Trabalho: 8: Orientação Psicopedagógica e Urgência Subjetiva na Universidade: perspectivas e desafios



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Anais do 2º Congresso Brasileiro de Extensão Universitária

Belo Horizonte – 12 a 15 de setembro de 2004


Orientação Psicopedagógica e Urgência Subjetiva na Universidade: Perspectivas e Desafios
Área Temática de Educação
Resumo

O Programa Orientação Psicopedagógica e Urgência Subjetiva – OPUS foi implantado na PUC-Minas, núcleo universitário Betim, em fevereiro de 2003, e trata das situações de crise subjetiva que emergem no campus universitário. Essas situações envolvem urgências que emergem associadas a circunstâncias educacionais, deflagradas por agravantes da realidade universitária, seja na sala de aula, seja na relação do aluno com o professor e/ou com os colegas, seja na própria relação desse com o estudo e com a articulação deste com uma atividade profissional que muitas vezes o permite custear a universidade. São seus objetivos: realizar orientação psicopedagógica; oferecer atendimento focal e breve para casos de “urgência subjetiva”; realizar e/ou avaliar triagem para discernir casos que exijam um atendimento focal temporário dos casos que poderão aguardar atendimento psicológico em outro local; oferecer apoio para pronto-atendimento a casos de urgência psiquiátrica, associando-se a outras instituições, quando necessário. Para tal, o programa possui três eixos com atuações distintas; prevenção, acolhimento/encaminhamento e orientação psicopedagógica. Com certeza, durante o período de existência, o Programa tem cumprido seus objetivos e insistido na promoção de saúde e de qualidade de vida. Dentro dos impasses que a contemporaneidade hoje nos traz, esse trabalho pretende criar alternativas, apostando na inventividade.


Autoras

Cezimara Karla Simões de Souza, Psicóloga, Tutora do Programa Orientação Psicopedagógica e Urgência Subjetiva

Maria da Conceição Aparecida Amaral, Psicóloga, Tutora do Programa Orientação Psicopedagógica e Urgência Subjetiva

Roberta Carvalho Romagnoli, Psicóloga, Mestre em Psicologia Social/UFMG, Doutora em Psicologia Clínica/PUC/SP, Professora Adjunto III do Departamento de Psicologia, Coordenadora do Programa Orientação Psicopedagógica e Urgência Subjetiva


Instituição

Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas Betim


Palavras-chave: universidade; urgência; crise subjetiva.

Introdução e objetivos

Ao analisar universidade na atualidade, SANTOS (2001) evidencia a mudanças na demandas do Estado e da sociedade para essa instituição. Depois da década de 60 houve um aumento de funções da academia, que passou a ter três fins: a investigação, o ensino e a prestação de serviço. Essa tríade gerou pontos de tensão que desvelam crises em vários eixos: em sua hegemonia, em sua legitimidade e em sua autonomia institucional. Para além da análise feita pelo referido sociólogo ressaltamos uma outra crise: a crise subjetiva dos jovens universitários. Examinando especificamente a realidade da universidade particular, na qual estamos inseridos, percebemos que nossos alunos são produto de uma cultura narcísica, individualista e imediatista. Nesse contexto, não raro apresentam o sintoma social do não compromisso; e, para aqueles que buscam a ascensão social temos ainda a cobrança familiar do sucesso. Geralmente o jovem universitário busca no diploma a ascensão social, possui uma jornada de trabalho árdua, utilizada para custear seus estudos e quase não lhe sobra tempo para se dedicar à universidade. Causando-lhes ansiedades, angústias. Desta maneira, muitos se deparam com o que denominamos de crises subjetivas. Não conseguem conciliar subjetivamente seus diversos afazeres, sentem-se cansados, confusos, com um elevado grau de ansiedade. Que conseqüentemente refletem não apenas no âmbito universitário, mas como também nos diversos espaços que o mesmo circula.

Betim é uma unidade da PUC-Minas, e possui 5.126 alunos, matriculados nos seguintes cursos: Administração, Ciências Biológicas, Direito, Enfermagem, Fisioterapia, Letras, Matemática, Medicina Veterinária, Sistema da Informação/Computação e Psicologia. Possui ainda 350 professores e mais de 100 funcionários. Os cursos funcionam nos turnos manhã, tarde e noite. Localizada na região metropolitana de Belo Horizonte, a cidade de Betim caracteriza-se por ser um pólo industrial que atua como atrativo para imigrantes do interior e de outros estados, que chegam em busca de trabalho e ascensão social. E que ainda se encontram em expansão. Nesse panorama, a universidade também opera como um dispositivo para se alcançar tais resultados.

Atentos não só à problemática da universidade na realidade brasileira e à especificidade de Betim, mas também à necessidade de expansão do trabalho clínico para além dos consultórios privados, nasce o Programa Urgência Subjetiva e Orientação Psicopedagógica, em resposta a situações concretas que emergiram no dia-a-dia do campus. Essas situações envolveram alunos em episódios de surtos psicóticos e crises de angústia graves, colocando em evidência, no posto médico da unidade, o sofrimento psíquico agudo e deixando sem saber o que fazer os profissionais envolvidos. Haja vista, que os casos ocorridos extrapolaram o saber do âmbito médico, orgânico. Esses episódios exigiram ainda atuações imediatas do curso de Psicologia na condução do caso, solicitado pela pró-reitoria. No intuito de não deixar o aluno e ou funcionário desamparado em meio a uma situação de crise.

Esses casos exigiam uma especificidade de atendimento, ainda não construída pela universidade, e denunciaram a ausência de dispositivos para seu enfrentamento e encaminhamento. Além da participação imediata, o curso de Psicologia no acompanhamento, no encaminhamento e na solução dessas demandas, o curso se interessou e se disponibilizou também elaborar uma proposta de trabalho para essas urgências que denominaremos, de agora em diante, “urgências subjetivas”. Essa proposta foi aceita e ganhou existência institucional no programa de intervenção descrito nesse texto.

Convivendo em uma universidade que acredita lhe dará acesso a um novo universo social e aquisitivo, afetado pelas inúmeras desestabilizações do mundo contemporâneo, pressionado pelo custo não só financeiro, mas também subjetivo de seus estudos, o universitário irrompe em colapsos. Em nosso cotidiano de trabalho, pudemos constatar que essas urgências, subjetivas, emergem associadas a circunstâncias educacionais, deflagradas por agravantes da realidade universitária, seja na sala de aula, seja na relação do aluno com o professor e/ou com os colegas, seja na própria relação desse com o estudo e com a articulação deste com uma atividade profissional que muitas vezes o permite custear a universidade. E até mesmos conflitos advindos de seus contextos familiares, íntimos. Essas circunstâncias, não raro conduzem os alunos a situações de crise. Sendo assim, o programa une a urgência subjetiva com a orientação psicopedagógica, visando a dar respaldo a estas situações. A orientação psicopedagógica surge com a intenção de dar suporte a aqueles alunos e/ou funcionários que estão passando por algum tipo de dificuldade pedagógica, como por exemplo, dificuldade em concentrar-se em sala de aula ou no ambiente de trabalho, desenvolvimento da escrita, elaboração de projetos, apreensão de conteúdos, dificuldade em apresentação de trabalho, ou seja, em falar em público, em se expor, dentro outras.

Dessa maneira, esse programa possui ainda como metas: realizar orientação psicopedagógica aos alunos do campus Betim; oferecer atendimento focal e breve para casos de “urgência subjetiva” aos alunos e funcionários da unidade Betim; realizar e/ou avaliar triagem para discernir casos que exijam um atendimento focal temporário dos casos que poderão aguardar atendimento psicológico no Núcleo de Referência em Psicologia - NUPSI; oferecer apoio para pronto-atendimento a casos de urgências psiquiátricas apresentadas por alunos e funcionários da PUC-MG/Campus Betim, associando-se ao CERSAM – Centro de Referência em Saúde Mental de Betim, ao NUPSI – Núcleo de Referência em Psicologia, que vem a ser a Clínica Escola de Psicologia do campus Betim e ao Posto Médico do Campus e encaminhando para outros profissionais e outros serviços, quando necessário.

Faz-se necessário aqui alinhavar alguns esclarecimentos. O CERSAM refere-se ao Centro de Referência em Saúde Mental da Prefeitura Municipal de Betim. O Núcleo de Referência em Psicologia – NUPSI constitui na clínica escola em que são realizados os estágios curriculares de Psicologia e também o curso de Aperfeiçoamento em Psicologia Clínica. Esse curso acolhe o aluno recém-formado em Psicologia em uma pós-graduação que tem como objetivo a solidificação da formação clínica do novo profissional e o oferecimento de uma clínica a baixo custo para os alunos da graduação de Psicologia. Assim tentamos enfrentar o velho problema da formação clínica na universidade, na medida em que sabemos ser essencial na mesma à análise pessoal, muitas vezes deixada em segundo plano por questões financeiras.

Além destas metas, o programa OPUS, logo no início de seu funcionamento, identificou uma demanda especifica para a Orientação Profissional, pois se constatou que muitas vezes o aluno é acometido de uma crise advinda da angústia de perceber que após seu ingresso na Universidade não se identifica com o curso escolhido. O que pode gerar uma crise com a qual nem sempre o aluno sabe lidar. Alguns tendem a desistir do curso e buscar novas alternativas, outros seguem seu curso totalmente desmotivados, formam, não conseguem uma inserção no mercado de trabalho. O que acarreta frustrações. Frustrações estas que o sujeito carrega para toda a sua vida. O que muitas vezes o impede de recomeçara um novo curso, fazer uma re-opção profissional. Assim, em ambos os casos, acreditamos ser possível levar este jovem a uma reflexão sobre as maneiras de escolhas possíveis, em sua vida pessoal. Abrindo, assim, espaço para uma prevenção da saúde psíquica na vida futura deste jovem universitário. Num contexto onde, esta prevenção signifique levar o indivíduo a ampliar a consciência da realidade que o cerca, instrumentalizando-o para agir, no sentido de transformar buscando resolver as dificuldades que essa realidade lhe apresenta.

Para tanto, foi criado um espaço de reflexão acerca da escolha profissional, visando a levar este jovem a se conscientizar dos impasses contemporâneos, entendendo como essa problemática está direta ou indiretamente orientando suas escolhas. O trabalho é realizado em grupo. Os alunos que não estão satisfeitos com o curso que escolheram, ou que não sabem ainda que direção escolherem dentro do curso escolhido. As atividades realizadas pelas tutoras levam-nos a uma reflexão, onde os mesmos possam refazerem suas escolhas. Abrindo assim possibilidades para uma assunção destas escolhas multideterminadas e do processo de relações interpessoais, através do qual elas se dão. Acreditando que o homem, possa ser encarado como um ser de inúmeras possibilidades, que trás em si um potencial de criatividade. Um ser plástico, que poderá se moldar, se movimentar e se transformar, ainda que estas mudanças nem sempre sejam visíveis.
Metodologia

O programa conta com duas tutoras, supervisionadas semanalmente pela coordenadora do Programa, que realizam as atividades propostas. Seu público alvo são os 5.126 alunos que circulam pelo campus assim como seus mais de 100 funcionários. Estes são encaminhados para as tutoras pelos diversos setores da instituição através de seus funcionários, a saber:

Apoio comunitário - encaminhados pelas assistentes sociais.

Posto médico – encaminhados pelos médicos e enfermeiras.

Sala de aula – encaminhados pelos professores e colegas que já foram atendidos pelo programa.

Coordenação – encaminhados pelos coordenadores de curso que sempre são procurados por alunos com pedidos de ajuda para solucionarem algum problema de âmbito pedagógico ou psíquico.

A atividade de orientação psicopedagógica é efetuada por alunas do 9o período sob supervisão da professora da disciplina.

Para alcançar os objetivos relatados acima, o programa possui os seguintes eixos que realizam atividades distintas e, ao mesmo tempo, inter-relacionadas: prevenção, acolhimento/encaminhamento e orientação psicopedagógica. O eixo prevenção visa a promover saúde em atividades como construção de oficinas e palestras abertas a todos os cursos, trabalhando temáticas demandadas pelas urgências e pelo Posto Médico. Possui ainda grupos de reorientação vocacional, uma vez que foi constatado um grande número de alunos frustrados e insatisfeitos em decorrência da decepção com o curso universitário escolhido até então. O eixo acolhimento/encaminhamento acolhe os alunos e funcionários, através de escuta psicológica. Esse atendimento clínico ao aluno e ao funcionário visa a encaminhá-lo depois de três sessões, quando necessário, a outros profissionais. Quando o sujeito se encontra impossibilitado de realizar uma entrevista, encontrando-se em sofrimento psíquico grave, é imediatamente encaminhado para o CERSAM ou para um psiquiatra particular, de acordo com o caso. Esse eixo apóia ainda a equipe do Posto Médico na construção das estratégias de encaminhamento da questão, oferecendo também apoio psicológico à família. O eixo de orientação psicopedagógica é realizado em junção com o estágio curricular obrigatório de Psicopedagogia, e presta serviço nessa modalidade, aos alunos interessados.

O programa possui dinâmicas de funcionamento diferenciadas de acordo com o eixo. No eixo prevenção, todo início de semestre são feitos os levantamentos para as palestras a serem oferecidas no campus bem como a divulgação das inscrições para a montagem dos grupos de reorientação. No eixo acolhimento/encaminhamento, o funcionário do Posto Médico requisita apoio psicológico às tutoras para casos de urgência psiquiátrica e/ou subjetiva. As tutoras atendem alunos ou funcionários em sua sala, ao lado do Posto médico dentro de seu horário de disponibilidade ou agenda entrevista o mais breve possível. Caso as tutoras não estejam em seu horário, o funcionário do Posto Médico pode contactá-lo em casa, ou no celular, uma vez que a crise pode ocorrer em qualquer momento. No eixo Orientação Psicopedagógica, no início do semestre são montados os grupos a serem atendidos, sendo o trabalho efetuado durante o período letivo.

Utilizamos ainda na sustentação teórica desse programa a perspectiva da Terapia Breve. Em contraposição à Psicanálise tradicional que pretende tornar consciente o inconsciente através de um trabalho analítico denso e sistemático, a Terapia Breve possui objetivos limitados e trabalha com as necessidades em certa medida imediatas do sujeito. Esses objetivos são calcados na superação dos sintomas e conflitos atuais oriundos do embate do cliente com a realidade, visando a que este possa enfrentar determinados problemas e recuperar sua capacidade de se posicionar perante a vida. A opção que fizemos em estar respaldando-nos na Teoria da Psicoterapia Breve, foi a preocupação de não descaracterizar o projeto OPUS, uma vez que esse não tem por objetivo realizar psicoterapia, ou análise com alunos e ou funcionários do campus.

Baseando-se na obra freudiana enquanto marco teórico, mas diferenciando-se nos procedimentos técnicos - papel ativo do terapeuta, foco e tempo limitado – essa modalidade terapêutica apresenta-se como uma alternativa face às demandas subjetivas existentes nas instituições das quais o psicólogo faz parte. Aliás, o seu surgimento fundamentou-se na busca de criar dispositivos para as necessidades impostas pela realidade sócio-político-econômica, tais como: aumento do número de atendimentos, dificuldades econômicas dos clientes, falta de tempo, dificuldade de verbalização das classes menos favorecidas, presença de situações de crise e catástrofes (guerras, tragédias, etc.), expectativa de resultados por parte dos clientes e necessidade de prevenção, dentre outras.

Realizando uma distinção entre diferentes formas de aplicação dessa modalidade, BRAIER (1997) salienta a psicoterapia de emergência que atua sobre situações especiais de crise: “Em tais situações prevalece a necessidade de se estancar a crise, obtendo-se um alívio sintomático, de modo que na maioria dos casos deve-se postergar a busca de insight no paciente, até um segundo momento terapêutico, já que de imediato suas condições egóicas não costumam permiti-lo.” (BRAIER, 1997, p. 5)

Essa vertente de atendimento insiste em uma relação terapêutica em que o terapeuta apresenta-se mais flexível e ativo, centralizando-se em um foco. É importante ressaltar que, no caso desse Programa, o foco é o amparo da crise imediata e intensa em que o sujeito que procura atendimento se encontra, e a busca para o alívio da mesma, qualquer que seja seu conteúdo. Com certeza, subjacente ao conflito atual, gerador da crise subjetiva, existem outros conflitos, mais arcaicos e estruturais. Presenciamos nos casos atendidos que os conflitos atuais versam sobre: necessidades pessoais, questões familiares, pressões sociais e problemas financeiros, que reforçam a angústia e o sofrimento psíquico e travam o processo de elaboração e resignificação.

Para lidar com nosso foco, o atendimento possui duração restrita a três sessões, no máximo, realizadas pelas tutoras, para não descaracterizar o espaço de urgência subjetiva e estar disponível a novas demandas, sempre com finalidade terapêutica. Possui ainda convênio com a urgência psiquiátrica do município de forma a podermos contar com o pronto-atendimento da rede municipal de assistência à Saúde Mental de Betim, sobretudo porque, na maioria dos casos, os alunos não possuem condições financeiras de arcar com os custos do tratamento.




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