Sobre os chistes



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SOBRE OS CHISTES1

Ana Lúcia Bastos Falcão2


“Aquele que deixa, dessa forma, escapar inopinadamente a verdade na realidade está feliz em tirar a máscara”.
Sigmund Freud.

O texto de Freud, Os chistes e sua relação com o inconsciente, foi publicado em 1905. Nele Freud aborda os chistes, seus vários mecanismos, associando-os aos do sonho - condensação e deslocamento - e à própria neurose. Reconhecia, assim, no chiste a “textura” própria da formação do inconsciente. Chamou a atenção acerca da importância da linguagem, mas, primordialmente, fundamentou, como caráter essencial, seguir o fio da palavra. A despeito dos neurologistas, para os quais interessava a afânise da palavra, déficit indicador de algum distúrbio ou fenômeno, a Freud, em oposição, o interesse estava na referência interna da palavra. É o sentido, o valor da palavra, que representa o sujeito do inconsciente para outra representação.

Nos chistes é sublinhado o jogo de palavras, o aparente nonsense, a destituição de sentido remetendo, a posteriori, a uma nova representação, a um outro significante para o sujeito. Freud ressalta a “necessidade psicológica” do sujeito no processo formador do chiste, tendência a uma significância. Assim, a atribuição de um sentido a um comentário e a descoberta nele de uma verdade, até então inconsciente, são aspectos do chiste em seu caráter revelador do “impossível”, do inacessível pelas vias comuns do pensamento. O chiste promove um desconcerto, no entanto, é sucedido por um esclarecimento. Ultrapassa seu próprio conteúdo, ensejando um passo a mais, passo de sentido, sustentado pela própria cadeia significante. Mas a compreensão dos chistes estaria vinculada ao conhecimento dos determinantes “subjetivos” de seu autor.

Comparando o determinante da neurose ao do chiste, Freud salientou a importância em “compreender” a condição da pessoa envolvida nessa formação do inconsciente, a quem ocorre o chiste. Em alguns tipos de chistes, um de seus motores, é a dificuldade do sujeito em criticar ou com a agressividade direta etc. É possível apenas através de um projeto tortuoso a liberação dessa energia.

Enquanto, no que denominamos cômico, não há necessidade da comunicação, no chiste há uma necessidade de contá-lo a alguém, necessidade ligada, imprescindivelmente, à elaboração do próprio chiste a partir dos obstáculos da razão. O chiste não se realiza sozinho e só se conclui com a comunicação da ideia a alguém. Na própria estruturação do chiste encontraríamos três pessoas: o autor, aquele a quem o chiste vem; a segunda pessoa sobre quem o chiste versa ou seu objeto e a terceira pessoa, aquela que o escuta. Apesar do prazer envolvido em sua elaboração, a própria pessoa a quem ocorre o chiste não consegue rir dele, ela prescinde da pessoa que foi objeto do chiste, mas não prescinde de alguém para escutá-lo. É exatamente a terceira pessoa a quem é comunicado o resultado do chiste. A terceira pessoa avalia a “tarefa da elaboração do chiste”, incidindo em uma espécie de julgamento dos propósitos dele, portanto, é preciso que exista nela “benevolência” e neutralidade, “ausência de qualquer fator” que possa inibir sua comunicação. O chiste exige uma plateia própria. É necessário um “acordo psíquico” entre o autor e aquele que o escuta, as mesmas inibições internas só superadas com a conclusão do chiste. O ouvinte quando escuta deve ter o hábito de erigir semelhante inibição a que a primeira pessoa superou para elaborá-lo, é isto que provoca o riso. A colaboração da terceira pessoa, do ouvinte, faz parte da realização do chiste. Presenteada com o chiste, ela constitui a possibilidade de emergir o prazer. O processo se passa então entre a primeira pessoa e a terceira. A atenção apanhada desprevenida somada à descarga inibitória liberada se completa a partir da surpresa do chiste.

A obtenção de prazer é calculada visando a terceira pessoa, o ouvinte. Havendo obstáculos internos intransponíveis no autor, faltaria a este a condição de descarga. Em relação ao prazer, sua condição de obtê-lo, seria apenas relativa ou parcial. O autor atingiria o riso impossível a partir das impressões causadas por aquele a quem faz rir. Ele utiliza a terceira pessoa e se reúne a ela para suscitar seu próprio riso.


Contando um chiste a alguém o criador do chiste assegura o sucesso de sua elaboração e, além disso, completa seu próprio prazer pela reação provocada em quem escuta, reafirmando o aumento no lucro. O processo do chiste na primeira pessoa acarreta prazer pela suspensão da inibição e diminuição de toda a despesa local, todo gasto de energia associado à inibição, mas não consegue chegar ao fim, a uma “conclusão” se não tiver incluído nele alguém que o escute, para que seja possível a obtenção de um alívio geral pela descarga.



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