para qualquer outro sítio.

Úrsula sentou-se, desta vez despreocupadamente, com os joelhos separados e a saia uns bons centímetros acima deles. Agora aquilo já não lhe importava. Viu os olhos de Foster baixa-rem-se, abissais. Esperava que ele se sentisse satisfeito, tão

satisfeito como ela, embora por outras razões.

— Minha querida, os meus planos para si são concretíssimos

— disse Foster. — Deixe as coisas a meu cargo e eu encarregar-

-me-ei de convencer Irving. Garanto-lhe que em Julho já poderá

estar instalada em Nova Iorque. Terá um amplo gabinete só para

si, com intercomunicador para chamar a sua secretária privativa,

e agentes que a convidarão para almoçar... se eu permitir que o

façam. Só tem que fazer o que lhe disser.

Úrsula deu uma gargalhada de alegria.

— Amanhã — continuou Bertram Foster — irá contar toda a sua vida sexual àqueles homens...

— Ao Dr. Chapman.

— Sim, ao Dr. Chapman. Conte-lhe tudo, não esconda nada, percebe? Dir-lhe-á... bem, afinal o que é que eles perguntam?

— Não estou certa. Suponho que serão as mesmas perguntas feitas aos homens, segundo o último relatório publicado em livro.

— Dê-me um exemplo.

— Julgo que desejarão conhecer a minha história sexual da pré-adolescência, brincadeiras estimulantes e experiências anteriores ao casamento, conjugais e extraconjugais.

— Excelente, excelente — disse Foster, passando a língua pelos lábios. — Isso dará um óptimo artigo. Claro que terão que ser modificadas algumas palavras; seja como for, não podemos desprezar os nossos anunciantes, sobretudo os muito religiosos... mas para mim, isto é, nos apontamentos básicos não modifique nada. Quero conhecer todos os factos para poder... avaliá-la, orientá-la.

— O que é que pretende, Sr. Foster?

— Escute, minha cara, vá amanhã à entrevista e, enquanto eles estiverem a tomar notas, você tome notas, também. Depois coordená-las-á e passe-as à máquina, todas as perguntas, as suas respostas, tudo exacto... não modifique nada, não omita nada. Então marcaremos um encontro. Amanhã vou com Alma para Palm Springs. Devemos lá estar uma semana, mas ela talvez não queira perma-necer tanto tempo. Mas o importante é isto, regressarei sozinho a Los Angeles. Encontrar-nos-emos aqui no hotel, na sex-ta-feira... talvez possamos jantar juntos enquanto trabalhamos. O que pensa disto a futura editora?

— Penso que é uma ideia maravilhosa.


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- O Relatório Chapman 177

— Quando regressar a Los Angeles na sexta-feira, telefonar--Lhe-ei... julgo que Alma deve estar junto da porta—Bertram Foster levantou-se precipitadamente. — Escreva tudo... Lembre-se da sua futura posição...

Só muito mais tarde, quando já tinha chegado a The Briars, é

que Úrsula se lembrou do encontro com Haroid, mas nessa altura

já estava quase próximo de casa. Prometera encontrar-se com o

marido e já passavam dez minutos da hora marcada, segundo

verificou ao deitar uma olhadela ao relógio de pulso. Prometera ir

ter com Haroid ao seu novo escritório para o ajudar a decorar e

mobilar a casa. Ora, não havia remédio, telefonaria a dizer que

tinha estado muito ocupada. Subitamente, lembrou-se que Haroid

iria deixar de precisar de ter qualquer escritório, iam mudar-se

para o Leste. Lá poderia até contratar um decorador para lhe

mobilar qualquer escritório, o que indicaria o seu interesse no mari

do. Estava convencida disso. i

Sarah Goldsmith estava deitada de costas na cama, de olhos fechados, a respiração um pouco ofegante, sentindo o coração a bater descompassadamente, com as vibrações a reflectir-se por todo o corpo, desde os frementes seios, passando pela linha pronunciada do púbis, aos dedos dos pés. Sentia-se extenuada mas feliz. A seu lado houve um movimento e logo a seguir a sua perna experimentou o contacto da perna cabeluda de Fred, a carícia dos seus dedos. Continuou de olhos fechados a recordar a forte sensação do tempo que já se tinha esgotado, mas com a consciência de que o milagre ainda estava vivo e presente no seu corpo.

— Amo-te muito — disse para Fred.

— E eu adoro-te e sei que és minha — respondeu Fred. Sarah abriu os olhos vagarosamente, preguiçosa, fixando-os

no tecto verde-mar, baixando-os depois para seguir a linha sinuosa do seu corpo, com evidência para a suave elevação dos seios a descoberto, e contemplando as curvas desenhadas pelo leve e alvo lençol que lhe cobria o corpo desnudado. Seguidamente os olhos volveram-se para a parede, percorrendo o toucador e os objectos circundantes. Finalmente, voltou a cabeça para enfrentar os olhos do amante, fixos nela.

Fred também estava deitado de costas, com os braços cruzados sob a cabeça. Sarah atentou no perfil, recortado naquela semi-obscuridade. Era o perfil de um primitivo, de um homem do Cro-Magnon. O cabelo preto hirsuto, as peludas sobrancelhas, o nariz partido, achatado, os proeminentes maxilares, os ombros poderosos, o pescoço taurino, o peito saliente e cabeludo marcavam uma promessa nunca desmentida. Ela lembrava-se que, à primeira vista, a sua aparência de homem das cavernas não só a intrigara como a decepcionara. Muito embora tivesse ouvido dizer que se tratava de um homem de valor, não pudera imaginar que tal estrutura pudesse albergar grande sensibilidade e uma inteligência superior. Mais tarde, a discrepância da sua voz macia e melodiosa, a penetração profunda da sua percepção, da sua capacidade cerebral que abarcava o melhor de Shakespeare a Tennessee Williams, haviam-se sobreposto a todas as suas primeiras impressões.

Para além do amante, no cadeirão forrado de verde, ao lado da cama, Sarah viu o desvairamento que podia mostrar a grandeza do seu desejo e da sua paixão: a blusa, a saia, o soutien e as calcinhas de nylon estavam empilhadas ao acaso — salientando a sua urgência em ser possuída e em possuir o amante. Só o casaco de coiro, o primeiro objecto de vestuário que tirara à entrada, estava arrumadinho nas costas do cadeirão. Reparou que de um dos bolsos do casaco se distinguia a protuberância de um postal e vários sobrescritos, e então lembrou-se: quando se dirigia para o seu carro, à saída de casa, encontrara-se com o carteiro, que lhe entregara a correspondência. Já dentro da canadiana, deitara um apressado olhar ao postal e repara que lhe marcava a data da entrevista das 9 às 10,15 de terça-feira, 28 de Maio. Cheia de pressa, por estar meia hora atrasada, acabara por esquecer a correspondência. Nesse momento, imaginava o que é que a obrigava a levar aquelas coisas para casa de Fred Tauber. Supunha não ter havido nenhuma razão especial, fora simplesmente um esquecimento motivado pela pressa.

— Em que é que estás a pensar? — perguntou Fred.

Sarah olhou-o absorventemente.

— Em quanto te amo. Não sei como pude viver todo este

tempo sem ti.
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Considerou a frase que acabara de proferir.

— Evidentemente que não vivi sem ti. A verdade é que nem

uma só das células do meu corpo esteve viva até ter-te encontra

do.


Fred acenou com a cabeça afirmativamente, declamando:

— «E quando o amor fala, o céu fica repleto de harmonia com as vozes de todos os deuses...»

— De onde é isso?

— Love's Labor's Lost, Shakespeare.

— Às vezes julgo que decorreu um milhão de anos desde que nos conhecemos... Fred, sabes quanto tempo se passou?

— Precisamente um milhão de anos.

— Não. Precisamente três meses e dois dias.

Fred rolou sobre si mesmo e poisou a cabeça no ombro de Sarah, com a boca a tocar-lhe o seio. Lenta e suavemente, os seus dedos acariciaram-lhe o corpo.

Sarah voltou a fechar os olhos, abandonando-se à doce sensação. Mas agora era só o seu corpo que se entregava; o espírito, através do pensamento, volvia-se para uma situação de tempo e espaço localizado três meses e dois dias antes...

Começara tudo com o convite para a representação da peça She Stoops to Conquerpor elementos da Associação Feminina de The Briars, destinada a recolher fundos para fins de caridade.

Grace Waterton, ao saber que Sarah desempenhara alguns papéis, quinze anos antes, no teatro experimental da Universidade, pedira-lhe para participar nos ensaios. A princípio recusara-se terminantemente, mas Úrsula Palmer, encarregada da parte publicitária do espectáculo, acabara por convencê-la, se bem que a sua anuência em acompanhá-la tivesse por motivo um facto imperativo. O dia marcado para ir aos ensaios fora um dia de quezílias familiares, arrelias com os filhos, sentimento de um vazio profundo. Durante todo o jantar ela e o marido, Sam, haviam debatido o caso da sua participação na festa. Sam dissera-lhe que lhe faria muito bem aos nervos sair umas quantas noites, distrair-se-ia do trabalho caseiro fatigante; mas só depois que vira o marido instalar-se diante do aparelho de televisão é que Sarah compreendera que não poderia aguentar mais outra noite de tão entorpecente monotonia. Imediatamente telefonara a Úrsula e, uma

hora depois, encontrava-se, com várias outras mulheres e uns quantos maridos e namorados anuentes e com certa experiência teatral, no auditório da Associação.

Lembrava-se que de princípio se tinham todos sentado nas cadeiras do anfiteatro, à espera que chegasse o célebre Fred Tauber. Fora o caso de o marido de Grace Waterton conhecer um produtor de cinema que, por sua vez, conhecia um realizador, de momento sem ocupação. O realizador e encenador era Fred Tauber, que acedera a dirigir o espectáculo por se tratar de uma festa com fins beneficentes.

Sarah destacava o momento em que o vira descer a coxia central, de gabardina deitada sobre o ombro, pedindo desculpa por chegar um pouco atrasado e acabando por se reunir com os novéis actores no palco, depois das habituais apresentações feitas por Grace Waterton.

Fred dissera que, de momento, estava livre, explicara rapidamente que nem sequer tencionava assinar futuramente mais nenhum filme, que ninguém se preocupava já com o chamado cinema vivo, uma vez que a corrente se inclinava agora para a televisão. Já recebera convites para realizar películas para a televisão, mas recusara-se a colaborar num espectáculo corruptor sob o patrocínio de um cereal qualquer ou de uma pasta dentífrica. Confessara que se sentia atraído para a direcção do teatro de amadores, porque estes eram na verdade um símbolo das actividades cénicas criadoras, e que, por isso, teria muito prazer em encenar a peça da Associação Feminina.

Contudo, não obstante a sua voz calma e ponderada e os seus gestos suaves, Sarah não sentira nenhuma simpatia por aquele homem. Assistira à chamada do primeiro grupo de candidatos, vendo o modo profícuo, mas que lhe pareceu arrogante, como Fred Tauber os dirigia nas provas, e, ao subir ao tablado, lamentara ter deixado o ambiente sepulcral do seu lar na já conhecida monotonia que o envolvia. O seu teste consistira num diálogo dramático sob a pele de Constance Neville. Fred Tauber, enquanto ela lia a parte do papel, não lhe lançara um só olhar. porém, em certa passagem, parara de passear para cá e para lá, fixara-a e gritara: «Não a estou a ouvir». Sarah engolira em seco e esforçara-se por elevar a voz, sob o olhar atento do encenador.


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Um quarto de hora mais tarde o papel pertencia-lhe. E assim começara tudo...

Fred Tauber decidira que os ensaios seriam feitos várias vezes por semana e durante seis semanas. Os ensaios haviam-se iniciado no vasto auditório da Associação, mas em breve, por conveniência do encenador, foram transferidos para o próprio apartamento de Fred Tauber, situado em Wilshire Boulevard, perto de Beverly Hills. Fora após um desses ensaios que Fred convidara Sara para se deslocar sozinha ao seu apartamento, a fim de intensificar o seu completo domínio do papel. Ao convidá-la, e muito embora não cessasse de a olhar com os seus ardentes e perturbantes olhos, os modos dele tinham tido um ar tão impessoal que ela anuíra à solicitação. Na noite seguinte, a marcada, metera os pequenos na cama, deixara Sam confortavelmente sentado em frente do aparelho de televisão e chegara ao apartamento de Fred às nove horas da noite. Ele recebera-a já com o papel na mão e de modo tão amigável e acolhedor como Sarah ainda não lhe conseguira ver durante todo aquele tempo. Por isso, quando Fred sugerira que podiam tomar qualquer coisa, aceitara prontamente. Sara raramente bebia depois de jantar, mas a verdade é que se sentia nervosa, receosa, com a percepção de se encontrar à beira de algo desconhecido e inesperado na sua vida. De uma bebida passaram à segunda e por aí adiante, até à sexta. Há muito que o ensaio fora posto de parte, o receio evaporara-se e encontrava-se sentada muito junta a Fred.

Há muito tempo que não se divertia daquela maneira, há muitos meses mesmo... meses não, anos, uma eternidade. Fred começara a contar-lhe particularidades da sua vida íntima, falara--Lhe da mulher com quem se casara e de quem se encontrava separado, uma criatura horrorosa que não lhe queria conceder o divórcio pedido. Por seu lado Sarah falou-lhe de Sam, dos anos perdidos e da verdadeira solidão em que vivia. Então, Fred agarrou--Lhe na mão e ela não conseguia lembrar-se se fora ela a beijá-lo ou ele a beijá-la, recordava-se apenas de se terem abraçado um ao outro e das carícias que tinham trocado antes de entrarem no quarto de cama. Fred despira-a, enquanto ela permanecia imóvel, tonta, atónita, especada ali, ao lado da cama. Quando de novo sentira os beijos dele, tivera vontade de gritar, e quando ele a fez deitar no leito, ficou tensa, rígida, de olhos fechados obstina-damente

para, pelo menos, não ver a sua participação activa num acto tão pecaminoso e de tanta vergonha. No entanto abraçara-o freneticamente no início da cópula, muito embora a desejar que tudo aquilo acabasse breve como costumava acontecer com Sam.

Mas a revelação viera, os beijos dele, o seu calor, a forma inteiramente nova e desconhecida para Sarah como Fred praticava o amor, levaram ao seu desabrochar da paixão, ao seu encontro, involuntário, de uma participação corroborante, activa, plena de entusiasmo. Descoberta excitante das potencialidades do seu corpo, da magnitude do prazer, e desejando, então, que aquilo nunca mais acabasse, nunca mais...

Na manhã seguinte, na cozinha de sua casa, evitou olhar para a mesa onde Sam e os filhos tomavam o pequeno-almoço. Sentia violentos remorsos do que fizera, muito embora nunca se tivesse sentido tão excitada e tão senhora de si toda a sua vida anterior. Projectou retirar-se da peça e sepultar dentro de si o vergonhoso episódio, dizendo para consigo que o caso da noite antecedente só fora possível por uma intoxicação alcoólica. Mas ao cair da noite teve a certeza de que não queria desistir. Começou impacientemente a contar as horas que a separavam do próximo ensaio, aper-cebendo-se apenas vagamente da estranha casa em que vivia e das estranhas pessoas que ali se encontravam.

Três noites depois, integrada num grupo dos amadores que ensaiavam a peça a levar à cena, foi de novo ao apartamento de Fred Tauber, ficando surpreendida de poder desempenhar o seu papel com toda a naturalidade e de Fred se comportar como se nada tivesse acontecido entre eles.

O ensaio, ou antes a leitura dos papéis, terminou por volta das onze e meia. Porém, quando Sarah se aprestava a enfiar o casaco de agasalho, o encenador, com toda a urbanidade, pediu--Lhe que ficasse mais dez minutos, a fim de reverem um trecho muito importante do primeiro acto. Sarah anuiu.

Nessa noite não houve o preliminar das bebidas, e mal trocaram algumas palavras. E dessa vez o caso não foi um mero acidente.

Ao voltar para casa ao volante do seu automóvel, Sarah sentia-

■se tão irresponsável e despreocupada como uma dipsomaníaca.

Os ensaios terminaram, por fim. A peça foi levada à cena.


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Houve palavras que foram esquecidas, deixas que não entraram a tempo, mas quando o pano caiu estrondearam os aplausos, e foram servidos os fins caritativos para que fora criado o espectáculo.

Mas, entre os dois amantes, levantava-se agora a dificuldade de já não se poderem encontrar à noite—a justificação dos ensaios desaparecera. Então o amor entre eles passou a ser um ritual praticado matinalmente — quatro ou cinco vezes por semana.

Primeiro, Sarah surpreendeu-se pela sua insaciabilidade; depois admirou-se pelo frenesi que punha no acto, mas passada a primeira onda de choque acabou por se deliciar. O que tinha começado casualmente, com um fim previsível, por ser uma coisa impraticável, sem objectivo e até perigosa, manifestou-se um hábito necessário, fundamental, com o absoluto significado de cada dia vivido e de cada dia para viver. E, todavia, Sarah ainda não se permitia acreditar que aquele amor representava toda a sua vida, um novo rumo da sua existência; considerava o caso como um episódio finito que constituía temporariamente a única parte de verdadeira vivência da sua monótona existência.

A mão dele parara de acariciá-la, e ela abriu os olhos.

— És o meu querido, o meu maravilhoso e único amor.

— Espero bem que sim — foi a resposta dele.

— Que horas são, Fred?

— Quase meio-dia.

— É melhor regressar a casa. Mais um cigarro e depois vou--me embora. O maço está no meu casaco, importas-te de o ir buscar?

Fred afastou a coberta, saltou da cama e espreguiçou-se. Sarah olhou para aquele sólido e atlético corpo e sentiu uma onda de orgulhoso poder de posse. A partir daquela primeira vez, nunca mais voltara a sentir qualquer sentimento de culpa. Tudo o que acontecia era tão maravilhoso e repousante que não havia lugar para a culpa nem para o erro. Recordava-se que da primeira vez em que vira Fred, todo nu, atravessar o quarto em plena claridade para ir ao encontro dela, experimentara uma certa vergonha. Fora durante o quarto encontro e vira que ele não era circuncidado. Sarah nunca antes encarara uma coisa assim — o marido, o filho, seu pai eram todos judeus e cumpriam os preceitos da velha religião. Nessa altura, por breves momentos, tivera uma sensação de algo es-

tranho, mortificara-se pelo que pensara ser uma depravação. Mas logo a seguir sentiu-se invadida pela maravilha do prazer físico, e a vergonha desapareceu por completo.

Fred estava junto do casaco dela, colocado nas costas da cadeira.

— Em qual dos bolsos?

— No da direita.

Viu imediatamente que era o bolso onde guardara o correio. A mão de Fred tirou o maço de cigarros e, ao fazê-lo, o postal caiu no chão. Sarah sentou-se na cama, sentindo o coração pulsar mais depressa ao vê-lo inclinar-se para apanhar o postal.

— Nunca pude resistir a postais.

Os seus olhos percorreram as linhas escritas e depois ergue-ram-se para ela, interrogativos:

— Quem é que te vai entrevistar na quinta-feira de manhã?

— Esqueci-me por completo de te dizer. Nessa manhã não posso vir a tua casa—tentava desesperadamente encontrar uma explicação para lha fornecer. — Trata-se de uma psiquiatra que vem dar consultas livres às crianças.

— Julgava que os teus filhos eram normais — aliás como a mãe.

— Claro que são — disse ela rapidamente. — Acontece apenas que Debbie tem andado perturbada ultimamente. Penso que é devido a não lhe poder dar a assistência que devia... isto é, nos últimos tempos não tenho tido paciência para as crianças, o meu pensamento não se devota a elas.

— E se isso estiver na minha mão, penso que continuarás assim. Todo o tempo é pouco para o devotarmos um ao outro. Acho, pois, excelente que vás com os pequenos a essa sabichona de psicologia infantil.

Colocou novamente o postal no bolso de onde caíra e voltou para a cama, fornecido de cigarros e fósforos. Sarah tapou os seios com o lençol, agarrou no cigarro que Fred lhe estendia e deu graças a Deus por ele ler somente a secção de crítica de espectáculos dos jornais.
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Mary McManus entrou na sala de jantar, vinda da cozinha, equilibrando cuidadosamente o tabuleiro cheio de copinhos com sumo de laranja e uma grande travessa atascada de ovos mexidos e salsichas. Desde o momento em que ela e Norman tinham concordado em viver com os pais, o espaço da cozinha fora considerado demasiado pequeno para albergar os quatro durante as refeições matinais. O pequeno-almoço passara a ser servido na ampla sala de jantar da casa dos Ewing.

Mary poisou o tabuleiro na mesa, servindo primeiro o pai, sentado à cabeceira, a seguir Norman e, por fim, serviu-se a si mesma, deixando a restante comida em frente do lugar habitualmente ocupado pela mãe, nessa altura ausente.

A criada espanhola que servia a casa, Rosa, estava no andar superior a fazer arrumações; mas mesmo que assim não fosse, Mary sempre insistia em ser ela a servir a refeição matinal à família — aquilo fazia parte de um dos seus planos para induzir o marido a acreditar que se encontrava realmente no seio de uma família unida, numa casa que também lhes pertencia.

Mary olhou para o pai — que bebera o seu sumo de um só trago —, para o marido, que rodava o copo entre os dedos com os oihos distraidamente fixos num ponto vago do espaço.

— Está tudo em condições, Norman? — perguntou Mary, com a voz a tremer de ansiedade.

— Está sim... tudo perfeito — respondeu Norman, bebendo o sumo de laranja desinteressadamente.

— Onde é que está a tua mãe? — perguntou Harry Ewing. Daqui a pouco os ovos dela estarão frios.

— Foi buscar o correio — respondeu Mary, pegando no garfo.

Ao mesmo tempo que ia comendo, deitava olhares de revés

tanto ao marido como ao pai.

Habitualmente, o pequeno-almoço era um momento de prazer para ela. Gostava de ver os seus entes queridos todos reunidos naquele à-vontade da refeição matinal. Sentia-se feliz de ver Norman naquele seu fato castanho de Verão, com o cabelo bem penteado, o rosto barbeado de fresco. O marido tinha um ar marcante de advogado combativo que a fazia sentir-se orgulhosa. Apreciava com o mesmo carinho, embora de outra espécie, o pai no seu fato azul--marinho, com o lenço imaculadamente branco a sair do bolsinho

superior do casaco, com aquele seu ar de director de empresa bem sucedido e próspero.

Mas agora que olhava mais atentamente para o marido, sentia--o estranho, coisa que vinha a suceder nos últimos tempos, sobretudo à hora das refeições. Havia um instinto que a impedia de o sondar sobre o caso quando à noite estavam sozinhos no leito. Mas tinha a premonição que, se aquilo continuasse, cedo ou tarde teria que falar a sério com ele.

Desviou os olhos. A sua atenção concentrou-se na mãe que, no seu robe cor-de-rosa, entrava na sala de jantar com o correio na mão. Bessie Ewing era uma mulher alta e magra, com um rosto comprido e cavalar, cujas preocupações mais evidentes eram o tempo que fazia e o cuidado com a sua saúde.

—O dia hoje vai ser uma verdadeira calamidade—disse Bessie Ewing. — Tomara eu que o Verão acabe. Os meus ossos ressen-tem-se.

Quando chegava o Outono, ela ansiava pelo Inverno, depois pela Primavera e assim sucessivamente.

— Há alguma novidade no correio? — perguntou Harry Ewing. Bessie ocupou o seu lugar à mesa.

— Nada de especial.

Passou o correio todo ao marido, ficando apenas com um postal que estendeu à filha.

— É para ti, Mary.

Mary ficou a observar o rectângulo de cartão durante uns segundos, indecisa. Depois voltou a ler o que lá estava escrito.

— É o aviso a marcar a entrevista? — perguntou a mãe.

— Claro que é! — exclamou Mary com um gritinho de alegria.

— Quase que me tinha esquecido do caso. É a resposta do Dr.

Chapman a marcar a entrevista.

Estendeu o postal ao marido.

— Olha, Norman, amanhã é o meu dia D. A entrevista é das duas e meia às três e quarenta e cinco. Julgo que amanhã à noite já farei parte de um grande livro.

— Magnífico! — exclamou Norman.

Entretanto, Harry Ewing colocara de parte o seu correio e estava agora a fixar atentamente a filha, sentada no extremo oposto da comprida mesa.
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— Que significa isso? Se bem ouvi, falaste no Dr. Chapman, não é verdade?

— É verdade. Sabe que...

— Não, não sei nada — disse Harry Ewing com um ar de paciência evangélica.

— Mas eu... eu... Contei à mãe... julgava que também lhe tinha dito. O Dr. Chapman está cá, papá.

— Li isso nos jornais.

— Muito bem. O Dr. Chapman vai entrevistar todas as sócias casadas da Associação Feminina, a fim de elaborar um trabalho científico. Deu-nos uma conferência explicativa e vamos ser entrevistadas. Não é maravilhoso?

Harry Ewing volveu os olhos para Norman.

— O teu marido tem conhecimento do caso?

— Tem-me dado instruções durante toda a semana — disse Mary dando uma cotovelada no marido.

Ewing recostou-se na cadeira. Os seus olhos não se desviaram de Norman, que acabou por o fixar também.

— Com certeza que não aprova, não é assim, Norman?

— Que significa isso?

— Exactamente o que disse. Não vai com certeza permitir que Mary se vá expor a essa... a essa pretensa investigação.

— Não vejo nada de mal no caso. Acredito até que é uma coisa muito boa. Já não estamos na Idade Média.

— Insinua então que eu sou medieval, hem? — perguntou Harry Ewing sem elevar a voz, muito embora se tornasse aparente o esforço que estava a fazer para se controlar.

— Ora, Harry, suponho que a questão só diz respeito aos dois — disse Bessie, tentando deitar água na fervura.

— É possível que nenhum deles tenha maturidade suficiente para distinguir o que está certo do que está errado, o que se deve ou não se deve fazer.

Mary ficou atónita com a objecção levantada pelo pai. Devido ao longo e antigo hábito de um contacto sem reservas, sentiu-se impressionada e enervada com a rispidez do seu progenitor.

— Mas afinal que mal poderá haver no caso? Trata-se de uma sondagem perfeitamente científica.

— Essa opinião é muito discutível, podes ficar certa disso. Os

métodos utilizados pelo Dr. Chapman e o real valor do seu inquérito são suspeitos até nos melhores círculos. Evidentemente que não levanto objecções, tratando-se de mulheres mais idosas do que tu, de mulheres já amadurecidas. O tempo é um grande mestre. Com a idade vai-se aprendendo a distinguir os valores reais das coisas, vai-se conhecendo o que é de aceitar e o que é de rejeitar. Enfim, é uma lição sobre a arte de como uma pessoa se deve conduzir. Mas tu, Mary, completaste vinte e um anos em Março.

Foi ostentoriamente ruidosa a forma como Norman poisou o garfo na borda do prato.

— Aos vinte e dois anos de idade minha mãe já tinha três

filhos — disse ele.

Mary sentiu a corrente eléctrica de animosidade que pairava no ambiente — era uma coisa quase palpável. Em dois anos de casada a única discussão séria que tivera com o marido cifrara-se no caso de terem filhos. Norman ansiava por ter os seus pimpolhos, e muitos, Harry Ewing, porém, aconselhava com firmeza a não os ter tão cedo. Confidenciara a Mary, numa conversa íntima de pai para filha, que devia primeiro aprender a viver o sentido experimental do casamento, que era ainda muito nova, que havia muito tempo para os filhos e que os primeiros anos do matrimónio deviam ser gozados sem os incómodos de crianças agarradas às saias.

Até então, Mary nunca analisara os seus verdadeiros sentimentos quanto a ter filhos. Sabia apenas querer o que Norman queria, isto é, desejava ardentemente que o marido fosse feliz a seu lado.

Quanto aos conselhos paternos, considerara sempre o pai como uma pessoa avisada que só queria o bem dela. Todavia, naquele momento, a atitude de Harry Ewing em relação ao Dr. Chapman não lhe parecia nada razoável.

— Mary já não é nenhuma criancinha de mama — continuou Norman, com a cólera a transparecer na voz. — É uma mulher casada, maior e vacinada. Não é necessária essa persistência em protegê-la como se ela fosse um bebé irresponsável. Acredito que o inquérito promovido pelo Dr. Chapman é uma coisa completamente saudável e inteiramente dentro da normalidade.

— Lamento muito, mas discordo dessa opinião, Norman — volveu Harry Ewing. — Estou crente de que poderá fazer mais mal do que bem.

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— Seja como for. O que está em causa é que eu desejo que

ela seja entrevistada — tornou Norman obstinadamente.

Harry Ewing encolheu os ombros num falso gesto de desinteresse, sorrindo forçadamente.

—Afinal Mary é sua mulher—olhou para o relógio de pulso e afastou a cadeira. — O que está agora em causa é que são horas de irmos para o escritório.

Harry Ewing encaminhou-se para o hall, a fim de ir buscar o chapéu. Os olhos de Norman, a chispar de ira contida, seguiram--no até à porta de comunicação; depois levantou-se também num repelão, tomando o mesmo caminho do sogro.

Já ia a sair da sala de jantar, quando ouviu a interpelação de Mary:

— Norman, tens a certeza de que não te esqueceste de nada?

Norman, ainda de rosto fechado, arrepiou caminho até junto

da cadeira em que a mulher continuava sentada.

— Tens razão, perdoa-me — disse, ao beijá-la.

— Não vale a pena estares zangado, querido. Eu quero ser

entrevistada.

— Ainda bem — retorquiu Norman, já junto da porta.

Entretanto, Bessie Ewing, que estivera a mexer na correspon

dência, desdobrava uma circular de propaganda.

— Olha, vem aqui um saldo de vestidos de algodão nos

Armazéns Brandon — declarou ela, como se fosse a coisa mais

importante e apropriada para o momento.

Mary contemplou o postal com tristeza e desejou secretamente que a opinião de Norman a respeito dos filhos se modificasse ou que o pai modificasse a sua opinião sobre o mesmo assunto. Subitamente pensou qual seria a resposta a dar se o Dr. Chapman a interrogasse sobre o facto. Sim, que responderia se a pergunta lhe fosse feita?

Teresa Harnish rodou a chave na fechadura e entrou na frescura acolhedora da sala de visitas. Tirou os óculos escuros e soltou um suspiro de alívio. A diferença de temperaturas era manifesta. Na rua estava um calor verdadeiramente sufocante. Os braços, a partir das cavas das mangas curtas da blusa, e as pernas, a partir da orla

onde chegavam os shorts, estavam ligeiramente encarniçados.

Teresa abandonara o «abrigo de Constable» meia hora mais cedo do que o tempo habitualmente concedido para o seu repouso. À guisa de safa mental, dissera para consigo mesma que o sol não se podia aguentar na praia, mas a verdade é que lhe sobreviera um certo e inexplicável nervosismo, mesmo irritação, por ver o local deserto. Pela primeira vez desde a sua descoberta daquele local tranquilo, sentia que o refúgio à beira-mar não lhe fora útil como factor repousante. Dessa vez a terapêutica da solidão não surtira o desejado efeito. Claro que não fora o abrigo, em si mesmo, que a decepcionara. Pelo contrário, nessa manhã estivera mesmo tão encantador e solitário como antes da invasão dos bárbaros.

De facto, ao iniciar a descida irregular da falésia rochosa, esperara ver os quatro bárbaros nos seus habituais jogos violentos primitivos, la precavida contra eles, escudada por uma justa cólera de ser civilizado ante a brutalidade dos trogloditas. Aliás, era sua intenção proceder como se aqueles seres não tivessem existência real — ignoraria simplesmente tais presenças. Mas para o caso de o tal mastodonte, com os seus indecentes calções que lhe realçavam as musculosas coxas, se aproximar dela, estava disposta a pulverizá-lo com palavras directas e duras. As frases a dizer já tinham sido pensadas e trabalhadas de modo a serem o mais contundentes possível e, depois disso, estava certa de que encontraria a paz; evidentemente no caso de o vândalo as compreender.

Ao pisar, porém, o areal, verificara que os hunos não estavam à vista. O caso desconcertara-a. Já no abrigo, e depois de estendida no cobertor, abriu o livro de poemas... mas pouco depois acabou por compreender que, embora tivesse voltado cinco páginas de Swinburne e duas de Coventry Patmore, não lera uma só palavra do que estava escrito. O seu espírito estivera inteiramente ocupado pelo pensamento nos invasores—travara uma imaginária e acalorada discussão com os quatro, particularmente com o tal, e saíra vencedora da força física que eles representavam com a força espiritual de quem era um expoente.

Para não voltar a tão obcecante assunto, pensou na galeria de arte do marido, no Marinetti da montra e nas manhãs de prazer que passava ali na praia. Imaginou como é que um ser sem intelecto como Grace Waterton conseguia sublimar-se numa actividade
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tão servil, ou como era possível Sarah Goldsmith conseguir passar um dia satisfatório a tratar dos filhos e da casa. Disse para com os seus botões que talvez tivesse nascido fora da sua verdadeira época. Estava certa de que eram coisas que aconteciam: eram alguns dos anacronismos e deficiências da Criação. Visionava-se melhor como uma Louise Colet, de Paris, ou como uma Mary Wollstonecraft, de Londres (embora houvesse uma certa porcaria na última que não era nada agradável) ou ainda como uma Kitty 0'Shea, de Dublim, em vez de Teresa Harnish, de The Briars, no estado da Califórnia.

Pensando melhor, a personalidade que mais lhe quadrava era a de Maria Duplessis, ofertando a sua beleza, elegância, tragédia e inspiração ao jovem Dumas Filho de A Dama das Camélias. Contudo, o papel parecia-lhe, de certo modo, mais ajustado à personalidade de Kathleen Ballard — qual seria a actividade dela durante aquelas longas manhãs?

De repente Teresa sentiu cócegas nas costas da mão que tinha apoiada no cobertor e viu um bichinho que abria caminho naquele terreno desconhecido. Sacudiu a mão com um trejeito de asco, e todos os devaneios se perderam. Estava de novo no abrigo de Constable. Lá em baixo, na orla da praia, as ondas lambiam a areia num movimento de azul-metálico. O sol era uma brasa. De súbito, aquele local afigurou-se-lhe uma autêntica excrescência geológica que primava pela imperfeição — rochedos dispersos, detritos que o mar arrojava à praia e que ficavam a salpicar a areia, exactamente como um terreno baldio onde se fazem despejos do lixo.

Para estar desconfortável e aborrecida, então era muito melhor, embora continuasse aborrecida, estar pelo menos confortavelmente na frescura da sua vivenda, dentro da água limpa e clara da sua banheira de mármore. A propósito de banheira: quem era que, habitualmente, se fazia conduzir ao banho nos braços do seu musculoso criado negro? E quem, depois, costumava entreter conversação com os seus amigos e admiradores franceses e italianos enquanto se banhava? Ah, sim, era Paulina Bonaparte. Verdadeiramente sensacional. A bela Paulina Bonaparte esplendidamente esculpida por Canova naquele extraordinário nu da Villa Borghese. Teresa Harnish levantou-se, juntou as suas coisas e percorreu o

caminho inverso pela penedia até junto do automóvel.

Agora, na sua sala de estar, elegante, cheia de gosto e escassamente mobilada, uma sinfonia de bege e de outros tons variegados provenientes dos quadros abstractos que estavam pendurados pelas paredes, colocou o livro de poemas em cima da mesa e viu num relance o casaco de Geoffrey — o azul, com botões de metal, que ele levara nessa manhã vestido ao ir para a loja — cuidadosamente colocado nas costas de uma cadeira de alto espaldar.

— Geoffrey! —chamou.

— Estou no escritório.

Intrigada, largou o cobertor e os apetrechos em cima do canapé e encaminhou-se para o escritório.

Geoffrey estava ajoelhado no chão a desenrolar o cartaz litografado, que se intitulava Divan Japonais.

— Sentes-te bem, Geoffrey?

— Perfeitamente, minha querida — respondeu. Contemplou o cartaz durante mais algum tempo e, depois,

voltou a enrolá-lo.

— Afinal, que vieste fazer a casa a esta hora? — perguntou Teresa.

— Uma cliente de S. Francisco acaba de descobrir a existência de Henri Toulouse-Lautrec — disse ele, estendendo a mão para pegar noutro cartaz.

— É como atingir a puberdade aos quarenta anos.

— Temos encontro marcado para as duas horas. A cliente quer tudo o que lhe possa arranjar.

Geoffrey desenrolou o outro cartaz: La Troupe de Mademoiselle Eglantine. Apontou para as quatro bailarinas de perna eternamente levantada.

— Jane Avril, Cleópatra, Eglantine, Gazelle. Recordas-te da

época em que descobrimos isto?

Fora numa loja suja e atravancada de velharias da Rue de Seine dez anos antes. A obra litográfica custara-lhes cinquenta e sete mil francos — nessa altura o valor de um dólar, no mercado negro, era de trezentos e oitenta francos. Costumavam sempre dizer que haviam descoberto Lautrec, pelo menos assim lhes parecia naqueles dias. Ter os cartazes colados nas paredes da casa era uma maneira nobre de chamar atenções. Porém, logo a
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seguir veio uma verdadeira inundação de obras sobre o pintor; depois seguiu-se a realização e exibição do filme da vida de Toulouse- i Lautrec, e em breve das obras do pintor figuravam decalques em guardanapos, caixas de fósforos e anúncios coloridos das revistas.' Geoffrey enrolou o cartaz das dançarinas e levantou-se.

— Na verdade, já me sentia cansado disto, e não tenho pena de me ver livre destas obras, porque vou receber três vezes mais do que paguei. Afinal de contas, sou um negociante. Aliás, todo o artista, mais tarde ou mais cedo, se assemelha a um convidado importuno que ficou demasiado tempo — disse ele em forma de lamento.

— Julgo que ninguém se poderá cansar de Leonardo da Vinci: ou de Shakespeare. Os artistas de menor envergadura aparecem e desaparecem, dentro da ordem normal das coisas. Lautrec foi uma curiosidade, mas os clássicos são eternos, permanecem.

— É melhor não estares tão segura disso. Shakespeare esteve esquecido durante muitos séculos após a sua morte. A sua revivescência é relativamente moderna e pode ser esquecido de novo, desaparecer até do conhecimento dos vindoiros.

Teresa deixou de sentir vontade de prosseguir com a conversa. r

— É possível que tenhas razão — respondeu com ar enfastiado. — O mais importante agora é que preciso de tomar, um banho.

— Um momento, querida — pediu Geoffrey, aproximando-se da secretária e entregando-lhe um postal. — Estava entre o correio que recolhi. É finalmente a grande aventura que esperavas.

Teresa leu em voz alta: «Quarta-feira, das dez e meia às onze e quarenta e cinco».

— Não te esqueças que quero um relatório completo sobre o assunto.

— Rematada tolice. Que poderei eu dizer que não saibas de antemão? Colaboraste em tudo o que forma esse aspecto da minha vida.

— Ora, na verdade nem pensei nisso — parecia envaidecido do seu papel. — As próximas semanas deverão ser emocionantes. Uma verdadeira catarse para a nossa comunidade.

—Julgo que será um acontecimento saudável e rico de efeitos — replicou Teresa, para não ficar calada.

Sentia-se intrigada com a indiferença com que encarava agora a entrevista com o Dr. Chapman. Mas, repentinamente, acudiu--Lhe um pensamento que a fez reanimar.

— Sabes o que seria engraçado?

— Não.

— Ora, darmos uma festa. Uma grande festa, tanto mais que há um mês que não nos divertimos. Podíamos celebrar o caso do Dr. Chapman e da libertação que ele vai conceder às mulheres da nossa comunidade. Por exemplo, dávamos um baile em que os convidados seriam obrigados a aparecerem com fantasias. As mulheres vestidas com disfarces das personalidades que gostariam de ser em relação à entrevista do Dr. Chapman. Não achas uma ideia divertida?



— Maravilhosa, querida Teresa. Para mais, temos muitos convites que nos foram feitos para retribuir.

Para Teresa Harnish, despontava de novo um dia radioso de fulguração para o seu espírito criador. Começou a andar de um lado para o outro do aposento, ao mesmo tempo que perorava.

— Estou mesmo a ver as fantasias das convidadas: Naomi Shields disfarçada de Penélope. Sarah Goldsmith aparecendo nas roupagens de... Geoffrey, depressa, menciona o nome de uma cortesã notória.

— Hester Prynne; Harriett Wilson; Cora Pearl.

— Sim, sim, qualquer dessas — aprovou excitada. — Estou a ver Mary McManus vestida de Ninon.
— Já compreendo a tua ideia. Cada mulher encarnará justamente a personalidade sua oposta.

— As castas desejarão, secretamente, ser devassas, e as devassas mostrar-se ante o bom Dr. Chapman como as mais puras donzelinhas.

— E tu, querida, como queres apresentar-te?

Teresa teve a intuição da armadilha. Seria Maria Duplessis?

— Aparentando ser eu mesma, querido — disse, resolvendo

a questão. — Sou franca. Por que raio desejaria ser outra coisa

senão eu mesma?

Naomi Shields, vestida apenas com a combinação, estava a


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dormitar enroscada na cama, tão desfeita e remexida, com as roupas a esmo, como se por ali tivesse passado um furacão. A pouco e pouco, a parte ainda consciente do seu ser sentia-se penetrada por insistente retinir. A dissonância, embora lutasse contra ela, persistia, e acabou por forçá-la a abrir os olhos e a escutar. Compreendeu finalmente que era a compainha da porta.

Primeiro sentou-se na devastada cama. A cabeça andava--Lhe à roda e parecia-lhe uma coisa separada por completo do resto do corpo. Sentia-se como se fosse um balão que pairava muito acima de si preso por um fio. Agora incomodava-a a transpiração. O sulco que separava os seios era um rio a correr por um vale entre altas montanhas e a combinação estava peganhentamente colada ao corpo. Deitou uma olhadela ao relógio. Meio-dia menos dez. Depois do pequeno-almoço resolvera encostar-se um bocadinho e afinal dormira durante duas horas.

Tentou recordar-se dos acontecimentos. Sim, despertara às nove horas absolutamente consciente da firme resolução que tomara a partir do último trago da noite anterior. Na segunda-feira, iniciaria um novo dia, uma nova semana, com o programa de uma vida inteiramente nova. Antes de se casar havia frequentado, durante oito longos meses, uma escola para secretárias. Tinha aprendido dactilografia, estenografia e alguma coisa de Francês, e estava esperançada em que fossem coisas que ainda não tivesse olvidado completamente. Resolvera que, na segunda-feira, telefonaria a Úrsula Palmer, ainda que ela lhe desagradasse... ou então a Kathleen Ballard, que conhecia toda aquela gente importante das fábricas de aviação, devido ao falecido marido ter sido aviador. Fosse como fosse, telefonaria a uma delas, talvez a ambas, e certamente que a ajudariam. Porque não tomara a decisão há mais tempo? Daria normalidade e um sentido definido à sua vida. Nos escritórios existiam sempre homens solteiros... seria possível que acabasse por conhecer um que fosse honesto e decente. Era uma coisa realmente sensata. Imaginara aquilo tudo durante o pequeno-almoço, mas com o primeiro golo de café todo o plano traçado se esboroara. Por que diabo engolira todo aquele vodka? Levou as mãos às têmporas e tentou lembrar-se como conseguira chegar à cama.

De novo o retinir do besouro da campainha. Procurou as chine-

las de quarto e dirigiu-se para a sala, mas antes de chegar ao átrio lembrou-se de que estava só em combinação e voltou apressadamente ao quarto. Uma vez envergado o vaporoso penteador branco, aproximou-se da porta da rua e abriu-a. A explosão do sol a bater--Lhe em cheio no rosto fê-la fechar os olhos violentamente.

Quando conseguiu fitar o exterior, avistou um homem alto, magro, que vestia uma camiseta, calças azuis desbotadas, calçava sandálias e se afastava pelo relvado em declive.

— Eh! — chamou ela.

O desconhecido parou e voltou-se.

— Viva. Até que enfim.

— Foi o senhor que tocou à campainha?

— Fui.

O homem dirigiu-se para a porta. À medida que se ia aproximando, Naomi via que era feio. O cabelo era uma trunfa acastanhada em desordem, com necessidade de um bom corte, os olhos eram pequeninos e afundados nas órbitas, o rosto marcado pelas bexigas e um sorriso escarninho nos lábios finos.



— Pretende vender-me alguma coisa? — perguntou-lhe

Naomi.


Chegado junto da porta, o homem, descaradamente, examinou-a dos pés à cabeça. A inspecção foi demorada e insolente, e Naomi via agora que, não obstante a sua palidez e fealdade, o desconhecido tinha qualquer coisa de atraente. Viu-o mexer os lábios, mas, na sua fascinação por aquele sorriso escarninho que nunca o abandonava, só conseguiu ouvir:

—... no quarteirão lá do fundo.

— Desculpe-me, parece que não estou ainda bem acordada. O que foi que disse?

— Que me chamo Wash Dillon e que moro no quarteirão ali do fundo da rua. Justamente cinco portas mais abaixo.

Naomi franziu a testa num esforço para se recordar. Aquele nome não lhe era estranho.

— É possível que já tenha ouvido tocar a minha orquestra. Temos algumas gravações.

— Claro que já ouvi.

— É a Sr.s Naomi Shields, não é verdade?

— Miss Naomi Shields — atalhou ela rapidamente.
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— Ah, sim! — os olhos dele estavam abissalmente fitos nos peitos de Naomi. — Ora bem, aqui — disse ele, metendo a mão no bolso traseiro das calças e exibindo um postal — está escrito senhora.

— Mas afinal que quer isso dizer?

— É para si. O carteiro deve ter-se enganado e meteu o postal na minha caixa do correio. Parece tratar-se de uma marcação de entrevista para emprego. Claro que me apressei a virtrazê-lo como bom vizinho que sou.

Naomi abriu um pouco mais a porta e aceitou o postal que o homem lhe estendia.

— Fartei-me de tocar, e, como não me respondiam, pensei que não estava ninguém em casa. Já me preparava para lhe meter o postal na sua caixa do correio. Onde é que ela fica?

— Ali em baixo, junto daquelas sebes. As sebes estão muito crescidas. Tenho que avisar o jardineiro para as aparar.

Naomi deitou uma vista de olhos para o postal e viu que se tratava da entrevista com o Dr. Chapman, marcada para quarta--feira das cinco e meia às seis e quarenta e cinco.

— É alguma coisa importante? — perguntou o desconhecido.

Naomi olhou-o.

— Sim, de certo modo — o homem era descaradamente curioso, mas ela não desejava que ele se fosse embora. Penso que ainda estou ensonada e não sei como agradecer o seu cuidado.

— Sei eu — replicou ele. Não há melhor agradecimento a um bom vizinho do que oferecer-lhe uma chávena de café.

—Tem razão — concordou Naomi, abrindo a porta para o homem passar.

Ao entrar, o desconhecido, embora tivesse muito espaço, roçou--se por Naomi.

— Onde fica a sua cozinha?

Naomi fechou a porta, apertou melhor o cordão do penteador e, com o homem a observar-lhe o ondular das ancas, encaminhou--se para a cozinha.

Enquanto o café aquecia, Naomi colocou em cima da mesa um prato com biscoitos, vendo o à-vontade com que o vizinho se sentava, de pernas abertas, a seguir-lhe todos os movimentos, com aquele sorriso escarninho à flor dos lábios.

Sentindo-se inexplicavelmente perturbada, serviu-lhe o café e foi sentar-se no outro lado da mesa. O café para ela era uma coisa fora de hipótese, apetecia-lhe beber um copo de gim mas não se atrevia a ir buscar a garrafa.

Pouco depois teve consciência de que estava a responder a todas as perguntas que o homem lhe fazia.

«Sim, comprara aquela vivenda e habitava em The Briars há três anos. Conhecia a maior parte das pessoas que moravam nas redondezas e surpreendia-a o facto de nunca o ter visto por ali».

Wash Dillon respondeu-lhe que só estava em The Briars há duas semanas. Normalmente habitava em Van Nuys. Andava em digressão com a sua orquestra. Tinha um longo contrato a cumprir em Los Angeles e instalara-se na residência do Sr. Agajanian, também proprietário do night club em que actuava, até arranjar alojamento próprio.

— Conheço o Sr. Agajanian... isto é, de vista. Diz-se que é

muito rico.

— Sim, na verdade qualquer pessoa pode enriquecer facilmente explorando os músicos e misturando água nas bebidas alcoólicas.

— Não são pessoas desse quilate que vivem em The Briars

— ripostou Naomi.

— Ora, bonequinha, a gente dessa ordem vive em qualquer

lado.

A chávena estava vazia, e Naomi foi ao fogão buscar a cafeteira para lha tornar a encher, preferindo fazer um rodeio para não passar junto dele. O homem devorava-lhe o corpo com a vista, particularizando a atenção do seu olhar no farto busto dela.



— Estou satisfeita por sermos vizinhos — disse Naomi, para quebrar o silêncio embaraçoso. — A sua mulher gosta de viver em The Briars?

— Pequerrucha, ainda nenhuma mulher me fisgou para ir ao altar. É coisa que pode ficar para mais tarde. Até ter uma vida equilibrada é melhor um músico ser solteiro. Então, e você, como se dá com o seu marido?

Naomi explicou-lhe que era divorciada há três anos.

— Isso é uma coisa que se adivinha ao longe.

Naomi resolveu encher uma chávena de café para si; era um
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modo de esconder a perturbação em que se encontrava. Via perfeitamente o caminho a que o homem a pretendia conduzir e não queria deixar-se levar. Ansiava por aquele homem, mas tinha que se lembrar que era segunda-feira, que estava disposta a arrepiar caminho, a começar uma vida nova, uma vida diferente.

— Quantos músicos tem a sua orquestra? — perguntou com

intenção de o distrair.

Wash Dillon respondeu-lhe que era um quinteto e que estava a tocar em Sunset Strip, num clube denominado Jorrocks' Jollities.

— Tocamos lá todas as noites, todas...

Naomi calou-se. Não sabia que mais perguntar para fazer, desviar a conversa do rumo que ele pretendia imprimir-lhe.

— Como lhe disse há pouco, queridinha, pressenti à distância-que era divorciada.

— Ah, sim? E como?

— Um homem experiente nota sempre quando uma mulher não tem dono.

— Sério? (Adeus votos de nova vida para segunda-feira).

— Sim. Nota-se no modo como uma mulher se comporta, como anda... na insegurança que manifesta.

— E foi a sua pequena que lhe ensinou tudo isso? (Era uma última tentativa para o confundir e salvar-se).

— Não, bonequinha, as minhas pequenas não se comportam assim. A bem dizer quase que não fazem ondas.

— Nunca lhe disseram que é uma criatura muito insolente? (Adeus intenções de arranjar um emprego).

— Se sou assim, tenho todo o direito a sê-lo. As minhas pequenas nunca tiveram razão de queixa.

— Não estou a gostar nada da sua conversa.

Naomi levantou-se num ímpeto, indecisa sobre se deveria correr a fechar-se no seu quarto, como num baluarte, ou se devia tomar um trago de qualquer coisa forte para permitir que acontecesse o que, com toda a certeza, acabaria por acontecer fosse como fosse.

Ao tentar contornar a mesa, os grandes braços de Wash Dillon estenderam-se para agarrá-la pela cintura. Naomi tentou lutar, mas o homem, apesar de magricelas, tinha força, e foi quase sem aparente esforço que a obrigou a sentar-se-lhe nos joelhos. A carne do

desconhecido era uma brasa contra o seu traseiro. Debilmente, Naomi tentou libertar-se do amplexo a que a sujeitava.

— Por que raio havia de me ter trazido aquele postal? — disse

quase com lágrimas na voz. — Podia tê-lo...

Wash Dillon desatava-lhe o cordão do penteador.

— Pequerrucha linda, observei-a há dois dias com aquela

camisola especial... Ora só se veste uma coisa daquelas quando

uma mulher pretende caçar os homens.

— Wash, por favor.

O sorriso escarninho não desaparecia daqueles lábios, e Naomi fechou os olhos.

Nesse momento ouviu-se o besouro da campainha.

Wash desviou a vista, inquieto, o que ela aproveitou para se libertar, pondo-se de pé, vacilante.

— Queridinha, espera... não atendas.

— Não vê que está alguém à porta à espera?

— Que espere!

Naomi correu para fora da cozinha, ajeitando o penteador que tinha ficado aberto. Não se importava de estar desgrenhada, nem do seu aspecto. Tudo o que queria naquele momento era ver alguém que a salvasse.

Abriu a porta da rua.

Um rapazito magrinho, aparentando ter uns doze anos, estava ali à entrada.

— O meu pai veio aqui...

Nesse momento o rapazito avistou Wash Dillon, que seguira Naomi.

— Papá, a mamã diz para ir para casa.

Finalmente o sorriso escarninho desaparecera dos lábios finos do homem.

— Vou já. Desanda daqui!

— A mãe diz que não quer que eu lhe apareça sem o levar comigo... Diz que se eu for sozinho vem cá buscá-lo.

Naomi, ainda trémula, olhou para o bom vizinho. O sorriso de mofa voltara a reaparecer, agora ainda mais descarado.

— Ora bem, bonequita, como vê a vida é assim mesmo... Pa

ciência...

Encolheu os ombros e voltou-se para o filho.
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— Vamos embora, Johnny.

Lentamente, passou por Naomi, por quem procurou roçar-se.

— Filho da mãe! — vociferou ela, irada.

Wash Dillon parou por momentos, voltou-se e mirou-a intensamente dos pés à cabeça.

— Boneca, pelo teu aspecto deves ter uma fome dos diabos.

Se queres matar essa fome não te esqueças de aparecer uma

noite destas pelo Jorrocks' Jollities.

Naomi fechou a porta com estrondo, e ficou da parte de dentro, encostada ao painel, a soluçar. Pouco depois, extinguido o choro, limpou os olhos e voltou para a cozinha. Instintivamente encaminhou-se para o armário onde estavam as bebidas.

Bem, ao menos restava-lhe a esperança da quarta-feira...

— Finalmente os pequenos ficaram a dormir, e agora já pode

remos conversar à vontade — disse o Dr. Victor Jonas, aparecendo

à porta da sala.

Paul Radford, que ficara sentado no sofá, junto de Peggy Jonas, a ver as primeiras cenas de um filme antigo que se exibia na televisão, ergueu-se rapidamente.

— Tem uns filhos na verdade encantadores, Dr. Jonas. Que

idade têm?

— Thomas vai fazer doze em Setembro e Mathew tem nove.

Peggy Jonas desviou por momentos a sua atenção do

pequeno ecrã.

— O Sr. Radford não quererá uma chávena de café ou de chá?

— perguntou, dirigindo-se ao marido.

A Sr.ã Jonas era uma mulher baixinha, afável, jovial, acolhedora, com um sardento rosto irlandês que respirava simpatia e franqueza por todos os poros.

— Chá? Café? Que tolice propor uma coisa dessas ao Sr.

Radford.

Depois voltando-se para Paul:

— Tenho coisa muito melhor para nós no pátio.

— Bom, ficarei então aqui — disse Peggy Jonas, voltando a aninhar-se no seu canto do sofá. — Se precisares de alguma coisa, chama-me.

Victor Jonas, com familiaridade, agarrou no braço de Paul.

— Por aqui, temos que atravessar a cozinha para chegarmos

ao meu refúgio.
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Chegados à cozinha, o Dr. Jonas abriu a porta das traseiras e esperou que Paul passasse.

— Cuidado, há dois degraus.

Atravessaram o relvado humedecido, dirigindo-se para o extremo oposto do largo quadrado.

Paul Radford chegara à modesta residência, em estilo americano antigo, do Dr. Victor Jonas às oito e dez.

A casa ficava situada em Cheviot Hills, e a apreensão que Paul sentira durante todo o percurso fora rapidamente dissipada pela cordialidade com que o Dr. Jonas o recebera.

O «advogado do Diabo», como o designara o Dr. Chapman com azedume, nada tinha da aparência de um feroz inquisidor. Era um homem com cerca de um metro e oitenta. O cabelo arruivado, de risca ao lado, caía-lhe para a testa, como o de um rapazinho de escola. Os olhos, cinzentos e vivos, piscavam constantemente num tique peculiar. Só o comprido nariz aquilino obscurecia um pouco o sorriso bonacheirão que sempre lhe bailava nos lábios.

O vestuário constituiu outra das surpresas para Paul, que esperava encontrar um homem vestido a rigor e metido nuns colarinhos altos de estilo.

Victor Jonas, pelo contrário, usava uma camisa desportiva, de colarinho aberto e umas calças de bombazina, amarrotadas, tal qual um trabalhador manual que andasse sempre a fazer biscatos. O cachimbo que fumava tinha um fornilho de cerejeira, tão despretensioso como o de qualquer pescador.

No momento em que Paul chegara, o Dr. Victor Jonas estava a ler trechos de um livro aos seus dois filhos. Jonas chamara imediatamente a mulher, e, depois das apresentações de estilo, Paul Radford insistira para que o doutor terminasse a leitura que fazia aos filhos.

Victor Jonas, naturalmente, sem desculpas pretensiosas, anuíra com satisfação e, indicando a Paul uma larga cadeira de braços, voltara para o sofá, onde os garotos o esperavam, e reiniciara a leitura no ponto onde a tinha interrompido.

Pouco depois a Sr.B Jonas voltara da cozinha e haviam encetado uma conversação sobre vários casos, que não tinham

passado de futilidades de momento: teceram comentários ao trecho de ficção científica que o Dr. Jonas acabara de ier aos filhos; falaram das histórias em quadradinhos dos jornais dominicais de Los Angeles; da neblina que quase sempre pairava, à noite, em Cheviot Hills; do encanto de The Briars; da vida californiana comparada com a vida noutros locais dos Estados Unidos; das escolas que os moços frequentavam; e mergulharam numa discussão sobre desportos. Foi tudo tão fácil e encantador que Paul Radford sentiu-que-j-ião era um desconhecido, experimentou a sensação inolvidável de que já conhecia aquela casa, aquele ambiente, aquela família feliz há longos anos.

Nesse momento, no meio da ligeira neblina que ocultava toda a potência da noite luarenta, estacou, ao lado do Dr. Jonas, junto de uma espécie de bungalowque se erguia no extremo do pátio.

— É a minha oficina — disse o Dr. Jonas. Julgo que foi por isto que me atrevi a comprar a casa.

Abriu a porta, acendeu as luzes, e Paul avaliou rapidamente o aposento. No centro havia uma secretária de carvalho, com aspecto de muito uso, e sobre ela uma confusão de papéis. Ao lado da secretária havia uma mesinha onde se instalava uma máquina de escrever muito antiga, e em frente uma cadeira giratória, sem braços. A parede frontal era dominada por uma grande lareira de tijolos, e nas paredes laterais predominavam prateleiras carregadas de livros. Ao fundo, por uma porta entreaberta, via-se uma nesga da casa de banho privativa. Além de umas quantas cadeiras simples, existia a nota confortante de um largo divã.

Enquanto o Dr. Jonas se dirigia à janela para a abrir, Paul, tal como era seu velho hábito sempre que entrava numa biblioteca, estacou diante das prateleiras com livros e bisbilhotou os títulos. Deu imediatamente de frente com o último livro do Dr. Chapman e, mais adiante, um segundo exemplar da mesma obra. Pelas estantes haviam espalhados volumes de Freud, Adler, Jung, Alexander, Fenichel, Bergler, Dickinson, Terman, Stone, Stopes, Gorer, Hamilton, Kraft-Ebing, Lynd Reik, Weissenberg, Mead, Ellis, Guyon, Trilling, Kiekegaard, Riesman, Russel...

— Chartreuse, xerez seco ou conhaque? — perguntou o Dr. Jonas, que estava agora junto de um móvel-bar em que Paul não tinha reparado.
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— Deixo à sua escolha.

— Recomendo-lhe o chartreuse.

— De acordo.

Victor Jonas encheu dois cálices, colocou um no tampo da secretária e o outro na mesinha, perto do candeeiro de pé alto e da cadeira estofada, que ficava em frente da secretária. Paul sentou--se na cadeira estofada e observou o Dr. Jonas, que enchia o seu cachimbo com tabaco da grande lata que estava num canto da secretária.

— Creio que foi convenientemente inteirado daquilo em que me ocupo e da minha vida, Sr. Radford — rompeu subitamente o Dr. Jonas.

— Evidentemente... claro — respondeu Paul, um pouco surpreendido. — Na verdade procuro sempre conhecer qualquer coisa de uma pessoa com quem tenho que contactar.

— É como eu — o Dr. Jonas sorria acolhedor. — Para tentar conhecê-lo li a obra que escreveu.

— Ah, a minha obra...

— Um livro na realidade muito prometedor. Pena é que não tenha continuado a escrever. Agora, presumo que já não se dedique a essa actividade. É mais que suficiente haver um escritor na família.

Paul sentiu a directa alusão ao Dr. Chapman.

— As obras do Dr. Chapman têm a colaboração de todos os seus assistentes. É quanto basta para me manter activo.

— Afirmou ao seu chefe que também seria bem recebido nesta casa? — o cachimbo do Dr. Jonas era uma brasa incandescente.

— Evidentemente. Mas é pena que não pudesse ter vindo. Amanhã começamos com as entrevistas, é a última parte do nosso inquérito. Tem a noite toda ocupada com os preparativos.

— Visto isso, o senhor tem que fazer sozinho o trabalho sórdido, hem?

Paul estremeceu. Esteve prestes a retorquir que não havia nenhum trabalho sórdido, mas reconheceu a tempo que a proposta que tinha para dar desmentiria a sua negativa.

— Não compreendo o que quer dizer.

— Quero dizer simplesmente que não posso acreditar que fez toda esta caminhada até casa de um desconhecido por mera

curiosidade intelectual ou para se entreter durante um serão. Posso estar enganado e, se assim for, peço-lhe que me perdoe. Mas na realidade é o que penso da sua presença.

Observando que Paul tirava a sua bolsa de tabaco para encher o cachimbo, o Dr. Jonas estendeu-lhe a lata.

— Experimente esta mistura.

Paul chegou-se para a beira da cadeira, destapou a lata e encheu o fornilho.

— Em boa verdade, sinto-me contente por o Dr. Chapman

não teívindo — disse o Dr. Jonas. — Penso que não simpatizaria

com ele. E, pelo contrário, simpatizo imenso consigo.

Não obstante o prazer sentido com as palavras do Dr. Jonas, Paul quis acentuar a sua lealdade ao Dr. Chapman.

— Embora o possa surpreender, Dr. Jonas, o facto é que o meu chefe, como lhe chamou, é uma pessoa inteligente, um homem digno.

— Não duvido. Existe porém qualquer coisa nele... eu... não, não faça caso daquilo que disse. O que quero na verdade realçar é que muitas pessoas, que não me conhecem, me julgam irascível, desagradável. Não sou nada disso. Quero que compreenda que apenas procuro ser o mais franco e directo que é possível. Posso não ter razão naquilo que digo, mas procuro primar pela franqueza. Principalmente aqui, neste tugúrio, neste santuário do meu pensamento íntimo, sobretudo com uma pessoa que pressinto ser da mesma força intelectual que eu, ponho inteiramente dê parte os jogos de palavras. São um deplorável desperdício de tempo. Gosto de ir directamente à essência da questão... e espero o melhor do meu oponente, tal como lhe darei o melhor de mim. Aprender é evoluir. Se concordarmos com estas premissas, creio que nos entenderemos às mil maravilhas e que esta noite se pode revestir de imenso valor e proveito para ambos.
— Sim, na verdade o senhor prima pela franqueza — disse Paul, recostando-se no espaldar da cadeira e relaxando a tensão muscular.

— Quer lume?

— Obrigado. Tenho aqui fósforos.

— Espero que saiba plenamente qual é o meu pensamento a respeito das sondagens do Dr. Chapman, envoltas em tão altos


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galarins de publicidade. Na generalidade, não me agradam mesmòJ

nada. Quanto a si, sem dúvida que acredita nelas.

Evidentemente.

— Muito bem. Os dados estão lançados.

Paul recordou a emoção sentida quando, em Reardon, travara contacto com as primeiras críticas escritas pelo Dr. Victor Jonas a respeito do inquérito sobre os celibatários. Considerara-as de visão curta e pouco elegantes. Estaria nessa altura a julgar sobre directa influência da má vontade manifestada pelo Dr. Chapman? O pai do inquérito, sobranceiramente, insinuara que o Dr. Jonas era uma espécie de ratinho que procurava importunar um elefante. Acrescia que as opiniões pouco favoráveis emitidas pelo Dr. Victor Jonas ficavam ainda desfocadas por não passarem de excertos publicados em últimas páginas, por falta de espaço. As primeiras páginas e os grandes cabeçalhos pertenciam ao Dr. Chapman.

Nesse momento, as velhas emoções reacendiam-se. «Se o nosso trabalho é uma coisa tão justa, tão certa, tão esclarecedora (pensou Paul), como é que um homem tão inteligente como o Dr. Jonas não o encara assim? Será ele, como disse o Dr. Chapman, um invejoso e um ambicioso?»

— É escusado dizer-lhe qual a minha opinião no que respeita ao inquérito dos celibatários — continuou imperturbavelmente o Dr. Jonas, como se estivesse a ler no pensamento de Paul como num livro aberto. — Está contida num sucinto artigo que escrevi na altura. Também quero que fique inteirado de que são ainda maiores as minhas dúvidas no tocante ao inquérito sobre as mulheres casadas... e do uso que o Dr. Chapman fará da sondagem.

— Mas o trabalho ainda está a ser elaborado. Como pode o senhor criticar uma coisa que ainda não chegou ao seu termo, criticar os resultados de obra que ainda não leu?

Por escassos minutos, o Dr. Jonas esteve às voltas com o seu cachimbo, depois olhou fixamente para Paul.

— Está redondamente enganado. Já existem dados referentes à

sondagem às mulheres casadas... alguns dados, não todos,

evidentemente... mas foi o suficiente. Como deve estar ao corrente,

fui contratado por determinado grupo pertencente ao conselho de

administração da Fundação Zollman, para fazer uma análise ao

inquérito do Dr. Chapman sobre as mulheres casadas... aliás a

ambos os inquéritos. Ora o seu Dr. Chapman, para tentar obter o apoio dos membros da Fundação Zollman para a sua causa, vai-Lhes enviando, regularmente, cópias dos dados fornecidos pelas sondagens que efectua.

— É-me quase impossível acreditar nisso, tanto mais que o trabalho ainda não está concluído.

— Todavia, os administradores da Zollman estão a par desses progressos do inquérito. Foram-me enviadas fotocópias daquilo que têm realizado, do vosso trabalho já feito — apontou para o móvel atrás de si: — Na segunda gaveta superior do arquivo possuo umas duzentas páginas sobre as vossas entrevistas. Creio, pois, estar suficientemente qualificado para poder discutir consigo o assunto, os últimos dados obtidos até há dois meses.

Paul não estava preparado para aquele rumo da conversa. Apoiara-se essencialmente sobre a total falta de conhecimentos do Dr. Jonas sobre o caso, e a reviravolta súbita dos acontecimentos perturbava-o. Por que razão tivera o Dr. Chapman tanta pressa em enviar os dados, ainda falhos de verificação correcta, a pessoas inteiramente estranhas a trabalho tão melindroso? E, sobretudo, por que motivo não o informara antecipada-mente do caso, colocando-o numa posição tão vulnerável? Supôs que o Dr. Chapman pensara provavelmente que ele tivera conhecimento do caso, que era uma coisa a fazer e que haviam de ser corridos certos riscos para que os projectos tivessem o necessário êxito. Fosse como fosse, era inquietante. No entanto, enfrentando o olhar do Dr. Jonas, sentiu mais de que nunca a determinação de fazer compreender àquele homem atrás da secretária, de olhos piscos, nariz monstruoso e cachimbo de cerejeira, o valor básico da cruzada que representava o inquérito sobre as mulheres casadas.

— Sim, julgo que na verdade está absolutamente qualificado. O que me espanta, Dr. Jonas...

— Desculpe a interrupção, mas decerto não se importa que nos tratemos pelos nomes próprios, hem? Gostava que a nossa conversa decorresse no tom menos formal possível.

Paul sorriu.

— Estou de acordo.

— Não que eu esteja a antecipar qualquer discussão violenta à boa maneira irlandesa. Na verdade, se temos que nos bater um

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14 • O Relatório Chapman



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com o outro, façamo-lo de maneira amigável e isenta de.cerimonial. Peço novamente perdão por tê-lo interrompido, Paul. O que é que estava a dizer?

— Okay, Victor.

Paul viera até ali preparado para edificar um baluarte altamente defensivo, a pretensos ataques de um inimigo esperto, mas agora qualquer defesa parecia pomposa, e considerou o modo de ajustar o que tinha a dizer a uma ocasião tão pouco cerimoniosa e despida de tácticas e contratácticas.

— Pois bem, Victor, li grande parte das suas críticas ao relatório sobre os celibatários. Concordei consigo, e continuo a concordar, acerca de grande parte de umas quantas coisas de somenos. Mas o facto é que também fiquei convencido de que, apenas preocupado com as árvores, se esqueceu da floresta. Desde que o Mayflower arribou, o povo deste país tem vivido encerrado numa casa lúgubre, tapada por uma negra cortina de exacerbado puritanismo. As pessoas têm crescido nesta fria e destrutiva casa construída por Calvino, e à entrada da porta continua a manter-se o dístico imprimido por Jonathan Edwards, onde se lê: «Nada de brincadeiras». A melhor parte da vida deste povo tem sido passada nessa casa escura e sem iluminação, uma casa doentia, pouco salubre e feia. Ora acontece que nós tentamos apenas afastar a cortina negra da ignorância, deixando que um pouco-de luz entre na mansão.

— E de que maneira procedem para isso?

— De que maneira? Reunindo dados... recolhendo informações sobre um assunto tão melindroso e tão pouco conhecido... E fizemos isso numa escala nunca antes tentada. Tal como sempre afirma o Dr. Chapman, somos coleccionadores de factos.

— Não chega — disse o Dr. Jonas, imperturbável. — Vocês somam os números obtidos, publicam-nos e eu não vejo em que isso possa realizar qualquer bem. Como alguém disse a respeito de outro relatório — creio que foi Simpson, no «Humanist» —, apenas por se olhar para o céu e contar as estrelas nunca se atinge a positiva ciência da astronomia. Do mesmo modo, recolhendo o que as mulheres casadas dizem sobre o seu comportamento sexual, não poderemos ter um verdadeiro esclarecimento sobre a realidade íntima do seu comportamento.

— Lamento, mas não estou de acordo consigo — disse Paul,

com todo o calor. — Estamos a dar o primeiro e gigantesco passo na senda. A válida ideia de remover os motivos sexuais confinados às palavras obscenas escritas nos lavabos públicos, trazendo o assunto a uma discussão aberta e sincera, já será um bem infinito. Lembro-me que o Dr. Robert Dickinson afirmou que os inimigos da liberdade sexual eram a concepção, a contaminação e a detecção. Plena verdade. Nós, porém, conseguimos controlar a maior parte disso. Todavia, continuamos a enfrentar um inimigo que raramente desce a terreiro e que ninguém até agora desafiou publicamente: a ignorância. Na realidade, um poderoso inimigo que vai solapando no silêncio.

O Dr. Jonas esvaziou o fornilho do cachimbo da cinza, batendo--o vigorosamente contra a beira do cinzeiro metálico. Depois voltou a enchê-lo de tabaco tirado da lata.

— Pelo menos tem poder de persuasão. Estou de acordo que a ignorância é um dos inimigos mais tenazes, mas continuo crente de que o Dr. Chapman enfrenta esse perigoso inimigo de forma errada. Evidentemente que o seu chefe já realizou coisas eminentemente boas, mas as coisas más são em muito maior quantidade — acendeu um fósforo, ateando lume por igual a toda a superfície do tabaco. — Claro que, tratando-se de mulheres casadas da nossa sociedade americana, a investigação ainda mais difícil se torna. Penso que a poligamia é a essência da natureza do homem e que a monogamia lhe foi imposta, tal como lhe foram impostos muitos outros costumes e credos, por exemplo: «oferece a face direita a quem te bater na esquerda»; «ama o teu próximo como a ti mesmo»; «joga lealmente», e por aí adiante. Daí, o homem sentir-se oprimido por inumeráveis condicionalismos que em nada estão de acordo com a sua primitiva natureza. Mas, aceitando esses condicionalismos, respeitando esses limites, recebe certos benefícios — uma espécie de prémio para a condição de poder ser considerado como um ser civilizado e progressivo. O homem estabelece as suas próprias regras e depois, por muito anormais que sejam, o que sucede com frequência, procura fazer com que funcionem perfeitamente. A sexualidade é uma das formas de comportamento condicionado que mais sofrem com as regras antinaturais que exercem pressão sobre o ser humano.

— De modo nenhum nego isso.
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— Realizar um trabalho sobre a sexualidade, sob circuns-tâncias tão repressivas, é um cometimento muito delicado. Acredita que se pode fazer um bom inquérito só pelo facto de contar umas tantas cabeças?

— Não é esse o meu pensamento sobre a questão, nem o pensamento do Dr. Chapman. Não. Direi que iremos tão longe quanto pudermos nas nossas pesquisas, e outros, depois de nós, irão mais longe ainda.

— Claro, Paul, claro. Mas o problema, como eu o vejo, reside nisto: vocês sabem até onde podem ir e que não passarão daí, mas o vosso público desconhece os limites.O vasto público tem sido influenciado, pela propaganda em massa, para acreditar que aquilo que a ciência diz é a verdade incontestável. O povo acredita que a ciência é uma espécie de sociedade mística, em ligação directa com Deus, que não pode ser inteiramente compreendida mas em que se deve acreditar cegamente. Evidentemente que a massa popular aceitará os relatórios do Dr. Chapman como a Última Palavra sobre o comportamento sexual. Desconhece que os dados são material em bruto que necessita, depois, de ser submetido à complicada laboração de caldeamento, de libertação de escórias, de laminação, etc, para se conseguir um produto acabado e limpo para consumo. E o mal reside em que o Dr. Chapman não os informa dessa verdade. Logo, quem lê os resultados dos inquéritos, toma-os como coisa definitiva e actua de acordo com eles. A ignorância, como declarado inimigo, acrescenta-se a péssima informação, e isso só pode ser pernicioso.

— O que é que o faz ser tão positivo de que andamos a disseminar informações erradas?

— Os métodos que empregam. Quer que esclareça esse ponto?

— Agradeço-lhe.

Paul viu que o tabaco no seu cachimbo já não era mais que um amontoado de cinzas. Pô-lo de lado e bebeu um gole do seu licor. Lamentou a missão que lhe fora incumbida, porque gostaria de ter conhecido o Dr. Victor Jonas noutras circunstâncias. A conversa, de modo nenhum estranha, poderia ter sido estimulante se não fora aquilo que concordara em fazer. Dessa maneira não passava de um prelúdio para um suborno. Todavia, disse para com

os seus botões que a obra não pertencia somente ao Dr. Chapman, era também sua, de Horace e de Cass Miller, e devia ser protegida.

— ...não é rigorosamente controlada, nem controlada clinica

mente, e por isso penso que é um erro — estava o Dr. Jonas a

dizer.

Paul deduziu aquilo que não escutara devido ao seu devaneio. Evidentemente que o Dr. Jonas se devia estar a referir à técnica de sondagem.



— Os grupos de voluntárias de modo nenhum podem ser realmente representativos do comportamento sexual da mulher casada americana — continuou o Dr. Jonas. — As mulheres que se oferecem afectam o seu desejo de falar.

— Haverá uma técnica melhor? — interrompeu Paul. — Preferiria o método de andar de porta em porta ou da publicação de anúncios nos jornais? Optaria pela selecção de indivíduos por meio de consulta da lista telefónica ou de interpelação directa nas ruas? Enveredaria pelo envio dos questionários pelo correio que a maior parte dos escolhidos não compreenderia e a que muitos não ligariam a menor importância? Devo lembrar-lhe que a Comissão de Investigação Federal aprovou as nossas fórmulas metodplógicas e estatísticas. \

O Dr. Jonas fez um aceno de confirmação. \

— Sim, de facto receberam aprovação oficial, eu sei. È que todos os outros métodos que enumerou não são tão válidos e exactos como o que empregam. Existem porém meios melhores de procurar a verdade do que aqueles que utilizam. Estou certo disso. Não pretendo agora divagar sobre esse assunto, prefiro debater a vossa técnica.

— Pode continuar.

— O Dr. Chapman colocou-se demasiado na dependência da

natureza dos agrupamentos e organizações femininas. Julgo isso

suspeito. Parece-me que as mulheres mais representativas da

América não pertencem a quaisquer grupos formais nem a estritos

clubes femininos. As mulheres mais representativas da nossa

sociedade americana não pertencem a agremiações privadas, são

independentes na sua própria essência de material avaliável, o que

as torna completamente diferentes das mulheres que vocês entre

vistam, e de forma nenhuma a vossa equipa pode ter a pretensão


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de estar a fazer a cobertura de toda a população feminina americana engajada no casamento. Aliás, vocês nem sequer podem ter no vosso activo todas as mulheres membros dessas organizações femininas espalhadas pelo país.

— No entanto, entrevistámos bastantes. Em The Briars existem 220 mulheres casadas. A maior parte delas ofereceram--se como voluntárias — 201, para lhe dar o número exacto.

— Segundo as informações que possuo, o contingente em The Briars é excepcionalmente elevado. Creio que só nove por cento, isto é, nove de cada 100 grupos que vocês sondaram apresentaram para entrevistas o contingente ideal de cem por cento.

— Bem, é verdade. Mas...

— Estou plenamente de acordo em que os elementos dessas organizações que não se oferecem para as entrevistas têm preconceitos sexuais e exagerado recato. Só conseguem obter a colaboração das exibicionistas—faço uso desta palavra dentro do seu mais amplo sentido — e das mulheres psicologicamente perturbadas, que estão verdadeiramente famintas por falar a seu respeito.

— Temos tomado isso tudo em consideração.

— Mas não de forma eficaz e suficiente, Paul. Suponho que conhece a obra de Abraham H. Maslow, da Universidade de Brandeis. Também ele realizou um estudo sobre questões sexuais utilizando essencialmente voluntárias. A breve trecho, porém, aper-cebeu-se de que havia algo extremamente significativo: nove em cada dez dessas voluntárias eram de um egocentrismo máximo. Constituíam um agrupamento especial de mulheres agressivas, autoconfiantes, sendo precisamente as que não eram virgens que desprezavam as convenções no comportamento sexual, e que, em grande percentagem, se masturbavam com frequência. A décima representante era uma espécie de voluntária compelida, com inibições, pouco segura de si, normalmente virgem, conservadora nos costumes e sem recorrer à masturbação. Sinto que o Dr. Chapman está a obter demasiado das mulheres que se têm a si mesmas em alta consideração e muito pouco das outras. Logo, existe uma questão de erro de memória nas entrevistas por si mesmas.

Dado que o estudo de Maslow sempre o perturbara, Paul fir-

mou-se na posição de não o debater, discutindo apenas o que lhe dizia respeito.

— Julgo que sobre o último ponto posso falar com certo conhecimento de causa. Não há dúvida que grande número de mulheres parece decidido a mascarar a verdade, a fazer omissões intencionais e a entrar em exageros. No entanto, acabam por colaborar connosco quando, através da entrevista, verificam que procuramos somente ser objectivos e que nada mais desejamos do que factos.

— Como pode ter a certeza disso? Devido à vossa «Sondagem Dupla»?

Paul não pôde ocultar a sua surpresa ao ouvir aquelas palavras. A «Sondagem Dupla» não era regulamentar, tratava-se apenas da designação particular dada pelo Dr. Chapman aos valiosos documentos que herdara do falecido Dr. Julian Gleed, da Universidade de Massachusetts. Em 1909, com dezanove anos, Julian Gleed era ainda aluno da Universidade de Clark quando o discutido Dr. Sigmund Freud visitou a América pela primeira e única vez. O jovem Gleed ficou tão fascinado pelas Cinco Conferências sobre a Psicanálise do mago de Viena, em especial com a quarta, a respeito da sexualidade, que logo decidiu ser um psicanalista. Uma vez licenciado e iniciada a sua carreira prática, o Dr. Gleed verificou, verdadeiramente fascinado, que os cônjuges encaravam de maneira muito diferente os mesmos acontecimentos da vida marital. Em breve o Dr. Gleed passou a aceitar unicamente casos em que pudesse analisar, embora em sessões separadas, casais consorciados. Ordenara e conservara meticulosamente volumosos arquivos sobre esses casais, duzentos e três ao todo, estabe-lecendo uma percentagem de discrepâncias sobre o comporta-mento sexual, especialmente nas associações livres de ideias tomadas durante a análise.

Quando o Dr. Gleed publicou uma breve resenha dos resultados a que chegara, numa revista especializada em psiquiatria, o Dr. Chapman, que nessa mesma altura iniciava a sua sondagem sobre os celibatários, tornou-se o mais interessado dos seus admiradores, começando uma intensa correspondência com o psicanalista. Em breve era possuidor das estatísticas do Dr. Gleed e dos modos de tomar os erros em consideração em sondagens futuras.
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Após o falecimento do Dr. Julian Gleed, o Dr. Chapman entrou na posse dos seus arquivos, por expressa disposição testamentária, e deles tirou as ilações de que mais necessitava para a sua obra. A «Sondagem Dupla», como foram particular-mente denominados os estudos do Dr. Gleed, era matéria somente conhecida do Dr. Chapman e dos seus mais directos colaboradores. Os estudos do psicanalista nunca tinham sido publicados, nem tinham tido qualquer publicidade. Eram mantidos como um elemento secreto de mensuração.

Por isso, Paul perguntava a si mesmo como é que o Dr. Victor Jonas tinha conhecimento do caso. Finalmente, relacionando os factos, concluiu que o Dr. Chapman revelara todos os seus processos à Fundação Zollman, única forma, por ligação directa, que podia explicar o conhecimento do Dr. Jonas sobre o caso.

— Sim. Entre outros modos de verificação, pelo processo da «Sondagem Dupla» — confirmou Paul.

— Estou de acordo em que, em parte, poderão verificar as mentiras proferidas conscientemente. Na verdade, o facto abona a habilidade posta ao serviço da entrevista pelo Dr. Chapman. Mas como é que podem detectar as mentiras ditas inconscientemente, tomando-as em consideração no expresso valor da sondagem?

— Não compreendi perfeitamente. Quer fazer o favor de ser mais explícito?

— Ponhamos então o assunto desta forma: suponhamos que uma das entrevistadas está ao seu dispor. Você faz-lhe as perguntas previamente seleccionadas, a que ela responde com honestidade, pensando estar a ser sincera, e você adiciona a entrevista ao somatório da estatística condicionada, porque acredita na sondagem. Repare que eu disse que a entrevistada pensa ser sincera ao responder. Muito bem, não obstante a tocante sinceridade que se julga objectiva, suponhamos que as memórias dos acontecimentos da infância e da adolescência são coisas esparsas, imprecisas, envoltas num nevoeiro mental. Logo, o comportamento sexual que referir de modo nenhum corresponde a uma verdade inteiriça. Freud preocupou-se em esclarecer o caso. Você está a lidar com o inconsciente de uma mulher. Ela não lhe pode revelar o que esconde de si própria, aquilo que está reprimido e latente. Ela pode relatar fantasias como factos concretos, acreditando que está a falar verdade. A

entrevistada pode saltar por cima daquilo que os psicanalistas chamam memórias ocultas, as mais recentes sobrepõem-se às antigas e estas são, na sua grande maioria, distorcidas, inexactas.

— Com as nossas perguntas de cotejo, cada uma utilizando termos diferentes, conseguimos, habitualmente, verificar essas mentiras.

— Duvido. A entrevistada pode repetir a mesma resposta parcialmente falsa uma dezena de vezes reagindo da mesma maneira a uma dezena de perguntas diferentes, porque crê estar a contar a verdade. Igualmente pode escamotear certos acontecimentos, convencida realmente de que nunca ocorreram. Quero dizer na minha que a resposta evidente, aberta, consciente, não basta. Nunca diz bastante e, frequentemente, é cheia de inexactidões.

— Frequentemente prima pela exactidão — afirmou Paul, obstinado. — Mas afinal que sugere? Que se faça antecipadamente uma análise psicológica a cada uma das voluntárias?

— Seria mais confiante se cada uma delas se encontrasse em estado de narcose.

Paul sacudiu a cabeça numa negativa.

— Santo Deus, Victor, já se torna dificílimo conseguir entrevistas de três mil mulheres casadas sobre os seus comportamentos sexuais. Se lhes fosse pedido para anuírem a tomar o soro da verdade não obteríamos mais que uma mão-cheia de candidatas.

— Talvez que essa mão-cheia fosse preferível às três mil, se se pudesse ter confiança naquilo que contavam — disse suavemente o Dr. Jonas, ao mesmo tempo que se levantava para ir fechar a janela. — Sabe, no meu tempo ouvi milhares de mulheres casadas. E era um dos cinco conselheiros do Tribunal de Conciliação Matrimonial de Los Angeles. Um organismo perfeitamente legal. Num caso de divórcio, se um dos cônjuges deseja um inquérito, o outro, se necessário mesmo por intimação formal, deve apresentar--se ao conselheiro. Em determinado ano, tendo aconselhado cerca de mil cônjuges desavindos, conse-guimos manter a união em metade. Continuo ainda a ser conselheiro matrimonial, mas agora numa base privada.

— Costuma utilizar o sistema de narcose?
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— Sim, quando sou forçado a isso. Mas num número

reduzidíssimo de casos. Porém o fulcro da questão não reside

nisso. O que acontece é que eu e os meus colegas não somos

caçadores de números como o Dr. Chapman. Quando encaramos

a história sexual de uma mulher, o nosso interesse não reside

exclusivamente na frequência com que pratica o coito ou na

frequência dos orgasmos. Preocupamo-nos mais com a gradação

emocional íntima do que com o grau e soma das emoções

puramente físicas. Eis o busílis. Eis onde mais violentamente

diferimos do Dr. Chapman.

Paul terminou de beber o seu licor e ficou a observar pensativamente o Dr. Jonas, que passeava de um lado para outro no aposento. Pouco depois, o dono da casa sentou-se no tampo da secretária, em frente de Paul, e encarou-o firmemente.

— Estava a perguntar a mim mesmo de que forma prosseguir com a conversa sem o indispor contra mim.

— Acredite que não me indispõe contra si nem me aborrece. Penso que o Dr. Chapman é um ser humano, mas um ser humano muito importante, e sinto-me privilegiado por ser um dos seus associados. Posso parecer um pouco pretensioso, mas na verdade não o sou. Tenho trinta e cinco anos e com uma maturidade que tem sido muito experimentada pelas várias circunstâncias da vida. Se não acreditasse no trabalho que realizo, já teria abandonado o inquérito e regressaria ao ensino da Literatura ou dedicar-me-ia a escrever livros. É possível que até viesse a tornar-me um conselheiro matrimonial, por exemplo, se considerasse mais útil essa especialidade. Não, em nada me aborrece. Já ouvi quase tudo isso que me disse, só com a diferença de que a sua exposição é a mais brilhante de todas.

— Mais licor?

— Não, muito obrigado. A nossa conversa sup'era o estímulo de todos os licores. A respeito da observação que fez de que nos interessa mais a soma das emoções físicas de que a gradação emocional íntima creio que não tem razão. Aliás a pedra de toque não é essa.

— Então qual é? — o Dr. Jonas voltou a sentar-se na sua cadeira.

— A nossa missão é de estatísticas, não de dar conselhos

aos corações solitários, às pessoas emocionalmente perturbadas.

— Uma vez que preparam uma publicação para os leigos,

julgo que as duas coisas deviam entrar na vossa missão — replicou

o Dr. Jonas franzindo o cenho. Como que para se moderar, agarrou

num estilete corta-papéis e pôs-se a observá-lo cuidadosamente,

voltando, passado um minuto, a colocá-lo de novo no lugar anterior.

— Acima de tudo, o seu Dr. Chapman é um biólogo. Como tal,

dedica a sua especial opinião à sondagem pública, à investigação.

Mas no que ele se manifesta interessado é na colectânea de

números. Comigo não é assim, eu sou um psicólogo, pretendo ter

conhecimento a respeito de sentimentos e relações.

Agarrou numa revista que estava em cima da secretária e íolheou-a. Paul viu que a revista era a Encounter.

— Estive a ler um artigo do antropólogo inglês Geoffrey Gorer.

Um homem profundo e espirituoso. Gorer fala das sondagens

sexuais, em especial de uma. A respeito dos padrões dos

entrevistadores, diz o seguinte... — o Dr. Jonas procurou a citação

e depois, com o dedo a marcar o local, leu em voz alta: — «O sexo

torna-se uma actividade completamente desprovida de significado,

excepto como instrumento de descontracção física, algo como o

alívio produzido por um bom espirro, mas com a nota marcante de

ser uma descarga das regiões inferiores do corpo em vez das

superiores. Se as tensões sobem de grau, uma pessoa não tem

mais que tomar uma pitada de rapé ou arranjar uma amante, não

importa qual das coisas».

O Dr. Jonas fechou a revista e colocou-a na secretária.

— Se estiver errado corrija-me, mas, tanto quanto sei, o Dr.

Chapman nunca usou a palavra amor, quer nas suas publicações

quer nas suas declarações.

Paul ficou calado.

— Estou a falar com a máxima seriedade — continuou o Dr.

Jonas. — Nunca vi essa palavra nas obras dele. Todos os vossos

diagramas, gráficos, tabelas, são unicamente dedicados ao acto

físico — quantidade, frequência. Quanto; quantas vezes. Todavia

esses números nada dizem às mulheres casadas sobre o amor ou

sobre o modo de atingir a felicidade e a paz conjugal. O que fazem

é separar o acto sexual de qualquer afecto, calor humano, ternura e

devoção. Do meu ponto de vista pessoal, não devia ser assim. Como


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muitos outros cientistas da sua especialidade, o Dr. Chapman está convencido de que o orgasmo — escoadoiro sexual regular—significa toda a fonte de saúde e felicidade. Paul, creia que existe nisso um grande erro. A chamada sexualidade física normal pode representar amor, mas pode também exprimir ansiedade, receio, vaidade, compulsão. Quero eu dizer com isto que utilizando-se o acto sexual como unidade de julgamento sobre a normalidade, a felicidade ou a saúde, esses padrões podem ser coisas erradas. O sexo como atitude física é uma das partes do todo que forma o homem ou a mulher. Não determina o carácter. Pelo contrário, é o carácter que determina o comportamento sexual de um ser humano. Terman exprimiu isto da melhor maneira. O ajustamento sexual no casamento é principalmente uma expressão dos mesmos factores que fazem com que um homem ou uma mulher se consigam ajustar com êxito em qualquer tipo de relações humanas. A vossa vida sexual é uma escravidão de toda a personalidade a um único fim que nada significa dentro de uma escala de valores positivos. É perfeitamente possível que uma pessoa com uma personalidade integrativa, um ser completamente adaptado à vida social e capaz de êxito na carreira escolhida consiga atingir um grau de completa satisfação sexual, de normalidade conjugal. Se uma criatura for um feixe de perturbações emocionais, os gráficos do Dr. Chapman em nada ajudarão à sua cura. Importa que uma mulher tenha três magníficos orgasmos por semana, é uma coisa a que todas devem aspirar. Está dentro de uma escala de normalidade e perfeição, segundo o Dr. Chapman. Mas claro que se olvida completamente que, mesmo com os seus regulamentares orgasmos, essa mulher pode não passar de uma infeliz, com toda a carência de amor, de ternura e alegria na sua vida extra-sexual.

Paul, que ouvira a peroração do Dr. Jonas recostado no espaldar da sua cadeira estofada, com as pernas estiraçadas, levantou--se lentamente.

— De modo nenhum pretendo negar as nossas limitações. Mas pergunto de que maneira se consegue mensurar o amor? Afigura--se-me que é impossível.

— Justamente. Então porque é que hão-de confundir o coito e o orgasmo com o amor?

— Não é isso que o Dr. Chapman preconiza.

— Porém, dado que não acrescenta mais nada de positivo, o público acredita que assim é, que a satisfação sexual é uma norma de amor e felicidade. Se, de acordo com os vossos números, se considera biologicamente normal o facto de grande número de pessoas conseguir ter relações sexuais três vezes por semana, que esperança restará para aquelas que não estão física nem psicologicamente aptas a praticar o coito esse número determinante de vezes? Suponha o caso comigo e com minha mulher. Julgamos suficiente uma vez por semana. Ora, consoante a vossa lógica, ao lermos os gráficos estatísticos, julgar-nos-íamos anormais e esse sentimento de frustração pressupõe um pensamento de culpa e de erro que conduz ao sofrimento intolerável. As regras da maioria não devem ser consideradas automaticamente como medida-padrão do normal, somente por se tratar de práticas maioritárias.

—Até agora o senhor só tem demonstrado o reverso da medalha, mas a verdade é que ela tem um anverso. Volte-a — disse paul. _ Evidentemente que representa precisamente o contrário daquilo que tem vindo a expor. Penso que se se disser e mostrar claramente que determinadas práticas sexuais são as mais difundidas, a minoria inibida tem tendência a perder a crença sobre a sua anormalidade e a acabar com um sentimento de vergonha e culpa. E é uma ajuda para libertar da ignorância milhões de seres mergulhados na aflição e no sofrimento.

— Isso parece-me como que um jogo de azar, e em nada me sinto inclinado a aprová-lo.

— Por vezes torna-se necessário. O senhor está encerrado neste belo bungalowe teoriza sobre a questão, mas nós andamos no campo de batalha escutando três mil mulheres verdadeiras com as suas reais histórias sexuais. Eis a verdade. Eis a maneira como o mundo vive. Os arautos da ignorância, da moralidade medieval, censuram-nos e atacam-nos por isso. Afirmam que somos apenas coleccionadores e fornecedores de podridão erótica. Não faz a menor ideia da resistência que encontramos. Comparam o Dr. Chapman com D. H. Lawrence, com Rabelais, com o Marquês de Sade e com Henry Miller. Mas não é isso o pior do caso. Enquanto estamos engajados na batalha frontal com esses puritanos, somos atacados pela retaguarda por provocadores especiais, corpos francos de
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intelectuais picuinhas e de críticos dispostos apenas a destruir... — vendo um começo de reacção aparecer na fisionomia do Dr. Jonas, Paul levantou a mão num gesto de paz. — Não, não estou a pretender incluí-lo entre essa gente, Victor, ainda que o senhor possa estar integrado nesses batalhões de sapadores. Mas, seja como for, embora a nossa estratégica possa não ser perfeita, o facto é que continuamos a lutar sem desfalecimentos, isto porque conhecemos muito bem os bons objectivos que pretendemos atingir com a nossa causa e porque sabemos que milhões de pessoas necessitam de nós. É possível que os meios que utilizamos para procurarmos alcançar os nossos fins não sejam os melhores, talvez mesmo os fins acabem por não justificar os meios. Quem sabe? Mas lutamos porque sabemos que alguém deve iniciar a batalha para conseguir uma moralidade mais tolerante e um novo clima para o desenvolvimento do sexo.

Paul parou, arquejante. Momentaneamente embaraçado pela sua veemência, procurou refúgio no cachimbo.

O Dr. Jonas sorriu.

— Paul, você é um homem às direitas.

— Como lhe afirmei a princípio, acredito naquilo que estou a realizar.

— Talvez eu tenha sido duro de mais para si... Claro que isso não envolveu qualquer intenção pessoal...

— Bom Deus, não tem nada de que me pedir desculpa.

— ...mas, como pode verificar, eu não acredito no trabalho em que toma parte. Quando me telefonou, disse-me que tínhamos um objectivo comum. Pois bem, vamos agora falar sobre esse assunto. O mesmo objectivo... sim, na verdade, acredito nisso. Como sabe, Paul, a tagarelice acerca de tolerância, discernimento e vida melhor costuma ser hábito dos radicais da província ou dos jovens liberais, sobretudo dos jovens. Mas eu creio que chegou agora a altura de os homens maduros retomarem com fidelidade a senda das teorias dos jovens. Sinto-me enjoado de ouvir dizer que o idealismo só tem relação directa com a puberdade. Penso, em definitivo, que o idealismo pertence aos homens fortes, amadurecidos, conscientes das suas responsabilidades. Tal como você, desejo confinar o puritanismo a um círculo restrito de defesas de aço de onde não se possa escapar e difundir. Constituir-lhe uma espécie

de reserva que seja como que uma curiosidade de um passado arcaico. Desejo que os homens e mulheres sejam finalmente livres e sem o jugo vergonhoso do medo. Concordo que se lute por essa liberdade com afinco, que se procure libertar a humanidade dessa escravidão e conduzi-la à terra prometida. Sim, nisso estamos de acordo total. A única questão que nos separa é: que caminho nos poderá levar o mais rapidamente possível a essa terra prometida? Tenho a minha ideia sobre o caso, mas penso que o meu caminho não é aquele que o Dr. Chapman segue.

Subitamente a consciência de Paul despertou para o verdadeiro motivo que o trouxera a casa do Dr. Victor Jonas.

— Mas o importante é que andamos em demanda da mesma coisa. Eis o que conta. Estou certo de que o Dr. Chapman apreciaria as suas críticas...

— Duvido.

— O inquérito é toda a sua vida. Ele está sempre a procurar melhorar os seus métodos. É um cientista puro... — Paul hesitou, ao ver a expressão de cepticismo no rosto do Dr. Jonas. — Não acredita em mim?

— Bem...


— Afigura-se-me que é desrazoavelmente hostil ao Dr. Chapman.

— Sim, porque, na minha opinião, ele não é um cientista puro. Quando muito, se não ultrapassar esta craveira, é um publicista e um político. A pureza do trabalho fica degradada por esses factores.

Paul recordou-se da conversa no comboio, quando o Dr. Chapman tinha defendido o Cientista no seu direito de agir como um Político para defender uma boa causa. Ainda considerou parafrasear a explicação dada pelo seu chefe, mas depois julgou melhor calar-se.

— Em boa verdade, Paul, penso que comete um erro

misturando a sua identidade com a do Dr. Chapman. Você é um

homem devotado à verdade. Pode na realidade observar o modo

como eu posso ser útil. Mas o Dr. Chapman, estou absolutamente

certo, é muito diferente de si.

-— Creio que não somos assim tão diferentes como pensa. Muito embora você pense que não, sinto que na verdade é
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muito diferente. Todavia, isso é uma coisa que não está agora em causa.

— Claro que está. Tinha grande prazer em que conhecesse o Dr. Chapman pessoalmente, que trabalhasse com ele. Poderia então compreender a justiça da nossa causa.

— Foi por isso que veio a minha casa? — perguntou o Dr. Jonas, fitando Paul com curiosidade.

— Não. Não exactamente por esse motivo — respondeu Paul, com demasiada pressa.

Victor Jonas baixou a vista para o mata-borrão que cobria parte do tampo da secretária. Por breves instantes os seus dedos distraíram-se a brincar com um cinzeiro de loiça em forma de sombrero. Quando voltou a olhar para Paul, disse sem sombra de hostilidade:

— Muito bem, antes de procurarmos saber exactamente a razão que o trouxe cá, com certeza que não se deve importar de me ouvir durante mais alguns minutos. Tenho mais qualquer coisa a dizer sobre a vossa sondagem. O meu sentido de plenitude sen-tir—se-ia frustrado se não acabasse. Ficaria a pensar toda a noite naquilo que realmente lhe deveria ter dito.

— Com certeza — disse Paul, aliviado.

— Desde o início da vossa investigação, o Dr. Chapman, como tantos outros antes dele, escolheu o orgasmo como unidade de avaliação para a normalidade sexual. De princípio nada vi de errado nisso. Era necessário que se começasse por qualquer coisa. E, como muito bem há pouco me observou, não há qualquer processo de se poder medir o amor. Assim, o orgasmo era mais acessível. Todavia, o que depois me veio a alarmar, e que profundamente passei a deplorar, foi a péssima utilização dos dados apurados durante o inquérito aos celibatários e os perigos inerentes de que se reveste a publicação das estatísticas sobre as mulheres casadas. Evidentemente que o Dr. Chapman é um biólogo, de modo que posso muito bem compreender a sua afeição pelos animais sub--humanos. Não fiquei surpreendido quando ele citou Edward Elkan, naquele artigo aparecido num jornal de sexologia de Bombaim, declarando que nenhuma fêmea, com excepção da fêmea de certos peixes especiais e da fêmea do cisne, conseguia chegar ao orgasmo. Nem fiquei surpreendido quando o Dr. Chapman relatou que a

média geral dos machos, nas primatas, se sacia sexualmente por acção reflexa, e que o seu orgasmo se manifesta dezassete segundos após a intromissão, o tempo estritamente necessário para a sobrevivência da espécie. Mas quando relacionou este último facto com a revelação de que a média do homem celibatário atinge o orgasmo em cento e dezanove segundos — menos de dois minutos— fiquei perturbado.

— Mas porquê? É um facto comprovado.

— É o vosso facto. Há outros que apresentam factos diferentes. Dickinson situou a média à roda dos cinco minutos; Kinsey, por sua vez, estabeleceu-a entre dois a três minutos. Mas digamos que é um facto, não é a isso que objecto. A minha objecção é feita ao caso de que, por sugestão, o Dr. Chapman perdoa o facto, afirmando que a breve duração das relações sexuais é justa e boa só porque está difundida e que, por conseguinte, é normal. Não estou em crer que seja justa e boa—falo das relações conjugais —, nem a maioria dos psicólogos pensa que o caso tenha justiça e harmonia. O que é natural e facílimo para um macho como animal pode ser desejável para a condição do matrimónio que ele inventou. Não me admiraria que a maioria dos homens tomasse isso como uma licença para abandonar o controlo.

— Não acredito nisso, Victor, nem as mulheres, que costumam relacionar a potência e a virilidade com o jogo sexual prolongado. De resto não se esqueça da descoberta feita por Hamilton. Quando ele perguntou às mulheres que entrevistou: «Crê que os orgasmos do seu marido ocorrem demasiado depressa para que consiga sentir prazer?», quarenta e oito por cento forneceram resposta afirmativa, desta ou daquela maneira. A maioria dos homens sentem ou compreendem muito bem esse facto.

— Bem, talvez seja. Quero que saiba que não estou a dizer que a ejaculação rápida é sempre errada. Uma reacção erótica excitada pode ser boa, se não for provocada por hostilidade. E, frequentemente, uma mulher pode ser patologicamente tardia na sua reacção, e então não há necessidade de que o homem se satisfaça num masoquismo artificial. Mas, geralmente, não é esse o caso. E eu penso que a utilização dos números do Dr. Chapman sobre o orgasmo masculino tem sido prejudicial. Além disso, não rrie agrada nada o modo como ele separa o orgasmo da emoção.
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15 - O Relatório Chapman 225

Nas vossas tabelas, cada orgasmo representa apenas um número idêntico a qualquer outro. Mas não me venha dizer que um orgasmo tido com uma prostituta é o mesmo orgasmo que se pode ter com a bonita virgem com quem um homem contrai matrimónio. Ou que o orgasmo conseguido em poucos segundos em qualquer vão de escada é o mesmo que se consegue durante umas férias passadas num solitário abrigo de montanha. Pior ainda, para o Dr. Chapman o número relativo ao orgasmo é o fim das relações sexuais.

— E não é assim?

— Tecnicamente, para o macho, assim é. Mas você ouviu há pouco tempo as confissões de centenas de mulheres. Para muitas delas o orgasmo pode não ser um fim em si, mas apenas um começo de algo de maior projecção. Em que lugar situaremos a procriação — gravidez, parto e maternidade?

— Evidentemente que está dentro da razão. Estou certo de que o Dr. Chapman compreende isso muito bem e que o caso será esclarecido na nova obra em preparação.

— Naquilo que li até à data, Paul, ainda não encontrei qualquer prova disso. Pode pensar que estou a ir longe de mais no assunto, mas eu julgo que não. Vocês atiram à consideração de homens e mulheres, que se sentem profundamente preocupados, quantidades de números incaracterísticos e frios. As pessoas que lerem essas estatísticas podem não sabê-las compreender, interpretá--las de forma errada e afundarem-se ainda mais no inferno de dúvidas em que já estavam mergulhadas. Quando ontem à noite estive a examinar certos gráficos sobre as mulheres casadas, enviados pelo Dr. Chapman à Fundação Zollman, fiquei atónito pelos rígidos e dogmáticos comentários do mestre feito à administração. Em todos os gráficos, o Dr. Chapman parece estar a dizer que as mulheres que, com frequência, gozam de orgasmos são as de casamento mais feliz, como se isso fosse tudo o que interessa no amor. Inclino-me mais para aquilo que foi observado pelo Dr. Edmund Bergler e pelo Dr. William S. Kroger. Lembra-se do que eles escreveram? «Se tipicamente uma mulher experimenta orgasmos numa série de relações sexuais clandestinas mas é fria no casamento, os seus orgasmos não são prova de saúde sexual mas sim de que sofre de uma neurose». Existem centenas de pessoas com autoridade no assunto a acreditar que o orgasmo não está estreitamente

relacionado com o êxito conjugal, como o Dr. Chapman parece supor. Estou na verdade bastante preocupado de que essa falta de senso manifestada pelo Dr. Chapman pode realmente causar imensos prejuízos.

— É pena que tivesse visto esse material em bruto, isto é, antes de o Dr. Chapman o poder desenvolver e corrigir para a final publicação.

— Só lhe pus a vista em cima, porque o Dr. Chapman achou conveniente submetê-lo à consideração da Fundação Zollman. E há mais uma coisa que eu quero salientar, se não se importa.

— Faça favor...

— O seu chefe é uma pessoa demasiado impaciente, manifesta uma excessiva pressa. O irrequietismo e a pressa podem ser qualidades estimáveis num agente comercial, mas operam na verdade em detrimento do espírito de um cientista. Não pense que estou a ser pomposo ou caturra a este respeito. Preocupa-me. Não me refiro somente aos últimos dados que o Dr. Chapman enviou à Fundação Zollman, mas também às obras que tem apresentado e que apresentará aos seus colegas e ao público leigo, e às suas declarações feitas à imprensa. Li a grande entrevista que concedeu quando chegou a The Briars e toda aquela miscelânea acerca dos homens e das mulheres terem atitudes diferentes em relação ao acto sexual. Levou-lhe um enorme espaço de tempo a aprender o que Lord Byron já sabia por instinto em 1819

O amor que na vida do homem é uma coisa à parte Constitui para a mulher toda a sua existência.

— Precisamente aquilo que Madame de Staél descobriu vinte

e cinco anos antes de Byron: «O amor, que é apenas um episódio

na vida de um homem, significa toda a história da vida de uma

mulher».

Não se pôde Paul impedir de dizer:

— Completamente verdade, mas poucas pessoas acreditaram

naquilo que foi escrito por Madame Staèl ou por Lord Byron. O Dr.

Chapman está agora a provar esse facto estatisticamente. Porque
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é que não havia de falar à imprensa nisso? Com certeza que isso dará mais compreensão mútua do amor entre as pessoas casadas.

— Será verdade? Por meio de publicação de meras estatísticas pode dizer-se que os homens e as mulheres são diferentes na sua concepção do amor? Penso que não. Os números não dizem a verdade completa. E ou o Dr. Chapman tem conhecimento disso e não quer encarar a questão de frente, ou ignora por completo o caso. Seja como for, não devia vir com isso a público por enquanto. O facto em si de que os homens e mulheres são diferentes nesse aspecto vem comprovar o grave erro do próprio inquérito. Os gráficos do Dr. Chapman mostram quantas vezes uma mulher acede sexualmente às exigências do seu companheiro, mas não mostram o que ela sentiucom essa anuência. O que é que constitui um facto verdadeiro a respeito do amor de uma mulher? Que ela concordou em copular com o marido na noite anterior? Ou o que ela sentiu de certo modo, acerca da cópula, antes, durante e depois? Lembre-se bem disto, Paul, um homem pode desejar tornar-se uma das estatísticas do Dr. Chapman, mas uma mulher tornar-se-á uma das estatísticas sem ter nenhuma vontade disso. Acredito que, com mais frequência, uma mulher deseja o seu marido por ele ter sido amável, atencioso e devotado para com ela durante todo o dia, e que o acto físico do amor durante a noite não é mais que a culminação de todas as outras facetas do amor ocorridas durante o dia. Sim, na verdade estou em crer que os factores influentes são os que enumerei e não o facto de uma mulher se sentir feliz na cama apenas por causa de um órgão sexual exigente e com cio. Com um homem passa-se justamente o contrário. O seu comportamento na cama deve-se exclusivamente à febre do órgão sexual. Resta só dizer que o Dr. Chapman não explicou essa importante diferença na sua entrevista.

— Mas ele sublinhou precisamente que as necessidades bási

cas do homem diferem das da mulher — interrompeu Paul, teimo

samente.

— Não como devia, nem como o assunto merecia ser

ventilado. Afirmou unicamente que os homens e as mulheres se

encaram sexualmente em planos diferentes. É muito de lamentar

que se tivesse detido apenas nesse ponto morto. Porém, se as

vossas estatísticas incluíssem também um diagrama sobre os sentimentos, emoções e exigências reais das mulheres, acharia esplêndido que fornecesse semelhantes primores de oratória à imprensa. Acontece simplesmente que o Dr. Chapman não se detém na essência das coisas, mas sim no que ele pensa ser um motivo essencial: números sem vida, que podem obter alta publicidade e fornecer um vasto campo de especulações. Se não fosse tão insistente a sua pressa de publicidade e dinheiro...

— Discordo. O Dr. Chapman não retira sequer um centavo dos fundos do inquérito.

— Sei isso muito bem — replicou o Dr. Jonas, quase com brusquidão. — Estava a referir-me ao dinheiro que pode obter para o seu tão ambicionado projecto, sobretudo ao apoio monetário da Fundação Zollman... Seja como for, se não estivesse a ser movido por uma pressa quase irracional, poderia ser muito mais profundo nas suas investigações.

— É óbvio que temos que impor limites ao âmbito do nosso trabalho.

— Claro, Paul. No entanto, a verdade é para ser revelada sem rebuços, integralmente, de modo que as pessoas possam lucrar com a sua publicação em termos de pesquisa honesta. Tome como exemplo esta sondagem que realizam sobre a mulher casada. Preciso de mais informações e afigura-se-me ser pertinente o que peço. Com respeito às mulheres que vocês entrevistaram, acho como vital que se saiba: Será a entrevistada estéril ou não? Quantos filhos tem? Se teve relações sexuais pré-conjugais, engravidou alguma vez? Se assim foi, em que medida isso afectou o seu casamento? Foi filha única? Se não foi, teve algum irmão ou irmã mais velhos? Qual a sua opinião e sensação relativamente ao tamanho do órgão genital masculino? Quais os seus sentimentos acerca de intimidades conjugais durante o período menstrual? Prefere camas separadas ou cama de casal? Os contraceptivos usados refreiam a sua reacção? Pensa em divorciar-se? Já foi alguma vez Psicanalisada? Se teve relações sexuais pré-conjugais e veio a casar-se com o homem que a desflorou, fê-lo porque a prática do coito foi satisfatória? Casou-se mesmo não se tendo satisfeito com o coito, ou o caso não lhe interessou? — o Dr. Jonas parou abruptamente. — Podia continuar com perguntas destas durante uma


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hora, mas não importa. O que está em equação é que algumas destas perguntas deviam ser seriamente consideradas.

— E como é que sabe que não foram formuladas?

— De facto não sei. Presumo... baseado naquilo que apreendo sobre o carácter do Dr. Chapman, baseado nas suas ambições, nos seus objectivos e nos seus gráficos demonstrativos — fitou fixamente Paul durante uns momentos.

— Ainda continua a pensar que o Dr. Chapman gostaria de falar comigo?

— Sei que gostaria.

— Porquê?

Antes que Paui pudesse falar, o Dr. Jonas levantou os braços, com as palmas das mãos voltadas para a frente, como um lutador que pedisse ao adversário jogo limpo.

— Paul, nada de lugares-comuns muito bem arranjadinhos. E

nada de trivialidades sobre aquilo que temos a declarar com

honestidade e franqueza. Quero a razão pura e simples por que o

Dr. Chapman desejaria encontrar-se comigo... e a verdade sobre a

razão de o ter enviado a si a minha casa.

Paul sentiu-se corar intensamente. Ficou sentado, sem se mover, tentando determinar a resposta que havia de dar. Deveria continuar a jogar o joguinho do Dr. Chapman com a amarga pílula envolta num papel de rebuçado? Sem dúvida que o Dr. Jonas acabaria por descobrir o truque. Deveria enveredar pelo caminho da verdade nua e crua? Era natural que a reacção do Dr. Jonas fosse hostil. Mas pensou que, em qualquer dos casos, o seu anfitrião reagiria negativamente.

Paul estava agora consciente de que estivera durante todo aquele tempo à espera de encontrar uma fenda na armadura do Dr. Jonas. Havia sempre um ponto fraco em todos os homens, uma tal fenda na armadura que, por vezes, se tornava tão difícil de encontrar. Uma vez detectada essa fenda, podia fazer-se pressão, alargar-se a brecha, fosse qual tosse a resistência inicial manifestada, explorando as incertezas ou as ambições e aspirações do antagonista. Mas Paul não fora capaz de encontrar o mais ligeiro ponto que o levasse a descobrir uma só amolgadela na armadura da integridade do Dr. Victor Jonas. Talvez não houvesse sequer qualquer fenda e, mesmo naquela oposição rígida e obstinada que

o homem tomava, Paul desejava o seu respeito. Habitualmente não se importava com semelhantes coisas, mas agora tinha todo o interesse no assunto. Repetir a decalcada história envolveria um risco calculado. Poderia revelar a fenda, e o Dr. Chapman venceria; e ele, Paul, sairia também vencedor. Mas o mais natural era que nada provasse de concreto e só servisse para ser marcado pelo antagonismo do Dr. Jonas. Sentia-se numa posição aflitiva, não desejava nem a vitória nem a derrota.

O Dr. Jonas, com os braços cruzados, a fumar o seu cachimbo e a balançar-se na cadeira, esperava pela réplica de Paul.

— Muito bem. Vou confessar-lhe o que o Dr. Chapman me encarregou de dizer-lhe. Ele pretende-o na nossa equipa como consultor. Quer contratá-lo, oferecendo-lhe o dobro que o senhor estiver a ganhar.

— Trata-se da Fundação Zollman? — a voz do Dr. Jonas era quase imperceptível.

— Sim.
— O Dr. Chapman quercomprar-me? Paul hesitou.

— Sim — acabou por dizer.

— Porque é que me está a confessar isso? Paul encolheu os ombros.

— Porque se não puder ser subornado, quero continuar a

poder contar com a sua amizade.

O Dr. Jonas continuou a balançar-se na cadeira. O único som que se ouvia na sala era o das molas mal oleadas.

Paul fitava-o, aguardando a reacção. Iria a fenda revelar-se? Com toda a sua alma desejou que não.

Nesse momento ouviu-se bater à porta.

O Dr. Jonas parou de se balançar.

— Quem é?

— Sou eu, querido.

A porta abriu-se ligeiramente e assomou a cabeça de Peggy Jonas, que olhou os dois homens atentamente.

— Houve desentendimento?

— Não — respondeu Victor Jonas.

— Ora muito bem. Penso que vocês já conversaram bastante. Devem sentir-se fracos. Tenho umas coisitas na mesa para
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fortalecerem. Não queiras que o Sr. Radford tenha um colapso por falta de alimentação.

—Já vamos, querida.

A cara sardenta de Peggy sumiu-se. O Dr. Jonas levantou-se. Paul imitou-o. Saíram do bungalow.

A neblina era agora mais densa no pátio. O vapor flutuante obscurecia a lua. A mancha de luz da cozinha era como o farol de um porto de abrigo.

O Dr. Jonas tomou o braço de Paul, que se voltou para encarar um sorriso bonacheirão no rosto de Victor.

— Paul, digamos que pode continuar a contar com a minha

amizade.

A mesa da sala de jantar estava posta com perfeita eficiência e Peggy designou-lhes os lugares que haviam de ocupar.

Victor Jonas e Paul Radford atiraram-se aos biscoitos e ao café, sem voltarem a tocar no caso do inquérito do Dr. Chapman.

A conversa generalizou-se, fácil, solta, agradável, sem pretensões. Peggy Jonas, com uma maravilhosa habilidade para a mímica, resumiu-lhes o filme que acabara de ver na televisão. O Dr. Jonas falou das toiradas que vira recentemente em Ti Juana. Ambos apresentaram a sua teoria sobre a aceitação que o novo desporto estava a alcançar nos Estados Unidos. Depois, Paul relatou que, durante um período de férias do colégio onde leccionara em Berna, estivera entre os famosos bascos, em San Sebastian e arredores.

Enquanto Peggy Jonas se deslocou à cozinha para trazer mais café, O Dr. Jonas perguntou a Paul se tencionava voltar a escrever, e Paul falou-lhe da biografia literária de Sir Richard Burton, começada alguns anos antes e abandonada devido à sua colaboração com o Dr. Chapman no Estudo Sexual do Celibatário Americano. Foi a única alusão à parte da conversa que antes tinham tido no bungalow.

No momento em que Peggy regressava, o Dr. Jonas disse para Paul:

— Já ouviu falar na nova clínica que uma organização de que faço parte vai abrir em Santa Mónica?

— Não.


— É uma coisa muito interessante. Repare bem que o que

lhe vou contar é, por enquanto, ainda confidencial, mas o projecto será anunciado brevemente. O edifício já está em construção e fica situado num belo local com vista para o mar. A sua norma vai ser o tratamento de casamentos afectados pelas inúmeras doenças que os podem corromper, tal como a Clínica Menninger trata de doenças mentais.

— Qual é o vosso programa clínico? — perguntou Paul, com ar intrigado.

— Sou eu que vou orientar o estabelecimento, e o corpo clínico será composto por um grupo substancial de conselheiros matrimoniais orientados psiquiatricamente. Anunciaremos a inauguração a todo o país. Os honorários a pagar estão previstos para uma taxa mínima e só com o intuito de auxílio aos tratamentos e cuidados subsequentes dos doentes. Os lucros não estão previstos nem nos interessam. Somos apoiados por dotações e fundos de ajuda particulares. Além do objectivo que já lhe delineei, vamos também empreender um vastíssimo programa de educação matrimonial — sorriu. — É esta a estrada que eu vou tomar para remediar os males de que falámos.

— É uma obra que parece demasiado boa para ser verdadeira... tem um valor incalculável. Quando é que começam?

— Dentro de um período de quatro meses. Quando o complexo ficar pronto. Temos o nosso corpo clínico quase organizado, mas ainda existem certas vagas vitais por preencher.

Olhou afectuosamente para Paul.

— Há pouco fez-me uma oferta, posso agora retribuí-la, mas sem a intenção de tentar suborná-lo; é uma espécie de regeneração que lhe ofereço. Temos um trabalho importante para si.

— Sinto-me na verdade muito lisonjeado com a sua proposta...

— Está então interessado? Repare que ainda teria tempo disponível para viajar e para se dedicar a Sir Richard Burton.

Por instantes Paul imaginou-se a realizar um trabalho útil e magnífico naquela ilha do Sul da Califórnia, e ainda com tempo para se dedicar à sua obra literária. Todavia, por mais que gostasse do devaneio e da pessoa que lho fizera criar, ressaltava do facto um estigma de traição para com o Dr. Chapman. Tratava-se do campo rival. Estava a pactuar com o inimigo do seu chefe, um inimigo esclarecido e benevolente, mas um inimigo. Além disso, o
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Dr. Chapman oferecia-lhe também uma luminosa visão: a Academia a fundar no Leste, dedicada ao estudo do comportamento sexual humano, uma instituição de características internacionais, aureolada pela fama e pela prosperidade, onde ele seria o lugar--tenente do mestre. O Dr. Chapman ainda não o tinha decepcionado, ele não iria decepcionar o cientista.

— Como lhe disse já, Victor, sinto-me lisonjeadíssimo pela

sua proposta, mas a verdade é que não posso aceitar. O Dr.

Chapman tem sido para mim um amigo generoso e forte. Sou-lhe

imensamente dedicado, mas, acima de tudo, acredito na sua obra.

O Dr. Jonas acenou a cabeça num gesto de compreensão.

— Percebo-o perfeitamente. Não nos preocupemos mais com o assunto. Afinal o único a ficar prejudicado sou eu, que perco um maravilhoso colaborador.

— Não sabia que era já tão tarde — disse Paul, depois de ter olhado para o relógio. — Mais cinco minutos de permanência e o senhor podia muito bem exigir-me renda.

Afastou a cadeira da mesa.

— Amanhã, às nove horas, tenho que estar na ponte do comando do nosso navio.

— Quanto tempo demorará esta última parte do inquérito? — perguntou Victor Jonas.

— Cerca de duas semanas.

— Penso tanta vez nessas vossas entrevistas...

— De que modo?

— É verdade que a publicação do relatório será a culminância de todo o mal causado... isto é, o efeito permeável constituído pelos vossos dados, o súbito minar de ideias há longo tempo preconcebidas sobre o bem e o mal, o certo e o errado, fazendo com que os erros pareçam coisas acertadas... enfim, na verdade será esse o mal maior, mas essas vossas entrevistas que começam amanhã... — abanou a cabeça lentamente com um profundo ar de desgosto.

— Funciona tudo de uma maneira essencialmente clínica, é como se um técnico de raios X estivesse a realizar o seu trabalho.

— Não completamente. Essas mulheres que se lhes vão dirigir, doentes ou sãs, na sua maioria têm tudo ordenado, cada coisa no seu lugar próprio. Tudo reprimido com propriedade e tudo com

propriedade esquecido, e sobrevivem sem prejuízos de maior. Então vocês começam a martelar aquelas perguntas. Cada uma é como a perfuração de um poço que conduz a um local escuro, a uma galeria onde impera o receio e a angústia. Toda a ordem desaparecerá, tal como uma selvagem e inesperada explosão de átomos sem possibilidade de controlo, que conduz ao caos. Vocês vão provocar uma cadeia de forças obscuras e nocivas. Mas o pior é que depois não as ajudam, não as auxiliam a colocar de novo tudo numa ordem essencial e construtiva. Desencadeiam reacções e abandonam-nas à sua sorte. E eu penso: aonde e a que conduzirá isso essas mulheres? Como se comportarão depois das entrevistas, o que será delas? Paui levantou-se.

— Tenho a certeza de que não será um quadro tão mau como

o está a pintar.

— Espero bem que não — disse o Dr. Jonas, sem convicção.

E o que mais perturbava Paul naquele momento é que também

ele não se sentia convicto.
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6

Fora na verdade uma longa manhã, reflectia o Dr. Chapman, enquanto comia o resto do seu «prego» e bebia o café já morno, servido no copo de papel.

George G. Chapman estava sentado à cabeceira da grande mesa existente na sala de conferência do andar superior da Associação Feminina de The Briars. Paul e Horace estavam sentados à sua direita e Cass à esquerda; todos acabaram de comer as sanduíches que Benita lhes trouxera.

O Dr. Chapman observou Paul, que, enquanto ia mastigando, lia a página desportiva de um matutino de Los Angeles. Olhando-o, o cientista pensava no que se teria passado entre o seu ajudante e o Dr. Victor Jonas.

Na noite anterior, movido pela ânsia de saber notícias, prolongara a sua vigília para além da hora em que costumava ir para a cama. Ficara sentado numa cadeira da sala de estar, à espera de Paul; mas, pela meia-noite, depois de ter já dormitado, resolveu ir meter-se entre os lençóis. Nessa manhã, durante o pequeno-almo-ço, tomado em conjunto, sentira-se em pulgas, mas não se atrevera a interrogar Paul sobre o assunto em frente do outro pessoal. Ao dirigirem-se para o carro que os transportaria a The Briars, o Dr. Chapman tocara no cotovelo de Paul, e ambos se haviam deixado ficar para trás. Evitando assim poderem ser ouvidos, o Dr. Chapman interrogara Paul sobre o que se passara. Radford limitara--se a abanar a cabeça negativamente e a dizer que, em sua opinião, nada havia a esperar do Dr. Jonas. A breve conversa fora interrompida pelo aparecimento de Benita Selby com os braços cheios de dossiers.

Paul prometera fazer-lhe um relato integral nessa noite, logo que acabassem de jantar.

Haviam chegado ao edifício da Associação por volta das oito e meia. As saias de entrevistas já tinham sido preparadas de véspera, de modo que, cerca das nove horas, quando chegaram as três rimeiras mulheres, Paul Radford, Horace Van Duesen e Cass Milller á estavam nos gabinetes à prova de som, por detrás dos seus iombos, preparados para o trabalho.

Os resultados das entrevistas da manhã estavam colocados o lado do Dr. Chapman. Seis compridos questionários com as espostas sol-ré-sol apontadas a lápis. Cada uma daquelas pági-as parecia uma selva de rabiscos como símbolos estenográficos.

Nesse momento o Dr. Chapman amarrotou o seu guardanapo de papel, deixando-o cair dentro do pires onde viera a sanduíche, e pegou em seis daquelas folhas. Como sempre, sentiu-se tranquilizado pela objectividade numérica daquelas seis histórias, experimentando um sentimento de força e grandeza por ter aumentado o seu conhecimento e o conhecimento humano acerca de tão magno problema. Frequentemente, em momentos assim, ante os seus olhos parecia brilhar a palavra imortalidade, escrita no espaço a letras de fogo e oiro. Banhava-se numa inesperada onda de prazer, mas logo caía em si, reconsiderava que a sua vida era dedicada ao bem comum e, por isso, toda a vaidade pessoal era coisa indigna e mesquinha.

Chapman percorreu com a vista o relatório que estava no topo, depois foi desfolhando os outros, lentamente, interpretando a estranha linguagem, que somente ele e os seus três assistentes conheciam. As respostas não fugiam da regra geral, embora houvesse uma ou outra que lhe chamava a atenção por fugir um bocado dos moldes habituais. Mais uns quantos minutos naquela observação, e de novo o Dr. Chapman ordenou os relatórios e os colocou de novo a seu lado.

— Muito bem. Parece-me tudo bastante aproveitável.

Olhou para o seu relógio de pulso — sete minutos para a uma.

— Dentro de alguns minutos teremos cá as restantes entrevistadas do dia. Será conveniente que voltem, aos seus postos, meus senhores.

— Maldita enxaqueca — disse Cass, passando a mão pela


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fronte com um ricto de fadiga.

— Pense que só temos mais duas semanas de trabalho —

disse-lhe Horace, que acrescentou à guisa de compensação: —

imagine aqueles pobres psicanalistas todos os dias no seu serviço

e sem mãos a medir.

Paul levantou-se.

— Na verdade isto não tem andado nada mal. Quando terminarmos talvez sintamos saudades.

— Essa é a sua opinião pessoal — replicou Cass. — Quanto a mim, não fui feito para esta vida.

Encarninharam-se para a porta.

Um tanto ou quanto eufórica, quando chegou ao cimo das escadas, Úrsula Palmerteve que parar um momento para descansar e normalizar a respiração. O seu relógio de pulso, de caixa de ouro, marcava justamente um minuto para as 13 horas.

No caminho de sua casa até Romola Place, viera a pensar na excitante proposta que lhe fora feita por Bertram Foster. Pela sua mente desfilaram as fantasias de se ver salientada pela crítica mais exigente:

O remédio miraculoso que inoculou vida nova à revista Houseday, duplicando-lhe a tiragem, chama-se Úrsula Palmer, e é uma clássica beleza californiana que está agora a auferir um ordenado anual de 100 000 dólares— «TIME»

Ú. Palmer, de longe a mulher do ano. — «VOGUE».

Úrsula P., a nova sensação do mundo da imprensa. — Winchell.

Na próxima semana temos uma verdadeira surpresa para lhes apresentar: Úrsula Palmer. — Kike Wallace.

Naquele cocktail-party tivemos que abrir caminho por entre grande número de celebridades para podermos homenagear o novo monstro sagrado. Na reunião cruzámo-nos com Truman Capote, Jean Kerr, John Houston, Dean Acheson, Cole Porter, Leland Hayward, Fanny Holtzmann e a Duquesa de Windsor, para irmos descobrir, com uma taça de champanha na mão, a inevitável rainha da festa, a bela e insinuante editora que... — «Secção de respigos da cidade» do «NEW YORKER».

No momento em que penetrou no fresco edifício da Associa-

ção Feminina, Úrsula lembrou-se de que, se tudo aquilo não passara de um devaneio, poderia, no entanto, vir a ser verdade se se mantivesse atenta e pudesse seguir a história da sua entrevista com toda a exactidão.

Sentiu uma pontinha de remorso por não ter contado ainda a Harold a proposta de Bertram Foster. Instintivamente, ocultara-lhe o caso para não dar origem a uma cena familiar. Ocasionalmente, e de maneira perfeitamente imprevisível, Harold tornava-se irascível e desagradável perante certas coisas. Era o seu modo de obediência a um princípio de masculinidade. Habitualmente, Úrsula enfrentava tais crises com todo o ânimo e acabava sempre por levar a melhor, somente não queria alaridos sobre um facto que ainda não era uma realidade paipável. Uma vez terminada a sua entrevista e os apontamentos entregues a Foster, estava certa de poder resolver as coisas da melhor maneira. É verdade que se sentia um pouco chocada com a avidez lúbrica de Bertram Foster pela entrevista, mas decidira que o caso não passava de uma infantilidade. Seria uma pequena concessão a fazer. Afinal, as actrizes mais famosas mostravam muito mais das suas vidas sexuais, e de maneira muito mais espectacular.

O pensamento nos apontamentos trouxe-lhe à ideia o trabalho que tinha que efectuar, tudo tinha que estar pronto para um perfeito funcionamento na altura própria. Abriu a mala de mão e extraiu lá de dentro um livrinho de notas, com duas páginas já preenchidas com a descrição de alguns pensamentos de «Uma dona de casa urbana», escritos na manhã da entrevista, e depois retirou o lápis. Apressadamente começou a reportagem: «Ela vestia uma blusa branca de renda e uma saia azul. À medida que se aproximava a hora da "entrevista", sentia-se como uma colegial no seu primeiro encontro amoroso; saiu de casa vinte minutos antes da hora marcada e chegou ao local precisamente um minuto antes. Pensava que nunca tinha falado de sexo com ninguém, à excepção de seu marido, não lhe contando, mesmo a ele, todos os seus sentimentos e emoções, e reflectia se poderia falar do caso com um estranho. Ao subir as escadas os joelhos "tremiam-lhe".

Claro que não sentia os joelhos a tremer, e os seus pensamentos não se dirigiam para a entrevista em si mesma, mas sim para os resultados dela. Aqueles apontamentos, porém, eram o que os
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leitores da Housedayesperariam.

Voltou a meter o canhenho e o lápis na mala e enfiou deliberadamente pelo corredor. Em frente, avistou uma rapariga pálida e ossuda, metida num fato saia-casaco cinzento, que parecia esperá-la. Estava sentada a uma secretária a meio do corredor.

Úrsula chegou junto da secretária.

— Como está? Chego atrasada?

Benita Selby abanou a cabeça de lado a lado.

— Não, minha senhora. As outras duas entrevistadas chega

ram há pouco.

Consultou os seus registos.

— Chama-se Úrsula Palmer, não é verdade?

— Exactamente.

— A sua entrevista é no gabinete C, ao fim do corredor.

Benita Selby fez um rabisco de descarga ao lado do nome da

recém-chegada, e levantou-se para guiá-la.

Um pouco antes de chegarem ao seu destino, Úrsula parou e perguntou:

— Posso saber o nome do meu entrevistador?

Benita ficou surpreendida; na verdade nunca uma entrevistada lhe fizera semelhante pergunta.

— Dr. Horace Van Duesen.

— É uma pessoa suficientemente qualificada para o trabalho?

— Posso garantir-lhe que é eminentemente qualificada.
— Acredito em si. Qual era a especialidade dele antes de trabalhar neste inquérito?

— Professor de Ginecologia e Obstetrícia na Universidade de Reardon.

— Que Deus me livre de tal coisa! — exclamou Úrsula.

Mas Benita não viu onde poderia estar a piada.

Chegaram finalmente junto do gabinete C. Benita abriu a porta

e convidou Úrsula a entrar. Úrsula lembrava-se perfeitamente daquela salinha verde-mar. Era ali que costumava passar ao duplicador o boletim mensal da Associação. Mas a meio da sala havia agora a inovação de um biombo de quase dois metros de altura, que separava o aposento em duas partes. Para o outro lado não conseguia divisar nada. O rodapé de assentamento do biombo era feito de painéis de mogno e a parte superior composta por uma estrutura de

vergas entrelaçadas, tão juntas que nada se podia ver, mas, evidentemente, destinadas a deixar passar o som em condições perfeitamente audíveis.

— É então este o vosso famoso biombo?

— Foi inteiramente imaginado pelo Dr. Chapman e adaptado às funções da entrevista secreta. Ouve-se tudo, mas nada se vê. Antes da sua decisão final o Dr. Chapman estudou vários tipos de biombos, principalmente chineses. Como bem deve saber, o Dr. Chapman é um cientista com o gosto da minúcia.

Úrsula fez um gesto de concordância e passou a examinar a cadeira alta, de espaldar, com confortáveis assentos de couro e braços de repouso também almofadados; e a mesinha, logo ao lado, onde se via um cinzeiro típico.

Benita indicou-lhe a cadeira, e Úrsula instalou-se, colocando a mala de mão no regaço. Ao cruzar as pernas tocou com a ponta do sapato numa pequena caixa quadrada, forrada de couro.

— Que é isto? — perguntou apontando para o insólito objecto.

— A maleta que contém diversos objectos especiais para a consumação da entrevista.

Úrsula recordou-se imediatamente da referência que o Dr. Chapman fizera àquela caixa durante a sua conferência. Ele mencionara uma série de perguntas reactivas a que a entrevistada responderia depois de examinar várias peças do conteúdo daquela misteriosa caixa.

— Muito bem. Uma vez que não seja uma daquelas caixas mágicas de onde os objectos saltam...

— Pode ficar descansada a esse respeito — disse Benita, com manifesta resignação na voz.

Mas ao perceber que Úrsula estava a brincar, pelo sorriso que lhe aflorava aos lábios, correspondeu com timidez. Porém, para evitar mais daquelas saídas, disse, voltada para o biombo: — Dr. Van Duesen, a senhora Palmer já está aqui.

— Como está, senhora Palmer? — ouviu-se dizer uma voz do outro lado do biombo.

— Bem, muito obrigada — respondeu Úrsula, que, logo a seguir, olhou para Benita e lhe perguntou baixinho: — Que está ele a fazer do outro lado?

— Está sentado a uma mesinha, em cima da qual estão al-


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guns lápis e um questionário. Nada mais.

— Não tem nenhum equipamento especial para me fazer uma lavagem ao cérebro?

— Não, Sr.8 Palmer. Entre nós é tudo muito simples.

— É-me permitido fumar?

— Com certeza. Esteja à sua vontade — disse Benita, que, em tom um pouco mais alto, acrescentou: — Muito bem, vou sair do gabinete.

Saiu, fechando a porta sem ruído.

— Descontraia-se, minha senhora — disse a voz de Horace.

— Quando estiver preparada...

— Só peço alguns segundos, enquanto acendo um cigarro.

Procurou o maço na mala e tirou um, ao mesmo tempo que

tirava também o livrinho de apontamentos e o lápis.

— Pronto, já estou preparada para a entrevista.

— Peço-lhe o favor de responder a todas as perguntas o melhor que for possível e com total exactidão. Disponha do tempo que quiser para responder. Torna-se evidente que pode dizer o que desejar. Se não compreender seja o que for, não hesite em perguntar. Eu repetirei. Esteja absolutamente tranquila, todas as suas respostas ficam registadas na linguagem sol-ré-sol. Como sabe, é uma linguagem cifrada que só o Dr. Chapman e os seus colaboradores directos conhecem.

— Peço desculpa, mas como tenho uma fraca memória, tem que me conceder algum tempo para responder convenientemente

— mentiu Úrsula.

O espaço de tempo requerido servir-lhe-ia apenas para traçar os seus apontamentos. Nesse momento começou a escrever velozmente o nome do seu entrevistador, a sua especialidade e algumas das suas palavras de abertura.

— Esteja à vontade e disponha de mim como lhe aprouver — sublinhou a voz de Horace Van Duesen.

— Estou pronta. Pode fazer fogo.

Depois de um breve momento de silêncio, ouviu-se a voz do entrevistador:

— Pode dizer-me a sua idade?

— Claro que sim. Tenho quarenta e um.

— Habilitações literárias? ^


— Curso dos liceus e dois anos de frequência universitária. Não completei qualquer curso universitário porque ansiava iniciar a minha vida profissional. Sou escritora, ou, melhor, jornalista.

— Local de nascimento?

— Sioux City, lowa.

— Há quanto tempo reside na Califórnia?

— A minha família veio para cá quando eu tinha três anos.

— Que religião professa?

— Pertenço à igreja episcopal.

— Considera-se uma regular frequentadora dos serviços religiosos da sua igreja, frequenta-os com irregularidade ou nunca lá vai?

— Bem... digamos que vou lá muitas vezes.

— Frequentadora irregular?

— Sim.


— Qual o seu estado civil?

— Como?


— É casada?

— Claro que sim.

— Antes do seu casamento actual já tinha contraído qualquer outro matrimónio?

— Já. Estive casada com outro homem durante três meses.

— Que profissão exercia o seu primeiro marido?

— Quando o conheci escrevia slogans publicitários. Fazia as melhores tenções de se tornar director da companhia para quem trabalhava, mas em vez disso perdeu o emprego e, durante todo o tempo que durou o nosso casamento, entreteve-se a comer, beber e ler os anúncios de ofertas de empregos.

—Tem filhos?

— Um. Chama-se Devin e é tudo o que resta do meu primeiro casamento. O moço tem agora dezanove anos e está a estudar Engenharia na Universidade de Purdue, Indiana.

— Quer dizer que não existem filhos do seu actual casamento?

— Evidentemente.

— Há quanto tempo contraiu matrimónio com o seu segundo marido?

— Dezasseis anos.


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— Qual a profissão dele?

— Contabilista. Constituiu há pouco tempo a sua própria empresa.

— Disse que é jornalista. Significa que exerce presentemente essa actividade?

— Sim. Represento uma revista de Nova Iorque.

Úrsula só registava as perguntas que lhe eram feitas; as suas respostas seriam colocadas depois.

— A partir deste momento...

— Não poderá aguardar um instante?

— Com certeza que sim. Esperarei.

Ela acabou de apontar a última das perguntas.

— Pronto. Pode prosseguir.

— ... começaremos com uma série de perguntas sobre o período imediatamente anterior à fase em que entrou na adolescência. Pode não se lembrar com exactidão de tudo, mas tente responder o melhor que lhe for possível. Disponha de todo o tempo que quiser para rememorar os factos.

Úrsula começou a impacientar-se. Afinal que interesse poderiam ter as coisas da pré-adolescência? Evidentemente que Bertram Foster não ligaria um pataco ao assunto, e o público também não. Úrsula desejou que aquela parte fosse omitida; tais preliminares eram enfadonhos. O que importava era chegar aos motivos excitantes que garantiriam o êxito da publicação do artigo.

— Consegue recordar-se da idade em que atingiu o primeiro

orgasmo através da masturbação?

Úrsula franziu a testa. Então aquilo é que era para a Houseday?

— Mas há alguma criança que faça uma coisa dessas? — perguntou com forçada naturalidade.

— É coisa habitual na pré-adolescência, entre os três e os treze anos, e depois disso também nada tem de estranho ou insólito.

Que coisa ridícula e mesmo ultrajante... mas de imediato veio--Lhe à ideia o seu primeiro orgasmo. Bem, talvez não tivesse sido o primeiro, como ordem de precedência, mas era daquele que se lembrava com mais acuidade... havia visitas em sua casa naquela noite, e ouvira as vozes das pessoas mais velhas que vinham da sala de estar. Ao mesmo tempo, um filete de luz passava pela

fenda existente na porta do seu quarto. Estava deitada na cama, acordada, e lembrava-se perfeitamente de ter estreado a sua camisa de noite de flanela com pintinhas...

— Estou a tentar lembrar-me — disse finalmente. — Devia ter os meus sete anos para oito... não, já passava dos oito anos.

— Pode descrever o método que utilizou?

A vaga recordação projectava-se agora claramente, iluminada pela luz crua da maturidade, e sentia uma certa repugnância em revelar o caso. Aliás, como é que semelhante trivialidade da sua infância poderia ser útil a quem quer que fosse? Contudo, aquela voz impessoal por detrás do biombo tinha com certeza ouvidos impessoais que esperavam uma resposta. Foi num tom firme que confessou o método empregado quando tinha oito anos.

O interrogatório sobre o seu comportamento sexual pré--adolescente continuou no mesmo tom impessoal por mais dez minutos.

Úrsula mal podia conter a sua impaciência. Pensando em termos de milhões de leitores da Houseday, tudo aquilo era um desperdiçar de tempo, tempo precioso, e por isso as suas respostas se foram tornando cada vez mais breves e manifestamente hostis. Finalmente, após ter revelado que a menstruação lhe tinha aparecido aos doze anos, sentiu-se aliviada por passar, num ápice, para as brincadeiras amorosas antematrimoniais. Desleixara-se com os apontamentos, mas estava certa de poder preencher todas as lacunas.

— Qual é a sua definição de brincadeiras amorosas? — ouviu

a voz de Horace Van Duesen perguntar.

Sim, aquilo já era um facto de interesse, fascinaria as mães e as filhas que lessem a Houseday.

— Ora, é tudo aquilo que nos pode excitar, tudo o que se faz sem se chegar ao fim principal.

— Sim, é uma explicação aceitável. Mas talvez seja melhor eu ser mais exacto sobre o assunto.

Horace definiu as partes componentes das brincadeiras amorosas em pormenor. Para Úrsula, que nunca antes pensara seriamente no caso — pelo menos nada de que se recordasse em pormenor —, o explícito vocabulário científico dava ao assunto um cariz de vulgaridade e desencanto. No entanto tinha que registar a con-


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versa. Foster devia ser servido, e o público também. Fosse como fosse, quando passasse aquilo à máquina, dar-lhe-ia um outro sabor mais picante, mas perfeitamente enquadrado, para se poder debater em rodas familiares.

Horace perguntava naquele momento se ela já alguma vez obtivera plena satisfação através das brincadeiras amorosas.

— Da primeira vez que isso aconteceu?

— Sim.


— Foi nos últimos anos de frequência do liceu. Suponho que também quer saber que idade tinha. Devia andar pelos dezassete anos. Significará que fui uma adolescente muito atrasada em semelhantes coisas?

Do outro lado do biombo não veio qualquer comentário à gracinha. Em vez disso, ouviu perguntar:

— Qual o método utilizado?

Lá vinha de novo o maldito método. Explicou o mais sucintamente possível.

— Onde é que isso ocorreu?

— No carro do moço. Parámos numa estrada das montanhas, e fomos os dois para o assento traseiro. Primeiro pensei que amava o rapaz, depois mudei de ideias. Seja como for, não passámos de apalpões, brincadeiras de amor, carícias sem importância.

De ambos os lados do biombo foram tomados apontamentos. Depois, as perguntas continuaram no mesmo tom até que, por fim, chegaram ao assunto da intimidade sexual pré-conjugal.

— Com três homens — respondeu ela à pergunta que lhe fora formulada.

— Quais os lugares escolhidos?

— Com os dois primeiros nos apartamentos deles. E com o último em motéis.

— Veio a casar-se com algum desses homens?

— Sim. Com o segundo. Foi o meu primeiro marido.

— E com o seu segundo marido, teve qualquer experiência anteconjugal?

— Não, nem pensar nisso. Harold não pensaria em ter relações comigo antes de nos casarmos. A primeira ligação foi com um estudante, então ainda eu estava na universidade. Depois... foi com o meu marido, o que escrevia slogans publicitários. Trabalhá-

vamos os dois no mesmo escritório — era o meu primeiro emprego. O último foi no segundo emprego que tive que arranjar. Tratou-se do meu patrão, fui secretária dele durante um curtíssimo período de tempo.

— Atingiu o orgasmo em qualquer dessas ocasiões? Se assim foi...

— Não cheguei a qualquer orgasmo — interrompeu ela veementemente.

— Durante essas intimidades sexuais estava parcialmente vestida ou completamente nua?

— Nua.

— Quais as alturas do dia preferidas para o acto, as mais frequentes — de manhã, de tarde, ao escurecer ou durante a noite?



— Ora... poderemos dizer que era ao anoitecer.

— Regra geral usavam contraceptivos para evitar a gravidez?

— Sim.

— Quem utilizava esses contraceptivos, a senhora, o seu parceiro ou ambos? Ou o seu parceiro era partidário da teoria de Noyes sobre a continência masculina?



— Os meus parceiros usaram sempre contraceptivos.

— Voltemos agora ao acto sexual em si, quanto ao método utilizado...

Úrsula sentiu os poros da pele perlarem-se de gotículas de suor. Que Deus tivesse pena das pobres raparigas que trabalhavam por esse mundo fora. Notou então que os seus dedos agarravam com tal firmeza o lápis que o sangue fugira deles, e que, durante aqueles últimos minutos, não conseguira tomar um único apontamento. Desesperadamente, tentou descontrair-se, lembrar-se de tudo, porque era necessário escrever.

— ...pode indicar-me aqueles que eram utilizados por si com

mais frequência?

Indicou um dos métodos com uma voz tão estranha que nem parecia a sua. Mas continuou a escrever afanosamente, imaginando, ao mesmo tempo, o que Bertram Foster pensaria de tudo aquilo.

Quando, às 14 e 22 minutos, Úrsula Palmer se encontrou em Romola Place, onde o sol brilhava, sentiu-se fraca e preocupada,
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tal como frequentemente se sentia depois das relações sexuais e quase nunca depois de ter dedicado o seu tempo a escrever. Era uma fraqueza que não sabia definir com precisão, uma preocupação estranha. Afigurava-se-lhe que havia muito mais que deveria ter sido dito, muito embora não soubesse exactamente o quê. As perguntas haviam coberto todas as experiências possíveis, todos os assuntos relacionados com a vida sexual, e ela tinha respondido honestamente. Todavia, tinha a sensação de uma coisa incompleta, uma coisa insolúvel, e a sua preocupação ressaltava da incerteza se o caso envolvia as perguntas a respeito do comportamento sexual ou se se referiam ao comportamento em si mesmo. Fosse como fosse, o melhor de tudo aquilo eram sem dúvida os apontamentos. Para o fim da entrevista, tomara a verdadeira consciência de uma profissional e passara tudo ao papel. Sim, com imaginação e perfeita discrição, estava convencida que a coisa resultaria em cheio.

A sua primitiva intenção era a de encaminhar-se a toda a pressa para casa, terminada a entrevista, a fim de transcrevera experiência enquanto as coisas estivessem frescas na sua memória. Porém, naquele momento, parada em frente do edifício da Associação, sentiu de repente que não tinha nenhum desejo de transcrever a sondagem imediatamente. Era um assunto que poderia muito bem esperar até à noite ou até à manhã seguinte. Sentia a necessidade de se manter fora de casa, de ver gente, de não ficar sozinha com aqueles apontamentos.

Recordou-se de que não tinha selos em sua casa e atravessou a rua em direcção à estação dos Correios. Quando se preparava para franquear o curto lanço de degraus que levavam ao interior do edifício, viu Kathleen Ballard emergir da estação, e esperou que ela descesse.

— Olá, Kathleen!

— Viva, Úrsula!

— Acabo de vir do outro lado da rua, onde tive um laborioso debate sobre Aquilo Que Toda a Rapariga Deve Saber.

Kathleen, perplexa, olhou para o outro lado da rua e depois fitou Úrsula interrogativamente. Porém, a expressão desta levou-a a compreender imediatamente.

—Quer dizer que foi entrevistada, hem?

— É verdade — respondeu Úrsula, secamente.

— Estou ansiosa por ouvi-la contar o que se passou... isto é, não pretendo saber nada de particular, apenas como as coisas se processam, as perguntas que fazem...

— Pois bem, ninguém mais indicado do que eu. Lembre-se que está a falar com uma das veteranas dos rituais cabalísticos do

Dr. Chapman.

— A minha entrevista está marcada para quarta-feira à tarde.

Que tal é aquilo?

Úrsula não tinha nenhuma vontade de ventilar o assunto, mas de forma nenhuma queria perder a companhia de Kathleen.

— Proponho que nos sentemos em qualquer lado. Tem tempo disponível?

— Deirdre está nas aulas de dança e só a vou buscar às três e

meia.


— Prepare-se então para ouvir uma resumida versão com o cunho Úrsula Palmer passando por alto as brincadeiras amorosas, o matiz sexual da pré-adolescência e concentrando-me especialmente no coito. Não se admire, cara amiga, coito é uma palavra que vai estar muito em voga, tem que aprender a gostar do termo. Coito conjugal, extraconjugal e mais ou menos conjugal.

— Quer dizer que nos obrigam a...

A curiosidade primeiramente manifestada por Kathleen cedera agora lugar à ansiedade.

— Não nos obrigam a nada—respondeu Úrsula, veementemente.

—Tem que se lembrar que somos todas absolutamente voluntárias.

Uma espécie de cobaias como as que serviram os fins científicos

do major Reed durante a febre-amarela. Mas o que importa agora é

que nos sentemos. Vamos até ao Crystal Roorn; coisas destas só

podem ser digeridas com o estômago bem amparado.

Sentado ao lado da sua mesinha, com a perna negligentemente traçada, Cass Miller pensava naquelas raparigas saudáveis, feiotas e um pouco obtusas, que o destino enviava a este mundo. O lápis que tinha na mão encontrava-se precisamente a apontar a pergunta

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que acabara de fazer à mulher que estava do outro lado do biombo: «Entreteve alguma vez carícias amorosas pré-conjugais?» O lápis seguiu o curso da página e detectou a resposta escrita em cifra. Era a palavra «Não» que eliminava imediatamente as próximas dez perguntas subsequentes.

Aquelas jovens mulheres pertenciam todas ao mesmo tipo, segundo o pensamento de Cass. Eram todas as mesmas de costa a costa. No Leste o tipo era mais baixinho e, inteligentes ou estúpidas, todas usavam uma ridícula franjinha e tinham enormes traseiros e umas pernas que pareciam troncos. Tinham frequentado as universidades de Bennington ou Barnard e acabavam porcasar-se com rapazes pertencentes à Liga de Temperança — que mais tarde davam em grandes bebedores —, tornando-se donas de casa perfeitas. No Oeste, o tipo vestia bem, era mais alto e mais magro, usando o cabelo curto, à rapaz, e de peles queimadas pelo sol, mais moreno do que loiro. Essas mulheres costumavam ter seios diminutos, ou serem lisas como tábuas de engomar, de ancas escorridas e pernas finas. Tinham estudado na Universidade de Stanford ou em colégios suíços, e costumavam casar-se com jovens de profissão combativa e levar uma vida mais mundana.

A mulher que estava a entrevistar pertencia ao último tipo, e Cass voltou a ler o cabeçalho da entrevista: Sr.** Mary Ewing McManus, de vinte e dois anos, nascida em Los Angeles. Estudara na Universidade da Califórnia Meridional, era luterana e regular frequentadora da igreja. Casada pela primeira vez, um casamento que durava há dois anos, o marido era advogado e indicara a profissão dela como «Doméstica».

Continuou a interpretar o que já havia escrito: brincadeiras heterossexuais na pré-adolescência. Rotina. As carícias amorosas pré-conjugais cifradas em beijos e breves contactos peito com peito. O normal. As carícias nunca tinham ido mais além. Quanto a coito pré-conjugal, «Nunca!». Uma coisa sensaborona como a água salobra, que só se consegue beber quando, na verdade, se está a morrer de sede.

Cass sabia perfeitamente que o resto se poderia prever. Não obstante, o Grande Pai Branco e a máquina STC tinham que ser servidos.

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Cass Miller lançou um olhar de tédio para o enorme biombo de separação, desinteressado daquela Mary Ewing McManus que se encontrava do outro lado, e, com voz cansada (que ela tomou como se fosse objectividade científica), começou:



— Agora temos uma série de perguntas a respeito do coito conjugal. Qual é a frequência das relações sexuais com seu marido?

— Bem...


— Sei que é coisa variável. Mas não me poderá fornecer uma média por semana ou por mês?

— O meu marido e eu fazemos amor em média três vezes por semana — respondeu Mary, explícita e orgulhosamente.

Cass detectou a ponta de orgulho que soava naquela voz. Ironicamente divertido, apontou a declaração. As rapariguinhas daquela espécie costumavam manifestar sempre um certo orgulho na frequência das suas relações sexuais, no vigor e alto sentido acrobático postos ao serviço do coito conjugal, tal como se tivessem descoberto o Novo Mundo da Sexualidade, implantado nele uma bandeira de conquista e mandado rezar uma missa em acção de graças. Julgavam-se na verdade donatárias exclusivas das capitanias da sexualidade. Pensou que dentro de vinte anos o orgulho ficaria abatido, o coito passaria a efectuar-se uma vez por semana — na melhor das hipóteses —, e as mulheres daquele jaez começavam a perguntar a si mesmas por que diabo o marido fazia sempre tantos serões. Depois desatavam a carregar na maquilhagem como se fossem drogarias ambulantes, passavam a usar vestidos cada vez mais transparentes e provocantes e desejariam que o jovem e novo sócio dos respectivos maridos lhes ligasse mais atenção.

— Antes das relações sexuais propriamente ditas, costuma entregar-se à prática de brincadeiras amorosas de carácter excitante?

— Claro que sim.

— Pode descrever-me o que costumam fazer?

— Eu... não sei... isto é, penso que é muito difícil de explicar.

Apesar disso, hesitantemente, mas com o incitamento e

encorajamento de Cass, descreveu os preliminares que conduziam à cópula.

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Ainda arquejante de ter ousado debater uma questão tão íntima, Mary acabou por sentir-se aliviada por ter conseguido ultrapassar aquele obstáculo.

Mas ainda mal acabara de se descontrair quando desabaram sobre ela novas séries de perguntas relacionadas com a junção específica do coito conjugal.

— Não me lembro exactamente — começou a responder à pergunta formulada sobre o tempo de duração. — Duas ou três vezes, por simples graça, contámos o tempo levado.

— E quanto tempo registaram?

— De uma das vezes demorou cerca de... cinco minutos... outra ocasião, a última, a duração foi de quase dez minutos. v%

— Bom, pode estabelecer uma média?

— Cinco minutos.

Firmemente, Cass começou a traduzir para símbolos os gaguejos e tímidos pormenores fornecidos por Mary McManus.

Miller, frequentemente, costumava motejar daquela fogosidade ingénua que as jovens habitualmente demonstravam, mas sentia também a sua ponta de inveja.

— Durante a prática do coito, excita-a olhar para o seu marido? H

— Nunca o observo. ,t

— Mas quando isso acontece? »

— Sinto-me feliz.

Cass registou as respostas automaticamente, olhando para o que faltava ainda e computando que o resto demoraria talvez cerca de quinze minutos. Às três e quarenta e cinco estaria tudo terminado. Pensou se não poderia dar um empurrãozinho para apressar as coisas. Sentia aquela pressão aflitiva na têmpera direita, o usual prelúdio da enxaqueca, e queria repousar um bocado antes da entrevista seguinte, marcada para as quatro horas.

O que é que ainda faltava? A série de perguntas sobre experiências extraconjugais. Depois a outra série, mais reduzida, a respeito das atitudes psicológicas, finalmente, as perguntas sobre as reacções aos estímulos sexuais. Estava tentado a omitir a maior parte do interrogatório que faltava. Podia com exactidão prever as respostas da mulher. Recentemente, vinha a ser acometido por

aquele desejo insólito de reduzir as entrevistas. Mas, como sempre, lembrou-se dos persistentes avisos do Dr. Chapman de que todas as perguntas estabeleciam um padrão computável, e refreou a sua vontade. No entanto, como uma variante, decidiu fazer a série que aparecia em último lugar na lista de sequência e voltar depois às outras antecedentes.

— Observou a caixa de couro aos seus pés?

— Sim.


— Faça favor de a abrir. Tire a primeira das fotografias e obser-e-a com atenção durante uns momentos.

Ouviu o ruído do fecho da caixa a abrir-se.

— O que é que está a ver? Quero ter a certeza de que tirou a otograf ia desejada.

— É a... é uma reprodução de uma estátua clássica. Suponho - ue grega.

— Um varão adulto e simpático, não é verdade?

— Sim.


— É o Hermes de Praxíteies. Agora vamos à respectiva per-

unta: a observação desse másculo varão que a fotografia repre-

enta consegue produzir-lhe qualquer excitação?

Inevitavelmente, veio-lhe à memória o resumo dos dados esta-ísticos. «Quatro por cento sentem-se fortemente excitadas, onze por cento um tanto excitadas e oitenta e cinco por cento nada exci-adas». Com certeza que a resposta daquela entrevistada seria «Não».

— Não — respondeu Mary, do outro lado do biombo.

Mas Cass já tinha marcado a resposta antes de a ouvir, e, sufocando um bocejo com a palma da mão, no desejo de se conseguir libertar para tomar um comprimido contra aquela nevralgia que lhe atacava a têmpora, apontou o lápis para a pergunta seguinte.

Mary McManus fez todo o caminho entre a Associação e o parque de estacionamento onde deixara o seu novo Nash Rambler, na distância de um alentado quarteirão, como se caminhasse nas nuvens. O Wash fora uma oferta do pai no último aniversário natalício que cumprira.
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Já dentro do carro, não fez qualquer esforço para ligar o motor. Sentada, com as mãos apoiadas no volante, tentava aclarar ideias, aquilatar emoções. Após ter assistido à conferência do Dr. Chapman — que a decepcionara —, aguardara que a entrevista tivesse um fim útil e prático de percepção imediata, mas compreendia que mais uma vez a sua expectativa fora lograda. Os setenta e cinco minutos de duração da entrevista haviam sido muito diferentes daquilo que esperara. Os seus dois anos de matrimónio com Norman, normais sob todos os aspectos, segundo aqueles manuais de conselhos sobre as relações sexuais no casamento, haviam-na convencido de que era uma pessoa sexualmente evoluída, moderna. Mas compreendia agora que o pai (aliás como sempre) tivera razão. A entrevista, com perguntas intimidativas e melindrosas, constituíra um inesperado transe que era ao mesmo tempo uma sensação de total vacuidade.

Sim, recordando o que se passara, não conseguia encontrar uma só das perguntas que, à parte o seu melindre, fosse das chamadas impróprias. Nada houvera naquele inquérito que, numa ou noutra ocasião, não tivesse já debatido, ouvido ou lido. Mais, até ao momento em que iniciara a entrevista, o acto sexual conjugal constituíra para ela a coisa mais natural do mundo. Porém, as persistentes e minuciosas perguntas sobre todos os aspectos — carícias preparatórias, posição, orgasmo — do comportamento sexual, que ela nunca encarara com facto especial, pareciam projectar o acto para além das proporções anteriormente estabelecidas.

Naquele momento, pensando intensamente no problema, começou a avaliar que a sua vida sexual com Norman (como ela o adorava! que enorme significado o marido tinha para ela!) não era apenas mais uma prenda concedida à sua maturidade, mais uma actividade apensa ao triângulo familiar dos Ewing — pai, mãe e filha. Era coisa importantíssima, que pertencia unicamente e só dizia respeito a marido e mulher — a família McManus. Af igurava--se-lhe o único prazer que por completo lhe pertencia, que não tinha qualquer relação com a sua existência anterior. Compreendia pela primeira vez que a intimidade que partilhava com Norman, de súbito tornada tão complicada e excepcional, não tinha nenhum ponto de contacto com a antiga família, com a antiga maneira de viver, fazia

parte integrante de uma nova família e de um novo modo de viver.

Até àquela altura, não tinha realmente possuído nada inteiramente seu. Nada fora seu como propriedade absoluta. O volante onde apoiava as mãos, o sedan de desporto onde estava encerrada, eram cordelinhos que a mantinham presa à vida antiga cheia de segurança e dependência, tal como acontecia com as suas feições, com o seu sangue, com as suas recordações. Quando Norman pretendera comprar um velho Buicka prestações, Harry Ewing, o pai, ridicularizara a ideia e surpreendera-a generosamente com a oferta daquele Nash. Seu pai tinha também proporcionado a Norman uma carreira fácil, de futuro assegurado, salvando-a, salvando os dois, da inevitável luta pelo pão de cada dia que teria resultado no caso de Norman se ter engajado naquela romântica sociedade com Chris Shearer. E o conceito cheio de maturidade de que não deviam suportar o pesado fardo de filhos até o casal ser mais velho, ter mais maturidade e mais segurança, também fora fruto da sabedoria de seu pai. Sim, sem dúvida, tudo parecia ligá-la indissoluvelmente ao passado familiar a três, de que continuava a fazer parte, com excepção das respostas que fornecera às perguntas que lhe haviam sido formuladas naquela sala da Associação Feminina.

Desviou a vista para o tabliere rodou a chave da ignição. O motor pegou imediatamente, arfando com um baloiçar suave, quase insensível. Mesmo antes da entrevista, planeara fazer uma visita ao pai. Sentira-se culpada e infeliz por se ter colocado ao lado de Norman contra a opinião do progenitor. Afinal o julgamento do pai provava-se agora acertado. O menos que podia fazer era procurar sanar a ferida de uma maneira discreta. Pensara, logo após terminada a entrevista, em passar pela fábrica, como se fosse por acaso, e, como tantas vezes anteriormente, pai e filha conversariam sobre coisas várias, à velha maneira familiar, não fazendo menção à entrevista, mas ambos compreendendo tacitamente que devia alguma coisa à autoridade de Norman, muito embora (como se tornava evidente) continuasse a ser a menina do seu pai.

Mas depois de sair do parque de estacionamento e ter rodeado Romola Place, a caminho de Sunset Boulevard, teve a consciência de que parte dos seus projectos, a parte mais essencial, tinha sofrido uma modificação fundamental.
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Inexplicavelmente a sua necessidade nesse momento mani-v festava-se intensamente por Norman, não por seu pai. Tinha que encontrar Norman, o sèu querido Norman, procurar refúgio nos seus^ braços e dizer-lhe quanto o amava.

Saiu da rampa de asfalto de Sunset e dirigiu-se para a estrada; secundária, tomando posição atrás dos grandes camiões de serviços de transporte, até que o troço de estrada secundária desembocou na pista de Sepúlveda. Guiando para sul, depois de ter passado o Aeroporto Internacional de Los Angeles, dirigiu-se para o local, à distância, onde aparecia já o grande anúncio em que se lia Ewing Manufacturing Company, colocado na berma do terraço do gigan-i tesco edifício. Depois de ter arrumado o carro na área da secção administrativa, enfiou como uma louca, em longas passadas, pelo. corredor principal, do interior da fábrica.

Quase corria disposta a chegar o mais depressa possível ao gabinete de Norman, situado na mesma ala do escritório de Harry Ewing, quando viu Míss Damerel a sair dos lavabos das senhoras. Miss Damerel, cujo cabelo tinha uma tonalidade metálica de cinzento e estava sempre severamente penteado, e cujos vestidos eram todos cortados quase a direito e de impecáveis cores escuras, era a secretária privada de Harry Ewing, uma criatura que ocupava aquele posto com eficiência há mais de vinte anos.

— Oh, Mary, que maravilha poder tê-la entre nós — clamou Miss Damerel, num tom de voz fortíssimo. — Seu pai vai ficar muito, satisfeito por vê-la.

Por momentos, o passo elástico de Mary perdeu um pouco do: impulso vital devido àquela voz que lhe condicionava os reflexos, alados como uma dança da Pavlova. Mas logo a seguir, com um esforço de suprema vontade, muito maior de que se julgava possuidora, fez um aceno de adeus a Miss Damerel e prosseguiu o seu caminho no mesmo ritmo. Sabia que a secretária ficara a observada com desaprovadora surpresa. Também sabia que Miss Damerel iria contar o sucedido a seu pai, mas naquele dia Mary McManus não se importava com nada. Com nada mesmo.

Pelas noites, Villa Neapolis era iluminada por fileiras de lâmpadas, de reflexos azuis e amarelos, a brilharem nos terraços coloca-

dos a dois níveis diferentes, e por quatro projectores de enorme intensidade colocados perto de cada um dos cantos da grande piscina. Esses pontos de luz colorida, vistos à distância (o motel ficava situado numa colina com a abóbada celeste por único pano de fundo), afiguravam-se estrelas artificiais de uma galáxia inteiramente forjada pelo homem e colocada a um canto do firmamento. Todavia, as mesmas luzes vistas do interior do complexo eram completamente diferentes, formavam como que a iluminação de uma gigantesca árvore de Natal. Pelo menos era esse o pensamento de Paul Radford ao sair da relativa obscuridade da grande sala de jantar para o deslumbrante esplendor daquele arco-íris.

Benita Selby tinha-o antecedido no pátio, e era precedido pelo Dr. Chapman, Horace Van Duesen e Cass Miller.

Benita trocara a sua severa roupa de trabalho por um vestido sem mangas, de cor azul-pálido, e tinha sobre os ombros um casaco de malha lilás.

Por mútuo acordo tinham jantado todos às oito e meia, juntando duas mesas iluminadas por quatro românticos candeeiros em forma de velas.

O primeiro dia de entrevistas fora, como já era hábito em todas as outras comunidades, absolutamente enervante. Isso e a exigência do Dr. Chapman de que as entrevistas do dia não deviam ser discutidas na sua presença, reduzira a sociabilidade geral a uma troca esporádica de palavras no intervalo dos prolongados silêncios.

Já no pátio, Cass Miller perguntou se os dois automóveis alugados para as deslocações tinham destino. Benita disse que ia pôr o seu diário em ordem e escrever uma carta, uma das cinco que enviava semanalmente a sua mãe, senhora parcialmente inválida, que residia em Beloit, Wisconsin. Por sua vez, Horace afirmou inte-ressar-lhe um dos carros para ir ao cinema em Westwood, onde se projectava um filme que pretendia ver. Então, o Dr. Chapman informou Cass de que podia levar o outro veículo, dado que ele e Paul tinham que terminar um trabalho.

Depois de Horace e Cass se terem dirigido para a garagem e de Benita subir para o seu quarto, o Dr. Chapman levou Paul até ao maciço de hibiscos, na extremidade da piscina, e sentaram-se em cadeiras de verga.
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7 - O Relatório Chapman 257

O pátio àquela hora estava calmo. Só havia dois casais que jogavam às cartas no outro extremo da piscina, por detrás da prancha de saltos, e as suas vozes mal chegavam ao outro lado.

O Dr. Chapman aliviou o cinto e fez rolar o seu charuto de um a outro canto da boca, como era seu hábito; quanto a Paul, fumava uma cachimbada.

— Ora muito bem, estou em pulgas para saber o que se pas

sou entre você e o Dr. Jonas — começou o Dr. Chapman. — Esta

manhã disse-me que as esperanças eram quase nulas.

Observou a reacção de Paul.

— Isso significa que ainda existe alguma esperança de vencer

o obstáculo, ou que podemos desistir?

— Podemos desistir — respondeu Paul, com firmeza. i. O Dr. Chapman emitiu um grunhido de contrariedade.

— Estou a compreender.

Ficou durante alguns segundos a olhar pensativamente para o lajedo do pátio, acrescentando finalmente:

— Conte-me o que se passou.

Paul referiu-lhe os acontecimentos da noite anterior da maneira mais concisa. Descreveu-lhe o Dr. Victor Jonas, a mulher e os filhos; falou-lhe da vivenda e relatou-lhe trechos da conversa no bungalow das traseiras da casa, principalmente a parte em que o Dr. Jonas deduzira que pretendiam suborná-lo e em que ele, Paul, defendera a integridade do Dr. Chapman, omitindo somente a observação feita pelo anfitrião de se sentir satisfeito com a ausência do mestre. Depois, Paul contou a sua surpresa ao ver que o Dr. Jonas estava ao corrente do andamento dos trabalhos do inquérito.

Os olhos do Dr. Chapman fulguraram na sombra.

— Como pode ele estar inteirado desse facto?

— Foi exactamente a interrogação que lhe fiz. Respondeu que

o senhor enviava cópias actualizadas dos seus estudos para a Fun

dação Zollman...

Paul deixou a frase em suspenso, como que a aguardar uma explicação.

O Dr. Chapman fitou-o tranquilamente.

— Sim, isso é verdade. O conselho de administração vai reu-

nir-se ainda antes de o nosso inquérito estar completado, e por

isso pensei que era melhor mantê-los informados do andamento.

— Mas o nosso trabalho ainda não está concluído. Digamos mesmo que não passa de um amálgama de coisas indefiníveis, de uma massa em bruto.

— Deve ser escusado lembrar-lhe que a Zollman tem cientistas capazes de discernirem as coisas. De resto estou certo de que o envio antecipado de dados poderá militar em nosso favor.

— Mas militará também em favor do Dr. Victor Jonas. O grupo da Zollman que o contratou enviou-lhe fotocópias dos dados.

— Canalhas! — vociferou o Dr. Chapman —, são capazes de tudo para me torpedearem.

Estava lívido; Paul não se recordava de o ter visto assim.

— Bom, julgo que pretendem fazer jogo franco...

—O diabo é que farão jogo franco! — exclamou o Dr. Chapman. — Que disse Jonas a respeito do novo material?

— Abriu-se com franqueza, tanto sobre a nossa sondagem corrente como no que houve concernente ao inquérito dos celibatários. Pôs todas as cartas na mesa... talvez não todas, mas a maior parte.

— Ah, sim?

Paul traçou-lhe um resumo das objecções levantadas pelo Dr. Jonas, excepto a observação feita de que o Dr. Chapman era mais um político e um amante da publicidade do que um cientista em toda a sua pureza. Ao terminar o relato, reparou que o Dr. Chapman rolava o charuto, apagado, de um a outro canto da boca, com um ricto de intenso azedume.

— Julgo que não pôde ouvir as mentiras desse homem sem reagir.

— O debate foi de parada e resposta. O Dr. Jonas é um adversário de respeito, bate com força e com objectividade. Mas eu encaixei e contra-ataquei. Nunca concordou em que a razão está do nosso lado, mas pelo menos penso que ficou convencido de que somos sinceros.

— Na verdade é o melhor que se pode dizer de um sanguessuga como ele. Aliás, neste país, como em todos os países, existem Muitos homens degenerados como esse Jonas. Pessoas destituídas de poder criador e de dons de imaginação, lobos apenas, que


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ficam à espreita de poderem beber o sangue dos pioneiros como vampiros. São abutres prontos a caírem sobre o corpo dos pioneiros, dos cientistas de grandiosa visão que marcham à frente de toda a matilha de inúteis. Os homens como Victor Jonas nada edificam, só sabem destruir, precisam de destruir para garantirem a sua sobrevivência. Que tem feito esse Jonas durante a vida além de ser um parasita da ciência?

Paul não discordava do Dr. Chapman. O seu chefe definira com precisão certa espécie de cientistas, caluniadores que não faziam outra coisa senão aproveitarem-se do trabalho dos verdadeiros investigadores para uma demolição sistemática. Porém, não obstante todo o respeito que devotava à inteligência do seu mestre, bem no íntimo de si sentia que o Dr. Victor Jonas não pertencia à espécie em discussão. O Dr. Jonas não era um ser mesquinho e, além disso, não podia ser de forma nenhuma um oportunista — havia a clínica a inaugurar em breve em Santa Mónica. Aquela clínica em que lhe oferecera um lugar. Esteve quase tentado a falar do caso com o Dr. Chapman, como reforço à sua boa opinião a respeito do adversário, mas lembrou-se a tempo que Victor Jonas lhe pedira

segredo.

— O Dr. Jonas insiste em que o seu objectivo é o mesmo que

o nosso — disse Paul, evasivamente.

— Nunca ouvi blasfémia tão grande! — exclamou o Dr. Chapman. — Claro que você o rebateu nessas pretensões, hem?

— Não, não rebati. Não tinha qualquer motivo honesto para lhe poder chamar mentiroso. Suponho que há verdade naquilo que afirma... que temos objectivos comuns mas caminhos diferentes...

— Que espécie de senda construtiva pode ter semelhante pigmeu?

— Durante muitos anos foi conselheiro matrimonial de uma

entidade oficial.

— Paul, você endoideceu? Não vê que qualquer trabalho desse

tipo é meramente individual, microscópico? Nem mais nem menos

do que o infinito que separa o médico de um banco hospitalar de

uma grande cidade, lidando com todas as doenças numa escala

maciça, do médico de aldeia, a receitar tisanas aos seus doentes.

Relativamente a esse Victor Jonas, e a todos os conselheiros como

ele, o nosso trabalho é uma obra de titãs. Nós estamos a realizar um trabalho de auxílio a toda a gente, ao país, ao vasto mundo, e o nosso trabalho é produto de um sacrifício de uma grandeza ilimitada. Realizaremos coisas ainda mais importantes e espantosas se esse judas de meia-tigela não nos vibrar uma punhalada pelas costas.

O Dr. Chapman parou um momento para tomar fôlego, fitando Paul intensamente.

— Não me diga que ele o conseguiu convencer das suas ridí

culas ideias?

Paul soltou uma risada.

— Não. De modo nenhum. É uma pessoa cativante. Uma

personalidade insinuante, inteligente, decente e com extraordinári

as faculdades de exposição. Todavia, eu sei bem aquilo que quero,

aquilo em que acredito e defendo com todo o meu espírito. Nada do

que ouvi me conseguiu sequer fazer duvidar da razão que nos assiste.

O Dr. Chapman pareceu ficar aliviado, como se lhe tivesse tirado um pesado fardo de cima dos ombros.

— Então não foi em vão que sempre confiei no seu bom senso.

Lançou a ponta do charuto, reduzida a polpa, para o meio do

maciço de hibiscos e, tirando do bolso superior do casaco outro charuto, acendeu-o.

— É minha opinião pessoal de que mesmo não estando ao

lado dos anjos bons, o Dr. Jonas é um tipo correcto. Não podemos

ser irredutíveis.

O Dr. Chapman exalou uma enorme nuvem de fumo azulado.

— Na guerra como na guerra. Todos somos adversários de quem não partilha as nossas ideias. Temos que estar alerta contra todos os antagonistas. Quem não é por nós é contra nós. O cavalheirismo é uma palavra vã durante a guerra, ao mais ligeiro engano, o combatente que se descuida pode morrer. Quem não é por Deus é pelo Diabo.

— É possível... — o interesse de Paul pela discussão exauria-■se.

— Como é que lhe apresentou a nossa proposta? — inquiriu o Dr- Chapman.

— De modo directo. Com um homem como o Dr. Jonas é inútil


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jogar no escuro. Declarei-lhe que o senhor pensava que ele poderia ser útil ao nosso trabalho como consultor. Apresentei-lhe a sua proposta sem adornos escusados.

— Qual foi a resposta dele?

— Que se o senhor o pretendia comprar era impossível. Não'é pessoa que esteja à venda. Sim, foi assim mesmo.

O Dr. Chapman recostou-se no cadeirão de verga, a soprar ondas de fumo para o espaço. Pouco depois endireitou-se com brusquidão.

— Se bem compreendo, não estamos a tratar com um inimigo vulgar.

— Exactamente.

— Será impiedoso no relatório a apresentar a esse grupo discordante da Zollman.

— Sem a menor dúvida.

— Seja como for, não o posso entregar aos assassinos da Mão Negra, tenho que o enfrentar sozinho, rebatê-lo ponto por ponto — dominou a emoção que lhe vibrava na voz e acrescentou: — Sabe, vou derrubá-lo.

Paul sabia que era verdade.

— Tenho a certeza disso.

— Acabou-se. Faça-me um esquema completo da conversa que teve com esse Dr. Jonas, sem omitir as suas palavras de acerba crítica ao nosso inquérito. Preciso disso o mais breve possível. Comece já esta noite.

— É possível que não me recorde das palavras com toda a fidelidade...

— Não interessa. Fale de tudo aquilo de que se lembrar. A partir do momento em que terminámos as entrevistas em The Briars, havemos de concluir o nosso relatório em metade do tempo que estava previsto para o enviarmos ao conselho administrativo da Zollman antes da programada reunião. Redigirei então um documento pessoal a prever e refutar todas as objecções a apresentar pelo Dr. Jonas. Paul, afinal começo a pensar que a sua missão foi coroada de êxito, uma vez que se apercebeu perfeitamente dos métodos de ataque do inimigo. Já nem interessa sequer tentar conquistá-lo para a nossa causa.

Paul não sentiu qualquer satisfação por aquele elogio. Pelo contrário, havia em si um ressaibo de traição por detalhar os planos de combate do adversário... mas tinha que pensar que o inimigo do Dr. Chapman era também o seu inimigo...

— Na verdade—continuou o Dr. Chapman, complacentemente — serão muito melhores os resultados assim obtidos do que com o suborno do Dr. Jonas. Posso perfeitamente desacreditá-lo e demoli-lo perante a Zollman.

Levantou-se pesadamente.

—Agora, nenhuma força no mundo me poderá deter. Os meus agradecimentos pela sua colaboração fiel, Paul. Faça um trabalho limpo. Boa noite.

Paul permaneceu sentado, vendo o Dr. Chapman caminhar para a zona de luz como uma personagem fabulosa a avançar num palco sob baterias de holofotes. A sua figura distinguiu-se por momentos na crua claridade até desaparecer na escuridão do complexo do motel. A Paul afigurou-se que a afirmação de pureza científica do seu mestre, nesse momento, era muito pouco pura.
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7

Às oito e quarenta e cinco da manhã seguinte, quarta-feira — segundo dia de entrevistas em The Briars —, Paul Radford estava sentado à grande mesa da sala de conferências da Associação Feminina a fazer uma selecção de questionários.

Pela janela escancarada, podia distinguir o telhado da estação dos Correios, e, mais acima, uma nesga do céu plúmbeo, toldado de nuvens. Corria uma ligeira brisa vinda do mar.

Ouviu o ruído da porta a abrir-se e ergueu o olhar. Aguardava o Dr. Chapman e estava esperançado que fosse ele. Todavia, em vez da figura do cientista viu entrar Cass Miller.

— Viva! — disse alegremente Cass, dirigindo-se para o luga que lhe estava reservado. — Segundo o homem da bomba de gasolina, está um tempo propício a tremores de terra.

— Não se deve fazer caso dos falsos profetas — retorquiu Paul, olhando para a janela. — Há pouca humidade no ar para os terramotos.

— Como é que sabe isso?

— Durante a guerra passei aqui perto de um ano e nesse espaço de tempo houve dois tremores de terra. Nessas fases o ar tinha sempre um alto teor de humidade.

Cass começou a mexer nos seus papéis.

— Os tremores de terra foram violentos?

— Piores que dois copos de vodca pura. O primeiro deixou algumas coisas escaqueiradas. O segundo não passou de algumas oscilações e barulho, mas ruiu uma aldeia perto da fronteira mexicana.

— Sempre esse México — disse Cass, abanando a cabeça.

— A propósito, onde é que está o terceiro mosqueteiro?

— Horace? Ficou na cama. Doente. Mas não se preocupe que

não morrerá.

Cass pareceu ficar admirado.

— Julgava que os micróbios não entravam com ele.

— E não entraram. Acontece que ficou de ressaca. Bebeu mais do que a conta.

— Não acredito.

— Bem sei que é de admirar, mas corresponde à verdade. Despertei ontem à noite com o barulho de alguém a ir de encontro ao mobiliário. Era Horace. Exalava um cheiro mais violento do que uma destilaria. Despi-o e meti-o na cama. Vomitou duas vezes. Acabei por acalmá-lo a poder de sedativos. Esta manhã ainda tinha um ar descentrado, como um quadro de Picasso, de modo que o deixei ficar no quentinho.

— Que raio se terá passado com o nosso escuteiro para se empifar?

— Não faço a mais leve ideia. Só lhe peço que não fale da bebedeira ao Dr. Chapman.

— Não vale a pena fazer-me recomendações dessas.

Paul levantou-se e dirigiu-se para a janela, contemplando, lá em baixo, a rua solitária.

— Apesar de esta manhã ter procurado o Dr. Chapman, quan

do me levantei, ele já não estava no motel. Precisava de o avisar

para substituir Horace.

Impaciente, Paul encaminhou-se para a porta, abriu-a e espreitou para o corredor.

O Dr. Chapman estava debruçado para a secretária de Benita Selby, a consultar as fichas.

— Dr. Chapman...

O cientista levantou um dos braços e traçou no ar uma espécie de sinal cabalístico, com dois dedos. Nos documentários cinematográficos e na televisão, Paul já vira o papa a fazer aquele mesmo gesto para as multidões de fiéis.

— Bom dia, Paul. Trabalhou muito ontem à noite?

— A coisa vai em metade. Dr. Chapman, deve ter que substituir Horace. Ele ficou acamado, não se sente bem.
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—Alguma complicação? — perguntou o Dr. Chapman, com ar preocupado.

— Um princípio de gripe, segundo suponho.

— Chamou o médico?

— Não é caso para tanto. Mandei comprar uns comprimidos. Parece que existe um surto de gripe benigna na cidade. Amanhã creio que já lhe terá passado.

— Oxalá que sim. Bom... o melhor é preparar-me para o substituir— disse o Dr. Chapman, entrando apressadamente na sala de conferências.

Paul, que ficara para trás, olhou para Benita.

— Beleza, logo que tenha oportunidade, faça uma chamada para Horace. Diga-lhe que a senha para hoje é um vírus de gripe, e • que pode ficar descansado que não há novidade, o Dr. Chapman vai substituí-lo.

— Fique descansado—disse Benita, sorrindo. — Não é preciso dizer-me mais nada, lembre-se que o meu quarto é ao lado do vosso.

— Então sabe o que se passou.

— É uma coisa que não parece dele. Que mosca lhe teria mordido?

— Horace disse apenas que ia ao cinema, mas parece que o cinema ficava situado num bar... Eh, aí vêm as nossas raparigas. A postos!

Às dez e cinquenta, o Dr. Chapman já estava nos primeiros vinte minutos da sua segunda entrevista do dia. Com o cotovelo apoiado na mesinha e o queixo encostado à mão, continuava a fazer as suas perguntas num tom monótono e seco, registando as respostas com uma exactidão que tinha algo de automático. Regra geral, o Dr. Chapman apreciava imenso as entrevistas, que considerava acréscimos ao seu pecúlio de conhecimentos; mas naquela manhã tinha o espírito ocupado pelo pensamento no Dr. Victor Jonas e apenas metade do seu cérebro era receptivo àquilo que fazia; a outra metade estava já a traçar o documento que reduziria a pó o seu adversário.

Acabava de assinalar uma resposta para a linguagem sol-ró--sol e preparava-se para formular outra pergunta (a outra parte do seu cérebro desbravava caminhos no manifesto de refutação ao seu inimigo, com o deliberado programa de se lançar na ofensiva desde o início apoiado no lugar-comum de que não existe melhor defesa do que o ataque), quando a voz da mulher que se encontrava do outro lado do biombo o interrompeu.

— Posso fazer uma pergunta? — inquiriu Teresa Harnish, pois era ela a entrevistada.

— Pois com certeza. Se não compreendeu alguma coisa...

— Não, não se trata disso. Compreendi tudo perfeitamente. Posso perguntar se estou a ser entrevistada pelo próprio Dr. Chapman? Parece-me que lhe reconheci a voz...

— Sim, na verdade sou o Dr. Chapman.

— Sinto-me verdadeiramente feliz por isso. O meu marido e eu lemos as suas duas publicações dos primeiros inquéritos, e estamos impacientes por lermos o relatório desta sondagem. Apreciamos imenso a sua obra. Mais do que isso, veneramos o seu esforço científico. A minha necessidade de saber se estou a ser interrogada pelo Dr. George G. Chapman filia-se na mesma razão de que se, no princípio deste século, tivesse ido consultar um psicanalista, gostaria de saber se ele era o célebre Sigmund Freud. Espero que me compreenda.

Agora, o Dr. Chapman estava inteiramente atento àquela voz de pessoa inteligente e culta que partia do outro lado do biombo.

— É extremamente amável, minha senhora.

— Ora, para mim é um dia verdadeiramente memorável.

— Na verdade, muito amável e generosa senhora... — procurou o nome dela no cabeçalho do questionário — ...Harnish, mas a minha maneira de levar a efeito estas entrevistas não difere da colaboração dos meus assistentes.

— Desculpe, mas não posso estar de acordo. Tenho quase a certeza de que o senhor tem uma compreensão muito mais ampla dos problemas e trabalha com maior objectividade.

— Pelo menos esforço-me por isso como criador do programa.

As palavras daquela mulher lisonjeavam o Dr. Chapman. Na

verdade, devia ser uma mulher fora do vulgar. Examinou a ficha que


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tinha a seu lado. Tratava-se de Teresa Harnish, de trinta e seis anos, natural de Kansas City, educada na Universidade de Vassar e prosélita da Ciência Cristã. («Toda a realidade reside em Deus e na Sua criação eternamente harmoniosa. Deus edificou tudo o que existe e é bom tudo o que Ele criou. Logo, as chamadas realidades do pecado, doença e morte não passam de terríveis irrealidades que parecem reais aos olhos dos homens. São falsas crenças que se revelam em toda a sua fealdade logo que Deus as despe dos disfarces que utilizam para enganar a humanidade».— Parecia-lhe incrível que alguma vez pudesse ter lido a Sr.a Eddy e lembrou-se que o fizera pouco depois da morte de Lucy Wel...), mas frequentadora irregular dos serviços religiosos. Era casada em primeiras núpcias, há dez anos. O marido negociava em objectos de arte, era dono de uma galeria e, de vez em quando, a mulher prestava-lhe assistência durante períodos variáveis.

— Podemos continuar? — perguntou o Dr. Chapman.

— Sem dúvida.

— Voltemos à série de perguntas sobre relações sexuais nà fase pré-matrimonial. Disse-me ter tido relações sexuais1 antecasamento, aos vinte e seis anos? ■

— É verdade, Dr. Chapman. Para melhor precisão, tive essas relações com dois homens, se quiser incluir o meu marido como um dos meus parceiros. Aconteceu que, depois de termos ficado noivos, o casamento sofreu um atraso de um ano devido a circunstâncias puramente familiares. A mãe do meu marido adoeceu gravemente, e a sua doença consumiu tempo e dinheiro preciosos a Geoffrey. Mas claro que nós possuímos todo o senso de pessoas adultas e evoluídas, e a união sexual foi uma necessidade do nosso desejo e um sentido de conveniência mútua. Pouco depois de a mãe do meu marido ter falecido, vitimada pela doença que a minava, e de Geoffrey ter arranjado o dinheiro para abrir a sua galeria de arte, contraímos matrimónio em Kansas City. Se quer que lhe diga, o nosso casamento constituiu um dos maiores acontecimentos sociais da temporada, mas senti alguma dificuldade em continuar a afivelar a máscara de noivinha ingénua e sem mácula durante a semana que antecedeu o casamento. É que meus pais eram pessoas muito rígidas e tradicionais em assuntos de tal natureza. De-

seja agora saber pormenores sobre mim e meu marido antes de nos consorciarmos?

O Dr. Chapman premiu os lábios com dois dedos, um gesto que nele assinalava preocupação. Na verdade, aquela Sr.ã Harnish mostrava-se demasiado prolixa, despreocupada e sabedora. Devido à sua longa experiência de tais assuntos, sabia que a franqueza feminina devia ser encarada automaticamente com circunspecção e um certo grau de desconfiança. A franqueza não era natural em circunstâncias daquelas, sabia-o muito bem. Constituía um disfarce rápido e defensivo que costumava enganar os leigos.

— A senhora mencionou dois companheiros de prática sexual pré-conjugal. Falemos, pois, do primeiro.

— Prefiro que essa aventura continue coberta pelo seu denso véu de mistério.

— Está realmente resolvida ao secretismo?

— Claro que não, Dr. Chapman. Estava simplesmente a brincar. Acabara o meu curso em Vassar e pensava em ingressar no teatro... como cenógrafa, evidentemente. Porém, considerava, no íntimo, a Broadway ultrapassada. Os seus teatros eram simplesmente horrorosos, as possibilidades de um trabalho moderno e arejado mínimas, os seus elencos arcaicos, as peças levadas à cena absolutamente desinteressantes, medíocres, e a sua gente miseravelmente afectada naqueles banhos maciços de elogios mútuos... Bem, foi nesse período melindroso que conheci um poeta, um homem bastante mais velho que eu. Tinha livros publicados e conhecia toda a gente. Senti-me impressionada, a Greenwich Village era então uma deliciosa novidade para mim, e cheguei a pensar casar-me com o meu poeta e abrir uma galeria de arte. Foi devido a isso que não me opus a fazer amor com o poeta.

— Não se opôs?

— Claro que também o desejava. Queria dizer que fizemos amor por consentimento mútuo — atalhou Teresa, com rapidez, dando um novo sentido à história.

— Em média, quantas vezes por semana tinha... relações com ele?

— Uma vez por semana, durante dois meses.

— Em que local?


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— No quarto do poeta. Nessa altura considerava tais coisas muito românticas.

— Obtinha prazer nessas relações?

Estabeleceu-se um brevíssimo silêncio, e, finalmente, a voz de Teresa voltou a fazer-se ouvir do outro lado:

— Creio que não. O homem estava sempre etilizado e o acto

em si não era completamente satisfatório. Acabei por abandonar o

poeta ao saber que nunca tomava banho e que os livros publicados

não passavam de edições do autor.

Prosseguindo a entrevista, o Dr. Chapman resolveu abreviar as perguntas, a fim de poupar tempo, porque as respostas dela estavam a prolongar-se demasiado. Para não ultrapassar o horário estabelecido, o cientista deixou de desdobrar as séries de perguntas. Não era invulgar tal caso para a experiência do Dr. Chapman, havia grande número de mulheres habitualmente retraídas que se tomavam loquazes durante as entrevistas. Em regra, isso constituía uma defesa contra hábitos ancestrais adquiridos, uma espécie de disfarce para encobrir o embaraço e timidez naturais.

Das perguntas e respostas sobre as relações sexuais pré-con-jugais, passou-se ao questionário referente à cópula matrimonial. Nessa altura as respostas da Sr.a Harnish tomaram-se mais elaboradas, mais cautelosas e, passo a passo, mais concisas. A entrevistada ainda oferecia o seu corpo ao marido duas vezes por semana. As carícias pré-coito duravam cerca de um a dois minutos. Como na maior parte dos casos, a ligação estabelecia-se de lado e, felizmente para a Sr.s Harnish, o orgasmo do marido processava--se no espaço de três minutos, aproximadamente, após a introdução. A Sr.1 Harnish insistiu no prazer sentido com o marido, muito embora o Dr. Chapman, nas entrelinhas, compreendesse que ela apenas o suportava.

— Minha senhora, durante o coito encontra-se completamente

desnudada ou vestida parcialmente?

—Se quer que lhe diga, completamente nus é que não estamos.

— Está nua ou parcialmente vestida? — insistiu o Dr. Chapman, tentando dar ao tom de voz uma certa aspereza.

— Costumo deitar-me em camisa de dormir.

— Tira-a para copular?

— Não.


— Quer então dizer que se mantém parcialmente vestida.

Foi aquilo mesmo que o cientista inscreveu na respectiva colu

na do sol-ré-sol, prosseguindo:

— Em que período do dia costumam ter relações sexuais, de manhã, à tarde, ao anoitecer, durante a noite?

— Geralmente à hora em que nos deitamos.

— A que horas?

— Depois das dez, pouco mais ou menos.

A resposta foi anotada. À medida que continuava, o Dr. Chapman ia verificando que a Sr.a Hamnish baixava gradualmente o tom de voz. Acentuava-se um certo gaguejar, uma hesitação que no princípio não tinha ocorrido, e as respostas tornavam-se brevíssimas.

Entraram então no mundo da cópula extraconjugal, coisa completamente arredada das acções da Sr.8 Harnish.

— Este caso conduz-nos à última série de perguntas a formular. Se nunca teve relações sexuais fora do casamento, sente-se capaz de as ter no futuro? Peço-lhe o favor de responder apenas sim ou não.

— Não.

O Dr. Chapman fixou o biombo, como se o quisesse trespassar com o olhar. A sua atitude era agora a de um caçador profissional das grandes savanas da África. Farejava a enorme distância, sentia o perigo imanente a tocar-lhe a espinha. Era um instinto seguro, desenvolvido em mi! safaris daquela espécie.



Fez a pergunta de modo mais capcioso.

— Julga não poder vir a ser infiel a seu marido? Nunca pensou no caso... ou já pensou?

— Afirmei-lhe há pouco que não, Dr. Chapman.

— Durante as carícias que antecedem a cópula, e mesmo durante esta, nunca desejou que o seu marido fosse outro homem? Isto é, um homem específico que conheça ou tivesse conhecido... ou mesmo, muito simplesmente, um homem qualquer idealizado por si?

— Não. Nunca tive desejos nem devaneios desses.

Não obstante aquele acento de sinceridade, os arbustos da densa mata, ao longe, continuavam a emitir um ténue ruído, quase


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imperceptível ao ouvido humano, como o deslizar da peça de caça,

agora também atenta a uma presença hostil. Mas o Dr. Chapman

acabou por desengatilhar a arma. Travou a patiiha de segurança. O

excessivo vigor das respostas podia ser considerado por dois ângu

los diferentes: ou como evidente repugnância ou como autodefesa;

puro estratagema. Pesou as probabilidades, voltando a ler atenta

mente o curriculum vitae de Teresa Harnish. Finalmente, num jul

gamento que não era isento de certo sentido de lisonja, acabou por

concluir que aquela mulher era bem dotada, inteligente e sabedora

daquilo que queria e daquilo que fazia. Naturalmente que se

conservaria fiel ao seu contrato matrimonial. ^

— Muito bem, Sr.ã Harnish. Prossigamos. ^

Ao dirigir-se no seu descapotável para o abrigo de Constable, Teresa Harnish sabia muito bem que não era propriamente um dia favorável para se ir à praia. As nuvens sombrias pareciam quase rasar as cristas das agitadas ondas, e o rude vento que soprava do mar açoitava como um chicote. A comprida linha da auto-estrada, à sua frente, e a costa rochosa à sua direita mostravam-se desoladoras, vastidão solitária e erma. Aqueles eram os pântanos, numa noite, sem lua, varridos pela tempestade, e ela estava a fazer a viagem de Wuthering Heights paraThrushcross Grange. «Conheço-te muito bem, Ellis Bell, porque esta manhã estou dentro da tua pele; tu e eu somos uma e a mesma pessoa».

A entrevista devia ter sido uma extraordinária conversa, sobretudo sabendo que era o próprio Dr. Chapman o entrevistador. Mas naquele momento já se manifestava muito menos interessada sobre o que se podia ou não considerar como uma conversação modelo a respeito de sexo. Até mesmo o pensamento no seu maravilhoso fato de fantasia, para a preciosa festa, em que cada mulher se apresentaria como aquilo que desejaria ter sido durante a sondagem sexual, não lhe produzia qualquer excitação. Fizera os convites pelo telefone, metade das pessoas da lista já haviam sido convidadas e fizera tenções de avisar o resto durante a tarde, depois da sua entrevista. Mas eis que já era meio-dia, e ela dirigia-se com toda a urgência para a praia. Porquê? Preciso de reflectir. A

respeito de quê? Não sei. Em que coisas costumas pensar com mais frequência, será na personalidade de Ellis Bell?

Em dez minutos encontrou-se parada na esplanada rochosa que antecedia a praia. Depois da entrevista passara por sua casa para envergar os seus shorts tipo bermuda, que acabara por trocar por uns calções de ténis, usados durante as suas férias em Balboa no ano transacto. Envergara também o seu casaco de bombazina, e mal tivera tempo para agarrar no cobertor e num livro.

Abriu caminho pela senda entre a falésia até ao abrigo de Constable. Lá chegada, desdobrou o cobertor em cima da dura areia e sentou-se. Estava frio e ficou satisfeita por se ter lembrado do casaco de bombazina. Ainda não tinha observado as redondezas, e agora que o fazia não se sentiu surpreendida por ver os quatro jovens, formando pares, a disputarem uma espécie de jogo atlético, em que se placavam ferozmente mal um deles tinha a bola oval na mão.

Manteve o livro aberto em cima do regaço durante intermináveis minutos sem sequer olhar para o título (desconhecia em absoluto o exemplar em que agarrara), concentrada na observação daquele jogo titânico, onde a habilidade deles se revelava... ou antes, a habilidade dele. Vieram-lhe à memória aquelas irreverentes perguntas do Dr. Chapman sobre as carícias preparatórias. Como é que um homem da estatura mental do Dr. Chapman perdia tempo com coisas tão pouco interessantes? Mas seriam assim desinteressantes? Talvez que o sexólogo tivesse afinal toda a razão. O caso, inexplicavelmente, acabou por entristecê-la.

Voltou a observar os quatro desportistas. Afinal ele era mais alto do que pensara, talvez fosse efeito de o ver agora sem aqueles indecentes calções curtos que trocara por umas calças de treino, de flanela, quase iguais às que vira utilizar pelos cadetes de West point quando em tempos assistira a uma reunião de atletismo na célebre Academia Militar. O jovem bárbaro estava nu da cintura Para cima, e, na verdade, era majestoso no seu bem musculado torso.

Aguardou pacientemente, até que, por funções daquele treino em correrias, os jovens atletas se foram aproximando do local onde estava. E, como da primeira vez, o tal distinguiu-se numa feroz


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O Relatório Chapman 273

correria, quase na sua direcção, esperando apanhar a bola oval que

um dos seus camaradas arremessara para o ar com um potente

pontapé. Teresa compreendeu imediatamente que a trajectória des

crita pela bola era mais rápida que a corrida do homem, e que o

objecto tinha alvo marcado para o abrigo de Constable. Teresa as-

sustou-se à vista do iminente impacto, não só da bola como do

homem que corria sem olhar para mais nada, com os olhos posta

dos no ar. Cobriu a cabeça com os braços e fechou os olhos numa

instintiva reacção de medo. Pouco depois ouviu o ruído abafado da

bola a bater na areia e compreendeu que ainda estava intacta. Abriu

os olhos. íf

O gigante estava debruçado para ela, sorrindo constrangido.^

— Desculpe, minha senhora.

Aquele minha senhora fê-la sentir-se vergonhosamente velha, e acabou por endireitar-se, de peito bem esticado para a frente. O homem tinha uma cara jovem e arrapazada, mas já não era nenhum adolescente. Aquela cara quadrada com a barba por fazer tinha um característico cunho eslávico. Olhando-o, calculou que devia ter cerca de um metro e noventa e cinco de altura. • t A voz do gigante fez-se ouvir de novo: r — Para a próxima vez terei mais cuidado, fique descansada.

— Oh, não tem importância — balbuciou Teresa, sem que lhe

tivesse ocorrido nada de mais inteligente e profundo para dizer. »y

Por fim acrescentou: x>

— Pode ter a certeza que não me assustei. y>

O atleta encaminhou-se para o sítio onde a bola se imobilizam

e levantou-a do chão apenas com uma das mãos, uma espécie de

pá gigantesca. Depois voltou-se ligeiramente. . te

— As minhas desculpas.

— Está desculpado, e não se preocupe mais com o caso. Gosto imenso de os ver jogar. É futebol?

— Bem, estamos apenas a fazer treino com a bola para nos mantermos em boa forma física. A senhora não sente frio? — perguntou, olhando despreocupadamente as pernas dela. c<>

— Um bocadinho. Pensei que o sol acabasse por romper.

— Hoje o dia manter-se-á encoberto. *.B

O magnífico eslavo fez um gesto de bater em retirada, masc©

desespero dela levou-a a gaguejar a nova pergunta para o reter:

— É... realmente um jogador de futebol... isto é... joga profissionalmente?

— Sim, sou jogador da equipa do Rams, muito embora só alinhe nas reservas. Este ano, porém, espero ter mais sorte e ingressar na equipa principal.

— Oxalá que os seus desejos se concretizem. Como é que se chama?
— Ed Krasowski. Teresa Harnish sorriu-lhe.

— Não me esquecerei do seu nome.

Tinha vontade de lhe declarar a identidade dela, mas o desportista não lho perguntou.

— Bom... adeus minha senhora.

Krasowski afastava-se bamboleante, com as massas musculares dos ombros a trepidarem a cada passo. Acabou por lançar a bola para junto dos companheiros e desatou a correr na direcção deles. Volvido um momento, Teresa viu os outros três olharem na direcção do Abrigo de Constable e rirem-se. Ed devia ter-lhes dito qualquer gracinha.

Teresa manteve-se tensa, a observar atentamente. Ed recomeçou as suas correrias e as placagens, juntamente com os companheiros. Depois de decorrido um certo espaço de tempo, pareceram ter-se satisfeito com o treino e retiraram-se.

Teresa levantou-se para regressar a casa e só então reparou que tinha a pele arrepiada de frio. Aconchegou-se bem dentro do casaco de bombazina.

Naomi Shields olhou com atenção para o grande relógio de pêndulo. Era engraçado ver o pequeno pulo que o ponteiro grande dava todos os sessenta segundos. Eram precisamente onze minutos para as seis. Naomi começava de novo a entrar no estado de espírito anterior. Voltava a sentir-se alegre e inteiramente despreocupada.

Comparecera à programada entrevista vestindo a sua camisola branca, que lhe revelava inteiramente as formas do busto (muito
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embora tivesse ficado decepcionada, porque, além daquela florzinha de estufa do corredor, não havia mais ninguém para a apreciar) e a saia preta, curta e justinha; fortificara-se com quatro uísques puros, preparada, assim, para demonstrar que não era muito diferente de qualquer outra mulher de The Briars.

Aquele estúpido biombo constituíra para ela, de imediato, um factor de perturbação. Dentro do seu estado de espírito de exibicionismo sedutor, verdadeira ninfomania, tinha desejado ser abertamente admirada e poder observar a figura do seu entrevistador. Esperara poder reduzir o homem que lhe ia falar de sexo a um mero suplicante. Talvez que o seu entrevistador fosse um homem jovem e simpático, e Naomi ficou ainda mais inquieta quando ouviu a voz varonil e bem timbrada de Paul Radford, uma voz perturbantemente, sexual e prometedora de delícias.

A reacção às primeiras perguntas demolira o seu estado de espírito. Ficara ressentida. Não lhe agradava confessar que já tinha trinta e um anos e que fora educada no mais rígido catolicismo, contra o qual se rebelara. Também lhe desagradava ter que declarar que não conseguira terminar o curso liceal. Pior ainda do que isso, haviam sido todas aquelas perguntas, a seguir, sobre os seus anos infantis e adolescentes, com todos aqueles terríveis pormenores vergonhosos e detestáveis. Quando lia (ou quando lera) biografias, costumava deliberadamente evitar os primeiros capítulos que recordavam a infância. Nesse momento, felizmente, os seus primeiros anos de vida já tinham ficado para trás e a voz do outro lado do biombo anunciara-lhe que iriam agora embrenhar-se no coito pré--conjugal. Porquê chamar àquilo coito depois de todas as conversas pomposas sobre absoluta sinceridade, franqueza e discrição absoluta durante a conferência preparatória? Porque não chamar as coisas pelo seu nome mais simples? A simplicidade atrai simplicidade, e poderia então falar sem inibições. Deus do Céu, a cabeça andava-lhe à roda. Seria do uísque?

Deu fé que lhe pendia dos lábios um cigarro que ainda não conseguira acender. Procurou os fósforos nervosamente, ao mesmo tempo que aquela voz quente falava do outro lado do biombo. Acendeu o cigarro, tossiu à primeira fumaça e atirou o fósforo, agora inútil, para o chão. Semicerrou os olhos e tentou prestar

toda a sua atenção ao que lhe diziam.

—... do período da puberdade até ao casamento. Antes de contrair matrimónio teve relações sexuais?

— Pois claro.

— Quantos homens tiveram relações sexuais consigo? Trace uma média. Entre dois e dez, entre onze e vinte e cinco, ou mais?

— Mais.

— Bem. Agora é capaz de se lembrar do número exacto?



— É muito difícil.

— Talvez a possa auxiliar. Após a puberdade, em que idade começou a ter relações sexuais?

— Aos treze... não, aos catorze... Exactamente aos catorze anos

— E antes de contrair matrimónio, qual foi a última vez em que praticou o coito?

— Uma semana antes do casamento.

Recordava-se agora do facto com nitidez. Resolvera ir comprar uns sapatinhos de setim para condizerem com o vestido de noiva. O empregado da sapataria, com aquele queixo prógnata, recusara--se a retirar a mão das coxas dela... Tinha também que dar essa explicação? Acrescentou, como quem se desculpa:

— Fui quase forçada a ter essas relações com outro homem. Meu marido não quis nada comigo antes de legalizarmos a nossa união.

— Nessa altura tinha vinte e cinco anos, não é verdade?

— Sim, pouco mais ou menos.

— Ora, pelas nossas contas, prova-se que houve onze anos de contactos anteriores ao casamento e...

— Tive relações sexuais com cerca de cinquenta homens — declarou ela subitamente.

— Como?


— Tive cerca de cinquenta homens. A maior parte deles antes dos vinte e um anos — Naomi sorriu imaginando a cara que ele estava a fazer do outro lado do biombo, e começou a emitir pequenas argolas de fumo, sentindo uma pontinha de superioridade.

Estabeleceu-se um silêncio momentâneo. Pouco depois a voz de Paul Radford ouviu-se de novo:


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— Tenho que fazer esta pergunta, por muito que me custe. Nessas relações... a senhora aceitava... certos favores?

— Não percebo nada do que está a dizer.

— Bem... algumas dádivas, dinheiro...

— Eh, cavalheiro, um momento, por favor! Estará a querer insinuar que sou alguma prostituta?

— Não estou a insinuar coisíssima nenhuma. Estou apenas a fazer uma pergunta relativa à entrevista.

— Bem, assim fico mais descansada. Então aponte isto no seu livro de notas, sem omitir a mais pequena vírgula. Nunca ninguém me pôs as calças em cima a não ser que eu estivesse disposta a isso. As minhas relações sexuais foram sempre por gosto, está a compreender? Estive na cama com esses homens porque queria, e nunca existiu qualquer outro motivo de interesse, ouviu?

— Claro, claro... Peço desculpa, mas de modo nenhum quero que me interprete mal.

— Está desculpado, mas faça também um esforço para não interpretar mal as outras criaturas.

— Vamos continuar?

Naomi ainda se sentia zangada. Lançou um olhar àquele maldito biombo. O descaramento do homem, hem!? Voltava-lhe a sensação de tontura.

Mas a voz inexorável, após o seu consentimento em prosseguir a entrevista, continuava:

— Onde é que costumava ter essas relações sexuais?

— Ora, por todo o lado que conviesse. Quem é que se lembra de ter que escolher sítios determinados?

— Mas, mais frequentemente, qual era o local onde costumava praticar o coito?

— Em minha casa. Sou independente há muitos anos.

— Conseguiu atingir plena satisfação com a cópula em qualquer dessas ocasiões?

— Que lhe parece?

Quanto a Paul, a opinião era negativa, mas a pergunta dela manifestava uma afirmativa. Naomi contestou ainda que os seus dotes sexuais eram capazes de empolgar qualquer homem que estivesse vivo e são.

Depois de mais algumas perguntas daquela série, Paul disse que iriam agora passar a falar sobre o coito conjugal.

Trémula, Naomi acendeu outro cigarro, na ponta do que estava a consumir, e aguardou.

— Matrimoniou-se uma única vez, não é verdade?

— Graças a Deus.

— Durante quantos anos viveu com seu marido?

— Seis.


— É divorciada?

— Há quase três anos.

— Desde então já voltou a ter quaisquer relações com o seu ex-marido?

— Não. Nunca mais lhe pus a vista em cima.

Paul começou a sondar a vida dela na companhia do marido, detectando a ironia e hostilidade que havia em todas as respostas que obtinha.

A certa altura, após ter feito uma observação menospreziva ao marido, ela pareceu lamentar o facto e emendou com nervosismo:

— Não quero que interprete mal o que estou a dizer — frisou,

Iembrando-se dos bons momentos passados e odiando-se por ser

implacável e tentar macular as melhores recordações da sua vida.

— Meu marido era um homem de bons sentimentos, doce e

carinhoso. Nunca foi tão mau como eu o pintei. Tivemos momentos

maravilhosos.

Gradualmente, o bom humor voltou a imperar em Naomi, enquanto Paul continuava a pesquisar a sua vida de casada. Na altura em que chegaram às relações fora do matrimónio, estava Naomi no melhor da sua forma. A tontura desaparecera, e começava a sentir--se à vontade, com excepção da falta que lhe fazia uma bebida.

— A senhora foi casada durante seis anos. Muito bem, durante esse tempo manteve relações extraconjugais com outros homens, relações que não fossem além de coquetismo e carícias?

— A maior parte das mulheres procede assim. Ora eu não sou diferente das outras.

— Pode contar como as coisas se passavam?

Naomi relatou casos, lascivamente.

Logo a seguir Paul inquiriu sobre as relações mantidas por ela.


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— A senhora, além do seu marido, tinha relações com outros

homens? Relações sexuais?

Fora aquilo precisamente o principiar das perturbações.

— Escute — disse ela, subitamente —, é possível que possamos poupar tempo nesse aspecto. Vou contar-lhe tudo e depois acabaremos com isto. Meu marido era um tipo verdadeiramente fora de série, e digo isto sinceramente, mas o caso é que não conseguia satisfazer-me. Por isso não consegui ser feliz e talvez nunca o venha a ser. Não há dúvida que lhe quis ser fiel, tentei ser fiel com todas as minhas forças... Mas o senhor não é mulher, o senhor não pode saber o que é desejar-se amor e não o ter, pelo menos não se ter aquilo que se deseja. Fui obrigada a enganá-lo. O caso não sucedeu durante o primeiro ano de casada, mas depois comecei a estar nervosa e a sentir cio como uma gata, tive medo de me dar alguma coisa. Sabia que tinha que proceder como procedi, agia porém com todas as precauções. Não queria macular, perder aquilo que nos pertencia. De verdade que ambicionava o meu marido, mas também sentia necessidade de ter mais alguém... Está a compreender?

— Penso que sim.

— Procedia com discrição, la para a cidade e tentava contactar com algum homem nos cinemas e bares que frequentava, ou ia fazer compras a qualquer localidade vizinha. Sei que vocês gostam de estatísticas, por isso tentarei fornecer-lhes algumas. Após o primeiro ano de casada, em que não houve nada, nos outros cinco anos tive um homem todos... não, ó melhor rectificar e contar as coisas exactamente... nos primeiros anos subsequentes tive um homem uma vez por mês.

— la com o mesmo homem ou com homens diferentes?

— Diferentes, é claro. Sempre um homem diferente. Os tipos nem chegavam a saber o meu nome. Não me podia arriscar a ser descoberta. Mas as coisas foram piorando. A certa altura não pensava em mais nada, julguei que enlouqueceria. Comecei então a ter relações duas a três vezes por mês e, finalmente, uma vez por semana. Em determinada ocasião, a mulher de um casal nosso conhecido viu-me noutra cidade com um homem. Fiquei cheia de terror de ser apanhada... Como principiei a sair com frequência,

meu marido começou a suspeitar... não, estou a faltar à verdade, meu marido confiava plenamente em mim, mas começou a sentir uma certa curiosidade. Devido a isso, durante algum tempo não me arrisquei, procurei não sair. Acontece simplesmente que me era impossível ficar ali, em casa, sozinha, à espera do meu querido. A cabeça quase me estalava de desespero. Por fim, desatei a meter--me com desconhecidos mesmo das vizinhanças. Claro que não foi nada fácil tomar semelhante atitude, que acabou por me fazer notada. Pouco depois conheci um estudante, não era exactamente um cândido adolescente, já tinha mais de vinte anos... Sempre que me cruzava com o moço notava o olhar de desejo que me deitava. Sobretudo não tirava os olhos do meu peito. Simpatizei um bocado com o pequeno, parecia-me suficientemente viril. Imaginei então que seria ideal que pudesse confiar nele e tê-lo sempre à mão quando tivesse vontade; era possível que fosse um modo de resolver os meus problemas sem escândalo. Certa noite em que meu marido tinha ido fazer serão — ele tinha uma ocupação qualquer fora das horas em que leccionava na universidade —, resolvi convidar o jovem para vir a minha casa. Claro que lhe fiz o convite de tarde. Muito bem, meu marido saiu por volta das sete horas, o rapaz apareceu pouco depois; estivera de atalaia na rua. Recordo-me bem que tinha sido um dos meus piores dias, estava verdadeiramente alucinada, não podia esperar. Quando o moço entrou, disse-lhe que não estava nada interessada em conversas nem beijinhos, e só queria que visse a cara do pobre rapaz. Como ele manifestou receio de ter relações sexuais comigo dentro de casa, levei-o para o pátio das traseiras, onde existia um pequeno relvado, e estendemo-nos naquele tapete verde. Foi uma coisa louca e maravilhosa. O pequeno era um verdadeiro encanto. O nosso orgasmo foi simultâneo e depois ficámos ali, a repousar, nos braços um do outro, como dois animais saciados. De repente, alguém acendeu as luzes do alpendre. Era o meu marido. O estudante fugiu a sete pés... fiquei sozinha para enfrentara tempestade. Desejei que meu marido me batesse, me matasse até, sentia-me profundamente envergonhada Por enganar um homem daqueles... Ora, foi a parte mais triste de toda a questão, ele não se mexia, apenas as lágrimas lhe deslizavam pelo rosto em catadupa. Provoquei-o para que me matasse,
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falei-lhe de todos os outros, mas as suas lágrimas eram a única reacção. Pouco depois, saiu de casa sem uma palavra e nunca mais nos vimos. Eu não podia continuar naquela casa, vim para a Califórnia e pedi o divórcio. Meu pai vive aqui próximo, mas a minha madrasta é uma megera e não a podia suportar. Como herdei algum dinheiro por morte de minha mãe, resolvi comprar uma vivenda em The Briars. Comecei a sonhar que poderia conhecer aqui um homem decente. Ora, conheci muitos homens decentes, mas todos casados. Está agora interessado no meu cadastro destes três últimos anos? Bem, tenho tido relações cerca de duas vezes por semana e sempre com ajuda do álcool. Não pode imaginar como as bebidas ajudam a afastar a angústia, isto é, se uma pessoa carregar bastante nos copos. Seja como for... — parou por momentos para retomar fôlego.

Fixou o biombo, pensando no que o homem estaria a pensar dela.

— Não me interessa o que pensa de mim. Vocês querem a verdade. Não me sinto envergonhada. Somos todos diferentes uns dos outros. É possível que esteja a imaginar que eu sou um velho frasco. Pois bem, posso dizer-lhe que não sou. Afaste este estúpido biombo e poderá ver com os seus olhos. Os homens julgam que sabem tudo sobre as mulheres, mas não é verdade. Seja como for, as relações sexuais reflectem saúde quando são naturais... e para mim são perfeitamente naturais. Evidentemente... — parou de novo, decidindo que queria que o entrevistador ficasse com uma boa opinião dela. — Julgo que, para a vossa obra, gostariam de me saber regenerada. Posso pois dizer-lhe que há três semanas que não tenho um homem. Pode crer que é verdade. Também lhe digo: não é assim tão difícil como se imagina. É como deixar de fumar. Certa ocasião estive um mês sem fumar. Claro que se sofre um bocado, mas se uma pessoa persistir pode chegar a um fim positivo. Acredita naquilo que lhe estou a dizer, não é verdade?

— Sim, acredito — disse Paul, numa voz que mal se ouvia.

— Vou arranjar emprego. Consegui vencer a crise. Tenho uma entrevista marcada logo que sair daqui. O trabalho manter-me-á ocupada até voltar a casar-me. Se puder encontrar o homem talhado para mim e decente, tudo correrá pelo melhor, tenho a certeza.

— Desejo sinceramente que assim seja.

Naomi encostou-se ao espaldar da cadeira e fechou os olhos. Pouco depois abriu-os. Sentia-se melhor.

— Bem, tem que admitir que excedi em muito a média de

licenciosidade de The Briars... Mais algumas perguntas?

Quando Naomi abandonou o edifício da Associação ainda era dia. O seu estado de espírito depois da entrevista permanecia numa excitação pouco habitual. A experiência havia sido curiosamente estimulante e, de modo para ela incompreensível, tinha sancionado a sua conduta anterior. O celibato e a continência afiguravam-se--Lhe virtudes de pouca monta.

Ao chegar ao poste de paragem de trânsito do cruzamento da avenida, voltando para oeste, Naomi teve a certeza de que não iria ao encontro que combinara com Kathieen Ballard, marcado para as oito horas. Ao meio-dia, cheia de determinação, telefonara a Kathieen e, após o habitual falatório acerca de amigos comuns e de lhe ter contado uma anedota que corria sobre o Dr. Chapman, pedira-lhe para se encontrar com ela. Francamente, Naomi dissera-lhe que precisava que lhe fizesse um favor... se é que ainda estava com boas relações com J. Ronald Metzgar, da Radcone. Kathieen res-pondera-lhe que as suas relações com ele continuavam a ser excelentes e que esperava poder ser-lhe útil. Finalmente tinham combinado encontrar-se em casa de Kathieen logo a seguir ao jantar.
No seu caminho, Naomi fez uma breve paragem. Encostou o carro na placa de estacionamento junto ao Hospital para Animais do Dr. Schultz e pediu ao empregado de serviço para lhe entregar Coronel, o seu cockerSpaniel, um cão já com cinco anos de idade. Naomi adquirira Corone ainda cachorrinho, porque era o único cocker que conhecia que não exibia um olhar melancólico. Alguns meses antes entregara-o ao cuidado do Hospital para Animais, porque se lhe tornara um trabalho demasiado fatigante dar-lhe de comer, limpá--lo e levá-lo a passear. Mas naquele dia, queria tê-lo em casa, junto °e si. Enquanto o empregado se deslocou para ir buscar o cão, Naomi preencheu um cheque. Quando o cachorro apareceu, agi-ar|do a cauda em movimentos incontroláveis ao avistá-la, Naomi

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sentiu-se envergonhada por tê-lo abandonado durante tanto tempo.

Com Coronel bem aconchegado a seu lado, lambendo-lhe agradecidamente a mão que tinha livre do volante, Naomi guiou apressadamente para casa. Meteu o carro na garagem e depois levou o cão para o interior da residência, enchendo-lhe um pratinho com leite. Deixando o coc cer ocupado a lamber o leite, entrou na casa de banho para retocar a pintura. Ao voltar à cozinha deitou uma dose dupla de scotch num copo e, sem se preocupar em misturar gelo, engoliu a bebida de um trago, ao mesmo tempo que fazia uma careta. Imediatamente uma nova vida lhe circulou pelas veias, feita de frenesim.

Procurou a trela encarnada de Coronel, engatou-a na argola da coleira e encaminhou-se para a porta da frente.

— Vou levar-te a passear, meu bonequito.

Entretanto f izera-se noite. Os candeeiros já estavam acesos. Enrolando a trela em volta da mão, conteve a natural impaciência do animal enquanto atravessavam o espaço relvado que conduzia à rua. The Briars não tinha passeios, não obstante as petições anuais feitas às autoridades peios habitantes que tinham crianças. Naomi dobrou a esquina da casa vizinha e continuou o caminho ao longo do quarteirão.

Ao aproximar-se da quinta residência daquele bloco, a residência Agajaniana, retardou o passo. O plano que concebera durante a última parte da entrevista fora o de dar uma volta até perto da residência Agajaniana de maneira a que Wash Dillon, quer estivesse cá fora ou no interior, a pudesse ver para marcarem um encontro. Se ele não estivesse visível, faria meia volta e tocaria à campainha. Se fosse Wash a vir à porta dir-lhe-ia que queria vê-lo depois de jantar. Wash compreenderia o que desejava e arranjaria maneira de comparecer. Se fosse a senhora Dillon ou algum dos outros membros da família quem atendesse, diria que era uma vizinha e que desejava que o senhor Dillon lhe fosse avaliar uma colecção de discos que comprara condicionalmente.

Naomi chegara nesse momento em frente da casa pintada de branco, em estilo colonial. Por detrás dos ramos de um renque de vidoeiros pôde ver que as luzes estavam acesas, sinal de haver gente em casa. Olhou para o relvado em frente. Não havia ninguém.

Com receio de ser vista, continuou o seu passeio. À esquina, junto da estrada, ouviu o som de uma bola de couro a bater no asfalto do caminho. As luzes da garagem iluminavam um rapazito magro que simulava uns passes de basquetebol, tentando enfiar a bola no arco de fero pregado no cimo da porta.

Era o filho de Wash Dillon. Naomi lembrava-se dele, recordava--se que o seu nome era Johnny. Por momentos tentou pensar no que podia fazer, mas agora já não tinha escolha possível. Só sabia que tinha que ver Wash nessa mesma noite.

— Johnny —chamou.

O miúdo voltou-se com ar surpreendido.

— Sou a senhora Shields.

Johnny, curiosamente, avançou para ela e logo a reconheceu.

— Oh, olá.

— O teu pai está em casa?

— Não. Deixou-nos a noite passada.

— O que é que queres dizer com isso?

— Levou todas as coisas que lhe pertenciam. Discutiu com a mamã e bateu-lhe. Penso que não voltará.

— Para onde é que foi?

_ Não sei. Claro que ainda deve estar nas Jorrocks' Jollities.

IÉ o clube nocturno do senhor Agajanian.

— Eu sei... Bem, lamento muito, Johnny.

— Não tem importância. De qualquer modo, ele nunca estava (em casa. Ena... a senhora tem um cão muito bonito.

— É bonito, sim. Boa noite, Johnny.

— Boa noite, Miss.

Não devia insistir. Naomi puxou a trela de Coronele regressou

a casa.


De novo na cozinha, tirou o casaco, arremessando-o para cima de uma cadeira, e abriu o armário. Ainda havia ali três latas de rações para cães. Abriu uma, despejou o conteúdo num prato covo, atraiu Coronel para a porta de serviço e deixou-o a comer na varanda, fechando a porta interior da cozinha. O cão tinha comida e onde dormir. Agora quanto a ela... poderia também comer e dormir?

O relógio eléctrico por cima do fogão marcava dezanove horas e vinte e dois minutos. Naomi não sentia apetite a não ser de Wash.


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Ainda tinha tempo para engolir qualquer coisa e ir ter com Kathleen. Não tinha porém vontade nenhuma de ver Kathleen e falar a respeito do emprego. Diabo, ela não queria um trabalho qualquer bolorento e lúgubre. O que queria era um lar com alguém dentro dele... alguém.

A garrafa de scotch, meia de líquido, bem como o copo, ainda estavam em cima do lava-loiças. Tinha que afastar os pensamentos tristes que a povoavam. Deitou uma dose substancial, com o líquido ambarino quase a tocar os bordos do copo e, encostando--se ao lava-loiças, inclinou a cabeça e bebeu profundamente. Um fluido quente percorreu-lhe os membros, desceu-lhe pelo peito e foi estimular-lhe as entranhas. O que sentia não era um calor benigno, mas como que uma fortíssima excitação que lhe punha o baixo--ventre em labaredas.

Evocou a imagem de Wash Dillon tal como o vira dois dias antes diante da porta da frente com o postal na mão. Todavia, não foi o seu cabelo hirsuto que evocou, não via o seu sorriso insolente no rosto marcado pelas bexigas nem o seu corpo enorme e desajeitado, o que tinha a ilusão de vir ao seu encontro através das malhas da rede que isolavam a porta da cozinha era um galo gigantesco.

Pensou: teriam as outras mulheres visões assim obscenas? Deviam ter. A pureza era uma mentira cívica. Por trás dessa mentira espreitavam o Desejo e a Luxúria. Na sua conferência, o Dr. Chapman afirmara que não havia nada de raro que uma mulher lhe pudesse contar, dissera que'a maior parte das mulheres eram capazes de fazer tudo, pensar tudo, o que sucedia era que não admitiam essas coisas senão junto dele. Nada havia naquilo que uma mulher sentisse que fosse único, ímpar. Não fora exactamente o que afirmara Chapman? Naomi já não se recordava muito bem.

Acabou de beber e de novo inclinou o gargalo para o copo. A sua mão já não tinha firmeza, e parte da bebida espalhou-se pelo lava-loiças. Erguendo o copo, sentiu a chama cauterizante a per-correr-lhe o corpo. Aquela dor, aquela tortura feroz, tinha que ser extinguida. Por momentos, considerou o caso de ir ao clube procurar Wash. Porém, logo a seguir, a ardente flama que a queimava desapareceu e apenas ficou um vazio enorme e agónico.

Olhou para o embaciado copo que ostentava na mão e compreendeu que não havia nenhum ser humano, nem Wash nem quem quer que fosse, capaz de pôr termo à agonia sentida ou de salvar aquilo que já estava devastado. Só uma coisa, só uma medida era capaz de acabar com a doença que lhe invadira a carne e o espírito. Poisou o copo e arrastou-se para fora da cozinha. De passagem para o quarto de dormir tentou acender a luz do átrio, mas falhou o interruptor e não esteve para voltar atrás. Continuou o caminho às apalpadelas, na escuridão. Com um movimento convulsivo, agar-rou-se à cama. Era a intimidade final, pensou. Aos pés do leito despojou-se metodicamente das roupas. Decidiu que o que tinha vestido fazia parte da dor que a apoquentava, e por isso não queria ter nada em cima da pele. Tirou os sapatos, esfregando os pés um contra o outro. A camisola foi arremessada para o lado. As mãos tactearam as costas, tentando desapertar o soutien de nylon e com um movimento de ombros fez as alças deslizarem. Desapertou o fecho de correr da saia e deixou-a cair a seus pés. Despojou-se da cinta. Procurou a borda da cama e, sentando-se, tirou as meias com rapidez.

Finalmente estava nua, e compreendeu então que não eram só as roupas que lhe provocavam aquela dor, ela estava-lhe colada à pele, esbraseava-a. Mas não se arrependia de estar nua, afinal fora assim que viera ao mundo e, portanto, era o modo mais adequado que uma pessoa podia ostentar.

Levantou-se e dirigiu-se à casa de banho. Acendeu a luz e rebuscou na gaveta dos remédios. Revolveu frascos e caixas até encontrar o tubo tão desesperadamente ansiado. Destapou-o e despejou na palma da mão uma quantidade substancial de comprimidos para dormir. O seu desejo de nirvana, a não ser que banisse toda a dor, remorso e culpa, ultrapassava qualquer desejo que tivesse sentido por um homem. Aos dois e três de cada vez, atirou os comprimidos salvadores para a boca. Só então se lembrou que era preciso água para auxiliar. O copo, a água. Engoliu, engoliu... Tudo lavado... Um banho... Lavagem.1

1 - O autor refere um jogo de palavras intraduzível para português. Wash •Qnifica acto de lavar, lavagem, limpeza por meio de lavagem.
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Oh, Wash... Tinha consigo um bom inferno. A morte ainda se* ria melhor.

De repente desejou a vida ardentemente. Queria poder negociar,, regatear com a morte.

Ainda não queria ser cadáver.

O braço estendeu-se, flutuante, para a porta do armário. No interior, há muito tempo, tinha colado a tabela dos «Antídotos», como uma aliada bastante prática que servia para apoiar a prerrogativa feminina. Dose excessiva de comprimidos para dormir... Duas colheres de sopa de sais de Epsom em dois copos de água... sabão emético e água quente... Epsom... Sabão... Wash, espera, por favor, por favor, espera...

Mais tarde acordou. O mostrador luminoso do despertador mostrou-lhe que já passava da meia-noite. A agonia esbraseante passara e sentia o frio a morder-lhe a pele. Tacteou por baixo do travesseiro e encontrou a dobra da coberta e dos cobertores. Aliviou o peso do corpo e puxou-os. Com um derradeiro esforço escorregou para baixo dos cobertores. Por instantes teve consciência da maciez, do bem-estar, e logo voltou a mergulhar no sono.

Passava já da meia-noite quando Paul Radford se despediu do Dr. Chapman e regressou ao quarto que compartilhava com Horace Van Duesen na Villa Neapolis.

Ficou surpreendido de ver o grande candeeiro ainda aceso e Horace, em pijama, soerguido no leito, a ler um livro.

— Pensei que ainda estivesse morto para o mundo — disse Paul.

— Dormi durante todo o dia. Agora estou a tentar fatigar-me até que o sono volte.

Paul tirou a gravata e começou a desabotoar a camisa.

— Sinto-me um tanto desorientado, meu caro.

— Onde é que esteve?

— Realizou-se um seminário numa localidade chamada Wilshire Ebell, nos arredores da cidade. Estavam presentes alguns universitários e um par de analistas a representarem o papel de maridos num casamento moderno. Há muito tempo que o Dr. Chapman tinha

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prometido dar lá uma saltada, e hoje quis que o acompanhasse, a guiar o carro. As entrevistas prolongaram-se até tarde, e fomos obrigados a comer no caminho. Que dia!

Paul desdobrou o pijama e continuou a despir-se. Horace poisou o livro.

— Paul, estou-lhe grato pela maneira como hoje me protegeu.

—Tratou-se apenas de um investimento. Espero que quando

chegar o momento faça o mesmo por mim. E pela maneira como ie estou a sentir, parece que esse momento chegará muito em revê.

— Não me devia ter embriagado daquela maneira.

— Andamos a vadiar há muito tempo.

— O que é que houve hoje?

— O costume.

Apertou os atilhos das calças do pijama e enfiou as mangas do casaco.

— Calculo não haver mais nada que me possa surpreender, muito embora tenha que admitir que as coisas nunca são prosaicas. A última que hoje me coube na rifa era realmente uma vadia amorosa... uma ninfomaníaca completa.

— Uma perdida de verdade?

— Nada disso. Nunca a vi mais gorda nem mais magra. Benita é que me contou que ela é uma boneca. Foi uma sessão de verdade. Senti uma terrível pena dela. Teve cinquenta amantes antes do casamento, e depois manteve relações com um macho por semana, além do próprio marido, até que este a apanhou em flagrante.

Pendurou as calças no cabide.

— Quer dizer que o marido a surpreendeu com outro homem? — inquiriu Horace.

— Sim. Apanhou-a com certo rapazola no pátio das traseiras, como quase sempre acontece. O marido pôs-se ao fresco... Isto não significa que a estou a culpar, mas apenas que a mulher está muito doente e precisa de ser ajudada. Veio desaguar na Califórnia e continuou com o fadário. Parece que ainda é pior. Muito embora tente dominar os seus apetites, o facto é que não pode.

Horace escutara atentamente.

— Como é que se chama? — perguntou de súbito.

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Paul, que se dirigia para a casa de banho, estacou.

—O seu nome? Julgo que não... espere, sim... Shieids... Naomi Shieids—surpreendeu-se ao ver o movimento estranho e convulsivo do rosto de Horace.

— Conhece a senhora?

— Não se trata de uma senhora — disse Horace, calmamente. — Trata-se da minha mulher.

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Muito embora não tivessem dormido mais que quatro horas, Paul e Horace, por acordo tácito e sem palavras, levantaram-se ao romper do dia, a fim de evitarem os outros. Depois de se terem lavado e vestido, preparado para o seu terceiro dia de entrevistas, esperaram algum tempo que se abrissem as portas da sala de jantar da Villa Neapolis, o que sucedeu às sete e meia. Durante a meia hora seguinte, com excepção de uns quantos clientes que engoliam à pressa os pequenos-almoços para conseguirem estar na estrada antes de o trânsito se adensar, os dois homens ficaram sozinhos.



Às oito horas abandonaram a sala de jantar sem terem lobrigado o Dr. Chapman, Cass ou Benita. Aliviados, dirigiram-se para a garagem. O Sol, como um gigantesco ovo estrelado, fervia num céu sem nuvens. A relva que ladeava o caminho ainda gotejava do orvalho nocturno, mas em breve estaria seca. Paul pensou que o dia ainda ia ser mais quente que o de segunda-feira. Baixou a capota de lona do Forddescapotável e tomou depois lugar ao volante, ao lado de Horace.

Em marcha atrás, tirou o carro da garagem. Depois, sem pressas, conduziu o carro pela estrada privativa que levava ao Sunset Boulevard. Perto do sinal de trânsito do cruzamento, abrandou mais e olhou de relance para Horace.

— Ainda é muito cedo. Vamos dar uma volta?

— Como queira.

Paul guinou o carro para leste, deslizando pelo Sunset Boulevard, e a seguir mudou a velocidade para os sessenta quiló-

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metros, afrouxando uma vez ao aproximar-se do complexo da Universidade (os rapazes do R. O. T. C. estavam estendidos pelos elegantes relvados da parada). Voltou a acelerar e embicou na direcção de Beverly Hills. A velocidade do carro fazia agitar uma ligeira brisa, e o ar assim deslocado afagava-lhes os cabelos como uma carícia de dedos de mulher. À entrada de Bel Air, num súbito impulso, Paul guinou completamente para a esquerda.

— Já passou por estes lados?

—Julgo que nunca — respondeu Horace.

— Se tivesse passado lembrava-se com certeza. É exac

tamente como aqueles subúrbios que ficam por trás de Honolulu.

Encontravam-se em Bellagio Road, uma estrada de asfalto levemente inclinada e sinuosa que acompanhava a linha da costa. As espessas trepadeiras e as sebes de verdura ao longo das vedações de arame, os quilómetros de buganvílias encarnadas e azuis e de fúchsias azuis e encarnadas, ocultavam todos os vestígios de haver quaisquer habitações. Os pinheiros e sicómoros de Monterey, que ladeavam os caminhos, eram antigos e copados, davam uma impressão de bens de raiz solidamente arreigados à terra, como nunca seriam capazes de sugerir as constrangidas e importadas palmeiras de Beverly Hills. Paul lembrou-se dos pais e pensou no modo como contemplariam aquelas árvores para depois desatarem a falar da Velha Terra. Os ocasionais receptáculos de correio, bizarros, tinham a encimá-los os nomes dos seus proprietários em ferro finamente lavrado. Vários daqueles nomes eram famosos. De certo modo, os receptáculos roubavam o aspecto sensacional à paisagem, dado que recordavam aos intrusos que afinal havia por ali vida humana, não vida selvagem. Recordavam que a sensação de floresta primitiva não passava afinai de cenário, de falsidade.

No desejo de comentar as impressões sentidas, Paul voltou--se para Horace. Viu porém que eie estava completamente alheio ao que o rodeava. Horace estava afundado no seu lugar como que em transe. Os braços negligentemente cruzados sobre o peito, olhava fixamente o painel de instrumentos.

Paul não teve remédio senão relembrar a negra noite que sobre eles desabara. Depois que Paul lhe revelara a entrevista com Naomi, Horace ficara como que estuporado, de olhar fixo num ponto distante,

petrificado como se um raio o tivesse assombrado. Sem mudar de posição, fumando incessantemente, desatara a contar a história do seu casamento.

Um ano antes de se juntar à equipa do Dr. Chapman, realizara--se em Madison uma convenção de ginecologistas (relembrava Horace), e ele desempenhara nela um papel de certo relevo. A convenção tratava de arranjar acomodações para todos os convidados, e, entre as valiosas conveniências que eram oferecidas aos cientistas, contava-se uma secretária para ajudar aos ficheiros classificativos. A pequena que a sorte ditara a Horace anunciara-se como Naomi Shields. Até travar conhecimento com Naomi, Horace apenas conhecera as mulheres como necessidades biológicas, circunscritas a um exercício rotineiro totalmente à parte da importância do trabalho quotidiano. Sentira-se sempre seguro de estar destinado a viver e a morrer celibatário.

Naomi era algo que ele nunca imaginara que uma mulher pudesse ser: cheia de vida, linda, atraente, compreensiva, sensível. Era também, e isso cedo se provou como um factor decisivo, uma jovem muito desejada, a quem todos os homens procuravam. O facto de só ter olhos para Horace conferiu a este uma condição especial entre os seus colegas, dando-lhe uma satisfação de orgulho varonil que nunca antes sentira. Começou a atribuir a Naomi uma valia que em muito ultrapassava o próprio amor. («Evidentemente que falo de um ponto de vista abstracto» — frisara Horace a Paul). Desde o princípio que Naomi estava preparada para se entregar totalmente a Horace, para se lhe entregar completa e incondicionalmente, e fora preciso que ele se socorresse de toda a sua educação católica para não se aproveitar da vantagem que lhe oferecia a amorosa rapariga. As coisas galoparam de tal modo que ao fim de cinco meses estavam noivos («tempo escasso para nos podermos conhecer» — dissera Horace a Paul), e fora só o tempo suficiente para a levar consigo para Reardon, dando-lhe o seu nome: Naomi Van Duesen.

Desde o início o prazer do casamento fora estimulante para Horace. A condição dava-lhe ingresso em grupos sociais populares que nem sequer pensara que existissem, e, pela primeira vez na sua vida, se sentia pertencer a algo de mais cosmopolita, mais
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aprazível e mais cheio que o simples professorado do Colégio de Reardon. O que mais lhe agradava, porém, eram os múltiplos acessórios que rodeavam o casamento: o pato com torta de ananás, caseiro, os puídos colarinhos finalmente voltados, a colaboração na compra do frigorífico e do periquito azul, o preencher dos cartões de boas-festas, a contínua inveja manifestada pelos seus amigos, o soutien pendurado atrás da porta da casa de banho, as meias a secarem na corda por cima da banheira, o tubo da pasta de dentes destapado, a divisão do jornal dominical, os botões que, como por obra de magia, reapareciam sempre quer nos pijamas quer nas camisas.

Por esses prazeres havia porém um preço a pagar, as sancionadas intimidades do matrimónio, um dever que, com demasiada frequência, tinha lugar na cama dupla.

Horace admitira francamente perante Paul que as suas necessidades sexuais estavam abaixo de um nível médio, isto tanto quanto podia imaginar naquela época pré-Chapman, menos literata. De princípio, o incansável apetite de Naomi conseguira contagiá-lo, tornara-o orgulhoso da sua virilidade. Mas com o correr dos meses, não havendo diminuição na paixão incessante que a devorava, o prazer começou a tomar-se para Horace numa coisa perturbante. Naomi esperava o seu contacto quase todas as noites, e o que até aí fora puro impulso amoroso tornou-se uma escravidão de amor. Todos os dias que se erguiam, Horace sentia-se assaltado pelo terror que lhe começava a inspirar aquela cama dupla. Somente o aparecimento do Dr. Chapman em cena o conseguira salvar do afundamento total. De facto o Dr. Chapman tornara-se para ele numa espécie de salvador tão eficiente como a cavalaria dos Estados Unidos no tempo dos pioneiros ou os marines nos tempos modernos. Quando o Dr. Chapman o alistara na sua equipa para trabalhar durante as horas livres, pedindo-lhe que prestasse os seus serviços de noite, Horace começou a cooperar no projecto secreto com um tal fervor que foi interpretado pelo Dr. Chapman como puro entusiasmo científico. Em resultado de ter aceitado aquele trabalho, iniciara-se um atrito com Naomi, mas bem depressa ela fora forçada a compreender que as suas relações sexuais, como norma, se passariam a efectuar duas vezes por semana. A partir daí, eventu-

almente, diminuíra a tempestuosa agitação por ela demonstrada e, para o fim, desaparecera até completamente. Não foi senão depois do terrível desfecho do pátio das traseiras, e da cena que se lhe seguira, que Horace compreendeu até que ponto e a que grau Naomi reorganizara a sua vida sexual — a que preço conseguira o reajustamento com a sua norma de conduta.

Horace, de um só golpe, arrancara a coisa corrupta da sua vida. A casa onde tinham morado vagou; vendeu-se o mobiliário. Todas as recordações, todos os presentes, todas as fotos (salvo um retrato um tanto tremido que mostrava Naomi de perfil e que fora tirado no segundo ano do seu casamento), tudo fora rasgado, liquidado. Até mesmo o caso da pensão alimentar, simples e último elo de ligação, fora reduzido, por Horace, a uma coisa verdadeiramente impessoal. No terceiro dia de cada mês, um advogado de Reardon, Wisconsin, enviava o cheque pelo correio, para um advogado em Burbank, Califórnia.

No decorrer dos difíceis e trabalhosos meses da sondagem sobre o celibato, Horace dedicara-se inteiramente ao trabalho e fora bem sucedido em conseguir apagar da mente a imagem de Naomi. Porém, com o empreender da sondagem sobre a conduta sexual das mulheres casadas, o caso quase se lhe tornara impossível... dado que, com insistente frequência, a voz que partia do biombo lhe fazia lembrar a voz dela, e cada vez mais a resposta dada às suas perguntas sobre actividades extraconjugais lhe vinha a soar como uma coisa intencionalmente sádica.

Horace sentira pavor por The Briars desde o momento em que a viagem fora determinada. Não era que se importasse de estar em Los Angeles durante a sondagem, o que se lhe tornava insuportável era pensar na proximidade de Naomi dentro da acuidade de espécimes de mulheres casadas durante os inquéritos. Não sabia ainda bem se o receio que sentia seria por poder voltar a encontrá-la ou Por não a ver. Não encontrava a razão adequada para as suas apreensões, mas o facto era que aquilo existia e doía ainda. E então, na segunda-feira à noite, tinha-a visto. Resolvera ir ao cinema em Westwood e conseguira encontrar um lugar, três cadeiras afastadas da coxia central. Cerca de vinte minutos após ter começado o 'ilrne de fundo, observara uma mulher que subia a coxia — era
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Naomi. Ela não reparara nele e continuara o seu caminho para a saída, mas ele vira-a e sentira-se profundamente perturbado. Mais tarde embriagara-se como um marinheiro.

Debatendo a entrevista de Naomi com Paul, Horace ficara impressionado pela inevitabilidade (pelo menos no seu pensamento) da presença de Naomi entre duzentas voluntárias. Era como se um destino cruel o tivesse acorrentado a ela, não deixando que se libertasse. No entanto, Paul considerara o aparecimento de Naomi como uma coisa menos invulgar. Afinal de contas, haviam sido entrevistadas mais de três mil mulheres. As margens de segurança da percentagem eram, de certo modo, negativas quanto à possibilidade do acontecimento, mas, tal como Paul previra no comboio, não era de surpreender que qualquer das mulheres viesse a ter ligação com um dos membros da equipa, especialmente morando na pequena comunidade que estava a ser objecto da sondagem. Paul lembrou a Horace o anterior incidente em Indianápolis, quando ele, Paul, compreendera que estava a interrogar uma mulher casada com quem tivera vários encontros durante o seu tempo de permanência na escola. Coisas daquelas aconteciam — mas ditadas pelo acaso. Na literatura as coisas não sucediam assim com tanta frequência, no intuito de evitar um forçar da credulidade, mas na vida real aconteciam com muita frequência. Paul dissera a Horace não estar aborrecido com a coincidência, o que o aborrecera fora o facto singular de Naomi se ter oferecido para um trabalho de pesquisa de que sabia que seu marido fazia parte. Porém, Horace pensava que ela o desconhecia. No último período do casamento, Naomi nunca soubera para quem ele trabalhava durante as suas horas livres, até porque a segunda sondagem do Dr. Chapman ainda não fora anunciada oficialmente. Era também improvável que tivesse lido alguma coisa sobre a sua profissão. Embora Naomi, e isso só nos primeiros tempos de casada, lesse alguns livros, não tinha paciência para ler jornais ou revistas. Era portanto muito difícil que tivesse mudado os seus hábitos. Mas ainda que lesse jornais ou revistas, Paul bem sabia que os artigos, habitualmente, só se referiam ao Dr. Chapman, mencionando raramente o nome dos elementos da sua equipa. Além disso, não era provável que Naomi tivesse revelado em The Briars o seu nome de casada, de modo

que as outras mulheres não podiam relacionar com ela o Van Duesen da equipa do Dr. Chapman. Assim, tanto quanto se podia observar, essa parte da questão formava um bloco sensato e sólido.

Os dois homens tinham estado a falar no assunto até às três horas da madrugada, com Horace a fazer quase toda a despesa da conversa e Paul a tentar dar-lhe ânimo, a procurar tranquilizá-lo.

Nesse momento, à luz daquele sol matinal e a guiar o carro através de Bel Air, ao relembrar o sucedido, Paul pensava porque é que a lembrança do caso continuava ainda a perturbá-lo. Claro que era um sentimento de pesar por um amigo. Mas só isso era coisa demasiado simplista. Havia no fundo algo de mais egoísta. Supunha que tudo aquilo tinha uma ligação directa com o seu estado de celibatário. Possivelmente era mais um tijolo a acrescentar àquele muro que ia edificando lentamente. Aquele muro que o mantinha afastado de ser monopolizado por qualquer mulher, que o isolava do casamento. Cada tijolo tinha em si determinada característica, um número símbolo, e essa barreira de números simbólicos seria um dia tão extraordinariamente alta e inexpugnável que nada a poderia forçar. Naomi nada mais fora do que o reflexo de centenas de outras mulheres cujas vidas íntimas havia sondado — números sem nome — e lhe diziam em linguagem científica que dentro do amor e do casamento tudo era apenas numerativo — número de comportamento e maneiras animadas; número de posições; número de orgasmos. Honestamente, talvez fosse tudo quanto havia. Se assim fosse, então o casamento não passava de um ermo — para isso era preferível, quanto a ele, o isolamento monástico. Ou seria algo mais que aquela definição árida? O que se passava com as sólidas e boas uniões conjugais que conhecera e com os ideais românticos que tanto acalentara? Onde estavam a ternura, as coisas em comum e a procriação? Victor Jonas, afasta-te de mim.

Paul chegou o descapotável para a berma da estreita estrada, a fim de deixar passar uma camioneta de carga, e depois voltou a observar Horace. Sentiu uma vaga de compaixão pelo seu abatido amigo.

— Horace, sente-se melhor?

Horace afastou o olhar do compartimento das luvas e fitou Paul, Pestanejando.


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— Isto passa... Foi muito amável da sua parte ter-me deixado desabafar ontem à noite.

— Não seja tolo.

— Sabe o que é que vinha para aqui a ruminar? Pensava qual a verdade que me levou a embriagar daquela maneira na segunda--feiraà noite...

— Bem, você tinha-a visto.

— Sim, mas não foi só porque a vi. O que sucedeu é que tendo-a apenas visto de relance, pela primeira vez depois daquela noite fatal, nesse rápido instante soube que ainda a amava tanto ou mais que antes. Foi isso que me agoniou. É vergonhoso, tanto mais que habitualmente sou uma criatura bastante reservada, mas não consegui dominar-me. Ali estava ela, uma coisa imunda, e eu ainda a amava. Depois de ela ter saído pouco me importava com aquilo que dissesse ou fizesse. Tudo o que desejava era encontrá--la. A noite passada não lhe contei isto, sentia-me envergonhado, mas o facto é que saltei como uma mola do meu lugar e fui atrás dela como um sabujo. Não a vi nem no vestíbulo nem na rua, mas andei para baixo e para cima a procurá-la por toda a parte, como um tolo. Como lhe perdi o rasto, decidi-me a procurar a sua morada na lista telefónica, para ir lá vê-la. Claro que lhe encontrei a morada, mas depois senti-me assustado, não sabia muito acerca daquela mulher que vira na relva com o moço — e pensei que era melhor ingerir primeiro uma boa golada. Naquela parte de Westwood não encontrei bares. Perguntei a um transeunte que me disse que a razão de tal ausência se devia à Universidade. Tinha conhecimento disto? Fui até outra localidade, perto de um sítio chamado Pico, encontrei um bare embebedei-me como um suíno. Deixei de estar em condições de ir procurá-la, e tive muita sorte em conseguir chegar ao motel. O que não posso é afastar do pensamento o modo como me comportei. Pensei que ela estava morta, liquidada para mim, e afinal o caso, que só estava escondido num velho e esquecido compartimento do meu ser, ressurgiu e deixou-me o espírito em frangalhos. Devo estar maluco. Como é que se pode continuar a amar uma prostituta?

Sem deixar de olhar para a estrada, Paul disse:

— Ela não é uma prostituta. É uma mulher com quem você foi

casado. Uma mulher que está muito doente e que precisa de auxílio. E você ainda a ama.

— É verdade. Mas isso seria ser devorado por uma centena de infernos vivos.

— É possível. Sim, suponho que seria.

Prestou atenção a um marco da estrada cuja seta apontava a direcção de Sunset Boulevard.

— Bem, perdemos a noção do tempo. É melhor regressarmos

The Briars.

Cass Miller assumiu uma atitude tensa no seu lugar ao ouvir a resposta dada por Sarah Goldsmith à pergunta que lhe fizera, e lançou um olhar carregado de desprezo para o biombo de separa-ão. A cadela, pensou, a suja cadela vigarista. Cass tinha-lhe dito:

— Agora vai haver uma série de perguntas sobre relações

extraconjugais.

A seguir perguntara:

— Praticou alguma vez o coito com outro homem que não fos

se o seu marido?

Estava tão certo da resposta que ela daria que logo assinalara na escala sol-ré-sol o sítio reservado a «Nunca», sem mesmo esperar que Sarah falasse.

Todavia ela acabara por responder:

— Sim. Com um homem.

Cass recusou-se a acreditar naquilo que ouvia.

— Perdão. Disse que já teve relações, desde que se casou,

com outro que não fosse o seu marido?

— Sim. Com um homem — confirmou ela, nervosamente. Era difícil para Cass esconder o tom reprovativo da sua voz.

— Quando... quando é que isso aconteceu? Certamente que havia circunstâncias atenuantes. Fora talvez

há muito tempo, quando ela ainda não estava segura de si, na imaturidade. Talvez estivesse embriagada. Resposta dela:

— Ainda hoje mesmo.
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A cadela aluada! Começou a doer a cabeça a Cass. Irritado, quis apagar o que antecipadamente tinha escrito e rasgou o papel ao fazê-lo.

Aquela mulher fizera dele um pateta alegre e Cass odiava-a. Habitualmente costumava estar preparado para tais confissões e mantinha-se em guarda. Fora a história anterior dela e a sua aparência que o haviam enganado.

A entrevista fora marcada para as nove horas. Cass não fora lesto a acordar e chegara um pouco tarde. Ao atravessar para o seu gabinete, vira que Benita conduzia uma mulher em direcção da saia de conferências. Observara-lhe o cabelo liso, apanhado atrás em carrapito à velha moda, usava uns óculos que lhe davam um ar de respeitabilidade, e o vestido era de xadrez, em estilo conservador. Os óculos, os sapatos de salto raso, a maturidade do seu aspecto davam-lhe um ar completamente progressivo da dona de casa decente. Tinham sido essas coisas que o haviam induzido em erro, principalmente os óculos.

Depois de ter tomado lugar do outro lado do biombo e de ela — aquela Sarah Goldsmith — estar pronta, a história contada confirmara a sua opinião de seriedade e respeito acerca dela. As respostas que deu eram objectivas, sensíveis. Com trinta e cinco anos, estava casada há doze. Durante o questionário, Cass notara que o marido não era propriamente o que se poderia chamar uma bola de fogo, mas para ela o caso estava provavelmente certo. Estava casada há doze anos. Tinha dois filhos. Prestava serviço na sinagoga durante as férias grandes. Uma boa esposa e uma boa mãe.

— Quando é que isso aconteceu? — perguntara-lhe a respeito

da infidelidade.

— É uma coisa actual — tinha-lhe respondido.

A cadela piolhosa! Cass devia ter previsto aquilo.

Aquelas fêmeas eram as piores, lavadeiras, padeiras, criadas para todo o serviço, meretrizes de avental de chita.

Também a mãe dele — naquilo que dela se lembrava — tinha usado o cabelo em carrapito, com excepção daquela manhã — que manhã! — em que regressara a casa inesperadamente. Fora punido na escola por uma falta que não cometera, e fugira a toda a pressa para casa no intuito de procurar o conforto materno. Lembrava-se

que nessa manhã a vira com o cabelo espalhado pelos ombros, recordava-se daqueles enormes seios maternais desnudados, da obscenidade da posição em que estava com aquele homem escanzelado que não era o seu pai. Pensando na mãe, Cass recordava sempre aquele quadro, e só podia desprezá-lo até à náusea — a velha na cama com outro homem, aquela velha que era sua mãe.

Há muito tempo, quando estava no colégio, ainda obcecado

pelo que acontecera, tentara estabelecer a data do nascimento da

mãe, cotejando-a com a sua própria idade, para saber quantos anos

teria ela na altura em que o caso sucedera. Ficara assombrado por

descobrir que, então, a mãe apenas tinha vinte e nove anos. Era

inacreditável! O pior de tudo, para ele, era o caso de sempre ter

pensado na mãe como velha, quando ela ainda era uma mulher

"ovem. A velhice só fora um facto quando Cass já era um homem

muito tempo depois, naquele famoso Verão em que ela, sem mani-

estar o mais leve sentimento de vergonha, fora visitar seu pai para

ratarem de negócios). No entanto, fosse como fosse, na sua men-

e nunca conseguira haver qualquer mudança acerca do assunto. A

mãe para ele fora sempre uma velha, uma velha debochada, imoral,

dissoluta, demoníaca, que, na sua obscenidade, lhe fora infiel.

Do outro lado do biombo, Sarah mexia-se na cadeira, inquieta, amachucando nervosamente o lenço nas mãos. O entrevistador estava silencioso há muito tempo. Teria ela dito alguma coisa errada? Não, o Dr. Chapman havia afirmado que pretendia os factos nus e crus. Nunca ninguém viria a saber o que confessasse. Havia a linguagem secreta, os cofres nos bancos, a máquina S. T. C. No entanto a sua ansiedade aumentava. Porque é que não consultara primeiro Fred Tauber? O que sucederia se aquilo, por acidente, fosse revelado publicamente? Que lhes sucederia? Nesse momento desejava, acima de tudo no mundo, nunca ter falado no assunto fosse a quem fosse. Porque anuíra àquela entrevista? Porque contara a verdade? Fora por se sentir orgulhosa daquele segredo que •he queimava a alma, pela plenitude da nova liberdade que desfrutava que desejara falar do caso a alguém, fosse a quem fosse?

Ouviu a voz do homem. Pareceu-lhe invulgarmente ríspida.

— Por favor, desculpe a demora. Temos perguntas facultativas Para cada diferente circunstância. Desde que me disse que o seu


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caso extraconjugal é uma coisa corrente, tive que procurar o conjunto correcto de perguntas. Agora, se é que está preparada...

— Não sei bem — hesitou ela —, talvez não deva... — Sentia-

-se de súbito assustada.

A voz do homem por detrás do biombo soou instantaneamente suave e solícita.

— Por favor, não tenha receio. Sei que isto é importante para a

senhora, e é honestamente difícil nestas circunstâncias. Os nos

sos interesses, porém, são puramente científicos. Nada mais. Para

nós... para mim... a senhora é uma anónima, uma mulher que se

ofereceu voluntariamente para ajudar neste excelente trabalho, nesta

boa obra. Quando tivermos acabado, dentro de pouco tempo, outra

mulher ocupará o seu lugar nesta sala, e poderá revelar, ela e outras,

factos tanto ou mais difíceis de debater que os seus. No fim do dia

o que disseram não passará de símbolos assinalados em várias

folhas de papel. A senhora não deve ter qualquer espécie de receio.

As palavras eram confortadoras, e Sarah acenou mudamente.

— Muito bem.

— Terminaremos isto rapidamente. Esse homem de que falou... há quanto tempo mantém essa ligação?

— Há três meses.

— Em média, pode lembrar-se de quantas vezes realizou com ele, por mês, o acto sexual?

— Por mês?

— Bem, por semana, se é mais fácil assim.

Sarah hesitou. Que aparência lhe conferiria a verdade? Seria degradante ou normal e atractiva? Pensou em Fred, nela própria desperta e renovada, e decidiu que só se podia sentir orgulhosa.

— Quatro vezes por semana — respondeu.

— Quatro vezes por semana... — repetiu ele. A sua voz soou estranhamente abafada.

— O seu companheiro é solteiro ou casado?

— É... é casado. — Não devia porém haver más interpretações. Ela não era nenhuma arruinadora de lares.

— Acho melhor explicar — acrescentou apressadamente. — Ele é casado mas está separado da mulher. A esposa não lhe quei" conceder o divórcio.

— Compreendo.

A pergunta sobressaltara-a. Claro que Fred se queria divorciar. Tinha-lho dito inúmeras vezes. Simplesmente, sucedia que a mulher dele tornava as coisas difíceis. Se assim não fosse, porque é que viviam separados?

— Pode enumerar uma ou mais razões que a tivessem levado a envolver-se num caso de ligações extraconjugais?

— Na verdade não sei.

—Talvez eu possa simplificar a pergunta.

E Cass começou a enumerar as várias razões que levam as mulheres casadas, com mais frequência, a tornar-se adúlteras. («Quando a analisada for incapaz de fornecer uma resposta directa» — dizia sempre o Dr. Chapman nas reuniões de trabalho — «é útil apresentar exemplos de respostas dadas por outras mulheres»). Tinha Cass acabado de apresentar a quinta razão possível quando Sarah o interrompeu:

— Sim, é essa mesma.

— Qual? A última?

— Precisamente.

— A senhora não experimentava satisfação com o seu marido?

Sarah estremeceu. Porque é que o homem não se quedava com a resposta dada? Porque é que havia de continuar a repisar o caso? De que modo ela lhe poderia dizer? Como é que ele iria compreender? Acaso o entrevistador conhecia Sam? Vivera com ele durante doze anos? Poderia aquele homem compreender a corrosiva monotonia de todos os meses, de cada ano? Poderia ele compreender que a cada mulher só é dado viver uma vida, dom natural que deve ser utilizado da melhor forma, e que, se esse dom fosse desperdiçado f utilmente, não havia outra vida?

— Não — acabou por responder. — Faltava algo para me sentir satisfeita. Aponte que a coisa aconteceu espontaneamente. Não fui eu que forcei os acontecimentos. Eles apareceram.

— Durante o seu primeiro contacto sexual com esse outro homem, foi a senhora a parte activa, foi seduzida por ele, ou a °ópula obedeceu a uma acção mútua?

Se ela própria desconhecia os motivos, como é que podia res-
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ponder com lealdade? Mas claro que devia a Fred, custasse o que custasse, um sentimento de honestidade. A verdade é que ele não era um D. Juan insensível e frio, sem coração, nem ela era... uma Jezabel demoníaca. Pensou ser no meio termo que se encontrava a virtude.

— Suponho que houve um impulso mútuo — respondeu.

— Crê-se tão ardente, mais ardente ou menos ardente que seu marido?

— Que meu marido?... — repetiu surpreendida por haverem voltado a Sam.

— Exactamente.

— Oh, muito mais ardente.

— E, nisso, compara-se ao... ao homem que não é seu marido?

— Sim. Penso que somos os dois igualmente ardentes.

— Muito bem. Agora vem uma outra pergunta que pode ter respostas alternativas. No melhor da sua compreensão pelo problema, poderá informar-me se seu marido sabe do seu caso amoroso? As respostas podem ser as seguintes: ele sabe porque lhe contaram; sabe porque surpreendeu o caso; provavelmente suspeita ou ele ignora totalmente. Qual é a sua resposta?

— Ignora — disse Sarah, sem hesitar.

Cass apontou a resposta. Ignora! Ignora! Uma cólera surda comprimiu-lhe a garganta. Era da pior espécie aquela Ester fingida, aquela mulher vestida como uma menina pudica, que parecia um padrão de pureza, aquela mulher que brincava às donas de casa típicas, que parecia a incarnação da esposa-mãe, ao mesmo tempo que enganava o marido, que o humilhava quatro vezes por semana. Recordou a passagem da Bíblia que, quando era jovem, tinha à mesa-de~cabeceira: «Tais são os modos da mulher adúltera; ela come o fruto do pecado, limpa a boca e diz: eu não cometi iniquidade».

Passou a mão pela testa e olhou para as perguntas que se seguiam. Tinham que parar com aquilo, não podia aguentar mais a situação.

Recapitulou a entrevista. Cada uma das respostas era para ele como uma pancada. Comparou a voracidade voluptuosa da mulher

com o ascetismo do marido. Os sentimentos de Cass fugiram para aquele marido, para aquele pobre pateta, cansado, fatigado pelo exaustivo trabalho quotidiano, trabalho que realizava para tentar apenas agradar a alguém que se recusava a sentir-se satisfeita.

Por aquele marido, por ele próprio, pelo Dr. Chapman, mas, acima de tudo, pelo marido, Cass devia conhecer toda a extensão da perfídia da mulher.

— Quanto tempo costuma demorar a prática do coito entre a senhora e esse homem?

— Demora muito, agora.

— Quanto tempo?

Titubeando, Sarah discutiu a duração, a longevidade do pecado.

A testa de Cass estava perlada de suor, e ele abandonou por completo a sucessão cronológica do questionário.

— Fica estimulada só de ver o seu companheiro?

— Não.


— Não em absoluto?

— Não muito.

— Então o que é que a estimula?

Estabeleceu-se um silêncio.

— Deve sentir-se estimulada por alguma coisa — disse Cass

impacientemente. — O que é? Pode dizer sem qualquer receio.

— São as relações sexuais — respondeu Sarah. As palavras eram quase imperceptíveis.

— Somente isso?

— E tudo o mais que lhe está ligado — respondeu.

O lápis de Cass repousava sobre a folha de papel. Ele tentou visualizá-la tal como a tinha vislumbrado no corredor. O cabelo liso, Penteado para trás e formando carrapito, as ancas desenvolvidas de mulher fecunda. Seguidamente viu-a como ela devia na verdade Ser contemplada: o cabelo caído sobre os ombros, as maciças Coxas desnudadas... era como aquela velha que encontrara na cama c°m outro homem.

ram dez horas e trinta e cinco minutos, vinte minutos depois
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0 Relatório Chapman 305

de ter saído da Associação, quando Sarah voltou a direcção da station para o sul de Wilshire e percorreu os dois quarteirões de residências até ao apartamento de Fred. Estava combinado que não se encontrariam nessa manhã; porém, após a entrevista, Sarah sentira a urgente necessidade de estar com ele. Habitualmente agia com bastante cautela, mas naquela manhã permitiu-se dar roda livre ao seu capricho.

A entrevista produzira um efeito singular nos seus pensamentos e sentimentos. Auxiliara-a a colocar em ordem certas matérias. Tendo explanado sequentemente a história do seu casamento e do seu caso amoroso, ficara apta a ver mais claramente a escolha que devia fazer. Até esse momento, a escolha fora coisa que ainda não surgira. Mas agora Sarah via Sam e via-se a si mesma concretamente. Via Fred e via-se a si mesma num plano de verdade insofismável.

Arrumou o carro à sombra dos ulmeiros, atravessou a ruazinha tranquila e entrou na vivenda. Aquela ala só tinha dois inquilinos: uma loira oxigenada de idade indefinível, rodeada de inúmeros gatos siameses, que vivia no piso térreo, e Fred, cujo apartamento se situava ao cimo das escadas.

Entrou no fresco átrio e, ao começar a subir as escadas, ficou surpreendida de ver uma mulher que descia.

O coração de Sarah teve um baque súbito. Aquela mulher só podia vir de um único sítio. Por momentos viu-a agigantar-se no topo dos degraus. A desconhecida envergava um imaculado vestido de ténis em «pique» branco. Devia andar à volta dos quarenta anos, com o negro cabelo salpicado de brancas, meticulosamente frisado, alta, desempenada e de feições angulosas, regulares e aristocráticas. A mulher desceu degrau a degrau sem parar de fitar Sarah e, depois de ter passado por ela, voltou-se ainda para a mirar bem. Ao cruzarem-se, Sarah afastou-se um pouco para lhe dar lugar, continuando a subir em direcção ao apartamento. No cimo das escadas, deitou um olhar de relance para o átrio. A mulher estava especada à porta a contemplá-la. Os seus olhos cruzaram-se num lampejo. Sarah cerrou as mãos. A desconhecida saiu.

Sarah, perturbada por aquele encontro, precipitou-se para a porta do apartamento de Fred e começou a bater com frenesim-

Pouco depois a porta abriu-se e no limiar surgiu Fred trajando uma camisola e uns calções de jogar ténis. Sarah apressou-se a penetrar no interior do apartamento.

— Sarah! Que diabo fazes tu aqui? Pensei que...

— Tinha que te ver. A sessão acabou cedo. Fez um gesto irritado na direcção da saída.

— Quem é aquela mulher?

— Quer dizer então que a viste?

— Precisamente. Cometi algum erro?


— Oh, pára lá com isso. Não sejas tonta. Não tem importância nenhuma... acontece apenas que sempre te pedi para me telefonares primeiro.

— Porquê? Quem é ela?

— A minha mulher.

— A tua mulher?

Sarah também pensara naquela hipótese, mas era-lhe difícil poder conciliar a imagem daquela mulher já entrada em anos e tão estéril com o vigor juvenil de Fred.

— Ela costuma fazer isto com frequência?

— Fazer o quê? Ah, não é nada do que estás a pensar. Já te disse que eu e ela nada temos um com o outro. Sucede apenas que possuímos alguns bens comuns. Ela aparece uma ou duas vezes por mês para falarmos de negócios. Hoje quis que a conferência se realizasse no Ténis Clube de Beverly Hills.

— Mas então o que é que veio fazer aqui?

— Ainda não tínhamos acabado a conversa, e ela sentiu-se cheia de sede.

— Sede de água?

— Sarah...

Ela sentiu a tensão que pairava no ambiente e quis libertar-se daquela angústia.

— Perdoa — disse penosamente. — Fred, por favor, não te

zangues comigo.

Atirou-se contra o peito dele, enlaçou-o e encostou-lhe a cabeça ao ombro.

— Não estou zangado contigo — disse Fred. — O que pretendo,

Porém, é que isto não se volte a repetir, Sarah. Nada tenho a escon-
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der. Não existe mais nenhuma mulher senão tu. O que acontece éf

que às vezes ou não estou em casa ou se encontra aqui algum»

amigo, ou, como hoje sucedeu... ela. f

— Não voltarei a proceder assim, Fred. Eu só queria ver-te.

— É um desejo compreensivo — Fred afagava-lhe o cabelo levemente. — Aprecio muito os teus sentimentos. Também eu quero ver-te o maior número de vezes possível. Bem, conta lá então o que é que se passou esta manhã? Que tal era o jovem psiquiatra?

— Psiquiatra? — de momento Sarah esquecia-se da história que arquitectara. Mas lembrou-se imediatamente. — Excelente... Muito útil. Eu... aprendi muitas coisas com ele. ;

— Já tomaste o pequeno-almoço? st

— Não é isso o que desejo. l

— Então o que é?

Ele afastara-a a todo o cumprimento dos seus braços a fim de a olhar de frente.

— Só quero ter a certeza que me amas.

Fred voltou a puxá-la para o peito e começou a falar docemente, explicitamente, como se se dirigisse a uma criança.

— Evidentemente que te amo. Mas não estraguemos tudo com acções precipitadas. Pretendo que o nosso caso seja uma coisa para sempre. Mas é capital recordarmos que devemos... ser sensatos.

— Porquê? — perguntou ela, levantando os olhos para lhe ver o rosto.

Aquela era uma pergunta que nunca antes lhe tinha feito nem a

ele nem a si própria. r

Paul Radford, muito tempo depois, revivia ainda a entrevista que tivera lugar entre as quatro e as cinco horas e meia daquela quinta-feira tropical.

O que antes de tudo o mais o intrigara fora a voz dela, uma voz macia, bem modulada, profunda, a filtrar-se lentamente através do biombo de separação. Existia uma qualidade vocal naqueles sons que o obrigava a fazer uma associação de ideias, relacionando-a com palavras como: repousante... sofisticada... senhoril... divã...

rendas... boudoir... ardor... infinito. Um dia, quando já estivesse na concessão da Fundação Zollman e no seu fabuloso centro de sexo, tinha que sugerir ao Dr. Chapman a preparação de um livro relacionando a atracção amorosa com o timbre vocal.

Pensou se a realidade daquela mulher corresponderia à promessa que havia na sua voz. Voltou a considerar que aquele biombo era afinal uma coisa artificiosa, mais inibitória do que encorajadora.

A história da entrevistada estava ali diante dele, durante o período adolescente e pré-conjugal. Com excepção de certos preconceitos puritanos e uma nítida tendência para se dominar, nada havia de notável na sua vida. Quase todo o comportamento dela, durante a adolescência, fora uma coisa comum e, por isso mesmo, eminentemente normal, segundo o padrão que ela invocava.

— Antes de nos embrenharmos na série de perguntas sobre a actividade sexual conjugal, talvez deseje uma breve pausa—disse Paul. — E se fumássemos um cigarro?

— Como quiser.

— Na verdade eu fumo cachimbo. Não a incomodo?

— De maneira nenhuma.

Paul ouviu o estalido do fecho da mala dela. Ele tirou o cachimbo do bolso, encheu o fornilho e acendeu-o. Depois, tal como já antes fizera, agarrou no questionário e voltou a considerar os primórdios da entrevista.

A mulher chamava-se Kathleen Ballard, de vinte e cinco anos, nascida em Richmond, Virgínia. Aos doze anos mudara-se para S. Francisco, coisa que se notava no seu ligeiro sotaque sulista, perceptível nalgumas palavras, e a sua educação tivera lugar no Colégio Roanoke e na Universidade de Richmond, tendo também frequentado a Sorbona por breve espaço de tempo — o que se devia ao facto de o pai, já falecido, ter sido um militar de alta patente que se deslocava de um para outro lado com frequência. Tal como Paul, ela, por educação, pertencia à igreja presbiteriana, mas era indiferente à religião por vontade própria. Recentemente filiara-se numa congregação em The Briars, mas somente para que a filha pudesse ter a vantagem da escola dominical. Era viúva. O marido, com quem tinha vivido durante três anos, fora um piloto de ensaios nos jactos
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e morrera num acidente de aviação ocorrido um ano antes.

Paul sentira dentro de si um curioso conflito emocional quando a ouvira contar a morte do marido. A sua primeira reacção, bárbara e espontânea, fora de alívio. Porquê alívio? Para si mesmo deu a explicação de que uma mulher como aquela não devia ser propriedade de nenhum homem, não devia estar reduzida ao lugar-comum de um bem móvel dado como garantido. Além disso, sendo ela livre, as suas fantasias tornavam-se menos imaturas. Logo foi assaltado por um velho sentimento de culpa, substituindo a sensação de alívio pela sensação, mais hipócrita, de pena.

Agora, a chupar o cachimbo, preparando-se para entrar nas perguntas mais graves a respeito do coito conjugal, relacionou subitamente o apelido dela com o do grande piloto de ensaios Ballard. Sim, aquela devia ser a viúva de Boy Ballard, figura legendária, que, durante muitos anos, enchera as primeiras páginas dos jornais. Imediatamente se sentiu embaraçado pelas fantasias com que se deixara arrastar. Sentiu-se como um limpa-chaminés na presença de uma rainha. Mas, novo relance ao questionário restituiu-lhe a confiança. Afinal ela era apenas uma mulher.

Poisou a folha de papel em cima da mesa, colocou o cachimbo no cinzeiro de loiça e pigarreou para aclarar a garganta.

— Muito bem, já tivemos a pausa que refresca.1 Se está preparada, estou inteiramente ao seu dispor.

— Sim, já estou preparada.

— As perguntas que agora lhe vou fazer relacionam-se unicamente com o período em que viveu com seu marido. Para começar, qual era a frequência com que mantinham relações sexuais?

Do outro lado do biombo, Kathleen Ballard, envergando o seu vestido azul-claro, de linho, estava sentada na cadeira, numa posição rígida. Mal acabara de esmagar a ponta do cigarro no cinzeiro e já procurava outro cigarro na mala.

— Ora, deixe-me pensar...

Eis finalmente chegado o momento que ela mais receara que chegasse durante todos aqueles dias. Mas estava preparada para ele. O encontro com Úrsula Palmer na terça-feira de manhã, perto

1 - Alusão ao célebre slogan do anúncio da Coca-cola (Nota do tradutor).

da estação dos Correios, fora oportuno. Tinham estado a tomar chá no Crystal Room, e Úrsula, com o seu privilegiado cérebro de jornalista, explicara-lhe totalmente a experiência. Já ao volante do seu carro, depois do chá, Kathleen agarrara num lápis do compartimento de luvas e desatara a rabiscar nas costas de um livro de contas da garagem tantas perguntas quantas se pôde lembrar das que faziam na entrevista Chapman, especialmente as relacionadas com a vida conjugal. Por causa disso chegara dez minutos mais tarde à escola de dança, onde fora buscar Deirdre. Tanto nessa mesma noite como na noite seguinte, quer na cozinha, na casa de banho ou na cama, mantivera sempre à sua frente as notas que tomara, pensando intensamente na sua vida com Boy e nas perguntas que lhe seriam feitas.

Agora, com um novo cigarro entre os dedos já manchados de nicotina, imaginava quem estaria dentro da razão. Seria ela ou um Scoville, o biógrafo oficial de Boynton, e J. Ronald Metzgar, o guarda do santuário? Estariam eles certos e ela errada? Mas era já demasiado tarde para os remorsos. Encontrava-se a enfrentar aquilo — submetida à análise daquele homem profundo e sabedor, que se encontrava por trás do judicioso biombo — e não podia fugir. Além do mais, estava preparada para o caso.

— Desculpe, mas se não se importa pode voltar a fazer a pergunta?

— A frequência da....

— Ah, pois claro. Três vezes por semana — disse apressadamente.

— Era a média?

— Mais ou menos, quando meu marido se encontrava em casa. Ele passava muito tempo fora.

— Antes do coito devotavam certo tempo às excitações amorosas?

— Evidentemente... —também estava preparada para aquela Pergunta.

— Pode fazer uma descrição?

Ela descreveu apressada e atabalhoadamente as carícias.

— Em média, quanto tempo consagravam a essas carícias?

Kathleen, por instantes, sentiu-se invadida pelo pânico. Úrsula


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não lhe falara daquela pergunta. Ou ter-se-ia ela esquecido de a anotar? Não, Úrsula não se teria esquecido de nada. Estranho. Úrsula era uma criatura tão meticulosa... Talvez não lhe tivessem feito a pergunta. Mas porque não na sua entrevista e porquê agora? Em média, quanto tempo?... Como é que havia de responder? Qual seria o tempo habitual? Uma hora? Demasiado fantasioso. Pareciam--Lhe carícias a mais.

— Cinquenta minutos — respondeu.

Friamente, como pensava que devia parecer, Kathleen, sem hesitação, continuou confiantemente a descrever proeza, magníficas, prazeres incríveis, sempre manifestando ser o protótipo da mulher esclarecida, sabedora.

Tinha respondido a uma pergunta crucial. Houve um momentâneo silêncio, e Kathleen fitou o biombo, imaginando a aprovação do homem que por detrás dele se encontrava.

—Tal como tenho aqui assinalado — disse Paul —, a senhora e seu marido tinham relações sexuais três vezes por semana, dedicando cinquenta minutos às carícias preparatórias, no conjunto uma hora dedicada a fazerem amor. Está certo?

O cigarro quase queimou os dedos de Kathleen. Ela apressou--se a esmagar a ponta no cinzeiro. Sob a sua pele havia filamentos nervosos que saltitavam e era-lhe quase impossível engolir a saliva.

— Está certo — respondeu alteando a voz. Demasiado alta,

pensou. Bem vê... é difícil lembrar-me com exactidão.

Mais perguntas feitas com exagerado cuidado, pensou ela espantada.

Mais respostas irreflectidas, pensou ele admirado.

— Até que ponto sentia o prazer dessas relações íntimas com o seu companheiro? Com muita intensidade, alguma, assim-assim, ou nenhuma?

— Senti sempre imenso prazer nelas. Não será uma sensação normal?

Às cinco e dez, Paul Radford afastou a cadeira com ruído para lhe indicar claramente que a entrevista terminara.

— Excelente. Temos aqui tudo o que necessitamos. Os nos

sos agradecimentos.

— Foi uma entrevista fácil. Obrigada.

Paul apurou o ouvido. Sentiu-a tirar a mala de cima da mesa, o ruído dos saltos dela a taconearem no chão, a porta a abrir-se e fechar-se. Finalmente, ali estava sozinho em frente da história sexual codificada da viúva Kathleen Ballard.

Mal-humorado, agarrou na folha de papel e deu a volta ao biombo. Tinha vinte minutos de intervalo até a entrevista seguinte. Decidiu aproveitá-los para ir beber uma chávena de café à sala de conferências; bem precisado estava dela. Ao entrar no lado interdito onde se sentavam as mulheres durante as entrevistas, ficou um momento parado a contemplar a cadeira, agora vazia, e o cinzeiro onde se viam seis ou sete pontas de cigarros. Reparou então que, no chão, por baixo da mesa, se encontrava caída uma carteira.

Baixou-se e apanhou-a. Era uma carteira de um tom verde--escuro, com formato inteiramente feminino. Uma vez que ninguém se sentara naquela cadeira durante a manhã, adquiriu a certeza de quem era a proprietária. Pensou como diabo teria ela deixado cair aquele objecto, e a seguir imaginou o que devia ter acontecido. Nos primeiros momentos da entrevista, Kathleen deixara cair a mala de mão, pedira-lhe até para suspender a entrevista durante alguns segundos, enquanto apanhava os pertences que se tinham espalhado pelo chão. Fora nessa altura que se esquecera da carteira, provavelmente por lhe ter passado despercebida.

Observou o interior da carteira justificando o seu acto, agora que sabia quem era a proprietária, alegando que queria ter uma certeza. No compartimento reservado às notas havia uma de cinco dólares e duas de um dólar, no outro lado cartões e talões de crédito para restaurantes e compra de gasolina. Nas partes centrais de celulose viu, de um lado, a carta de condução e, do outro, a fotografia da viúva Ballard. Era uma fotografia em formato de postal que a mostrava juntamente com uma menina. Sabia muito bem que era aquilo que buscava com tanto afã desde o início.

Olhou atentamente a foto. Não ficou surpreendido. Correspondia quase ao que idealizara. Linda, com um encanto que o fez ficar de aspiração suspensa. Durante muito tempo estudou aquele maravilhoso rosto; o cabelo negro, curto, os olhos orientais, o petulante nariz e a boca sensuai.
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Por fim fechou a carteira. Tinha que a dar a Benita para que esta fizesse a entrega.

Meteu a carteira no bolso, em seguida olhou fixamente o questionário da entrevista, aquele questionário muito menos real, muito menos verdadeiro que o seu rosto onde avultavam os lábios escarlates.

Por instantes manteve a folha de papel suspensa, depois, com um movimento brusco, misto de desespero e desapontamento, ras-gou-a em duas partes.

Porque teria ela mentido?

No corredor, viu Benita sentada à secretária a escrever uma carta.

— Há café?

— Está em cima da chapa.

Paul acenou com a cabeça e encaminhou-se para a sala de conferências. Não lhe deu a carteira.

Kathleen Ballard estava em frente do painel de ferro forjado, estilo espanhol, do seu bar. Colocava dois cubos de gelo dentro dos copos, sentindo-se pouco à vontade por saber que os olhos de Dyson não se despregavam do seu corpo. Ao deitar o scotch sobre o gelo — em boa verdade não lhe apetecia outra bebida —, sentia--se desgostosa por ter posto aquele vestido preto que lhe descobria os ombros e lhe moldava perfeitamente as coxas, por ser curto e demasiado estreito. Se ele a fazia sentir-se como se estivesse despida, qual não seria a impressão causada em Dyson?

Devagarinho, começou a mexer as bebidas, esquecendo-se de que não fizera a mistura de água e, portanto, não precisavam de ser agitadas. O caso é que fora ela quem, entre o seu guarda-roupa, escolhera cuidadosamente aquele vestido. Fora de livre vontade que levara Deirdre para casa dos Keegans, a fim de lá passar a noite e, depois de o jantar estar preparado, mandara Albertine embora, duas horas mais cedo do que era habitual, dizendo-Lhe que queria ela mesma servir a refeição. O que é que a levara àquele procedimento?

Tornava-se evidente que a entrevista exercera uma influência

decisiva. Enfrentara-a e levara engatilhada a mentira. A prova havia sido doentia, envolta em todas aquelas perguntas desagradáveis, indiscretas, quase inumanas, mas o pior de tudo era a sua consciência de ter enganado o pobre e zeloso entrevistador como se não passasse de uma mentirosa psicopática. No entanto tomara-se-lhe necessário arrostar com o exame de modo a manter a resolução que tornara a respeito da sua vida passada, tendo sido ao mesmo tempo preciso mentir, dado que esse mesmo passado fazia parte integrante do seu ser. O ponto-fulcro, porém, estava em que, poucos minutos após a entrevista, tivera a nítida consciência de que não queria continuar a viver agarrada a esse passado nem a deixar-se arrastar pelo curso de falsidade que ele representava. Queria iniciar vida nova, ser uma criatura normal. As perguntas que lhe tinham sido feitas eram uma vantagem de adaptação ao objectivo que traçam: passados um ou dois anos a partir desse momento, se tivesse outra vez que se prestar a uma tal entrevista, desejava estar liberta daquele peso, não sentir vergonha e poder responder honestamente a todas as perguntas.

Tinha sido essa a sua disposição de espírito ao regressar a casa, e daí a sua determinação em vestir-se daquele modo para aguardar a visita de Ted Dyson. Era possível que Ted não fosse o seu tipo de homem, mas não havia dúvida de que era um homem, e há mais de um ano, ia quase para dois, que ela não tinha nenhum; uma situação que parecia ir-se prolongar para toda a vida. Não, por Deus, afinal tinha vinte e oito anos e de modo algum se podia considerar uma mulher na verdadeira acepção da palavra.

Com um copo em cada mão, voltou as costas ao bar e viu que, na verdade, os olhos de Ted a espiavam atentamente. Ele estava meio deitado no sofá, numa posição indolente e sorna, e do seu todo desprendia-se uma sensação de confiança, de impudência. Kathleen não gostava da sua pose. De facto, assaltava-a certo receio de não gostar mesmo nada dele. Muito embora houvesse em Ted Dyson uma marcante virilidade, envolvia-o igualmente algo de irritante, de petulante, de corrupto, algo que fazia lembrar aqueles fachos fanfarrões, aqueles delinquentes juvenis que atiram graçolas as mocinhas, aqueles conquistadores de cordel que apareciam nos filmes e nas histórias que todos os dias vinham nos jornais. E con-


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tudo Ted era um velho amigo da família, sempre a respeitara, e o seu cartão de identidade lembrava que era um daqueles homens de elite com tanta frequência objectos de notícias de relevo.

Kathleen poisou o seu copo na mesinha de chá e entregou o outro a Dyson. Ao inclinar-se pôde sentir o bafo a álcool que se exalava dele. Presumia que tivesse estado a beber antes do encontro, e com aquela era já a quarta bebida que lhe servia.

Dyson aceitou o copo com a mão esquerda e, repentinamente, agarrou o pulso de Kathleen com a direita.

— Olá, meu oásis. Vamos, Katie... Senta-te aqui ao meu lado.

— Agora não, Ted. Tenho que ir pôr a mesa para o jantar...

— O jantar que vá para o diabo. Temos que falar.

A pressão dos dedos dele no seu pulso era firme e quase dolorosa.

— Está bem — respondeu. — Mas só por um instante.

Ted largou-lhe o pulso e, com o balanço, ela caiu positivamente contra as almofadas do sofá. Ao cair, as pernas levantaram-se-lhe, a procurar equilíbrio, e a estreita saia subiu acima dos joelhos. Procurou puxá-la para baixo com frenesim, e observou que Ted sorria, um sorriso, de orgulho, ridículo. Sentiu que o braço dele lhe envolvia o busto.

Ted Dyson atraiu-a ao peito com firmeza e foi com relutância que Kathleen lho permitiu.

— Coisinha confortável. Ajustamo-nos lindamente—disse ele.

— Creio que sim — anuiu Kathleen em voz fraca. — Mas a mão dele que lhe afagava o braço oprimia-lhe o coração num sentimento de angústia.

— Afinal, disseste que tínhamos que conversar.

— Bom, não é uma conversa muito longa.

Ted fitava-a intensamente. O rosto dele quase junto ao dela desagradava a Kathleen.

— Queridinha, afinal o que é que se passa contigo?

— Que pretendes dizer com isso?

— É possível que queiras manter uma vida secreta, não sei... mas não é normal o modo como vives.

De novo aquela palavra que lhe trespassava o ser como uma lança afiada.

—Quem é que diz que não sou normal?—perguntou Kathleen, colericamente.

— Vamos, não te zangues. Só me queria referir ao modo como vives e à maneira como te comportas. Em dado momento mostras--te afável, meiga, e logo a seguir mudas completamente de feição. Será que ainda continuas a queimar velas pelo Boy?

— Tu sabes muito bem o que se passa.

— Da última vez que estive aqui em casa, quis ficar contigo e parece-me que fiz grossa asneira. Correste positivamente comigo.

— Estavas embriagado.

— Queres dizer na tua que se não estivesse bêbedo poderias ter feito amor comigo?

— Não deves falar dessa maneira.

Os olhos dele tinham um brilho estranho.

— Talvez seja esse o mal. Na verdade, parece que falo de mais.

— Não foi isso que quis dizer.

— Ou talvez que a imagem do Boy ainda te persiga e seja

reciso afastá-la de uma vez para sempre com uma noite bem

assada...

Kathleen sentiu-lhe o ardente hálito.

—Vamos afastó-la imediatamente—murmurou ele, enlaçando-a com firmeza e premindo os lábios contra os dela.

Kathleen já sabia que aquela situação era inevitável. Tinha-a ntevisto, planeado e, ao mesmo tempo, havia-a receado com todo seu ser. Agora tinha acontecido. E era uma coisa normalíssima. álvez que se não pensasse, se se deixasse arrastar, como quem lutuasse nas nuvens, se deixasse que os lábios dele continuas-em a carícia e as suas mãos lhe afagassem o corpo, acabasse or se ver livre daquela opressão e passasse a sentir-se, na verda-e, uma pessoa normal. Os lábios dele eram secos e amargos, o eu hálito passava para a boca dela, e Kathleen, debilmente, ten-ou corresponder, esmagou a boca contra a dele, as trementes mãos entaram enlaçar-lhe o pescoço.

As suas bocas permaneceram assim por momentos e depois fastaram-se.

— Boa mocinha... maravilhosa — murmurou Ted.
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Voltou a beijá-la, e Kathleen fechou os olhos para receber o beijo. Sentiu-se apertada nos braços dele e sentiu a sua mão a percorrer-lhe as costas, procurando o fecho do vestido.

— Minha querida... minha linda boneca...

Ted murmurava-lhe aquelas palavras com os lábios contra o seu ouvido. Kathleen queria lutar e ao mesmo tempo forçou-se a estar quieta. O fecho do vestido estava liberto, teve consciência de que o homem se estendia a seu lado.

Kathleen gemeu, detestando-se pelo ódio que aquilo lhe causava, mas Ted interpretou o som que lhe saíra dos lábios como um gemido de prazer; excitado, lançou-se ao trabalho de lhe puxar o vestido para baixo.

— Ted... Ted... — gritou ela.

— Calma, querida... é só um minuto Kathleen tentou afastá-lo.

— Não, Ted... Não...

— Desejo-te, minha querida... quero-te...

— Ted, escuta...

Porém ele não queria ouvi-la. Kathleen procurou-lhe as mãos, agarrou-as com toda a sua força e afastou-as do seu corpo.

— Querida, tu precisas de mim...

— Não! Pára já com isso!

Espantado pela veemência dela, Ted afrouxou o amplexo e, sem se mover, olhou-a bem nos olhos.

— Estiveste a pedir isto, a provocar-me durante toda a noite —

disse ele raivosamente. — Que raio de bicho é que te mordeu ago

ra?


— Não te desejo a ti nem a ninguém! Ted fez uma careta.

— Não é assim que falam as prostitutas.

Cheio de confiança em si, Ted procurou novamente despojá-la do vestido. Kathleen fugiu ao seu amplexo e aplicou-lhe uma violenta bofetada.

Ted foi projectado para trás e teve que se apoiar à mesa de chá para não cair. Finalmente, endireitou-se, e Kathleen aproveitou o ensejo para se sentar e apertar o vestido.

— Afinal que espécie de víbora és tu?... — rugiu ele,

descontroladamente. — Primeiro deixas um homem avançar e depois...

— Não me importo que me beijes, mas quando tentas tratar--me como se eu fosse uma dessas raparigas fáceis que costumas ter...

— Queres então dizer que só as prostitutas é que se entregam a um homem? Afinal, o que é que se passa contigo?

— Não se passa nada de extraordinário comigo! — Sentiu a quase histeria que lhe vibrava na voz, queria poder gritar, chorar a sua raiva.

— Sim, na verdade direi que contigo não se passa nada. Mesmo nada. És apenas frígida como um bloco de gelo.

— Rua! — rugiu a voz dela.

— Diabo, tens toda a razão. Vou-me embora.

Ted levantou-se e passou as mãos pelo cabelo.

— Queridinha, para outra vez se te quiseres encontrar comigo, ou com quem quer que seja, primeiro tens que marcar entrevista pelo telefone, e aconselho-te a que o faças... se não, depois, será já muito tarde e não passarás de um saco vazio e sem préstimo.


— Que Deus me livre de ti. Rua!

— Está bem, está bem.

Ted abanou a cabeça em sinal de anuência e dirigiu-se para a porta.

Já tinha ouvido falar em mulheres frígidas, mas a verdade é que nunca tinha tido um encontro com um icebergue. Abriu a porta mas, antes de sair, voltou-se.

— Pobre Boyton! Agora já o posso compreender; não o culpo por ter andado com todas aquelas raparigas!...

— Meu filho da mãe...

Kathleen deitou a mão ao pesado cinzeiro de vidro, mas, antes que lho pudesse arremessar, já ele tinha saído.

Kathleen Ballard estava sentada no sofá com as pernas dobradas por baixo do corpo. Há longo tempo que permanecia assim, fumando incessantemente e com os olhos fitos no vazio. Acudiam-■Lhe à ideia, em tropel, as imagens daquela noite e recordava-se de


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centenas de outras noites de solidão, uma vida inteira... Porém nunca se sentira assim tão abandonada.

Finalmente, quando se esbateu a recordação do fracasso e se esfumou a lembrança opressiva daqueles momentos, levantou-se e dirigiu-se à cozinha. Desligou o fogão. Não tinha vontade de comer. Decidiu que era melhor ir para a cama e ler até que chegasse o sono.

Começara mecanicamente a tirar do fogão a comida que ainda se podia salvar e a metê-la no frigorífico, quando soou a campainha da porta. Por momentos, sentiu receio de que fosse de novo Ted, vindo abjectamente desculpar-se. Hesitou. O relógio eléctrico por cima do fogão marcava oito e vinte. Algo lhe disse que não devia ser Ted, que ele nunca mais voltaria.

Dirigiu-se para o pequeno hallda entrada, acendeu as luzes do patamar exterior e abriu a porta.

A um passo do capacho da entrada estava postado um homem alto, desconhecido para ela, que tinha na mão uma carteira e lhe sorria acanhadamente.

— Lamento imenso vir incomodá-la, Mrs. Ballard. Muito embora nunca nos tivéssemos visto, creio que já nos conhecemos.

— Receio bem não saber quem o senhor é — disse Kathleen, com modos impacientes.

— Chamo-me Paul Radford e sou um dos elementos da equipa do Dr. Chapman.

— Dr. Chapman? Mas não compreendo...

— Eu sei que isto é irregular, porém...

Repentinamente, Paul viu que no rosto dela transparecia es

panto e indignação.

— Já nos conhecemos? Quer dizer que... Foi o senhor que me

entrevistou hoje?...

Paul acenou com a cabeça afirmativamente.

— Fui. Evidentemente que isto não é um caso habitual, mas

pensei que tivesse necessidade da sua carteira. Encontrei-a no

chão, depois da sua partida.

Paul estendeu-lhe o objecto que tinha na mão. Corada, Kathleen hesitou um breve segundo, acabando por aceitar o que lhe era entregue. Evitando o olhar dele, abriu a carteira.

— Sim, pertence-me — disse finalmente. — Suponho que lhe devia agradecer, mas a verdade é que não estou disposta a fazê-lo.

— Ficou aborrecida? — o sorriso de justificação e desculpa desvaneceu-se do rosto de Paul.

— E não pensa que tenho esse direito? — perguntou ela, com calor. — Só acedi a essa estúpida entrevista porque me foi asseverado que se tratava de uma coisa decente, discreta, e porque me garantiram que seria perfeitamente anónima. Ora, calcule como me devo sentir ao ver o entrevistado em minha casa.

— Bem, não é precisamente aquilo que a senhora imagina.. Se me deixar explicar poderá continuar com a certeza de que a entrevista permanece na mesma completamente no anonimato. Não me resta a mais leve recordação de...

— O que julgo é que tudo isto é totalmente errado. A sua conduta é repreensível, e sem possível desculpa a afronta que um tal caso representa. Nem sequer sou capaz de lhe reproduzir em palavras quanto o caso me afecta. Vendo-o aí especado a olhar para mim depois de tudo o que ouviu... bem, faz-me sentir como que obscena, imunda.

Paul, surpreendido pela fria cólera que se manifestava naquele lindo rosto, esteve por momentos quase tentado a dizer-lhe que, pela entrevista, nada ficara a saber dela a não ser que mentira. Todavia, em vez disso, compreendendo que a exaltação dela era igualmente uma resultante do que se passara na entrevista, proferiu:

— Peço imensa desculpa por ter vindo perturbá-la tanto. Nem imagina quanto lamento o meu acto.

— Então por que motivo veio a minha casa?

Paul hesitou, balançando entre aquilo que desejava dizer-lhe e aquilo que devia dizer-lhe. De súbito, esse problema deixou de ter importância para ele.

— A verdade é que vi a sua fotografia dentro da carteira e quis

saber se era uma criatura real, se de facto existia. Não lhe posso

dizer mais que isto. Foi um erro da minha parte proceder assim, e

espero que me possa perdoar. Boa noite.

Voltou-lhe as costas e, em largas passadas, dirigiu-se rapidamente para a curva da estrada.
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■i

0 Relatório Chapman 321



Kathleen não se afastou do limiar da porta, ficando a observar o homem até que ele desapareceu tragado pela noite. Então, a sua ira transformou-se num sentimento de vergonha.

Antes, já tinha procurado a palavra frígida no dicionário: significava carecida de ardor, falta de calor. Tinha ainda mais significados e, para ela, era a palavra mais feia que existia.

Passados alguns segundos fechou a porta. Encaminhou-se para a casa de banho e tomou um comprimido para dormir. Pelo menos não seria perturbada por sonhos.

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Diário de Benita Selby. Sexta-feira, 29 de Maio: «... à minha secretária da Associação Feminina de The Briars. São precisamente dez horas e dez minutos da manhã. Quase que nem posso acreditar que tudo isto em breve esteja terminado. Encaro o fim com uma mescla de emoções. Se por um lado acabará toda esta excitação, por outro será para mim um alívio, dado que têm sido catorze meses de trabalho intenso. É este o quarto dia de entrevistas em The Briars, e ainda temos que cá passar mais nove, sete dos quais inteiramente devotados ao trabalho. Recebi esta manhã uma longa carta da mamã. Diz que está pior da arterite. Toda a gente, com excepção do Dr. Chapman, parece andar nervosa. Ao passo que o doutor se mostra sempre agradável, Cass está cada vez mais quezilento. Poderia ser um homem bastante atraente se não fosse tão sarcástico. Hoje durante o pequeno-almoço mostrou-se verdadeiramente impertinente. Queixou-se de dores de cabeça e, quando eu lhe disse que devia ser do fumo, fez uma observação acintosa a respeito do meu diário. Frisei-lhe que não sabia o que seria de nós sem os diários e apontei-lhe os nomes de Philip Hone, Samuel Pepis, os irmãos Goncourt, Stendhal e André Gide. Isso fê-lo calar-se. O Dr. Chapman disse que esperava que eu fosse discreta, porque temos inimigos, e eu assegurei-lhe que podia ter toda a confiança em mim. Sinto cada vez mais que este diário será um maravilhoso registo de certo período histórico nas ciências rnodemas. Quero dizer na minha que servirá para humanizar a Personalidade do Dr. Chapman, se alguma vez for lido pelo público.



«Quando cheguei aqui já cá se encontravam Horace e Paul. Horace, como habitualmente, estava perdido a um milhão de quiló-
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metros de distância, e Paul parecia apoquentado com alguma coisa. Paul costuma estar sempre de bom humor, mas claro que todas as pessoas têm direito ao seu dia mau. Às nove horas introduzi as primeiras três mulheres, que estão a ser ouvidas neste momento. Atendi duas chamadas telefónicas. Uma do director de publicidade de um estúdio cinematográfico a convidar o Dr. Chapman para um almoço de apresentação e consagração de uma película sobre as mães adolescentes e solteiras. O Dr. Chapman declinou o convite por achar que o facto nada tem de dignificante, mas disse que de boa vontade faria uma conferência sobre o sexo e conduta na Corporação dos Produtores, coisa com que eles concordaram atabalhoadamente. Será tudo preparado. O outro telefonema era de uma senhora que me pediu para transmitir um recado a Paul. Disse que, dentro das horas que fossem mais convenientes para Paul, gostaria de se encontrar com ele no Crystal Room para almoçarem. Frisou que lhe telefonasse para lá se ele não pudesse comparecer. Respondi-lhe que a hora mais conveniente para Paul era o meio-dia. A senhora tinha uma bonita voz, assim como a de Margaret Sullavan e outras estrelas. O seu apelido é Ballard, Mrs. Ballard. Que interesse terá Paul em encontrar-se com uma mulher casada?...»

Quando Paul chegou ao Crystal Room, viu Kathleen sentada num dos compartimentos privativos do grande salão. Estava pensativa, a fumar e a brincar com uma caixa de fósforos que rodava distraída. Por momentos Paul ficou à entrada, encoberto por um grupo de recém-chegados, a observá-la. Não fora errado o seu primeiro julgamento. Kathleen era uma mulher distinta, elegante, bela. A cólera da noite anterior cedeu à curiosidade e também a um certo sentimento da aventura.

Paul encaminhou-se ao encontro dela.

— Boa tarde, Mrs. Ballard.

Kathleen levantou os olhos com rapidez.

— Oh, viva! Como passa? — parecia ter ficado aliviada de qual

quer peso.—Quase me convenci de que não viesse; e não o culparia

por isso. , .


— Com certeza não acreditou que fizesse uma coisa dessas. Sentou-se no lugar fronteiro a ela.

— Bom, seja como for, sinto-me contente por ter vindo. Paul sorriu.

— E eu que pensava que não a tornaria a ver. Kathleen corou.

— Quero que compreenda que não é meu hábito telefonar a

desconhecidos para lhes marcar encontro.

Paul esteve prestes a dizer qualquer coisa que a iria arreliar; conteve-se porém a tempo, por vê-la tão ansiosa por se desculpar.

— Esta manhã, porém, ao acordar, vi que o meu comportamento da noite passada tinha sido horrível. Senti-me preocupada... pensei: que irá o pobre homem julgar de mim?

— O pobre homem pensou que a senhora era uma contumaz perdedora de carteiras, e que se aborrecia quando lhas iam entregar.

— Talvez fosse isso o que mais me perturbou. Afinal, de contas, o senhor apenas me quis fazer um favor.

—O que não corresponde inteiramente à verdade, Mrs. Ballard.

Kathleen f itou-o surpreendida, e Paul pôde ver as longas e sedosas pestanas que punham uma sombra nos seus olhos orientais.

— Não o compreendo.

— A verdade é que estava unicamente a prestar um favor a mim próprio. Ontem à noite a senhora teve toda a razão para proceder como procedeu. Não quero que se atormente mais. Claro que foi pouco ético da minha parte, como investigador, dar-me a conhecer a uma entrevistada. Normalmente, teria agido de outra maneira. Faria a entrega da carteira a Miss Selby — a nossa secretária — e ela se encarregaria de lhe telefonar para que a senhora fosse buscar o objecto perdido à Associação. Tudo se teria passado de uma forma correcta e perfeitamente asséptica, sem o toque da marca de humanidade. Todavia, aconteceu que eu abri a sua carteira para saber quem era a proprietária. Descobri a sua fotografia e senti um irresistível impulso de a ver em carne e osso. São estes os factos nus e crus. Por isso sou eu que lhe devo todas as desculpas.

Kathleen baixou os olhos, fixando-os no serviço de prata que
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adornava a mesa. Ao seu pensamento acudiam muitas interrogações. Que quererá ele dizer com isto? E porque é que me revela o seu procedimento? Franziu as sobrancelhas, lembrando-se de que ele a tinha entrevistado e que durante essa entrevista escutara todos aqueles pormenores lascivos. Pensa talvez que eu sou uma tarada sexual, uma devoradora de homens?

Observando as minúcias do rosto dela, Paul ficou indignado. Aquela mulher parecia estar a tomar a franqueza de que usara como uma tentativa de sedução. O seu pensamento fervilhou. Que estará ela a magicar? Pensará que lhe estou a fazer um namoro descarado? Meu Deus, ainda aquela estúpida entrevista... deve estar a julgar que pretendo...

Um criado já entrado em anos, com um impecável uniforme vermelho e azul de botões dourados, estava junto da mesa.

— Antes do almoço desejam que lhes sirva alguma bebida?

Paul levantou os olhos para o criado e depois fixou-os em

Kathleen.

—Alinha comigo numa bebida?

— Creio que sim. Um martini.

— Traga dois, bastante secos — ordenou Paul ao criado.

Este, depois de anotar o pedido no seu livro de talões, desapa

receu silenciosamente.

— Mrs. Ballard — disse Paul, voltando a concentrar a sua atenção em Kathleen —, penso que a senhora deu às minhas palavras uma interpretação muito errada e que ficou ofendida.

— Não.

— Se imaginou, por um momento só que fosse, que qualquer coisa relacionada com a entrevista exerceu a sua influência no facto de a ter procurado... bem, posso assegurar-lhe que isso não corresponde a nenhuma verdade. Para ser totalmente honesto, devo dizer-lhe que são tantas as entrevistas que tenho feito que julgo completamente impossível relacioná-las com as pessoas como entidades particulares. De nada me lembraria, ainda que a senhora fosse uma ninfomaníaca, uma lésbica ou uma alcoólica.



Por fim ela sorria.

— Uma alcoólica? — perguntou admirada.

— Sim. Eu teria detectado esse facto pela incerteza da sua

voz... e confirmá-lo-ia ontem se visse o seu rosto rubicundo e a tremura das suas mãos.

— Ah! Quer dizer que o senhor também tem uma costela de

SherlockHolmes?

Durante alguns momentos o colóquio permaneceu naquele tom, cheio de formalidade e inofensivo, sendo finalmente interrompido pelo aparecimento dos martinis.

— Bem — disse ele, dedicando-lhe uma saúde com o copo

erguido—, à senhora... por ter tornado possível outro dia.

Kathleen imitou-o. Beberricaram.

— Isto é forte — disse Kathleen.

— Assusta-a uma azeitona decrépita?

Ela deu uma gargalhada.

De repente ambos tomaram consciência de que ou nada mais teriam a dizer um ao outro ou teriam que revelar tudo. Kathleen nada conhecia daquele homem e pensava se seria correcto fazer--Lhe tais perguntas. Por sua vez, Paul já conhecia alguma coisa da vida dela, mas talvez não se atrevesse a levantar a questão.

— Trabalhou sempre nisto? — perguntou por fim Kathleen.

— Nem sempre. Faço este trabalho de pesquisa há poucos anos. Antes disto era uma espécie de professor e de escritor de ocasião.

— E o que é que o levou a abandonar essa carreira?

— Quase que estou tentado a ser irreverente. Se na verdade o fosse, diria que todo o meu interesse se fixou no sexo e no dinheiro. Uma ruína. Mas, na realidade, não foi isso que me tentou. Julgo que me entusiasmei pela possibilidade de poder trabalhar com o Dr. Chapman e por estar dentro de uma pesquisa tão importante. Suponho, porém, que há dentro de mim um escaninho secreto que ainda me leva a pensar em mim como um escritor — não como um ex-escritor — e tento-me a crer que um dia tudo isto ainda me será muito útil. Quando for um velho caduco poderei ir escrever para Monte Cario, alojado numa pequena pensão...

Fez uma ligeira pausa, considerando o que poderia dizer a seguir.

— Existe uma outra coisa que nunca disse a ninguém, uma

coisa que tem feito parte do meu subconsciente, mas que está
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agora a vir à superfície. Acho que o que me levou a aceitar este trabalho foi o facto de poder encontrar algo a respeito de mim mesmo nas pesquisas a tantas vidas alheias.

— O senhor também já foi examinado? Quero dizer, da forma como entrevista os outros.

— Não. Quando me liguei ao Dr. Chapman, já tinham acabado todas as sondagens sobre os celibatários. Um dos meus colegas foi entrevistado pelo Dr. Chapman e, evidentemente, Chapman pesquisou-se a si próprio.

— Então isso é uma coisa possível?

— Eu diria que é impossível... a não ser no respeitante ao Dr. Chapman, que é uma pessoa notabilíssima a todos os títulos.

— Achei impressionante a conferencia dele.

— É sempre assim. É uma pessoa inteiramente adaptada aos seus termos. Como ser humano é uma criatura sólida, equilibrada, simples e dedicada. É bom sentirmo-nos a gravitar na esfera de um homem como ele quando tudo à nossa volta parece incerto, sem solução, caminhos vários que se distribuem em todas as direcções sem que saibamos qual seguir. O Dr. Chapman tem sido um excelente exemplo para mim.

— Surpreende-me que necessite de alguém como exemplo — disse Kathleen. — O senhor parece-me tão seguro de si... isto é, dentro do bom caminho.

Paul sorriu.

— Simples fachada. Sou como qualquer outra pessoa. Por dentro existem demasiados corredores e escaninhos secretos, e todos nós por vezes nos perdemos nesses caminhos ínvios.

— Isso é uma verdade — confirmou ela solenemente.

— Bem, afinal o que tenho tentado dizer é que... bem, eis-me aqui... um solteirão de trinta e cinco anos. O pensamento disto surpreende-me por não ser aquilo com que sempre tinha sonhado.

— É possível que nunca se tenha enamorado.

— Tenho a certeza de que já estive várias vezes enamorado, embora de maneiras diferentes. É como o jogo da roleta. Se a pessoa tiver sorte e a bola parar no número certo, não há mais complicações, ganha-se. Seja como for, pensava que estar sentado por detrás daquele biombo, ouvindo, aprendendo, seria uma coisa que me

faria feliz. Agora já não tenho essa certeza. Na verdade, aquilo faz com que muitas coisas se libertem em nós, mas a confusão não desaparece completamente. Acabou a sua bebida.

— É possível que tenha razão. Na verdade, talvez nunca me

tenha enamorado. Talvez tenha medo de me enamorar.

Pensativamente, ficou a rodar o copo entre os dedos.

— Desconhecia que esses estados pudessem acontecer aos homens.

— Claro que sim. Até mesmo a homens casados.

— Sabe uma coisa? Nunca tinha pensado nisso.

Paul continuava a rodar o copo vazio entre os dedos.

—Tenho estado para aqui a falar de mais.

— Realmente. E tem a grande vantagem de saber tudo a meu respeito.

— Isso foi um assunto de trabalho, agora é um prazer.

— Significa que não sente prazer em conversar sobre sexo com mulheres tão diversas?

Paul notava uma censura na sua voz, mas não se perturbou.

— Depois de terminadas, são coisas que deixam de ter signi

ficado. Sinto prazer com o meu papel de confessor... como investi

gador que sou. É muito grato ver a evolução das estatísticas. Mas,

como pessoa — abanou a cabeça. — Em cada caso existe

sempre uma tristeza inevitável.

Ela fitou o copo.

— Estou incluída?

— Eu também estou.

Perscrutou-lhe o suave e melancólico rosto.

— Seu marido... estou a magicar se teria sido o tão famoso Ballard?

— Sim.

— Por vezes detenho o pensamento sobre as viúvas dos homens famosos. Por exemplo, nas viúvas dos presidentes. A perda sentida deve ser muito diferente daquela que se pode sofrer por um homem comum. Deve ser como um planeta que se eclipsa, um Planeta densamente povoado, pleno de actividade, que desaparecesse repentinamente.


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Aguardou. O rosto dela manifestava reserva.

Kathleen pensava: «Não é bem como um planeta desaparecido, mas sim como a sensação de um exército de ocupação que finalmente se retira do terreno conquistado».

— Sim, algo parecido com o que disse — respondeu.

— Conseguiu ajustar-se à solidão?

— É possível que o seu interesse por si próprio lhe tenha dado um ajustamento à solidão. Eu, porém, não tenho essa certeza.

Paul detectava certa limitação nas suas palavras, uma hesitação que não compreendia, algo que não se atrevia a aprofundar.

— Que faz agora? Em que é que ocupa o seu tempo?

— Faço exactamente aquilo que faz a maioria das mulheres, não apenas as viúvas, mas aquelas que ainda possuem os maridos.

Fez uma ligeira pausa.

— Estou à espera... rm — De alguém?

— De alguma coisa... que consiga explicar-me a vida.

Ali estava de novo o criado aguardando ordens. Repentinamente ambos tiveram consciência de que não estavam sós, o restaurante fervilhava de gente. Kathleen percorreu a ementa cuidadosamente, escolhendo o que lhe pareceu que ele esperaria que fosse do seu gosto.

— Bouillabaisse e pão torrado à francesa.

Paul encomendou a mesma coisa. Queria que ela soubesse que lhe apreciava o gosto. Enquanto o criado ficou a anotar os pedidos, Paul decidiu que mais tarde, quando estivessem para se ir embora, lhe pediria para se encontrarem de novo. Imaginou se a resposta dela seria afirmativa.

Diário de Benita Selby. Sábado, 30 de Maio: «...estamos a comer em conjunto num dos extremos da sala de conferências e a falar acerca de Cass. Cass não se apresentou a tomar o pequeno--almoço, e o Dr. Chapman foi dar com ele no quarto, com uma dor no estômago. Como pensou que se pode tratar de qualquer infecção relacionada com a gripe que grassa, o Dr. Chapman insistiu

para que Cass ficasse no leito, em repouso, encarregando-se de fazer as suas entrevistas marcadas para hoje. Recebi uma carta breve da mamã, onde me diz que quer mudar de médico, porque acha que o Dr. Rubinfeer não lhe concede tempo suficiente, exorbita muito nas contas e não faz com que a sua arterite melhore nem um bocadinho. Escrevi-lhe logo de manhã a recomendar que não tomasse nenhuma decisão sobre o assunto até eu chegar a casa. Na verdade, uma pessoa começa por depender dos cuidados de uma mãe e acaba sempre por ter que tomar conta dela para o resto da vida. O certo é que a pobre mamã está totalmente incapacitada. Mr. Borden Bush acabou de telefonar a confirmar para segunda--feira o almoço com o Dr. Chapman. Mr. Bush disse para eu lembrar ao Dr. Chapman para levar a lista das perguntas que quer que lhe sejam feitas quando aparecer nos ecrãs da televisão para o programa The Hot Seat, que será transmitido deste domingo a oito dias, por todo o país. Foi um programa combinado em Nova Iorque há três meses, como ponto culminante do fim da sondagem feminina efectuada pelo Dr. Chapman. Eu sinto-me excitada com o acontecimento, muito embora o Dr. Chapman pareça considerar o caso como uma coisa normalíssima. Antes de nos lançarmos ao trabalho, temos ainda quinze minutos de intervalo. Dá-me tempo para poder ler a Housedaye saber como é possível nascer um bebé por meio de inseminação artificial e porque é que aquela estrela de cinema deixou a sua brilhante carreira e abandonou os estupefacientes para se consagrar a Deus».

No átrio de espera do hotel, Úrsula Palmer estava ajoelhada junto à prateleira das revistas, preocupada em retirar alguns exemplares da Houseday parcialmente escondidos atrás de outras revistas rivais, colocando-os em lugar saliente. Aquela tarefa de ajeitar a revista era um hábito de há muito tempo enraizado, uma coisa adquirida automaticamente desde o momento em que passara a ser empregada de Bertram Foster. Confortava-a proceder assim, porque sentia que cada exemplar vendido da sua revista era mais uma 9arantia para o futuro que a esperava.

Levantou-se e olhou em volta para ver se alguém notara os


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seus movimentos. No átrio não havia, porém, mais de que uns quantos grupinhos de homens, que usavam grandes distintivos nas lapelas, sinal de que a cidade estava ocupada por outra convenção. Fitou os elevadores com nervosismo, esperando o aparecimento de Foster.

Começou a vaguear pelo espaçoso salão de espera, pensando no que lhe diria. Por fim, deteve-se junto de um enorme vaso ornamental a pensar naquilo que acontecera. O encontro com Foster fora marcado para a noite anterior. Ele deslocar-se-ia de Palm Springs para se reunir com ela, sozinhos os dois, a fim de que lhe pudesse ler os apontamentos sobre a entrevista. Ao verificar que não podia ter os apontamentos devidamente dactilografados, fizera um telefonema para Palm Springs de modo a explicar o atraso e cancelar o encontro. Fora Alma Foster quem atendera o telefone. Úrsula perguntara-lhe se estava a passar umas boas férias e Alma respondera que não. A seguir às rotineiras banalidades, Úrsula pe-dira-lhe para chamar o marido. Foster estava a jogar uma partida de golfe e, logo que acabasse, devia seguir para Los Angeles, aonde ia para tratar de um negócio de carácter especial.

«É precisamente disso que se trata — interrompera Úrsula. — O Sr. Foster não deve vir a Los Angeles, ainda não tenho as coisas preparadas para ele. Espero que a senhora ainda o possa avisar para que não faça a viagem.»

Seguira-se um silêncio desagradável do outro lado do fio, e logo Úrsula viu o disparate que acabara de cometer.

«Não esteja preocupada com o caso — respondera Alma de uma maneira cortante. — Conseguirei avisá-los».

Úrsula, com desespero, tentara remediar o mal feito.

«Mrs. Foster, trata-se de uma série de artigos. Pode fazer o favor de lhe dizer que ainda não tenho os apontamentos preparados. Quando as coisas estiverem prontas voltarei a telefonar».

O erro táctico havia sido cometido na manhã do dia anterior. Na manhã daquele dia o telefone de Úrsula tocara para lhe trazer a voz áspera de Bertram Foster. O telefonema não era de longa distância.

«Alma e eu regressámos ao hotel — dissera a voz dele com formalidade. — Minha mulher transmitiu-me um recado sem nexo a

dizer que você ainda não tem as notas preparadas. Julgo que é melhor vir ter comigo para se explicar com mais clareza. Por volta do meio-dia estarei no átrio do hotel».

Úrsula acabou por se sentar no maple, ao lado do grande vaso

ornamental, a tomar o peso à verdade que queria esconder com

uma mentira caridosa. Poderia por acaso contar a Foster que só

tinha um terço dos apontamentos dactilografados? Poderia dizer-

-Lhe que todas as vezes que tentara completar o trabalho se sentira

duramente atingida por todas aquelas perguntas e respostas da

ntrevista, e que as lera e relera pensando no seu passado e na

ida com Harold? Como explicar-lhe que, pela primeira vez, sentia

aver algo que se sobrepunha à sua carreira? Foster compreende-

ia? Não seria melhor lançar as culpas da demora para cima dos

mbros de Harold — a gripe grassava por toda a parte —, continuan-

o a exibir uma fachada eficiente e sem complexos?

— Ora ainda bem que a vejo por aqui.

Era a voz de Bertram Foster que lhe dizia aquelas palavras, e Úrsula quase deu um pulo do maple.

— Oh, Mr. Foster! Estou terrivelmente desolada por ter ocasio

nado um mal-entendido. Espero que o regresso à cidade não se

deva ao meu telefonema.

Foster emitiu um profundo ruído nasal.

— Deve-se mesmo a isso. E Alma também veio comigo.

— Sinto muito.

— Não se rale com isto. Afinal de contas, a vida comigo nunca foi o que se chama um piquenique. Quero apenas ter a certeza de uma coisa. O que é que disse pelo telefone?

— Nada de especial. Apenas que precisava de falar consigo. A sua esposa respondeu que o senhor se encontrava a jogar golfe e que depois do jogo tinha que vir a Los Angeles. Frisei-lhe que telefonara justamente por causa dessa viagem, disse-lhe que o meu trabalho estava atrasado e que o senhor não devia vir a Los Angeles até eu telefonar de novo. Não vejo onde é que está o mal naquilo que disse.

— Não vê o mal porque não é a Alma. Eu tinha-lhe dito a ela

que ia tratar de um negócio especial, mas não lhe revelei com quem.

A partir do momento em que Alma soube que se tratava de um
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ts

encontro com alguém que usa saias, o caso agiu nela como um verdadeiro veneno. Começou a atezanar-me como se fosse a minha consciência íntima de culpa e pecado. Mas afinal de que serviu isso? Ora aqui estamos juntos.

Perscrutava-a com os seus olhinhos, agora mais pequenos ainda devido à intensidade com que a fixava.

— O que se passa com os tais apontamentos? Você entrou no joguinho e relatou-lhes toda a sua vida sexual, hem?

— Sim, Mr. Foster. §
— A entrevista demorou mais de uma hora, não é assim? fe Úrsula fez um sinal afirmativo com a cabeça. '%>

— Então que é feito desses famosos apontamentos? •>

— Tenho-os em casa, mas... — deteve-se ao ver nas proximi

dades um grupo de homens que a miravam e que haviam sido

alertados pela referência ao sexo, feita em voz alta por Foster.

Úrsula sentiu-se pouco à vontade.

— Poderemos sentar-nos durante alguns momentos? Quero explicar-lhe.

— Venha daí.

Foster agarrou-lhe o braço e arrastou-a pela espessa alcatifa do átrio até um sofá junto da grande vitrina que dava para a rua.

— Ora cá estamos nós.

Sentaram-se.

— Tomei apontamentos de toda a entrevista — disse Úrsula apressadamente. — Registei com exactidão cada uma das perguntas e todas as minhas respostas. Enfim, um trabalho minucioso.

— Foi então assim, hem? Eh, está a corar?

— Acredite que ainda me sinto em estado de grande tensão, e não pode haver dúvida de que lhes contei a verdade, toda a verdade...

— Assim Deus a ajude?

— Oh, sim. Tenho os apontamentos numa espécie de estenografia que é meu habito utilizar. Já comecei a passá-los à máquina para lhos mostrar, mas, na segunda-feira à noite, repentinamente, Harold adoeceu. A febre apresentou-se elevada e tive que me ocupar dele. Hoje já se sente um bocadinho melhor.

Espero em breve poder apresentar-lhe as folhas dactilografadas.

— Não poderia contratar uma dactilógrafa para lhas passar com mais rapidez enquanto você ditava?

— De modo nenhum, Mr. Foster. Não permitiria fosse a quem fosse tomar conhecimento daqueles apontamentos... exceptuan-do-o a si... Seria como despir-me diante de uma pessoa desconhecida.

— Sim, suponho que sim — os olhinhos dele estavam agora mais brilhantes e tinha os lábios húmidos.

— Bem, só tenho mais uma semana à minha frente antes de partir. Marque-me um encontro.

— Que dia é hoje? Sábado, não é? Amanhã ainda tenho que tratar do Harold, mas na segunda-feira próxima começarei a trabalhar em força. Devo ter tudo pronto na quarta ou quinta-feira. Para ser mais certo, é melhor marcarmos o encontro para quinta-feira.

— Não pode ser antes?

— Tentarei, mas...

— Está bem Marquemos definitivamente o encontro para quinta--feira... quinta-feira à noite, aqui mesmo, iremos para o meu quarto. Arranjarei forma de afastar a Alma. Venha às sete horas, preparada para jantar comigo e beber umas coisas, vai ser uma longa...

Fitou-a intensamente durante um segundo.

— Espero que tudo esteja preparado.

— Estará.

— Já telefonei a Irving Pinkert e contei-lhe tudo sobre a nossa futura sociedade. Tal como prometi, ficou bastante impressionado. Por isso dê bastante sumo à coisa.

— Espero que não lhe falte sumo, Mr. Foster. Mas a verdade é que eu não sou nenhuma Madame Du Barry.

Foster colocou-lhe a mão sobre o joelho e afagou-lho.

— Todas as mulheres são Madame Du Barrys — disse ele

sentenciosamente.

Úrsula anuiu com um movimento de cabeça, meio convencida da verdade daquela frase e pensando na ida para Nova Iorque.

Mas um pouco depois, já a conduzir o carro no sentido leste do Wilshire Boulevard, à medida que aumentava a distância que a separava de Foster, Úrsula sentiu que diminuía em si a preocupa-
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ção por Nova Iorque. Tinha vencido todas as batalhas que a separavam do clamoroso triunfo final, mas a última batalha estava indecisa — a última batalha que era representada por Harold. O marido absorveu-lhe por inteiro todos os pensamentos e, ao chegar ao cruzamento de Roxbury Drive, em Beverly Hills, resolveu dirigir-se ao escritório dele, determinada a fazer-lhe uma surpresa e resolver de uma vez para sempre o problema da decoração.

O edifício, que se distinguia pelas suas colunatas brancas, era um dos poucos que não albergavam consultórios de psicanalistas ou de médicos de doenças nervosas. Ao lado do elevador, as tabuletas negras de grandes letras douradas indicavam que o prédio estava povoado por firmas de relações públicas, gerências comerciais e várias companhias de características enigmáticas. Como nunca mais visitara o local desde a primeira semana em que Harold para lá se mudara, Úrsula esquecera-se do andar em que o marido instalara o seu escritório. Encontrou-lhe o nome entalado entre uma firma de importações e uma agência artística, e meteu--se no elevador carregando no botão do segundo andar.

O escritório de Harold era o terceiro a contar do elevador. No

vidro martelado da porta — e teve que admitir que era impressionante

de ver — distinguiam-se as letras: }

HAROLD PALMER&C.â

Contabilistas diplomados.

O «C.a» — Úrsula sabia muito bem — servia como enfeite e chamariz de destaque da empresa. Harold teria preferido o «Ld.ã», se não o achasse demasiado pomposo e pouco comercial. Exceptuando um estudante de um instituto de comércio, entendido em contribuições e impostos, que lhe dava uma ajuda durante dois meses por ano, a firma de Harold só o tinha a ele como dirigente.

Sentindo-se plena de benevolência, como aquelas matronas dos clubes de caridade que durante o Natal se entretém a encher os cabazes de mantimentos destinados a bodo aos pobres, Úrsula empurrou a porta envidraçada e penetrou na sala de espera da firma «Harold e C.V Aquilo que a seus olhos se deparara encheu-a do mais profundo espanto. Da última vez que ali estivera, aliás última e primeira, vira naquela mesma sala um sofá ventrudo e com o estofo já ruço, uma cadeira meio cambada e de molas duvidosas no as-

sento estofado e, na parede, pendurada, a reprodução de um quadro de Orozco, que se tornava um verdadeiro pesadelo. Todo o mobiliário pertencia ao senhorio e estava emprestado até que o novo inquilino se tivesse instalado definitivamente. Agora, porém, a sala de espera sofrera uma transformação completa, estava diferente como o dia da noite, a mobília do senhorio tinha desaparecido, e o que se via tinha o ar da montra expositora de uma loja de decorações do Robertson Boulevard. A sala brilhava com uma frescura inovadora, pintada num castanho-claro cor de madeira, e pairava ali um certo ar boémio de uma salinha pertencente a uma corista escandinava que se devotava a viver uma vida exterior. Os dois sofás baixos e com almofadinhas coloridas, as cadeiras estofadas a tons claros, a secretária da recepcionista e a mesinha central eram de nítido estilo dinamarquês moderno; em cima da mesinha central, rodeado de exemplares da Réalitéeóa Verve, estadeava--se um alto e esguio solitário, à maneira sueca, com uma rosa vermelha. Nas paredes estavam pendurados quadros litográficos com reproduções de desenhos a carvão de Dufy, Matisse e Degas. Úrsula verificava tudo aquilo de boca aberta. Fosse o que fosse que sucedera, aquilo não lhe fornecia mais de que a prova que ali, pelo menos, a sua opinião tinha sido dispensada.

Ainda perturbada pelo que observara, encaminhou-se para a porta do gabinete privativo de Harold e bateu.

— Quemé?


— Eu, Úrsula.

— Ah, entra!

Úrsula empurrou a porta. A primeira coisa que feriu a sua visão foi a de um traseiro de mulher, amplo, túrgido, abundante, parecendo ainda mais volumoso porque a sua dona estava inclinada para a secretária de Harold, a depositar em cima do tampo um pequeno tabuleiro com um recipiente e copo de café e algumas sanduíches embrulhadas em papel celofane, que espalhavam pelo ambiente um cheiro a bife quente com molho de carne.

Harold parecia menos pálido e corcovado do que o costume. Acenou com a mão a Úrsula.

— Viva! A tua visita é uma verdadeira surpresa.

Tinha um ar ao mesmo tempo contente e receoso, como um


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estudante do liceu apanhado a fumar pelo professor de Moral.

— Calculo que sim — respondeu Úrsula com frieza.

A mulher endireitou-se por fim, e as suas nádegas deixaram de se apresentar com aquela exuberância transbordante, embora o seu volume continuasse respeitável. Era uma jovem de ar radiante, com o rosto tão brilhante e saudável como os tons da mobília que adornava o escritório. A sua frescura pouco habitual de ver foi um choque para Úrsula. O cabelo da jovem era de um loiro cor de palha, cortado muito curto, e os olhos de um azul-líquido pareciam dois discos buliçosos. Por baixo da sua camisola cor de limão, era quase escandaloso e obsceno o desenvolvimento mamário, e Úrsula sentiu-se contente ao verificar que as pernas dela não eram torneadas, pelo contrário caíam com a mesma grossura, como duas trancas. Tinha aquele ar de centenas de Gretchens, parecia uma daquelas vacas arianas de alto preço, uma daquelas raparigas da Hitler Jugendque costumavam exibir-se em exercícios ginásticos no grande Estádio de Nuremberga.

— ...a minha secretária, Marelda Zigner—dizia a voz do sátiro detestável sentado à secretária. — Esta é a minha esposa, a senhora Palmer.

— Muito prazer, Mrs. Palmer—cumprimentava Marelda Zigner, oferecendo-lhe um sorriso que lhe marcava duas covinhas no rosto.

Tinha um sotaque ligeiramente teutónico, e Úrsula bem sabia que não o perderia durante muitos anos da sua vida. Marelda voltava-se de novo para o sátiro.

— Chega-lhe isto para o almoço, Mr. Palmer?

— É mais que o suficiente, Marelda. Agora é melhor ir comer o seu almoço.

— Muito obrigada, Mr. Palmer — sorriu para Úrsula. — Com sua licença...

Os olhos de Úrsula seguiram as saltitantes mamas e as maneantes ancas. Depois da porta fechada voltaram-se para fixar o sátiro.

— Quem diabo é este objecto?— perguntou, fazendo um ges

to na direcção da porta.

—A minha nova secretária.

Harold parecia admirado da pergunta. f


— Falei-te dela a semana passada.

— Não me digas que ela também sabe escrever à máquina.

— Marelda vale bem as três secretárias que já tive.Estas alemãs são notáveis, meticulosas, limpas, eficientes...

— E com quarenta e dois de peito.

— Como?


— Não importa.

Úrsula designou a mobília fazendo um gesto circular.

— Como é que raio se operou esta transformação tão radical?

— Ah, a mobília? Vieram ontem entregá-la. Estavas tão ocupada com os Fosters que acabei por ficar impaciente, em especial desde que consegui a contabilização da firma Berrey. Não queria que ele viesse aqui ao escritório e pensasse que eu era um falhado. Foi por isso que eu e Marelda...

— Marelda?

— Sim. Foi uma verdadeira sorte para mim ela ter tirado um curso de Decoração de Interiores numa escola de Estugarda.

— Foi então ela que escolheu todo este mobiliário em estilo nórdico, hem? Ora, muito me contas...

— Pensei que gostasses, Úrsula. Já recebi esta manhã cerca de uma dúzia de felicitações pelo bom gosto da decoração.

— Isto é incongruente em absoluto. Não emparelha com a tua personalidade. Parece-se mais com o apartamento de uns noivos em lua-de-mel, não com o gabinete de um digno contabilista.

A vista esquerda de Harold começou a piscar nervosamente.

— Durante muito tempo esperei por ti.

Indicou-lhe o conteúdo do tabuleiro que estava em cima da secretária.

— Queres comer?

— Não tenho vontade.

Voltou a olhar em volta, avaliando a mobília.

— Isto deve ter custado uma fortuna.

— Em boa verdade, não. Sabes como são os Alemães. Poupadíssimos. E... e agora que já posso contar com a contabilidade de Berrey... bem, quero dizer com isto que será escusado tocarmos nas tuas economias.

— Muito bern. Já te começas a sentir independente.


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— E então não desejas que seja independente? — olhava-a calmamente.

— Claro que quero. Quanto a questões monetárias. Só o que não quero é que procedas com leviandade. Bem, é melhor que vá andando para casa.

Úrsula sentia-se inquieta, nervosa.

— O que é que te trouxe ao escritório? É a primeira vez que...

— A segunda. Quis vir ver como o meu marido ocupava o seu tempo, aliás como qualquer esposa comum. Vês algum mal nisso?

— Não. Pelo contrário, fiquei muito contente.

Úrsula já estava junto da porta, mas dentro dela voltou de re-;

pente à vida certo instinto que há muito parecia adormecido. Vol-j

tou-se para Harold e tentou sorrir. |

— Harold, quase que já me esquecia... Vou às compras. Que-*

res alguma coisa de especial para o jantar?

A novidade da pergunta, a importância que isso assumia para uma resposta, desconcertavam Harold.

— Eu... bem... não tinha pensado nisso...

— Esquece o que disse, não te preocupes. Conseguirei arranjar alguma coisa a teu gosto.

Indicou-lhe o tabuleiro da comida.

— Come antes que arrefeça, e mastiga bem a comida, bem

sabes que o teu estômago é delicado. Até logo.

Abriu a porta e atravessou a sala de espera, muito empertigada, com os seios bem levantados e esticados, de maneira que Marelda, sentada à sua mesa, pudesse ver a formidável natureza da oposição democrática.

Diário de Benita Selby. Domingo, 31 de Maio: «...Estou sentada junto da piscina da Villa Neapolis. Acabei mesmo agora de escrever uma carta com cinco páginas à mamã. Sinto-me culpada pelas abruptas considerações que fiz ontem a respeito dela, e compreendo todo o significado que as minhas cartas têm para a pobre mamã. Sem contar com as suas irmãs, com as suas vidas ocupadas, toda a família da mamã se resume a mim e a meu irmão; Howie, longe de casa, não tem tempo para lhe enviar umas letras, e quem mais o poderá fazer se eu não proceder assim? Contei-lhe

que esperamos poder gozar umas curtas férias quando regressarmos à base, e que nessa altura lhe arranjarei um especialista, levando--a a Chicago para exames clínicos e observação de raios X. Embora mesmo à beira da piscina o calor seja muito, pelo menos é um calor seco, não húmido como no Midwest. Em suma, é um calor que não faz transpirar muito. Há meia dúzia de pessoas na piscina. Tenho vestido o fato de banho que comprei em Milwaukee, e com o corpo untado com uma loção para protecção contra os raios solares. Do outro lado da piscina está sentado um homem ainda jovem, a ler. Descobri que já me lançou umas duas ou três olhadelas de relance. Devo fornecer um bom espectáculo toda untada com esta loção. O Dr. Chapman está sentado numa mesa que fica atrás de mim, junto dele estão Cass e Horace, bem protegidos do sol pelo grande toldo circular colorido. Cass sentiu-se hoje bastante melhor. O Dr. Chapman continua a falar acerca do Dr. Jonas. Durante o pequeno-almoço leu numa revista um artigo, acompanhado de um desenho esquemático, a relatar a construção de uma gigantesca clínica de conselhos e condução matrimonial. A clínica vai ser erguida junto ao mar e será dirigida pelo Dr. Jonas. O Dr. Chapman ficou furioso com o caso. Não o culpo pelos sentimentos que nutre a respeito do Dr. Jonas, uma pessoa que só se reveste para mim de características humanas por ter lido alguns dos seus artigos em revistas da especialidade. O Dr. Chapman perguntou-me se eu tinha visto Paul, e eu contei-lhe que observara a sua saída de manhãzinha, armado e equipado com uma raqueta de ténis e um saco. Julgo que não se pode jogar o ténis sozinho, daí surgir a interrogação: Com quem terá ido jogar? O jovem do outro lado da piscina está de novo a olhar para mim. Penso que é melhor tirar os óculos de sol e acabar isto mais tarde...».

Antes desse dia, sempre que Mary McManus havia jogado o ténis, aos domingos de manhã, com seu pai, ele parecera-lhe maravilhosamente jovem. Até mesmo após qualquer ser disputado com vi9or, exposto a um sol ardente, o cabelo do pai, já ralo, permanecia sempre penteado, o rosto sem vestígios de transpiração e a aspiração regular. Tanto os seus calções como a leve camisa do
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equipamento costumavam estar sempre em ordem e sem se ver a mais leve mancha de suor.

Mas naquela manhã de domingo, Mary, ao dirigir-se para junto da rede, para agarrar duas bolas—falhara por duas vezes o serviço —, observou o pai, que estava de pernas afastadas junto da linha final, dando-se conta do muito que ele mudara. Com incredulidade disse para si mesma que o pai estava velho. Tinha o cabelo desgrenhado, as finas madeixas corriam-lhe para a testa molhada de suor, o rosto afogueado e o peito a arfar violentamente sob a camisa amarrotada. A barriga formava uma bolsa proeminente e muito pouco atlética, coisa que ela não se lembrava nunca de ter visto. Está velho, voltou a dizer com os seus botões. Mas afinal por que diabo é que não há-de estar velho? É a lei da vida e ele é meu pai e não um rapazinho a fazer-me a corte.

Mary caminhou vagarosamente pelo cimento do campo, ouvindo os seus sapatos de lona a fazerem o chape-chape característico. Enquanto caminhava para a linha da base ia recapitulando o passado, tentando fixar o período da sua vida em que aqueles jogos com o pai tinham principiado. Provavelmente tudo acontecera no seu último ano do liceu, pouco depois de ter começado com as lições de ténis. Era hábito do pai levá-la com ele, aos domingos de manhã, para o The Briars' Country Club. Deixava-a sentada no terraço em frente duma Coca-cola e descia para os courts, a fim de jogar as suas duas ou três partidas habituais de pares. Em certo domingo o parceiro habitual de Harry Ewing falhara, telefonara a dizer ser-lhe impossível comparecer e, como recurso, o pai chamara Mary para alinhar com ele. Fora uma manhã bastante movimentada, Mary jogara excelentemente, fora muito louvada por todos e, pouco depois disso, o pai abandonara por completo o seu jogo semanal de pares, para se consagrar inteiramente aos singulares com a filha. Durante todos aqueles anos os jogos de ténis dominicais tinham-se realizado pendularmente, exceptuando a altura em que estavam doentes ou as saídas do pai para tratar de negócios urgentes fora de The Briars.

Mesmo depois de ter casado com Norman, na ansiedade de assegurar ao pai que não o pusera de parte, Mary continuara a manter o hábito daquelas partidas de domingo. Evidentemente que,

princípio, Norman havia sido convidado a acompanhá-los e alternava como parceiro. Mas apesar de Norman ser dextro em quase todos os desportos, não possuía o estilo e leveza requeridos pelo ténis; na sua adolescência aprendera a jogar em campos públicos e continuava ainda a segurar a raqueta como se se tratasse de um taco de basebol. Não era jogador que se pudesse medir com Harry Ewing nem com Mary. Muito embora a mulher o encorajasse, Norman cada vez se retraía mais. Presentemente adquirira o hábito de ficar na cama a dormir nas manhãs de domingo. Levantava-se muito tarde e ela continuava a desempenhar aquele ritual quase litúrgico com o pai. Frequentemente, ao voltarem a casa, Norman estava ainda a tomar o pequeno-almoço e, pelas tardes, Mary, sentindo certo peso na consciência, tornava-se ainda mais atenciosa para ele do que o costume.

— Estás a sentir-te bem, Mary? — ouviu o pai gritar do outro

lado.

Mary tomou então consciência de ter permanecido por algum tempo a olhar abismada para as duas bolas que tinha na mão.



— Sinto-me óptima.

— Se estás cansada podemos terminar já com isto.

— Bem, talvez depois deste ser. Como está o resultado, papá?

— Cinco-seis. Zero-quinze.

Mary perdera o primeiro jogo por 3-6, e decidiu que, bem ou mal, perderia também aquele, a fim de acabarem mais depressa. Por vezes, durante aquele último meio ano, sentira que, se forçasse mais um bocado o andamento, era capaz de bater o pai com facilidade. O jogo dela era bastante vivo e acutilante e, recentemente, observara que os movimentos de cobertura do pai se tornavam muito mais morosos. Fosse como fosse, nunca seria capaz de o fazer andar ridiculamente de um lado para o outro nem de humilhá--lo, especialmente naquela manhã, em que a decadência do pai lhe saltava com mais nitidez aos olhos.

— Bola — gritou.

Inclinou o busto para trás, nas pontas dos pés, e serviu. A bola bem batida passou um pouco acima da rede. Harry Ewing apanhou--a a meio caminho e devolveu-a cortada. Mary efectuou um movimento de rotação, vendo a bola passar longe do seu alcance e
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bater no terreno, à sua direita, um bom palmo para além da linha lateral.

— Foi fora? J; Mary puxou a bola para dentro com a ponta da raqueta. >■

— Não, acertou mesmo no alvo.

Falhou os dois serviços seguintes e, na segunda bola, o pai advertiu-a de que devia bolar mais alto. Então, com o jogo praticamente terminado, Mary enviou à rede a bola que ainda faltava servir.

Aliviada, apressou-se a ir cumprimentar o pai desportivamente e dirigiu-se depois ao vestiário subterrâneo das senhoras. Sentiu--se confortada pela frescura que se libertava daquele compartimento em cimento armado. Lavou o rosto e as mãos e passou, consoladamente, água pelos suados sovacos. Depois de penteada e com a pintura retocada, colocou a raqueta na sua prensa e subiu as escadas em direcção do terraço.

Harry Ewing, ainda afogueado e com arritmia na respiração, já estava sentado a uma das mesas metálicas à espera dela. Mary sentou-se ao lado do pai e lançou uma olhadela para o relógio de pulso. Eram quase onze horas. Pensou se Norman já se teria levantado.

— Parece-me que foi dinheiro deitado à rua aquele que gastei em mandar-te aprender a jogar o ténis — disse Harry Ewing. — Em compensação o jogo abriu-me o apetite.

— Com todo este calor não seria muito melhor um jogo de pares?

— Patetice. Quando me tiver que aposentar é que voltarei outra vez para os jogos de pares.

Deu um estalido com o dedo polegar e o médio para chamar a atenção do criado preto, que limpava uma mesa próxima.

— Franklin!

O negro levantou a cabeça.

— Pronto, siô Ewing.

— O jogo deu-me um apetite devorador—disse Ewing, voltan-do-se para a filha. Queres comer alguma coisa?

— A mamã ficaria aborrecida se não almoçássemos. Tomo só uma limonada.

Harry Ewing encomendou ao criado negro uma limonada para

Mary, e para si um chá gelado e um prato com biscoitos recheados, quentes.

Seguindo com os olhos o criado, Mary viu Kathleen Ballard que, vinda dos courts, subia a escada acompanhada por um homem alto e simpático. Ambos traziam as raquetas nas mãos, e Kathleen envergava uma saia de ténis, plissada, curta e graciosa. Mary calculou que tivessem estado a jogar num dos campos das traseiras, que ficavam encobertos à vista. O homem que acompanhava Kathleen disse qualquer coisa que obrigou esta a soltar uma gargalhada cristalina.

— Kathleen! — gritou Mary.

Kathleen parou, olhando em volta para ver quem a chamava, acabando por localizar Mary McManus. Fez-lhe um aceno com a mão, disse qualquer coisa ao seu par e ambos se aproximaram.

— Olá, Mary.

Harry Ewing, cavalheirescamente, afastou a cadeira e levan-tou-se.

— Parece que já conhece o meu pai, Kathleen.

— Sim, já somos velhos conhecidos. Como está, Mr. Ewing? Deu um pequeno passo lateral para dar lugar a Paul Radford.

— Este é Mr. Radford, um visitante do Leste. E para Paul:

— A senhora Ewing... Ah, perdão, a senhora McManus e Mr.

Ewing, seu pai.

Os dois homens apertaram as mãos. Kathleen insistiu com Harry Ewing para que se sentasse, mas ele continuou de pé.

— Onde está o Norman? — perguntou Kathleen.

— Ultimamente tem trabalhado como uma besta de carga — disse Mary apressadamente —, e sente-se tão exausto que pensámos ser melhor que ficasse a repousar.

— Eis o que se chama uma esposa perfeita — fez notar Paul a Kathleen, sorrindo.

— Não discordo dessa opinião — replicou Kathleen, fitando Mary.

Depois de mais algumas frivolidades, Paul e Kathleen retira-ram-se, indo sentar-se a uma mesa um pouco distante, e Mary voltou a ficar a sós com seu pai.
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— Quem é ele? — perguntou Harry Ewing. ; #

— Não faço a mais pequena ideia — respondeu Mary. — Màè na verdade é um homem muito atraente.

— Não concordo com isso.

— Bem, não digo que seja um menino bonito à maneira de certos actores, mas tem a masculinidade de um desses batedores de fronteiras, aquele tipo de pioneiro habituado à sela... — relanceou para a mesa onde o par se sentara — ...ao mesmo tempo que também tem o ar de um pioneiro que gastasse os serões a ler à luz da fogueira.

Entretanto o criado trouxe o que fora encomendado por Harry Ewing. Enquanto o pai ia comendo os seus biscoitos e bebendo o chá, Mary bebericava a limonada, ao mesmo tempo que lançava olhares sub-reptícios a Kathleen e a Paul Radford. Eles estavam sentados muito juntos, Paul a encher o cachimbo e a dizer qualquer coisa, e Kathleen a escutá-lo atentamente. Havia no par uma suave e insinuante intimidade que fez com que Mary se sentisse solitária. Na verdade, desde a sua breve lua-de-mel, nunca mais voltara a estar assim com Norman, e nesse momento sentia enormes saudades dele, como se estivessem separados por milhões de quilómetros. Não se importava um pataco com os jogos de ténis dominicais, naquela altura invejava Kathleen e desejaria que fosse esta a poder vê-la daquela forma com Norman.

Harry Ewing acabara de comer os biscoitos quentes que lhe apeteceu e puxava agora para si o serviço de chá.

— Suponho que Norman te tenha falado acerca do julgamento — disse ele para a filha.

— Sim. Falou-me nisso na noite de sexta-feira.

— O que é que te contou?

— Que o caso de que o pai o tinha encarregado era um caso perdido. Disse-me que fez o melhor que lhe foi possível, mas que não havia a mínima possibilidade de salvação.

— E tu acreditaste nele?

— Sem dúvida. Porque é que não havia de acreditar?

Mary parecia surpreendida.

— De forma nenhuma quero contradizer a sinceridade expres

sa pelo teu marido nem minimizá-lo. Norman é um jovem com pos-

sibilidades, um advogado prometedor. Ainda está um pouco cru, mas acabará por desenvolver as suas faculdades. Por agora o único problema que se põe é o da sua lealdade.

— Que quer o pai dizer com isso?

— Norman perdeu o nosso caso não porque ele estivesse arrumado de antemão ou não tivesse ponta por onde se lhe pegasse; qualquer dos nossos outros advogados agiria com a necessária objectividade. Perdeu-o porque não acreditava na vitória. O teu marido continua a ter uma mentalidade a preto e branco, sem cambiantes... uma coisa a que chamo imaturidade profissional. Além disso, foi para o julgamento convencido de que ia defender o danado capital contra o sacrossanto trabalho.

— E não era assim? — perguntou Mary com agressividade.

— Só podia ser visto por esse ângulo tratando-se de uma mentalidade banal. Não, não era de modo nenhum um caso de exploração do capital contra o trabalho. Lá porque um empregado tinha movido uma acção em tribunal, de nenhum modo isso significa automaticamente que a razão esteja do seu lado e todas as culpas sejam do patrão. Aliás, esses pobres empregados têm a apoiá-los uma associação sindical que representa uma força de biliões de dólares. E claro que os patrões também possuem os seus direitos legais. Porque é que a propriedade e a riqueza hão-de, implicitamente, sugerir pirataria?


— Porque os livros da história estão recheados das aventuras de capitães como os Vanderbilts, os Goulds, os Fisks e de tipos como os Krupps e os Farbens... e estes são apenas uma pálida amostra.

— Se bem me parece também deve haver uma palavrinha a dizer a respeito dos Bill Haywoods, dos McNamaras e de anarquistas como Sacco e Vanzetti1...

— Oh, papá!

1 - Nicola Sacco e B. Vanzetti, anarquistas italianos emigrados para os Estados Unidos, acusados de assassínio político. Não obstante um outro condenado ter proclamado a inocência dos dois homens, eles foram executados em 1927. Na época foi um caso de grande projecção tanto na América como no resto do mundo, e Sacco e Vanzetti ficaram como símbolo do anarquismo sanguinolento. (N. do T.)


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— Não é isso porém o que agora está em causa. O que interessa salientar é que o meu genro julga o meu dinheiro suficientemente bom para aceitar o seu ordenado, portanto deve fazer alguma coisa por merecer esse dinheiro. É intolerável que tenha ido para o tribunal fingindo representar-me a mim, em nome da minha firma, para afinal agir de modo a favorecer esses fanfarrões trabalhistas.

— Quem diz que ele os favorece?

— Tenho meios de saber o que se passa e não sou cego.

— Deve antes dizer que os seus espiões não são cegos.

— Mary, o que é que se passa contigo? As actas do caso estão à disposição de quem as quiser consultar. Norman não utilizou todos os seus recursos nem as munições que estavam à sua disposição.

— Diz que quase todo o caso não passava, quanto à defesa, de uma coisa sem carácter e sem fundamento.

— Sou eu quem determina o que tem ou não tem fundamento. E não é tudo. Toda a sua defesa esteve recheada de concessões à parte contrária e foi mais que vacilante...

— Tentou ser imparcial. Disse-me que não é nenhum oportunista nem agitador de massas.

Harry Ewing ficou silencioso por momentos. Pensava ser melhor deitar água na fervura. Mary tinha o mesmo feitio da mãe — quando se emocionava não era capaz de escutar a voz da razão.

— Quando um advogado entra num tribunal para defender um

caso, Mary — disse, adoçando a voz o melhor possível —, é como

saltar para uma arena onde se deve combater sem dar quartel e

sem o pedir, para vencer ou morrer. Num caso daqueles não se

deve proceder como se se estivesse numa sociedade recreativa a

debater um assunto filantrópico. Se Norman sente demasiados pre

conceitos esquerdistas para ser incapaz de tomar conta de proces

sos como aquele, antes de começar devia ter sido franco para co

migo. Confiar-lhe-ia qualquer trabalho de secretária, onde pode ser

mais útil. Mas é inconcebível que tenha prosseguido como meu

advogado mantendo as suas secretas simpatias pela parte contrá

ria. Acho que foi demasiado longe — fez uma ligeira pausa. — Só o

encarreguei do processo porque me disseste que ele andava de-

sassossegado e queria experimentar as suas forças na teia. Pois muito bem, já teve a sua oportunidade. Devo dizer-te que fiz uma ;apelação e que o retirei como advogado da minha parte. Sem dúvi-=da foi o melhor que havia a fazer em tais circunstâncias.

Mary sentiu uma espécie de náusea. Não se atrevia a olhar o pai de frente.

i — Proceda como entender que é melhor — conseguiu finalmente articular. — Tente, porém, ser compreensivo e imparcial.

— Mary, sempre procurei fazer aquilo, que me pedias, anulando muitas vezes decisões tomadas. Sempre foi assim, Mary, nunca te neguei nada. Bem, para sermos justos, fui eu o primeiro a anunciar-te que Norman era um homem competente. Não é verdade que te disse isso muitas vezes?

— Sim, é verdade.

— Sou sincero. Desejo fazer aquilo que for melhor para vocês os dois. Para bem de nós todos, pretendo fazer revelar as grandes potencialidades que existem nesse moço, quero que ele tenha orgulho do trabalho que executa. Sim, tenho pensado muito em Norman. Julgo que já consegui encontrar para ele uma coisa que é extremamente interessante.

Mary fixou o pai e viu que ele sorria, o sorriso dulcificava-lhe as feições. Sentiu uma vaga de alívio e a volta da velha afeição.

— De que se trata, papá? Será uma coisa boa para Norman?

— Uma coisa maravilhosa para um moço da sua idade. Asse-guro-te que ficarás satisfeita. Concede-me uns dias. Lá para o fim da semana devo já ter tudo preparado.

— Oh, papá, espero que sim — procurou a mão do pai e aper-tou-a na sua, como sempre tinha feito desde menina. — Papá, tente ser um bocadinho tolerante com o Norman. Na verdade ele é uma pessoa tão boa!

Harry Ewing correspondeu à ternura da filha, apertando-lhe fortemente a delicada mão.

— Eu sei que é, minha querida. Não te preocupes mais. Só

quero a vossa felicidade.

Diário de Benita Selby. Segunda-feira, 1 de Junho: «...chama-


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-se Gerold Triplet, e é um economista que trabalha para uma firma de S. Francisco ligada por vários contratos à Força Aérea. Ontem à noite, depois de ter jantado em companhia dos outros elementos da equipa, resolvi ir um bocado até à piscina, para apanhar fresco, e encontrei iá Gerold, o jovem que me espreitava do outro lado durante a manhã. Não lhe contei exactamente qual o meu tipo de trabalho, porque, quando os homens descobrem que uma mulher trabalha para o Dr. Chapman, começam a tratá-la como se ela fosse uma espécie de enfermeira ambulatória... Disse-lhe que tinha vindo de visita a pessoas de família de Pacific Palisades. Gerold ainda permanece aqui mais três dias em consultas com alguém em Anahein. Pediu-me para o acompanhar esta noite a um concerto no Phiilarmonic. Muito embora esteja desejosa de ir, não lhe disse que sim. Estivemos a conversar, sentados à beira da piscina, quase até à meia-noite. Gerold contou-me que em Agosto irá a Chicago, onde ficará por várias semanas, e disse que queria encon-trar-se comigo. Os caminhos do destino são bastante curiosos. Veremos. Esta manhã recebi duas cartas da mamã, e mal tive tempo de lhes passar a vista por cima, porque acordei tarde. Agora escorregou e sofreu uma entorse no pé, a senhora McKassen tem lá ido a casa ajudá-la. Que Deus não dê mais sofrimentos a Job. Hoje o Dr. Chapman encarregou-se das entrevistas com Horace e Paul, isso porque Cass se sentiu pior, parece ser a gripe. Ainda não há meia hora que lhe telefonei a saber se ainda estava vivo. O empregado da recepção atendeu-me e disse que Cass acabava de sair de automóvel para ir a uma farmácia comprar um medicamento...»

Cass Miller permanecia sentado ao volante do Dodge. O carro estava estacionado junto da curva da ruela lateral e Cass bocejava e esperava.

Na realidade, não se sentia doente, tirando aquela sensação de fraqueza ao tentar caminhar pelo seu pé. A enxaqueca era uma coisa habitual nele, e que, com frequência, ao longo do dia, aparecia e desaparecia a seu bel-prazer. Naquele momento, porém, não se sentia muito afectado. Talvez tivesse na verdade uma pontinha

de gripe, como havia dito ao Dr. Chapman. No fundo devia tratar-se apenas de fadiga, para ser mais exacto no seu diagnóstico. Definitivamente, o rasto da doença podia ser seguido a partir daquela entrevista de quinta-feira de manhã. Quando terminara a entrevista com aquela mulher, iembrava-se muito bem, sentira-se transtornado, irritável, descontrolado, o mesmo que lhe acontecera daquela vez em Oaio, onde o exame clínico lhe revelara um colapso nervoso, e Cass fora forçado a pedir um mês de licença sob um pretexto mais aceitável.

Muito embora aquela rua ficasse a dois quarteirões de distância do Wilshire Boulevard e do centro comercial de Beverly Hills, era uma ruazinha tranquila e quase vazia de trânsito. Podia ver, ao longe, o movimento intenso dos automóveis — a distância fazia-os parecerem carrinhos de brinquedo —, mas os ruídos dos claxons e dos pneus a chiarem no asfalto não lhe chegava aos ouvidos. Pelo seu ângulo de visão passou repentinamente a imagem de um robusto carteiro que atravessava a rua assoberbado pela sua carga de cartas e encomendas. Seguindo o itinerário do carteiro, observou que, do edifício em frente, saía uma rapariga alta, desempenada, de cabelos ruivos. Voltou-se para a ver seguir pelo passeio a calçar as luvas brancas. A jovem lançou-lhe um breve olhar e dobrou a esquina para o Wilshire Boulevard.

Foi então que Cass deitou um balanço àqueles catorze últimos meses da sua vida.

O efeito acumulativo dos milhares de entrevistas realizadas — só à sua parte atendera perto de mil mulheres — dava a Cass Miller uma imagem mental pessoal da mulher americana casada: uma espécie de escaravelho fêmea caída de costas, de pernas para o ar, a torcer-se e agitar-se, mas sempre caída de costas — até ser empalada.

Nas ruas das várias cidades que percorrera, quando à noite as calcorreava sozinho—coisa que com frequência sucedera um pouco Por toda a parte —, Cass Miller entretivera-se a observar de perto as mulheres que seguiam à sua frente. Voltava agora a enquadrá-las de novo no âmbito da sua visão: os grandes traseiros em Movimentos coleantes, meneando-se provocadoramente, jogando as ancas de um para o outro lado por baixo das saias justinhas. As


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meias de nylon, bem esticadas nas pernas, eram fontes de excitação, lembravam aos machos que subiam até às coxas, até zonas misteriosas onde havia secretos prazeres, e elas faziam gala em que tudo aquilo avultasse; aquelas pernas em movimento que fomentavam o bambolear das ancas pareciam impeli-las sempre para um qualquer encontro de carne e luxúria. Às vezes a mulher que seguia à sua frente parava para ver uma montra, e então Cass só tinha olhos para a desavergonhada protuberância do seu busto. Se tal acontecia, Cass parava também a observá-la, quem quer que fosse, possuído de um ódio secreto, intenso e ardente.

Para ele todas essas mulheres eram como cortesãs, todas umas meretrizes cheias de subtileza e engano, todas umas porcas. Não havia uma só que fosse decente, honrada ou fiel. Todas cheiravam a pântano, a calor corporal, tinham incrustado o odor doentio do sexo, estavam possuídas de um cio animalesco, e bastava que se lhes tocasse para caírem de costas como os escaravelhos fêmeas, de patas para o ar à espera que o macho as empalasse. Ao mesmo tempo que odiava as mulheres, também sentia enormes desejos carnais delas — o ódio e o desejo eram uma só emoção.

Cass, absorvido por aqueles pensamentos, afagava o volante do Dodge e mantinha os olhos fitos no portal do prédio à espera que ela saísse. Reconhecia que aquele impulso não era coisa habitual mas numa penumbra de inconsciência tinha o vago raciocínio de ser uma coisa tácita, fatal. Ele estava ali à espera porque ela estava lá dentro. Estava ali, dizia como desculpa, porque ela trilhava um caminho errado e necessitava de alguém que cuidasse dela, que a aconselhasse. Estava ali para a conhecer, para lhe estender a mão, e prometia que não seria demasiado severo na punição a impor-lhe. Aquilo era o menos que devia a seu pai, o velho bastardo falhado, torturado pela vida e pela luxúria desenfreada de uma fêmea de escaravelho.

Esperava com uma paciência implacável.

Acabara de consultar o relógio de pulso, calculando que se escoara uma hora e dez minutos desde que a vira entrar. Apossou--se dele uma cólera irracional, cólera que abrandou quando, finalmente, observando a rua, a viu surgir.

Ela tinha saído do apartamento que ficava umas quatro portas adiante do local onde estacionara o Dodge e ainda vinha a arranjar o carrapito do seu cabelo de azeviche. Caminhou apressadamente até ao cruzamento e, depois de olhar nos dois sentidos da rua, atravessou em direcção à sua station parada do outro lado. Caminhava com firmeza, movimentando as pernas bem feitas que faziam adivinhar as volumosas coxas escondidas pelo vestido. Cass viu-a abrir a porta do carro e sentar-se ao volante. Agora estava curvada para a frente a fazer algo que ele não podia ver, mas que conjecturou ser o acender de um cigarro.

Ouviu o trabalhar do motor da station e, como numa nuvem de sonho, observou o arranque.

Cass aguardou até ver o carro dela à distância de um quarteirão, a encaminhar-se devagar para a bifurcação de ruas; então, sem precipitações, começou a persegui-lo.

Foi já perto do Westwood Boulevard que Sarah Goldsmith viu o Dodge a segui-la. Pelo espelho retrovisor observou a face morena e sombria que a encheu de uma sensação de medo e de uma vaga recordação de que já a vira em qualquer lado. Aquela cara não desapareceu do espelho no espaço dos vinte minutos que durou a viagem.

Só na altura em que chegou à rua onde residia, sentindo-se em segurança por ver as crianças que brincavam nos jardins da vizinhança e a figura de um jardineiro que aparava um canteiro de relva com uma ruidosa máquina, é que Sarah deu fé de que o rosto de MonsieurJavert (não lera o livro de Victor Hugo, mas vira o filme na televisão — um hábito enraizado de Sam) já não se reflectia no espelho; tudo quanto contemplava atrás de si era a paisagem calma e tranquila. O receio sentido aliviou-se um pouco e começou a Pensar se, na verdade, aquela perseguição fora real ou se não passara de uma alucinação. Talvez tivesse sido uma simples coincidência.

Arrumou o carro no caminho privativo, agarrou na sua mala de ^ão e saiu da station. Notou que se esquecera de levar consigo o Saco das compras e que o medo sentido, além disso, a levara a
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" O Relatório Chapman 353

esquecer-se de parar no supermercado; porém, no frigorífico, havia comida suficiente. Mal começara a caminhar pelo pavimento da ruela que levava à sua porta quando avistou o Dodge que subia a rua devagarinho. Parou de chofre como que assombrada por um raio. Os seus olhos não se podiam afastar do carro perseguidor, e sentiu o corpo agitado por tremuras; af igurava-se-lhe que agulhas invisíveis a espicaçavam. O sedan deteve-se a três portas da sua residência, quase na curva do caminho. O rosto por trás do pára--brisas não se via muito bem, mas estava indubitavelmente a olhar na sua direcção, e Sarah sabia muito bem que era aquela cara morena e sombria.

Ofegou com falta de ar. As pernas pareciam dois cepos que recusavam a locomover-se. Fez um esforço tremendo e as forças voltaram-lhe. Cambaleando, quase a correr, cheia de pânico, arrancou em direcção da porta de sua casa, meteu a chave na fechadura, atabalhoadamente, como se estivesse a ser perseguida por uma legião de demónios, e assim que se encontrou no interior fechou a corrente de segurança em gestos frenéticos, quase à beira da histeria.

A sua primeira reacção, absolutamente ilógica, foi telefonar a Sam, como guardião do lar; pensou depois na Polícia, em comunicar com a Sr.a Pederson, a vizinha do lado, telefonar a Kathleen Ballard, que habitava a vivenda da esquina; finalmente teve consciência do absurdo que tais ideias representavam. Muito embora não tivesse ainda o perfeito domínio do seu corpo, a mente, sempre tão prática, elaborava numa explicação para a persistente perseguição de MonsieurJavert. Compreendeu que só havia uma pessoa a quem devia telefonar.

Correu para a cozinha e, depois de ter verificado se a porta das traseiras estava bem fechada, levantou o auscultador do telefone de parede e discou o número de Fred Tauber.

Às primeiras e insistentes campainhadas, que lhe diziam que o telefone estava desimpedido, pensou que Fred ainda estivesse deitado; depois, como demorassem, teve a certeza de que ele estava na casa de banho. Finalmente, sentindo o coração a querer saltar--Lhe do peito, ouviu a voz dele, cheia de uma calma que naquele momento lhe parecia incrível.

— Estou...

— Fred!

— Quem fala?



— Fred... é Sarah!

— Está? Sarah? Que se passa?

— Fui seguida... por uma pessoa que ainda está lá fora a espiar--me.

— Que se passa, Sarah? De que é que estás a falar?

— De um homem que me seguiu...

A voz dele soou firme ao seu ouvido, transmitindo-lhe uma certa calma.

— Como? Que homem? Tem calma. Estás em perigo?

— Não... Isto é... não sei bem... mas...

— Vamos, acalma-te. Conta-me o que se passa com o menor número de palavras possível.

Sarah quase meteu a boca dentro do bocal.

— Quando te deixei vi o carro estacionado um pouco atrás do

teu apartamento. Meti-me na minha station e ele começou a perse-

guir-me. A meio do caminho voltei a olhar pelo retrovisor e não tive

dúvidas que me seguia persistentemente. Agora está parado a duas

portas da minha.

— Viste bem a pessoa que ia ao volante?

— Não te posso descrever a sua figura com exactidão. Só posso dizer que tem cabelo preto e uma cara morena e cruel.

— Já o tinhas visto antes?

— Não... isto é... sim, sim, já o tinha visto. Foi no sábado. Lembro-me agora. O seu carro também estava parado em frente do teu apartamento, e depois seguiu-me até aqui, mas nessa altura pensei que o caso era uma simples coincidência e não lhe prestei atenção. Fred, quem será esse homem?

— Não faço a mínima ideia—foi a vagarosa resposta que lhe chegou pelo auscultador. — Ele ainda estará lá fora?

— Creio que sim...

— Vai ver. Eu fico à espera.

Sarah deixou o auscultador pendurado a todo o comprimento do fio de ligação e dirigiu-se para a sala da frente. Por um breve instante senti u-se alarmada, mas logo veio o conforto de saber que
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Fred estava à espera. Dirigiu-se para a ampla janela, com as persianas interiores parcialmente corridas por causa do sol, afastou-as um bocadinho e espreitou para a rua pela nesga aberta.

O Dodge desaparecera. Abriu mais as persianas para ter melhor ângulo de visão. Avistava agora toda a rua e não estava à vista nenhum carro.

Correu para a cozinha.

— Fred? í

— Sim. Estou aqui.

— Foi-se embora.

— Tens a certeza? ,4

— Olhei para todos os lados.

— É curioso...

A latente ameaça era agora substituída por um senso de mistério, e a ansiedade na voz de Sarah tinha já uma diferença imperceptível.

Fred, que significará tudo isto? Será alguma coisa que nos diga respeito?

— Pode muito bem ser.

Fred não dissimulava a preocupação. —Tens a certeza de que esse homem e o seu carro te perseguiram... no sábado e hoje?

— Certíssima. Não estaria tão segura da verdade se ele estivesse parado em qualquer outro lugar, se tivesse fingido qualquer coisa. Mas a verdade é que estava perto do teu apartamento e que me seguiu até aqui direitinho e sem fingimentos. Hoje parou o carro aqui na rua a fitar-me sem quaisquer rodeios.

— Tem cuidado, Sarah. E não pronuncies o meu nome, porque o telefone pode estar sob vigilância com um aparelho de escuta e um gravador.

Afinal pareceu a Sarah que Fred também tinha o vício secreto da televisão e dos seus filmes policiais entranhado no corpo. Começou a sentir-se impaciente.

— Se o telefone estivesse em escuta já teriam ouvido o suficiente. Além disso temos que falar no assunto. Talvez seja a tua mulher...

— A minha mulher?

— Ela suspeita de nós. Viu-me muito bem outro dia. O homem pode ser um detective contratado por ela.

— É verdade que pode muito bem ser. Mas existe outra possibilidade. Também pode ter sido contratado pelo teu marido.

Sam? Ridículo.

— É absurdo — disse Sarah. Mas mal acabara de pronunciar

a palavra e já a incerteza a assaltava.

Porque não Sam? Ele não era nenhum pateta alegre. Talvez ela se tivesse denunciado... uma ligeira escorregadela... Havia a possibilidade de ter sido vista. Podiam já ter sido postos a correr certos rumores. Bastava que alguém tivesse feito um telefonema anónimo para a loja. Lera algures que para se contratar um detective privado bastava telefonar e ter cinquenta dólares para despesas diárias. Os detectives privados existiam, até vinham os seus anúncios nas páginas amarelas da lista: «Investigações discretas. Atende--se o telefonema dia e noite.» Sam? Mas não, se Sam suspeitasse de alguma coisa, faria um pé-de-vento. Pelo menos haveria remoques indirectos ou acusações feitas sem a menor cerimónia... berros e tempestade... Não, aquilo não partia de Sam. Era uma coisa da mulher de Fred. Exactamente do modo como uma mulher procederia. No entanto, também podia ser de Sam. Mas se fosse coisa da senhora Tauber — como era o nome próprio dela? —, seria assim tão má? Partindo dela, era possível que quisesse conceder o divórcio a...

—... não é assim tão absurdo como pensas — dizia a voz de Fred. — Tenho a certeza de que o teu marido é tão capaz de uma acção dessas como a minha mulher. Para te falar francamente, Sarah, direi mesmo que, conhecendo tão bem a minha mulher... conhecendo-a tão bem como a conheci... a julgo menos capaz de proceder assim do que o teu marido ou qualquer outra pessoa.

— Porquê?

Fred hesitava.

— Bem... penso que não constitui qualquer surpresa para ela

que eu esteja interessado numa mulher. Julgo que não se arriscaria

a gastar um só chavo que fosse para obter uma confirmação. Não,

inclino-me mais para o teu marido. É uma coisa aborrecida. Segundo

me parece, ele é um bota-de-elástico. As provas a nosso respeito
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podem enfurecê-lo. Pode não proceder com correcção. Não há dúvida que fico enormemente preocupado.

— E que havemos de fazer, Fred?

— Primeiro, que tenhas todo o cuidado com esse homem e que vigies muito bem o seu carro, se ele voltar a perseguir-te. Se isso se verificar, telefona-me imediatamente. A outra sugestão que tenho a apresentar é que nos devemos manter afastados durante algum tempo.

— Fred, não...

— Queridinha, será apenas por uns dias, até vermos se na verdade há sarilho ou se não passou tudo de uma coincidência.

— Por quanto tempo, Fred?

— Uns dois dias. Deixemos que a coisa esfrie a ver o que acontece. Se não houver moiro na costa, telefona-me na quinta--feira de manhã.

— Quinta-feira? Fred, até lá será como uma lenta agonia.

— Querida, lembra-te que também eu fico a sofrer.

— Fred, amas-me?

— Sabes bem que sim. Agora desliga. Procede como se não tivesse acontecido nada, e observa tudo muito bem. Espero que me possas telefonar na quinta-feira. Adeus, Sarah.

— Adeus, meu querido.

Diário de Benita Selby. Terça-feira, 2 de Junho: «... Foi adorável. Depois do concerto disse a Gerold que era já muito tarde e que tinha que ir direitinha para o motel. Mas mesmo assim estivemos sentados a conversar até à uma hora da manhã. Por fim Gerold acompanhou-me até à porta. É um autêntico cavalheiro. Pediu licença para me beijar, e eu não disse que não. Antes de ele se ir embora e de nós também partirmos daqui, julgo que ainda nos encontraremos mais uma vez. Estou ansiosa por Chicago e pela sua visita à cidade. Pode vir a ser uma coisa deveras interessante... Recebi esta manhã mais uma carta da mamã, que denota bem o sofrimento em que vive. Afinal não foi um pé. Deslocou a anca. Tem que estar presa na cama, uma coisa de que ela não gosta mesmo nada. Quando isto aqui acabar, julgo que todos nós ficaremos contentes. Mais quatro dias de entrevistas, depois a realização do programa The Hot Seat,

e no domingo à noite bateremos asas. Observei que Paul, hoje de manhã, estava tão ensonado como eu. Vi-o entrar a horas tardias, na altura em que eu e Gerold ainda estávamos a conversar dentro do carro. Cass já voltou ao trabalho. Hoje de manhã, apanhando--me distraída, veio sorrateiramente por trás de mim e apalpou-me os seios daquela sua feição obscena que o caracteriza. Fiquei , furiosa. Quando o Dr. Chapman chegou, consegui fazê-lo rir. Estava

* eu a ler o jornal de The Briars, um semanário que tem o nome de O

Alerta e é distribuído ao domicílio gratuitamente. Numa coluna

encabeçada pelo título «Actividades Sociais», li que uma senhora

; da alta sociedade local, uma tal Teresa Harnish, oferece na sexta-< -feira à noite uma festa à elite de The Briars. É uma festa com \ serviço de bufete à americana, em que os convidados podem ir com 5 trajos de fantasia. As mulheres devem levar atavios que façam I lembrar o que desejavam ser, ou são, relativamente às entrevistas

concedidas ao inquérito do Dr. Chapman. Uma coisa muito inteligente. i Sublinhei a notícia e li-a ao Dr. Chapman, que se riu em sonoras ' gargalhadas. Que senso de humor tão magnífico! É diferente da

maioria das pessoas famosas. Possui também uma memória

• prodigiosa, aliás como já frisei neste diário. Depois das risadas

dadas com gosto, dísse-me que se lembrava de ter ele próprio

entrevistado Mrs. Harnish, uma mulher simplesmente encantadora.

Afirmou esperar que a festa seja um grande êxito...»

Teresa Harnish estava sentada em cima do cobertor no perímetro demarcado da «Cova de Constable», tinha as longas e bonitas pernas projectadas para a frente e, pela centésima vez, ajustou as alças e o calção do seu novo fato de banho. Experimentara uma grande satisfação ao adquirir aquele objecto. A vendedora dissera--Lhe que era arrebatador (não que ela ligasse a semelhantes opiniões), mas a verdade é que se entusiasmara e vira que estava perfeitamente dentro daquilo que idealizara, isto é, se não se importasse de envergar uma coisa tão ousada (era um maiot muito curto que permitia mostrar as nádegas e as coxas quase até às Partes mais proibitivas do pudor feminino), Teresa Harnish não se ralava nada com as partes pudendas e sentia-se muito satisfeita de
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que, naquele peculiar momento, o fato de banho mostrasse o mais possível da sua beleza física. Era até uma maneira de diminuir dez bons anos aos seus puxados trinta e cinco.

A compra do fato de banho fora feita no dia anterior de manhã, logo depois de ter largado Geoff rey à porta da loja. Geoff rey andava muito ocupado com a exposição de Boris Introsky e por isso tivera que o conduzir à cidade muito cedo.

Ao sair da loja, com o fato de banho por baixo do leve vestido, dirigira-se directamente para a praia, mas esta mostrava-se desola-damente vazia e, após meia hora de desalentada espera, voltara para casa. O resto do dia fora de uma lamentável ansiedade.

Nessa manhã, decidida a continuar no seu posto até ver Ed Krasowski, voltara à praia o mais rapidamente possível. Mas de novo a praia tinha um aspecto desolador. Há dez minutos que ali se mantinha, sem o costumeiro livro e sem guarda-sol. Uma vez que conseguisse falar com Ed, não tencionava demorar-se. Desde o brevíssimo encontro que com ele tivera, fazia precisamente uma semana, o seu pensamento não fora povoado por outra ideia.

Fora de propósito que evitara aquele local até ao dia antecedente, preocupada em destacar e analisar separadamente cada um dos sentimentos que a perturbavam. Era uma pessoa sensata e meticulosa — desde menina e moça que a família sempre se orgulhara desse seu feitio —, e agora, muito embora obcecada, queria continuar a ser uma criatura razoável. Byron sempre se tinha referido desdenhosamente à sua desventurada esposa, Annabella Milbanke, como a Princesa dos Paralelogramos, querendo com isso significar, possivelmente, que ela era inflexivelmente matemática e exacta, e pretendendo implicar a sua falta de emoção fácil. Teresa sempre sentira aversão por Byron, e, como Harriet Beecher Stowe, colocara-se decididamente ao lado dessa admirável princesa Annabella.

Ao longo daquele fim-de-semana, Teresa fizera uma revisão fria à situação, tal como a judiciosa esposa de Byron teria feito, mas cedo percebeu que uma total frieza lhe seria impossível, tanto mais que de nenhuma maneira se podia comparar a uma remota lady inglesa, cheia de preconceitos, pergaminhos e rendinhas. Ela era um produto da sua época, superior apesar de tudo, produto de

uma geração muito mais avançada em todas as matérias e com uma outra concepção de liberdade. Todavia, as palavras correctas para descreverem o seu estado de espírito eram constrangimento, sensibilidade e senso comum.

Após muitas horas de incessante procura espiritual, Teresa considerou que afinal se malograra a sua determinação de resolver o problema de maneira satisfatória dentro de certos cânones éticos, mas estava, no entanto, senhora da situação, tendo chegado a uma análise progressiva: (a) era casada há uma década com um gentleman, fora a melhor das esposas durante todo esse tempo e assim queria continuar a ser considerada; (b) era uma mulher possuidora de dotes peculiares, com inteligência, capacidade mental e certo atractivo físico. No entanto, as fronteiras limitadíssimas da monogamia não davam lugar suficiente a um futuro desenvolvimento dessas prendas; (c) tinha trinta e seis anos e havia nela ainda muito a dar e muito a receber, uma enorme capacidade para o prazer. Tudo isso estaria, no entanto, perdido e constituiria um insulto ao Divino Criador se os melhores anos da sua vida fossem utilizados naquela pobreza de sensações, coisa inteiramente devida às concepções de uma culpa burguesa que aprisiona tantas pessoas nas suas malhas; (d) não havia nela qualquer atracção espiritual ou sentimental em relação a Ed Krasowski, ele representava somente um símbolo do seu objectivo de libertação, algo que ela queria obter a todo o custo. Todavia, sentia no mais fundo da sua carne que ambos, tanto ele como ela, mereciam partilhar mais do milagre da vida; (e) podia conseguir a obtenção dessa força e desse milagre da vida entregando-se a um primitivo, dado que naquele conceito e aspiração residia também uma beleza bíblica inexprimível. Era a união de um dos melhores produtos da civilização, a patrícia da Hélada, com um bárbaro do Norte, que mal acabara de sair da sua caverna de troglodita e ainda trazia a grande massa brutal na mão;

(f) aliás o mesmo que sucedera a Isadora e Essenine; e, finalmente,

(g) com aquilo a sua vida ficaria inevitavelmente mais rica, haveria

nela mais significado, e ela e Geoffrey mereciam bem isso da vida.

Uma vez esquematizada a situação em termos racionais, posta de uma maneira ordenada, Teresa sentia a ânsia e a satisfação de poder iniciar o próximo passo na estrada que determinara. O


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processo de aproximação que imaginara absorvia-a e estimulava-a mais do que qualquer outra actividade desde aquela época, vários anos antes, em que se deixara absorver por inteiro com a transcrição do bonsaie estivera todo um Verão a estudar afincadamente a arte japonesa de conseguir a reprodução de árvores anãs desde a era Ashikaga até à actualidade.

Dado que a sua emancipação ultrapassava em muito o seu sexo — emancipação bastante, tinha a certeza, que a levara a ser integralmente verdadeira na entrevista Chapman, coisa que as outras de modo nenhum deviam ter conseguido —, sentia que não havia nenhuma necessidade de praticar o degradante cerimonial da coqueteria e sedução com Ed Krasowski. Era evidente que ele, como aborígene que era, desejaria sem dúvida possuí-la e seria rebaixar a própria natura se não se entregasse com o mesmo espírito básico.

O processo a seguir era tão simples como o objectivo visado: iria até à praia, esperaria por ele, dirigir-se-ia a ele sem rodeios, frontalmente e, por fim, combinaria o encontro que enriqueceria as suas vidas tanto em profundidade como em plenitude — a plenitude, apressou-se a lembrar, seria espiritual.

O seu olhar varria a praia em relances consecutivos e, de quando em vez, detinha-se a observar as pequenas vagas que vinham quebrar-se na areia e que deixavam uma franja de alva espuma. O oceano espraiava-se sem limites até aos confins da costa do Cataio e, mais uma vez, as ondas que bricavam lhe trouxeram à mente a majestade dos versos de Keats:

Senti-me então como se fora um vasculhador dos céus1 Quando se lhe depara a visão de um novo planeta Ou, como o intrépido Cortez, quando, com os seus

olhos de águia,

1 - Tradução libérrima do tradutor. Os versos de Keats reproduzidos no original são como se segue: Then felt I like some watcher of the skies/When a new planet swims into is ken;/ Or like stout Cortez when with eagle eyes/He star'd at the Pacific — and ali his men/Look'd at each other with a wild sur-mise — Silent, upon a peak in Darien. (N. do T.)

Fitou a vastidão do Pacífico em silêncio, alcandorado no cimo de um penhasco de Darien — enquanto os seus homens se entreolhavam em atónita e bravia desconfiança.

Foi da maneira mais casual que os viu surgir ao longe, à sua esquerda; eram três e traziam vestidos os exóticos fatos de treino. Desceram a encosta em louca correria, detendo-se mesmo à beira 'e água. Depois foram-se encaminhando para perto do sítio onde la se encontrava, o sítio habitual onde costumavam treinar-se, e o oração de Teresa quase ameaçou saltar-lhe do peito. Logo que les chegaram à sua área costumeira e se espalharam, formando m triângulo, atirando a bola oval de uns para os outros, as suas aras tornaram-se perfeitamente visíveis a Teresa e, então, verificou ompungida que nenhum deles era Ed Krasowski.

Estava feito em pedaços o esquema que laboriosamente tra-ara, mas Teresa recusou deixar-se possuir peio pânico. O seu lano tão simples estava de tal forma radicado que, apesar de tudo, go voltou à imperturbabilidade. Examinou e avaliou todos os pos-íveis movimentos a determinar. Ir-se embora e continuar a voltar à raia até encontrar Ed Krasowski; procurar na lista o número do elefone dele e ligar directamente para sua casa; rascunhar-lhe um ilhetinho e entregá-lo a um dos seus companheiros. Mas nenhu-a daquelas soluções fáceis lhe poderia revelar de imediato aquilo ue mais a preocupava: que teria acontecido a Ed Krasowski? Em revê espaço de tempo duas das soluções encontradas depressa oderiam responder à sua preocupação, mas nunca seria demasia-o depressa para acalmar a sua ansiedade. Teresa Harnish não ueria voltar a sonhar acordada, não desejava passar mais noites e incerteza. Tinha que saber de pronto.

Não conseguia definir que aguilhão a estava a espicaçar. Ergueu-■se. Numa aproximação directa era necessário que se expusesse a eles, mas a sua ansiedade dominava toda a falsa modéstia e toda a humana fragilidade. Nenhum processo de raciocínio seria capaz de tornar mais fácil a tarefa. Sentiu que as pernas, num passo e noutro passo, a arrastavam pela areia. Deteve-se a alguns metros do mais próximo dos moços. O latagão estava a fazer exercícios
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respiratórios. Abria e fechava os musculosos braços, dilatando ou contraindo o peito. As suas largas costas estavam voltadas para Teresa.

Lembrou-se de que, quando era ainda solteira, logo que entrava num restaurante com as amigas, tinha dificuldade em encontrar a melhor maneira de chamar o criado. Chamá-lo dando estalidos com os dedos? Não era próprio de uma senhora. Bater com o garfo no copo? Era uma coisa muito autocrática e inteiramente europela. Gritar simplesmente «criado», como quem estivesse a chamar um cão? Chamar «mister»? Ou pigarrear de maneira audível e que chamasse a atenção? Todo esse problema acabara por se resolver com o casamento. Era Geoffrey quem dava os tais estalinhos com os dedos. Aquele atleta que ali estava de costas voltadas para ela e lhe era completamente desconhecido lançava-a na mesma indecisão. Por fim resolveu-se.

— Eh, Mister!

O rapaz dava nesse instante um salto no ar para agarrar a bola que lhe fora atirada por um dos companheiros. Teresa esperou que a devolvesse e voltou a chamar em voz mais alta.

— Eh, Mister!

O rapaz, surpreendido, olhou para trás. A sua cabeça estava afundada entre os ombros e, como tinha o cabelo quase rente, assemelhava-se a uma grande abóbora colocada sobre um volumoso toro sustentado por duas estacas.

— Chamou-me, ma'am?

— Sim, se quiser fazer o favor...

O rapaz, espantado, começou a andar ao encontro dela.

— Esperava vir encontrar hoje aqui o vosso amigo, Mr. Krasowski — disse Teresa de um hausto.

— O Ed? Ah! Está a trabalhar.

— É um emprego fixo? Ou voltará a treinar-se aqui?

— Foi anteontem que conseguiu arranjar trabalho. Julgo que vai ficar por lá todo o Verão antes de voltarmos aos jogos. Embora tenha algum tempo livre para dedicar aos treinos, não voltará aos exercícios na praia.

— Sabe onde é que posso... encontrá-lo?

— Em Paradise Park.

— Paradise Park?

O rapaz mediu-a como se ela fosse uma marciana.

— É o grande parque de diversões que fica entre Santa Mónica Venice. O Ed trabalha numa das barracas.

— E estará lá amanhã?

— Ora deixe-me ver... Amanhã que dia é? Quarta? Sim, está lá e certeza. Quinta, sexta e sábado está de folga, mas no domingo oltará ao serviço.

— Agradecida pela informação. Está com ele muitas vezes?

— Encontramo-nos praticamente todas as noites. Temos um parlamento alugado a meias perto daqui.


— Estava a pensar se... quererá fazer o favor de lhe dar um cado da minha parte?

— Da melhor vontade.

— Então faça o favor de lhe dizer que gostava de me encontrar

om ele, por causa de... de um assunto pessoal na... não, é melhor

ue seja na quinta-feira. Quinta-feira ao meio-dia, mesmo no par-

ue de diversões. Haverá um lugar próprio para um encontro?

As últimas palavras de Teresa pareceram pôr à prova a capaci-ade de compreensão da massa cinzenta do moço. Parecia estar concentrar-se.

— Bem, o parque é uma coisa bestialmente grande. Mas qua-e logo à entrada existe um grande tanque de focas amestradas, bda a gente se costuma juntar lá a dar peixes aos animais.

— Muito bem, diga-lhe que na quinta-feira ao meio-dia estarei unto do tanque das focas.

Então, pela primeira vez, notou que o rapaz se mostrava im-ressionado com o seu fato de banho. Sentiu-se contente, de cer-eza que contaria a Ed a sua aparência.

— Muito obrigado, sim?

— Não tem de quê, ma'am. Precisa de mais alguma coisa?

— Não, nada mais. Não se esquece de lhe dar o meu recado?

— Oh, não.

Teresa mimoseou-o com o melhor dos seus sorrisos.

— Fico-lhe muito grata.

— Não tem de quê.

O mocetão voltou-lhe as costas disposto a voltar aos treinos,


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mas repentinamente rodou de novo sobre si para a encarar.

— Eh! quase que me ia esquecendo do melhor. Qual é o seu

nome?

Teresa hesitou.



— Diga-lhe apenas que a pequena... — parou, lembrando-se

que para Ed não podia ser uma pequena mas sim uma verdadeira

dama, e decidiu manter a sua identificação bem definida. — Diga-

-Lhe que é a senhora que ele conheceu na praia, neste mesmo

lugar, a semana passada, a senhora a quem ele quase atingiu com

a bola. Ed saberá quem sou.

O rapaz olhou-a de um modo bizarro, e Teresa sentiu-se pouco à vontade.

— Okay, ma'am—rematou finalmente o moço, indojuntar-se

aos camaradas.

Satisfeita por ter sido capaz de levar a cabo o que tinha decidido fazer, Teresa reuniu apressadamente os poucos pertences e caminhou na direcção do seu automóvel, sem voltar a olhar para o local onde ficavam os três jogadores. Até The Briars não abrandou a velocidade.

Uma vez chegada a casa, preparou o seu almoço com toda a eficiência e comeu-o. Fez uma meia dúzia de telefonemas de carácter social, escreveu vários cartões de agradecimento e uma carta e entreteve-se a preencher cheques para pagar aos fornecedores.

Às três horas deitou-se, para fazer a habitual sesta — coisa a que costumava atribuir, em grande parte, o prolongamento da sua juventude —, mas em vez de pegar logo no sono, deu-se ao luxo de fantasiar a divina união com o seu aborígene (lamentava de certo modo que o seu encontro com Ed Krasowski não tivesse ocorrido antes do advento do Dr. Chapman. Tinha entrado, com carácter permanente, na sua história taxada simplesmente como uma mulher sexualmente saudável; tivesse Ed antecedido a entrevista e ela teria sido imortalizada como uma mulher sexualmente saudável e sensual). Às quatro ainda estava acordada. Tomou o partido de se levantar, fazer uma cuidada maquilhagem, vestir-se de ponto em branco para assistir ao inaugurar da exposição de quadros de Boris Introsky. Poucos minutos antes das cinco já Teresa guiava em di-

recção a Westwood, a caminho da galeria de arte.

Ao chegar, viu que era difícil arranjar um espaço livre na placa de estacionamento. Presumia que a exposição arrastara muita gente, e sentiu satisfação com isso. Guiou até à placa de estacionamento do quarteirão seguinte e foi a pé até à loja. Ao aproximar-se viu vários grupos de pessoas que entravam para a galeria. Habitualmente, Geoffrey era bem sucedido com aquelas ante-estreias, acompanhadas por um beberete; os seus cartões de convite eram célebres pelos dizeres gravados em relevo, e costumavam ser enviados a uma selecta lista de fazedores da opinião pública (críticos de arte, damas profissionais do mundanismo, abastadas divorciadas que procuravam matar o tempo e estrelas de cinema). Em suma, tratava-se de uma forma impressionante de convites, e eram sempre bem recebidos pelas pessoas a quem se dirigiam.

pe facto a pequena galeria estava a abarrotar de gente. Teresa deslizou por entre aquele mar, com o vestido de seda de cocktail em ruge-ruge, baixando a cabeça numa saudação a algumas pessoas que não conhecia e cumprimentando efusivamente as que conhecia. Geoffrey, com uma taça de champanhe na mão esquer-, da, estava no pequeno estrado ao centro do salão, como se fora um capitão na cabina do piloto — ou chamar-se-ia castelo da proa? — e Teresa abriu caminhou para junto do marido, estendendo-lhe o rosto friamente para o costumado e distraído beijo conjugal. Geoffrey mal lhe roçou a cara com o enorme bigode. Logo a seguir, o negociante de arte arrastou para perto de Teresa um homem ainda jovem, baixo, magrinho, com um nariz nitidamente rabínico. O homenzinho, que suava profusamente, não obstante a brilhante calva ; que ostentava e a barba que lhe carregava as feições, tinha um aspecto ridículo de imaturidade. Sempre que via um jovem de barba, Teresa Hamish pensava imediatamente que ou ele não tinha queixo ou então não tinha talento. Geoffrey apresentou-lho como sendo Boris Introsky, e Teresa mal pôde esconder a sua estupefacção. Quando pela primeira vez o ouvira pronunciar o nome, este fizera-lhe evocar a imagem de um ucraniano com o poderoso porte de um urso pardo, cheio de massas musculares, intratável, independente e hostilizante. Aquele Boris tinha, porém, todo o ar de ter nascido em Coney Island e chamar-se William. Com certeza
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que a sua estada em Paris se fizera à custa do Exército dos Estados Unidos. A voz do homenzinho carecia de timbre, tinha os olhos lacrimosos, e as suas opiniões eram fortemente convencionais. Pensou que não era de nenhuma forma uma venda que constituísse êxito.

Em ocasiões como esta, Teresa sempre se mostrara de uma ajuda valiosa para o marido. Sabia insinuar-se, misturava-se com os convidados e conhecia de sobra a gíria artística. Agora, porém, não se sentia com nenhuma disposição para desempenhar o papel habitual, manteve-se ao lado de Geoffrey e foi preciso que este lhe segredasse qualquer coisa ao ouvido para ela desempenhar a sua tarefa. Teresa começou a circular pela sala — tão apinhada que não caberia lá uma mosca. Os berrantes quadros abstractos que pendiam das paredes davam-lhe a impressão de se encontrar num jardim infantil e não numa galeria de arte onde se exibia uma pintura de avant-garde. Na verdade, aquele Boris de maneira nenhuma se assemelhava a um Duchamp ou a um Kandinsky. No meio daquela gente que se agitava, viu e cumprimentou Kathleen Ballard, que estava acompanhada por um homem alto chamado Radford, trocou efusivos apertos de mão com três críticos, com Grace Water-ton e com o casal Palmer e andou de Caifás para Pilatos e de Pilatos para Herodes, ouvindo vagamente as várias opiniões emitidas numa linguagem quase sacerdotal para um neófito, mas um chavão para os profissionais («...o seu sentido de harmonia das cores... e a tessitura, meu Deus... mete-nos dentro dos próprios quadros... aquelas opulentas zonas azuis... querida, é puro movimento através de imagens múltiplas... rasga novas fronteiras... senso de forma... uma visão interior... azul do ultramar... Montpamasse... vermelhão... revolta... Hiroshige...»), ao mesmo tempo que pensava por que diabo teria Geoffrey exilado as adoráveis telas de Pieter Brueghel, trocando-as por aquela coisa. Sabia porém que a mercadoria podia ser valiosa, era comprada a dez réis de mel coado e vendida por altos preços.

Escoaram-se duas horas, e Teresa, durante esse espaço de tempo, já bebera quatro taças de champanhe. Acabou por decidir que para se ver livre daquilo tinha que fabricar uma dor de cabeça-Aproximou-se de Geoffrey, rodeado por compradores potenciais, e

contou-lhe que se sentia incomodada. O marido fez-lhe um sinal de assentimento distraído.

Lá fora a noite já tinha caído, e Teresa viu que na rua havia vida, uma vida que nada tinha de abstracta, uma vida sem linhas interrompidas e sem intersecções incompreensíveis, sem borrões dispostos a esmo. Pensou em Ed Krasowsky, o primitivo que estava tão perto da verdadeira arte, da arte pura e figurativa. Imaginou o que é que ele teria pensado daquilo tudo. Com certeza que veria as coisas pelos mesmos olhos, e Teresa sentiu-se bastante mais perto dele. Quantas daquelas exibições desagradáveis e falsas tinha ela ornamentado? Onde é que estavam agora esses dias, essas noites, esses anos?

Geoffrey chegou a casa uma hora antes do que ela esperava. Havia decidido que estaria a dormir quando ele entrasse, porque era a noite dedicada às relações conjugais e ela não estava disposta a suportá-lo. Mas eis que ainda se encontrava ali, sentada no divã junto à janela, bem acordada e sem o mínimo vestígio de qualquer indisposição.

— Foi na verdade uma exposição maravilhosa — disse Teresa,

assim que viu o marido. — Mas tens um ar tão fatigado! Então

como é que correram as coisas?

Geoffrey abanou a cabeça.

— Desoladoras. Só conseguimos livrar-nos de seis quadros.

Teresa, interiormente, sentiu-se satisfeita.

— Lamento muito — disse à guisa de conforto. — Mas em boa verdade tinha receio que isso sucedesse. A obra dele exige muito, e estas criaturas aqui não possuem o élan necessário para o compreender. Em Paris...

— Ah, claro, em Paris.

— Ou mesmo em Roma.

— Hummmmm... talvez.

— Mas evidentemente que temos que fazer algumas

concessões à mediocridade, meu caro.

Baixou a cabeça, olhou fixamente a carpete, e voltou-se de súbito.

— Como estás da dor de cabeça?

—■ Muito melhor, mas — acrescentou apressadamente — re-
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ceio que tenha sido motivada pelo meu ciclo mensal...

Teresa, antes, nunca havia mentido a respeito daquilo.

Mas desta vez, a modo de desculpa, disse para consigo que aquele era um período extraordinário de transição no seu desenvolvimento físico e espiritual. Em breve ela estaria apta a poder duplicar aquele prazer, pagar-lhe-ia com juros a negativa e ambos ficariam plenamente satisfeitos.

— Sinto muito — dizia Geoffrey. — Penso que será mais con

veniente ires descansar.

Teresa levantou-se, quase jovial.

— Tu és a única pessoa com quem nos devemos preocupar.

Vou tirar-te o casaco, calçar-te as pantufas e depois tomaremos

um brande juntos.

Amava-o tanto! E na realidade Geoffrey acabaria por se sentir felicíssimo.

Diário de Benita Selby. Quarta-feira, 3 de Junho «... foi a coisa mais extraordinária que desde sempre me aconteceu, e eu nunca escreveria isto se não pensasse que ele é uma criatura boa e que poderá vir a ser meu marido. Depois de Gerold estar demasiado embriagado com todos aqueles bourbons, fui eu que tive de guiar o carro até à Villa Neapolis. Ficámos ali sentados durante um bocado e foi então que ele me começou a narrar toda a sua vida — comparada com a dele, a minha mamã é um verdadeiro anjo — e admitiu ter frequentado durante dois anos um psicanalista apurando ser um homossexual latente, aliás uma coisa que sucede com a maioria dos homens —, mas que jamais praticara qualquer acto menos próprio e estava em vias de se curar pela psicanálise. Deitou a cabeça no meu seio e, a chorar, disse que queria casar-se comigo. Senti tanta pena de Gerold que o meu desejo é tomar conta dele para sempre. Concordámos que a decisão será tomada quando nos encontrarmos em Chicago. Esta manhã, antes da partida dele, tomámos juntos o pequeno-almoço e Gerold portou-se maravilhosamente. Não há dúvida de que precisa de mim, e uma vez que pode ser uma criatura normal, como tem provado o Dr. Chapman, julgo que as coisas correrão pelo melhor. A ver vamos. Gerold ganha

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13 000 dólares por ano. E uma e meia, e a minha disposição é boa. Dentro de quatro dias partiremos. Recebi uma carta da mamã e não sou eu quem a vá culpar por ter abandonado as consultas do Dr. Rubinfeer. Quem é que já ouviu dizer que uma anca deslocada fosse uma doença psicossomática? Esta noite vou escrever-lhe a prestar todo o meu apoio moral. Sinto-me na verdade tão bem que decidi ir almoçar ao Crystal Room. la a passar junto de uma mesa onde Paul e Horace estavam a comer juntamente com uma mulher atraente, quando Paul me deteve e me convidou a sentar junto deles. Apresentou-me a senhora como Mrs. Ballard. Sentei-me e não me arrependi, o ambiente era na verdade simpático. Quando ia a passar junto da mesa, ouvi Horace a discutir o caso de sua mulher. Foi isso que me levou a retardar o passo e deu aso a que eles me vissem. A minha curiosidade ficou a dever-se ao facto de, desde que trabalho com o Dr. Chapman, nunca ter ouvido Horace discutir assuntos sobre a sua vida de casado. Nunca o tinha ouvido pronunciar o nome da mulher. Claro que toda a gente em Reardon sabe o motivo por que nunca fala nela. Menciono este assunto porque me acorreu, não sei porquê, que aquela Mrs. Ballard podia será mulher de Horace que tivesse voltado a consorciar-se. Na verdade podia muito bem ser, mas é preciso ter em conta que tem um aspecto tão reservado, e a ideia que possuo da mulher de Horace...»

Naomi Shields estava indolentemente recostada na cadeira, sentada naquela mesa junto à pista de dança, naquela mesa onde Wash Dillon a tinha colocado após ter recebido o recado que lhe enviara. Não foi sem esforço que conseguiu levar o copo aos lábios e emborcar o resto do gim.

Virou-se para dizer ao criado que voltasse a encher o copo, e foi então que reparou que a sala estava desoladoramente vazia, não havia ninguém sentado às outras mesas do salão de baile do Jorrocks' Jollities. Um criado, a um canto, desabotoava o casaco branco do uniforme e viu um mexicano de fato-macaco que entrava com uma vassoura na mão. Fora o criado e o mexicano das limpezas não havia mais ninguém na sala... exceptuando, evidentemente, os homens da orquestra e ela própria.

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Fixou os olhos no chão brilhante da pista de dança e seguiu--Lhe a trajectória até localizar o estrado da orquestra. As figuras eram demasiado esbatidas, como se fossem fotografias tremidas tiradas por um fotógrafo amador, mas mesmo assim conseguiu reconhecer Wash, de joelhos a arrumar o seu saxofone, e os quatro elementos da banda também a arrumarem os instrumentos e os papéis de música. Sentiu que eram aqueles os únicos amigos que tinha no mundo, especialmente Wash, Wash muito em especial.

Duas vezes naqueles últimos oito dias, três contando com aquela noite, se havia dirigido ao bar do Jorrocks' Jollities, que ficava do outro lado, para além do vestíbulo, e sentara-se a tomar algumas bebidas no desejo de procurar por Wash, mas no último ins- •< tante acabara sempre por mudar de ideias, regressando de táxi, tal como viera, a The Briars. Em todas aquelas manhãs sentira orgu- r lho na sua nova castidade, na emenda da sua vida, mas todas as manhãs e todas as tardes se sentira também dolorosamente só, compreendendo que não podia manter-se sem ser amada. Naquela noite, na sua cozinha, experimentara um súbito asco pela comida e começa a beber moderadamente (a fim de abrir o apetite), e depois cada vez mais (para afogar o desejo que a possuía), tendo acabado por telefonar para a praça de táxis e voltado ao bar pela terceira vez. Mas nessa altura tomara coragem para dizer ao barman, agora já um amigo de confiança, para avisar Wash da sua presença. Depois o atiradiço Wash surgira e levara-a para a mesa em que estava.

Naomi experimentava prazer em sentir-se como que uma componente daquela orquestra. Por duas vezes, durante os intervalos, os rapazes da banda se tinham ido sentar à sua mesa juntamente com Wash, não se cansando de a gabarem e lançando gracinhas a Wash (que piscava o olho divertido) e conversando de uma maneira completamente estranha, que ela não era capaz de compreender, ? de música e de músicos.

Como eram os nomes dos rapazes? Ora, Wash... Perowitz... Lavine... Bardelli... Nims... não, era Sims... ou seria Kims?...

Abanou a cabeça para aclarar as ideias e tentou emparceirar os nomes com as caras dos seus amigos, aquele macilento de cigarro sempre ao canto da boca... o de rosto romano e cabelo

encaracolado, que marcava o compasso com batimento de pés... o negro com a barbicha de bode e todos aqueles anéis nos dedos de unhas compridíssimas... o de cara de bolacha com o nariz retorcido... e o de rosto comprido como o focinho de um cavalo, de olhos afundados nas órbitas, braços e pernas compridos, corpo desen-gonçado, que se chamava Wash Dillon. O homem que lhe colocara o braço em volta da cintura e lhe aflorara os lóbulos das orelhas com os lábios.

Nesse momento observou que Wash se dirigia para a mesa, caminhando a jingar pelo brilhante soalho da pista, com o seu smoking, feio mas desejável, e tentou manter-se bem erecta na cadeira.

— Como te sentes, bebé?

Ali estava ele em pé, junto dela.

Naomi levantou os olhos. Viu a cara cavalar, marcada pelas bexigas, em imagem dupla.

— Então sentes-te bem, amorzinho?

— Sinto.


— A noite ainda é uma criança. Gostavas de te divertir mais um bocadinho?

— Gostava.

— És uma pequena desejável e maravilhosa.

— Gostas de mim?

— Se gosto de ti? — Wash ria-se. — Meu anjo, o velho Wash não é nenhum dos vossos gabarolas que só têm conversa. Gosto de poder provar aquilo que digo. Talvez não acredites, meu torrãozinho de açúcar, mas desde aquele dia em tua casa tenho andado taradinho por ti, sempre à tua espera.

— Sinto-me estafada — foi a única coisa que Naomi conseguiu dizer.

Tentou levantar-se mas não conseguiu sem ajuda de Wash, que a agarrou pelos sovacos e a pôs de pé com facilidade.

— Prontinho, já está — sorria. — Estás em pé, mas espero

que não seja por muito tempo.

Enfiou o braço no dela.

— Vamos embora, queridinha, o berço está à nossa espera.

Era forte o braço que a segurava, e Naomi sentiu-se melhor.


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Wash arrastava-a por entre as filas de mesas, agora vazias, mas ainda com as toalhas cheias de detritos e de nódoas de comida, de guardanapos sujos e cinzeiros a abarrotar de pontas, tal como sucedia todas as madrugadas.

— Eh, Wash! — ouviu-se alguém gritar.

Wash parou e olhou para trás por cima do ombro.

— Então, esta noite vamos a um joguinho?

— Muito melhor que isso, meu velho. O joguinho será outro e também teremos uma pequena jam session — fitava Naomi. — Não é verdade, queridinha?

— Wash, tudo quanto quero é deitar-me.

— Claro que te vais deitar, amorzinho. O velho Wash tomará conta da sua bebézinha.

Na rua, o ar frio e cortante foi como que um açoite contra o seu rosto, mas muito embora a tivesse feito, parcialmente, regressar à consciência, o universo circundante continuava invisível para Naomi, com excepção do vulto que seguia a seu lado. Algures, vindo de longe, ouvia-se o anónimo barulho do trânsito.

Lá no alto, muito no alto, a abóbada celeste oscilava, e lá em baixo, muito longe, o asfalto do pavimento era como que uma íngreme encosta.

Sentada no carro de Wash, andava abandonada de um lado para o outro, sentindo o forte odor que se desprendia do corpo do homem, misturado com o vago cheiro da flor que ele exibia na lapela de cetim.

Teve consciência das mãos que lhe afagavam os seios, por cima da camisola, e ouviu a voz de Wash junto ao seu ouvido.

— Desde o dia em que te levei o postal, fiquei a saber que

gostavas disto.

Naomi recostou a cabeça no assento, conservando os olhos fechados.

— Quanto tempo se passou, pequerrucha? —Como?

— Desde que foste possuída pela última vez?

Se ela lhe dissesse que fora há uma eternidade, quase desde o berço, Wash pensaria que ela era doida, que brincava com ele. Além disso, estava extremamente cansada. Optou por não responder.

A nave espacial seguia aos sacões... seguia sempre, a seguir veio a calma, uma profunda calma. Naomi abriu os olhos.

— Já chegámos — anunciou Wash.

Abriu a porta do carro e estendeu-lhe a mão para a ajudar a sair. Com o braço a rodear-lhe a cintura, ajudou-a a atravessar o passeio, a passar pela porta envidraçada do patamar e a entrar no edifício.

Naomi viu, por entre uma neblina, as tabuletas com o nome dos inquilinos, as placas das campainhas e as caixas de correio com portas de metal amarelo. Passou por um corredor sombrio que levava às escadas das traseiras e fixou o número da porta — o cinco.

As luzes mataram a reinante escuridão, e Naomi parou indecisa ao lado da mesa de poker, com o seu pano verde, colocada no centro da sala. Wash voltou de qualquer lado interior com dois copos e meteu-lhe um na mão.

— Bebe, amorzinho, não haverá mais disto durante toda a noi

te.


—Tenho estado a beber gim.

— Isto é gim — disse ele, emborcando o seu copo de um

trago. — Acaba com isso, boneca. Prepara-te para a longa viagem

que vamos fazer.

Naomi bebeu. O líquido não lhe soube a nada.

Wash tirou-lhe o copo da mão e colocou-o em cima da mesa de poker, depois agarrou-a pelo cotovelo e, com firmeza, guiou-a até uma porta que estava aberta. As luzes foram acesas e Naomi viu-se junto a um cadeirão e observou a larga cama de casal que havia no outro lado do aposento.

O leito tinha a cobri-lo uma colcha franjada cor de laranja. De resto todo o quarto estava arrumado.

— És um homem arrumado — disse-lhe Naomi, em voz ainda entaramelada, ao mesmo tempo que ele fechava a porta.

— O apartamento dá direito a que uma criada venha fazer limpeza.

Wash arrancou a colcha da cama e a seguir fez o mesmo aos cobertores, mandando tudo para o chão. Depois afastou o travesseiro.


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— Gosto de muito espaço para a função — disse, favorecendo Naomi com um sorriso em que os lábios não se moviam, e mais parecia uma careta de zombaria. — E tu, minha bonequinha?

— Eu o quê?

Naomi viu-se enlaçada e quase levantada do chão, e sentiu que os lábios dele lhe sorviam esfomeadamente a boca. Através dos vapores da intoxicação alcoólica, a excitação veio lentamente, não pelo beijo, mas pela pressão do corpo dele contra os seus doloridos seios e pela mão que lhe afagava as ancas. Finalmente Wash deixou-a, e ambos abriram a boca para deixar o ar circular nos pulmões.

Naomi viu que Wash desabotoava a camisa. Ela encaminhou--se lentamente para a cama, fez um gesto para se despir mas depois baixou os braços, quedando-se sem energia. A momentânea urgência da cópula diminuíra, o que restava era apático, um vazio. Para além da vertigem que lhe fazia latejar a testa, havia agora uma certa sobriedade, e a cama já lhe parecia menos convidativa. Não sentia nenhum desejo... nenhum desejo de o ver, ali, nu e tenso, tinha visto tantos... também não sentia nenhum desejo de se unir àquele homem, justamente porque antes dele tinha havido tantos. Afinal, porque é que ela se encontrava naquele local? Se contasse tudo a Wash, se lhe explicasse bem as coisas, talvez ainda houvesse uma esperança de escapar à tortura...

— Eh, amorzinho... — ouviu a voz dele.

Naomi voltou-se penosamente, resolvida a fazer-lhe ver a lógica e a razão, mas ao observar aquele tenso corpo nu que repousava numa estrutura óssea saliente, compreendeu que seria inútil. Fora ela quem pusera o maquinismo em movimento e tinha que aguentar até ao fim.

—... porque é que esperas? Vamos a isto.

Melancolicamente, Naomi levou as mãos à barra da camisola e, lentamente, começou a puxá-la para cima.

— Com os demónios, despacha-te!

Wash já estava junto dela, agarrando-lhe a camisola, puxando--Iha com violência para a cabeça. Naomi sentiu as mãos dele nas costas, procurando os colchetes do soutien, e, finalmente, arran-cando-lho do corpo com um sacão. Quando viu o soutien atirado

para o chão e reparou que os seus enormes seios, livres da prisão, se projectavam para a frente, Naomi tentou protestar, mas já as sôfregas mãos dele a agarravam sem mercê, projectando-a rudemente para cima daquela cama.

— Wash, não...

— Vamos, depressa.

As calcinhas de nylon foram-lhe arrancadas das pernas. Wash esmagava-a com o peso do seu corpo.

— As minhas meias... — protestou ela, sufocada.

— As meias que se marimbem.

— Não, por favor...

Naomi lutou por se levantar. Conseguiu soerguer-se apoiada num cotovelo. Só pretendia explicar-lhe. Devia haver um certo código ético na prática do amor, e uma senhora nunca devia conservar as meias. As meias eram uma coisa indecente, uma coisa completamente indecente.

O braço de Wash caiu-lhe como uma barra de ferro contra o peito, e a cabeça de Naomi foi violentamente projectada contra o colchão. As mãos apalpavam-lhe os seios com frenesim.

Naomi voltou a protestar pela indignidade das meias, que a faziam assemelhar-se a uma prostituta, mas ao abrir os olhos e reparar na expressão selvagem da cara dele, sentiu verdadeiro pavor.

— Não me magoes — implorou.

A voz dele era colérica, impaciente, titubeante, incoerente, cheia de paixão; era como que uma espécie de responso animalesco, um rugir de fera com cio, e Naomi de novo cerrou os olhos, afundou--se na escuridão, abandonando-lhe a sua carne para que a morte pudesse, assim, chegar mais depressa e terminar com aquela dor.

Finalmente a esperada sensação — como que o leve corte da epiderme antes de o bisturi mergulhar nas profundezas da carne... depois lacerante, mas logo calmante, cicatrizante como cautério vertido na ferida... Naomi quase se sentia agora satisfeita por a sensação ser localizada, estar limitada, isolada, ser-lhe tão familiar. O seu corpo recusou-se àquele andamento rítmico, mas o dele continuava a agir incessantemente, interminavelmente. E à
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cauterizante agonia juntou-se o prazer. Agonia e prazer eram uma e a mesma coisa.

Finalmente, as mãos de Naomi cerraram-se nas costas dele.

— Amo-te, Horace — murmurou ela.

Mas mais tarde, uma vez aquilo acabado, sentiu-se esgotada e vitoriosa, mesmo dentro da derrota sofrida, porque ela, antes, se tinha dado, como contara ao homem escondido por trás daquele biombo idiota, mas desta vez o homem dera-se e ela não. O prazer sentido com isso dominava qualquer outro prazer de que se lembrava.

Por fim, Naomi atreveu-se a abrir os olhos. Wash lá estava a apertar o cinto.

Sorria com aquele sorriso sardónico.

— Então que tal, pequerrucha? Queres beber alguma coisa? Naomi abanou a cabeça negativamente.

— Quero ir para casa.

Tentou erguer-se, mas Wash aproximou-se dela e, espalmando--Lhe a mão contra o peito, empurrou-a para trás, com suavidade.

— Eh, nada de pressas. Não é prova de boa educação comer

e desandar, deixando os outros convidados a ver navios.

Naomi ficou deitada, de barriga para o ar, fraca, estonteada, na mesma posição em que ele a colocara. Observando-a, Wash diri-giu-se para a porta e escancarou-a. Naomi ouviu um ruído confuso de loiças que se entrechocavam e de vozes indistintas.

Então ouviu o berro de Wash:

— Okay, Ace... já podes entrar!

Um estranho entrou de súbito no quarto... afinal não era um estranho, mas sim o homem de rosto romano com o cabelo encaracolado. Envergonhada, procurou com as mãos qualquer coisa para tapar a sua nudez, mas as mãos tactearam em vão.

— Já pode ser?... — perguntou o rosto romano.

Wash produziu o seu habitual sorriso sardónico, que mais se assemelhava a uma careta.

— Hem, Bardelli, esta noite vais portar-te como um verdadeiro

homem.

O chamado Bardelli começou a tirar a camisa.



Naomi sentou-se muito tesa na cama. .?*"■

— Afinal quem pensas tu que eu sou?... — gritou para Wash.

Tentou sair da cama, mas Wash agarrou-a pelos ombros e

deixou-a pregada no mesmo lugar.

Naomi procurou desenvencilhar-se e estendeu as mãos de unhas aguçadas para a cara dele.

Lutaram durante breves instantes. Por fim, Wash segurou-lhe bem os pulsos, manietando-a.

— Parece que não a conseguiste fazer completamente feliz.

Ainda a deixaste com muitas forças — disse Bardelli, brincalhão.

Naomi tentou gritar, mas Wash evitou o berro, colocando-lhe a face posterior do antebraço em cima da carótida.

— Vamos embora depressa, meu filho da mãe, não estás a ver

.'■ que eia é um verdadeiro tigre?

Incapaz de poder mover os braços ou de gritar, Naomi começou a distribuir pontapés ao acaso. Depois sentiu que alguém lhe imobilizou as pernas e, por cima do braço de Wash, viu o rosto romano e os cabelos encaracolados que avançavam ao seu encontro. Em breve os caracóis pendiam para a sua cara, e sentiu na sua boca o fedor de uma outra boca a cheirar a alho.

Naomi conseguiu voltar a cabeça e ainda pôde ver Wash, que tinha parado, a rir à porta do quarto, a seguir não pôde ver mais que aquele rosto romano debruçado para ela. Desfechou um pontapé, mas o homem, grunhindo como um porco, espalmou-lhe violentamente a mão na cara. Soluçando, tentou mordê-lo para de novo experimentar o látego daquela mão que a açoitava. Pouco depois deixou de oferecer resistência e o homem deixou de bater. Naomi para ali ficou, deixando-se manobrar como se fora uma marioneta.

Mais uma vez aquilo se tornou infindável, acompanhado pela fremente dor que a trespassava, aquela dor localizada, aquela violência selvagem... aquela loucura sempre acompanhada por uma Porta, algures, que se abria e fechava e, mais longe ainda, um barulho de vozes indistinto, vozes que por fim compreendeu que pediam a Bardelli para acabar aquilo. E o rosto romano sempre na sua frente, contorcido, com os caracóis a baloiçarem, suados e oleosos.

Quando acabou, Naomi não pôde sequer erguer-se. Nenhuma vontade na terra seria capaz de fazer com que pudesse levantar
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aquela carne torturada. E a vitória de nada entregar não era afinal nenhuma vitória. Ali estava, arquejante, com os grandes seios a arfarem e os olhos fitos no vago, à espera. Sentia o baixo-ventre como se tivesse sido escavado, como se os seus órgãos genitais fossem um tronco de árvore apodrecido e oco. Ali estava derrotada, abandonada de todo o instinto de resistência, prostrada, de olhar fito no vago, à espera...

A porta abria e fechava, chegavam-lhe rajadas de gargalhadas. De repente viu que por cima de si já não estava o rosto romano, agora era a cara de bolacha, nariz retorcido e mandíbulas salientes do mascador de pastilha elástica. Sentiu a mão nos seios e coxas, as mãos que lhe abriam as pernas... Lavine, era Lavine... e logo a seguir o negro de barbicha de bode. Sims... não era Nims, era Sims, lembrava-se agora perfeitamente do nome. Fechando os olhos, Naomi recordou-se de já ter havido um negro como aquele, antes daquele. Quando? Era o empregado de um bar, o intelectual que lia livros e mais livros, o negro que lhe contara que o problema da raça no Sul não passava do medo psicopático que o homem branco tinha por o negro ser melhor dotado para aquela função...

— Não, Sims... não... — conseguiu gritar roucamente.

Quando voltou a abrir os olhos já não era Sims, era um rosto

macilento e sonambólico, um rosto com borbulhas, um rosto que se retorcia num esgar... foi com aquele que ela mergulhou na inconsciência total.

Quando Naomi voltou à vida, estava sentada, ensanduichada entre Wash e Sims. Era o negro que ia a guiar. As janelas dos dois lados estavam abertas, e a carícia do vento era fria e suave como o deslizar de um arroio num dia calmoso.

— Sentes-te bem? — perguntava a voz de Wash. — Agora

vamos levar-te a casa.

Mirou-se e viu que alguém a tinha vestido. Na verdade aqueles homens eram como cavalheiros medievais, cavalheiros ao serviço da sua dama.

— Não te deves chatear. Qualquer cosedor de cadáveres te

dirá que aguentar com cinco não é pior do que aguentar um sozi

nho. Claro que estás cansada. Bem, filhinha... acontece que estás-

tens que ter cuidado... um dos rapazes... bem, ele magoou-te um

pouco... ficaste um bocadinho ferida... mas não é nada de grave, nada de importante... Eh, Sims, aguenta o barco. Podes parar aqui. Naomi sentiu o frear do carro e o súbito hiato da paragem do motor. Wash abriu a porta e saiu.

— Vamos deixar-te aqui. Faltam só umas portas para a tua

casa, filhinha. É melhor assim para ninguém te ver acompanhada.

Pode estar alguém à tua espera...

Oferecia-lhe a mão para a ajudar a sair, mas ela não se mexeu.

— Sims, vem ajudar.

Os dois, arrastando e puxando, lá conseguiram fazê-la sair do carro. Depois Wash encostou-a a uma árvore e disse-lhe, apontando determinado sítio com o dedo espetado:

— O teu caminho é para ali, boneca — oferecia-lhe o seu sor

riso zombeteiro. — Obrigado pela bela noite.

Naomi continuou apoiada à árvore mesmo depois de o carro ter arrancado. Não pôde saber por quanto tempo permaneceu naquela posição. Finalmente estendeu uma perna para ver se a conseguia mexer, e viu a meia pendente, rota, manchada por um líquido qualquer.
Soluçando, cambaleante, desatou a correr como uma doida na direcção da sua casa.

Logo que chegou ao seu relvado, o corpo deixou de ter aquele precário equilíbrio que conseguira sustentá-la de pé, e Naomi estatelou-se em cima da erva húmida do rocio nocturno.

Foi nessa altura que ouviu um ruído de passos, passos que primeiro soaram no pavimento da estrada e depois foram abafados pela maciez da relva, passos que rapidamente se aproximaram do seu corpo caído. Naomi tentou parar com os soluços e ergueu a cabeça à espera de ver surgir o uniforme de um polícia... Porém, o que viu (e sem a surpresa que esperara) foi o rosto de Horace, Horace que estava debruçado para ela, que lhe dizia qualquer coisa que não conseguia compreender, palavras de carinho de que teve a percepção antes de fechar os olhos e perder por completo os sentidos.
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10

Às oito e dez da manhã de terça-feira, Kathleen Ballard, em resposta ao apelo feito quase uma hora antes por Paul Radford, chegou à vivenda de Naomi Shields, onde Paul a esperava.

O telefonema manifestara-lhe urgência, uma urgência que não fora muito clara para Kathleen, excepto que Paul lhe contara que Naomi tivera um encontro com certo rufião, tinha sido maltratada e estava acamada a conselho do médico, precisando que alguém ficasse a acompanhá-la até que se contratasse uma enfermeira.

Muito embora Kathleen não fosse uma amiga íntima de Naomi e não a visse com muita frequência (a última vez que a encontrara fora por ocasião da conferência do Dr. Chapman na Associação), correspondera imediatamente ao apelo. Os seus sentimentos pessoais a respeito de Naomi tinham sido sempre ambivalentes em princípio, uma secreta inclinação para outra mulher que também fora casada e agora não tinha marido, e um secreto desconforto na presença de uma tal sexualidade sem restrições ou inibições (se é que eram verdadeiras todas aquelas histórias) que se tornara um assunto de conversinhas nas salas de estar de The Briars. Agora, para Kathleen, acrescentara-se um novo elemento. Naquele almoço do dia anterior conhecera Horace e soubera que era ele o ex--marido de Naomi Shields, e, dado que gostara de Horace (e, de facto, gostava de tudo e todos que estivessem associados a Paul), havia sido compelida a olhar para Naomi como um membro oficial do novo círculo para que se deixara arrastar.

— Como está ela? — perguntou Kathleen, ao entrar na atraente, mas banalmente decorada, sala de espera de Naomi, em estilo

chinês moderno, vendo, ao mesmo tempo, com surpresa, que nada daquilo lhe era estranho.

— Agora está a dormitar — respondeu Paul. — Ministraram-

-Lhe um forte sedativo. Ficará boa.

Ao mesmo tempo que falava, Paul desfrutava avidamente o rosto fresco de Kathleen.

Consciente daqueles olhos que a fixavam, Kathleen levou os dedos às faces.

— Devo estar horrível. Mal tive tempo para me arranjar.—Olhou em volta preocupadamente. — Há alguma coisa em que possa ser prestável a Naomi?

— De momento nada, com excepção de uns pequenos quartos de sentinela — respondeu Paul. Nem lhe posso exprimir a nossa gratidão, Kathleen. Tanto Horace como eu não conhecemos os amigos de Naomi. Não sabíamos para onde nos havíamos de voltar.

— Fizeram bem em chamar-me.

— Então, e quanto a Deirdre?

— De caminho fui levá-la à escola e deixei um bilhete a Albertine para ficar em casa até ao meu regresso. Já tomou o pequeno--almoço?

— Não.


— Tem que comer alguma coisa. Vamos passar uma busca à cozinha.

Não havia ovos nem bacon no frigorífico, e o pão contido no recipiente metálico já tinha muitos dias. O lava-loiças estava cheio de pratos sujos. Kathleen colocou duas fatias de pão na torradeira, fez café e depois lavou e secou vários pratos. Enquanto ela trabalhava eficientemente, Paul sentou-se numa cadeira, com um suspiro de alívio, e começou a explicar o que havia acontecido.

Muitas vezes, desde que sabia que Naomi vivia em The Briars, Horace telefonara para a vivenda sem que nunca a encontrasse. Nessa noite tentara de novo estabelecer contacto com ela e, como o telefone não fora atendido, dirigira-se de automóvel para a residência e parara o carro em frente da porta, resolvido a esperá-la. Pela madrugada, Naomi tinha finalmente chegado aos terrenos da sua vivenda, alcoolizada e maltratada. Horace tinha-a transportado para dentro de casa, havia-a reanimado e, conhecido o nome do
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médico assistente dela, telefonara-lhe imediatamente. O clínico não perdera tempo, mas depois de a ter examinado concluíra que além de três pontos naturais, o seu mal era principalmente psíquico. Recomendara que Naomi devia ser internada numa casa de saúde para receber um tratamento psiquiátrico intensivo. Fornecera a Horace os nomes de vários psicanalistas, e, quase ao romper da aurora, Horace, exausto e confuso, acabara por telefonar a Paul pedindo-lhe conselho.

— Que lhe poderia eu dizer? — disse Paul a Kathleen, en

quanto ela lhe servia o café e as torradas. — Nós somos estranhos

aqui. E, sabendo o que sei a respeito de Naomi, não é coisa que

possa ser orientada de ânimo leve e apenas pelo que se ouve dizer.

Evidentemente que o Dr. Chapman tem os melhores conhecimen

tos médicos do país, mas tanto eu como Horace chegámos à con

clusão e concordámos que seria melhor deixá-lo fora disto. Temos

que tomar em linha de conta o que os jornais diriam. O caso é uma

matéria estritamente pessoal de Horace, uma coisa para ser feita

com a maior calma e sigilo possíveis. Então lembrei-me do Dr. Victor

Jonas.


Kathleen sentara-se em frente de Paul, lembrando-se da maneira como este, num dos seus encontros, falara do Dr. Jonas com afeição.

— Embora pensando que, tecnicamente, ele é adversário do Dr. Chapman, compreendi que o problema de Naomi pertence à sua esfera de acção e que se pode confiar nele. De modo que lhe telefonei e expliquei a situação. O Dr. Jonas não perdeu tempo em vir ter connosco. Foi só depois disso que me lembrei de lhe telefonar a si.

— O Dr. Jonas encontra-se cá?

— Sim. Está nas traseiras a falar com Horace. Eu disse a Horace que aceitasse tudo o que ele lhe sugerisse.

Pouco mais havia a acrescentar. Ficaram em silêncio a saborear o café, Kathleen recordando-se do tempo em que a sua irmã estivera no hospital para lhe extraírem as adenóides e as amígdalas. Depois da operação, enquanto a irmã fora levada para o quarto de repouso, Kathleen e os seus pais tinham-se dirigido para uma cafetaria, bebendo café pela manhãzinha, e o café então tomado

tinha o mesmo cheiro característico daquele que estava agora a beber. Mas, situando-se melhor no tempo, pensou que era o café que os pais tinham tomado que deitava aquele cheiro, porque ela devia ter bebido leite.

Ouviram passos, e pouco depois entrava na cozinha o Dr. Victor Jonas. Paul fizera menção de se levantar, mas o Dr. Jonas impediu--o, fazendo-lhe pressão no ombro com a mão. Acolheu a apresentação de Kathleen com um sorriso caloroso, decidindo que ele próprio deitaria para si uma chávena de café quentinho. Kathleen ana-lisara-o num rápido olhar: o seu cabelo em desordem, o fato amarrotado e o nariz grosso conferiam-lhe um ar bizarro e pouco profissional.

— Horace foi lá dentro ver como ela está — disse o Dr. Jonas, levando a sua xícara de café para a mesa e sentando-se. Julgo que ele compreendeu perfeitamente o que deve ser feito.

— Existe alguma esperança para ela? — perguntou Paul.

— Talvez — respondeu o Dr. Jonas.

Paul e Kathleen trocaram um olhar, ele perturbado, ela perplexa, porque ambos tinham esperado ouvir a habitual e confiante atitude social das frases feitas para casos semelhantes, tais como «evidentemente, enquanto há vida há esperança» e «não há mal que não tenha cura». Paul esquecera momentaneamente, e Kathleen ainda não conhecia a proverbial sinceridade do Dr. Jonas.

— Exactamente, o que é que isso significa? — perguntou Paul.

— Psiquiatricamente, existem todas as possibilidades de cura para um tal caso. É uma coisa, no entanto, que repousa inteiramente nas mãos de ambos, mas mais nas de Horace. Se ela tem que ser ajudada, tem que lhe ser feito compreender claramente que estão dispostos a auxiliá-la sem quaisquer restrições, fazer-lhe compreender que está doente, que tem todos os sintomas de uma profunda doença interior. Porém, desde que é ela a paciente, possuída de um desejo de autodestruição, precisa de uma mão forte e carinhosa que a guie. Ela tem que saber que não é uma criatura depravada mas sim uma doente. Não é uma tarefa fácil para Horace. Ele é um homem educado, esclarecido, mas existe um factor antagónico inimigo na sua velha formação religiosa. Se ele chegar à conclusão de que realmente a quer, que ela pode ser salva para ele,
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- O Relatório Chapman 385

deve ajudar a salvá-la salvando-se a si próprio. Nesse caso tenho um lugar para eles em Michigão. Não seria demasiado longe para Horace.

—Tem observado curas para casos destes? — perguntou Paul, sem rodeios.

— Evidentemente. Já lhe disse que a ninfomania é um sintoma

de algo que pode ser curado. É preciso atingir as profundezas,

achar o ponto fraco vital, tratar o caso adequadamente, e deixa de

existir qualquer razão subsistente para a ninfomania.

Kathleen sentiu um choque interior e desejou fervorosamente que a sua perturbação não tivesse sido notada. Aquela palavra, sempre aquela palavra ouvida num gracejo ou numa novela barata, atingia naquele momento uma qualidade terrível, porque desta vez era real, tal como Naomi era uma criatura real. Subitamente, Kathleen lembrou-se das conversas maldosas escutadas e estremeceu. As conversas afinal eram verdadeiras. Mas como é que uma mulher se podia comportar daquela maneira? O Dr. Jonas tinha dito que não estava na mão dela proceder de outra forma, que não o podia evitar, Naomi estava doente.

— Quais são as causas? — ouviu-se a si mesma a perguntar.

Pausadamente, o Dr. Jonas acabou de beber o seu café.

— Variam. Neste caso particular, pelo pouco que ouvi, penso

que ela não foi muito amada quando era criança e se ressentiu

disso — procurou nas profundezas dos bolsos o cachimbo de carolo

de milho e acabou por encontrá-lo. — Evidentemente que estou a

simplificar. Mas esta hipersexualidade pode ser um meio de tentar

agora obter esse amor que lhe faltou. Mas claro que não há substi

tuto, não existe homem nenhum, quer ela possua ou se deixe pos

suir por centenas, que lhe possa dar aquilo que os pais não lhe

deram há vinte anos — carregou o cachimbo e acendeu-o. — Tentei

explicar isto a Horace. Disse-lhe que ela cresceu sem ternura, sem

segurança, sem autoridade, sem o sentimento de ter sido uma pes

soa de valia, de modo que o problema se foi avolumando à medida

que ela se fez mulher, e por isso tentou fugir ao problema por meio

da infindável série de episódios insatisfatórios com outros homens.

Quando tomei conhecimento do caso, Horace perguntou-me espe

rançado: «Quer dizer que ela não procura o sexo pelo sexo, que

não deseja todos esses homens?»; e eu expliquei-lhe que assim era, que Naomi não queria de facto aquilo. Na verdade, interiormente, nos recessos do seu ser, ela é profundamente hostil à masculinidade. Talvez isto tenha ajudado Horace a compreender o problema, e é verdade—voltou a fitar Kathleen e a dar-lhe a segurança do seu sorriso franco, se bem que um pouco tímido. — O tratamento analítico pode ajudar a preencher aquilo que até agora lhe faltou. Pode fazer com que ela aprenda a saber quem é, o porquê das coisas, e convencê-la de que é uma pessoa de valia. Isso pode restaurar a sua identidade humana. Cessarão esses episódios sexuais suicidas — encolheu os ombros. — A cura depende deles e a tarefa pode estar acima das suas forças.

Alguns minutos depois, Horace apareceu, coçando o nariz no sítio em que os seus óculos, que agora tinha na mão, mostravam o sulco do uso. Lançou um olhar para as três criaturas que estavam sentadas à mesa da cozinha com uma expressão vaga. Kathleen esboçou um sorriso, e, por fim, Horace reconheceu-a e cumprimen-tou-a efusivamente.

— Naomi continua a dormir — disse Horace —, mas parece desassossegada.

— Naturalmente. A noite passada não foi para ela exactamente um piquenique — frisou o Dr. Jonas.

Horace olhou para Kathleen.

— Foi muita bondade da sua parte ter vindo, mas talvez seja

melhor eu ficar aqui para o caso de Naomi acordar. Acho melhor

telefonar ao Dr. Chapman para realizar o trabalho de sondagem por

mim.


Horace tirou a agenda do bolso e procurou o número do telefone da Associação. Benita Selby atendeu, e ele explicou-lhe que era provável que se demorasse e que o Dr. Chapman podia fazer as entrevistas marcadas até ao meio-dia. Então, ficou com o auscultador no ouvido, a escutar atentamente o que lhe diziam do outro lado da linha, acenando com a cabeça de uma maneira intensamente contrariada. Finalmente, disse ao bocal que ele e Paul iriam a caminho para as primeiras entrevistas.

Depois de desligar o telefone, Horace fitou Kathleen.

— Afinal não me podem dispensar — disse-lhe. E depois para
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pau|: _ parece que Cass está outra vez com a gripe às voltas, de modo que o Dr. Chapman continua encarregado da lista dele.

— Não se preocupe — assegurou Kathleen —, eu ficarei a tomar conta dela.

— Se Naomi acordar, explique-lhe que virei logo que acabe o trabalho; se me for possível, por volta das seis e meia.

Kathleen fez um sinal de assentimento. Paul e o Dr. Jonas levantaram-se.

— Penso que ela dormirá a maior parte do dia — disse o Dr.

Jonas, voltado para Kathleen. — A senhora pode deitar-lhe uma

vista de olhos de vez em quando para ver se ela está confortável.

De um quarto das traseiras ouviu-se um ruído meio latido meio

uivo.

— Meu Deus, tinha-me esquecido do cão — Horace olhou em volta, desalentado. — Quem é que vai tomar conta do animal?



— Tomarei eu — disse prontamente o Dr. Jonas. — Os meus rapazes podem cuidar do cão até Mrs. Shields estar levantada.

Desapareceu por breves segundos e voltou com o agradecido cocker spaniel nos braços.

Kathleen acompanhou os três até à porta da frente. Depois de Horace e o Dr. Jonas se terem despedido, Paul ficou parado durante um momento.

— Agradecimentos especiais para si — disse ele a Kathleen. — Telefonar-lhe-ei ao meio-dia para ver se tudo está em ordem. Posso encontrar-me consigo esta noite?

— Seria maravilhoso.

— Jantamos os dois?

— Não quero que saia da Califórnia sem dinheiro. Um hambúrguer em qualquer loja de estrada será suficiente para mim.

Paul sorriu.

— Você não é do tipo de comer hambúrgueres pelas estradas, mas farei o que quiser.

— Tem a certeza de saber de que tipo sou?

— De faisão com trufas, caviar e raminhos de edelweiss.

— Algumas vezes, sim. Mas outras também gosto de um hambúrguer e um raminho de flores mais simples — fez-lhe um gesto gracioso, torcendo o narizito.

— Desejo-lhe um excelente dia.

Depois de ter fechado a porta, Kathleen atravessou o halle, em bicos de pés, procurou o quarto de cama de Naomi. Tendo-o encontrado, entrou. As persianas estavam corridas e o quarto permanecia mergulhado numa semiescuridão. Naomi estava deitada, com a cabeça a repousar na curva do braço.

Ao retirar-se, Kathleen prefigurou a imagem dela: uma criatura quase mitológica, do pescoço para cima um anjo, do pescoço para baixo uma prostituta. Rapidamente se sentiu envergonhada da imagem que criara e baniu-a da ideia.

Na sala de estar, observando o mobiliário e a decoração, viu que aquilo que primeiramente lhe havia parecido ser um maneirismo estudado de tendência para o chie, afigurava-se-lhe agora uma coisa berrante. Os candeeiros de fina porcelana chinesa não passavam de peças baratas fabricadas em San Fernando Valley, e os vasos não eram de cristal mas de vidro facetado. Sentiu-se subitamente envergonhada por aquelas descobertas, como se houvesse mexido nas gavetas de uma casa estando o dono fora. Kathleen na verdade nunca se preocupara com o mobiliário das outras pessoas, não era snob em tais assuntos, tinha apenas o conhecimento do que era genuíno, do bom gosto e daquilo que não o era. Afastou-se daquelas peças e procurou um livro.

Em poucos minutos tinha encontrado uma verdadeira biblioteca de histórias de mistério alugada, e decidiu que aquilo a ajudaria a passar a manhã. Armada e equipada com cigarros, fósforos e cinzeiro, arranjou um lugar confortável no fofo sofá, colocou os pés em cima da mesinha do café, cruzou as pernas e tentou concentrar--se na leitura. Mas era difícil. O seu pensamento voltava-se todo para Paul Radford.

Durante a passada semana, com excepção de um dia, encon-trara-se sempre com ele. Nunca se sentira tão contente, tão à vontade com um homem. Todavia, a velha preocupação continuava suspensa sobre a sua cabeça como a espada de Dâmocles. Não ousara deixar-se absorver por aquela ideia, nem pensaria no que poderia acontecer entre eles, antes que, no domingo, Paul se fosse embora de The Briars. Agora que o convidara a preencher-lhe o pensamento, sentia-se repentinamente intrujona e desprezível.


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Tentou pensar nas outras mulheres que conhecia em relação com Paul. Como é que elas o tratariam? Qual era o seu próprio significado como mulher? A que tipo pertencia? Ao de Naomi? Oh, bom Deus, não. Mas haveria alguém assim... fria e controlada, exteriormente, como ela mesma? E quem é que era como ela? Na verdade, ninguém. Todavia, pensou em Úrsula Palmer. Ela era escritora. Paul era escritor. Coisas em comum. Mais do que isso, Úrsula tinha tanto domínio de si e tanta desenvoltura! Eram aquelas as características necessárias a situações como as que tinha que enfrentar. Nada daquela negra incerteza. Invejava Úrsula.

— Ora muito bem — disse finalmente Bertram Foster, depois de ter colocado a taça de champanhe na mesinha de chá em frente dela —, aposto que é a primeira vez que você sente bolinhas chegarem ao nariz durante o pequeno-almoço.

— Pois é — respondeu Úrsula, servilmente.

No dia anterior, Foster tinha-lhe telefonado a modificar a hora do encontro. Queixara-se do que Alma não lhe concederia uma noite de liberdade, nem para trabalhar, de modo que tinha estabelecido um outro plano excelente. Combinara com um estúdio cinematográfico fazer à mulher um convite para um local de filmagens em Lake Arrowhead. Alma só estaria de volta para o jantar, o que significava que ele e Úrsula teriam toda a manhã e toda a tarde para estarem juntos. Havia sugerido a Úrsula que podiam tomar o pequeno-almoço no seu apartamento.

Úrsula sentira-se melhor com a nova combinação, o jantar era uma coisa que a perturbava. O pequeno-almoço era uma coisa impessoal, despida de romantismo emocional, com uma atmosfera anti-sexual. Afinal de contas, quem é que se sentiria inspirado para fornicar depois de comer os cereais matutinos? Porém, logo que chegara, vestida a preceito para a manhã, blusa de grande decote e saia ligeira de lã, plissada, ficara atónita por ver Foster de roupão às pintinhas, envergado por cima do pijama de seda cinzento. A sua cara redonda estava escanhoada de fresco e cheirava a talco e seiva de pinheiro, e sobre o aparador havia a garrafa de champanhe, envolvida num guardanapo imaculado e dentro do balde de gelo.

Foster erguia a sua taça.

— É Piper Heidsick—disse —, o melhor que o dinheiro pode

comprar. Vamos, não tenha medo, prove o champanhe.

Ele bebeu e observou-a por cima da taça, quando Úrsula levou o recipiente aos lábios.

— Delicioso — disse ela, tentando esconder a careta.

Na verdade, o champanhe soube-lhe a qualquer coisa de indefinível e amargo, e, logo que o líquido lhe deslizou para o estômago, sentiu uma onda de calor que lhe fez latejar as têmporas.

— Magnífico—disse Foster, acabando de beber.—O pequeno-

-almoço pode esperar.

Deu a volta à mesa, poisou a taça e sentou-se pesadamente no sofá, ao lado dela. Olhou insistentemente para o ponto crucial do vértice formado pelo decote da blusa.

— Muito bem, senhora directora, afinal onde é que está essa

coisa?


Para Úrsula, o temeroso momento há tanto receado tinha finalmente chegado.

— Aqui — disse ela, apontando para o grande envelope comer

cial que estava por baixo da sua mala.

O completar das notas sobre a sua história sexual tinha sido um verdadeiro milagre de ambição. Durante o trabalho de dactilografia, tivera que parar constantemente, possuída involuntariamente pelo desejo forte da odisseia que fora a sua infância, os anos com Harold, as suas incompatibilidades como parceira sexual. Numa vida ocupada, cheia de acontecimentos onde a sublimação do amor ocuparia a menor parte, as suas insuficiências nunca tinham sido totalmente encaradas, nem sequer parcialmente. Mas uma vez concentrada num único local, como se fora uma biografia separada do seu comportamento, essa porção da sua vida agigantava-se de uma forma nunca antes divisada, e as suas deficiências tomavam--se evidentes e desesperantes. A desagradável tarefa de reviver esse segmento da sua biografia, o conhecimento de que em breve seria do conhecimento de outrem e ainda a compreensão de que o marido tinha ao serviço no escritório aquela intrometida alemã, tinha-lhe tornado os últimos dias intoleráveis. Várias vezes lhe tinha cruzado na mente o pensamento, semanas atrás absolutamente inconcebí-


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vel, de que o artigo da primeira página e o emprego em Nova Iorque não valiam o preço que ia pagar; porém acabara por andar para a frente e conseguira finalizar a repugnante narrativa.

Agora, tendo aberto o grande envelope e no momento em que tirava de dentro as páginas dactilografadas, imaginava se não seria menos vexatório meter-se simplesmente na cama com Foster em vez de deixá-lo vasculhar a sua vida sexual íntima através de todos aqueles anos.

— Tem vinte e sete páginas — disse ela entregando as folhas

a Foster.

Bertram ficou com as folhas na mão, mantendo um rosto grave, de circunstância.

— É uma grande contribuição — disse no seu tom de voz de falar de negócios.

— Isso levará um bocado a ler, Mr. Foster. Talvez seja melhor eu ir dar um passeio e voltar mais tarde.

— Não, quero tê-la aqui para discutir o assunto. Tome uma taça de champanhe.

Ele já estava a ler avidamente. Úrsula tentou evitar olhá-lo, mas, por várias vezes, lançou um relance para a sua face, e o que viu nela foi aquela concupiscência dos filmes proibidos, a luxúria de um homem que lesse o erotismo clássico de John Cleland. Úrsula bebeu o champanhe de um trago, sentindo-se doente até ao âmago, sentindo-se como uma espia que entregasse a um inimigo documentos secretos que pertenciam a Harold, sentindo que estava a trair a única escolha da sua vida privada feita perante Deus. (Se és capaz de vender isso, que mais te pode restar?)

Úrsula observou que Foster começava a desfolhar as páginas apressadamente.

— Passa-se alguma coisa, Mr. Foster?

— As coisas da infância... quem se importa com bagatelas dessas? Onde é que está a parte da idade adulta?

— Quer dizer a parte pré-conjugal?

— Sim, seja o que for que lhe queira chamar—respondeu ele, impacientemente.

— Página oito.

Foster localizou a página e desatou a ler. Os seus olhos não

desfitavam as letras, passava a húmida língua pelos secos lábios. Depois de ler durante um bocado, Foster f itou-a.

— Com que então você caiu antes do casamento e teve um filho?

— Era ainda muito nova, Mr. Foster— respondeu ela, apressadamente, pensando que estava a procurar defender-se mas que, ao mesmo tempo, não pretendia entregar-se com facilidade.

Foster voltou a mergulhar na leitura, e ela teve a estranha sensação de que os olhos dele não viam Úrsula Palmer mas sim um pedaço de carne onde podia cevar o apetite.

— Viver para aprender—disse Foster.

— Como?


— A posição é tudo — acrescenta ele, mostrando os dentes num sorriso e piscando o olho.

Úrsula sentiu-se banhada em suores frios.

O editor continuava a ler avidamente, voltando as páginas num ritmo febril, e Úrsula avaliava que naquele momento devia estar na parte que descrevia a sua vida com Harold. Sentiu uma vaga de desprezo por si mesma e desejou ter forças para lhe arrancar aquelas folhas de papel das mãos gorduchas.

Foster levantou o dedo que seguia as linhas e apontou-o para ela.

— Ele não é grande coisa, hem? — perguntou.

— Quem?


— O seu marido.

Úrsula foi tomada por uma onda de indignação.

— É tão bom como qualquer outro... como o senhor ou como qualquer um...

— Pelo meu padrão, não.

— Porque é que vocês os homens são tão convencidos? Porque é que pensam que se podem comportar melhor com uma mulher do que o marido dela? — retorquiu Úrsula, perdendo o acanhamento.

— É uma questão de lealdade, não pretendo minimizar... mas a verdade é que factos são factos. Desculpe. É porém possível que ele venha a melhorar com o correr dos anos.

Voltou a mergulhar na leitura. Úrsula tremia de raiva. Aquele
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velho e disforme libertino, com o seu cérebro perverso e devasso, estava a depreciar e a rir-se à custa de Harold, destroçando toda a sua vida de casada com a emporcalhada língua.

Foster tinha acabado de voltar uma página, mas logo a seguir tornou a pô-la em evidência e releu-a vagarosamente.

Os seus lábios soletravam as palavras silenciosamente. Manteve a página segura, e desatou a falar sem olhar para Úrsula:

— Diz aqui, «Pergunta: A senhora já...» — agora a sua cara

congestionada voltava-se para ela. Chegue-se para aqui—ordenou-

-Lhe, mantendo a página bem segura. Apontava determinada linha

com o dedo.

— Leia isto e diga-me se é o que estou a compreender.

Tensamente, Úrsula chegou-se para junto dele, inclinando a

cabeça para seguir as letras que o homem apontava. Sentiu a asmática respiração de Foster a queimar-lhe o pescoço.

— O que é que isto significa? — perguntou ele. Úrsula afastou-

-se, sentando-se muito direita contra o espaldar do sofá. Foster

fitava-a implacavelmente. A sua expressão era esquisita, arfava,

tinha os olhos brilhantes de cupidez.

Úrsula sentiu-se à beira das lágrimas e fez um esforço gigantesco para as evitar.

— O que é que isto significa? — repetiu ele.

— Precisamente o que aí está... — a voz de Úrsula mal se percebia.

— Aquilo que eu penso?

— Sim, mas... é diferente...

— Ah... — fez ele em ar de troça.

A cara dele chegava-se para a dela, havia nos seus olhos um imperativo de comando.

As têmporas de Úrsula pareciam querer estoirar.

— Mr. Foster...

— Sim! — gritou ele, reiterando o seu imperativo de comando.

Agarrou-acom mãos impacientes, mas Úrsula libertou-se das

garras que procuravam manietá-la e esbofeteou-o com toda a sua força.

— Você, seu porco... seu porco sujo!

— Você é que é a porca.

Úrsula ergueu-se, fugindo às mãos que ainda estavam estendidas, e agarrou na sua mala e nas páginas dactilografadas, abandonadas em cima do sofá.

Foster recompôs-se, mas a sua voz soou num tom implorativo, o tom de alguém a quem tiraram da frente o melhor prato do menu:

— Úrsula... escute, queridinha... bem sabe que posso ajudá-

-la... tudo o que quiser.

Ela encaminhou-se para a porta.

— Você já fez isso antes! — gritou Foster. — Você gosta disso!

A mão dela estava no puxador.

— Se se for embora, vai-se embora o seu trabalho também...

udo.

Com a porta já aberta, Úrsula voltou-se para trás.



— Sabe o que deve fazer com o trabalho? — gritou. E a seguir,

orno um estivador (lembrou-se mais tarde), disse-lho numa lingua-

em nua e crua. Depois afastou-se como se fosse perseguida por

ma legião de demónios, esquecendo-se do elevador e descendo a

orrer os três lanços de escadas.

Atravessou o vestíbulo sem olhar para nenhum lado, e não parou de correr até chegar ao carro. Então, e só então, o impacto absoluto do seu corte com o passado, não com o futuro mas sim com o passado, lhe veio forçosamente ao pensamento.

Curiosamente, agora já não sentia vontade de chorar. Através do pára-brisas, entre dois altos prédios acinzentados, podia ver a imensidão dominante do maciço montanhoso a norte da cidade, as grandes montanhas azuis, com a mancha verde da vegetação, recortadas contra o azul, mais azul, do céu. Podia ver as veredas que se perdiam nos cimos, divisava cada garganta entre os rochedos. Era um maravilhoso e claro dia para a Califórnia, e ela sentia-se satisfeita em notar aquela beleza pura e suave.

Sentindo-se confortável no sofá de Naomi, Kathleen Ballard, no tecer de uns quantos romances, quase não fora capaz de se fixar num único parágrafo do livro policial que tinha em repouso no re9aço. Em todos os romances tecidos, o herói era sempre Paul ^adford, mas a heroína, embora pretendendo ser ela própria, variava


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em conteúdo dispersa pelas imagens de umas quantas mulheres em que se procurava integrar, como motivo de agrado e por se sentir frustrada. Úrsula Palmer viera e partira, tal como Ruth Joyce e Felícia Scoville, e agora tinha introduzido Sarah Goldsmith no seu ser corpóreo, na sua vida privada, e apresentara-a a Paul.

Considerando Sarah, Kathleen podia ver como o seu calor natural, o seu aspecto de dona de casa terra-a-terra, o seu ar de fecundidade, podiam ser um apelo forte para um homem como Paul Radford. Evidentemente que, na situação de Kathleen, ela reagiria afectuosa e generosamente. Afinal era simplesmente uma questão de quarenta e oito cromossomas. Como é que o Criador os distribuíra? De que maneira os utilizava Sarah? E de que forma usava ela própria os seus secos e gelatinosos genes para um encontro com o homem? Sem dúvida que Sarah possuía o segredo do apelo sexual por uma decisão unânime de todo o seu corpo.

Nunca Sarah Goldsmith — nem desde aquela noite da véspera do dia de finados (dia das partidas) quando aquele esqueleto sem cabeça aparecera subitamente por detrás da cerca, tinha ela dezasseis anos, obrigando-a, juntamente com as outras raparigas da sua criação, a fugir desabaladamente, caindo aqui, levantando acolá, com o coração a querer saltar-lhe do peito — sentira um terror de pânico.

Dissimulada junto à parede da sala de estar, com uma nesga da cortina levantada para poder olhar para o exterior através da larga janela, Sarah observava com abissal atracção o Dodge que continuava parado junto à valeta. Não se movia o carro como não se movia o negro espírito de vingança que estava no seu interior e que a assombrava pela sua culpa como um inexorável fantasma. Deixando cair a cortina com um soluço de angústia, Sarah afastou-se como uma sonâmbula, aos encontrões no mobiliário que a cercava, procurando equilibrar-se naquelas pernas que sentia como pesadas colunas de mármore prestes a desmoronarem-se, abrindo um caminho cego para chegar à cozinha.

Pela terceira vez nessa manhã, desde que, pela primeira, avistara o carro e o seu condutor depois de Sam ter partido para o

trabalho, discou o número de Fred. A partir daquela vaga de terror de segunda-feira, ela permanecera na expectativa de ver aparecer o anjo negro vingador, o seu grito de consciência acusador, o olho poderoso que tudo via. Mas no dia seguinte, terça-feira, e igualmente na quarta, a rua tinha estado vazia de qualquer traço que lhe lembrasse o horror e a tragédia do seu perseguidor. Seguindo o conselho de Fred, ficara em casa afastada da cama do amante.

Naquela manhã, misticamente, neuroticamente, compulsivamente, fixava o seu espírito no misterioso número três do destino. Se decorressem três dias com a rua vazia de observação, então ela e Fred estariam a salvo e o caso não passaria de uma estranha coincidência. Porém, à terceira vez que se aproximara da janela para observar a rua, vira o Dodge inexoravelmente parado, e o seu encantamento mágico da boa esperança do número três tinha-se desvanecido na horrenda realidade das coisas, desmoralízando-a por completo. Mesmo quando tentara telefonar a Fred para lhe relatar o caso, a contingência do número três parecia mantê-la numa dependência insólita. Nas duas vezes anteriores ninguém atendera, toda a sua esperança se depositava na terceira chamada, mas a campainha do telefone soava insistentemente no outro lado do fio sem uma mão providencial a levantar o auscultador. Esperou durante muito tempo, e por fim desligou, convencida de que Fred tinha saído e que estava sozinha com o seu diabo atormentador.

As paredes da casa pareciam-lhe agora um cárcere prestes a engolfá-la na loucura, e sentiu que o seu único refúgio, a sua tábua de salvação, residia no sol, no ar livre libertador, onde, contudo, também o perigo estava à sua espera. Mas lá fora estava a sanidade da rua onde havia gente, onde estavam as suas amigas, onde havia o caminho que levava ao apartamento de Fred, à segurança do amor.

Quem seria afinal aquela figura, dentro do seu veículo de quatro rodas, que tão insistentemente a perseguia? Um homem. Um carro. Um detective particular. Nada mais que uma sombra acusadora movida por motivos puramente comerciais, paga a cinquenta dólares diários, alugada e despedida a bel-prazer do cliente. Mas urna sombra alugada por quem? Pela Sr.a Tauber? Por Sam?

Sarah considerou com os seus botões, tentando convencer-


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-se de que era uma criatura invencível, que era livre, adulta, de raça caucásica, mãe de dois filhos, uma cidadã do mundo que podia caminhar à vontade pelas ruas, ir fazer as suas compras, tendo a luz do dia como escudo.

Como é que aquela sombra dentro do veículo de quatro rodas a podia afligir mais? Seguindo-a novamente? Redigindo um relatório? Para Sam? Para a Sr.s Tauber? Com certeza que já tinha havido boa matéria para muitos relatórios. Mais um era coisa que não importava. O que importava era ver Fred, medir, avaliar, decidir sobre o caso, tendo alguém que amava junto dela, a pegar-lhe na mão, a acarinhá-la... assim podia desafiar o mundo inteiro, pouco se importando com o estigma que sobre ela caísse.

Tirou o casaco de cabedal do cabide, dirigiu-se para a porta da frente e abriu-a. Hesitou por momentos, vendo o jardineiro que trabalhava do outro lado da rua e mirando de soslaio o Dodge parado mais abaixo; depois, com passo firme, deixou-se envolver pela luz do sol, avançou na luminosa claridade do dia. Uma vez dentro da canadiana, ligou a ignição, fez marcha atrás até chegar à estrada e arrancou, procurando alhear-se daquela consciência de culpa que estava parada ao fundo da rua. Quando entrou no intenso trânsito do Wilshire Boulevard, sentiu-se aliviada de não enxergar sinais do Dodge pelo espelho retrovisor.

Ao atravessar Santa Mónica, passado o edifício do enorme hotel, pensou ter visto o bojo familiar do carro do seu perseguidor. Voltou então para sul, descreveu uma curva apertada, meteu por uma rua lateral, para finalmente desembocar na recta residencial de Fred. Parou o carro, como era hábito, do outro lado da rua e, rodando o corpo, olhou pelo amplo vidro da retaguarda. Foi intraduzível o prazer sentido por ver o caminho livre não só de trânsito como sem o mais leve vislumbre do carro inimigo.

Apressou-se a alcançar a porta da residência, subindo a quatro e quatro os degraus da escada que lhe eram agora muito mais familiares do que nunca tinha sido a vivenda de Sam; e foi só quando já ia a tocar no botão da campainha que reparou no pequeno rectângulo de papel, seguro com fita adesiva, logo por cima do puxador.

Era uma mensagem, sem dúvida traçada pelo punho de Fred,

na sua clássica letra toda inclinada para a direita. O conteúdo da mensagem rezava assim:

«Reggie (era um nome desconhecido de Sarah, mas não havia perigo, porque, incontestavelmente, se tratava de um nome masculino), tive que levantar o rabo da cama cedo para ir ter um bate-papo com o meu advogado (era um tom brincalhão que não indicava tra-tar-se de nada que envolvesse uma crise) e devo estar ocupado com ele até à hora do almoço. Depois de ter resolvido o assunto, telefono-te. Desculpa. Senta-te ao lado do telefone e espera a minha chamada. Fred».

O desapontamento de Sarah por não encontrar Fred em casa estava agora temperado por um novo sentimento de esperança. Não era preciso nenhum Champollion para decifrar aquela pedra de Roseta. Fred havia dito muitas vezes ter de ir falar com um advogado para se ver livre da pouco sumarenta Sr.ã Tauber. Todas as vezes que Sarah lhe tentara falar a sério no assunto do divórcio, a resposta acabava por se perder devido à fome imediata que a proximidade dos seus corpos desencadeava, e, depois de saciados, o fio à meada já se tinha perdido, a urgência das coisas dissipava-se como o fumo se dissipa no ar. Ela deixava de se importar com o caso porque sentia que a melhor resposta sobre o problema já lhe fora transmitida através de todo o seu corpo. Sarah tinha tirado os óculos antes de subir as escadas, mas agora voltava a pô-los. Estudou em pormenor a mensagem, procurando descobrir uma palavra que tivesse lido mal, uma frase que tivesse qualquer outro sentido. A nota, porém, era toda clareza. Fred tinha que se demorar a falar com o advogado e isso significava finalmente, depois de tanta espera,

que ele estava a tratar do divórcio. O corpo de Sarah foi possuído pelo prazer maravilhoso daquela palavra, sentiu as entranhas agitarem-se-lhe pela palpitante utopia que aquilo representava. O divórcio... Mas quem seria o tal Reggie? Para uma explicação cabal do facto já era necessária a decifração de um Champollion ou, melhor, de um Fred.

Abriu a mala de mão, procurou qualquer coisa no interior e acabou por tirar um lápis de retocar os olhos. Reflectiu durante um momento e depois escreveu na margem de papel livre da mensa-9©m colada à porta:
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«Fred. Procurei-te para discutir o nosso negócio. Telefonarei mais tarde. S».

Considerou aquilo que escrevera. Riscou a palavra negócio e substituiu-a por Dodge. Assim era uma coisa inequívoca.

Logo que chegou à rua, olhou atentamente em ambas as direcções, receosa, mas não havia outro carro parado na artéria a não ser o seu.

À medida que atravessava a rua, Sarah deduziu todo o problema, ligando bem os pedaços dispersos como o poderia fazer um detective. Aliás parecia-lhe uma coisa transparente como a clara água de um arroio. Porque é que Fred só naquele dia se resolveria ir falar com o advogado e não tomara semelhante deliberação há muito mais tempo? O raciocínio era agora imperativo. A sua súbita resolução devia-se, sem dúvida, à chamada urgente que ela lhe fizera na segunda-feira. Devia-se à figura do agente Javert. Fred antecipava-se à Sr.ã Tauber. Ou a Sam Goldsmith. O inevitável detective tinha motivado a inevitável decisão. Porquê esperar uma confrontação com o inimigo? Porquê aguardar de braços cruzados o escândalo? A melhor arma era a antecipação. Pobre Sr.s Tauber, ou pobre Sam.

Sentou-se ao volante. Sentia-se orgulhosa de Fred, do seu Fred. Agora o Dodge já não interessava nada. Pobre Dodge. Estúpido Dodge. Considerou os tais relatórios que tinham sido feitos em pura perda («A pessoa em causa saiu de casa às 10,32. Entrou no apartamento de Tauber às 10,57. Saiu às 12,01. Parou para arranjar o despenteado cabelo e retocar a maquilhagem...»), relatórios tão prometedoramente eróticos e ao mesmo tempo tão recatados e envoltos num ar de respeitabilidade. Pensou se, no caso de um escândalo, os jornais publicariam aquelas notas como motivo de sensacionalismo. Pensou nos filhos. Fosse como fosse, o caso é que naquele momento se sentia quase alegre.

Kathleen Ballard tinha finalmente conseguido ultrapassar o primeiro capítulo do romance policial, consciente de ser um original inglês, porque a palavra honor estava escrita honour, consciente também de quão detestavelmente era tratado o carácter do sobri-

nho Peter, obrigando-o a cometer uma coisa tão repugnante (muito embora o autor tivesse explicado previamente que ele não tinha outra alternativa senão cometer o crime). Voltou a página, e acabava precisamente de travai' conhecimento com Lady Cynthia, re-cém-regressada do Nepar quando a campainha do telefone quebrou o absoluto silêncio que reinava na casa.

Kathleen levantou-se, movimentou uma das pernas quase dormente devido à posição prolongada e, ao terceiro toque insistente, já estava na cozinha a levantar o auscultador. A voz remota de uma telefonista, anunciando-se como empregada do centro de enfermagem, disse-lhe que Miss Wheatley, que ficara de comparecer ao meio-dia, não podia estar em casa da doente senão por volta das seis horas, mas que a essa hora não faltaria. Kathleen protestou. Tratava-se de uma doente que necessitava dos cuidados de uma pessoa abalizada. Não haveria qualquer outra enfermeira livre? A voz remota e impessoal evitou entrar em pormenores. Não, não havia mais ninguém livre antes da noite. Mas às seis horas Miss Wheatley estaria no seu posto. Kathleen tentou combater o sistema. E se fosse um caso de absoluta urgência? Poderia haver então uma enfermeira para assistir à doente? A voz distante não pareceu comovida, continuou no mesmo tom como se fosse um disco. Não estava em posição de discutir tais assuntos, unicamente transmitia e aceitava os recados que lhe davam. Bom dia.

Kathleen estava habituada àqueles pequenos desapontamentos, e, uma vez ajustada à ideia daquelas seis horas que a esperavam, começou a inventariar a cozinha à procura de mantimentos de boca. Era mais que evidente que Naomi comia fora de casa. Se assim não fosse, a julgar pelas provisões existentes, tinha então que su-por-se que não comia, vivia do ar. Não comia, mas, sem dúvida, substituía os sólidos pelos líquidos, e com que abundância!

Finalmente, uma busca mais cuidadosa fê-la descobrir uma lata de sopa de ervilhas e uma lata enorme de carne de vaca estufada. Achou também uma caixa de triângulos de queijo, por abrir e coberta de pó, e várias garrafas de refrigerantes (tristes sobreviventes de uma velha batalha travada contra o gim). Kathleen decidiu que a carne estufada era o suficiente para comer e que era um belo dia para iniciar uma dieta.


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26 ■ O Relatório Chapman 4-01

Acabara de ter êxito em abrir a enorme lata de carne estufada, quando o telefone tocou pela segunda vez. Era Paul e, por ouvir-lhe a voz, Kathleen sentiu-se confortada, e veio-lhe a certeza de que ele não seria, de nenhuma forma, feliz com Sarah Goldsmith.

Falou a Paul a respeito do caso da enfermeira, desejando apenas escutar a preocupação dele sobre o assunto, assegurando-lhe depois que não se importava nada de ficar até às seis.

— De verdade? — perguntara Paul.

— Absolutamente — respondera ela.

Paul lamentou tê-la metido num sarilho daqueles, e Kathleen afirmou-lhe que não era sarilho nenhum e que era o menos que podia fazer por Naomi. E com respeito a Naomi? Estava a dormir. Belo, belo. Horace ficaria aliviado. Paul perguntou-lhe se não se esquecia de comer e ela tranquilizou-o. Ao desligar, Radford disse-ra--lhe um "até logo" muito familiar. Sim, até logo.

A carne estufada estava a aquecer em banho-maria dentro de um tacho, quando ouviu o grito de Naomi:

— Horace!

Kathleen baixou o lume e apressou-se a entrar no quarto de dormir. Naomi estava deitada de costas, conservando o cobertor puxado até ao pescoço, e fixava o tecto atentamente.

— Sente-se bem? — perguntou Kathleen, aproximando-se da

cama.


Os olhos de Naomi voltaram-se para ela.

— O que é que está a fazer aqui?

— Horace teve que ir trabalhar. A enfermeira ainda não pode vir, de modo que estou eu aqui.

— Porquê você?

— Bem... conheço um amigo de Horace... e eles chamaram* -me.

— Não preciso de ninguém. Não quero uma enfermeira.

— Mas o médico...

— Para o diabo que carregue o médico, é uma besta.

Naomi não se mexeu. Fechou os olhos, depois voltou a abri-

-los. Preocupada, Kathleen aproximou-se mais da cama.

— Naomi, posso fazer alguma coisa por si?

— Não. Em breve estarei boa, logo que esta chatice me passe.


— Como é que se sente?

— Como se alguém me estivesse a dar beliscões na vagina.

— São os pontos naturais que levou. Naomi levantou a cabeça.

— Filhos da mãe! — disse ela sem cólera, voltando depois a

ficar silenciosa, com os olhos de novo fitos no tecto.

Kathleen sentiu-se pouco à-vontade.

— Você sabe o que aconteceu a noite passada?

— Não — respondeu Kathleen, abanando a cabeça negativamente.

— Fui obrigada a dar uma geral.

— Oh, Naomi...

— O caso poderia ter sido muito instrutivo se eu estivesse sóbria. Tenho que enviar um relatório suplementar ao doutor Chapman.

— Quer dizer que esses homens a forçaram a...

Os olhos de Naomi procuraram os de Kathleen.

— Não tenho bem a certeza se fui forçada... — os seus lábios esboçaram o que pretendia parecer o fac-símile de um sorriso. — Vá-se embora. Eu contamino. Sou uma porca.

— Não fale dessa maneira.

— É a linguagem dos homens. Gosto dela. É a única linguagem verdadeira, sem rodeios. Os homens não têm grande conhecimento das mulheres, mas não há dúvida que conhecem à distância uma porca.

— Naomi, tente repousar.

— Quem é que esteve cá esta manhã?

— O seu médico assistente. Depois Horace trouxe um psicólogo.

— Um abelhudo?

— Não. Tentou realmente ajudar, aconselhou...

— Que conselho deu ele?

— Julgo que é melhor esperar até que Horace...

— Não, quero que seja você a contar-me.

— Não tenho a certeza.

— Vamos, descosa-se, Katie. Já fui assediada por um batalhão. Agora quero saber o que disse o alto comando.
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— Falaram de tratamento, de análise.

— A Katie pensa que estar deitada num divã a contar histórias sujas poderá ajudar?

— Não me posso pronunciar. Suponho que eles sabem muito bem o que é melhor.

— Não me conseguem convencer — voltou-se. — Deixe-me dormir—a voz sumia-se.

Kathleen sentiu-se desorientada durante uns momentos, compungida pela doença de Naomi, pela doença e pela enfermiça vulgaridade que ela demonstrava. Voltou-se para sair do quarto. Ao chegar à porta, ouviu a voz de Naomi.

— O que é que Horace faz em The Briars? Kathleen ficou surpreendida.

— Pensei que... Ora, está a trabalhar com o Dr. Chapman.

— Não sabia — a voz tornou a baixar de tom. — Não está a

mangar comigo?

Logo a seguir a respiração nasal, em breves instantes, mostrou a Kathleen que ela tinha adormecido.

Em bicos de pés, Kathleen saiu do quarto, fechou a porta de mansinho e voltou para a cozinha.

Mais tarde, depois de ter acabado de comer uma leve porção de carne estufada e de ter bebido o refrigerante, voltou para o seu sofá e para o romance policial.

Durante todo o tempo que demorara a refeição, Kathleen pensou em Naomi, tentando conciliar a beleza dela com a grosseria que demonstrava e tentando também separar a sensualidade da doença. Imaginou se os homens, ao tomarem aquele corpo voluptuoso, tinham qualquer consciência da destruição que existia por baixo da superfície. Se a oportunidade se deparasse, Paul tomaria o corpo de Naomi? Gozaria com ela? Ou sentir-se-ia acabrunhado por tanta desfaçatez? Evidentemente que o sexo era em Naomi uma aptidão. A sedução do seu corpo e a destreza podiam fazer esquecer tudo o mais. Impulsionado pela luxúria, o homem deixava de ser um animal sensitivo, perceptivo, racional. Quando seguia naquela senda, Boynton era capaz de violentar um corpo. Havia um termo médico para tal doença. Podia associar-se-lhe um nome: Boynton, sim, mas não Paul. Não, Paul nunca gozaria com Naomi-

Ele preferiria uma mulher que fosse sexualmente limpa, ordeira, uma mulher comedida. Como ela, Kathleen, claro. Não, não como ela, porque era o pólo oposto a Naomi, uma frieza física que também era uma espécie de doença, muito embora menos evidenciada e vergonhosa. Quem então que fosse limpa, ordeira, comedida? Quem, que a essas qualidades juntasse a normalidade sexual? Teresa?

Sentada no sofá, com o cigarro por acender entre os dedos, Kathleen considerou a união de Teresa Hamish com Paul. A pretensa intelectualidade de Teresa podia constituir um aborrecimento, mas sem dúvida que ela era atraente, era uma senhora.

Teresa Harnish tinha chegado cinco minutos antes da hora marcada, e nesse momento já passavam dez minutos. A preocupação começou a invadi-la, e logo pensou que talvez o jovem não tivesse recebido o seu recado. Mas mesmo no caso de o ter recebido, tomá-lo-ia seriamente, estaria livre, lembrar-se-ia dela?

Impaciente, começou a andar às voltas em redor do tanque das focas, situado junto à entrada do Paradise Park e, sem interesse de maior, pôs-se a observar os circunstantes. Havia uma senhora gorda, disforme, com um pequeno de calções pela mão, várias adolescentes de cabelos compridos e mais ou menos despidas, a menearem-se como mulheres da vida, um cavalheiro já idoso que atirava peixes, tirados de um saco de papel, às focas que nadavam no tanque. Escutou os latidos das focas, aborrecendo-se com aqueles grunhidos roucos e guturais.

Pensou se a leve e fresca brisa que vinha do oceano a teria despenteado. Mergulhou a mão na malinha e contemplou-se no espelhinho colocado na tampa da caixa de maquilhagem. Tudo estava no seu lugar. Tornou a colocar a caixa dentro da mala e olhou para os seus atavios, parecendo satisfeita com a inspecção. Vestira-se cuidadosamente para aquele encontro. Tinha uma saia de pique pregueada e uma blusa de seda branca, transparente, muito justa ao corpo, que quase deixava ver o belo soutien bordado. Não calçara meias, e nos pés tinha enfiados uma espécie de mocassins, quase umas sapatilhas de ballet, e tudo aquilo lhe


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dava o aspecto juvenil que ela desejava.

A escolha daquele vestuário obedecera também a uma deliberada provocação. Depois de ter levado Geoffrey à galeria, voltara a casa e procurara afanosamente o primeiro livro do Dr. Chapman, e lera que o homem está na posse da .sua maior potência sexual entre os dezoito e os vinte e oito anos (no fundo da página havia uma nota em rodapé que citava alguns testes feitos a demonstrarem que os atletas tinham comprovado possuir a maior dose de masculinidade e os artistas a menor). Teresa considerou que Krasowski não devia ter mais de vinte e cinco anos.

Voltando à realidade, olhou para o seu relógio de pulso de platina e viu que Ed já estava dezasseis minutos atrasado. Apesar disso, quase com infantil coqueteria, olhou atentamente a montanha--russa, a gente que saía da sala dos espelhos que disformavam o corpo (ouvia as gargalhadas lá dentro), o poço da morte, a visita à Lua e, então, vindo de algures, ele apareceu no foco da sua visão.

Vestia calções de caqui, uma camiseta às listas coloridas, que tinha impressas no peito as letras «Paradise Park», calçava umas sandálias e na cabeça usava um boné branco de marinheiro. O seu rosto era o de Apolo, e a vigorosa compleição atlética, com o largo e saliente peito e os poderosos bicípites, emprestavam-lhe o ar de Milo de Cróton.

Observou-o a parar junto do tanque e a olhar em redor à sua procura. Os olhos dele passearam duas vezes sobre Teresa, sem a reconhecer, e só quando ela avançou pareceu iluminado.

— Olá! Não a reconheci logo.

—Talvez porque agora estou vestida, era costume ver-me sempre de fato de banho. Além disso, estando-se habituado a ver uma criatura em determinado lugar, quando se observa pela primeira vez essa pessoa num ambiente diferente, custa a reconhecer.

— Pois é — disse ele. Estabeleceu-se um breve silêncio.

— Estou contente por ter podido vir.

— Claro. Jackie deu-me o recado.

As adolescentes de cabelos compridos e saias curtas continuavam a menear-se, dando agora estalinhos com os dedos a acompanharem a música que vinha dos altifalantes, e Ed olhou para elas.

— Há algum lugar menos ruidoso onde possamos conversar? — perguntou ela, apressadamente.

— Onde estejamos sentados?

— Sim, seja onde for.

Ed olhou para o seu enorme relógio de pulso de aço.

— A verdade, minha senhora, é que eu só tenho meia hora para almoçar, o velho Simon Legree não gosta que eu entre tarde ao serviço, de modo que talvez seja melhor que vá comendo enquanto a senhora fala.

— Também não me importava de comer qualquer coisa. Há aqui um restaurante?

— Um par deles muito luxuosos. Mas a verdade é que não

estou disposto a «entesar» em qualquer deles.

—Adorava poder convidá-lo.

— Eh, por quem me toma? Não gosto que sejam as mulheres

a pagar.


Teresa sentiu uma onda de prazer pela masculinidade demonstrada por Krasowski.

— Então vamos a qualquer lugar que você queira. Posso tratá-

-lo por Ed?

—Toda a gente me trata assim—fez um gesto com a cabeça em direcção ao passeio principal.—Tuffy faz os melhores cachorros do Park. Vamos.

Apressou-se a acompanhar as grandes passadas do gigante, tendo por vezes que dar algumas corridinhas para se manter a seu lado. Sentia-se orgulhosa e quase possessiva daquele musculoso bárbaro.

Durante o caminho não foi pronunciada uma palavra, só quando chegaram em frente do enorme balcão de madeira, muito asseado, com os seus quatro bancos altos, é que Ed disse, apontando para o ambiente:

— É aqui mesmo.

Teresa trepou para um dos bancos, enquanto Ed, sem esforço, se escarranchava noutro, ao lado dela, ao mesmo tempo que assentava uma palmada no balcão.

— Eh, Tuffy!

Por detrás do tabique de separação apareceu um velhote des-


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dentado que usava um ridÍGulo barrete de cozinheiro, um avental branco e exibia uma âncora tatuada num dos braços.

— Olá, Rams!

— O que é que estavas a fazer lá dentro, Tuffy, a enterrar dinheiro?

— Tenho mais que fazer à massa.

— O que é que a senhora quer? — perguntou Ed Krasowski, voltando-se repentinamente para Teresa.

— O mesmo que você.

— As especialidades da casa — disse Ed, piscando o olho. — Tuffy, dois cachorros, sopa, tudo o que houver de melhor no prato do dia.

Teresa observou o jogo de músculos dos braços de Ed, as saliências que eles iam marcando por baixo da pele queimada pelo sol, à medida que dispunha palitos em cima do balcão num jogo curioso.

— Você vai permanecer a trabalhar aqui durante muito tempo?

— Talvez durante dois meses. Até que recomecem os jogos.

— Gosta disto?

— É-me indiferente — disse ele, encolhendo os ombros.

— O seu amigo contou-me que você trabalha numa das barracas. Qual é?

— No bowling.

— Qual é o seu serviço?

— Nada de importante. Levanto os paulitos, apanho as bolas. Jogo com as damas e com as crianças. É uma maneira de ganhar algum dinheiro recebendo boas gorjetas.

— Penso que deve conhecer pessoas interessantes.

— Nem por isso.

Ouvindo as suas monossilábicas respostas, Teresa apreciava aquela quase afasia do homem de acção. A mudança era estimulante, divertida. Quantos anos tinha ela perdido a ouvir palavras re-buscadamente cultas? Escutando durante todos esses estúpidos anos as intrigazinhas de tantos homens efeminados? Deitou um intenso olhar a Ed. O que é que Napoleão tinha dito? Voilà un homme!

Os cachorros foríiam dos dois lados das extremidades dos

pãezinhos redondos, e eram acompanhadas por cebolinhas de conserva e muita mostarda. Teresa agarrou na sua parte da refeição, atónita, e teve que olhar para Ed.

Ela petiscava, enquanto ele mastigava furiosamente como se fosse perseguido pela maior fome do mundo.

Mesmo com a boca cheia, e passadas as primeiras mastigadelas em silêncio, Ed voltou-se para ela.

— Jackie disse-me que a senhora tinha um assunto pessoal a

discutir comigo.

Teresa teve um gesto de assentimento com a cabeça, espantada pelo sulco que os dentes dele continuavam a abrir no cachorro. Até há pouco parecera-lhe possível fazer uma proposta romântica dentro daquilo que tinha planeado, uma proposta que tecesse o alto ideal de um acasalamento entre os dois, fundamentado nas evidentes razões que havia criado elaborada-mente. Porém, os cachorros tinham tornado absolutamente impossível uma confissão realista e ao mesmo tempo cheia de romance. Como é que os amores de Isadora e Essinine podiam ter florescido no meio daquela monstruosa parada de salsichas e daquela cerveja barata?

Todavia a proximidade dele era uma coisa que a enlouquecia. A magnífica coisa tinha que ser mantida viva. Havia que arranjar outra maneira.

— Observei-o... enquanto andava pela praia...

— Pensei que estivesse sempre atenta à leitura.

— Claro que também lia. Você não costuma ler?

— De vez em quando. Mas não livros. Demoram muito tempo a consumir. O meu treinador anda sempre atrás de mim e não me consente que perca tempo; além disso, fartei-me de livros na escola. Tudo o que agora consigo ler são algumas revistas. Mas voltando à praia...

— Observei-o a treinar-se. Você é uma pessoa extremamente ágil. Tem um corpo excelente para os exercícios físicos.


— Mantenho-me em forma — admitiu ele, com indisfarçável orgulho.

— Pois bem, foi isso que me levou a desejar tornar a encontrá-lo — Teresa pôs de parte o ridículo cachorro e olhou-o abertamente.


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Sou uma artista, uma excelente artista — disse ela, quase acredh tando naquela patranha — e, desde o momento em que o vi, disse para com os meus botões que gostaria de o pintar. A testa dele enrugou-se com o esforço de pensar.

— Pintar-me? Quer dizer que me faria o retrato?

— Dúzias de retratos — respondeu ela, entusiasticamente. — Como estava a dizer, observei-o na praia e vi que você era um ser humano possuidor de muitas facetas admiráveis. Gostava de as conhecer a todas. Desejava que o mundo o conhecesse como um deus grego, como um atleta da velha Olímpia, como um imperador romano, como um gladiador. — Teresa tinha ouvido várias vezes Geoffrey falar naqueles termos, não precisamente assim, mas com ligeiras variantes, e estava certa de que as suas expressões eram absolutamente correctas.

— Espero que consinta em posar para mim.

— Nunca tinha pensado nisso. Para quem são as pinturas?

— Para mim própria. Para exposições. Talvez algumas venham > a ser reproduzidas em certas revistas ou livros.

— Isso leva muito tempo?

— Não, apenas uma ou duas horas por dia de pose.

Ed acabou com o cachorro e limpou a boca a um guardanapo de papel.

— Não sei bem... Penso que não tenho muito tempo para isso. Tenho que me ocupar com este trabalho na feira, com os treinos e, claro, um homem também precisa de descansar um bocado.

— A pintura será para si um motivo de prazer e repouso.

— Não era isso que eu queria dizer.

— Mas afinal a que é que você chama repousar?

— Tomar algumas cervejas com os compinchas, ir a um cinema e... bem, divertir-me um bocado.

— Esse divertir significa raparigas?

— Exactamente.

Os lábios dela comprimiram-se fortemente um contra o outro. Naquele momento desejava abaná-lo, gritar-lhe aos ouvidos: eu sou as raparigas, olhe para mim; todas as raparigas, todas as mulheres, a melhor de todas, a melhor que você poderia encontrar, sou atraente, visto bem, tenho espírito, sou culta, tenho uma enorme

vivenda em The Briars, sou desejável, sou todo o divertimento e prazerque se pode encontrar. Mas contemporizou:

— Bem, compreendo tudo isso, mas estou convencida de que

você nem sabe o bom desporto que o facto representará.

— Não tenho a certeza — disse ele, indeciso.

Estavam indicadas as medidas desesperadas. Era preciso pre-

■ mer o botão das emergências.

— Evidentemente que não espero que você me sirva de mode

lo à borla.

Os olhos dele levantaram-se agressivamente, e Teresa apres-sou-se a acrescentar.

— Disse ao seu amigo que desejava vê-lo por causa de um negócio. Pois bem, quanto é que você ganha na feira?

— Oito dólares por semana.

— Pagar-lhe-ei vinte dólares por cada... cada sessão em que posar para mim.

— Por um par de horas?


— Exactamente. Os lábios dele rasgaram-se num sorriso de orelha a orelha:

— Minha senhora, o negócio está fechado. Houve dentro dela alguma coisa que ficou paralisada. Teresa

não tinha desejado que as coisas seguissem aquele rumo, mas agora a sorte estava lançada, ele tinha respondido à primeira oferta. Afinal, haveria o encontro privado, e isso era tudo quanto desejava. De repente viu que não poderia esperar mais, tinha que resolver o caso de uma vez para sempre.

— Belíssimo. Quando é que poderemos ter o nosso primeiro... encontro?

— A senhora é que escolhe.

— Amanhã, às onze horas?

— Amanhã não estou livre até às cinco.

Era ainda uma longa espera. Mas não havia outro remédio.

— Posso encontrar-me consigo no seu quarto às cinco e meia

— abriu a mala de mão e tirou um lápis e uma agenda, onde costu

mava apontar os seus aforismos. — Escreva aqui a sua morada.

Krasowski escreveu o seu endereço, devolveu-lhe o lápis e a


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agenda e deitou uma olhadela ao relógio de pulso.

— Tenho que voltar para os trabalhos forçados.

Teresa saltou do banco. O atleta ficou hesitante, olhando-a de forma especial.

— É engraçado — disse ele.

— O quê?...

— A senhora não parece uma pintora.

— Não? Então o que é que pareço?

— Bem, na verdade não sei dizer.

— Ora... quer então significar na sua que eu pareço apenas; uma mulher, será?

— Sim, pouco mais ou menos isso.

— Você é muito gentil. Fico ansiosa pelo dia de amanhã — disse ela, sentindo o coração a palpitar de alegria.

— Okay. Lá estaremos.

Teresa ficou a vê-lo afastar-se, bamboleante, magnífico nas suas massas musculares. Imaginou o que iria acontecer, o prazer antecipado da coisa e estremeceu. Observou depois a montanha-russa, os carros que passavam vertiginosamente nos revolventes carris, e o ruído que faziam parecia-lhe uma música divina. Algures escuta-va-se um som, como que um canto de sereia no mar Jónio. Claro que não se sentia como a Pompadour ou Diana de Poitiers, mas sentia-se mais mulher, muito mais mulher do que em qualquer outra altura da sua vida, e era bom sentir-se assim, bastava aquela sensação. \' *<

■"' Pelas cinco e um quarto, embora a claridade ainda fosse muito intensa, o sol já não batia de chapa nas janelas da cozinha; Kathleen abandonou o romance policial e resolveu preparar um bocado de chá.

Estava naqueles preliminares quando o telefone tocou. Apres-sou-se a levantar o auscultador com medo de que a campainha fosse perturbar o sono de Naomi.

— Estou...

— Naomi? — a voz era fresca e juvenil. ?,

— Sou uma amiga de Naomi. A Sr.a Ballard.


— Kathleen?

— Sim.

— É Mary McManus. O que é que está a fazer aí?



— Olá Mary. Estou... bem... Naomi está... está de cama com gripe. Estou a tomar conta dela até chegar a enfermeira.

— Espero que não seja nada de grave.

— Não, não é nada de grave.

— As melhoras de Naomi. Tinha prometido encontrar-me, com ela, mas esta noite o papá oferece um churrasco a umas pessoas conhecidas. Norman não percebe nada de carnes grelhadas, e, como temos comida de sobra, pensei que talvez Naomi não se importasse de fazer companhia. Mas agora fico aborrecida por ela estar doente.


— Não é nada de cuidado. Dar-lhe-ei o seu recado e estou certa de que ficará contente por se ter lembrado dela.

— Amanhã passo por aí. E você como tem passado?

— Bastante doméstica.

—Como?


— É um sinónimo de vegetar. Não, estou excelente, Mary. Te-

lefone-me uma destas tardes para tomarmos chá juntas.

—Será um prazer. Telefonarei. Diga a Naomi que lamento muito. Ela vai perder um bom bife grelhado. Bem, tive muito prazer em ouvi-la, Kathleen. 'Bye.

— Goodbye, Mary.

Depois de ter deitado água quente no bule e retirado o saquinho da aromática bebida, Kathleen pensou em Mary McManus. Decidiu que Mary era um argumento saboroso para pensar na beleza. O extraordinário vigor e o maravilhoso entusiasmo juvenil de McManus faziam-na sentir-se velha. Supunha ser mais velha do que Mary apenas uns seis ou sete anos e, contudo, sentia-se, no íntimo, muito mais velha e cansada. Pensou que só tecnicamente podia oferecer a Paul uma estrutura física com menos de trinta anos. Por outro lado, Mary podia ofertar a um celibatário o milagre da ressurreição. Era bastante curioso que no domingo anterior a jovem tivesse estado no clube de ténis com o pai e não com o marido. Bem, que se havia de fazer, as rapariguinhas são por via de regra muito ligadas aos pais...
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Mary McManus deu alguns passos no acimentado pátio onde o pai estava atarefado a voltear a manivela do grelhador de carvão. Ao lado estava a mesa portátil, onde se estadeavam os majestosos bocados de carne em sangue, separados por secções de papel encerado, formando um alto monte. Mary contemplou todo aquele aparato e depois sentou-se na beirinha da cadeira de baloiço.

— Pode meter um dos bifes no frigorífico. Naomi não pode vir.

— Tens a certeza de que Norman não descerá? — perguntou Harry, sem se voltar.

Mary sentiu-se irritada com a maneira como a pergunta era feita, sentia-se à beira de uma crise de nervos.

— Não se trata de descer ou não descer; Norman não se sente

bem-disposto. O pai nunca se sentiu assim?

Harry voltou-se bruscamente e fitou-a com severidade.

— Não te parece que estamos esta noite um bocadinho arredios da semântica?

— Estava precisamente a pensar que o papá ia dizer isso mesmo — hesitou. — Desculpe a minha atitude. Norman não pode vir porque chegou a casa com uma enorme dor de cabeça. O pai trouxe-o no seu automóvel e sabe muito bem que ele não estava nos seus dias felizes. Tinha muito gosto em estar presente à churrascada, mas a verdade é que não se sente melhor e não quer ser a ovelha ranhosa da festa.

— Afigura-se-me que ultimamente são dores de cabeça demasiado frequentes para um jovem saudável e forte como ele. Porque é que não o levas a um médico?

— Norman insiste em dizer que não é nada. As dores de cabeça passam.

Harry Ewing ficou por momentos absorto em pensamentos ín

timos e, distraído, beliscou o lábio inferior. Depois limpou as mãos

ao cómico avental de cozinheiro que usava e encaminhou-se para a

cadeira de baloiço. i

— Ele contou-te que tivemos hoje uma conversa? '

— Não... — respondeu Mary, erguendo as sobrancelhas.

—Tivemos. Foi acerca do seu novo lugar.

— Novo lugar?

— Não te lembras? No domingo disse-te que estava a elaborar algo de interessante para ele.

Mary fez um sinal de assentimento.

— Pois bem, decidimos espevitar essa gente de Essen sobre o caso das patentes. Vamos apelar para os tribunais alemães. No próximo mês vou enviar para a Alemanha o teu marido e Hawkins.

— Para a Alemanha? — Mary bateu as palmas de contente. É um dos países que eu sempre desejei conhecer.

— Não, Mary — disse apressadamente Harry Ewings —, tu não vais. Norman estará afogado em trabalho até ao pescoço, não há lugar para esposas. Disse a Hawkins que não podia levar a sua patroa, e agora não posso demonstrar parcialidade no respeitante a Norman por ele ser meu genro. Seria desmoralizante, um mau precedente.

O contentamento de Mary tinha dado lugar a uma sombria preocupação.

— Quanto tempo é que vai demorar essa viagem?

— Quem sabe? Os assuntos dos tribunais são coisas arrastantes, e haverá um mundo de preparativos a fazer com os nossos representantes alemães...

— Quanto tempo? — insistiu Mary.

— Oh... Quatro meses. Seis, quanto muito.
— Sem mim? — o tom de voz dela era amargo. —Toma atenção, Mary.

— O que é que Norman disse?


— Bem, tenho que admitir que ele não considerou a viagem com nenhum prazer. Desejava ocultar-te este caso, mas o facto é que Norman me desapontou. Tive que lembrar-lhe que, família ou não família, ainda é meu empregado. Não deve haver tratamentos de excepção. Fiz-lhe ver que se trata de um negócio importante e que aguardava a sua colaboração total.

— Mas ele disse que ia?

— Julgo melhor que vá. Norman disse-me que tinha que falar contigo. Sejamos sensatos, Mary. Espero que lhe faças ver as coisas como elas são.
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Mary começou a balançar o sofá, olhando para o pai de uma forma inédita.

Harry Ewing viu-lhe o olhar e desviou o seu, dizendo:

— Eh, tenho que voltar para os bifes — e começou a afastar--se.

— O pai pretende afastar-nos, não é verdade?—a voz de Mary não se mostrava amarga, era justamente uma constatação.

— Estarás doida?

— Penso que o pai sempre desejou que ele falhasse...

— Mary! .,

— Sim, é verdade.

Mary levantou-se e dirigiu-se para a porta de casa. 1

— Onde é que vais? .^.

— Vou dar a minha resposta a Norman. ,

Foi subindo as escadas vagarosamente, dando tempo a poder

ajustar-se à nova decisão. Era como voltar de um mergulho ao fundo do mar, libertando-se pouco a pouco da pressão submarina.

Chegada ao cimo das escadas, abriu a porta do quarto e, depois de entrar, fechou-a cuidadosamente à chave.

Norman estava estendido em cima da cama, de costas, com

as mãos cruzadas atrás da cabeça, fixando um ponto determinado

do tecto. Ao ver entrar Mary, que se postou aos pés da cama,

olhou-a com ar interrogativo. A

— Como é que vai a tua dor de cabeça? j:

— Nunca tive qualquer dor de cabeça. ,,

— Pensava isso mesmo, Norman. O pai contou-me tudo.

— Deutshland úber alies?''

— Úber úlles, não — respondi-lhe. —...?

— Não úber de nós.

Mary tirou os sapatos, atirou-se para cima da cama e ajeitou--se até ficar ao lado do marido.

— Amo-te, Norman.

— Idem, aspas.

1 - Em alemão no original significa A Alemanha acima de tudo (N. do T.)

— Amo-te com todo o meu ser.

Norman McManus perscrutou atentamente o rosto da mulher.

— Norman...

— Queé?


— Quero que tenhamos um bebé.

— Quando é que isso sucedeu? — perguntou ele, levantando--se sobre um cotovelo para a contemplar melhor.

— Não me perguntes — ela tentou sorrir —, sei apenas que aconteceu. Quando o bebé estiver crescidinho, poderemos viajar.

— Com toda a minha alma.

Os braços de Norman abriram-se e Mary aninhou-se neles, poisando a cabeça no peito do marido.

— Quando? — perguntou ele, suavemente.

— Agora mesmo, Norman, agora mesmo.

Miss Wheathley, a ampla mulher com gestos masculinos metida num impecável uniforme de enfermeira, aparecera às seis e vinte, e Kathleen apressara-se a ir para sua casa a fim de ajudar Ibertine, dar de comer a Deirdre e vestir-se para jantar.

Paul fora-a buscar às oito horas e, em vez de irem comer hambúrgueres, tinham-se dirigido para leste, para um restaurante italiano que ficava nas imediações de Los Angeles. Kathleen tinha--se lembrado do pequeno e encantador restaurante por lá ter ido uma vez com Ted Dyson.

Àquela hora o local, acabado o período de trabalho intenso na grande metróple, era sossegado. O restaurante tinha as clássicas mesinhas iluminadas por candeeirinhos parecidos com velas, e a decoração, com as garrafas de chianti nos seus cestinhos de palha, conferia um arde intimidade ao ambiente.

Tinham comido minestrone e outras especialidades italianas, tudo acompanhado dos deliciosos pãezinhos, fabrico da casa, e regado com abundante quantidade de vinho tinto. Haviam falado durante muito tempo de Paris (que Kathleen tinha visitado com a família no período entre a formatura no liceu e o ingresso na universidade, e Paul durante os fins-de-semana, enquanto realizava o seu trabalho em Berna), ela recordara os cais do Sena e os mara-
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- O Relatório Chapman 417

vilhosos fins de tarde no Verão, ele as cançonetistas do Lapin Agite, e ambos a imponência castiça da Basílica do Sacré-Coeur.

Depois haviam regressado a The Briars, guiando vagarosamente, quase relutantes, pela calma noite embalsamada pelo perfume intenso das árvores e flores, quase silenciosos, conscientes de estarem tão perto um do outro e, não obstante tão afastados.

Nesse momento estavam parados na escuridão do caminho privativo que levava à vivenda de Kathleen.

Paul contemplava-lhe o delicado perfil, os lábios carnudos e

apetitosos, os seios altos e firmes, que pareciam querer saltar da

blusa, as coxas substanciais e delicadas, moldadas pela saia de

seda. ^

Kathleen voltou o rosto, fitando-o intensamente.



— Kathleen — murmurou ele.

— Sim — respondeu ela, quase inaudivelmente.

O momento foi compreendido por ambos. Sem se deter a pensar nas consequências, Paul puxou-a para si e, quando ela fechou os olhos e abriu os lábios, premiu a sua boca contra a dela. O beijo foi longo e emotivo. Por momentos Paul libertou-a, ambos conscientes da necessidade de respirarem, e quando ele voltou outra vez a atraí-la a si, uma das mãos deslizou-lhe para um seio, afagando-o. Antes que ele pudesse retirar a mão, porque o movimento fora acidental, Kathleen empertigou-se e libertou-se do amplexo. A intimidade terminara.

— Kathleen, eu não fiz isso propositadamente.

— Está bem.

— Não sei como foi... queria tê-la o mais perto possível de mim.

Que vergonha tê-lo forçado a apresentar tais desculpas! A súbita cólera sentida voltou-se contra si própria. Ali estava uma mulher adulta, de vinte e oito anos, viúva, convidando à ternura, ao amor, desejando aquilo de um homem com quem sempre sonhara em todos os seus sonhos de adolescente, mas ao mesmo tempo reagindo ao facto, comportando-se de uma maneira que nunca teria sido adoptada mesmo por uma virginal adolescente. Não havia dúvidas possíveis, como mulher adulta era uma fraude, um malogro, e Paul ficara a conhecê-la nesse aspecto. Não havia recuperação de

qualquer ordem. Era ela, e não Naomi, quem precisava de um psicanalista. O que é que Ted Dyson lhe havia chamado?

Olhou para o rosto perturbado de Paul Radford, sentindo-se cada vez mais envergonhada.

— Paul — murmurou ela, com dificuldade —, não me impor

tei...

As luzes do vestíbulo da residência acenderam-se e os olhos de ambos reagiram àquela repentina e inesperada claridade. Kathleen debruçou-se à janela. A porta estava entreaberta e divisava--se a cabeça de Albertine a espreitar.



— Mrs. Ballard?

— Há alguma novidade? — perguntou Kathleen?

— Fizeram duas chamadas urgentes para o senhor Paul Radford. Uma delas ainda não há cinco minutos.

Paul inclinou-se para a janela, quase encostando o rosto ao de Kathleen.

— Quem é que me telefonou?

Albertine consultou o livrinho de apontamentos que tinha na mão.

— O senhor Van Dooten.

— Horace! — exclamou Paul.

— Ele disse para estar com atenção à sua chegada e para lhe dizer que telefone para o motel.

Paul franziu a testa.

— Deve haver qualquer novidade.

Saíram apressadamente do carro, precipitando-se para a porta da vivenda.

Na sala de visitas, Paul marcou o número do motel e perguntou por Van Duesen. Esperou uns segundos e, logo a seguir, ouviu a voz de Horace.

— Está lá?

— Fala Paul.

— Graças a Deus! Naomi desapareceu; não sabemos o que lhe aconteceu.

— Não estou a compreender.

— Trata-se de Naomi... fugiu, desapareceu. Por volta das nove horas a enfermeira foi à casa de banho, diz ela que, quando voltou


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para o quarto, Naomi tinha desaparecido. O automóvel dela também não está na garagem.

— Então você não estava lá em casa?

— Não. Aí é que reside o problema. Chapman ocupou-me até às nove e meia. Quando me consegui libertar, telefonei para casa de Naomi para lhe perguntar se precisava de alguma coisa que eu lhe pudesse levar. Foi nessa altura que me deram a novidade. Parece que posso compreender que Naomi não ficou nada satisfeita por eu não estar ao pé dela quando acordou. Se calhar foi capaz de julgar que eu a tinha abandonado.

— Não se ponha com suposições, bem sabe que ela agora não está na posse do seu raciocínio, sente-se perturbada.

— É isso justamente o que me preocupa. Nem sequer sei por onde hei-de começar a procurá-la. Talvez ela tenha ido a casa de algumas amigas. Pelo menos tenho esperanças nisso. Pergunte a Kathleen quais são as pessoas com quem ela mais se dá.

— Muito bem.

De repente algo mais ocorreu a Paul.

— Existe outra possibilidade.

— Qual?

— Não tenho a certeza. Falaremos logo que nos encontrarmos. Preste atenção, Horace, sente-se e acalme-se. Em breve estarei ao pé de si e depois procurá-la-emos juntos.



Após ter desligado, Paul explicou a Kathleen tudo o que tinha acontecido. Kathleen não conhecia os amigos mais íntimos de Naomi, a não ser Mary McManus, se é que Mary era sua amiga íntima. Imediatamente foi feito um telefonema para a residência dos Ewing. Foi Harry Ewing quem atendeu. Muito circuns-pectamente, disse que Mary não podia atender por estar a dormir, e que ele não sabia nada sobre Naomi Shields. Kathleen não se deixou desencorajar, lembrou-se que Naomi, em certa ocasião, mencionara que o pai morava em Burbank. Ligou para as informações e soube que havia vários Shields na lista de Burbank. Tomou nota de todos os números e, à segunda chamada que fez, acertou com o progenitor de Naomi. O homem não se mostrou nada compreensivo nem agradável, disse entre resmungos que há meses que não avistava a filha.

Depois daquele revés, Kathleen teve uma nova ideia. Telefonou para a agitada e defensiva Miss Wheatley e pediu-lhe que procurasse na cozinha ou no quarto de cama de Naomi uma agenda de apontamentos com os números de telefones mais imediatos. Cinco minutos depois, a perturbada enfermeira voltou a estabelecer ligação, respondendo que não conseguira encontrar nenhuma agenda ou livro de endereços telefónicos. Com firmeza, Kathleen orde-nou-lhe que se mantivesse no seu posto para o caso de Naomi regressar e recomendou-lhe que, se tal acontecesse, se pusesse imediatamente em contacto com Horace Van Duesen na Villa Neapolis.

Durante todas estas demarches, Paul manteve-se inquieto a passear de um para outro lado do aposento.

Por fim, Kathleen poisou definitivamente o auscultador e vol-tou-se para ele.

— Bem, penso que se fez tudo o que havia a fazer.

— Não, ainda existe mais uma possibilidade—respondeu Paul, de modo sombrio.

— Qual?

— O clube nocturno onde ela esteve a noite passada. Está situado no Sunset Boulevard. Horace sabe onde é, ou, pelo menos, sabe o nome.



— Mas por que diabo é que ela havia de voltar a tal lugar?

— Parece lógico o seu desejo se ela alimenta quaisquer ideias de matar esses homens que a possuíram. Ou, quem sabe, talvez pretenda voltar à experiência anterior para ver se morre de uma vez. Claro que se afigura uma coisa anormal, mas, no estado em que ela está, a coisa tem a sua lógica. Não compreende? É a lógica da perversidade. O desejo de autodestruição.

— Não posso acreditar nisso.

— Ela despreza-se, Kathleen — insistiu Paul. — Seria essa a última flagelação. Seja como for, em breve saberemos a verdade.

Kathleen seguiu-o até à porta da sala.

— Paul...

Com a mão no puxador, ele ficou à espera. Kathleen quereria explicar-lhe aquele instante no automóvel, dizer-lhe que não se tinha importado, que se preocupava com ele,
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mas, nesse momento, todas as coisas pareciam desfocadas e triviais ao lado do desaparecimento de Naomi.

— Paul, espero que a encontrem. E tenha cuidado consigo.

Paul acenou gravemente.

De súbito, cegamente, Kathleen correu para ele, tomou-lhe o rosto entre as mãos e ergueu-se em bicos de pés para o beijar. Mas também aquilo devia ser um movimento errado, reter um homem preparado para uma acção de emergência... o facto é que ela não tinha a menor ideia do que havia de fazer, estava tão perdida como Naomi. Por um instante, quando os lábios de Paul encontraram os seus, Kathleen pensou em agarrar-lhe nas mãos e colocá--las sobre os seios. Desejava proceder assim para lhe demonstrar que já tinha esquecido o anterior orgulho, a manifestação insólita, para lhe provar que era tão emotiva e tão quente como qualquer outra mulher. Mas o que mais a surpreendeu no caso foi o domínio da sua emoção: ela desejava aquilo porque a carne dos seus seios estava ansiosa pelo toque dele. Sentia o montar do desejo, um desejo violento, como nunca antes experimentara mas havia uma espécie de paralisia que a não deixava mover-se como a carne lhe pedia. Nesse momento, já o leve beijo terminara e era demasiado tarde.

Sentiu-se triste por ter demorado Paul.

— É melhor apressar-se. Não se esqueça de me informar dos acontecimentos.

— Telefono-lhe de manhã. Sabe que mais? Você é a rapariga mais maravilhosamente linda que encontrei em toda a vida.

E foi-se embora.

Kathleen permaneceu encostada à ombreira da porta, pensando: «A minha beleza só prevalece à superfície, nas profundidades do meu ser sou uma criatura monstruosa. É impossível que me possas contemplar bem cá no âmago. No íntimo sou um icebergue, um macilento fantasma encerrado numa urna de gelo».

Sentada à mesa do barulhento e enfumarado clube nocturno, apenas meio consciente das sombras dos dançarinos que pejavam a pista, Naomi Shields admirava-se de não estar bêbeda.

Havia consumido seis, sete, oito copos de gim, e o seu cérebro estava desanuviado, claro; tinha a certeza da sua sobriedade. Verdade que lhe passara aquela dor pungente dos pontos, e o pesar pela ausência de Horace também tinha emudecido. Porém o seu desejo não mudara de opinião: queria serempalada, pregada numa cruz, sacrificada numa cama, sangrar até morrer, até, finalmente, encontrar a paz.

A música cessara, e nesse momento erguia-se acima de tudo a irritante cacofonia das vozes humanas. Uma sombra alta projec-tou-se entre ela e a luz, uma sombra que por fim deslizou para a cadeira vaga que havia ao seu lado. Ali estava a bem-amada cara picada das bexigas. O sorriso em que os lábios não participavam. Ali estava o violador, o bem-amado Violador, para a envolver nos seus fumos de esquecimento.

— Como é que está a minha queridinha? — perguntava a voz melífluadeWash.

— Estou cansada de estar à espera — respondeu Naomi.

— Não queres esperar?

— Não. Tem de ser já.

Wash abanou a cabeça admirativamente. —Tens qualquer coisa de especial, gatinha.

— Já — repetiu ela.

— Sabes, começas a incitar-me. Talvez a coisa se possa arranjar. Queres na verdade o velho Wash, não é?

Naomi queria percorrer todos os passos do calvário, a purificação pela dor e o nada final da paz. Fez um sinal afirmativo com a cabeça.

— Okay, pequena, apanhaste-me—Wash levantou-se. — Mas não te quero só a ti — disse Naomi. — Quero todos.

— Cristo! — proferiu Wash, assobiando entre dentes.

— Todos... — insistiu ela.

— Está bem, queridinha, está bem. Vamos embora daqui. O espectáculo vai desenrolar-se lá fora.

Ajudou-a a levantar-se e guiou-a pela escorregadia pista de dança. Quando passaram perto do estrado da orquestra, onde vários rapazes descansavam, fumando o seu cigarrinho dos intervalos, Wash levantou a mão e, formando um círculo com o polegar e o
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indicador, fez sinal de que tudo corria bem, que a presa estava segura.

Saíram por uma porta lateral e ele conduziu-a para o parque de estacionamento que ficava junto da cozinha.

— O meu carro está ali nas traseiras — disse Wash.

— Onde é que me vai levar?

—A lado nenhum, pequerrucha. Tenho um magnífico estofo na retaguarda que pode servir perfeitamente de cama.

Naomi ouviu o ruído de um motor atrás e parou a olhar a área iluminada ao lado da ruela. O carro era um MG. O porteiro mantinha a porta aberta enquanto uma rapariga saía. O rosto dela, mesmo àquela distância, era claramente visível. Era uma jovem, uma jovem envolta na frescura do tafetá do vestido de noite, com flores no pequeno bolero de abafo, provavelmente uma camélia, e o homem que a acompanhava também era jovem e esbelto. Tinham todo o aspecto de pessoas decentes e limpas que procuravam divertir-se. Mais tarde, à porta dela, beijar-se-iam e, no dia seguinte, a pequena edificaria uma casinha de sonhos, uma vida de sonho, um universo de sonho e felicidade.

— Vamos embora, gatinha. Estou cheio de pressa.

Naomi fixou a hedionda cabeça de morto e subitamente sentiu um espasmo de nojo subir-lhe à garganta. Ela estava viva, era uma entidade que vivia, e tudo, tudo à sua volta lhe falava de vida, uma vida fresca, limpa, vida que valesse a pena ser vivida, uma vida a que ela realmente pertencia, não ao reino de sombras e porcaria daquele esqueleto que marchava a seu lado.

— Não vou — disse ela.

— Vamos embora.

— Não. No carro, não. Quem é que você pensa que eu sou? Naomi girou sobre si mesma e tentou afastar-se, mas a mão

de Wash agarrou-lhe o braço e ela cambaleou. O sorriso sem lábios tinha desaparecido da face dele.

— És a minha rapariga e vais comigo para onde eu quiser. Por

isso não comeces a arranjar fitas.

Dignidade. Dignidade.

— Afaste-se de mim — disse ela, com veemência.

— Escuta, queridinha, nunca deixarei que nenhuma

prostitutazinha faça pouco de mim e se fique a rir. Acabaram-se as brincadeiras. Quiseste festa e vais tê-la, da melhor. Primeiro apanharás o velho Wash e depois os rapazes, todos os rapazes, como pediste. Não os avisei para nada, percebes?

— Estou doente — disse Naomi. — Você não vai fazer mal a uma pessoa doente.

— Ficarás doente de verdade, se continuares a fazer fitas.

Wash puxou-a violentamente contra si e arrastou-a, bem segura, para a esquina da cozinha, onde se via a massa sombria do automóvel. Em desequilíbrio, Naomi tentou resistir, tentou encontrar a voz que se lhe afogara na garganta contraída pelo medo. Acabou por cair de joelhos no chão. Wash obrigou-a a levantar-se, e a sua mão espalmou-se contra o rosto de Naomi.

— Não, não, Wash... — soluçou ela.

A mão dele arrastava-a inexoravelmente para a escuridão, muito embora Naomi resistisse.

Repentinamente, vinda não sabia de onde, apareceu uma luz, bateu uma porta.

Wash deixou-a cair no chão e tentou levantar as mãos para se proteger, mas era demasiado tarde, o punho de Horace esmagou--se na sua cara. O soco enviou o músico para trás, batendo com as costas no guarda-lamas do automóvel, antes de escorregar para o chão. De novo Horace estava em cima dele. Atordoado, Wash tentou defender-se, ergueu as pernas grotescamente, mas, inexorável, a biqueira do sapato de Horace atingiu-o em cheio no queixo.

Na altura em que Wash conseguiu, com tremendo esforço, sentar-se no chão, já não havia ninguém junto de si. Apalpou a boca que sentia como uma massa sangrenta e depois olhou para a mão, que retirou cheia de sangue, e, num acesso de tosse, cuspiu o espesso líquido que o afogava juntamente com os bocados de um dente partido. Piscou os olhos, incrédulo. Tudo aquilo desabara sobre ele sem que ao menos pudesse ter gozado um bocadinho.

Quando Horace chegou junto do seu automóvel, o ataque de histeria de Naomi já tinha enfraquecido. Até então, tinha estado a abaná-lo desesperadamente, a chorar como uma perdida, com espanto do guarda do parque de estacionamento e de um casal que passava. Não podia pronunciar uma só palavra coerente.
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Paul estava à espera deles, com a porta do carro aberta. ;;

— Naomi está bem, Horace?

— Penso que sim. Descobri-os lá atrás. Creio que tratei muito mal o tipo.

Horace ajudou Naomi a acomodar-se no banco da frente e sen-tou-se depois ao lado dela, amparando-a com o braço.

— É melhor pormo-nos a andar—disse Paul. — Daqui a pouco temos o bando todo a morder-nos às canelas.

— Penso que não. Um dos homens da orquestra disse-me para onde Naomi tinha ido por vinte dólares.

Mais tarde, quando já iam a atravessar a ampla estrada de Beverly Hills, depois de Naomi ter enxugado os olhos ao lenço de Horace e de ter assoado o nariz, pôde enfim falar.

— Olha para isto — disse ela, apontando para as meias em frangalhos junto dos joelhos, como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo.

— O que interessa é que estejas bem — disse Horace, carinhosamente.

— Nunca me deixes, Horace! Não me abandones nunca, nunca...

— Sossega, prometo que nunca te abandonarei.

— Farei tudo o que disseres, tudo o que quiseres, tudo o que mandares. Leva-me a um psicanalista, leva-me para um centro de recuperação, para qualquer lugar onde possa curar-me. Quero ser uma criatura sã de corpo e de espírito, Horace. Preciso que me ajudes.

Van Duesen apertou-a bem contra o peito.

— Querida, a partir de agora tudo vai correr bem. Há-de entrar tudo nos eixos, deixa isso ao meu cuidado.

— E nunca mais pensarás, nunca mais te lembrarás do outro? — a voz dela era trémula de ansiedade.

Horace esboçou um sorriso.

— Qual outro? — perguntou com estoicismo.

Depois de ter deixado Horace e Naomi, Paul regressou à Villa Neapolis.

Nesse momento, caminhando pela avenida orlada de palmeiras que levava à porta principal, o pensamento de Paul estava absolutamente absorvido por Kathleen.

Fora curioso, bizarro, o pequeno incidente no automóvel. Tão peculiar quanto o comportamento dela na primeira noite em que se haviam conhecido. Na verdade, uma coisa tão estranha como o beijo espontâneo e caloroso que ela lhe dera no momento em que ia a sair para se encontrar com Horace Van Duesen. E como parecia desfocada em tempo e espaço a história contada por ela por detrás daquele estúpido biombo das entrevistas! Tinha a certeza de não poder haver no mundo uma mulher com uma história sexual tão alinhadinha. Tudo o que Kathleen dissera tinha um cunho de incrível falsidade. Ou seria de falsidade crível? Era uma coisa que dependia essencialmente do ângulo em que o facto se considerasse. Do que não podia duvidar era que Kathleen lhe prestava atenção e de que também ele, à mais simples invocação da sua imagem, se sentia profundamente perturbado e excitado. Contudo, entre eles, erguia-se uma barreira inidentificável, tão real como o biombo que os tinha separado naquele dia da entrevista. Talvez que entre todas as mulheres e todos os homens se erguesse sempre um biombo semelhante, impedindo a intimidade total. Talvez que entre todas as mulheres e o mundo existisse sempre um biombo, talvez...

Na recepção, o empregado da noite, que se parecia com um jóquei aposentado, deu-lhe a chave do quarto e entregou-lhe um sobrescrito fechado.

Intrigado, Paul abriu o sobrescrito e encontrou lá dentro uma nota escrita a lápis, que dizia:

«Ackerman acaba de telefonar e dirige-se para cá. Estou ansioso por que você possa assistir a este encontro. Logo que chegar venha ao meu quarto, é urgente — G. G. C».

O relógio de parede da recepção mostrava o ponteiro pequeno quase na uma hora e o grande nas dez. Exactamente meia-noite e cinquenta minutos. Quereria o Dr. Chapman vê-lo a semelhante hora? Paul saiu da recepção, contornou a plácida piscina e subiu a escada de madeira de um dos edifícios. Junto da porta do Dr. Chapman parou e pôs-se à escuta. Ouviu vozes lá dentro. Bateu. Foi o próprio Chapman quem abriu a porta. E o roupão azul que


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envergava não lhe roubava às feições o tom de preocupação e a tensão que sentia.

— Ah, Paul! Até que enfim. Estou satisfeito que tenha vindo

antes de a reunião acabar. Já conhece Emil Ackerman, pelo menos

de tradição... — indicava o corpulento e majestoso Ackerman, e

seguidamente fez um gesto em direcção de um jovem, com rosto

de colegial, muito penteadinho e de grandes olhos protuberantes,

que estava sentado numa cadeira —, e este é o sobrinho do Sr.

Ackerman, Sidney...

Paul atravessou o aposento e apertou a mão genial de Ackerman, dirigindo-se depois para o sobrinho, que fez uma tentativa para se levantar, com evidente esforço. Paul não o deixou completar o gesto e apertou-lhe também a mão.

— Sente-se, Paul — disse o Dr. Chapman. — Estamos quase

no fim da nossa conversa.

Paul foi buscar uma cadeira ao outro extremo do quarto e sen-tou-se junto deles.

— Gosto de ter Paul comigo em tudo o que faço — dizia Chapman para o manobrador político. — Paul é um colaborador de julgamento excelente.

— Talvez seja melhor pô-lo a par do que se passa, George — disse Emil Ackerman.

Chapman fez um sinal de assentimento.

— Claro que sim — voltou-se para Paul. — Claro que sabe muito bem o profundo interesse que Emil devota ao nosso trabalho.

— Sei muito bem — disse Paul.

Ackerman inclinou a cabeça num mudo agradecimento, enquanto o sobrinho, Sidney, coçava o cocuruto da cabeça, ao mesmo tempo que arreganhava os lábios num esboço de sorriso, pondo a descoberto os dentes amarelados.

— De certa maneira, penso mesmo que Emil se nomeou a si mesmo meu representante na costa ocidental — frisou Chapman. — Seja como for, Paul, para encurtar a história, Emil mantém estreita vigilância sobre os nossos interesses, ao mesmo tempo que vigia também as actividades do seu sobrinho Sidney.

— Tenho-o guiado em todos os passos que dá, tornando-lhe o caminho mais fácil — disse Ackerman.

— Claro que sim, isso é coisa de que ninguém pode duvidar—

respondeu o Dr. Chapman, num tom de admiração e reverência,

voltando-se depois novamente para Paul. — Sidney é finalista de

Sociologia na Universidade da Califórnia. Dentro de duas semanas

acabará o curso, e a sua ambição é poder juntar-se ao nosso pro

jecto. Emil pensa que a colaboração do sobrinho nos pode ser bas

tante útil.

— Tenho a certeza disso — disse a voz categórica de

Ackerman.

—Tenho tentado explicar—continuou Chapman, voltando-se outra vez para Paul — que os nossos quadros de pessoal estão cheios, temporariamente, claro. Mas também é evidente que não demorará muito tempo que não estejamos em plena expansão. Emil sabe muito bem a lista de pessoas que estão à espera de uma colocação no nosso pessoal, muitas são pessoas eminentes, notáveis cientistas com cadastros mais que excelentes, mas, contudo, tal como Emil já salientou, não devemos fechar a nossa porta aos cérebros jovens.

— É a força dos recrutas que ajuda os generais a vencerem as batalhas — disse Ackerman, sentenciosamente.

— Sem dúvida—concordou o Dr. Chapman. Depois para Paul:

— Estive a fazer a Sidney a resenha das nossas operações, e

fazer-lhe perguntas sobre a estrutura da sua formação — olhou

irectamente para Sidney.—Talvez queira fazer-nos algumas per-

untas?


Sidney empertigou-se na sua cadeira, cruzou as pernas, para e novo as descruzar, e coçou a cabeça em sinal de embaraço vidente.

— Li os seus livros — respondeu Sidney.

— Excelente — aprovou Chapman, paternalmente.

— Tenho estado a pensar qual será o vosso projecto seguinte.


— Ainda não o determinámos, Sidney. Temos vários planos em consideração. É possível que empreendamos a tarefa de um inquérito à maternidade... uma sondagem às mães.

— O quê? Um inquérito a todas essas mulheres velhas?

— Não é exactamente isso. Existem milhões de mães jovens. De facto, algumas mesmo muito jovens. Depois disso, também é
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possível que façamos uma sondagem aos homens casados.

— Gostaria de estar ligado à sondagem sobre as mulheres — disse Sidney redondamente. Sorria, mostrando os protuberantes dentes amarelados.

— É uma coisa normal, não é doutor?

A bonacheirona expressão social que brilhava no rosto do Dr. Chapman endureceu. O cientista mexeu-se, inquieto, na sua cadeira.

— Claro que é normal... suponho que é normal.

Paul observou disfarçadamente o rosto de Sidney. Talvez estivesse a emitir um juízo errado, mas julgava ter detectado uma qualidade que brilhava naqueles grandes olhos à flor da pele. Tudo na sua figura, desde as maneiras equivocas à voz e ao ar sexual pouco saudável, principalmente na demonstração das suas perguntas, o apresentava como um voyeur, não como um cientista. Paul já tinha visto aquela figura antes em muitos outros locais: à porta de certos cafés a fazer comentários sobre os seios e as pernas das raparigas que iam passando, contando uma história suja, enquanto se debruçava para um bilhar, de taco na mão, em qualquer local sombrio nas traseiras de uma casa de jogo, parado junto da estante das revistas a devorar com os olhos os modelos seminus... «Ele pensa que o nosso projecto é como ir ver um desses filmes proibidos», pensou Paul, decididamente.

— O tio Emil pode confirmar-lhe — estava Sidney a dizer — que eu sempre me interessei pelo estudo sobre a mulher. Li tudo o que existe sobre o assunto, história, biologia, sociologia...

— É verdade, George — cooperou Ackerman.

— Desejo fazer parte do vosso grande movimento — prosseguiu Sidney. — Penso que quando levam as mulheres a falar a respeito das suas relações sexuais, isso constitui um grande avanço para a ciência. Como sucede com a sondagem que estão quase a acabar... penso que é idêntica aos princípios que descreveu acerca dos celibatários?

— Sim — respondeu o Dr. Chapman calmamente.

— Penso na profundidade dessas sondagens — coçava o cocuruto da cabeça com a ponta das unhas. — Imaginem levar-se as mulheres a falarem a respeito de... a respeito daquilo que sentem-

Não é verdade que contam essas coisas?

— Muitas delas — respondeu o Dr. Chapman, severamente.

Dez minutos depois a reunião acabou. O Dr. Chapman e Paul

escoltaram Ackerman e Sidney até ao parque de estacionamento para visitantes, onde só se via o brilhante Cadillac do manobrador

político.

Antes de entrar para o carro, Ackerman voltou-se para o Dr.

Chapman.


— Então, George, o que é que pensa sobre o assunto?

— Tem a certeza de que o quer a trabalhar nesta coisa? — perguntou Chapman. — Bem sabe que é um trabalho exigente, uma escravidão contínua.

— É o que ele pretende. O importante para a tarefa é que haja entusiasmo, penso eu, e entusiasmo é coisa que Sidney tem de

sobra.


— Humm... Muito bem, Emil. Veremos o que se pode fazer.

Farei o que estiver ao meu alcance.

Já o Cadillac tinha partido há muito tempo e Paul e o Dr. Chapman ainda estavam ali especados à beira da estrada.

Paul tinha receio de olhar de frente para o Dr. Chapman, mas foi obrigado a fazê-lo. Tinha a percepção do receio que sentia: a fenda na armadura. Ta! como julgara ir encontrar no Dr. Jonas, e não encontrara, esperava agora que essa fenda se revelasse naquela figura gigantesca que, até então, se tinha mostrado invencível. Aguardava, sentindo o coração constrangido num receio insólito.

— Imaginem o desplante — disse o Dr. Chapman com ar zangado —, tentar encaixar na nossa organização aquele mocinho pervertido. Ouviu o delinquentezinho? Pensa que vai trabalhar num circo sexual, estagiar num estúdio onde se revelam as coisas mais sujas e excitantes da pornografia—agarrou no braço de Paul, con-duzindo-o para as instalações do motel. — Lembra-se de lhe ter contado uma vez que Ackerman vive dos favores que presta? Pois bem, desta vez posso assegurar-lhe que não obterá a sua paga. Mais depressa destruiria todo o projecto do que permitiria que aquele brutozinho se insinuasse nele. Aplacarei o tio Emil com uma carta que será uma obra-prima de generalidades inconsequentes. Dir--Lhe-ei que Sidney está na calha. Mas as possibilidades de ingres-
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sar na nossa equipa só se devem concretizar na semana dos nove dias. Está certo, Paul?

— Certíssimo — respondeu Paul.

E, mesmo naquela noite sem luar, podia observar que a arma

dura do Dr. Chapman brilhava mais que nunca. ,, ,

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Teresa Harnish acabava de fazer a curva preparatória para deixar o marido à porta da loja, quando o locutor, no rádio do carro, começou a recitar as previsões meteorológicas para o dia.



Geoffrey já tinha aberto a porta, preparado para sair, quando ouviu o noticiário. Voltou a instalar-se para ouvir o boletim.

«... muito embora hoje, sexta-feira, 5 de Junho, prometa ser um dos dias mais quentes em vinte anos, com temperaturas da ordem dos 35 a 40 graus, há todas as probabilidades de que, pela noite, a temperatura desça para os 30 graus».

Teresa desligou o rádio, impaciente por que Geoffrey partisse, previsão meteorológica tinha-a tornado consciente do desconfor-o que experimentava. A baforada de ar quente que já se fazia sentir inha todo o aspecto do metal em fusão a sair de uma forja.

Geoffrey saiu do carro e observou o céu.

— Uma verdadeira fornalha — disse apontando o Sol. — Gra

ças a Deus que a noite promete ser mais fresquinha. Talvez fosse

melhor mandar-mos servir as bebidas no pátio.

Teresa olhou para ele com um olhar surpreendido em que se manifestava a mais genuína surpresa.

A expressão do rosto da mulher intrigou Geoffrey.

— Há alguma novidade, Teresa?

O que havia surpreendido Teresa fora a súbita lembrança, evocada Por Geoffrey a respeito do tempo, de que nessa noite dariam uma festa, iam receber alguns convidados. Desde há dois dias que o acontecimento se lhe varrera por completo da ideia. Até mesmo durante o pequeno-almoço, uma hora antes, estivera apenas preo-

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cupada com as oito horas de inteira liberdade que poderia gozar nesse dia. Todavia, naquele momento, recordou-se de que devia comportar-se como uma esposa e uma dona de casa perfeita, que sabe receber os seus convidados da maneira mais encantadora.

Geoffrey ainda a estava a fixar curiosamente. Rapidamente sentiu que no cérebro se lhe acendiam luzes avisadoras de um grande perigo. No passado recente, a sua Idade Média, as festas e jantares haviam sido o prazer social favorito a que consagrava a mais devotada actividade. Ter esquecido isso convidaria a graves suspeitas.

«Não fiques aí embasbacada, diz qualquer coisa, faz qualquer coisa», disse Teresa para consigo própria.

— Não há novidade nenhuma, excepto estar ocupada nos arranjos para o jantar. Esqueci-me por completo de alugar um trajo de fantasia.

— Não tinhas decidido, por esta vez, banir os trajos de fantasia?

Teresa lembrou-se de que realmente falara nisso, mas que ainda não tinha informado os convidados da resolução tomada.

— Não. Mudei outra vez de ideias. Decidi ser mais engraçada, continuar a manter o statu quo, mulheres em fantasias e opção para os homens.

— Excelente. Tens todo o dia para conseguires encontrar alguma coisa que te agrade. O que é que pensas usar?

— Até agora ainda não tive um momento de meu para pensar nisso.

— Que tal, se vestisses a mesma fantasia que usaste naquele jantar surpresa de Grace Waterton? Lembras-te? Foi há três anos, na passagem do Ano Novo.

— George Sand?

— Exactamente. Parece adequado. Não era a pessoa que desejavas ser quando foste entrevistada pelo Dr. Chapman?

— Claro que não. Sand era demasiado masculina. No entanto é uma ideia. A única coisa que me aborrece é repetir-me; não me parece uma coisa que revele muita imaginação.

— Por outro lado metade das pessoas que vão estar presentes ainda não te viram com semelhante trajo — Geoffrey tirou as cha-

ves da loja do bolso do seu casaco de linho. — Faz o que quiseres. Suponho que queres que esteja cedo em casa.

— Não — respondeu Teresa, apressadamente. — Não será

necessário.

— Bem, de qualquer maneira não irei mais tarde do que as

seis horas. Quero ter tempo para tomar banho e vestir-me repousada-

mente.

Quando ele começou a encaminhar-se para a porta da loja, Teresa chamou-o:



— Ouve, querido, será egoísmo da minha parte pedir-te que

vás para casa de táxi? Bem vês que tenho que vigiar o trabalho da

senhora Symonds e de Jefferson.

A senhora Symonds era a cozinheira alemã que se encarregara de preparar o jantar ao preço de vinte e cinco dólares, e Jefferson era o solene criado dos vinhos — o copeiro-mor das pessoas abastadas.

— Está bem. Olha, não te esqueças do charuto.

— Charuto?

— Sim. A condizer com a personalidade de George Sand.

— Ah, claro que não me esquecerei.

Após Geoffrey ter aberto a porta da galeria e desaparecido no seu interior, Teresa ficou por momentos parada a pensar nos acontecimentos. Tinha prometido encontrar-se com Ed Krasowski, em casa dele, às cinco e meia. Por outro lado, convidara vinte pessoas para jantarem em sua casa às sete horas, o que significava que as primeiras pessoas a aparecerem o deviam fazer por volta das seis e cinquenta. Tendo que contar que os Goldsmith costumavam sempre aparecer primeiro que todos.

Teresa calculou o tempo. Entre a hora do encontro e o previsto para a chegada dos convidados, havia um espaço de uma hora e quarenta e cinco minutos. Tirando a meia hora que lhe levaria desde casa de Ed à sua vivenda, ficava ainda uma hora e quinze minutos. Era um espaço insuficiente para tudo o que ela tinha para oferecer e para tudo o que Ed lhe podia dar. Um grande romance de amor e paixão não podia estar condicionado pelos ponteiros de um relógio. Que fazer? O senso comum ditava-lhe que devia telefonar a Krasowski e adiar o encontro para outro dia. Para o dia seguinte?


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Não podia ser, era domingo, e Geoffrey estaria em casa. Tinha que ser para o princípio da semana seguinte. Mas o ardor febril que lhe queimava o peito e as entranhas não podia esperar. Era demasiado exigente, demasiado insistente, demasiado imediato. O senso comum foi derrubado e espezinhado, e Teresa sentiu-se de novo feliz.



Tinha que ser naquele dia, nessa tarde, exactamente como planeara, como decidira. Aconteceria simplesmente que teria que chegar atrasada à sua própria festa. Seria até divertido. Não seria mesmo uma coisa perfeitamente adequada à conduta de George Sand? Mas claro que havia de inventar uma mentira à prova de contestação. Mas o quê? Lembrou-se de que na altura em que concebera a festa havia considerado como pièce de résistance do jantar uma bola à maneira dinamarquesa — um pão especial recheado de presunto, tostadinho no forno. Imaginara a sensação gastronómica que isso causaria entre os seus convidados e os elogios que lhe teceriam. Acabara, porém, por afastar o projecto, porque a padaria dinamarquesa ficava em Ventura Boulevard, teria que gastar pelo menos quarenta e cinco minutos de automóvel da sua casa lá. Mas agora o manjar tornava possível o seu encontro com Ed.

Havia pois que pensar no modus operandi. Telefonaria para a casa dinamarquesa, faria um pedido de urgência e iria buscar a bola antes do meio-dia. Meteria o pitéu no frigorífico, para o preservar do calor, e depois, antes de se dirigir ao apartamento de Ed, colocá-lo-ia no porta-bagagens. Às cinco horas, quando saísse de casa, deixaria uma nota a Geoffrey, assim concebida: «Decidi ir a Ventura Boulevard comprar uma bola de presunto dinamarquesa para servir aos convidados. Não me demoro. Está tudo preparado. Não te preocupes — tua Teresa».

Às sete e meia já ela e Ed teriam consumado o seu amor. Reconhecia que nessa altura seria uma coisa terrível deixar Ed, e muito pior para o atlético moço; com certeza que ele desejaria que Teresa ficasse o resto da noite em sua casa... quereria tudo. Absorvê--la num hausto, nunca mais a deixar partir. Claro que também seria esse o desejo dela, mas um desejo proibido, um desejo sem possibilidade de ser satisfeito, tinha que utilizar a sua firmeza para lhe negar o pedido. Pobre e querido rapaz! Enfim, à frente deles haveria

uma imensidão de noites. Dir-lhe-ia isso mesmo. Fosse como fosse, às sete e meia estaria junto da primeira cabina pública que houvesse no caminho, a telefonar a Geoffrey (nessa altura já deviam ter chegado os primeiros convidados, e o marido estaria preocupadíssimo com a sua ausência), dizendo-lhe que o automóvel enguiçara, algures, quando se dirigia para casa, e que, nesse momento, estava a ser reparado numa garagem. Uma falha no carburador parecia ser a coisa que soava melhor. Teresa percebia muito pouco de mecânica, mas o marido ainda percebia menos. Asseguraria a Geoffrey que estaria em casa dentro de um quarto de hora e prome-ter-lhe-ia estar preparada para receber os convidados (vestida a preceito, com charuto e tudo) dez minutos após a sua chegada. E pronto. Não era uma coisa fácil?

Teresa ligou o motor, e o descapotável foi projectado para a frente, no tempo e no espaço, tal como ela própria se projectara pelo pensamento.

À medida que o dia se desenvolvera, o calor fora apertando. Teresa detestava o calor, porque ele obrigava as pessoas a suarem, mas nessa altura até o calor a afectava menos. Parecia-lhe até que o calor tropical se coadunava com a sua paixão, muito embora pensasse que o apartamento de Ed, junto à praia, devesse ser refrescado pela brisa marítima e embalado pelo canto de sereia das vagas que se iam quebrar contra a orla da areia loira e fina — era um pensamento deveras romântico.

Teresa começou a movimentar-se rápida e eficientemente ao encontro das cinco horas. De uma cabina nas traseiras da estação de gasolina telefonou para a padaria dinamarquesa e pediu para terem a encomenda pronta à uma hora. Depois ligou para a senhora Symonds recomendando-lhe que incluísse na ementa a bola, retirando da lista as carnes frias. Ao poisar o telefone, lembrou-se do fito original para o seu encontro com Ed Krasowski. Procurou localizar uma loja de artigos de pintura, para comprar um cavalete, telas e tintas. Deteve-se raciocinando que semelhante camuflagem seria demasiado elaborada e estúpida. Optou por comprar lápis de carvão e papel de desenho.

Voltando para a vivenda de The Briars, tentou recordar-se onde raio é que teria encafuado a fantasia de George Sand. Encontrou o


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vestuário no grande gavetão do roupeiro existente no quarto de dormir. O fato, inspirado num retrato da escritora francesa pintado por Delacroix em 1830, consistia num chapéu de copa alta, agora um pouco amachucado, gravata preta à lavallière, casaca e calças estreitinhas. Telefonou a Jefferson, recomendando-lhe que comprasse um charuto, para completar a fantasia.

Arrostou com a vaga de calor que se fazia sentir, guiando até uma tinturaria de Village Green, onde entregou o fato à George Sand para que fosse limpo e passado a ferro. Depois voltou o carro para leste, ultrapassou Villa Neapolis, a Universidade, atravessou Beverly Hills, Hollywood, onde guinou para norte, paraCahuenga.

Lutou com a estrada livre de trânsito, sentindo o volante apertado firmemente entre as mãos nervosas mas determinadas, até chegar a Studio City, onde deu a volta a caminho da padaria dinamarquesa. A gigantesca bola de presunto estava pronta, acabara de sair do forno. Preencheu um cheque de vinte dólares, colocou, cuidadosamente, a caixa no fundo do compartimento de bagagens, voltou a refazer o ciclo infernal da viagem, regressando com a mesma velocidade a The Briars. Parou à porta da tinturaria, onde o fato à George Sand já a esperava limpo e passado a ferro, e, finalmente, pôde arrumar o carro na sua garagem.

A Sr.a Symonds já se encontrava na cozinha. Fizeram uma revisão geral do serviço previsto para o jantar e distribuíram a baixela de prata. Teresa deu uma última vista de olhos à decoração dispendiosa, com flores exóticas à mistura e, após verificar que tudo estava em ordem, dirigiu-se para o seu quarto.

Tirou do armário cinco dos seus vestidos e pendurou-os todos em fila, para fazer uma escolha, acabando por seleccionar o vestido de seda azul-parma, porque lhe modelava melhor os seios e as ancas e porque o comprido fecho de correr tornava fácil poder pô-lo e tirá-lo com a máxima rapidez. Examinou com cuidado a roupa interior, acabando por escolher um soutien de corpete de seda preta e umas calcinhas de nylon violetas. Finalmente voltou a atirar tudo de novo para dentro do gavetão, acabando por se fixar num soutien mais ligeiro, que apenas lhe aparava os seios até metade e umas calcinhas de seda preta. Considerou enfiar umas meias, mas isso implicaria ter de usar suporte de ligas, o que era um aborreci-

mento, e porque pensou que seria mais provocante apresentar-se de pernas avela.

Abriu o cofre das jóias, tirou a aliança de casamento do dedo e meteu-a na caixa, deixando apenas ficar o anel de noivado com um discreto diamante engastado numa coroa, e escolheu para pôr ao pescoço o delgado fio de oiro com pequena cruz. Era um adereço simples e gostava dele.

Encheu a banheira de água tépida e deitou lá para dentro uma dose abundante de sais de banho franceses, após o que mergulhou naquele líquido fragrante. Enquanto se lavava, pensava naquele último ano passado na Universidade Feminina de Vassar, e no período de Greenwich Village com o poeta que nunca se lavava (que teria sido feito dele?), e tentou prefigurar o apartamento de Ed Krasowski sobranceiro ao oceano. Pensou na entrevista com o Dr. Chapman, e tudo o que pôde recordar dela foram aquelas perguntas a respeito 'e objectos que lhe apresentaram. Lembrava-se de terem compu-ado as suas reacções por intermédio de meia dúzia de fotografias por uma passagem das memórias de Casanova, dando-lhe também orno opção ler ou recusar ler um trecho de Fanny Hill. Claro que lera o trecho «O meu seio estava agora nu, e entesava-se com os mais quentes impulsos, desvendando-lhe e oferecendo-lhe à vista e aos sentidos o magnífico espectáculo de um par de duros e jovens mamilos...» Qual fora a sua resposta? Sim, um pouco excitada. Talvez devesse ter respondido sentir-se fortemente excitada. Não, um pouco excitada era definição mais exacta. De novo tentou prefigurar o apartamento de Ed. Finalmente, deitando uma olhadela ao relógio, saiu da banheira, secou-se, friccionou-se com água-de-colónia e depois, vagarosamente, vestiu-se a preceito com as roupas que tinha seleccionado previamente.

Aos dez minutos para as cinco, escreveu a nota para Geoffrey a respeito de ir buscar a bola, e recomendou à Sr.ã Symonds que não se esquecesse de assegurar que o marido lesse a nota, a fim de não ficar preocupado com a sua ausência. Às cinco horas em ponto estava sentada atrás do volante do descapotável, preparada Para fazer o caminho para a praia.

Ficou surpreendida por acabar de reconhecer que a morada que Ed lhe dera não ficava em Malibu como esperara, mas muito


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antes de Malibu e muito perto do molhe de Santa Mónica. Havia ali uma ampla e suja área de estacionamento, e sobre a falésia estavam construídas umas quantas casas de madeira, dispostas de maneira negligente e sem obediência a qualquer plano de urbanização. Mais longe havia um hotel de fachada suja e uma lojeca de onde saía um cheiro nauseabundo a fritos. Teresa disse para com os seus botões que havia naquilo um ar da Boémia como se observava em Greenwich Village, mas aquele centro parecia melhor e era agradável estar de regresso a uma vida intensa e agitada, cheia de vitalidade.

O apartamento de Ed ficava no segundo andar de uma das construções. Transportando o papel de desenho num rolo, Teresa trepou os degraus de uma escada exterior que levava ao patamar, protuberante, e em forma de varandim. Os degraus estalavam por todas as juntas à medida que os pisava. Antes de chegar ao cimo, duas crianças, queimadas pelo sol, possivelmente duas rapariguinhas, o que era impossível determinar, porque vestiam calças, roçaram por ela. Teresa continuou o seu caminho pelo corredor, não sem que quase tivesse enfiado o pé por um buraco entre as juntas de duas tábuas. Por fim, conseguiu chegar sem novidade ao santuário de Ed Krasowski.

Bateu à porta.

— Entre!


Empurrou a porta e entrou. Por momentos ficou especada no limiar, tentando acostumar os olhos à sombra que reinava no interior.

Ed estava sentado numa cadeira alta de braços, com uma das pernas ligeiramente cambada, e bebia cerveja directamente de uma lata enquanto escutava uma ruidosa emissão radiofónica de basebol num aparelho portátil. Vestia a mesma camisa com as palavras Paradis csalientes sobre o largo peito e uns calções brancos. Muito embora a cara dele parecesse a Teresa ainda mais voltuosa doque se lembrava, a camisa de manga curta e os calções brancos acentuavam-lhe maravilhosamente a latente força e a masculinidade. Os seus bíceps eram incríveis de pujança e volume, e as coxas ressaltavam dos calções como duas colunas.

— Olá! — disse ele, acenando com a mão. Indicou-lhe o rádio

com um gesto de cabeça. — Estão a jogar em Philly e verifica-se um empate.

Teresa teve um gesto de cumplicidade, como se tivesse percebido inteiramente o desenrolar daquele jogo que a ele parecia tão importante.

Ed acabou de beber a sua cerveja de lata e depois, lembrando--se de que tinha que se comportar com maneiras apropriadas diante de uma senhora, levantou a enorme massa do seu corpo.

— Bem, esteja à vontade como se a casa fosse sua — disse, com um gesto circundante.

— Muito obrigada, Ed.

Teresa colocou os apetrechos de desenho em cima de uma

mesa.


— Estou a ver que vem armada e equipada.

— É verdade.

— Quer beber uma cerveja?

— Sim, se você beber comigo.

Teresa nunca na sua vida bebera cerveja nacional. Era um dia de grandes aventuras, um dia de excepção.

— Já bebi três cervejas, mas não sou do género de dizer não

quando insistem comigo. Um momento.

Ed dirigiu-se àquilo que devia ser uma cozinha interior, e Teresa, pela primeira vez, observou com atenção o ambiente que a rodeava — a sua casa alugada de Valdemosa, a sua cartuxa, o seu exílio de Palma de Maiorca. Uma passadeira oval, de franjas, cuja ancestralidade devia ser contemporânea dos primeiros pioneiros do Oeste americano, cobria o soalho, um soalho sujo, salpicado de areia. Ao lado do cadeirão de braços e do roufenho aparelho de rádio, o único mobiliário que se vislumbrava era um divã com uma cobertura verde e algumas cadeiras dispersas pela sala. Das paredes pendia uma reprodução do Angelus de Nillet (provavelmente pertença do senhorio ou senhoria), uma reprodução de um quadro de Bellow, A night at Sharkey's (com todos os indícios de ter sido herdado de um anterior inquilino com tendências para o pugilismo). Também havia coladas às paredes páginas arrancadas a uma revista desconhecida dela, a Playboy, com mulheres nuas, de seios e nádegas anormais. Junto à janela havia três fotografias emoldura-


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das, uma que representava um tipo qualquer que autografava com o nome de Harold «Red» Grange; uma outra que mostrava Ed com o seu equipamento de futebolista, aparentando um ar feroz e selvagem; e a terceira de uma pessoa que lhe pareceu ser o companheiro de Krasowski, com quem falara — Jackie.

Teresa dirigiu-se a uma das janelas — as sujas e enrodilhadas cortinas estavam abertas — e olhou para a rochosa praia que ficava lá em baixo. Havia uma mulher gorda, sentada em cima de um cobertor, a partir um salpicão às rodelas, um mergulhador que vestia o seu fato e procurava ajustar a máscara de marciano assistido por uma loira oxigenada e multidões de crianças que faziam uma algazarra ensurdecedora ao chapinharem na água.

Teresa fechou discretamente a janela, mas, ainda assim, o barulho persistia através dos vidros e dos delgados tabiques. Enca-minhou-se então para uma divisória, paredes-meias com a sala, uma espécie de negro buraco hiante, onde se viam duas camas, feitas às três pancadas, e mais duas cadeiras com aparência de que se desconjuntariam mal uma pessoa se sentasse nelas.

— Nada mau, hem? — ouviu a voz de Ed atrás de si.

Teresa voltou-se numa pirueta e aceitou a cerveja que lhe era

oferecida, apresentada num copo. Observou que Ed preferia beber a sua directamente da lata. Ao que parecia, Ed era um devoto da cerveja, e Teresa decidiu presenteá-lo com uma caixa de latas alemãs, cerveja de importação.

— Uma saúde a montes de quadros famosos — disse ele, erguendo a sua lata no arremedo de um brinde.

— Espero que sim — respondeu Teresa, secundando-o e tragando uma golada daquela mistela. Se bem que embora a cerveja tivesse um travo azedo, desconhecido para ela, voltou a levar o copo aos lábios e sorriu para o mocetão que estava na sua frente.

— Porque é que não se senta? — perguntou Ed.

Teresa teve um gesto de anuência, mas apontou para o rádio, de rosto um pouco contraído.

— O barulho está a chateá-la? Vou pôr a caranguejola mais

baixa.


O volume do rádio baixou, mas recrudesceram os gritos das crianças.

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Ed sentou-se pesadamente no sofá e indicou-lhe que se podia sentar no cadeirão favorito. Mas, impetuosamente, Teresa sentou--se no sofá, um pouco afastada dele. O que restava das molas rangeu como se fora o gemido de alguém ferido de morte. — Isto não é lá muito confortável. As molas estão um bocado {raças — desculpou-se Ed. — Não tem importância. Sinto-me muito bem. W — Está tudo tal qual desde a altura em que eu e Jackie nos mudámos para aqui. O senhorio não voltou a mexer uma palha. j, — Onde é que está o seu companheiro de quarto? \ — Mandei-o tomar ar durante um bocado. O coração de Teresa deu um salto no peito. Iria haver uma grande manifestação de amor? Parecia-lhe que ele lhe quisera demonstrar, assim, a necessidade de ficar a sós com ela. |t — Não permitiria que aquele palhaço me estivesse a observar j enquanto estou a ser pintado. i O entusiasmo de Teresa arrefeceu. Acabou de tragar a horrível ! cerveja. — Você gosta muito de praia, não é verdade, Ed? — Claro que sim. Não há nada que chegue a um bom treino matinal na areia da praia para desenvolver os músculos das pernas. Gosto do mar. Além disso, este é o único lugar onde uma pessoa pode fazer uma vida de milionário em férias a preços reduzidos.

— Compreendo perfeitamente. Suponho que na sua profissão é necessário que cuide com atenção do seu corpo.

— Como um bebé — respondeu Ed, com solenidade. Depois agitou a lata de cerveja, e a sua larga cara eslávica abriu-se num sorriso. — Claro que um homem não pode fugir a ter um vício — levou a lata à boca e bebeu avidamente.
— Está a querer dizer-me que a cerveja é o seu único vício?

— Depende daquilo a que queira chamar vício.

— Bem... a companhia de mulheres...

— Isso é mais uma necessidade. Com as minhas desculpas Pela frase, um homem tem que ter uma válvula de escape.

— Concordo consigo — disse Teresa rapidamente. — É uma coisa que faz parte de uma saúde normal.
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Ed fez uma careta a qualquer recordação que o assaltou.

— Claro. Com certeza não queria que um homem fosse dar

atenção a todas as garças que andam por aí.

— Mulheres?

— Há toda a espécie de lambisgóias pelo mundo fora. A água

do mar aceita todos os corpos que se queiram lavar nela.

O pensamento fustigou-a como um chicote. Como é que o Essinine de Isadora podia ter um espírito puritano? Afastou-o. Afinal, não são assim todos os homens? Puritanos ou não, o amor acaba por ser predominante.

— Suponho que você deve ser muito popular entre as mulheres.

— Bem, não estou muito certo disso — disse Ed, com modéstia.

— Não me importo de confessar que foi o facto de o ter visto na praia, o seu elemento natural, observando a linha graciosa do seu corpo, á harmonia dos seus membros, que primeiro me atraiu para si — Teresa observou-lhe cuidadosamente a reacção. — Você possui um corpo de perfeita simetria — acrescentou.

Ed não discordou.

— Sim, suponho que tenho um corpo desenvolvido. Como já

disse antes, tenho que cuidar dele como se fora o de um bebé.

Faço todos os exercícios de desenvolvimento, mantenho vigilância

sobre o equilíbrio do meu peso, não cometo excessos. Enfim, te

nho que me manter em perfeita forma — falava do seu físico como

se fosse uma entidade diferente dele próprio.

Teresa estava intrigada. No entanto, sabia ter descoberto um assunto de conversa que lhes interessava a ambos.

— Penso que você é muito melhor constituído do que a maior parte dos astros de cinema. Tem um ar muito mais viril.

— Ora, sobre isso não há muito a dizer ou a comparar. Com sua licença, desconfio muito desses tipos dos filmes, quase todos têm um ar equívoco.

— Julgo que é justamente por isso que desejo retratá-lo primeiramente como um herói grego, como um semideus do Olimpo, fazendo contrastar a sua virilidade básica com os homens que actualmente nos cercam. (As suas coxas, as suas entranhas, a pon-

ta dos seus seios doíam-lhe de desejo contido). Já viu a clássica estátua do Discóbolo?

— Não.

— Podia ter sido inspirada no seu corpo. Creio que conseguirei ultrapassar Míron, o escultor grego. Foi ele que esculpiu o Discóbolo e também esculpiu Lais, a cortesã. Gostaria de o pintar exactamente na mesma pose. De facto, sinto-me cheia de vontade de começar a trabalhar imediatamente.



— De acordo. O que é que eu devo fazer?

— Bem, o Discóbolo é apresentado inteiramente nu, evidentemente. De resto, como todos os deuses do Olimpo. Desejo que pose para mim da mesma maneira.

O corpo de Ed tomou uma posição rígida no sofá.

— Sem nada em cima do pêlo?

Teresa tentou dar à sua voz uma inflexão neutra, sem emoções, em tom de negócio.

— Sim, segundo a tradição clássica. Julgo que seja melhor ir--se despindo, enquanto eu arranjo as coisas...

— Eh, espere um minutinho. Com certeza que não espera que me ponha em pelote na frente de uma senhora?

— Por que não? Tem complexos de falsa modéstia? Estou certa de que antes já se pôs assim mais de uma centena de vezes em frente de outras mulheres.

— Mas não desta maneira, não a ser observado. Quando me despia era por razões muito diferentes. E, nessas ocasiões, a dama estava também nua.

— Ora, Ed, é apenas isso que o preocupa? É o facto de você

estar nu e eu não? Muito bem, nesse caso estou pronta a tirar de

boa vontade a minha roupa.

Ed pareceu não compreender.

— Como? O que é que disse?

— Ouviu perfeitamente as minhas palavras, Ed. Se isso o torna mais acessível e mais feliz, tirarei imediatamente o vestido.

— Só para me pintar? — a cara dele mostrava toda a confusão que lhe ia no espírito.

Teresa podia ouvir o bater do coração dele, e desejou com todo o seu ser estar envolvida, para sempre, por aqueles braços muscu-
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losos. Quando conseguiu falar, a voz soou-lhe aos próprios ouvidos como uma voz estranha.

— Evidentemente que não, meu rapazinho estúpido. Posso

muito bem pintar numa próxima vez. Quero que faça comigo aquilo

que faz com as outras raparigas.

Ed deixou-se cair no sofá com todo o peso, fazendo ranger as estafadas molas como se fosse um terramoto, e ficou a contemplá--la de boca aberta. Teresa ergueu-se num pulo ágil e plantou-se, soberba, mesmo diante dele. Pernas afastadas, os joelhos tocando os dele, com as mãos tensas, apertadas atrás das costas, de modo que os seios se tornavam mais pontudos e pareciam ter duplicado de volume.

— Ed, você nem sequer me deseja tocar?

A reviravolta dos acontecimentos fazia com que Ed estivesse num verdadeiro estupor.

— Claro que sim, mas...

— Mas o quê, Ed? Pensa que sou demasiado senhora para me comportar desta maneira? Muito bem, sem dúvida que sou uma verdadeira senhora, mas sou também uma mulher. Desde o momento em que o vi na praia pela primeira vez, tenho estado a conter o desejo que me queima. Sabia muito bem que me estava a enamorar de si... bem sei que é uma coisa um pouco idiota, mas a verdade é que as mulheres enamoradas também são um pouco idiotas, amar é loucura. Tudo o que eu quero, e não luto mais contra esse desejo, é que me dê todo o seu amor — olhava para ele, demasiado excitada para esboçar sequer um sorriso. — Ed, abrace--me. Gozará esse abraço...

Ed estendeu os braços e puxou-a para si avidamente, sentan-do-a nos seus joelhos. As mãos dela afagaram-lhe o cabelo, e a boca dela foi ao encontro da boca dele, com uma tal pressão que até os dentes lhe doeram.

Afastaram-se para fazer o ar circular nos pulmões.

— Bom Jesus! — exclamou Ed, apatetado.

— Essas outras mulheres... O que é que você fazia com elas?

— É muito diferente com essas porcas. As coisas seguem um ritmo natural, é deixar correr... mas consigo...

— O que é que há comigo?

— Eu devia saber. Acontece que não a julguei como... Jackie, na altura em que me entregou o seu recado, o velho Jackie disse--me: «Ed, devias tê-la visto com aquele fato de banho, tem um corpo de... Tenho a certeza que vais saber que dentro daquele corpo há pólvora latente». Mas eu respondi-lhe que não fosse palerma.

— Está a ver, Ed? Até ele adivinhou a maneira como eu sinto este desejo por si — encostou o rosto ao dele. — Não sente vontade de me despir?
— Vai ter o que deseja! Cegamente, Ed atirou-se ao vestido dela.

— O fecho está nas costas — murmurou Teresa.

Ed encontrou o fecho, mas de repente lembrou-se de qualquer coisa.

— É melhor no quarto. Vamos para lá.

Levantou-se, fazendo-a cambalear. Teresa começou a encami-nhar-se para o quarto, observando-o a ir até à porta e a fechá-la no trinco, depois chegando-se para as janelas e correndo as cortinas.

Já no obscurecido quarto de cama, Teresa tirou os ligeiros sapatos e sentiu o frio do soalho, sem tapeçaria, nas solas dos pés. Quando Ed regressou, tinha ela baixado o corpo do vestido até à cintura. Teresa fez um ligeiro movimento coleante e deixou que a seda escorregasse pelo resto do caminho, e ali ficou com a reduzida roupa interior, as calcinhas bikini, que pouco tapavam, e o meio soutien que lhe descobria os seios túrgidos, lançando os ombros para trás, para que os mamilos se projectassem agressivamente.

— Bom Jesus! — disse Ed, admirativamente.

— Sou eu que tenho que o despir? — perguntou ela, imperativa

— Não, eu dispo-me. Pode deitar-se e esperar. Estarei pronto enquanto o diabo esfrega um olho — disse ele, apressadamente, dirigindo-se para a casa de banho.

Teresa tirou as calcinhas e o soutien, abriu a cama e estirou--se em cima dela. Olhou para a sala de estar, ouvindo os gritos das crianças na praia, a sussurrante voz que vinha do rádio. O quarto tinha uma temperatura tépida. Nesse momento sentiu qualquer coisa de desconfortável debaixo do corpo. Correu os dedos pelo lençol: areia.


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— Está pronta? — perguntou ele da casa de banho.

— Estou sim, querido.

Ed apareceu à porta usando apenas em cima da pele uma ligeira trousseàe protecção, que lhe acentuava ainda mais as massas musculares do estômago e do torso. Libertou-se da trousse e atirou-a, com o pé, para um canto, contemplando-a firmemente de frente. O discutido Discóbolo, pensou Teresa. E, de repente, pela primeira vez, observou a nudez total de Ed, sentindo-se um pouco chocada, uma sensação que não durou mais do que um momento. A surpresa residia em que o atleta, de certa maneira, não era muito diferente de Geoffrey — de facto, se havia diferença naquilo para que olhava era para menos ainda. Ed avançou para ela, e a surpresa desvaneceu-se. O apelo que a escaldava era um apelo divino, uma chamada dos deuses. Finalmente o seu herói tinha descido do Olimpo para a tomar nos braços viris.

Teresa estendeu os braços.

— Vem para mim...

Tremia de excitação, antecipando o longo e excruciante festim de amor que ia começar nessa precisa altura. Cada milímetro do seu corpo ardia no desejo de ser levado aos píncaros da paixão, realizando esse desejo, gozando finalmente uma união física divina. A cama estremeceu e rangeu quando ele ajoelhou sobre o lençol, e Teresa, que esperava os seus beijos e carícias, ficou subitamente perturbada por senti-lo imediatamente em cima de si, pregando-lhe os ombros contra a almofada, esmagando-a sobre o seu terrível peso. E então, emitiu um grito, um grito que não era de dor, mas sim de ultraje, quando viu que Ed, sem preâmbulos, começava na sua obra de cópula.

Torceu a cabeça para o lado, protestando:

— Ed, ainda não, ainda não... não deves fazer assim. Eu não...

Ignorando tudo o mais a não ser o corpo dela, o atleta prosseguiu no seu trabalho demolidor. Teresa Harnish procurou afastá-lo, mas sentiu que era como tentar afastar o edifício do State Empire. Fechou os olhos e tentou compreender: «Está a tratar-me como uma dessas bonecas de borracha, com um buraco, que os marinheiros costumam comprar em Kobe... só me beijou uma vez, nem sequer me tocou nos seios, não correu as mãos pelo meu corpo,

não me murmurou uma simples frase de prazer...»

Abriu os olhos. Ed desempenhava o seu papel completamente alheado dela, como um perfeito animal irracional. Teresa não sentia nada, nenhuma ligação com aquele homem, para além da ridícula pressão sobre a parte fronteira do corpo e a irritação que a areia lhe produzia a roçar pelo traseiro. Isso e o acre cheiro a cerveja barata que lhe vinha ao olfacto, o ronquido dele ritmado pelo ranger da cama e harmonizado com os gritos das crianças que se ouviam lá fora. As narinas abriam-se-lhe ao cheiro do suor daquele desconhecido, suor misturado com o odor à vaza da praia. E odiou aquele colchão duro, as molas que rangiam e o monstruoso peso que a dominava.

— Ed, escute... escute...

Tentou libertar-se do opressivo fardo, mas, na altura em que procurava a ansiada liberdade, sentiu-o inteiriçar-se, regougarcomo um porco e exalar uma explosão de ar dos pulmões. Um momento depois, Ed deixou de lhe fazer pressão sobre o corpo e descaiu para o lado, ofegante.

Teresa sentou-se no mesmo momento em que se sentiu livre e lhou com incredulidade aquela montanha de carne que estava ali a eu lado. O atleta estava agora deitado de costas, abrindo a boca ara encher os pulmões de revigorante oxigénio. Finalmente, Ed abriu os olhos e encontrou o olhar dela. Sorriu num esgar de cumplicidade.

— Santo Deus, queridinha, foi monumental. Podes ter os teus

sapatos debaixo da minha cama noite e dia.

Teresa continuava a fixá-lo, demasiado espantada para poder proferir uma palavra. Aquele... aquele orangotango, tinha-a tratado como se não fosse mais que um treino de futebol. Várias flexões, entumescimento dos músculos e o dia estava completado. Era então aquele o homem primitivo? Meu Deus — pensou num movimento de revolta contra o destino —, talvez que tivesse sido exactamente assim, quando o macho primitivo perseguia uma mulher às cacetadas e a arrastava para a sua caverna, pelos cabelos, de rastos, utilizando-a depois como um simples receptáculo, sempre à mão. Oh, Deus, Deus do Céu, Isidora, Isidora, que coisa tão ridícula...

Permaneceu sentada naquela cama, imobilizada pelo pensa-


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- O Relatório Chapman

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mento que a assaltara. Grandes esperanças. Quem tinha dito aquilo? Ah, sim, Dickens. Sentiu-se vazia de emoção, como se não tivesse sido penetrada, como se não tivesse sido tocada, como se tivesse de facto acabado de entrar pela primeira vez naquela palhota. Todavia, tinha havido ali um acto de amor, mais propriamente de cópula desempenhada por um só dos parceiros da realização sexual. Quem diabo poderia, no mundo, saber aquilo além dela própria?



O Dr. Chapman, evidentemente. Não, o Dr. Chapman não. Ele não tinha um mapa estatístico para poder medir as grandes esperanças. Quem, pois, poderia compreender o caso? Stendhal, sim, apenas esse. Inevitavelmente acudiu-lhe ao espírito a frase por ele pronunciada aquando da realização do seu primeiro acto de amor: Quoi, n'est-ce que la? Fitou a suja e desmazelada cela em que estava encerrada, aquele simulacro de alcova, viu os pregos espetados na parede onde não havia a suspensão de um toque de arte, olhou o tecto, onde, em certas partes, se viam as fasquias através dos remendos no estuque e fixou uma bola oval que se via a um canto.

Deslizou para a beira da cama.

— Que tal, queridinha? — perguntava Ed.

Meu Deus, pensou, ele deseja a minha gratidão.

— Excelente, magnífico — pronunciou.

— Bem, sempre que queiras...

Teresa vestiu-se rapidamente sem olhar para ele.

— Eh, está a preparar-se para se ir embora?

— Tenho que ir.

— E quanto ao nosso próximo encontro? Lembre-se de que tem de me pintar — ria deliciado pela sua própria gracinha.

— Depois lhe comunicarei.

Teresa puxou o fecho do vestido e enfiou os sapatos. Agarrou na mala de mão e começou a encaminhar-se para a sala.

— Espere um momento — veio a voz de Ed. — Nem sequer

sei o seu nome...

Teresa continuou a andar, atravessou a sala, abandonando o material de desenho em cima da mesa, até atingir a porta da rua. Só respirou quando começou a descer os degraus exteriores de

madeira. Foi então que deitou uma olhadela ao mostrador do relógio. Tinha chegado àquele lugar às cinco e trinta e cinco; nesse momento, os ponteiros indicavam as cinco e cinquenta e dois.

Estaria em casa muito a tempo de receber os seus primeiros convidados.

Muito embora ainda faltasse meia hora para o jantar ser servido, Jefferson ia na sua terceira ronda pela sala de estar e pelo pátio, oferecendo bebidas da bandeja que transportava e atendendo novos pedidos. A bola dinamarquesa, exposta no bufete, cortada ao meio, entre um arranjo de jarras de flores, parecia ser o sucesso da reunião.

Teresa, que passeava apoiada ao braço do marido, já tinha recebido cumprimentos de quatro convidados.

— Foi muito inteligente da tua parte — sussurrou-lhe Geoffrey,

orgulhoso.

Teresa encostou-se mais a ele.

— Adoro-te — disse-lhe.

O chapéu de copa alta inclinou-se. Teresa corrigiu-lhe a posição e acenou com o charuto para os grupos de amigos.

— Não é engraçado?

Há muitos meses que ela não saboreava os prazeres do seu abastado lar, os montes de adoráveis quadros pendurados pelas paredes, o seu distinto marido, os seus inteligentes amigos. Era uma verdadeira noite de glória.

— Olha! — exclamou ela, apontando para a porta que Jefferson

acabava de abrir. — Eis Kathleen. Não está admirável?

Kathleen Ballard deixara escorregar a sua estola de arminho pelos ombros, e Paul tirou-lha e estendeu-a a Jefferson. Kathleen vestia nuvens de finas ondas de gaze, à maneira de um vestido grego, com uma ousada décolletage. Depois de ter mandado arranjar o vestido, sentira-se um bocado embaraçada por ter de usá-lo, mas finalmente envergara-o sem falsos pudores. Sem dúvida que era ousado, despido, mas, afinal de contas, condizia com a mulher que desejara ter sido no dia em que Paul a entrevistara, e talvez que aquilo o ajudasse a compreender o seu ser subconsciente.
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Já Teresa Harnish, seguida do marido, estava junto dela:

— Kathleen, está divina! O que é que isso significa? Uma vestal?

— Lady Emma Hamilton, segundo espero — respondeu < Kathleen. — Era esta a maneira como ela se vestia.

— Claro que sim! — disse Teresa, afastando-se e enquadrando:. Kathleen no seu escrutinar. Depois, voltou-se para Geoffrey. — A ■ Lady Hamilton do quadro de Romney. i-

Geoffrey anuiu sabiamente:

— Galeria Nacional. Londres.

— Suponho que foi essa a pintura que eu vi reproduzida naquele livro — disse Kathleen.

— O mais inocente, adulado e belo retrato de uma mulher que foi transportado para uma tela — proferiu Geoffrey.

— Romney ultrapassou-se a si próprio nessa obra.

— Foi Deus que guiou a mão do artista — acentuou Teresa.

— Olé! — exclamou Geoffrey, entusiasmado.

Kathleen agarrou na mão de Paul.

— Apresento-lhes Paul Radford. — Depois para Paul: — Os

nossos anfitriões, Teresa e Geoffrey Harnish.

Já no meio das apresentações, Teresa lembrou-se de que havia concordado com Paul em não mencionarem a ligação que ele tinha com o Dr. Chapman.

— Paul é escritor — acrescentou Kathleen de um modo um

tanto vago.

Kathleen e Paul, fortificados com um segundo copo de scotch e soda, estavam a conversar com Mary e Norman McManus. Originalmente, Mary havia pretendido aparecer fantasiada de Florence Nightingale, a prestimosa enfermeira, segundo sugestão dada pelo pai. Mas, naquela mesma manhã, depois do pequeno-almoço, decidira considerar o trajo de enfermeira como uma coisa demasiado piegas. Sentia-se tão temerária e independente como qualquer daque-las mulheres pioneiras que tinham partido para o Oeste em busca do desconhecido. Após cuidadosa consideração, havia rejeitado Jessie Fremont por Belle Starr, e agora envergava uma camisa preta, uma saia de coiro, um chapéu de vaqueiro e um

coldre com um revólver respeitável, fantasia alugada num guarda--roupadeMeldrose.

—Tenho verdadeira pena que Naomi não possa estar presente. E ela está melhor? — perguntava Mary a Kathleen nesse momento.

— Muito melhor — respondeu Kathleen. — Sabe bem como as constipações são difíceis. Creio que está a projectar fazer uma viagem para o Leste desde que se sinta mais forte.

— Maravilhoso. Ela já se levanta?

— Sim, parece-me que sim.

— Bem — disse Mary, segurando na mão de Norman e encos-tando-se meigamente a ele—, nós, de certa maneira, também nos preparamos para fazer uma viagem.

— De verdade? — perguntou Kathleen.

— Não, não é uma verdadeira viagem — respondeu Norman. — O que acontece é andarmos à procura de casa só para nós.

— É a coisa mais inteligente que podem fazer. Se encontrarem dificuldades, dirijam-se a Grace Waterton; ela conhece todos os agentes de vendas de The Briars.

— Muito obrigado, mas não devemos ficar em The Briars. Compreende, vou trabalhar por conta própria, tenho uma sociedade com um amigo de escola, e os nossos escritórios são no centro de Los Angeles.

— Qual é a sua profissão? — perguntou Paul.

— Leis. Sou advogado. Vai-me levar tempo a assentar os pés no chão — voltou-se para Kathleen. — Seja como for, se ouvir falar de uma casa de preço razoável no vale, não se esqueça de nos avisar.

Examinou o seu copo.

— Desculpem-me, quero tomar mais outro.

Norman dirigiu-se ao bar. Mary atrasou-se um momento, encostou a boca ao ouvido de Kathleen e murmurou-lhe:

— Vamos ter um filho.

— Oh, Mary!... Para quando?

— Em breve, estamos a trabalhar para isso — piscou o olho e apressou-se a ir atrás do marido.


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Mary e Norman McManus tinham aceitado novas bebidas preparadas por Jefferson e estavam nesse momento a conversar com Úrsula e Harold Palmer. Úrsula, após aturada pesquisa nos recessos da sua imaginação, acabara por preparar uma versão modernizada de Lucrécia Bórgia. Usava uma rede recamada de jóias nos cabelos, com um véu finíssimo que lhe envolvia o rosto até à garganta, um comprido vestido até aos pés, de cetim verde-esmeral-da, um cinto de prata e calçava sandálias, onde brilhavam fieiras de pérolas.

— Não podia mais com aquela danada revista — dizia Úrsula a

Mary e Norman.—Aquele nauseante mote: «A revista, que é uma

companhia, que está ao serviço do espírito e da terra», era suficien

te para fazer uma pessoa vomitar as tripas.

Mary não sabia que resposta dar. Assinava a Houseday desde que se casara e colocara-a num lugar de evidência e autoridade ao lado de Harry Ewing, Hannah e Abraham Stone, do Novo Testamento e do Dr. Norman Vincent Peale, mas agora não iria admitir ter sido uma leitora constante e, secretamente, decidiu relegar a publicação para um canto da sua vida, para uma posição de menos relevo, tal como a despromoção sofrida recentemente por Harry Ewing.

— Não a censuro, Úrsula — disse canhestramente. Mas acrescentou a seguir com mais segurança: — a verdade é que as pessoas crescem.

— É isso exactamente — corroborou Úrsula, que acabava de provar o licor. — O editor tinha grandes planos a meu respeito, uma posição executiva na sede de Nova Iorque, a redacção, mas eu não podia figurar-me, juntamente com Harold, confinada à vida medonha da Madison Avenue, vivendo de lugares-comuns (fora aquela a versão oficial do caso que havia sido apresentado a Harold após a vergonhosa cena com Foster), especialmente desde que Harold está a singrar tão maravilhosamente no seu negócio.

— Consegui a contabilidade Berrey — explicou Harold a Norman. — É uma grande cadeia de drugstores.

— Bem sei — assentiu Norman. — Estou interessadíssimo

em saber que tal é a sensação de uma pessoa ser independente. Um amigo meu, Chris Shearer, que foi meu companheiro de escola, vai ser meu sócio. Vamos trabalhar em conjunto com um escritório de advocacia.

— Claro que nem tudo são rosas — perorou Harold, sentencio-samente. — Há que esperar um bocado de luta.

— Já espero isso mesmo — respondeu Norman.

— Mas não tardará muito tempo que você progrida — continuou Harold. — Especialmente se tiver uma mulherzinha a apoiá-

[ Úrsula banhou o marido num sorriso já perturbado pelos fumos do álcool.

— Sim, o facto é que Úrsula tem sido uma auxiliar precio-sa no

.escritório. Eu tinha lá uma rapariga, mas Úrsula vale por dez

empregadas, e isso é tudo o que um homem precisa para progredir i ~ agitou um dedo na direcção de Mary. — Tem que apoiá-lo com todas as suas forças, Mary. Procurem o que há por detrás de todos os grandes homens e encontrarão uma grande mulher. Por exemplo, Richelieu... — a frase foi deixada em suspenso, porque com apreendeu que não fazia sentido, e distraiu as atenções, permitindo , que o barman deitasse mais martinino seu copo, emendando de->• pois:

— Vejam, por exemplo, o caso da Sr.B Roosevelt: sem ela o

j marido não chegaria ao que chegou.

í A mão de Mary procurou a mão do marido. Apertou-lha com ternura, e os seus dedos ágeis fizeram-lhe uma carícia significativa na palma que se lhe abria. Harold continuava a perorar:

— Um pouco de determinação é tudo quanto você necessita.

Levei tempo a caçar o Berrey, mas...

A Sr.â Symonds, no seu vestido branco de cozinheira, oferecia a bandeja recheada de canapés de lagosta e de bolinhas de carne com caril a Úrsula e Harold Palmer, que estavam no pátio entabulando uma conversa com Sarah e Sam Goldsmith.

Harold, aceitou distraído o canapé que a mulher lhe passara e
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continuou a fixar espantado a grande porção de barriga que Sarah tinha a descoberto. Sarah havia desafiado o sentido de convenção social de Sam, convertendo o vestuário outrora utilizado numa sala de danças modernas numa fantasia de Mata-Hari. Com uns panos vaporosos construíra uma pequena obra de arte, mas, respeitando a tradição da bela espia, deixara a barriga completamente à mostra, tal como Mata-Hari aparecia em certas fotografias. Sam sentia-se pouco à vontade com a ousadia da mulher.

A fim de ganhar a simpatia de Sam e talvez para conseguir apanhar-lhe a contabilidade da sua loja de vestuário, Harold começara a perguntar-lhe coisas a respeito do negócio que geria. Sam, a voltar constantemente os olhos preocupados para a fantasia indecente da mulher (que irá esta gente pensar de uma mulher assim vestida, que é mãe de dois filhos?), queixava-se em tom lamentoso do aumento sofrido pelas mercadorias, da perfídia dos empregados, dos impostos sobre as vendas, dos impostos sobre o rendimento, dos impostos de propriedade e da obra nefanda estabelecida pelas cadeias de monopólios.

Úrsula, tranquilizada pelo álcool, meio atenta à conversa, murmurava, de tempos a tempos, palavras de assentimento e concordância, com a compreensão instintiva de que aquela história dos negócios podia vir a enriquecer o seu próprio negócio.

Sarah, que não prestava atenção nenhuma, dava um toque na massa do cabelo. Não achava muita piada ao vestuário que escolhera, mas não poupava nenhum gesto que pudesse compungir Sam. Observando o perfil do marido enquanto ele falava, o nariz um bocado pontudo e o longo maxilar, como a mandíbula de um mastim, Sarah pensou naquelas caricaturas semíticas outrora apresentadas por Streicher no DerStúrmer, mas compreendeu que a comparação não era nada elegante, e que não era o seu tipo semita que mais lhe bulia com os nervos. O que a irritava era a opressão da banalidade representada pelo marido, tanto no lar como num meio social. A frustração de estar entre aquelas pessoas interessantes, com um companheiro que era um falhanço, um homem que de nenhuma maneira representava a sua maturidade de escolha, em vez de estar com o companheiro que realmente amava, que teria reflectido o seu fino julgamento de perfeita harmonia sexual no brilho

da sociedade circundante, era uma coisa que a minava interiormente e lhe azedava o humor.

Ao ver Grace Waterton entrar no pátio, Sarah acenou com a mão para lhe chamar a atenção. Preferia tudo, fosse o que fosse, a ter que estar a aturar o aborrecido monólogo de Sam sobre o seu negociozinho. Grace respondeu-lhe agitando a sua écharpee abriu caminho por entre os convidados. O seu vestido de veludo da era Tudor, farfalhava por entre a massa de gente. Grace pretendera que aquilo fosse o seu modo de expressar Ana Bolena, a inditosa mulher de Henrique VIII.

— Sarah, tenho andado à sua procura por toda a parte — disse

Grace rapidamente. — Neste momento estava à procura do Sr.

Waterton (era sempre assim que ela se referia ao marido), mas a

verdade é que precisava imenso de falar consigo.

Sarah considerou que nada, fosse o que fosse, desde uma saraivada a trovoadas e coriscos, seria capaz de travar a loquacidade de negociante de Sam, e que ele muito menos seria detido pela apresentação de Grace Waterton. Por isso voltou as costas ao marido e ao casal Palmer e isolou-se com Grace.

— Está divina, minha querida — dizia Grace, nesse momento.

— Como é que se arranja para ter essa figurinha esbelta de colegial?

Sarah ficou encantada.

— É fácil, nada de comidas indigestas e gordas nem de sobremesas, além da fruta.

— Sarah, temos estado a pensar seriamente em voltar, este Verão, a pôr em cena outra peça. A do ano passado constituiu um enorme êxito, e sem dúvida que você foi uma autêntica revelação. Vamos tentar reunir o mesmo elenco. Talvez se represente O Leque de Lady Windermere. Você faria uma magnífica protagonista, o seu tipo é ideal. Claro que, se preferir, pode desempenhar a parte de Mrs. Erlyne.

— Tenho receio de não poder ajudá-las, Grace. Tenho andado tão ocupada... Depois há as crianças...
— A peça não irá à cena antes de Agosto. Nessa altura já você tem as crianças no acampamento de férias.

— Penso que não pode ser, Grace. Sam e eu devemos ir para fora.


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Grace suspirou.

— Meu Deus, parece que toda a gente se combinou para via

jar. É a segunda pessoa que tenho que riscar da lista, e pela mes

ma razão.

Uma certa intuição restringiu a pergunta que estava na ponta da língua de Sarah, mas ela forçou-a a libertar-se.

— Qual é a outra pessoa que foi riscada da lista?

O olhar de Grace errava pela sala à procura do marido, mas acabou por se voltar para Sarah, ao ouvir a pergunta.

— Fred Tauber — respondeu. — Lembra-se dele? T

— Perfeitamente. f

— Pensei que era melhor começar pelo encenador. Afinal, é >* dele o maior trabalho na montagem de uma peça. Telefonei-lhe esta manhã... --.

As faces de Sarah ardiam. Era estranho ouvir alguém como Grace pronunciar o nome de Fred; af igurava-se-lhe que estavam a invadir o santuário da sua vida, o eremitério onde ela se escondia com o amante. Sarah havia telefonado a Fred na tarde anterior, quando fora fazer compras a Village Green. Ele atendera o telefone, mas falara-lhe de modo distante, perturbado. Antes disso, tentara ligar para ele inúmeras vezes sem conseguir encontrá-lo, e dissera--Lhe isso mesmo com certa mágoa; afirmara-lhe ter ido a casa dele desesperada por causa do homem do Dodge. Fred contara-lhe que tivera que se deslocar ao advogado. Sarah aproveitara o ensejo para lhe perguntar se havia qualquer novidade, mas Fred replicara com impaciência que estava tudo bem, tinha ido ao causídico por causa de um contrato — de facto, nesse mesmo momento estava a meio de uma conferência sobre o assunto. Sarah ficara mais aliviada, porque o facto explicava o tom distante da voz dele e a impaciência demonstrada. Sarah perguntara-lhe quando é que se poderiam encontrar, lembrando-lhe que havia quatro dias que não se viam, e Fred explicara-lhe que no dia seguinte pela manhã tinha que sair, mas que devia estar em casa no sábado de manhã, aconselhando--a a contactar com ele nesse dia.

—... e tivemos uma breve conversa — estava Grace a dizer.

—A senhora telefonou-lhe esta manhã?— Claro que sim. Por que não?

— É que... julguei... pensei que ele estivesse a trabalhar.

—Vou contar-lhe tudo o que aconteceu, minha querida. Disse-

he como toda a gente adorara o seu trabalho na última peça, como ha sido maravilhoso da sua parte ter colaborado e como necessi-

vamos de novo da sua preciosa colaboração. Na verdade julgava e o tinha seguro devido àquilo que ouvira dizer...

— E o que foi que ouviu dizer, Grace?

— Fred Tauber é um indivíduo marcado, uma espécie de pestí-

ero para a gente do cinema e do teatro, no espaço de dois anos

'nguém se atreveu sequer a oferecer-lhe a direcção de um espec-culo de marionetas.

Sarah, insensivelmente, viu que as unhas se lhe cravavam nas almas das mãos. Teve ganas de arrancar os olhos a Grace. Com if iculdade conseguiu refrear a cólera que sentia tremer na voz.

— Não posso acreditar nesses boatos falhos de senso. Fred

uber é um génio. Toda a gente que trabalhou com ele o sabe.

— Ora, não tome o assunto tão a peito. O que é que pretende

Lom essa atitude, fazer uma transferência de personalidade para o

eu ensaiador? Pronto, ele é um génio, simplesmente é um génio a uem ninguém dá trabalho. Só estou a repetir o que toda a gente abe que é verdade. Por causa da sua ociosidade, pensei que o oderia ter bem seguro, mas por infelicidade nossa Fred Tauber onseguiu arranjar um contrato há dois dias.

— Sim? Onde?

— A direcção de uma série para a televisão que vai ser filmada

o México e na América Central. Creio que ele me disse que a

rodução se chamaria Os Fiisbusteiros; um filme de aventuras nos

ares das Caraíbas, todas aquelas histórias de saques e pilha-

ens, duelos, etc, bem sabe como essas coisas são. Não é má

deia. Talvez o filme seja apadrinhado por qualquer companhia ba

naneira. Seja como for, o que interessa é que Fred Tauber parte

amanhã para a Cidade do México para filmagens de exteriores.

Não é mesmo má sorte da nossa parte?

— Parte amanhã? — a voz de Sarah tremia, sentia-se como

se fosse desmaiar.

Grace pareceu não ouvir as palavras dela, o tom em que eram

pronunciadas.
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— Mas o melhor está por vir. Até mesmo esse trabalho que ele

arranjou não passa de uma coisa postiça. Esta manhã tive que

telefonar a Helen Fleming a dar-lhe a má notícia de não termos

encenador. Como sabe a Helen faz parte da comissão para a peça.

Pois bem, o marido dela trabalha nos estúdios, e foi um amigo

dele, um tipo chamado Reggie Hooper, quem criou a série que vai

ser rodada. Parece que a mulher de Tauber... — fez uma pausa. —

Você sabia que Fred Tauber tem uma mulher?

Sarah abanou a cabeça, estava pálida como uma morta.

— Pois a mulher de Fred Tauber ó filha de um desses grandes

senhores do cinema. É uma mulher da grande sociedade e foi cria

da num berço dourado. Acontece que já é um pouco entradota em

anos. Suponho que Fred Tauber se casou com ela por esperar a

ajuda que lhe poderia prestar na sua carreira de realizador. Bem,

parece que de facto ela o ajudou um bocadinho, mas não o bastan

te, e Fred desatou a ter relações com figurantes e a mulher aca

bou por descobrir. Houve uma forte discussão mesmo no Romanoff,

e Fred acabou por deixá-la. Despeitada, a mulher fez queixinhas

ao importante papá, e este colocou Fred na lista negra até ir co

mer milho à mãozinha da mulher. Fred manteve uma persistente

negativa em ceder e, por isso, foi esquecido pelos estúdios e pela

televisão. Não era considerado como tendo talento bastante para

que alguém do mundo da sétima arte se atrevesse a desafiar o

poderoso sogro, daí que Fred Tauber não teve mais remédio senão

andar aos biscatos e continuar a ter relações escusas com umas

tantas figurantes. Mas o melhor do caso é que, ao que parece, a

mulher ama-o realmente, ou, pelos vistos, não está disposta a ver o

seu nome arrastado na lama e a sua vida íntima discutida na sala

de um tribunal. Parece que há um filho que está não sei onde; e foi

ela que resolveu procurar Tauber. Julgo que foi ela que lhe forne

ceu dinheiro para uns quantos trabalhos independentes que nun

ca se concretizaram ou se malograram. Seja como for, há pouco

tempo parece que ela descobriu que ele andava caidinho com uma

actriz ou coisa que o valha. Segundo ouvi, a ligação estava a tomar

um carácter sério, e a mulher resolveu acabar com o romance.

Assim, comprou o programa de televisão e ofereceu a Tauber soci

edade nas filmagens de séries, se ele se deslocasse ao México e

fosse o realizador do programa. Não estarei muito longe da verdade se pensar que ela não tem nenhum interesse na televisão e só quer pô-lo a mexer daqui para fora. E, afinal, quem é que sofre com tudo isso? Somos nós, por nos vermos privados de um bom encenador. Se as pessoas soubessem os trabalhos por que passa a Associação...

Foi uma voz estranha, de homem, que atendeu o telefone, e

Sarah pediu para chamarem Fred Tauber.

— Um momento, por favor — disse-lhe a voz.

Sarah estava sentada à beirinha do grande almofadão, no escritório, com o telefone sobre os joelhos, sentindo as têmporas a latejarem e tendo também uma sensação de agonia.

Minutos antes, para se ver livre de Grace, precipitara-se para o quarto de banho, fingindo que ia retocar a maquilhagem. Depois enfiara pela grande sala de jantar, onde fora encontrar Geoffrey Harnish a conversar, em tom pomposo, com um convidado. Murmurara a Geoffrey que precisava de fazer uma chamada urgente e em privado, e o dono da galeria de arte e anfitrião, de maneira graciosa, conduzira-a para o escritório. Depois de lhe ter afagado o pescoço com o seu bigode de hussardo, o dono da casa dissera-lhe que poderia estar perfeitamente à vontade se fechasse a porta por dentro. Relutantemente, Geoffrey decidira-se por fim a abandonar o local, e Sarah fechara a porta com o trinco.

— Está?— era a voz de Fred, num tom apressado.

— É Sarah que fala.

— Querida, agora estou muito ocupado...

— Seja o que for, pode esperar. Tens que me ouvir. O tom da voz pareceu acalmá-lo.

— Muito bem. De que é que se trata?

— Sei tudo acerca das tuas danadas séries de televisão, e que

partes amanhã para o México. Estou numa festa onde me falaram

do caso. Só quero que me digas o que há de verdade. Quero ouvir a

verdade da tua boca.

— Bem, deixa-me que explique... só um segundo...

Aparentemente, Fred devia ter tapado o bocal com a mão. Sarah

tentou imaginar o que ele estaria a fazer. Imaginava-o a dizer aos outros que se tratava de um assunto privado. Eles poderiam ficar na
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sala enquanto Fred ligaria o telefone para a extensão existente na casa de banho. Ei-lo que falava:

— Bom, agora já podemos falar, Sarah, não tive coragem de te

dizer o que se passava... Depois desta reunião pensava escrever-te

um bilhetinho...

— Um bilhetinho?— Sarah teve consciência de que a sua voz

reflectia ira, mas não se importava um pepino com isso.

— Uma carta. A explicar-te tudo.

— Sabias muito bem do caso, quando ontem te telefonei. Por

que é que não me disseste nessa altura?

— Havia gente ao pé de mim...

— Queres dizer que estava aí a tua mulher, não é verdade?

— Pois bem, era de facto a minha mulher, e depois?

— Se tivesses ouvido o que eu ouvi... Não é necessário procu

rarmos mais. Ela sabe tudo a nosso respeito. Atirou-te com o osso

dessa série de televisão para te obrigar a sair da cidade.

— Quem é que te contou essa aldrabice? — era furiosa a voz dele. — Ninguém iria gastar cinquenta mil dólares só para me pôr fora da cidade, nem mesmo a minha mulher.

— Penso que não me vais dizer que ela não tem nem um cêntimo empregado, pois não?

— Não estou a dizer nada disso. Claro que ela é um dos accionistas. É uma mulher de negócios e sabe muito bem aquilo que posso fazer. Mas a verdade é que há mais pessoas interessadas no caso.

— Tudo o que ela quer é separar-nos. E tu, por um miserável trabalho, estás a consentir nisso.

— Isto não tem nada a ver com ela, Sarah, procura ser sensata. Sou um homem. Um realizador. Tenho que trabalhar. Esta série é uma coisa que se coaduna comigo, e quero realizá-la. É tudo.

Sarah sentiu-se como que ferida de morte, cega pela dor. Naquele momento não desejava mais nada que magoar Fred, feri-lo também.

— Todo o tempo em que estivemos juntos, todas essas pala

vrinhas meigas não passaram de uma mentira descarada. Aconte

ce que, mesmo quando tínhamos relações, estavas a pensar na

televisão e em todo esse dinheirinho dela que podia escorrer.

— Sarah! Que diabo se passa contigo? Nem posso acreditar que sejas tu a falar assim. Conhecendo-me como conheces, julgas que aquilo que fiz contigo foi forçado, que te disse coisas em que não acreditava? Sentes-te enervada porque ouviste faiar do caso de maneira errada.

— Sim, estou enervada, sinto-me abandonada, todo o meu desejo é chorar, gritar...

— Já te disse que tencionava dar-te uma explicação. Projectava arranjar tempo para te escrever esta noite. Bem sabes que significas muito para mim. És a coisa mais importante que existe na minha vida, com excepção do meu trabalho. Sou um homem. Tenho que trabalhar... Mas todo o resto da minha vida te pertence...

Sarah amava-o tanto! Adorava tanto aquela voz tema, o suave toque dos seus dedos! Fred era a sua vida, toda a sua existência.

—... de resto estarei de volta dentro de seis semanas — continuava Fred. — Então, de novo estaremos unidos como antes.

— Não posso estar seis semanas sem te ter. Morrerei.

— Eu voltarei, Sarah.

— E depois disso? Mais viagens? Não... não, Fred, escuta-

-me, não podemos continuar assim. Não me importo com mais

nada senão contigo, e nada pode fazer mudar o meu sentimento.

A lembrança sobrepôs-se-lhe às palavras: durante a entrevista tomara uma resolução inabalável, discutir o caso com Sam, esclarecendo as coisas de uma vez para sempre. O que a levara a postergar essa resolução haviam sido os filhos. Os filhos e a torrente do escândalo, que a afastaria dos seus familiares e amigos. Mas agora estava convencida a viver a sua vida como devia ser vivida. Tudo passava, tudo menos o verdadeiro amor. Poderia voltar a ter, a ver os filhos, e de novo conquistar os seus familiares e amigos. Todos os dias havia pessoas que se divorciavam e tornavam a casar-se. É uma coisa perfeitamente aceitável. Sam tinha a lojeca e as peças de pano para medir, tinha a televisão e a sua cadeira favorita. Para o diabo com Sam. Lá porque ele estava morto devia ela também deixar-se fechar no mesmo túmulo? Todos estes pensamentos lhe passaram com fabulosa rapidez pelo


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ecrã da memória. Apressou-se a continuar:

— Vou partir contigo. Encontro-me contigo pela manhã no aeroporto.

— Sarah, tu não podes fazer isso! É preciso que sejas um bocadinho sensata...

— Pela primeira vez na minha vida estou a actuar com a maior sensatez possível. Sim, encontro-me contigo no aeroporto.

— A tua família...

— Não me importo. Tu és a minha família.

— Sarah, lembra-te de que eu parto com uma equipa. Entre nós não há lugar para mulheres. Não posso...

— Então tomarei o avião seguinte. Para onde é que vais?

— Estarei ocupado todos os minutos. Tenho que andar por toda a parte...

— Para onde é que vais? Deve haver um lugar qualquer onde te alojes.

— No Hotel Reforma — acabou ele por dizer, com voz tristonha. —Julgo que não deves dar esse passo, Sarah. Penso que é melhor reflectires maduramente sobre o caso. A noite é boa conselheira.

— Não.


— Não te posso impedir de ires para o México, evidentemente que não...

— Sim, podes impedir-me de partir. Diz que não me amas. Diz-me que não me queres ver mais. Pronuncia essas palavras.

Houve um momentâneo silêncio do outro lado do fio.

— Não te posso dizer isso, mas...

Alguém batia à porta do gabinete.

— Agora tenho que desligar — disse Sarah, num sussurro. —

Ver-nos-emos no aeroporto.

Colocou o auscultador no descanso, alisou as pregas do vestido e abriu a porta.

Era Geoffrey, com dois copos na mão.

— Scotch ou bourbon? Pode escolher a sua arma.

— Bourbon.

Geoffrey estendeu-lhe o copo que tinha na mão esquerda.

— Pensei que necessitasse disto — disse Geoffrey.

Sarah sorriu com ar triste.

— Mata-Hari não precisaria. Mas não há dúvida de que para

mim é ouro sobre azul.

Os primeiros convidados começaram a sair à meia-noite e meia hora. Quinze minutos depois, Kathleen e Paul despediram-se dos Harnish e, metendo-se no carro que Paul tinha levado, dirigiram-se para a vivenda de Kathleen, situada a cerca de dez quarteirões de distância.

Kathleen tinha gostado do jantar, e Paul também, ambos ple-\ namente conscientes de que havia sido a sua formal apresentação social como companheiros. Agora, recordando-se dos incidentes que tinham esmaltado a festa, riam-se, e Paul relembrou o facto da grande bebedeira dos Palmer a fazerem uma paródia que representava o Dr. Chapman a entrevistar Lucrécia Bórgia sobre o seu comportamento sexual.

— Imagine-se se eles tivessem sabido que você era um dos

> membros da equipa de sondagem! — e Kathleen abanava a cabe

ça.

— Úrsula prosseguiria fosse como fosse. Estava com



pletamente embriagada.

Kathleen olhou para ele pelo canto do olho.

— Não ficou ofendido?

— Não. Desejava ter sido eu a assinar aquela paródia... Que diabo, não. Temos que fazer jogo limpo.

Ao voltar na rua onde ficava a vivenda de Kathleen, ambos se calaram como que por um tácito acordo. A lua em quarto minguante erguia-se lá muito em cima no negro escrínio da noite, circundada por pequenos pontos brilhantes, as estrelas, que lucilavam a intervalos regulares. Em ambos os lados da estrada, misteriosas silhuetas, os renques de eucaliptos curvavam-se respeitosamente, batidos por uma ligeira brisa, como se fossem velhos mordomos. O ar estava embalsamado por um forte odor a gardénias.

Paul guiou o carro para o caminho privado da vivenda de Kathleen, e em breve estavam em frente do pórtico. Deu a volta à chave de ignição, e o motor deixou de fazer o seu característico ruído para dar lugar à cadência dos grilos escondidos na relva.


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30 - O Relatório Chapman

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Kathleen colocou em volta dos ombros a sua estola de arminho e a seguir cruzou as mãos no regaço, voltando-se para encarar Paul.



— Convidava-o para vir até lá dentro, mas a verdade é que já é

muito tarde.

Os olhos de Paul escrutinaram-lhe o rosto.

— Que foi que disseram os nossos anfitriões? Um quadro de Romney — o mais lindo rosto desde sempre transmitido para uma tela, não foi? Qualquer dia temos que ir ver esse quadro ao vivo, e depois hei-de mostrar-lhe que a pintura não tem metade da sua beleza, Kathleen.

— Não diga essas coisas, Paul, a menos que as sinta.

— Amo-a, Kathleen.

— Paul... Eu...

Ela fechou os olhos, com os vermelhos lábios trementes, e Paul abraçou-a e beijou-a. Pouco depois, quando Paul lhe percorria o rosto, os olhos, a fronte e o cabelo com os seus ardentes beijos, até de novo lhe encontrar a boca carnuda e entreaberta, Kathleen agarrou-lhe na mão, levou-a ao peito e comprimiu-a por baixo do corpo do vestido, insinuando-a dentro do soutien. Gentilmente, Paul acariciou-lhe o seio macio, depois retirou a mão e acariciou-lhe o rosto com as pontas dos dedos.

— Kathleen, amo-a. Quero casar-me consigo.

Os olhos dela abriram-se, e, subitamente, empertigou-se, olhando para ele, estática. No seu olhar havia agora um brilho receoso.

— Devo partir no domingo, mas o Dr. Chapman deve-nos umas férias. Posso pedir para ficar aqui. Podemos dar uma saltada de avião a Las Vegas, ou casar pela Igreja, se a Kathleen quiser assim.

— Não.


Paul não pôde esconder o seu espanto:

— Pensei que... tenho estado a dizer-lhe que a amo; desde o primeiro momento que lho tenho tentado dizer... e pensei que..-pareceu-me que a Kathleen sentia...

— Sim, sinto o mesmo que você, Paul, mas não quero agora voltar a falar no caso.

— Não a compreendo, Kathleen.

Ela tinha a cabeça curvada. Não deu resposta.

— Kathleen, há muito tempo que sou um solteirão. Sabia muito

bem que, quando amasse alguém, seria para sempre, seria a mu

lher ideal para mim. Sabia-o desde sempre, e é justamente o que

agora sinto. Fomos feitos um para o outro, somos duas pessoas

cons-cientes que se amam, e podemos unir os nossos destinos

para toda a vida.

Kathleen ergueu os olhos para ele. Na sua fixidez havia uma mágoa secreta que Paul nunca antes vira.

— Por agora não posso dizer mais nada. Quero-o com todo o

meu coração. Mas agora é melhor que não digamos mais nada... e

não me peça para lhe explicar.

— Mas isso não faz sentido nenhum. É por causa do seu marido?

— Não.

— Então porque é, Kathleen? Este é o momento mais importante das nossas vidas. Não pode haver segredos entre nós. Diga--me o que é que a magoa, desabafe comigo. Explique-se, e depois poderemos ter-nos um ao outro sem mais receios.



— Paul, estou demasiado fatigada—Kathleen abriu a porta do carro e, antes que ele pudesse dizer mais qualquer palavra, saiu. — Não lhe posso responder... porque não posso. Não me peça lógica. Neste momento estou demasiado fatigada para poder falar... imensamente cansada...

Kathleen voltou-se e dirigiu-se rapidamente para a porta. Meteu a chave na fechadura e entrou sem lançar um olhar para trás de

si.

Paul ficou sentado ao volante sem fazer um movimento. Decorreram vários minutos. Tentava compreender os porquês, mas sem um ponto de referência, sem lógica, sem informação e sem diálogo não podia haver qualquer compreensão. O incrível da situação aca-brunhava-o. Há mais de trinta e cinco anos que ele buscava aquela mulher, aquele delicado e etéreo quadro de Romney, e, após a infinita odisseia através da solidão, havia-a encontrado. Todavia, o que encontrara não fora uma mulher, mas sim uma imagem que não tinha substância nem realidade. Pensou que não havia maneira de


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uma pessoa possuir algo que não existe. O peso do desapontamento esmagava-o.

Ligou o motor. Doente até ao âmago da alma, Paul conduziu o carro através dos arruamentos de The Briars, a caminho do refúgio que possuía a rara qualidade de não ter segredos para ele, que não o desapontava—o refúgio dos números, frios e explícitos, até mesmo calorosos na sua calma disposição e ordem, cuja alteração obedecia a regras inflexíveis e condizentes com a razão pura.

12

Tendo completado uma carta para Gerald Triplett, dirigida para S. Francisco, e uma longa carta para sua mãe, em Beloit, Wisconsin, Benita Selby, sentada à sua secretária, colocada no corredor do segundo piso da Associação Feminina de The Briars, pensava agora o que iria fazer a seguir. Uma vez que ainda era muito cedo para tirar todas as coisas de trabalho da secretária, decidiu assinalar no seu diário o último dia de permanência na Califórnia.



Foi com alguma dificuldade que Benita conseguiu extrair o diário do seu saco de mão; colocou o livro aberto em cima da secretária, folheando algumas páginas com lentidão a admirar algumas das observações que lhe pareciam ser pequenas obras-primas de espírito e síntese literária, até chegar à primeira folha em branco.

De caneta em riste, começou a escrever apondo a data de domingo, 6 de Junho: «Muito bem, estão a soar as trombetas para o Dia do Juízo Final. Devido a vários cancelamentos durante a semana, aliás como se previa, hoje será um dia dedicado a entrevistas. O Dr. Chapman, Horace e Paul têm programadas quatro entrevistas cada um, desde as dez e meia da manhã às cinco e meia da tarde. Com isto concluir-se-ão 187 sondagens em The Briars e as 3 294 ao nível nacional, conseguidas em catorze meses de trabalho intenso. Com isto, no que diz respeito ao exterior, completam-se as sondagens sobre a mulher casada americana. Cass ainda continua doente. Esteve bastante mal durante o dia de ontem. Esta manhã, muito cedo, pegou no carro e foi de novo procurar o médico. O Dr. Chapman está a trabalhar na sala de conferências, preparando as notas para o programa de televisão de amanhã de manhã. O

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programa de Borden Bush, Um Lugar em Foco, tem o Dr. Chapman como convidado de honra para discutir o seu trabalho com três peritos. Espera-se que a emissão venha a ser uma das mais espectaculares e com mais espectadores do ano. O Dr. Chapman disse-nos: "Benita, o programa é muito importante para mim." Por isso se está a entregar com toda a alma às notas de orientação. O resto da equipa, isto é, nós, estaremos livres para fazermos o que desejarmos, até que o comboio parta de Union Station às sete e um quarto da tarde. Aproveitarei para comprar alguns presentes para a mamã, para a Sr.â McKassen, que tem sido tão prestimosa, e para as pequenas da escola»...

O som de passos no corredor fez com que Benita ficasse com a caneta suspensa no ar, olhando para Paul Radford, que se aproximava. Parecia que o assistente do Dr. Chapman estava cheio de calor, pois trazia o casaco no braço. Paul também parecia demasiado ensimesmado, e de maneira absolutamente fora do seu habitual. Benita Selby fechou apressadamente o diário e colocou-o dentro do saco de mão

— Bom dia, Paul. Está muito calor, não é verdade?

— Um autêntico forno.

— Mas pelo menos não é um calor húmido como no Leste. Adorava viver aqui, ou talvez mais ao norte, em S. Francisco. O Paul não gostava?

— Nunca pensei nisso. Fui eu o primeiro a chegar?

— O Dr. Chapman está na sala de conferências. Cass foi ao médico, e... oh, Paul, ia-me esquecendo, tem uma pessoa à sua espera.

Paul já começara a encaminhar-se para a sala de conferências, mas voltou para trás, surpreendido.

— À minha espera? Quem é?

— A Sr.B Ballard.

— Onde é que ela está?

— Pedi-lhe para esperar no seu gabinete. Você não o vai utilizar durante a meia hora mais próxima.

— Há muito tempo que ela está à espera? — perguntou Paul, à medida que se encaminhava para o seu gabinete.

— Há dez minutos ou um quarto de hora.

— Tome providências para que ninguém nos incomode.

Paul esperava encontrar Kathleen sentada na cadeira, mas ela

estava encostada à parede, de pernas e braços cruzados. Do cigarro que tinia entre os dedos escapava-se uma coluna de fumo azul. Quando Paul entrou no aposento, ela estava a olhar para o biombo, e acolheu a sua chegada sem esboçar sequer um sorriso.

— Kathleen...

— Bom dia, Paul.

Kathleen envergava um vestido de seda sem mangas, cor de

magenta, e, por aquele momento de elegante graciosidade, Paul perdoou-a por desprezar uma vida cheia de amor e transformar aquela paixão em caos e tumulto. Contudo, muito embora ela estivesse junto dele por sua iniciativa própria, não podia esquecer a evasiva enigmática que utilizara na noite anterior. Tentou afastar o raiozinho de esperança que parecia querer brilhar na sua alma. Durante toda aquela noite, em que o sono quase estivera por completo ausente, Paul voltara a ajustar-se a um futuro que o condenava à solidão. Não se permitiria outro ciclo de optimismo, porque não queria voltar a cair bruscamente no pessimismo da solidão.

— Se eu soubesse que você vinha cá...

— Telefonei para o motel, mas o Paul já tinha saído.

— Resolvi dar um passeio.

— Então decidi telefonar a Miss Selby, e eis-me aqui.

Paul fez-lhe sinal para se sentar, observando ao mesmo tempo que já havia duas pontas de cigarro no cinzeiro de cerâmica.

— Porque é que não se senta, Kathleen?

Kathleen passou pela frente dele, com os olhos postos no bi

ombo castanho, acabando por se sentar.

— Porque é que vocês utilizam um biombo?

— No princípio da sua carreira de sondagem, o Dr. Chapman não usava biombo, mas depois veio a considerar que as entrevistas frente a frente eram inibitórias para os entrevistados. Pensa que com este aparato a coisa corre melhor.

— Talvez não. Creio que se não tivesse havido um biombo entre nós... — hesitou —, seria possível que tudo se tivesse tornado

mais fácil...

— Não se sentiria embaraçada?


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— A princípio, talvez sim. Porém quando uma pessoa pode

olhar de frente para si, é... — parou e puxou duas nervosas fuma

ças.

— É o quê, Kathleen? o



Ela levantou a cabeça e contemplou-o com firmeza.

— Estou a tentar explicar-lhe algo, Paul. Algo terrivelmente

importante... e tento que aquilo que pretendo explicar não seja des

pido de beleza — encolheu os ombros. — Julgo, porém, que é

impossível.

— Isso tem alguma coisa a ver com a forma como reagiu ontem à noite?

— Sim, por completo.

— Quando esta manhã o sol se ergueu, depois de ter pensado maduramente no assunto, acreditei que você me queria um pouquinho, mas não o suficiente, não o bastante para ser para sempre. Sou extremamente possessivo, Kathleen. Julgo que compreendeu isso mesmo. Comigo teria que ser para sempre.

— Como é que uma pessoa pode saber que é para sempre antes de prévio conhecimento? Como pode uma pessoa ter a certeza?

— Quando a Kathleen tiver esperado tanto tempo como eu, conseguirá ter essa certeza.

— Paul, está a ser pouco realista. Eu fui casada. Existe uma

diferença tremenda. Momentaneamente, você pensa que a pessoa

escolhida é a mais justa e a melhor, e surge essa utopia do sem

pre. Não custa nada a dizer. Todavia, depois, o sempre transforma-

-se em... em quê?, no ressonar e no mau hálito pelas manhãs, na

diarreia e nos pensos menstruais, nas lutas por causa do dinheiro,

nas discussões porque um faz barulho a sugar os dentes, para tirar

restos de comida, e o outro usa papelotes na cama para encaraco

lar os cabelos. Depois vem o cansaço das pessoas que dormem

juntas, vêm as imperfeições que se vão descobrindo lentamente,

repetem-se as mesmas palavras, reage-se da mesma maneira...

para sempre. Também isso é para sempre.

— Kathleen, não sou nenhuma criança. Já conheci muitas mulheres.

— Não desta maneira... não para sempre.


— A verdade é que acabo de escutar uma boa percentagem das três mil mulheres que foram entrevistadas.

— As perguntas que você faz nem sempre provocam respostas completas.

— Talvez não saiba, Kathleen, mas a verdade é que sou surpreendentemente inteligente. Posso projectar uma resposta para o facto básico.

— Para a básica desilusão?

— Isso nunca nos aconteceria. Mesmo que a paixão se tornasse um hábito, fosse substituída pela afeição, digamos que é essa a evolução com o correr dos anos. Não será uma longa intimidade, uma intimidade total, fundamento suficiente?

— Será? Não sei.

— Porque é que veio aqui, Kathleen?

— Você, ontem à noite, declarou-se. Não lhe disse que não. Se tivesse respondido negativamente não estaria agora aqui.

— Mas também não disse que sim. O casamento é uma coisa que carece de total afirmação das duas partes interessadas.

— Não sei se essa afirmação será possível da minha parte. Suspeito que careço dessa total afirmação. Julgo que isto é um desses... desses encontros onde se conhece uma pessoa, se sonha um bocadinho, e cada um segue o seu caminho, separadamente. Talvez porque não se sabe quem se vai encontrar e, além disso, a natureza não equipa as pessoas, não as prepara para o encontro determinado. É uma questão de probabilidades, como a dos espermatozóides que falham em conseguir chegar até ao óvulo.

— É dessa maneira que sente?

— Sim, a meu respeito. Não por si. Sinto que você estava preparado. O defeito está em mim.

Paul ficou silencioso.

De modo irado, Kathleen esmagou a ponta do cigarro no fundo do cinzeiro.

— Inferno... círculos... ando em volta do próprio rabo como um

gatinho brincalhão. Estou aqui porque... Diabos me levem, você

devia saber a razão.

Ouviu-se bater à porta. Paul murmurou uma praga por entre
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dentes, mas precipitou-se para a porta e escancarou-a. Benita Selby, ao ver o rosto de Paul, recuou um passo.

— Paul... tenho muita pena, mas o Dr. Chapman quer vê-lo imediatamente. Disse-lhe que você não queria ser perturbado, mas ele insistiu que o viesse chamar. Parece que ele está preocupado com alguma coisa que sucedeu.

— Não lhe pode ir dizer que espere um minuto? r;

— Eu não. Se quiser vá você dizer-lhe.

— Está bem, diga-lhe que irei já — disse Paul, exasperado. Voltou-se para o interior do gabinete. — Kathleen...

— Ouvi tudo. Por favor, vá atender o Dr. Chapman. »

— Quero saber se esperará por mim. ?

— Sim, esperarei. Continuarei aqui. --r

Paul sorriu-lhe com gratidão e lançou-se para o corredor.

O Dr. Chapman percorria o estrado da sala de conferências, de um para outro lado, num estado de agitação incontrolável. Paul fechou a porta e encaminhou-se para junto dele.

— Onde é que está o Cass? Você viu-o? — perguntou apres-> sadamente o cientista.

— Foi ao médico.

— Isso é o que ele diz. Há três dias enviei-o a um médico meu

amigo de Wilshire, o Dr. Perowitz. Cass disse que foi consultá-lo, e

esta manhã saiu afirmando que ia outra vez ao consultório.

Paul ficou à espera. O Dr. Chapman prosseguiu colericamente.

— Estive preocupado por causa dele toda a manhã... temos

que partir amanhã... de modo que telefonei para o motel. Respon-

deram-me que Cass ainda não tinha regressado. Então, telefonei

para o consultório do Dr. Perowitz para saber se era uma doença

grave. Sabe o que é que o médico me disse?

Paul não fazia a menor ideia.

— Disse-me que nunca atendera nenhum Cass Miller. Está a compreender, Paul? Cass tem andado a deitar-nos poeira para os olhos. Nunca foi a um médico. Começo até a suspeitar que nunca esteve doente.

— Deve haver qualquer explicação lógica para a sua atitude.

— Tem toda a razão. É melhor que haja de facto uma explica-

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ção lógica para o caso, e é isso o que vamos imediatamente saber. Você e eu, vamos os dois à caça de Cass Miller, e quando o encontrarmos é bem melhor que haja uma explicação e que ela faça sentido, ou então juro-lhe que o despedirei hoje mesmo. Paul lançou um olhar para o relógio que havia na parede.

— Dentro de dezoito minutos começam as entrevistas

marcadas.

— Benita arranjará maneira de as fazer esperar. Quero resolver imediatamente o caso de Miller.

— Por onde começaremos a caça?

— Sei lá! Primeiro vamos interrogar o empregado da recepção do motel e o homem da garagem onde ele foi buscar o Dodge.

Chapman encaminhou-se para o corredor com Paul a seguir-

-Lhe os passos.

—Tem a certeza de que precisa da minha ajuda, Dr. Chapman? O Dr. Chapman não escondeu o seu vexame.

— Escute, Paul, penso que isto é bastante importante para ser eu a investigar pessoalmente. Com certeza, não é o que se aguarda que um chefe faça, mas dentro desta matéria nunca o considerei a si, a Cass e a Horace como subordinados, como meros empregados. Somos sócios, e, quando um de nós falta aos seus deveres, julgo que o caso nos afecta a todos — parou para respirar. — Sem dúvida que necessito de si. Como posso eu saber o que lhe aconteceu? Talvez ele esteja bêbedo. Talvez sejamos precisos os dois para lhe darmos assistência.

— Muito bem — respondeu Paul, um pouco aborrecido.—Vou lá dentro buscar o meu casaco.

Paul entrou no seu gabinete. Kathleen não se tinha mexido da cadeira onde ficara sentada. Continuava a olhar para o biombo, a fumar. Fitou Paul ao vê-lo agarrar no casaco.

— Kathleen, não calcula quanto me custa não poder continuar

a nossa conversa. Houve um acontecimento imprevisto e o Dr.

Chapman precisa da minha ajuda. Depois tenho as entrevistas...

— Não há novidade. Mas quero falar-lhe ainda hoje — hesitou, e subitamente pareceu fatigada e pouco segura. — Isto é, se o Paul quiser falar comigo.

— Bem sabe que quero. Acabo as entrevistas por volta das

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cinco e meia, talvez à roda das seis. Posso ir a sua casa a essa hora?

— Sim — mostrou-lhe o cigarro que tinha entre os dedos. — Posso acabar isto antes de sair?

—Acabe à vontade. O gabinete estará desocupado pelo espaço de meia hora ou mais.

Paul curvou-se e aflorou a fronte de Kathleen com os lábios, depois apressou-se a ir ao encontro do Dr. Chapman.

Já passava das dez horas, e Sarah Goldsmith continuava sentada à escrivaninha a traçar as linhas finais da carta para Sam.

O seu saco de viagem cinzento, onde acondicionara à pressa os poucos pertences que tencionava levar após a partida das crianças para a escola e a ida de Sam para um encontro comercial em Pomona, estava atrás da porta principal. Fizera já a chamada telefónica para um centro de tratamento de crianças ao domicílio, e haveria uma pessoa que encontraria a chave da casa debaixo do tapete da entrada e estaria pronta a acolher os filhos quando chegassem das aulas. Tudo o que faltava era a carta de despedida. Sarah escrevera três versões e rasgara-as, era aquela a última que podia traçar uma vez que o avião para a Cidade do México levantaria voo dentro de duas horas. Acabou a carta e leu-a:

«Sam,

«Depois de doze anos de vida em comum, é-me difícil escrever uma carta como esta. Mas tu bem sabes que nestes últimos anos não temos sido felizes e, portanto, não vale a pena estarmos a mentir a nós mesmos. Tenho-me sentido extremamente desgraçada. É uma coisa que tem pouco a ver contigo e muito em relação a mim própria. Se tenho permanecido junto de ti até agora, tentando manter o lar e a vida de família, o facto ficou a dever-se unicamente às crianças. Mas presentemente o caso já não faz sentido. Estou cansada e, por outro lado, penso que duas pessoas não devem viver juntas somente sob a falsa aparência social de se terem consorciado. Visto isso, decidi acabar com tudo enquanto somos novos



e podemos refazer as nossas vidas longe um do outro. Acredita-me que não procedo assim de ânimo leve, que me sinto penalizada, mas as circunstâncias forçam-me a dar este passo, a procurar uma mudança na minha existência; de resto, parece-me lícito pensar em mim um bocadinho. Logo, resolvi ser melhor terminar com tudo de uma vez por todas.

«Por muito que não queira magoar-te, para que compreendas, tenho que te explicar que há já algum tempo me apaixonei por outro homem, um homem decente, um autêntico cavalheiro, e que parto esta manhã para um país estrangeiro, a fim de me juntar a ele. Temos esperanças de nos podermos casar. Bem sei que isto te vai chocar, bem como ao resto da família, mas não há remédio, a vida é assim. Podes dizer à família e aos conhecidos e amigos de The Briars aquilo que quiseres, que foste tu que me puseste fora de casa, que eu não vinha a sentir-me bem e que pensámos que era melhor uma separação, ou qualquer coisa dentro desse teor. Não te portes cruelmente a meu respeito perante Jerry e Debbie, porque continuo a ser mãe deles e foi o meu corpo que os deu à luz. Olha por eles, dedica-lhes mais tempo e diz-lhes que muito em breve os voltarei a ver. Quando chegar ao meu destino, escrever-te-ei para te dizer para onde podes comunicar comigo, e nomearei um advogado para tratar de tudo. Retirei do banco o meu dinheiro das economias caseiras e fechei a minha conta.

«Por favor, encara as coisas como um homem, Sam, e não fiques a odiar-me muito. Não posso impedir-me de proceder assim, e daí talvez seja melhor veres-te livre de mim.

«Sarah


«P. S.: Arranja uma criada para as crianças, ou talvez seja melhor pedires o auxílio da tua prima Berta, que é solteira e poderá tratar de ti e de Jerry e Debbie. Adeus».

Satisfeita pelo que escrevera, parecia-lhe tudo suficientemente esclarecedor. Sarah tirou da gaveta um sobrescrito e escreveu nele «Para Sam. Confidencial. Importante. Da Sarah». Meteu lá dentro a folha de papel de carta, fechou o sobrescrito e começou a procurar o lugar mais conveniente para Sam poder encontrar imediatamente


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o envelope, sem que Jerry lhe pudesse chegar. Finalmente, entrou na cozinha, cortou um pedaço de fita gomada, levou o sobrescrito para o quarto de banho e prendeu-o no espelho do armário dos medicamentos.

Ficou por momentos diante do espelho a observar a sua imagem, parcialmente obscurecida por causa do envelope, pensando como Fred a consideraria quando chegasse à Cidade do México. Olhou para o relógio de pulso. Já não lhe restava muito tempo, mas a vestir-se levaria apenas alguns minutos. O penteado estava feito e, por baixo do seu roupão caseiro, já tinha calçado as meias. Desapertando o roupão, encaminhou-se para o quarto de cama, a fim de vestir o soutien, a combinação e o vestido saia-casaco.

No caminho ouviu tocar a campainha da porta; devia ser o carteiro. Voltou a apertar o roupão e dirigiu-se para a porta, abrindo-a.

Ficou um pouco admirada por não ver o uniforme do carteiro, nem descortinar a grande mala da correspondência, e não reconheceu o homem moreno e de olhar coruscante que estava diante dela. — Preciso de falar consigo, Sr.9 Goldsmith — a voz do homem era imperativa, como se se tratasse de um caso arrumado por essência.

E foi então, com um estremecimento de terror, que Sarah descortinou o Dodge perseguidor estacionado em frente da casa, associando finalmente aquele rosto com a onda de terror que a invadira durante toda a semana. Devia ter fechado a porta, mas tardara a reconhecê-lo, a audácia do homem tinha-a petrificado, e nessa altura já ele estava dentro de casa.

— Que é que o senhor deseja? — perguntou ela, com o rosto pálido de medo.

— Chamo-me Cass Miller. Faço parte da equipa do Dr. Chapman.

Por momentos, Sarah não se lembrou quem era o Dr. Chapman, mas de repente veio-lhe à ideia a entrevista, e o terror deu lugar ao alívio. Tinha moldado aquele homem de tal maneira, no pensamento, como um detective, um inimigo seu e de Fred, que a revelação da sua verdadeira identidade era uma coisa quase divertida.

— Bem, em que posso ser-lhe útil? Devo dizer-lhe que estou

com multa pressa...

— O que lhe quero dizer não levará muito tempo.

Sarah mal percebeu aquela voz rouca e estrangulada, e sentiu--se pouco à vontade por aqueles olhos que se recusavam a encontrar os seus. Entretanto, o homem prosseguiu:

—Tenho andado a observá-la...

— Sei isso muito bem — quase gritou Sarah, sentindo voltar--Lhe a coragem. — O senhor tem andado a assustar-me. Será isso uma coisa que faça parte da sondagem?

— Sei tudo a seu respeito e a respeito de Fred Tauber. Porque é que a senhora anda a enganar o seu marido?

—Ora, é preciso coragem para ter o descaramento de vir fazer--me essa pergunta.

— Não vale a pena mentir-me. Sei de tudo — e Cass entoou a

litania —, três meses, em média quatro vezes por semana, de coito

extramatrimonial, sem suspeita do marido. Orgasmo violento, qua

renta a cinquenta minutos de fornicação, deitada de costas na cama,

mesmo sendo casada e tendo dois filhos.

De repente os olhos dele fitaram-na, com as pupilas dilatadas e o rosto contorcido por um ricto de maldade, pronunciando em tom sibilino: Prostituta!

Sarah recuou, levando as mãos à boca e sentindo um medo gélido percorrê-la.

Cass fechou a porta com o pé e avançou para ela.

— Prostituta! — repetiu. — Prostituta! Li o seu questionário. Vi-a ir ter com o seu amante. Vigarista! Todos os dias a enredar o marido nos seus enganos.

— Vá-se embora! — gritou Sarah, histericamente.

— Se grita, matá-la-ei.

Sarah respirou convulsivamente ao ver tão perto de si aquele rosto e aqueles olhos de maníaco homicida. Baixou a voz quase até ao murmúrio:

— Mas porque é que você... você veio aqui?

— Gosto de prostitutas. Na verdade, gosto muito delas. Quero que me proporcione algum prazer.

— Você está fora do seu juízo.

— Proporcione-me o mesmo prazer que proporciona ao seu amante... quarenta minutos de fornicação... o orgasmo e tudo o


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mais, e depois juro que me vou embora. Se não quiser, contarei tudo ao seu marido.

— Já contei a meu marido. Sam já sabe o que se passou.

Deixou de ser um segredo. Já não há nada de errado na minha

entrega.


Cass não a ouvia. Os seus ouvidos estavam surdos à voz de Sarah.

— Desmanche o seu cabelo. Deixe que o cabelo lhe caia pe

las costas abaixo... — deitou-lhe as mãos ao carrapito.

Sarah levantou os braços para se proteger e recuou. Foi contra uma cadeira, desequilibrou-se e foi projectada contra a parede, para a seguir correr com desespero para a cozinha, esperançada em alcançar a porta das traseiras.

Foi com verdadeiro terror que se precipitou para a porta, tentando abri-la. O fecho não cedeu ao impulso da sua mão, e Sarah lembrou-se então que a tinha trancado. Estendia a mão para o fecho de segurança que ficava mais acima, quando ouviu a respiração ofegante do homem.

Cass agarrou-a pelos ombros, mas Sarah fez um súbito movimento e escapou-se àqueles dedos enclavinhados que lhe rasgaram o roupão. Com o balanço, foi contra o lava-loiça e ficou ali encostada a encará-lo, com os olhos esgazeados pelo medo.

Por um instante, Cass hesitou, olhando aquele roupão aberto que lhe mostrava aqueles seios maternais a arfarem, olhando aquela carne maternal que se via nua por cima e por baixo das calcinhas de nylon. Depois a respiração dele tornou-se estertorosa como uma besta ferida de morte na solidão de uma floresta, e a sua sombra agigantou-se para a encobrir.

Sarah olhava como que hipnotizada, abandonada, perplexa, perante aquele quadro que lhe parecia incrível: ali estava o monstro violador, o louco violador de rosto contorcido, doente e febril até às entranhas, e a dona de casa sozinha. Ela havia lido coisas daquelas nos jornais matutinos, eram coisas que aconteciam quase todos os dias em qualquer rua obscura, em qualquer rua cujo nome era impronunciável, uma rua em qualquer bairro miserável, entre pobres, entre destroços humanos, entre mulheres imundas, mulheres que não possuíam vivendas caras em The Briars, que não ti-

nham ricas fechaduras nas suas portas, que não tinham cozinhas de aspecto quase clínico, mulheres que não tinham vestidos caros, nem amigos de nível social, que não tinham a protecção da Polícia, que não possuíam qualquer importância. Tais violações eram coisas que aconteciam sempre entre a escória da sociedade, mas ela chamava-se Sarah Goldsmith, de Nova Iorque, uma mulher que usava óculos de aros de tartaruga, óculos caros (a propósito, onde é que estavam os seus óculos? Mas se não se podia ferir uma pessoa que usasse óculos!), dona de uma loja de vestuário, com cadeira privativa na sinagoga, membro da Associação Feminina, partilhando de uma vida americana de eleição.

Não! Era impossível que aquilo lhe pudesse suceder...

Com toda a força de que podia dispor, tentou empurrar o homem que estava diante de si. Fez pressão naquele peito, sentindo--Lhe os ossos do esterno contra as mãos convulsivas e depois o pequeno espaço que conduzia à liberdade, à fuga ao pesadelo... Mas foi sol de pouca dura, o homem voltou à carga, o impulso foi violento, Sarah sentiu-se projectada para trás, e os seus olhos só conseguiram ver o fogão que se avolumava ao encontro da sua cabeça.

Uma das suas têmporas bateu violentamente contra um canto do fogão, e o corpo escorregou para o chão, primeiro dobrado, numa posição grotesca, para depois, com um estremecimento, ficar hirto, imóvel, caído de costas, abandonado.

Cass Miller precipitou-se para o corpo de Sarah Goldsmith, caiu de joelhos ao lado dela, começando a murmurar:

— Não vale a pena fugires. Nunca mais me fujas, nunca mais...

As suas mãos, ávidas, afastaram as pernas, cavaram uma abertura entre aquelas coxas desnudadas; frementemente, num ímpeto, despedaçaram o ligeiro tecido das calcinhas... Então, como quem ministra uma punição, Cass violou Sarah Goldsmith.

Transtornado pela febre daquele cio, dementado por aquele ódio sexual, não notou que era ele o único que se movimentava, que só o seu corpo marcava aquele ritmo infernal da cópula. Só depois, observando a inércia dela e após ter-lhe auscultado o peito, viu que não havia possuído mais do que um cadáver. Sarah morrera ao embater contra o fogão, aquela carne já se começara a decompor


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enquanto ele estivera a cevar a sua colérica luxúria.

— Oh, mãe, minha mãe... — soluçou Cass, a desejar nesse momento ter o conforto do seio materno para repousar a fronte, ao mesmo tempo que tomava consciência de que o seio materno já não podia existir para ele, que o perdera para toda a eternidade.

Depois de Cass Millerter regressado à Villa Neapolis, deixando o Dodgeno parque de estacionamento para os convidados, agarrou numa folha de papel de carta com o timbre do motel, que apresentava uma fotografia aérea tirada ao complexo («O seu luxuoso lar enquanto estiver afastado de casa») e, curvado no extremo da mesa de recepção, escreveu com mão firme o seu memorando para a história.

Mais tarde, dentro do automóvel, voltando para oeste a partir do motel, parou em frente da primeira bomba de gasolina e, mantendo o motor a trabalhar, chamou o empregado e pediu-lhe esclarecimentos sobre o melhor passeio às montanhas circunvizinhas. Gravou na memória as várias direcções que lhe foram indicadas, a última das quais para Topanga Canyon.

Pouco depois encontrava-se às voltas por um caminho sinuoso de montanha, olhando a paisagem que se descortinava: em cima e em frente, as altas montanhas azuis recortadas contra um céu de berilo, lá em baixo o vale verdejante com casinhas que pareciam de brinquedo, e ao longe um comboio miniatural que se perdia na distância. Vistos dali, os pinheiros que esmaltavam certas encostas pareciam-se com aqueles ramos que outrora, quando era criança, tivera nos seus natais familiares. A certa altura, sem saber bem porquê, pensou em Benita Selby metida no seu fato de banho e no seu traseiro deselegante e sem curvas, e logo a seguir pensou naquela moça loira, que afinal não era loira, e que encontrara no comboio de East St. Louis, e na rapariguinha polaca, tão macia e doce, com quem tivera relações sexuais nos seus anos universitários. Então o pensamento desviou-se-lhe para a morte dos homens famosos da história, todos eles muito senhores de si, após tanta complexidade de vida, e nas ressoantes palavras que todos pronunciavam antes de partirem para o outro mundo. Nero a dizer:

«Que grande artista está o mundo prestes a perder»; O. Henry: «Levantem as persianas, não quero regressar ao lar na escuridão»; Henry Ward Beecher: «Aí vem o grande mistério»; e alguém que dissera: «Deus perdoar-me-á, afinal é essa a Sua missão». Toda aquela bravura da última hora, toda aquela montanha de mentiras.

Reparou que a estrada se tinha estreitado e que apenas uma ligeira sebe metálica protegia a berma que separava o caminho dos abismos que ficavam lá em baixo.

Pensou que desejaria ter acrescentado à nota deixada algo que tivesse um estilo altissonante, algo como aqueles versos de Edgar Allan Poe:

A febre chamada «vida» está finalmente conquistada.

Observou que ao longo da estrada de montanha, lá mais ao fundo, vinham dois veículos, um sedan e um camião. Teria, testemunhas oculares. Lá estava a ligeira guarda que vedava os precipícios; premiu o pé contra o acelerador. A estrutura das guardas do caminho veio ao seu encontro com mais velocidade do que imaginara, e o radiador esmagou aquele obstáculo, galopando como um cavalo doido em pleno ar. Numa fracção mínima de tempo, Cass Miller ainda teve a lúcida consciência de pairar entre o azul do céu e o verdejante do vale, como se estivesse totalmente libertado no espaço infinito entre os clamorosos ventos. Seria a oportunidade para uma última frase, sim, uma frase que reflectisse a sua bravura em enfrentar o desconhecido, uma frase que o imortalizasse, uma última frase como epitáfio que Benita Selby pudesse escrever no seu diário: «Que todas as mulheres se marimbem de uma vez para sempre».

O resto foi confusão, chamas e um decompor de átomos.

Às cinco para as seis, com o dia ainda em plena claridade, Paul chegou de táxi à vivenda de Kathleen.

A busca matinal a Cass Miller havia sido completamente infrutífera, tudo o que ele e o Dr. Chapman conseguiram apurar fora que
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Cass se tinha metido no Dodge logo de manhã e guiado para algures. O Dr. Chapman, ao volante do Ford, voltara para a Associação Feminina, furioso.

As entrevistas programadas tinham sido feitas aproveitando mesmo a hora do almoço, altura em que resolveram apenas tomar duas chávenas de café como estimulante. Quando Paul, às cinco e meia, concluiu o último inquérito, e encontrou Horace no corredor, ambos ficaram surpreendidos por verem que Benita abandonara o seu posto. Pelo aspecto desarrumado da sua secretária, podia ti-rar-se a conclusão de que saíra do edifício com bastante pressa; também não havia rastos do Dr. Chapman. Para adensar o mistério, o Ford de serviço não estava no parque de estacionamento habitual. Paul e Horace ainda pensaram em telefonar para a Villa Neapolis a fim de saberem dos outros elementos da equipa de pesquisas, mas acabaram por pôr de parte tal ideia, uma vez que ambos tinham encontros marcados e estavam desejosos de chegar aos seus destinos. Saíram juntos de Village Green, chamaram dois táxis, e Horace partiu para substituir a enfermeira que tratava de Naomi, enquanto Paul dava ao motorista o endereço de Kathleen Ballard.

Nesse momento, percorrendo a pé os poucos metros que o separavam da porta de entrada, Paul pôde ver o Mercedes de Kathleen parado a seguir à curva do caminho privativo. Paul tocou a campainha. Imediatamente a porta lhe foi aberta por Albertine, que trazia Deirdre ao colo.

— Boa tarde, Albertine — estendeu os braços para Deirdre

que não hesitou em passar para o seu colo. — Como está o meu

polvo favorito? — da última vez que tratara a pequenita pelo seu

nome, Deirdre tinha-o corrigido, informando-o de que era «um

polvinho».

Agora, já ao seu colo, Deirdre voltou-se para ele e disse com a gravidade de uma pessoa adulta:

— Não sou um polvo. Eu sou eu mesma. Vem para jantar connosco?

— Bem, gostaria muito, mas...

— Ele pode jantar, Bertine? — perguntou Deirdre, voltando-se para a criada.

— Só temos que abrir outra lata de comida — respondeu

Albertine, encolhendo os ombros.

Mas já Deirdre se voltava para outros assuntos mais momentosos.

— Deixa-me dar um passeio às suas cavalitas como no outro

dia?

Paul ergueu-a acima da cabeça e sentou-a sobre os ombros,



iniciando um pequeno galope.

— Eis-nos a cavalgar para a Lua. — Depois voltando-se para a criada: — A senhora está?

— Não, partiu a toda a pressa para casa da senhora Goldsmith há um par de horas e disse que, quando o senhor chegasse, fosse lá ter com ela. Parecia assustada quando se foi embora.

— Onde é que fica a vivenda?

— Dos Goldsmith? Vire dois blocos à esquerda, depois torne a voltar à esquerda, para Hayes Drive, é a terceira casa antes de dobrar a esquina, no lado esquerdo do caminho. Tem o nome gravado numa placa à entrada.

— Obrigado, Albertine... E tu, pequerrucha, daqui a bocadinho voltaremos a brincar os dois.

No seu caminho para casa dos Goldsmith, Paul pensou porque é que Kathleen pareceria assustada, como Albertine havia dito, e naquilo que ela lhe quereria dizer quando nessa manhã o fora procurar.

A mesclada fragrância de milhares de flores absorveu-o à medida que ia passando pelos renques de eucaliptos, pelas balsas e fenos, pelas trepadeiras de cheiro que quase todos os portões ostentavam. A certa altura do trajecto, pelas grades da vedação, avistou um magnífico canteiro de gerânios, depois hibiscos amarelos e cor-de-rosa, e, ao lado de uma bananeira, uma profusão de ásteres purpurinos ladeados por petúnias brancas.

Pensou em como era difícil conciliar aquela paisagem de utopia com as pessoas que habitavam aquelas casas, especialmente com as mulheres que entrevistara naquelas duas passadas semanas: as específicas senhoras daquelas específicas mansões. Olhando para aquelas vivendas de sonho, para os relvados e para os bonitos e aromáticos jardins, pensou que tudo parecia estetica-
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mente regulado, um céu aberto, plácido, coisa resolvida, ambiente feliz por natureza. Dir-se-ia que, por força, os mamíferos que viviam por detrás daquela beleza, eram pessoas harmónicas, felizes, perfeitamente assentes. Mas depois de se pesquisar o âmago das criaturas a quem tudo aquilo pertencia, chegava-se à conclusão de que semelhante harmonia não era mais do que uma fachada. Paul sabia muito bem, porque as sondara, quem eram as criaturas que viviam por detrás daquelas sebes de verdura, daqueles canteiros de flores, daquelas graciosas casas: não passavam de seres a lutarem contra as diferentes pragas que os afligiam, não só ali como em toda a parte, estagnação e podridão mental, fome de alma, espírito que morria aos poucos abafado pelo vício e pela devassidão. Mas então não haveria verdadeira felicidade e equilíbrio? Tentou lembrar-se de fragmentos das entrevistas, aquelas que se tinham mostrado cercadas de verdadeiro e forte amor, real intimidade, completa integração de um casal. Na verdade verificara algumas pessoas com esse equilíbrio, poucas. Muito poucas. Quanto ao resto... A que padrão pertenceria Kathleen?

Estava a aproximar-se de Hayes Drive, quando a viu voltar a esquina, caminhar em sua direcção, casaquinho cor de ferrugem atirado para os ombros, com uma blusa e uma saia de feitios simples e sapatos de salto baixo. Paul acenou-lhe com a mão e ficou à espera que ela se aproximasse. Kathleen não correspondeu.

Quando ela já se encontrava a seu lado, Paul pôde observar a nuvem que lhe ensombrecia as feições.

— la precisamente ao seu encontro, Kathleen.

— Tem um cigarro que me dê? Estou fora de mim.

— Lamento muito, mas não tenho cigarros — disse Paul, mos-trando-lhe o cachimbo que saía do bolso superior do casaco.

— Pronto, não interessa—as mãos dela tremiam nervosamente. — Foi uma coisa verdadeiramente horrível. Soube o que aconteceu?

— Não.


Kathleen começou a caminhar, e Paul acertou o passo pelo

dela. ■*•

— Sarah Goldsmith morreu. 4

— Sarah Goldsmith? HÍ

— Sim, Sarah. Você foi-lhe apresentado ontem à noite. Aquela

que usava o cabelo negro apanhado atrás num carrapito, como uma

dançarina espanhola. A que ia disfarçada de Mata-Hari.

Paul começou a lembrar-se. Recordou-se de um rosto latino a quem o nome semita não parecia pertencer. Recordou-se do vaporoso vestido que lhe desenhava as curvas, que delineava todas as redundâncias do corpo apetitoso.

— Ah, já me lembro. Afinal o que é que lhe aconteceu?

— Ninguém sabe. A Polícia diz que foi o marido que a assas

sinou.

Foi-lhe mais fácil lembrar-se do marido da Mata-Hari, um homem com um aspecto amarfanhado, com uma expressão de quem pede desculpa e uma mão que parecia geleia. Como é que ele se chamava? Aaron? Abe? Sam? Sim, era Sam.



— Sam Goldsmith, não é verdade? Mas porque é que ele matou a mulher?

— Deve ter sido má interpretação, erro, seja o que for, estou certo disso. Obtive as informações em segunda mão. A vizinha do lado, a senhora Pedersen, telefonou-me depois de a ambulância e de a Polícia terem partido. Encontrou o meu número de telefone na agenda de Sarah Goldsmith. Sou eu a amiga mais próxima de Sarah. A senhora Pedersen tem os seus próprios filhos para tratar e pediu--me para lá ir tomar conta das crianças do casal até se arranjar uma pessoa que as possa vigiar.


— A Polícia prendeu Sam?

— Sim, penso que sim. Não, levaram-no para ser interrogado. Encontraram uma carta na casa de banho e a mala de Sarah feita. Ao que parece, ela preparava-se, esta manhã, para abandonar Sam... ia reunir-se a outro homem... parece que tinha um caso amoroso... Não, de todas as pessoas que conheço, Sarah era a menos indicada para um romance desses, não posso acreditar.

— Tais coisas podem acontecer a toda a gente — disse Paul, suavemente e em tom carinhoso.

Kathleen olhou para ele com um brilho de angústia.

— Sim. Estou certa de que você já soube de muitos casos desses. Mas de Sarah, ia jurar...

— A Polícia supõe então que Sam ouviu falar no caso e que


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tentou impedi-la de se juntar ao amante?

— Isso mesmo. As autoridades afirmam que Sam voltou a casa depois de ter passado a manhã fora da loja e a encontrou disposta a partir, ou que conseguiu ler a carta, tentando impedi-la. Lutaram e ele matou-a. Não posso acreditar em tal coisa, nem mesmo sobre tais circunstâncias determinantes. Sam é o mais doce e pacífico dos homens...

— Alguém a matou, Kathleen.

— Talvez fosse um acidente.

— Como é que se passaram as coisas?

— A assistente de crianças recebeu um recado para estar na vivenda ao meio-dia. A mensagem dizia-lhe para esperar que Jerry e Debbie voltassem da escola e que a chave estava debaixo do tapete da entrada. A assistente só chegou um pouco mais tarde e, como parecia não estar ninguém em casa, dirigiu-se para a cozinha... foi lá que encontrou Sarah caída no chão. A Polícia disse que ficou com o pescoço partido.

Tinham chegado à porta de Kathleen.

— Suponho que não se sente com ânimo para estar comigo — disse Paul.

— Não se trata disso. Prometi voltar. Como a assistente infantil ficou demasiado perturbada pelo seu macabro achado, para ficar com as crianças, eu e a Sr.a Pedersen vamos repartir a tarefa até chegar alguém da família de Sam. O advogado dele telefonou para um familiar de Chicago, que já vem a caminho por avião. Penso que à uma da manhã já estarei livre — Kathleen abriu a porta de casa. Vim durante alguns minutos para ver se Deirdre come alguma coisa e para buscar o meu casaco comprido. Seria capaz de comer uma sanduíche, Paul?

— Não, obrigado. Vou chamar um táxi.

— Leve o meu carro. Não precisarei dele esta noite nem amanhã — estendia-lhe as chaves. — Aceite, por favor.

— Muito bem. No motel há um restaurante onde poderei comer, e depois tenho que começar a arrumar a minha bagagem — fez tilintar as chaves. — Isto significa que me poderei encontrar consigo amanhã?

Ela fitou-o intensamente. ,; ; —

— Tenho todo o desejo de o ver, se você também estiver disposto.

— Parto amanhã à noite com a equipa. Só uma coisa me faria ficar. Não é boa ocasião para discutir tal assunto, mas...

— Paul, agora nada lhe posso dizer, acredite que não posso. Não fique zangado.

— Ama-se ou não se ama uma pessoa. Que mais coisas há a resolver?

— Paul, por favor, tente compreender...

— Está bem. Amanhã. A que horas?

— Se a prima de Sarah... isto é, se a prima de Sam vier, tenho o dia todo livre. Venha quando quiser.

— De manhã estou ocupado. O Dr. Chapman vai para uma entrevista da televisão. Eu, Horace e Cass recebemos ordens para estar atentos ao programa. Mas depois de almoço... Está bem depois de almoço?
— Ficarei à sua espera. Paul tentou sorrir.

— Não esperará mais do que eu.

Quando Paul entrou no pequeno, mas bem montado, aposento, que servia de átrio ao motel de Villa Neapolis, não havia ninguém na recepção. Paul contornou o balcão e dirigiu-se para o cacifo da correspondência e chaveiro. Agarrou na chave do seu quarto, e ia já a retirar-se quando reparou numa mancha branca que brilhava no interior do cacifo. Meteu a mão lá dentro e retirou um sobrescrito, onde o seu nome estava traçado numa letra que lhe pareceu vagamente familiar.

Intrigado, Paul voltou para o hallàe entrada e abriu o sobrescrito. Ao desdobrar a folha de papel que havia no interior, reparou que o timbre do cabeçalho era o do motel, e logo os seus olhos desceram até à assinatura. Começou a ler lentamente, mas, pouco depois, a rapidez, mesmo avidez, foi a nota dominante da leitura.

Ao acabar deu fé que a mão que mantinha a carta estava a tremer violentamente. O estranho frio que lhe fizera paralisar os intestinos espalhara-se-lhe agora a todo o corpo, agitando-o em tremuras incontroláveis.
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— Boa noite, senhor Radford...

Paul olhou para trás e avistou o recepcionista da noite, aquele cujas características faciais o faziam assemelhar-se a uma das mirradas cabeças tratadas pelos índios Jivaros e que se parecia com um jóquei retirado.

Sem esperar pela sua