Título: a narrativa de viagem como exercício auto-referencial da memória: o exemplo de D



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A NARRATIVA DE VIAGEM COMO EXERCÍCIO AUTO-REFERENCIAL DA MEMÓRIA: O EXEMPLO DE D.PEDRO II
João Ricardo Ferreira Pires*
Resumo: A comunicação propõe analisar o diário de viagem de D, Pedro II a Minas Gerais em 1881 como um exercício de escrita auto-referencial que trabalha dois tempos: o da viagem e o da memória que se confunde com o tempo da escrita. A comunicação é um trecho do terceiro capítulo da minha dissertação de mestrado defendida em 2007 e que tinha como objeto a viagem e o diário de viagem a Minas do Imperador. Trataremos, primeiramente, na comunicação de uma tradição das escritas de si, analisando-as no viés da memória. Segundo, teceremos alguns comentários e análises sobre a especificidade da escrita de viagem. Concluindo com um mergulho na narrativa de D. Pedro II para mostrar como a memória trabalha o “material bruto” da viagem, alterando-o, transformando-o, dando-lhe um outro significado.

Palavra-Chave: D. Pedro II, Diários de Viagem, Memória


Résumé: La communication propose d'analyser le journal Voyage de D. Pedro II de Minas Gerais en 1881 comme un exercice de rédaction de travaux auto-référentielle en deux étapes: le voyage et la mémoire qui se confond avec le temps de l'écriture. La communication est un extrait du troisième chapitre de ma disertacion du master  soutenue en 2007 et qui avait pour objet le voyage et le journal Voyage des Mines d'empereur. Deal, premièrement dans la communication d'une tradition d'écriture sur eux, de les analyser dans biais de mémorisation. Deuxièmement, nous allons tisser des commentaires et des analyses sur la spécificité de l'écriture Voyage. Finales avec une trempette dans le récit de D. Pedro II, pour montrer comment la mémoire fonctionne de la «matière première» du Voyage, de le modifier, le transformer, lui donnant un sens différent.

Mot -Cle :D. Pedro II, Journals de Voyage, Mémoire


Viajar é aumentar o tempo com o espaço”.

(Afrânio Peixoto)


Meu texto que ora apresento é um trecho do terceiro capítulo da minha dissertação defendida em 2007.
A Escrita de Si: história e características
A escrita auto-referencial surge na história a partir da constituição do sujeito moderno, de uma existência individual pensada como separada da comunidade e como sujeito criador autoconsciente e isso só se torna possível a partir do Renascimento1 Durante boa parte da Idade Média a vida social era comunitária, não havia o espaço privado, fora do controle da comunidade. As atitudes e ações da intimidade corporal eram feitas em lugares públicos ou na frente de qualquer um. O orgânico, o “baixo corporal”, o íntimo vão se ocultando a partir do final do Renascimento. O que antes era público, comunitário, feito às vistas, se torna privado, escondido. É o processo civilizador tão bem estudado por Elias no qual as pulsões e ações vão sofrendo um controle cada vez mais rígido que criará a instância individual. Essa nova sociabilidade surge pari passu e determinada pelo processo de constituição do Estado Moderno, que criará instâncias separadas de poder e política, e separará o que é doméstico do que é público.

[...] Nesse período de constituição do Estado e de profunda mutação da sociedade civil, em que o poder político visa a assegurar-se o monopólio da violência e a controlar as pessoas e seus corpos, bem como a produção de bens e signos culturais, ao mesmo tempo que surge um novo espaço público aparece também um espaço privado no qual, longe dos olhares e do controle da comunidade e do poder, definem-se novas práticas. Ou, para ser mais exato, em cada uma das áreas da prática social ou cultural muitas vezes se avizinham dois espaços unidos: o público e o privado [...] (GOULEMOT, 1991: 371).
Nesse novo espaço privado, uma das práticas fundamentais é a relação com a escrita, seja lendo, seja escrevendo. Para Chartier, o contato maior ou menor com a escrita significará uma maior ou menor independência em relação às formas tradicionais de vivência e sociabilidade. A escrita torna possível aos homens não mais dependerem de uma elite: os clérigos. A escrita incentiva a intimidade familiar e doméstica contribuindo para a constituição da família e da vida privada moderna; a escrita torna possível o isolamento individual que será fundamental para a vida moderna e, além disso, a escrita contribuirá para a disseminação do conhecimento2. Os meios nos quais a escrita se disseminará, que contribuirão para a fixação da sociedade da escrita sobrepondo a sociedade da oralidade (sobrepondo, não eliminando) serão o mundo das administrações civis e religiosas, o mundo do comércio e o mundo escolar. Cada qual terá uma forte influência na disseminação das escritas pessoais ordinárias. Por exemplo, como aponta Hébrard em texto acima citado, na origem da necessidade de registrar o movimento da vida nos mínimos detalhes temos a necessidade comercial de registrar o movimento das mercadorias e do dinheiro. As escolas serão responsáveis pela disseminação de suportes encadernados que coadunam melhor com a escrita de diários, por proporcionar uma continuidade maior do que folhas soltas. Até o século XIX a preferência do suporte da escrita recaía sobre as folhas soltas; com a ampliação enorme da alfabetização escolar neste século, a preferência foi recaindo cada vez mais para suportes encadernados, o que abriu todo um caminho para a prática diarística3.

A escrita sobre si mesmo é uma experiência possível só nessa sociedade moderna que separará o que é social do que é individual e essa escrita é um processo de individuação pensado em contraposição à sociedade - como falamos acima, o indivíduo se eleva frente às injunções da sociedade comunitária tradicional. Quem escreve sobre si mesmo quer criar um mito de si mesmo, quer tornar o indistinto, o instável, o descontínuo presente na sociedade em algo estável e organizado. Quer construir de maneira consciente e deliberada para a posteridade uma determinada memória de si. O objetivo da escrita auto-referencial é fixar um sentido - de vida, fixado a posteriori dos eventos, portanto, inventado - e operar uma síntese - da identidade unitária do sujeito, também, inventada.

Esse caráter de invenção desta escrita está calcado no que Bourdieu (1996) chama de ilusão biográfica, ou seja, a crença que compartilhamos na possibilidade da biografia coerente de uma vida, de que seria possível apreender o sentido e o caminho que determinada vida teve de maneira organizada. Quando na verdade escolhemos falar de uma vida - principalmente se for a nossa, estamos recortando-a, editando-a, transformando o que é indistinto, desorganizado, fragmentado em algo coerente, do princípio ao fim. Há nisso boa dose de imaginação e de auto-censura4. Por isso Gomes, sob sugestão de Calligaris, diz para pensarmos em editor ao invés de autor quando se trata desta escrita5. É necessário, ao pesquisador, não se deixar enganar por essa ilusão biográfica: o que está escrito não é toda a experiência, nem mesmo toda a experiência daquele que a viveu e escreveu. Mais do que isso, o autor de um diário está construindo um outro mundo na escrita que não é o mesmo daquele da experiência, ele está moldando com os fragmentos de sua memória uma idealização daquilo que viveu. Escrever um diário é uma operação de automodelagem, de autorepresentação6

O escrevente pretende criar uma imagem coesa de si mesmo. Mas essa imagem nunca é estática, um diário denota uma movência do eu: o narrador não está fixo, ele se relaciona com outros textos, outras pessoas, outros tempos e esse relacionamento molda a imagem que ele quer de si e a imagem daquilo que ele vê e faz. A escrita sobre si mesmo é como um projeto: parte de um ponto escolhido e de forma consciente chega a outro ponto que o autor quis com determinados objetivos. É uma manipulação de um todo incoerente para criar um recorte coerente. O autor retira o que não lhe agrada, mitifica certas ações, despreza outras, altera dados e eventos da realidade vivida. Um aspecto muito importante desse tipo de escrita é a memória: a escrita autobiográfica é um trabalho de seleção e recorte da memória, que por sua vez, também, já é um recorte. Portanto, escrever de si é o recorte do recorte. Não podemos nunca tomar como verdade o que é dito, é um “discurso pessoal sobre a verdade”.



O indivíduo que escreve diários se sente numa posição exterior e superior aos fatos narrados. Essa posição o habilita, na sua concepção, a dizer a “verdade” subjetiva (porquê referente à sua subjetividade) dos fatos. E ela não precisa de comprovação social, lhe basta ter escrito. Há um grande poder na palavra escrita nas sociedades modernas, elas produzem um forte efeito de verdade.

[...] O essencial para nosso propósito é que, na própria prática da escritura, o sujeito que escreve se coloca como fundamento da verdade daquilo que enuncia. O que garante a veracidade do conteúdo do diário paradoxalmente pertence ao não-público, ao privado e ao íntimo. A verdade não tem de ser demonstrada, provada, ela não se refere aos atos públicos do sujeito, não pertence ao grupo, aos depoimentos majoritários, pertence inteiramente a esse olhar individual, à margem, quase secreto, lançado sobre as coisas e o mundo. E é desse privilégio que o autor do diário está consciente quando se põe a redigi-lo [...] (GOULEMOT, 1991: 393).
Outro aspecto importante e que se relaciona com a memória é a questão do tempo: a escrita autobiográfica quer controlar a descontinuidade temporal, fragmenta e compartimentaliza o tempo do vivido e, mais, tenta articular dois tempos: o da escritura e o do social. Entre o momento vivido e o momento representado na escrita há perdas, deslizamentos e re-significações. Na escrita entra todos os pré-conceitos do autor, entram todas as imagens que ele porventura tenha tido daquilo que narra, que, conjuntamente com as impressões do vivido constituem o caldo temático da escrita. Alberti (1991), em texto já citado, cunha um conceito que nos ajuda a entender a passagem da vivência para a escrita: ângulo de refração das experiências escriturais, ou seja, existe uma refração quando passamos de um tempo ao outro. Na escrita há “deformações”, ocultamentos, pois o escrevente “[...] escreverá sobre sua vida aquilo que lhe é permitido, seja em função de sua memória, de sua posição social ou mesmo de sua possibilidade de conhecimento [...]” (ALBERTI, 1991: 76). É da junção desses dois tempos, da tensão entre eles e de tudo aquilo que pode estar entre um e outro que nasce a escrita auto-referencial. É um exercício de rememoração, que nunca é um recuar-se completamente no passado, mas, um trabalho voltado para atualidade, marcado pelo lugar social e pelo imaginário social daquele que escreve. “[...]Lembrar é uma atividade do presente sobre o passado [...]” (LACERDA, 200: 87). Falemos agora do Diário.
A Escrita de Diário do Imperador
O Diário do D. Pedro II não pode ser considerado uma escrita ordinária como o são a maioria dos diários pessoais. Primeiro, pela posição de quem escreve: o que D. Pedro II escreve interessa diretamente aos homens de seu tempo, às lutas políticas da sua época e, interessa, ainda, como registro histórico, como documento de uma época. O escrevente, nesse caso, mesmo que não diga nada de relevante politicamente (e não é o caso deste Diário), a posição que ocupa como Imperador já habilita seus escritos como especiais. Segundo acreditamos que D. Pedro II sabia da importância desses escritos, sabia que seriam consultados como documentos históricos. Como falamos acima, este Diário nascido nos momentos em que D. Pedro II estava sozinho consigo mesmo (antes de dormir, no quarto era o momento mais comum que ele escrevia suas impressões diuturnas), possui um caráter público, de registro das atividades feitas na função de Imperador. Ele é bifronte: pessoal e público, nascido da e sobre a pessoa de D. Pedro II, mas com um forte apelo de publicização.

Portanto, quem é o leitor de D. Pedro II? Para quem ele escreveu? Primeiro, para si mesmo: escrever diários é sempre uma forma de auto-relacionamento, uma forma de criar uma imagem de si para si7. No caos do dia-a-dia da viagem, o Imperador, ao final do dia, tentava apreender o que de mais importante teria feito, tenta organizar o descontínuo num contínuo. Segundo, os leitores poderiam ser os amigos mais próximos: é sabido que D. Pedro II enviava em cartas partes de seus diários para seus amigos, por exemplo, a condessa de Barral. E, por último, a qualquer pesquisador que, debruçando sobre esses diários, divulgue de maneira pública a vida pessoal e política do Imperador. Portanto, seus leitores possíveis são múltiplos, variadas podem ser as interpretações e, sua escrita se conforma com essa multiplicidade: ele escreve já sabendo que seu diário não é apenas pessoal, mas pode e, necessariamente, se tornará público. Como de fato aconteceu.


[...] Cabe, portanto, questionarmos, mesmo para os casos dos diários mais íntimos e pessoais, o problema do destinatário/leitor. Pois, no fim das contas, toda escrita pressupõe um leitor. Imaginário ou real, muitas vezes, o leitor-alvo do escritor de diários é ele próprio, o autor, colocado num ponto qualquer do futuro e numa instância crítica mais apurada. Recuperar o todo, refazer um percurso de vida, alcançando-a em seu conjunto e sentido, eis os objetivos do diário [...] (MACHADO, 2003: 139).
Falemos, agora, de algumas características da escrita de diário e do Diário aqui em questão. Eles são escritos no dia-a-dia: D. Pedro II, depois de um dia corrido, escrevia antes de dormir, deitado ou sentado; é quase uma imediata transcrição cotidiana: quase sempre D. Pedro II escrevia no mesmo dia do acontecido; o que não contradiz o que falamos aqui: que é uma interpretação do vivido, uma representação com cortes e perdas. A escrita de diários baseia-se em esquemas simples, escritura elementar com fórmulas que se repetem: D. Pedro II quase nunca faz análises profundas, é uma escrita quase taquigráfica, cheia de repetições: em cada cidade que chega se repete os procedimentos do dia-a-dia e, também, os da escrita8. É um tipo de diário crônica: com registros e apontamentos da vida pública, daquilo que é feito aos olhos de todos, na função de Imperador. Não há quase nada sobre a vida privada, sua mulher que o acompanhava é citada somente três vezes - e sem se aprofundar, parece que ela é mais um da comitiva -, os problemas domésticos com a viagem não são de interesse para a escrita, não é um diário íntimo, apenas pessoal como acima frisamos9. Explicado a origem e explicitadas algumas características da escrita auto-referencial, marquemos a especificidade da escrita de diários frente a outras modalidades da escrita de si.
Por que um diário de viagem não é de todo uma escrita auto-referencial?
Um diário de viagem não pode ser enquadrado completamente na escrita autobiográfica. Primeiro ele não quer construir uma história seqüencial da vida do autor, ele só toma um momento especial (a viagem) e discorre sobre ele. Segundo, os assuntos tratados num diário de viagem são na sua grande maioria os relacionados aos eventos e acontecimentos. Na escrita autobiográfica temos uma pessoa mergulhando no seu íntimo, é um exercício de psicologia pessoal. O essencial de um diário de viagem não é essa psicologia, ele pode e, muitas vezes, faz esse mergulho. O escritor de diários não está preocupado em dizer quem é, em dizer como se tornou o que é - podemos, como pesquisadores se tivermos acesso a um conjunto contínuo e representativo de diários de vida tentar explicar nos diários essa construção de si mesmo, mas não é o caso do nosso objeto. Os acontecimentos narrados em um diário nem sempre são os da vida do diarista, não é uma forma de autoconhecimento ou válvula de escape para uma situação castradora10; não está falando do “eu profundo”, mas do eu nas coisas, do mundo da experiência e não da reelaboração sistemática dessa pelo eu - há sim um nível de reelaboração, de interpretação da experiência, mas como já acima mencionamos, o tempo entre a experiência e a escrita é muito menor que em outras modalidades, portanto, a autocensura e a elaboração mental sobre os fatos é muito menor. Um diário é como um quadro impressionista feito às pressas: são as primeiras e rebuscadas impressões.
FONTES

BEDIAGA, B. (org). Diário do Imperador D. Pedro II. Petrópolis: Museu Imperial, vol. 24, 1999.

PEDRO II. Viagens pelo Brasil: Bahia, Sergipe, Alagoas, 1859. Rio de Janeiro: Bom Texto; Letras & Expressões, 2003.

PEDRO II. Diário de 1862. Anuário do Museu Imperial, Petrópolis, v. 17, 1956.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BOURDIEU, Pierre. A Ilusão Biográfica. In: FERREIRA, Marieta de Moraes; AMADO, Janaína (orgs). Usos e Abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1996, p. 183-191.

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GOULEMOT, Jean Marie. As Práticas Literárias ou a Publicidade do Privado. In: CHARTIER, Roger(org). História da Vida Privada: da Renascença ao Século das Luzes. Trad. Hildegard Feist. São Paulo: Cia das Letras, 1991, v. 3, p. 371.

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NOVAES, Adauto (org). A Descoberta do Homem e do Mundo. São Paulo: Cia das Letras, 1998.

OLIVEIRA, Rosa Meire Carvalho. Diários públicos, mundos privados: Diário Íntimo como gênero discursivo e suas transformações na Contemporaneidade. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/oliveira-rosa-meire-diarios-publicos-mundos-privados.pdf. Acessado em 30/05/06.

SCHMIDT, Benito Bisso. Biografia: Um Gênero de Fronteira entre a História e a Literatura. In: RAGO, Margareth; GIMENES, Renato Aloizio de Oliveira(orgs). Narrar o Passado, Repensar a História. Campinas: UNICAMP, 2000, p. 193-202.



TAYLOR, Charles. As fontes do self: a construção da identidade moderna. Rio de Janeiro: Edições Loyola, 1997.

* FUNEDI/UEMG campus Divinópolis. Mestre História/UFMG, Especialista História da Cultura e das Artes/UFMG.

1 Para o individualismo moderno e seu surgimento na Renascença ver: CHARTIER, Roger(org). História da Vida Privada: da Renascença ao Século das Luzes. Trad. Hildegard Feist. São Paulo: Cia das Letras, 1991, v. 3. Esse livro, sob a inspiração de Philippe Ariès, um dos pioneiros do estudo do privado, tenta explicar através do estudo de várias práticas sociais qual seria as características principais do privado na Idade Moderna. Temos uma boa síntese dessa questão na seguinte passagem: “[...] é que o problema da vida privada nos tempos modernos deve ser tratado sob dois ângulos distintos. Um é o da oposição entre o homem de Estado e o particular e das relações entre o domínio do Estado e o que, no limite, se tornará um espaço doméstico. O outro é o da sociabilidade e da passagem de uma sociabilidade anônima, em que as noções de público e privado se confundem, a uma sociabilidade florescente em que surgem setores bem diversos; um resíduo de sociabilidade anônima, um setor profissional e um setor igualmente privado, reduzido à vida doméstica [...]”. ARIÈS, Philippe. Introdução. In: CHARTIER, Roger(org). História da Vida Privada: da Renascença ao Século das Luzes. Trad. Hildegard Feist. São Paulo: Cia das Letras, 1991, v. 3, p. 18-19. Sobre o assunto ver, ainda: BURKE, Peter. A Invenção da Biografia e o Individualismo Renanscentista. Disponível em: http://www.cpdoc.fgv.br/revista/arq/211.pdf ; NOVAES, Adauto (org). A Descoberta do Homem e do Mundo. São Paulo: Cia das Letras, 1998; HELLER, Agnes. O Homem do Renascimento. Lisboa: Editorial Presença, 1982; TAYLOR, Charles. As fontes do self: a construção da identidade moderna. Rio de Janeiro: Edições Loyola, 1997; DUBY, G. História da vida privada. 2. Da Europa Feudal à Renascença. São Paulo: Cia das Letras, 1990.

2 Chartier no seu texto As Práticas da Escrita faz uma análise do papel do livro e da leitura na constituição da esfera privada no Ocidente moderno. “[...] Saber ler é primeiramente a condição obrigatória para o surgimento de novas práticas constitutivas da intimidade individual. A relação pessoal com o texto lido ou escrito libera das antigas mediações, subtrai aos controles do grupo, autoriza o recolhimento[...] saber ler e escrever permite também novos modos de relação com os outros e os poderes[...] Da maior ou menor familiaridade com a escrita depende, pois, uma maior ou menor emancipação com relação a formas tradicionais de existência que ligam estreitamente o indivíduo a sua comunidade, que o imergem num coletivo próximo, que o tornam dependente de mediadores obrigatórios, intérpretes e leitores da Palavra divina ou das determinações do soberano [...]”. In: CHARTIER, Roger. As Práticas da Escrita. In: CHARTIER, Roger(org). História da Vida Privada: da Renascença ao Século das Luzes. Trad. Hildegard Feist. São Paulo: Cia das Letras, 1991, v. 3, p. 119.

3 Para esses três pólos constitutivos da escrituração pessoal e a questão das diferenças entre suporte folha e caderno ver: HÉBRARD, Jean. Por uma bibliografia material das escrituras ordinárias: A escrita pessoal e seus suportes. In: MIGNOT, Ana Chrystina Venâncio; BASTOS, Maria Helena Câmara; CUNHA, Maria Teresa Santos(orgs). Op. cit, p. 29-61


4 Para a ilusão biográfica ver: BOURDIEU, Pierre. A Ilusão Biográfica. In: FERREIRA, Marieta de Moraes; AMADO, Janaína (orgs). Usos e Abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1996, p. 183-191. Desse texto: “[...] Sem dúvida, cabe supor que o relato autobiográfico se baseia sempre, ou pelo menos em parte, na preocupação de dar sentido, de tornar razoável, de extrair uma lógica ao mesmo tempo retrospectiva e prospectiva, uma consistência e uma constância, estabelecendo relações inteligíveis, como a do efeito à causa eficiente ou final, entre os estados sucessivos, assim constituídos em etapas de um desenvolvimento necessário [...]” (p. 184). O texto: SCHMIDT, Benito Bisso. Biografia: Um Gênero de Fronteira entre a História e a Literatura. In: RAGO, Margareth; GIMENES, Renato Aloizio de Oliveira(orgs). Narrar o Passado, Repensar a História. Campinas: UNICAMP, 2000, p. 193-202 explica ilusão biográfica com as seguintes palavras: “[...] a idéia [...] de que a vida constitui um todo, um conjunto coerente e orientado, que pode e deve ser apreendido como expressão unitária de uma intenção subjetiva e objetiva de um projeto” (p. 199). Sobre essa idéia de um mito de si mesmo calcado numa operação de sentido e síntese, e de uma memória de si, ver: ALBERTI, Verena. Literatura e Autobiografia: a questão do sujeito na narrativa. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n.7, vol. 4, p. 66-81, 1991; GOMES, Angela de Castro. Escrita de si, escrita da História: a título de prólogo. In: GOMES, Angela de Castro (org). Escrita de Si, Escrita da História. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2004, p. 7-24. Todos os dois fazem referência à noção de ilusão biográfica.

5 GOMES, Angela de Castro. OP. Cit, p. 16.

6 O livro - CARVALHO, Maria Alice Rezende de. O Quinto Século. André Rebouças e a construção do Brasil. Rio de Janeiro: Revan: IUPERJ-UCAM, 1998 - aplica muito bem a noção de automodelagem e sua dimensão temporal no diário de vida de André Rebouças. Só ressalvamos que tal conceito cabe para um trabalho que se debruce sobre um tempo de vida maior da personagem pesquisada, o que não é o caso de nosso Diário. Não podemos perceber no Diário a construção da imagem de si ao longo de um período maior da vida de D. Pedro II. O nosso estudo se restringe pontualmente a essa viagem a Minas e a esse Diário. A título de hipótese, poderíamos ver essa invenção, essa automodelagem, se o objeto fosse o conjunto de todos os diários do Imperador que abarcam um período bem grande de sua vida.


7 Já sabemos que D. Pedro II reescrevia, portanto, era o primeiro leitor de suas notas diarísticas. Além disso, pela experiência prática do senso comum, sabemos que escrever diários é como um confissão para si mesmo, o diário funciona como um mediador entre dois momentos distintos na vida de uma mesma pessoa: os atos do dia-a-dia e a reflexão, a consciência sobre esses atos. Um diário é como um duplo (investigador das práticas ordinárias) de si mesmo. Os seguintes textos apontam a necessidade de investigar o destinatário/leitor do diário e, também, essa relação público/privado: OLIVEIRA, Rosa Meire Carvalho. Diários públicos, mundos privados: Diário Íntimo como gênero discursivo e suas transformações na Contemporaneidade. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/oliveira-rosa-meire-diarios-publicos-mundos-privados.pdf. Acessado em 30/05/06; MACIEL, Sheila Dias et alli. Termos de Literatura Confessional em Discussão. Disponível em: http://www.ceul.ufms.br/guarira/numero1/maciel-sheila-e.pdf Acessado em 13/04/06; da mesma autora: A Literatura e os Gêneros Confessionais. Disponível em: http:/www.ceul.ufms.br/pgletras/docentes/Sheila.pdf Acessado em 13/04/06. MACHADO, Maria H. Pereira Toledo. A Sensualidade como Caminho. Notas sobre diários e viagens. Revista USP, São Paulo, n. 58, p. 134-147, junho/agosto 2003.


8 Para essas características gerais da escrita de diário ver: FOISIL, Madeleine. A Escritura do Foro Privado. In: CHARTIER, Roger(org). História da Vida Privada: da Renascença ao Século das Luzes. Trad. Hildegard Feist. São Paulo: Cia das Letras, 1991, v. 3, p. 333-336; OLIVEIRA, Rosa Meire Carvalho. Op.cit, p. 6-10,12-22; MACIEL, Sheila Dias et alli. Op. cit; MACHADO, Maria H. Pereira Toledo. Op. cit, p. 136-140. As características do Diário do Imperador são baseadas na leitura do mesmo e, dos outros diários lidos do Imperador. A leitura desses outros diários foi de fundamental importância para perceber o estilo da escrita, as recorrências de assuntos, interesses e construções frasais. Numa palavra, nos ajudou a compreender melhor D. Pedro II enquanto um escrevente de diários.

9A idéia de diário crônica tomamos de: LACERDA, Lílian Maria de. Lendo vidas: a memória como escritura autobiográfica. In: MIGNOT, Ana Chrystina Venâncio; BASTOS, Maria Helena Câmara; CUNHA, Maria Teresa Santos(orgs). Refúgios do Eu: educação, história e escrita autobiográfica. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2000, p. 87. A autora usa esse termo para fazer a mesma diferenciação que aqui fazemos, entre um diário privado, íntimo e um diário mais voltado às coisas feitas na rua, no contato público. Ela opõe diário crônica a diário pessoal, o que discordamos. Todo diário é pessoal no sentido que expressamos acima, a diferença está na motivação da escrita e nos assuntos tratados. Para o argumento dela pessoal é sinônimo de íntimo.

10 Usados para autoconhecimento os diários são um dos materiais de psicanalistas em seu trabalho. Além disso, podem ser usados como um desabafo de uma situação opressiva, como uma maneira de manter a calma e sanidade num momento de extrema provação. Como exemplo, desse último fim que mencionamos, temos talvez o mais famoso diário do século XX, o da menina judia que teve que se esconder com a família durante a Segunda Guerra Mundial, o diário de Anne Frank, sucesso editorial. O artigo: MACHADO, Maria H. Pereira Toledo. Op. cit, mostra como essa função catártica de um diário foi muito usada na época vitoriana. Para os fins que um diário pode ter, além desse artigo, ver: OLIVEIRA, Rosa Meire Carvalho. Op.cit, p. 34-38; MACIEL, Sheila Dias et alli. Op. cit.




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