Trabalho: 64: O(a) Idoso(a): Uma face e uma voz interditadas pela família e pela escola em Campina Grande



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Anais do 2º Congresso Brasileiro de Extensão Universitária

Belo Horizonte – 12 a 15 de setembro de 2004


O (a) Idoso (a): Uma Face e Uma Voz Interditadas pela Família e pela Escola, em Campina Grande

Área Temática de Educação

Resumo


Com enfoque na educação intercultural e intergeracional estamos realizando uma experiência pedagógica que busca tirar dos escombros e da marginalidade as pessoas idosas cuidadoras e provedoras das novas gerações no ambiente doméstico. Tendo como público alvo às famílias matrifocais (famílias onde as mulheres são as responsáveis) e as famílias ampliadas (famílias constituídas por três gerações pais, avós e netos), onde os avós são os provedores, realizamos uma ação de investigação quantitativa, qualitativa e intervencionista. Procuramos provocar um diálogo entre os professores da rede pública municipal e as famílias dos alunos que apresentam essa nova configuração relacional. Consideramos da maior importância à ruptura com o olhar etnocêntrico sobre as diferenças, postura essa profundamente reproduzida pelos sujeitos escolares, vítimas de um precário processo de formação profissional. O abismo que se estabeleceu entre a cultura docente e a cultura discente, resultante de uma histórica atitude autoritária por parte do modelo escolar que foi construído na modernidade, pode ser superado através de ações extensionistas que revelem essas desigualdades e proponham a elaboração de um projeto pedagógico efetivamente democrático.
Autoras

Keila Queiroz E Silva (coordenadora), Mestrado em História do Brasil/UFPE, Doutoranda em Sociologia/UFPB-UFCG

Débora Raquel Nóbrega de Medeiros, graduanda em História

Ivny Medeiros de Brito Cavalcante, Graduanda em História

Valdirene Pereira de Sousa, Graduanda em História

Jannefrance G. Costa, Graduanda em História.


Instituição

Universidade Federal de Campina Grande – UFCG


Palavras-chave: educação, família e idoso
Introdução e objetivo

Dia 27 de setembro, Dia Nacional do Idoso; ano de 2003, ano em que a Campanha da Fraternidade foi dedicada às pessoas idosas; 01 de outubro de 2003, dia internacional do idoso e data em que foi sancionado pelo presidente Luís Inácio da Silva o Estatuto Nacional do Idoso; século XXI, século em que o envelhecimento populacional é uma das grandes fissuras com o modelo moderno de sociedade cultuador da juventude, e de tudo o que é novo, e desqualificante de tudo o que é velho, portanto silenciador das tradições.

De acordo com o IBGE, a Paraíba tem a terceira população idosa do país, com 10,2% da sua população total, só perdendo para o Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. No conjunto dos domicílios paraibanos que totalizam 849.378, pelo menos 218.199 deles, tem idosos como responsáveis e representam 25,6% do contingente total.

Sem direito à voz, visibilidade, sociabilidade e aos seus afetos construídos historicamente, essas pessoas velhas, tão repugnadas pelos militantes da estética burguesa, frente a esse novo quadro estatístico nacional e local, têm que ser lembradas e inseridas socialmente.

No nosso projeto de extensão temos identificado a ausência de sensibilidade por parte das outras gerações para o processo de inclusão dos idosos provocando conflitos geracionais na vida privada e um profundo desajuste familiar. A violência urbana hoje caminha com a violência doméstica. Percebemos também um absoluto desconhecimento por parte dos educadores das escolas públicas municipais de todo esse processo de reconfiguração das organizações familiares contemporâneas.

Os discursos dos educadores brasileiros sobre a família é um dos mais cristalizados e preconceituosos, o que tem contribuído para o fracasso das relações interpessoais entre discentes e docentes entre a escola moderna e as complexas famílias reais. Não existe essa abstração intitulada família. Os grandes esquemas conceituais e explicativos revelam-se vulneráveis quando confrontados como os modelos familiares atuais. As famílias pobres são vistas como ameaçadoras da sobrevivência do pacto social.

O contato com as memórias de vida dos familiares dos(as) alunos(as) de escolas publicas tem nos mostrado em Campina Grande que os modelos de família predominantes fogem radicalmente do ideário da família nuclear burguesa. As famílias monoparentais onde as mulheres em sua maioria são as provedoras e as famílias ampliadas (compostas por três gerações pais, avós e netos), são modelos que estão entrando em cena cada vez mais na realidade nordestina brasileira. As sociólogas Alda Brito da Mota e Benedita Cabral em seus estudos sobre famílias nordestinas perceberam que os avós cada vez mais estão assumindo a sobrevivência de filhos e netos, em função do desemprego, sexualidade precoce, separações e divórcios etc.

A desnaturalizaçao do conceito de família pressupõe percebê-la enquanto criação humana mutável. A literatura antropológica tem se destacado nesse recorte investigativo, apresentando a variabilidade das estruturas familiares e a possibilidade de superação de uma concepção estática, economicista ou idílica de família. Com o propósito de desmistificar a crenças homogeneizantes sobre as famílias contemporâneas, a socióloga Maria Cristrina Bruschini realizou um estudo sobre as camadas médias paulistanas. Em seu artigo “Mulher, Casa e Família”, a autora contribui para a desmontagem do caráter a-histórico da instituição família nuclear. Esse modelo idealizado de família foi construído no século XVIII, em um cenário europeu de ascensão da burguesia, e urbanização e industrialização. “A privatização da instituição familiar e a passagem das funções socializadoras para o âmbito mais restrito do lar burguês, constituem alguns dos mecanismos fundamenteis para a constituição da família moderna” ( BRUSCHINI, 1990: 38).

Neste novo cenário familiar analisado por sociólogos coexistem, as famílias extensas matrifocais ou multigeracionais, as famílias monoparentais e as famílias conjugais, entre outros modelos familiares fabricados na contemporaneidade. A autora Alda Brito da Motta mesmo reconhecendo o caráter não absoluto da instituição família salienta o importante significado desta para as camadas populares. A sua parceria de investigação Iracema Brandão em seu artigo “Revisitando a família no cenário da pobreza” também enfatiza o papel da família como fator de proteção contra miséria e a indigência, conforme alisou WEBER (1998).

As relações de solidariedade nas famílias multigeracionais espelham essa instituição como o lugar dos afetos radicais, da trama de relações sociais mais básicos e carregadas de ambigüidade. Conforme observou MOTTA no cotidiano dessas famílias os diferencias de atuação de gênero e geração se tocam afirmando o dueto afetividade/poder.

As feridas das identidades familiares contemporâneas são bem mais flagrantes no cenário da pobreza brasileira, mesmo reconhecendo a intensidade dos conflitos familiares em agrupamentos de classe media e classe alta. A autora Benedita Cabral fez um estudo sobre o cenário sobre o cenário atual da pobreza urbana na Paraíba, procurando investigar as praticas, estratégias e padrões de sociabilidade presentes nesse espaço. Em sua pesquisa o(a) idoso(a) aparece como figura central, como aquele(a) que garante a sobrevivência física e social dos seus membros. As pessoas mais velhas das classes populares estão sendo arrimo de família. Conforme afirmou Iracema Brandão “os idosos dividem o seu pouco”.

A família apesar de todas as suas crises de sentido tem mantido a sua importância afetiva representando assim, uma das redes de solidariedade mais importantes na crise de empregos atual, e na profunda mudança dos costumes pós-emancipação feminina na década de 60. A relevância social de minha pesquisa realizada durante o mestrado sobre a relações de gênero em Campina Grande em 50, 60 e 70 e a s mutações do modelo feminino e masculino, confirma-se agora ao perceber a relação intrínseca entre as questões de gênero e geracionais, nos arranjos familiares contemporâneos. A chefia feminina nos cenários dos lares pós-modernos fez emergir novas concepções relacionais e novos pactos afetivos, portanto novos e múltiplos modelos familiares, sinto-me dando continuidade a um processo investigativo que iniciei em 1998, ao dedicar esse momento acadêmico às discussões geracionais , realizando uma síntese entre as minhas elucubrações sobre as novas identidades de gênero e de geração.

De um estado de silenciamento coletivo sobre a população idosa, estamos passando a um processo de explosão discursiva sobre a chamada terceira idade. Os discursos médicos, os discursos midiáticos, acadêmicos e jurídicos estão emergindo e produzindo uma teia complexa de significados culturais e sócias sobre a velhice no cenário urbano pós-moderno.

A passagem de uma concepção reducionista e puramente geriátrica sobre a senescência, para uma concepção relativista, humanista, interdisciplinar e plural, Poe em cena uma plêiade de imagens de idosos (as), quais geram: (a) idoso(a) demenciado(a), o(a) idoso(a) dependente, o(a) idoso(a) autônomo(a), o(a) idoso(a) educador(a), o(a) idoso(a) narrador(a), o(a) idoso(a) militante, o(a) idoso(a) feliz com a invenção da terceira idade.

A perspectiva biomédica foi responsável pela construção e fixação da imagem fragilizada e infatilizada do(a) idoso(a). o oler geriátrico sobre o envelhecimento contribuiu para a negativizaçao do lugar da senescência e a positivação do lugar da juventude. Não pretendemos com isso negar os aspectos biológicos do processo de envelhecimento, mas questionar o seu caráter determinante, o estatuto de verdade do saber médico.

A autora Silvia Maria de Azevedo dos Santos fez uma análise em sua obra “idosos, família e cultura” da construção do papel do cuidador de pessoas idosas nas relações familiares e fora delas. Em seu trabalho predomina a leitura biomédica, uma vez que esta fala do lugar social de enfermeira e faz um recorte de imagem dos idosos demenciados, mesmo se propondo a dialogar com outras áreas do conhecimento.

Os estudos sociológicos, antropológicos, psicológicos e econômicos sobre os novos modelos familiares têm revelado o lugar de provedor do idoso brasileiro, e anunciado a necessidade de olhar para uma imagem de envelhecimento na contramão dos discursos infatilizantes e desqualificantes dessa fase da vida, seja ela, a imagem do idoso cuidador. Mais da metade das cidades brasileiras sobrevive às custas da aposentadoria da sua população idosa. Os trabalhos acadêmicos de Alda Motta, Benedita Cabral e Iracema Brandão Guimarães sobre as famílias nordestinas investem na afirmação desta imagem social do segmento idoso. A pesquisa que estamos realizando nas escolas públicas de Campina Grande também tem dado muita visibilidade a esse lugar social de cuidador dos avós das crianças pobres, clientela dessas instituições investigadas. Esses idosos cuidadores e educadores domésticos são absolutamente estranhos para os educadores domésticos são absolutamente estranhos para os educadores escolares.

As nossas escolas brasileiras estão cada vez mais intensificando o seu caráter utilitário, assumindo o lugar de escola recurso, uma vez que funcionam como depósitos de crianças e adolescentes, disfarçadas de uma imagem de instituição inclusiva. A inclusa escolar na nossa cultura educacional se restringe ao aumento quantitativo dos alunos matriculados na escola, motivados pelos pacotes paternalistas instituídos pelos nossos poderes públicos. As praticas pedagógicas que são assumidas nessas escolas são preconceituosas e profundamente negadoras das complexas e diversas identidades familiares comunitárias do seu corpo discente. Frente a isto, torna-se compreensível o estranhamento dos docentes das escolas públicas em Campina Grande das famílias multigeracionais, aos quais, boa parte de seu alunado pertence. Esses idosos cuidadores e educadoras de seus netos focalizados na nossa pesquisa estão sem direito à voz, visibilidade e sociabilidade, compondo uma relação assimétrica como os educadores escolares.

Outro recorte imagético bastante justo para a comunidade idosa diz respeito à performance do idoso narrador. O reconhecimento das pessoas idosas como narradores nos remete ao poético texto de Walter Benjamim “O Narrador”, onde ele historiciza o processo de definhamento da arte de narrar e anuncia a morte do narrador nas sociedades modernas. A era informacional destruiu a arte de narrar, o compartilhar de experiências pessoais, essa troca intergeracional foi dizimada pela civilização de barbárie que o capitalismo instaurou, substituindo o tempo processual vivido pelo tempo eventual vivido pelo tempo eventual medido. A razão técnico industrial desqualificou as artes manuais. A educação deixou de ser um processo formativo e passou a ser um produto informativo, uma mercadoria consumível.

Ecléa Bosi em sua obra “Memória e Sociedade: lembranças de velhos” assume o lugar de defensora dessas pessoas banidas e cruelmente silenciadas, e dá voz aos narradores da classe operária paulista. Trabalhando com o conceito de memória-trabalho, ela monta vários cenários paulistas a partir dos depoimentos de seus antigos moradores em busca de suas identidades e do seu pertencimento. Outra produção cientifica bastante afirmadora das pessoas idosas é “Vidas Partilhadas: cultura e co-educação de gerações” da autoria de Paulo Salles de Oliveira, historiador, sociólogo e psicólogo social. As imagens dos idosos cuidadores e narradores paulistas nos convidam a romper com a leitura desqualificante e assimétrica sobre esse lugar geracionl de uma forma bastante sensível. O Centro de Cultura

Popular Domingos Vieira Filho do Maranhão publicou uma obra intitulada “Memória de velhos: depoimentos-uma contribuição à memória oral da cultura popular maranhense” organizada por Nunes Pereira, Celeste santos e Lúcia Oliveira. Essa obra assim como a publicação do livro “A oralidade dos velhos na polifonia urbana” escrita por Giisafran Nazareno Mota Juca no Ceará, também evidencia a relevância social dos idosos narradores na recuperação da memória local.

Em Campina Grande, nós professores da UFCG, realizamos durante três anos um trabalho de parceria com a Curadoria do Patrimônio e o IPHAEP (Instituto do Patrimônio Histórico e artístico da Paraíba). Essa experiência de educação patrimonial só foi possível com a colaboração dos antigos moradores da cidade. Investimos em uma atitude investigativa e preservacionista dos bens imóveis de valores histórico, estético e afetivo para a população campinense, inclusive realizamos uma ação intervencionista nas escolas públicas onde nós confirmamos a ânsia por enraizamento por parte das novas gerações. Sem dúvida, os idosos narradores foram os grandes educadores nesse processo de busca de referencia através de estudos da história local.

Os idosos militantes também são imagens afirmativas desse segmento geracional. O envolvimento dos aposentados e pensionistas em reinvidicaçoes trabalhistas nos setores públicos e privados nos colocou em contato com pessoas idosas autônomas e em luta pela sua cidadania e dignidade. A autora Eneida G. de Macedo Haddad em seu trabalho “O Direito à Velhice: os aposentados e a previdência social” também recorreu às fontes orais, ao recuperar a memória do movimento de aposentados e pensionistas a partir dos anos 80, enquanto o movimento de resistência à política previdenciária. Ao recorrer aos idosos narradores ela se deparou com sua outra face, a de militância política.

A invenção da terceira idade em uma representação social da velhice bastante idealista conforme observou Guita Debert. Os discursos sobre a terceira idade provocam um processo de inversão da ética e estética burguesas, uma vez que desloca o elogio ao trabalho ora o elogio e ócio, ser velho é sinônimo de começar a viver e sentir prazer, os aposentados dizem em uníssemo agora eu vou fazer o que gosto. Essa representação caricatural da velhice mais interiorizada pela velhice mais interiorizada pelas mulheres consolida a imagem da mulher como a maior protagonista de nossa farsa social. A socióloga Agenita Ameno em sua obra “Crítica à tolice feminina” mostra que as mulheres ditas emancipadas são as personagens mais afirmadores do consumismo burguês na contemporaneidade. Assumir o lugar da terceira idade não é para qualquer um. Exige recursos materiais para o rejuvenescimento através de procedimentos cirúrgicos, através da relação com o tempo lento do prazer e do lazer, para dançar, viajar, sorrir, brincar, namorar, copular, etc.

Os idosos socialmente desimportantes e pobres não são incluídos nessa imagem caricaturado(a) idoso(a) feliz. Essas identidades de idosos cuidadores, arrimo de família, elas foram construídas discursivamente e socialmente, conforme observa Tomás Tadeu da Silva nos seus Estudos Culturais, elas falam de um outro lugar social, elas falam de uma linguagem diferente da linguagem das pessoas velhas da terceira idade, elas são o outro mesmo para quem já é o outro.

Há contradições e fissuras no interior das identidades, elas são caleidoscópicas. A apresentação desse cenário complexo do território do envelhecer confirma a impossibilidade de fixação e leitura unívoca sobre esse segmento populacional ou qualquer outro. Certos dessa impossibilidade, apesar de termos feito um recorte imagético em nossa pesquisa, ou seja, o estudo das pessoas idosas pobres cuidadoras dos seus netos, sabemos que essa imagem vai se apresentar de forma desfocada, vai trazer ao nosso palco de investigação outras imagens, uma vez que a identidade é relacional, portanto marcada pela diferença. Compreendemos assim que as identidades enrugadas também são escorregadias, móveis e bastante complexas, elas se reinventam nas relações cotidianas.

Objetivos

1-Identificar as imagens de idosos(as) e os modelos de família predominantes nas escolas públicas municipais de Campina Grande dos bairros de José Pinheiro, Pedregal e Malvinas.

2-Investir na formação continuada dos docentes dessas escolas públicas através de um processo de educação intergeracional.

3- Discutir nas escolas e nas comunidades investigadas a função social do(a) idoso(a) em Campina Grande e na Paraíba na contemporaneidade, visando romper com imagem cristalizada de velhice tutelada, frágil, desarrazoada e culturalmente inferiorizada.

4-Desnaturalizar os conceitos de família, escola, velhice, infância, adolescência, trabalho e educação.

5- Propor a construção de relações simétricas com as pessoas idosas na família e na escola a partir do reconhecimento dos seus novos papéis sociais na atualidade.

6- Investigar a memória cultural dos bairros do José Pinheiro, Malvinas e Pedregal a partir das narrativas dos seus velhos moradores.
Metodologia

No primeiro momento realizamos um levantamento estatístico do índice de crianças e adolescentes das escolas públicas de Campina Grande criados pelos avós. Esse trabalho foi desenvolvido juntamente com a Secretaria de Educação do município. No segundo momento, iniciamos as visitas às escolas públicas nas comunidades onde o índice de alunos que compõem esse modelo familiar foi mais elevado. Nesse momento estamos experienciando a pesquisa-ação com as famílias ampliadas e encerraremos a nossa ação extensionista com a realização de oficinas de memória, oficinas pedagógicas com a temática da educação intergeracional e oficinas jurídicas, onde será trabalhado o Estatuto do Idoso, nas associações comunitárias e nas escolas públicas e com a realização de um seminário a ser realizado na Universidade Federal de Campina Grande, onde todos os projetos do PIATI (Programa Interdisciplinar de Apoio à Terceira Idade), nas áreas de Medicina, Sociologia, Letras, História e Pedagogia apresentarão os resultados de sua experiência de extensão que foi realizada em parceria como o MEC.


Resultado e discussão

A nossa ação extensionista ao investir na educação intergeracional direcionou a leitura da cidade de Campina Grande para a análise das diferenças geracionais. As Ciências Humanas têm investigado bem as diferenças de classe, etnia e gênero, mas os estudos sociológicos e antropológicos sobre geração precisam ser aprofundados.

O estado da Paraíba está em terceiro lugar no índice de pessoas idosas. Ao identificarmos a recusa social em dar visibilidade a essa população, sobretudo nas escolas, fizemos um levantamento do número de crianças e adolescentes que moram com os(as) avós. Foram identificadas 404 crianças em apenas 22 escolas públicas que têm os avós como cuidadores e provedores. Na cidade de Campina Grande nós temos 90 escolas públicas urbanas municipais e 49 escolas rurais. Essa amostragem confirma a necessidade urgente de um trabalho de pesquisa e extensão sobre essa problemática, que não é só local, mas nacional. O alto índice de pessoas idosas/doentes/pobres que são obrigadas pelos(as) filhos e filhas a usarem o dinheiro da sua aposentadoria, que deveria ser dos seus medicamentos, com os netos, revela um quadro social de abuso material/físico e emocional dessa geração de idosos, desconhecido dos próprios educadores que convivem diariamente com essas crianças.

O modelo idealizado pelos livros didáticos e pela mídia, de família, casamento, relações de gênero, feminino e masculino e sexualidade, é reproduzido quase mecanicamente pela maioria dos docentes que atuam nas escolas públicas do nosso município. Frente a posturas e discursos massificados e estigmatizadores das formas de ser mulher, ser homem, ser jovem, ser idoso, constituir família e de se relacionar a nossa intervenção nas escolas tem provocado um processo de relativização dos conceitos e esteriótipos paralisantes da dinâmica social, apresentando-lhes a sua historicidade. O maior objetivo do nosso trabalho tem sido a provocação da desnaturalizaçao dos conceitos de idoso(a), família, infância, adolescência, escola, trabalho e educação, apresentando o cenário de seu nascimento, contextualizando os códigos de comportamento familiares e escolares urbanizados e “civilizados” em Campina Grande.


Conclusões

A relevância social do nosso trabalho de intervenção tendo como foco as famílias ampliadas de comunidades periféricas de Campina Grande, foi confirmada durante todo o processo de realização das atividades. Consideramos o caráter interdisciplinar do projeto, assim como o diálogo entre a universidade e as famílias pobres campinenses elementos constitutivos de um modelo de universidade pública, democrática, não etnocêntrica e afirmadora das diferenças de classe, raça, gênero, geraçao, etc.

O trabalho com histórias de vida com os moradores dos bairros investigados foi sem dúvida uma forma bastante eficiente de romper com o silêncio e a invisibilidade do segmento idoso que constrói o cotidiano desses lugares, contribuindo para a recuperação da memória do bairro e da própria cidade de Campina Grande.

Concluímos também que a qualificação da experiência de extensão só é possível através da construção de uma relação íntima entre a pesquisa e a extensão, investindo assim, nos estudos etnográficos, para que a universidade não assuma uma postura de superioridade frente aos outros saberes que circulam no cotidiano das comunidades. Uma boa ação extensionista, portanto, depende de uma boa ação investigativa, que por sua vez é fruto de uma pratica pedagógica intercultural por parte do intelectual.


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