Trabalho: 116: a prática de extensão na formação do psicólogo: uma experiência de oficinas com adolescentes trabalhadores



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Anais do 2º Congresso Brasileiro de Extensão Universitária

Belo Horizonte – 12 a 15 de setembro de 2004


A Prática de Extensão na Formação do Psicólogo: Experiência de Oficinas com Adolescentes Trabalhadores.

Área Temática de Educação

Resumo


Neste trabalho relatamos uma experiência de intervenção pedagógica e psicossocial junto a um grupo de adolescentes que integram o Programa de Iniciação ao Trabalho da Cruz Vermelha e atuam na unidade Betim da PUC Minas. Apresentamos também uma reflexão sobre a relação entre as práticas de extensão e formação do psicólogo. No sentido de compartilhar a riqueza dessa experiência selecionamos uma das Oficinas, em que a temática da sexualidade é introduzida, para discutir os procedimentos metodológicos que constituem a prática das oficinas. Tratá-se de uma proposta pedagógica calcada nos princípios e nas concepções da educação libertadora de Paulo Freire. Como processo individual e coletivo adotamos uma diversidade de técnicas de abordagens e recursos de mediação que permitem a problematização das atitudes e revelam as concepções que os jovens tem sobre o mundo, o homem e a história. A intervenção pedagógica e psicossocial ocorrem a partir das experiências vivenciadas por cada um, que são compartilhadas com o grupo durante as oficinas. Através das experiências compartilhadas no grupo, possibilita-se uma reflexão critica acerca dos papéis assumidos socialmente e um amadurecimento pessoal, favorecendo escolhas mais conscientes na vida e a ampliação dos conhecimentos e informações relevantes ao crescimento pessoal.
Autores

Marciane R.e Carvalho, Aluna de Psicologia

Fernanda V. C. Santana, Aluna de Psicologia

Karina L. de Loiola, Aluna de Psicologia

Nathalia R. Silveira, Aluna de Psicologia

Luiz Carlos C B Rena, Professor de Psicologia.


Instituição

Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas


Palavras-chave: adolescência; grupos; intervenção
Introdução e objetivo

O Projeto Entre Jovens (PEJ) é um projeto de intervenção, que tem como público alvo o grupo de adolescentes que integram o Programa de Iniciação ao Trabalho da Cruz Vermelha e atuam na Unidade Betim da PUC Minas. São jovens de baixa renda, entre 16 e 17 anos de idade, que estão vivenciando a experiência do primeiro emprego, oferecendo indispensável apoio ao bom funcionamento da instituição. Estes adolescentes, mesmo inseridos no mercado de trabalho, estão passando pelos processos de transformação como qualquer outro adolescente. Nos referimos as transformações de natureza biopsicossocial (AFONSO, 2001, OZELLA, 2002; RENA, 2001) próprias da adolescência e que para a maioria das pessoas se revelam como fonte de angústia, além das inúmeras dúvidas que são comuns à esta época da vida.

Conforme Rena (2003) em documento que institui o projeto, pretende-se acompanhar e apoiar adolescentes trabalhadores promovendo uma reflexão crítica sobre as várias dimensões do seu projeto de vida em construção. Enfatizando os desafios da condição masculina e feminina na contemporaneidade e contribuindo para a resignificação da experiência do trabalho para sua trajetória de vida. Propiciando para estes, subsídios para que possam lidar melhor com as demais dificuldades.

O PEJ integra as ações do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psicologia e Processos Sociais - NEPPSO e conta com o apoio efetivo da Coordenação de Extensão da PUC Minas Betim. A vinculação ao NEPPSO deverá se aprofundar com a possibilidade de desenvolvimento de um projeto de pesquisa associado à nossa prática de extensão. Este Núcleo reúne professores e alunos envolvidos com iniciativas de pesquisa e intervenção que contemplem as interfaces entre a psicologia e os processos sociais e suas implicações nas esferas do indivíduo, das organizações e instituições. Tratá-se de buscar entender os movimentos de mudança na maneira como os discursos e as representações sociais influenciam nas escolhas e concepção de vida dos sujeitos, das comunidades e da sociedade. (RENA, PACHECO e KAITEL, 2003)

Tal projeto se caracteriza como extensão, uma vez que o público alvo são pessoas da comunidade local, que não tem vínculo com a PUC. Apesar dos adolescentes trabalharem dentro da Universidade o vínculo de trabalho, que se extingue ao completarem 18 anos, é com a Cruz Vermelha. Portanto, são trabalhadores que estão de passagem pela instituição.

A PUC Minas cumpre com um papel social importante ao oferecer a estes jovens esta oportunidade. Entretanto, como Instituição de Ensino Superior confessional, tem se empenhado na ampliação deste compromisso para com a sociedade. É através da extensão universitária articulada ao ensino e a pesquisa, que se estabelece uma relação transformadora entre a Universidade e a sociedade, integrando processos educativos, culturais e científicos.

O PEJ como espaço de aprofundamento das questões relacionadas à identidade psicossocial dos jovens trabalhadores utiliza-se dos recursos lúdicos da arte-educação, do psicodrama e da dinâmica de grupo, além de outras estratégias de manutenção ou de re-estabelecimento dos laços sociais e afetivos dos jovens.

Este trabalho começou a ser desenvolvido no 1º semestre de 2003, sob a coordenação do Pedagogo e Psicólogo Social, Prof. Luiz Carlos Castello Branco Rena apoiado por uma equipe de cinco alunos voluntários. O professor planejava as oficinas e distribuía as tarefas entre os estagiários, que apoiavam a execução responsabilizando-se pelo registro das ações do projeto, documentação e arquivo. Os momentos de avaliação também eram compartilhados pelos estagiários. Conseguimos articular um grupo com 15 adolescentes trabalhadores, nas tardes de segundas-feiras. Os adolescentes eram freqüentes e participativos, mas nem todos podiam participar das oficinas, pois estudavam no horário em que as mesmas aconteciam. No decorrer do ano alguns dos estagiários deixaram o PEJ por questões pessoais.

O ano de 2003 constituiu-se como um tempo de experimentação. A partir 2004 o PEJ busca se afirmar institucionalmente, solidificando as ações pedagógicas. O apoio da Coordenação de Extensão do Núcleo Betim se ampliou com a liberação de uma bolsa de estágio de 20h. Duas alunas do 9º período de psicologia que atuantes como voluntárias desde o início do projeto foram selecionadas para o estágio remunerado em 2004. Neste novo momento do PEJ o planejamento passou a ser uma tarefa de toda a equipe, e não só do professor. Coube às estagiárias o esforço de explicitação do planejamento, sistematização das avaliações, registro das oficinas, preparação do material necessário às vivências e dinâmicas, documentação e arquivo das produções dos grupos. A infra-estrutura disponibilizada para o NEPPSO significou um salto da qualidade das condições de trabalho que favoreceram a reorganização do trabalho em equipe. Outro passo importante foi a ampliação do projeto, articulando um grupo na parte da manhã para contemplar aqueles que estudam a tarde. Àqueles que completaram 18 anos e foram desvinculados foi assegurado o direito de continuar participando. Assim, oferecemos aos adolescentes desvinculados da Cruz Vermelha a oportunidade de continuar vivenciando as oficinas em 2004.

Com o aumento da demanda colocou-se a necessidade de ampliar a equipe e outras duas alunas do 3º Período da Psicologia foram integradas como voluntárias, Ambas atuam apoiando a execução das oficinas participam do planejamento e da avaliação das atividades.


Metodologia

De acordo com Rena adota-se neste projeto uma metodologia coerente com os princípios e as concepções da educação libertadora de Paulo Freire.

Entendemos metodologia como um jeito de fazer as coisas; de atuar e interferir na realidade, buscando uma práxis, isto é, um pensar crítico sobre a prática e uma prática que problematiza nossas concepções. Nesta atuação manejamos cuidadosamente uma diversidade de técnica de abordagem e recursos de mediação, que revelam neste jeito de trabalhar com jovens e adolescente, nossa visão de mundo do homem e da história. É um processo didático pedagógico que parte das vivências dos adolescentes, estando sempre valorizando o saber que o sujeito traz consigo.” (RENA, 2003)
Entre as estratégias de registro da está a ficha de avaliação. Ao final de cada Oficina os adolescentes são convidados a expressar suas opiniões sobre a experiência vivida. Esta avaliação ocorre por meio de um questionário, no qual o adolescente pode registrar, sem qualquer censura, as suas opiniões sobre o tema discutido e sobre o projeto em um contexto geral. Não é exigido ao jovem que assine a ficha de avaliação, já que desta forma ele poderá se sentir mais livre para expressar o que realmente pensa. Buscamos, assim, aprimorar nossa intervenção e adequar o PEJ às demandas dos adolescentes.

As oficinas são preparadas de acordo com os interesses manifestados pelo grupo a partir dos cinco eixos previstos no PEJ: “Sexualidade e Saúde Reprodutiva”, “Paternidade e Cuidado”, “Razões e Emoções”, “Violência e Convivência”, “Prevenindo e Convivendo com DST/AIDS”. Esses grandes eixos temáticos coincidem com aqueles propostos pelo material didático-pedagógico do “Projeto H” (2002), obedecendo uma agenda onde a cada semana aborda-se um destes eixos temáticos. Os adolescentes foram chamados a priorizar os eixos e apontar os subtemas que deveriam ser trabalhados a partir de cada um dos eixos temáticos como podemos verificar no quadro abaixo.


Quadro 1 – Pistas para construção dos temas das oficinas.

1.Razões

e Emoções



Os sentimentos gerados pela razão e emoção

Amor, carinho, paixão, solidão, namoro, atração, impulso, stress; sentimentos.

Aquilo que entendemos, aquilo que foge do nosso sentimento. Aquilo que dominamos e aquilo que foge ao nosso grau de dominação, no caso as emoções.

Relacionamento, controle emotivo, certezas de idéias; iniciativa.

Relacionamento

Como ocorrem as razões e emoções?

O que causa a emoção? É reação ou ação.

Sentimentos que as pessoas não entendem em outras.

Falar sobre nossas reações, atitudes. Porque temos emoções, de onde vem a emoção?


2. Sexualidade e Saúde Reprodutiva

O que leva a sexualidade?

Sexo, prevenção.

Como evitar o preconceito em relação à sexualidade do próximo?

Sexualidade responsável, preparando para reprodução.

Conhecendo o corpo.

Higiene, sexualidade X sexo.

Relacionamento

A saúde das pessoas que querem ter filhos.

O que as pessoas pesam a respeito da sexualidade.

O índice de sexualidade entre os jovens e adolescentes já se considera uma coisa normal para pais e mães.

DST’S, convivência familiar e na sociedade.

Explicações: Porque temos que saber sobre a sexualidade e saúde... Porque é importante.



3. Paternidade e cuidado

Cuidado antes e depois com o bebê em prejudicá-lo.

Pais, como é o relacionamento entre você e seu pai. Falar sobre jovens que são pais na adolescência.

As responsabilidades de uma paternidade e os cuidados que ela exige. Como cuidar dos filhos?

Ser um pai responsável, filhos indesejados.

Prevenção; cuidados essenciais com o bebê.

Cuidado pós-parto

Os principais cuidados da paternidade, cuidados que se deve ter com o bebê.

Como saber se está tudo bem com o bebê no período da gravidez.

Cuidado do pai com a criança; assumir os filhos?

Prevenir no sexo para não engravidar a sua companheira; assumir a paternidade ainda jovem.

Como nos darmos com os pais, como agir em relação à dificuldade de comunhão, como ser bons filhos.


4.Violência e convivência

Porque a convivência gera a violência?

Como é a nossa vida na escola, em casa e no trabalho.

Como saber levar o companheiro sem arrogância, como não causar confusão.

A violência urbana e a maneira de conviver com ela.

Brigas, covardia, convivendo em sociedade.

Razões de violência, forma de conviver melhor, convivendo com a violência.

Como evitar, como se relacionar com uma pessoa violenta?

Como conviver com a violência do mundo de hoje?

Como a violência cresce cada dia mais no Brasil?

Violência na sociedade, assaltos.

Como agir contra violência, como ter uma convivência boa com as pessoas?


5. Prevenindo e vivendo com AIDS/HIV

Prevenção

Os cuidados que todos devem tomar, preconceitos, como não cair na besteira de não usar a camisinha.

Convivência respeitosa para com aqueles que estão contaminados pelo vírus HIV.

Cuidados


Formas de contato

Resultados e discussão



Discutindo o masculino e o feminino: narrativa de uma prática de oficina. Selecionamos a oficina em que abordamos o tema masculinidade e feminilidade, com o objetivo de introduzir a discussão sobre o eixo Sexualidade e Saúde Reprodutiva.

A oficina foi iniciada com a explicitação do objetivo e devolução da avaliação da oficina anterior. Para descontração e integração do grupo formamos um círculo para a dinâmica de quebra-gelo, ”Imitando os movimentos”. Um dos colegas deveria fazer um movimento qualquer e o colega à sua direita repetiria tal movimento, assim sucessivamente. Na medida que cada um fosse errando iam saindo da roda. A dinâmica foi assumida com intensidade pelo grupo e cumpriu seu objetivo.

O segundo momento foi a dinâmica do “Corpo de Jovem”, cujo objetivo era propiciar uma reflexão sobre o jeito de viver como homens e mulheres a partir de um diagnóstico participativo, discutindo e analisando as características de gênero que são incorporadas pelos adolescentes.

Os adolescentes foram organizados em dois subgrupos. Um voluntário de cada grupo serviu como modelo para o desenho da silhueta corporal. Isso permitiu a configuração de um corpo de homem em um grupo e em outro grupo um corpo de mulher. Ao grupo que foi solicitado desenhar o corpo feminino houve bastante resistência e dificuldade em obter um voluntário. Havia neste grupo apenas uma garota e percebemos que esta ficou bastante constrangida. Então uma das estagiárias serviu de modelo e a garota do grupo fez o contorno da silhueta, enquanto os demais componentes esperaram, dizendo, após nossa interrogação, que só participariam na segunda parte. Os grupos foram orientados para que caracterizassem os corpos feminino e masculino da forma que desejassem, e que fosse atribuído um nome a cada figura humana. Nomear as figuras significava elevá-las à condição de personagem. (CIAMPA, 2003) Pedimos aos adolescentes que compartilhassem com seu grupo a respeito características mais comuns atribuídas a homens e mulheres. Após algum tempo as estagiárias se distribuíram nos grupos e assumiram a tarefa de conduzir o processo. Os grupos foram convidados a intervir no corpo de suas personagens a partir das orientações oferecidas pelas estagiárias considerando que ali estavam representados os mundos masculino e feminino: o desenho de um balão indicando pensamento a partir da cabeça e incluindo um pensamento típico; partindo da boca um balão da fala trazendo a expressão mais comum; que puxassem do ouvido uma seta e escrevessem algo que gostem de escutar; nos olhos outra seta e a descrição de algo que atrai o olhar; no coração sentimentos e desejos próprios; na mão direita escrevessem o que tem para oferecer; na mão esquerda, o que gostariam de receber; no pé direito colocassem aquilo que consideram como objetivo importante a ser alcançado; no pé esquerdo, um lugar que tem o hábito de freqüentar.

Os integrantes do grupo discutiram bastante sobre o que escrever. O grupo que desenhou o feminino prestava bastante atenção ao que era dito pela garota do grupo a respeito do jeito de ser feminino e na maioria das vezes os argumentos eram aceitos pelos demais. No outro grupo, do corpo masculino, não teve quaisquer problemas, acolheram bem à dinâmica e concordaram com os argumentos dos colegas.

Num terceiro momento os cartazes foram expostos dando início ao debate aberto sobre o tema central daquela oficina. Durante a discussão, os coordenadores evidenciavam os pontos principais e problematizavam algumas colocações dos jovens, sem intervir demais na discussão, já que os jovens direcionaram o debate de acordo com suas demandas. Vejamos as representações, idéias e sentimentos que emergiram durante o trabalho.


Quadro2: Produção / Idéias associadas ao corpo feminino e masculino

O que foi solicitado

Corpo Feminino: Linda

Corpo Masculino: Edy

Pensamento típico

Vaidade, dinheiro, família.

Mulher, dinheiro, emprego, música, divertir, Deus 100%.

Fala mais comum

Eu acho que estou gorda, vou fazer um regime.

Esporte, mulher.


O que gosta de ouvir


Elogios.

Elogios, eu te amo, confio em você.

O que gosta de ver


Coisas caras, homem carinhoso.

A beleza, mulher, carro, mar, paisagens.

Sentimentos freqüentes


Amor, constituir família.

Sempre melhorar, tristeza, alegria, realização, amor, fé, esperança, raiva.

Mão direita, o que tem para oferecer.

Carinho, atenção, compreensão e amor.

Amizade ajuda, prazer, carinho.

Mão esquerda, o que gostaria de receber.

Carinho, compreensão, atenção e amor.

Carinho, confiança.

Pé direito, onde quer chegar.


Felicidade, ser bem sucedido, construir uma família.

Sucesso profissional, família, casa própria, sítio, carro, filhos, formar, controlado financeiramente.

Pé esquerdo, lugares que gosta de ir.


Shopping, restaurante, parque, viagem para praia, cinema, loja de roupa, trabalhar, estudar.

Igreja, show, quadra, shopping, pista de skate, ir na casa da namorada.

Ao iniciar o debate houve muitos risos e brincadeiras. No momento em que um representante de cada grupo começou a ler sobre o que tinham escrito em determinadas partes, surgiu uma discussão bastante interessante. Alguns pontos da discussão receberam maior atenção, uma vez que evidenciavam os pré-conceitos que estão presentes em nossa sociedade. Alegaram que os homens e mulheres são muito diferentes e que os homens tem um pensamento mais racional e as mulheres mais sentimentais. Disseram ainda que as mulheres conseguem administrar melhor os sentimentos; que os valorizam mais, enquanto os homens valorizam o momento. No que se refere ao ouvir, chegaram à conclusão que homens e mulheres gostam de ouvir elogios.

O debate desencadeou ainda uma espécie de desabafo de um dos adolescentes, que disse que a beleza não é mais importante que os sentimentos. Além disso, também foi levantada a questão de que mulher gosta de coisas caras. Segundo os próprios adolescentes, mulher não namora e nem casa com alguém que não tenha dinheiro para lhes sustentar, no sentido de que gostam de roupas caras, restaurantes caros e de viagens. Entretanto, este comentário foi logo refutado pelos próprios colegas da pessoa que levantou a questão, alegando que homem também gosta de coisas caras. Segundo a garota do grupo, mulher não gosta é de homem que além de não ser bem financeiramente, não se esforça para melhorar de vida. Um dos participantes deixou evidente que as mulheres não são interesseiras, tanto os homens como as mulheres buscam alguém que lhes dê expectativas boas de vida.

A idéia de que a mulher não pode fazer “certas coisas” pois é mal vista perante os outros e que os conceitos sociais em relação aos papéis do homem e da mulher, estão mudando ao longo do tempo foi alvo do debate. Este é um fator que chamou atenção pelas colocações machistas e preconceituosas feitas por alguns dos adolescentes. Um dos participantes levantou a questão do “ficar”. Segundo ele, nunca namoraria uma garota que fosse considerada “galinha”. Nesta oportunidade, questionou-se o que seria para ele uma garota “galinha”. Este afirmou que é aquela garota que “fica” com muitos meninos e que quando sente atraída por um deles, toma a iniciativa. A única mulher do grupo, logo se pronunciou em defesa das mulheres e disse que se uma menina “fica” com vários meninos, esta é considerada “galinha”, em contraposição, se um menino “fica” com muitas meninas, este é considerado “garanhão”, não é julgado pela sociedade, já que esta considera o fato normal. O interessante é que todos concordaram com esta afirmação feita por ela. Os adolescentes reconhecem que homens e mulheres não estão em níveis igualitários socialmente. Afirmaram, também, que no grupo feminino se houvesse mais mulheres o desenho seria menos machista, pois acreditam que não seriam expostas algumas questões, por exemplo, a forma como foi feito o desenho.

Após esta oficina podemos perceber que estes adolescentes incorporaram uma série de preconceitos socialmente construídos ao longo dos séculos, e muitas vezes nem percebem que os estão reproduzindo. Portanto, a oficina também se mostra importante neste contexto como espaço de problematização e denúncia destes preconceitos. Entendemos que estamos contribuindo para a construção de uma nova atitude masculina diante da vida que supere esta lógica da dominação. (RENA, 2001)

Foi estabelecida uma extensa discussão em torno desta temática. No decorrer da apresentação das produções, dois adolescentes se destacaram pela capacidade de polemizar a experiência: o adolescente que participou da construção do corpo masculino e a adolescente que participou na construção do corpo feminino. Esta única mulher do grupo se destacou durante toda a oficina, devido às suas colocações bem estruturadas e convincentes.

Ao término da oficina, acreditamos que o grupo acolheu bem à tarefa dada e apesar de no princípio terem revelado pensamentos conservadores, não apresentaram resistências ao ouvir e muitas vezes acatar a opinião do outro, mesmo quando estas são contrárias as suas. A importância da oficina se evidenciou ao analisarmos as fichas de avaliação feita pelos jovens. A grande maioria destacou que homens e mulheres, mesmo sendo diferentes fisicamente, se completam, por isso devem ter os mesmos direitos.

Podemos perceber através das avaliações que houve uma reflexão efetiva a cerca do tema proposto. A participação dos adolescentes neste projeto tem favorecido a ampliação dos conhecimentos e o acesso à informação relevante para o crescimento pessoal. Através das experiências compartilhadas no grupo criam-se possibilidades para uma escolha mais consciente na vida, levando a amadurecimento pessoal. O grupo identificou que o momento mais agradável da dinâmica foi quando os participantes trocaram idéias a respeito das características femininas e masculinas. Muitos afirmaram que foi de grande valor ouvir o que os outros pensavam e tinham a dizer. A interação do grupo favoreceu o alto grau da discussão, pois as diversas opiniões e saberes acrescentaram conhecimento ao grupo.


Conclusões

A prática de extensão tem fundamental importância no processo de formação acadêmica do psicólogo, pois se tem a oportunidade de confrontar na prática os conteúdos que são oferecidos como teoria. Vale ressaltar, também, que o estágio no interior de uma prática de extensão intra-muros se configura como oportunidade impar de inserção diferenciada e de qualidade do aluno no espaço sócio-institucional da universidade.

A inserção do aluno no PEJ propicia situações reais no contato direto com adolescentes mobilizando a reflexão e a construção de um estilo próprio de intervenção. O trabalho com uma equipe onde o professor não tem formação clínica suscita a discussão sobre as diferentes possibilidade de conduzir o trabalho com os adolescentes, sendo importante para a formação este intercâmbio de informações e outro profissional. A supervisão sistemática se constitui em oportunidade de capacitação para o exercício profissional, no que se refere à apropriação dos instrumentos de intervenção psicossocial e pedagógico.

Tal ação proporciona momentos de crescimento, uma vez que discutimos questões referentes à percepção dos fatores que vêm favorecendo, impedindo ou dificultando a comunicação com a equipe e entre os adolescentes. O espaço de supervisão privilegia a reflexão, o acompanhamento e a sistematização da experiência de estágio.

O desenvolvimento deste projeto implica uma compreensão crítica da Psicologia, onde saúde é definida:

(...) através da compreensão de que fatores relacionados ao modo de vida dos homens estão atuando de forma direta nas reais possibilidades de uma vida saudável ou não. A concepção de saúde é ampliada para além dos limites de ausência de saúde e está ligada a vários aspectos presentes na vida do homem, como moradia, lazer, educação, trabalho, etc”. (CONTINI, 2002, p.13)


O desenvolvimento pessoal e social de jovens nos remete ao processo de crescimento na direção da melhoria de qualidade das relações do jovem consigo mesmo, com o outro, com os grupos dos quais participa, com a natureza e com o mundo. O trabalho a partir das dinâmicas de grupo nos auxilia, uma vez que se constitui um instrumento facilitador do processo grupal por desenvolverem a capacidade de ouvir, falar, comunicar-se, conviver através do lúdico e da expressão criativa. Estas são um recurso pedagógico, ou seja, um meio, e não um fim em si mesmas. A função do educador é de ser agente de transformação. O psicólogo está cada vez mais engajado no social, em que tem a responsabilidade com a comunidade, colocando seu saber a este serviço. (NASCIMENTO, 2003) Como profissional, buscamos a otimização da qualidade de vida das pessoas através da consideração dos fatores emocionais, que agem contra ou a favor do seu bem estar psíquico.
Referências bibliográficas

AFONSO, Lúcia. A polêmica sobre adolescência e sexualidade. Belo Horizonte: Edições

do Campo Social, 2001.

CIAMPA, Antônio. A identidade como metamorfose humana em busca de emancipação: articulando pensamento histórico e pensamento utópico. In 29º Congresso Interamericano de Psicologia. Lima, 2003. Anais San Juan SPP, 2003.

CONTINI, Maria de Lourdes J.A adolescência e psicologia: práticas e reflexões críticas. In CONTINI, Maria de Lourdes J. e KOLLER, Sílvia H. (org.) Adolescência e Psicologia: concepções, práticas e reflexões críticas. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Psicologia, 2002.

NASCIMENTO, Rubens F. Pesquisa-ação e oficinas psicossociais: recursos metodológicos de trabalho social-comunitário. In AFONSO, Lúcia et alli (org.) Psicologia Social e Direitos Humanos. Belo Horizonte: ABRAPSO MG/Edições do Campo Social, 2003.

OZELLA, Sérgio. Adolescência: uma perspectiva crítica. In CONTINI, Maria de Lourdes J. e KOLLER, Sílvia H. (org.) Adolescência e Psicologia: concepções, práticas e reflexões críticas. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Psicologia, 2002.

PROJETO H: série trabalhando com homens jovens: cadernos 1,2,3,4,5. Instituto Prómundo (coord.).S.Paulo; Três Laranjas / Rio de Janeiro: Instituto Prómundo

RENA, Luiz Carlos C. B. Sexualidade e adolescência: as oficinas como prática pedgógica. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

RENA, Luiz Carlos C. B. Projeto Entre Jovens: projetos de vida em discussão. Projeto de Extensão. (mimeog.) PUC Minas – Betim, 2003.



RENA, Luiz Carlos C. B., PACHECO, Éser e KAITEL, Alexandre. Projeto Institucional do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psicologia e Processos Sociais - NEPPSO. (mimeog.) PUC Minas
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