Ética – Ética ética


Ética como respeito e misericórdia



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Ética como respeito e misericórdia

A cultura ocidental sofreu duas influências poderosas. Primeiro foi a filosofia dos gregos, e depois a religião dos judeus, que através do cristianismo, ajudou a fundar o que chamamos de civilização judaico-cristã. Enquanto a ética de comportamento dos gregos se instaura a partir do século V a.C., a ética da misericórdia dos judeus é encontrada a partir do século XII a.C.


A cultura hebraica forma uma base para a nossa civilização ocidental, que proclama o império do bem, da justiça, da moral e da ética. A lei judaica, estatuída na Torá, os cinco livros básicos, Gênesis (bereshit), Êxodo (shemôt), Levítico (waiqrá), Números (bamidbar) e Deuteronômio (debarim), está repleta de gnomas morais, capazes de inculcar no povo uma conduta ética de urbanidade e solidariedade. Além da Torá, encontramos vários preceitos morais em outros livros, como nos proféticos (nebiim) e nos sapienciais (ketuwim).
A grande tônica da cultura judaica é a hesêd , que se pode traduzir por atos de misericórdia, solidariedade, cuidados. A hesêd tanto é devida às pessoas como também à natureza, pois tudo é criação de Deus. Nessas águas também surge a sedāqāh  que é uma forma de justiça, humana, social, coletiva e em favor da ecologia. Tudo é fruto da mišpat, , o direito, os mandamentos, a lei divina. Nesse conjunto surge a coerência, a verdade, êmmet, , como fruto de toda a ética que Deus prescreveu aos homens, quando estabeleceu a sua bêrit, , a aliança do Sinai.
Além desses termos, ainda vamos encontrar dachei shalom (caminhos da paz) e kidush Hashem (santificar o nome de Deus). Nos livros Gn 12, Ex 2,3 cap. 20 vv 2-6, Lv 18, 6-22 e outros da Torá (Pentateuco) percebe-se que eles são, de certa forma, parâmetros ético-morais que ainda vigem em nossa sociedade.
A Torá, como conjunto da lei, é apreciada com tantos e incontáveis exemplos de ética social a partir do religioso, dando uma visão de qual caminho o judeu deve seguir e de como deve agir durante os anos de sua vida: ser o espelho de Deus aos olhos do mundo. Nesse aspecto, ser religioso significa ser uma pessoa que privilegia a ética em uma prática de atos justos e bons. Um judeu sem ética, dizem seus manuais humanistas, não é considerado observante nem religioso, e apesar de cumprir as exigências das leis do judaísmo entre o homem e Deus, enquanto permanecer não-ético não chegará a entender que seu Criador rejeita os indivíduos que agem de forma imoral.
Um princípio básico da mensagem moral transmitida por Deus ao povo judeu é de que somos responsáveis uns pelos outros. Na ética judaica, afirmam seus maiores expoentes, é proibida a indiferença aos sofrimentos dos outros. Lemos no Livro do Levítico que “não desconsideres o sangue do teu próximo” (19,16). Para a ética judaica, a pobreza não é um problema apenas dos pobres, mas de todos. Em seus escritos, o rabino Leibowitz observa que os profetas dizem: “Não haverá pobres entre vós”. Não estão dizendo o que irá acontecer, mas o que deveria acontecer. Sua voz não é de oráculo, senão de exigência moral. Para que não haja pobres, a sociedade deve tomar algumas medidas. Diante daqueles que, na América Latina, atribuem a pobreza dos pobres a eles mesmos, o judaísmo se revolta porque considera tal atitude uma injustiça.
Esta mensagem foi recentemente incorporada à Carta dos Direitos Humanos da ONU. Entre estes, foram incluídos os direitos básicos do homem a não ser pobre, à alimentação, à saúde, à educação, ao trabalho, à moradia entre outros. A partir de agora estes são direitos essenciais do ser humano, embora proclamados há milênios pela ética judaica. O Rabino Abraham Heschel diz que ajudar é simplesmente “o modo de viver correto”. O prêmio está em viver-se desta forma. A força destes conceitos no judaísmo, seu contínuo ensinamento no âmbito familiar e na escola judaica assentaram as bases para grandes resultados em matéria de trabalho voluntário.
Os países estão tentando dar forças ao voluntariado e vêem com crescente interesse os bons resultados. Nas sociedades latino-americanas, entre outras, adota-se com freqüência políticas que sabidamente irão significar grande sofrimento para a população, com o argumento de que “o fim justifica os meios” e que são necessários para que haja maior crescimento econômico. A ética judaica não aceita tal raciocínio. Na Torá pode-se ler textualmente que “o fim não santifica os meios”. Refletindo sobre esta diferença, o grande cientista Albert Einstein perguntava “Quem havia sido o melhor condutor dos homens, Maquiavel (autor original do princípio de que o fim justifica os meios) ou Moisés? Quem teria dúvidas sobre a resposta?”.
A partir da ética judaica centrada na misericórdia, na atenção ao outro e da solidariedade instaurou-se no mundo a moral cristã, que nada mais é que o seguimento a alguns preceitos universais, a partir dos seis dias da Criação, quando Deus antes de recomendar ao homem que dominasse a terra e zelasse por ela (cf. Gn 2,15), “viu que tudo era muito bom” (cf. Gn 1,31). Dali para a frente a maioria dos textos enfoca o cuidado, a misericórdia e a atenção. São inúmeros e ricos os textos das Sagradas Escrituras contra a opressão, a ganância e a exclusão dos mais fracos. Em todos há advertências em favor da ética da misericórdia.
A terra não poderá ser vendida para sempre, porque ela me pertence e vocês são para mim hóspedes e posseiros (Lv 25,23).
A cada dez anos (no ano do jubileu) o comprador liberará a propriedade para que esta volte ao seu próprio dono (Lv 25,28).

Não façam acepção de pessoas; no julgamento escutem de maneira igual o grande e o pequeno (Dt 1,17).

Não roube (Dt 5,19).
Não deseje para você a casa de seu próximo, nem o campo, nem o escravo, nem o boi, nem o jumento nem coisa alguma que lhe pertença (Dt 5,21).
O Senhor faz justiça ao órfão e à viúva e ama o migrante, dando-lhes pão e roupa (Dt 10,18).
Não explore um assalariado pobre e necessitado. Pague-lhe o salário justo, porque ele é pobre e sua vida depende disto (Dt 24, 14-15).
Há quem dá generosamente, e sua riqueza aumenta ainda mais. Há quem acumula injustamente, e acaba na miséria (Pv 11,24).
Não desloque a divisa da terra, nem invada o campo dos fracos. O defensor dele é Forte e defenderá a causa deles contra você (Pv 23,10)
Morte e abismo são fossas sem fundo. Da mesma forma a ambição humana (Pv 27,20).
Meu filho, não recuse ajudar o pobre e não seja insensível ao olhar dos necessitados. Não faça sofrer aquele que tem fome nem piore a situação de quem está em dificuldade. Não perturbe mais ainda quem está desesperado, e não se negue a dar alguma coisa ao carente. Não desvie o olhar daquele que lhe pede alguma coisa, e não dê ocasião para que ele o amaldiçoe com amargura, pois aquele que o criou atenderá ao pedido dele (Eclo 4, 1-6).
Quem semeia nos sulcos da injustiça colherá desgraças sete vezes mais (Eclo 7,3).
Quem ama o ouro não se conserva justo, e quem corre atrás do lucro com ele perecerá (Eclo 31,5).
No sétimo ano a terra deve descansar. Você não semeará o campo nem podará a vinha. Será um ano de descanso da terra (Lv 25,4).
Quando estiveres ceifando e esqueceres atrás um feixe, não voltes para apanhá-lo. Deixe-o para o migrante, o órfão e a viúva (Dt 24,19).
Eis que coloco a tua frente dois caminhos: o bem e o mal. Escolhe o bem e viverás (Dt 30,19).
Ao encerrar este tópico, valemo-nos de um fragmento de São Paulo, tirado de uma de suas cartas (ao povo de Corinto) que nos adverte quanto à ética da misericórdia e ao desvelo aos carentes:
Vocês que são ricos na fé, na palavra e na ciência, tornem-se também ricos na generosidade. Vocês conhecem a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, se fez pobre por todos, a fim de enriquecê-los com sua pobreza. Pois não se trata de aliviar os outros à custa da pobreza de vocês, mas que, com eqüidade, a fartura de vocês supra a carência dos outros, para eles, por sua vez, aliviarem a penúria de vocês, pois está escrito: “Nem quem muito recolheu, tinha em abundância, nem quem pouco recolheu, sentiu falta” (cf. 2Cor 8,7-15).





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