Texto proposto pelo companheiro Everaldo Scaini, do Rotary Clube de Araranguá (D. 4651)



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Texto proposto pelo companheiro Everaldo Scaini, do Rotary Clube de Araranguá (D.4651)

em 08 de junho de 2014

RIR É INTERESSANTE?

Texto propositivo ao Rotary Club Araranguá, mantenedor do Asilo São Vicente de Paulo.

Dos tantos episódios que ocorrem em nossos dias, alguns nos interessam notadamente. Sobre eles, por vezes, criamos curiosidades a serem contentadas, eis que nos chamam a atenção. Nesses casos, comumente nos esforçamos para ter a satisfação de desvendar o que a eles sejam inerentes, procurando algo que bem elucide o que queremos compreender. Um destes fatos incontestes é a compreensão do riso que vem instigando o homem desde tempos imemoriais. Quem sabe, não sejamos dos mais sapientes para escrever sobre um assunto tão complexo mas, diligentemente, procuramos por informações que ajudassem. Vejamos em decorrência, alguns aspectos atrelados ao riso, se ele é interessante, se o devemos provocar ou evitar.

Basilarmente, as explicações sobre a formação do riso nos dão conta de que, diversas regiões cerebrais participam do riso. O ato de rir seria provocado por um mecanismo no tronco encefálico. O intrigante é que essa região, a primeira a ser formada no sistema nervoso dos nascituros, é que regula funções fundamentais no organismo humano, como na proliferação de seus genes. Ressaltemos outros aspectos do riso como os humores sutis e os vaivéns coloquiais que estão atrelados ao lobo frontal que por sua vez surge em estágios ulteriores na formação do cérebro. De outro lado, um dos aspectos interessantes, propiciado pelos estudos sobre o riso, seja o obtido pelos novos equipamentos, como nos exames de ressonância magnética, os quais tem mostrado essa região iluminada, quando uma pessoa acha um fato engraçado.

Por outro enfoque, se atualmente temos essa compreensão de que o riso seja interessante, nós verificamos inúmeros detratores ao longo dos séculos. Consultando o livro “O Riso e o Risível na História do Pensamento”, de Verena Alberti, constatamos que muitos pormenores nele estão inseridos. Temos então que nos áureos tempos da civilização grega, por exemplo, Platão, num trecho do diálogo Filebo, quem sabe a mais antiga formulação teórica sobre o riso e o risível, o assinalou como um prazer associado à dor, ligado frequentemente à zombaria. Aristóteles apontou o riso como provocador de feiura, contrário ao decoro. Citou ainda Aristóteles: "O gracejo é uma injúria repleta de ânimo, e essa injúria consiste em desonrar a outro para nosso próprio divertimento, de modo que o riso é sempre expressão de nosso desprezo". Dentre os romanos, nos deparamos em dois tratados retóricos pertinentes. Um deles situado entre os parágrafos 216 e 291 do livro II, De oratore de Marco Túlio Cícero, chamado “De ridiculis” e o terceiro, do livro VI da Institutio Oratoria de Marco Fábio Quintiliano denominado “De risu”, com o entendimento de que o riso tivesse impregnação com o negativo. Quanto à igreja católica, na idade média, ela chegou a considerar o riso como uma manifestação diabólica, explicando que o diabo gargalhava quando se apossava de uma alma. Os entendimentos na igreja mudaram, mas continuou-se a admitir por um bom tempo, o riso como um estágio doentio, um problema mental. Nem todos os cristãos, no entanto, tiveram esse entendimento. São Francisco de Assis, já definiu que um santo triste seria um triste santo. Corroborando esse entendimento, São Tomas More pedia aos céus o senso de humor para extrair alguma felicidade da vida e compartilhá-la com outras pessoas. De certo modo, reservas ainda existem e mesmo nos dias de hoje, o riso é considerado incongruente com a sacralidade implícita a um templo.

Na Renascença, o humor passou a ser compreendido de forma diferente. A medicina desvendou desde o século 16 as estruturas fisiológicas do riso, como a admiração e o espanto, e transformou a abordagem psicológica do pensamento humano. As modificações começaram com humanistas como Baldessare Castiglione (1478-1528), em seu "O Cortesão" (ed. Martins Fontes), de 1528, Rabelais, em seu "Pantagruel", de 1533, que lhe atribuiu um valor terapêutico, apregoando que o riso fosse próprio do ser humano. Juan Luís Vives, analisou o riso em "De Anima & Vita", no ano de 1539. Erasmo foi pródigo em recomendações favoráveis ao riso. Descartes, o considerou como uma das principais manifestações da alegria, quando analisou o lugar do riso entre as emoções, em sua última obra, "As Paixões da Alma" (ed. Martins Fontes), de 1648. Hobbes também discorreu sobre o riso em "Os Elementos da Lei" e no "Leviatã". Espinosa (1632-1677) lhe conferiu uma função mística, percebendo no riso uma extensão de nossa natureza divina, defendendo o valor do riso no livro 6º de a "Ética", e Henry More, seguidor de Descartes, em seu "Account of Virtue" (Descrição da Virtude). Registremos além desses que também Kant, Schopenhauer, Spencer, Darwin, Bérgson, Schaftesbury, Bataille, Pirandello, Bakhtin, Baudelaire, Fromm, Jung, se manifestaram favoravelmente sobre o riso, todos com argumentos bem interessantes. Trazemos à baila Nietzsche, que no final de seu livro "Além do Bem e do Mal", assim escreveu:

"Eu iria ao ponto de me aventurar a classificar os filósofos segundo o escalão de seu riso".

Um entendimento no entanto, de que o sorriso expressasse amor e o riso escárnio, perdurou por muito tempo.  Interessante para nós é que no romantismo brasileiro, o humor manifestou-se no teatro, na poesia e no romance, num desprezo ao riso. Atualmente, tivemos mudanças impressionantes e o riso vem sendo muito enaltecido com o aceite de que proporcione inúmeros benefícios, tanto no plano físico, quanto no psicológico ou no espiritual. Consideremos alguns deles:

Quem sabe um dos argumentos mais contundentes, ao aceite dos benefícios do riso seja o que nos foi oferecido pelo autor, professor e jornalista Norman Cousin, pelos anos 60, que em suas inferências teria ficado curado de uma doença grave pelo riso. Quando a medicina já vaticinava a sua morte, ele a afrontou com o riso e se constituiu em testemunha eloquente da veracidade da cura proporcionada pelo riso. Bem disposto a escapar da morte, tomou a decisão de só pensar em coisas alegres, numa predisposição permanente para assistir filmes cômicos, para comédias, tendo concitado a todos os que o visitavam a que contassem anedotas, criando uma ambiência favorável a uma terapia através do humor. Depois de experiências, verificou que 10 minutos de riso aliviavam suas dores e que, em seguida, conseguia dormir por duas horas contínuas. Sequencialmente, escreveu sua história por uma dezena de anos depois de alcançar a cura, tendo se tornado uma referência da terapia do riso, do humor, da descontração. Para ele, ninguém sabe o bastante para ser um pessimista. Suas ilações foram alvo de estudos aprofundados e hoje há concordância inequívoca de que o riso provoca um fortalecimento do sistema imunológico, ajuda nos desempenhos cardiovasculares, além de provocar a excreção de endorfinas (chamados de hormônios da felicidade, sendo mais precisamente as betas endorfinas, que são substâncias analgésicas similares às morfinas, mas com potência analgésica cem vezes maior). Elas reduzem a dor e aumentam a oxigenação do sangue, relaxando as artérias, baixando a pressão arterial, acelerando o coração. Temos a informação de que hospitais criaram salas de riso, onde filmes hilários são projetados, cômicos e humoristas dão espetáculos rotineiros, publicações humorizadas são disponibilizadas, chegando até a criar a mesma atmosfera em quartos de pacientes com dificuldade ou impossibilidade de deslocamento. Consideremos, em ratificação ao apresentado, o enunciado do médico Eduardo Lambert:

“Ao rir você vai ter uma proteção cardiovascular, uma proteção vascular contra anginas, contra infartos, contra derrames e doenças vasculares. Não só a nível cardíaco como a nível cerebral. Porque o riso permite um relaxamento que ajuda a normalizar a respiração arterial. Se as pessoas tivessem o hábito de rir várias vezes ao dia, estariam amenizando a descarga de adrenalina no organismo e permitindo uma descarga de endorfinas”.

Inquestionavelmente, o riso faz bem tanto para o corpo quanto para a mente. Cada um de nós pode ser uma testemunha de que ao estarmos entristecidos, um filme cômico, um espetáculo humorístico, momentos de descontração tendam a provocar alterações expressivas em nosso ânimo. Observemos o que sobre isso nos legou o Dr. Christian Tal Schaller, fundador do Instituto de Saúde Global da Taulignan.

“ A emoção é uma energia que se deve manifestar no físico pelos gritos, os choros, a dança, o riso ou, na falta disso, pela doença”.

Apoiando esse entendimento, temos Nicolas Chamfort. Foi um dos escritores mais apreciados nos salões parisienses antes da revolução de 1789, eminência parda de Talleyrand e de Mirabeau, para quem redigia incontáveis discursos e relatórios. Espirituosamente dizia que é melhor sorrir do que ficar doente, propondo que se colocasse em prática o seguinte exarado:

“O dia mais perdido é aquele em que não se riu”.

Em prossecução aos argumentos defensores do sorriso como terapia, recolhemos a experiência do renomadíssimo Doutor Raymond Moody, psiquiatra, psicólogo, parapsicólogo e filósofo norte americano, verbalizador do quadro clínico de uma menina catatônica que não pronunciara uma palavra em seis meses, Quando um palhaço que visitava o hospital em que estava, entrou em seu quarto que tinha um boneco que o representava, a menina ficou tão deslumbrada que pronunciou o seu nome e continuou a falar.

Em termos psicológicos o riso também é apontado como alguma coisa que não pode ser reprimida. A terapeuta Lyliane Cortadellas declarou que toda pessoa adulta conserva-se pseudo-adulta, retendo em estado adormecido um ser cheio de riso, de alegria, de confiança, de meninice, confundindo o sério com o triste que estaria continuamente esperando por momentos de descontração. Nem todas as pessoas, no entanto, são capazes da atitude humorística. Numa observação aos escritos de Freud encontramos que, para ele, provocar o riso se constitui num dom raro e precioso. Sigmund Freud, “O humor”, 1927).

Como examinamos, através dos tempos há uma profusão de sapientes que fizeram do riso uma norma em suas vidas. Citamos mesmo a Naham de Bratslav, um rabino, músico e teólogo judaico da Ucrânia, o pai do Hassidismo de Braslav no século XVIII, que se divertia com palhaçadas para sorrir, impedindo seu ego de se comprazer com a importância e as honras que lhe eram habitualmente conferidas.

Também no mundo oriental o riso é deferenciado. O Zen Budismo ensina a compreender o eu interior com um expectador risonho que visualiza ironicamente as inconsequências do eu exterior. Para os lamaístas do Tibete o humor seria uma forma de enganar a censura e portanto provocar alívio e o riso. Os kardecistas são constantes em recomendar o riso. A Carta dos Mahatmas, uma obra filosófica profundamente oculta, escrita pelos mahatmas Koot Hoomi e Morya está plena de sábios que desenvolveram faculdades subjetivas e que se distinguem por manter um singular senso de humor. Mahatmas são apontados como seres iniciados de altíssimo conhecimento e erudição. Quanto ao assunto observemos também o que nos legou Confúcio:

“Um dia sem riso é um dia desperdiçado”.

Com isso, nós do Rotary Club Araranguá, tendo responsabilidades com nosso asilo, certamente devemos considerar outras alternativas, além do riso. Podemos, por exemplo, constatar que no mundo, todos os dias falecem velhos que inutilmente tentavam continuar a viver, mas tendo perdido a saúde de um órgão ou glândula, esse passou a interferir em todo o sistema e ceifou sua vida. Noventa por cento de nossas doenças teriam origem psíquica. O homem é um ser holístico e em consequência, todas as variáveis são interagentes. Assim, dentre as alternativas preventivas da saúde, o riso parece inquestionável no prolongamento da vida mas, nessa holicidade podem estar incluídas outras variáveis a serem respeitadas ao mesmo tempo. Nossa saúde, nosso equilíbrio, nossa alegria, todas estão atreladas a implicações clínicas, metafísicas, morais, financeiras, geobiológicas, ao mundo das formas urbanísticas e arquitetônicas.

Temos também como fundamental que uma dieta, destinada especialmente ao rejuvenescimento não deve ser negligenciada. Quanto a isso Hipócrates, o pai da medicina recomendava: “Que a alimentação seja o teu único remédio”. Apoiando essa afirmação Gayelord Hauser assegurou: “Uma dieta destinada principalmente ao rejuvenescimento é o que importa”.

A fisioterapia, a terapia prânica, do mesmo modo, não podem ser descartadas. Também o yoga, quem sabe o melhor método de defesa contra a decrepitude, restaurando as condições ideais de funcionamento dos órgãos ou impedindo sua enfermidade, do mesmo modo o seja, evitando a prisão de ventre por vísceras intoxicadas, facultando o rejuvenescimento das artérias, permitindo uma coluna vertebral flexível. Também, há ciência de que a ginástica não deva ser inócua no plano psíquico e por isso o yoga é importante. Rememoremos ainda, que aos anciãos são recomendados largos períodos de relaxamento, de boa música, de passeios, de sessões contínuas de yoga, de exercícios físicos, de atividades criadoras suaves, eis que o potencial criativo da mente humana, mesmo nos dias senis, a isso permite. Mas, nosso propósito é objetivamente, o riso e os benefícios incomensuráveis de sua provocação.

Em termos abrangentes, entendemos que o riso possa ser provocado também em casas de recuperação, em residências, em hospitais com possibilidades francas de sucesso, como os demonstrados através do sensibilizante filme “Patch Adams – O Amor é Contagioso”, baseado em fatos vividos pelo médico americano Hunter Adams. Assim, diante dos tantos argumentos expostos, como mantenedores de um asilo, podemos bem depreender que seja um dever nosso, um aprimoramento contínuo para cuidar do humor de nossos internos, cultivando a felicidade deles e pelo que dela resulta. Como a mente influencia o corpo a partir da imaginação, precisamos evitar que tenham emoções e pensamentos negativos, interferindo em suas vidas. É que tudo parece acontecer segundo as leis de causa e efeito. Quem pensa em coisas alegres seu corpo as reflete com saúde. Quem pensa em coisas negativas tende a ter como resultado a doença. Assim, para o estabelecimento de uma política do humor aos nossos internos, quem sabe os consultemos rotineiramente sobre o que gostam, sobre o que os estaria estimulando ou deprimindo. É que toda pessoa tem sonhos, tem fantasias e nós temos que renovar seus sonhos, rebuscar fantasias, libertar a imaginação. O entendimento é que desenvolvendo a serenidade, a bondade e a gentileza, nós estaremos promovendo neles o prazer em viver. Assim, nossa proposta é de que tentemos melhorar a qualidade de suas vidas. Que nos adequemos ao apresentado, detalhando e verificando o que pode ser feito, incluindo em nosso calendário o que for julgado plausível. Se tivermos que mudar alguma coisa que mudemos, eis que a vida é entendida como dialética desde Heráclito, ou seja, as coisas invariavelmente mudam por si mesmas ou pelas outras.

O que justifica e deve nos deixar felizes num trabalho assim é que ele se constitui em sinal inequívoco de cidadania. Se, por nossos trabalhos, eles viverem um mundo novo a cada dia, reabrindo as janelas da inteligência, nós certamente estaremos fazendo um trabalho gratificante. De outro modo, se efetivamente o clube adotar os critérios propostos, que visam a manutenção de nossos idosos como pessoas felizes, nós provavelmente estaremos nos auto realizando. Assim, se houver aceite, ajamos para que eles se sintam bem. Nosso único dispêndio será o engajamento. Solidarizar-se nada custa e ajuda muito. Unamo-nos pois, em provocar decididamente o sorriso de nossos parceiros da vida, que hoje dependem de ajuda. Com agradecimentos pela consideração ao sugerido.

Everaldo Scaini.




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