Temperamento e sua importância para o manejo de bovinos de corte



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Temperamento e sua importância para o manejo de bovinos de corte

André A. Souza e tatiana ichioka ferreira


Temperamento é um conceito antigo em psicologia, mas apenas recentemente passou a ser tratado como uma característica de interesse na produção de bovinos (Paranhos da Costa, 2003). A forma como um animal é manejado desde muito jovem tem um efeito muito significativo em sua resposta psicológica a futuros fatores estressantes. O manejo rude pode ser pior e, mais estressante para animais com temperamento excitável, arredios, quando comparado com aqueles com temperamento mais calmo, mansos, afetando desta forma características de interesse econômico, como o ganho de peso e a qualidade final da carne produzida.

Animais cruzados Brahman, possuem níveis de cortisol mais elevados quando presos no box de atordoamento, apresentando aumento da pressão arterial e depressão do sistema imunológico quando comparados com animais das raças de origem inglesa, submetidos a mesma situação de manejo. As reações comportamentais dos animais, como a tendência de fuga ou de agressão, desempenharam importante papel na definição daquele que será ou não domesticado pelo homem.

Nos últimos anos, pesquisadores e pecuaristas voltaram sua atenção para esta característica, avaliando-a através do comportamento dos bovinos frente a situações rotineiras de manejo, como pesagem, contenção em tronco para vacinação, vermifugação entre outras práticas.

Segundo Paranhos da Costa, "há várias justificativas para nos preocuparmos com esta questão e todas elas partem da pressuposição de que a característica, "temperamento", contribui para a otimização do sistema de produção, pois medo e ansiedade, são estados emocionais indesejáveis nos animais domésticos, resultando em estresse e conseqüente redução de seu bem-estar. Tornando-se, portanto, uma característica com valor econômico, pois o manejo com animais agressivos implica em maior estresse, maiores custos em função da necessidade de maior número de peões, riscos em relação à segurança dos trabalhadores, maior tempo despendido com o manejo dos animais em práticas rotineiras nas propriedades, necessidade de melhor infra-estrutura de manejo, perda de rendimento e qualidade da carne devido a contusões e estresse no manejo pré-abate e na diminuição da eficiência na detecção de cio em sistemas de produção que utilizam de inseminação artificial".



Trabalhos revelam que é possível modificar a intensidade dessas reações através de seleção, baseando-se na própria história da domesticação e, em pesquisas que encontraram valores moderados de herdabilidade (Tabela 1). Além disso, há também a possibilidade de atuar através do manejo, promovendo o "amansamento" dos animais por meio dos processos de habituação e de aprendizado associativo (condicionamento).

Tabela 1. Coeficientes de herdabilidade para "temperamento" em algumas raças de bovinos


Pesquisas sobre as características de comportamento animal lançam mão da aplicação de escores de "temperamento", realizado através da observação de comportamento do animal quando submetido a uma determinada situação de manejo, por exemplo: quando um animal está sendo submetido à pesagem ou à contenção no tronco ou na seringa, podendo classificá-lo de acordo com suas reações (intensidade e freqüência de movimentos, respiração, vocalização, defecação, etc.) (Paranhos da Costa, 2003).



Com os valores nas escalas nominais variando de 3 a 10 os níveis de escore, sendo que os menores níveis representam animais mansos e os mais elevados, animais mais agressivos. Outra possibilidade seria a utilização de variáveis contínuas, usualmente medindo-se à distância de fuga (distância mínima que o animal aceita a aproximação de uma determinada pessoa) e/ou a velocidade com que os animais percorrem uma determinada distância (geralmente durante o manejo no brete ou saída da balança). Esta medida é obtida com a utilização de um equipamento ("flight speed") constituído de dois conjuntos de células fotoelétricas instaladas em paralelo, ao passar pelo primeiro conjunto o equipamento detecta a presença do animal e aciona um cronômetro, que é interrompido quando o animal passa pelo segundo conjunto. Assim, registra-se o tempo que cada animal levou para percorrer a distância que separa os dois conjuntos de células fotoelétricas. Os animais mais rápidos são considerados mais reativos ou com tendências menos desejáveis para determinado fim.

Tabela 02. Escores de "temperamento" de acordo com a reatividade do bovino durante a pesagem


Referências bibliográficas:

BECKER, B.G. Efeito do manuseio sobre o temperamento de terneiros. In: Encontro Anual de Etologia, Uberlândia. Uberlândia Sociedade Brasileira de Etologia, p.137-149, 1996.

FORDYCE, G.; GODDARD, M.E.; SEIFERT, G.W. The measurement of temperament in cattle and the effect of experience and genotype. Proc. of Aust. Soc. of Animal Prod., 14: p. 329 - 332, 1982.

GRANDIN, T. Animal handling. In: Price, E. O. The veterinary clinics of north america. Philadelphia , Farm Animal Behavior, v. 3, n. 2, p.323-338, 1993.

GRANDIN, T. Assessment of stress during handling and transport. Journal of Animal Science, [S.l.], v. 75, p. 249-257, 1997.

PARANHOS DA COSTA, M. J. R.. Avaliação e medida do temperamento em bovinos. In: Luiz Antônio Josahkian, Henrique Cavallari e William Koury Filho. (Org.). Programa de Melhoramento Genético das Raças Zebuínas (manual de operação). Uberaba-MG: Associação Brasileira dos Criadores de Zebú, 2003, p. 48-52.



PIOVESAN, U. Análise de Fatores Genético e Ambientais na Reatividade de quatro raças de Bovinos de corte ao manejo, Dissertação de tese de mestrado: FCAV/UNESP, Jaboticabal - SP, 1998.


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