Sobre divãs e altares: psicologia e psicanálise nos movimentos evangélicos brasileiros



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Sobre divãs e altares: psicologia e psicanálise nos movimentos evangélicos brasileiros
O presente trabalho tem como objetivo central apresentar e problematizar, a partir de um enfoque antropológico, algumas das construções sociais da interioridade produzidas historicamente no Brasil a partir do entrelaçamento dos movimentos evangélicos (protestantes históricos e pentecostais) com os saberes e práticas da psicologia e da psicanálise. Trata-se, mais especificamente, de analisar as novas e velhas formas cristãs de invenção da interioridade psíquica, da verdade e das práticas de si no universo evangélico, seja em termos de seus esforços de adequação à cosmologia bíblica, seja em termos dos investimentos éticos de operacionalização desta cosmologia na ascese cristã e na formação eclesial. Dessa forma, o trabalho expõe de modo resumido algumas análises produzidas pelo autor em sua tese de doutorado (CARVALHO, 2007) e em sua pesquisa de pós-doutorado (CARVALHO, 2010).

Nos campos profissionais da psicologia e da psicanálise no Brasil, destacam-se nas últimas décadas as confrontações com os movimentos evangélicos, ora contra a patologização da homossexualidade, ora contra a regulamentação da profissão de psicanalista. Estes confrontos têm por base o investimento crescente dos pastores evangélicos (batistas, metodistas, presbiterianos, pentecostais e neopentecostais) nos saberes e práticas psicológicos (através, por exemplo, da formação universitária e da difusão massiva de uma literatura diversificada acerca da dimensão psíquica do sujeito cristão, voltada tanto para especialistas religiosos quanto para o público leigo em geral) e psicanalíticos (através de novos cursos de psicanálise com tempo reduzido de formação).

Entre os pentecostais, outros dois fatores ganharam maior relevância nas últimas décadas, ambos com participação direta dos movimentos evangélicos norte-americanos. Um deles é a rápida difusão, no Brasil, dos cursos de “Cura Interior” e de “Aconselhamento Cristão” marcados pelo diálogo ora mais ora menos tenso entre os saberes e práticas “psi” e os escritos bíblicos. Esta difusão vem oferecendo aos pastores, teólogos e cristãos leigos pentecostais uma alternativa à psicanálise em relação aos investimentos possíveis em direção à interioridade psíquica e, de fato, é comparativamente privilegiada no meio pentecostal. Vale dizer que os novos campos da cura interior e do aconselhamento cristão — principalmente este último — são compostos por toda uma diversidade de estilos e correntes da psicologia, baseando-se em saberes acadêmicos díspares como os da Abordagem Centrada na Pessoa, os da neuropsicologia, os da psicanálise, os da Psicologia Cognitivista, os da Gestalt-terapia, os da Neurolinguística e os do Behaviorismo Radical.

O outro fator que merece destaque é a aliança temporal, nas três últimas décadas, entre a multiplicação de denominações religiosas e o crescimento do mercado editorial cristão de influência norte-americana. Neste caso, ainda que os autores tenham uma vinculação histórica com os movimentos evangélicos, as literaturas parecem extrapolar com grande eficiência os seus limites em direção ao público geral.

A crescente difusão e aceitação de discursos e práticas psicologizados nas mais diferentes denominações evangélicas reforça a hipótese de que a relação dos movimentos evangélicos com a dimensão da interioridade psíquica e da sexualidade, mais do que se resumirem a tendências epistemologicamente inconsistentes, constituem questões antropológicas mais amplas de ordem histórico-cultural e teórico-conceitual. Neste sentido, a explicitação da relevância do tema em termos histórico-culturais traz consigo a necessidade de revisar os discursos antropológicos mais comumente aceitos em torno tanto do campo psicológico e psicanalítico quanto dos movimentos evangélicos.

Para a realização deste empreendimento analítico são considerados os estudos antropológicos de Louis Dumont (e aqueles estudos brasileiros nele inspirados, como os de Luiz Fernando Dias Duarte), associando-os aos estudos genealógicos de Michel Foucault, respeitando-se obviamente as diferenças teórico-conceituais e metodológicas destes dois pensadores.



No que se refere à antropologia dos saberes e práticas “psi”, parto do pressuposto de que a consolidação e difusão da cultura psicológica participa indissociavelmente da construção social da pessoa moderna e da consolidação da interioridade psíquica. Estudos como os de DUARTE (1999), RUSSO (1997, 2002), VENANCIO (1998) entre outros exploram os modos como a dimensão da interioridade psíquica se difundiu no Brasil e são tomados como referências neste trabalho.

No que se refere aos estudos antropológicos dos mundos evangélicos, proponho enfatizar aqueles voltados para as construções sociais da pessoa e para a relação entre ética e ascese. As análises aqui apresentadas tomam por pressuposto que os fenômenos religiosos aqui estudados exigem que se englobe estas linhas interpretativas num campo social mais amplo e complexo que envolva as construções valorativas densas, os modos de produção da verdade, as práticas políticas históricas e a produção da vida social pública e privada em todos os seus aspectos. Neste sentido, estudos como os de LEWGOY (2005), MARIZ (1994) e BIRMAN (1996) são de grande valia como diretrizes para o percurso trilhado.

Sob esse crivo teórico-conceitual proponho para o presente trabalho, apresentar de modo mais detido duas frentes de investigação acerca das publicações e documentos históricos das instituições evangélicas editoriais e de formação pastoral. A primeira problematiza os processos de modernização no Brasil e no Rio de Janeiro e os modos como estes processos atravessam a consolidação dos saberes e práticas “psi”, por um lado, e dos movimentos evangélicos, por outro. Neste sentido, propõe-se analisar inicialmente as diferentes construções sociais da pessoa, da interioridade e da sexualidade historicamente consolidadas no cristianismo, na psicologia e na psicanálise para, então, enfatizar as construções e variações próprias ao universo evangélico.

A segunda frente de investigação visa analisar os percursos éticos (constituição dos novos regimes de verdade e de práticas de si) instituídos nos movimentos evangélicos que investem na dimensão da interioridade psíquica. Busca-se por um lado expor o modo como o investimento dos cristãos evangélicos numa formação psicológica ou psicanalítica resulta na produção de novas formas de interioridade, de sexualidade e de investimento em si (modos de sujeição, substância ética e teleologia, no sentido que Michel Foucault (1994) dá a estes termos).

Em ambas as frentes pode-se observar um conjunto variado de misturas, tensões, englobamentos e esquivas que se produzem cotidianamente entre a lógica psicologizante e as práticas religiosas e que reverberam nas formas de invenção da interioridade psíquica, da cosmologia cristã e das práticas de ascese.

REFERÊNCIASBIBLIOGRÁFICAS


BIRMAN, P.

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