São paulo, agosto de 2006



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SÃO PAULO, AGOSTO DE 2006.


You sure you want to be with me/

I've nothing to give/

Won't lie and say this lovin's best

("Karmacoma " - álbum Protection (1995) - Massive Attack)
Você tem certeza que quer estar comigo/

Eu não tenho nada para oferecer/

Não minta e diga este amor é melhor

.

O ônibus parecia mais pesado e barulhento quando chegou a São Paulo pouco antes das seis. Fazia frio e a cidade estava cinza, molhada - uma metrópole indistinta, de ar cansado, de veredas pichadas, a fumaça entre tudo. Era assim. Lá fora, uma chuva miúda e contínua que castigava o vidro espelhado; lá dentro, perdida em pensamentos sombrios, Vanessa lidava com sua própria tempestade. Não queria mais pensar. Estava exausta. De tanto pensar naquela briga, naquele encontro que teria, em muitas outras coisas... Simplesmente não aguentava mais.

Vanessa passou a mão impaciente nos cabelos vastos, castanhos amadeirados, bagunçando a ordem incerta dos fios. Os olhos estavam fundos, úmidos. Há três dias andava abraçada a uma insônia torturante. E agora, quando adormecia, ficava a remoer pesadelos, a pensar nela como uma ideia fixa.

...


Não estranhava a cidade desconhecida. Seu olhar estava perdido em mil nadas. Sequer percebia as cenas se desdobrando através da janela, sincopadas -, como um cinematógrafo acelerando o tempo das coisas, como seria no cinema mudo: ora sim, ora não, se alternando, repetindo, mudando outra vez, o vai-e-vem incessante das coisas, o movimento, o vazio que restava. Os pedais de inúmeras rodas, girando; passos apressados, seguindo uma rota agitada, ora evitando a topada, ora o esbarrão; corpos e coisas, agora embaraçados no frenesi da sinfonia dodecafônica que a cidade era.

Mas, por dentro, Vanessa agitava-se em uma confusão maior. Lembranças. Frases agressivas, gritos e copos atirados. O silêncio de agora.

Vanessa suspirou e cobriu os olhos com as mãos. Estava exausta. Se pudesse dormir, pelo menos um pouco, antes de...

Sophie perceberia na hora seu desconcerto. E talvez perguntasse o que aconteceu com o velho ar preocupado. E o que diria a ela? A verdade? Que perdeu tudo quando insistiu em vê-la? Não, podia. E nem saberia como fingir, mentir ou inventar qualquer desculpa esfarrapada. Estava mal, não estava? Sim. Terrivelmente mal. Sophie descobriria tudo. Num piscar de olhos, sem que precisasse dizer nada. Ela possuía sua própria Pedra de Rosetta, algum manual secreto para interpretar tão bem seus sinais e decifrar seus enigmas... Agora, andava a fazer letreiros de seus olhares perdidos. Era como se... ela pudesse ler seus pensamentos. Como se soubesse de tudo.

De repente, aquele pensamento a deixou desconfortável.

Sophie já sabia quase tudo a seu respeito, menos as coisas que omitia. Por medo... Quando queria poupá-la ou estava confusa. E nesses momentos, contava uma verdade pela metade, que era a verdade faltando alguns pedaços, não uma mentira completa. Tantas outras verdades estavam lá, escondidas dentro de si.

Vanessa pensava em como a lista de coisas que não podiam ser ditas a Sophie continuava a crescer... Não podia dizer, por exemplo: “Sophie, eu te amo”. Isso, definitivamente, não. Estava no topo da lista. Era uma verdade que jamais admitiria em voz alta para alguém. Muito menos, para Sophie.

Como diria isso a ela sem soar como uma declaração romântica, apaixonada? Ou, então, como uma cantada barata, daquelas que se dizem à toa, apenas para firmar território com alguém?

Ainda não sabia. Apenas tinha essa certeza gravada dentro de si, ecoando cada vez mais alto: jamais conseguiria viver uma vida inteira sem ela para dividir as tristezas, as alegrias. Era isso: precisava dela para viver. Mas não a “possuindo”, como se detém alguma coisa que se deseja muito. O que sentia era mais do tipo: “eu daria minha vida por ti, Sophie...”.

Soaria melodramático se falasse algo assim. E Sophie, com certeza, riria disso.

Ela gostava de raciocínios elaborados, não de frases feitas. E gostava mais ainda de jogar dados como quem montava quebra-cabeças... Nada com ela era em linha reta.

- “O que tá fazendo agora, cabeçuda?”.

Era inevitável. Sophie ria toda vez que Vanessa a chamava assim, de “cabeçuda”. Abria um rápido e maravilhoso sorriso, dirigindo seus olhos para ela como se fosse surpresa. Então, do sorriso brotavam duas covinhas simétricas e o olhar do mais intenso azul, iluminando todo o resto.

- Ah, lendo. - Sophie colocou a capa do livro diante da tela do notebook. – “O Animal Agonizante”. Philip Roth. Conhece?

Nem de longe sabia quem era o tal fulano.

- “Não... E o livro, é sobre o quê?”.

Não era uma pergunta retórica. Era uma espécie de código. Ela enviava o sinal e Sophie iniciava seu ritual de tradução de suas leituras: falava do autor, das histórias, blá, blá, e finalmente estacionava em reflexões profundas. Nesses momentos, adotava um ar pensativo, se distanciando da Terra lentamente. Às vezes se perdia nesse hiperespaço mental e demorava a voltar. Então, do nada, acendia os olhos argutos, a sorrir. Magicamente, com a voz suave, dizia algo que revelasse o sentido de tudo que ela ainda não tinha entendido.

Mas naquele dia, surpresa. Sophie resolveu quebrar a tradição e disse simplesmente:

- “Não. Devia ler este, Vanessa. – Ela disse com ar divertido, quase como se estivesse dando um conselho. Diante do ar surpreso de Vanessa, ela emendou: - Às vezes, precisamos aprender algo por nós mesmos...”

Vanessa riu batendo de ombros, mais uma vez sem entender o dilema.

Então, dias depois, um pacote chegou pelos correios. Era o tal livro de Roth. Sophie tinha mandado. O enigma. Mas antes que soubesse disso - o que havia sob a embalagem de papel marrom -, ficou admirando seu nome e o endereço, escritos com uma caligrafia perfeita, alinhada, traços em esferográfica azul. Nem sequer sentiu o riso bobo que brotava em seu rosto junto com um arrepio de alegria.

Sophie... [ela sempre conseguia emocioná-la com coisas assim].

Começou a abrir o pacote refreando a ansiedade, com cuidado, para não estragar a embalagem [queria guardar]. Abriu. Tinha um lembrete afixado à capa do livro, também escrita com aquela letrinha peculiar. Dizia: “Devia ler este Roth”. E tinha sido grafado dessa forma, nesse tempo verbal esquisito, o pretérito imperfeito. Talvez como um lembrete das incertezas que pairavam sobre suas vidas. Ou Sophie estava jogando dados com ela, outra vez.

Rodeou o livro o dia inteiro antes de abri-lo. Não tinha mais nenhum sinal de Sophie lá dentro. Estava claro que “O Animal Agonizante” era uma mensagem cifrada para ela. Uma coisa que “devia ler e só assim entenderia”.

Mas o que teria ela a ver com a história daquele David Kepesh? Amava a liberdade, todo mundo sabia, mas não tinha esse horror ao vínculo emocional que parecia ter o personagem. Amava estar com alguém. E talvez sobre o terror do isolamento e da solidão [que a fazia buscar, pelo infinito, o par perfeito]. Qual o sentido do livro? O que Sophie queria dizer? Que tinha um amor descompensado, visceral e destrutivo por Ana Beatriz, como Kepesh por Consuela?

Tinha ficado inquieta tempo demais com suas conclusões. Uma hora, conversando pela videoconferência, então disse o que achava. Não tinha conseguido disfarçar o incômodo. Mas Sophie estava tranquila, até um pouco surpresa que pensasse que falava dela e da namorada. Ela riu, talvez de forma triste.

- “Talvez o livro fale, sim, da irracionalidade do desejo. Mas pensava mais sobre o sentimento de solidão que se tem diante da inevitável fragilidade da vida...”.

Ah, por que Sophie nunca era óbvia?

[suspiro].

***


Por mais que desviasse os pensamentos, iluminando-se com lembranças de Sophie, estava sombria outra vez. Estava “fodida”. Essa foi a palavra exata que Ana Beatriz usou ao condená-la ao inferno caso viajasse para São Paulo. Aquela relação, que há dois anos misturava elementos explosivos - dentro e fora da cama -, tinha chegado ao seu limite.

- Você não vai, Vanessa!

Ana Beatriz estava com suas mãos nervosas dentro da mochila organizada para a viagem, arrancando de dentro as roupas dobradas, atirando-as ao chão. Era difícil explicar, racionalmente, como aquela garota linda, de aparência elegante, tinha desmontado todo o apartamento em questão de minutos. Não restava nada no lugar: tudo revirado, rasgado, sujo, misturado.

Vanessa olhava incrédula para ela.

- Ana, por favor, se acalme...

Ana Beatriz a empurrou, com raiva, e depois, aproximou-se dela, estapeando-a. O primeiro estalou na face direita. O segundo, mais rápido, foi interrompido no ar por Vanessa. Girou seu corpo e a abraçou delicadamente por trás, impedindo-a de fazer qualquer movimento.

- Me solta, Vanessa! Me solta, estou mandando!

- Só quando você parar de se comportar feito louca...

- Tá me chamando de Louca?

- É, está louca, sim! Fazendo a maior algazarra, alarmando a vizinhança. Ligaram da portaria: queriam chamar a polícia, Ana! Olha pra isso: você quebrou tudo aqui dentro, até a TV de LCD que você acabou de comprar... Meu Deus! E pra quê tudo isso, Ana, me diz: pra quê?

Ana Beatriz arfou, arfou, mas não respondeu. Vanessa resolveu soltá-la. Ana Beatriz andou até o outro lado do quarto, arrumando o desacerto da roupa, colocando o cabelo no lugar. Depois se virou, com o ar de sempre.

- Sabe o que não aguento, Vanessa? Esse seu ar de desentendida. Isso é o que me deixa louca. Quantas vezes eu já te disse pra encerrar o assunto com essa menina? E o que você faz? Continua, não é? Eu disse pra você não ir a São Paulo. Mas você comprou uma maldita passagem pra lá! Pensa o quê, Vanessa? Que sou palhaça, que vou aguentar isso calada, sem fazer nada, é?

Ana Beatriz estava incendiada outra vez. Ia ser difícil acalmá-la outra vez. Disse da forma mais sincera que conseguiu:

- Ana, não tô fazendo você de “palhaça”, jamais faria isso. Olha pra mim, por favor? Você sabe que te amo, não é? Que só tenho olhos pra ti. Te amo muito!

Ana Beatriz desarmou instantaneamente, aproximou-se lânguida e colou o corpo no dela, pedindo com a voz doce perto de seu ouvido:

- Então fica comigo, desista dessa viagem...

Oh, não, ia começar tudo outra vez. Ela não entendia?

- Ana, sabe que eu preciso ir. É um compromisso...

Nem concluiu a frase. Ana Beatriz a interrompeu, nervosa.

- Compromisso? Desde quando essa viagem é compromisso, Vanessa? Você vai lá exclusivamente pra enxugar as lágrimas de crocodilo dessa garota! Ela devia se chamar “selfish”! Só pensa nela!

- Sophie não é assim, Ana. Ela...

- Não se atreva a falar bem dessa menina pra mim! É melhor você ficar calada! - Ana Beatriz andou de um lado a outro do quarto bagunçado enquanto falava irritada, olhando muito séria para ela: - Sei muito bem por que quer ir pra São Paulo. Quer muito fazer o papel de boazinha com a Sophie, ganhar uns créditos extras, e quem sabe até ficar com ela, não é? Pensa que não sei?

- Você é tão... tão... Eu e Sophie somos amigas. Ela é como uma irmã pra mim!

- Irmã, hum! Por quê? Ela não tem uma xota nos meio das pernas? Não me faça rir, Vanessa!

- Ana!

Ela já ia começar com a vulgaridade que anunciava a guerra.



- Seu único argumento é que não tem “interesse sexual” por ela? É isso?

- E o que mais seria?

Ana Beatriz armou um sorriso irônico, cruzando os braços e olhando para ela.

- Quer mesmo que eu acredite nisso? Vocês passam horas juntas, todos os dias! Que tipo de amizade é essa? Você passa mais tempo com ela do que comigo! E todas aquelas coisas que vocês dizem uma pra outra, me dá nojo! A forma como se olham... Vocês só faltam se comer!

Vanessa sentiu o ar faltar no peito. As coisas que Ana Beatriz dizia...

- Pera aí: você anda espionando a gente?

- Claro! Pensa que sou idiota? Que vou ficar no “escuro” enquanto vocês ficam nessa lengalenga? Ah, me poupe!

Vanessa soltou o braço de Ana Beatriz e ficou olhando-a, como se não acreditasse naquilo. Ana Beatriz a espionava?

- Se espiona a gente, deve estar cansada de saber que não precisa se preocupar comigo e a Sophie... Não rola nada entre nós.

- E por que não preciso me preocupar? Você só falta babar falando com essa menina! E ela só falta...

- Ana! Pare com isso. Eu e Sophie nos conhecemos há anos. Se fosse pra gente se apaixonar, ficar, já tinha rolado, não é? Deixa de besteira. E quantas vezes preciso te dizer: a Sophie é hétero, tem namorado...

- E o que é que tem? Também tenho namorado, Vanessa. Isso não significa absolutamente nada!

Ana Beatriz ficou parada, com ar emburrado, e Vanessa achou que estava ali um espaço para se aproximar, com calma. Não queria que ela ficasse tão furiosa com suas decisões.

- Poxa, Ana... Por favor. Estou ficando angustiada com isso. Não quero te perder. Não precisa ter ciúmes da Sophie. Sou tua...Eu te amo!

Ana Beatriz afastou-se da tentativa de abraço com uma violência desproporcional.

- Ciúmes? – a garota encarou a namorada com ar de superioridade: - Você se acha muita coisa, não é? Gostosa, irresistível, um garanhão... Mas não é nada, Vanessa! Não tem nada! Eu te fiz, posso tirar tudo de você! Posso te colocar na estaca zero, mais fodida do que antes! É isso que você quer? Quer continuar brincando comigo? Arriscando tudo que tem por causa daquela garota estúpida? Vai em frente! Vai!... Mas fique avisada: quando voltar, não vai ter mais esperando por você aqui.

Vanessa balançou a cabeça e suspirou mais uma vez. Estava difícil dialogar. Comprimiu os olhos, fechando-os, um pouco de escuridão e silêncio, enquanto passava a mão pelos cabelos, parando a mão na nuca, massageando, devagar, com força. Costumava se acalmar assim, mas não estava adiantando. Sentia-se emocionalmente exausta.

- Ana, eu não quero me descontrolar, ok? Mas, poxa, toda vez que a gente briga, tua primeira providência é jogar na cara tudo o que faz por mim... – o suspiro saiu de suas entranhas, cansado. - Já sei tudo sobre seu patrimônio, Ana Beatriz Mascarenhas. Eu sei, todo mundo sabe... Aliás, você nunca me deixa esquecer o quanto é rica e poderosa! Nem me deixa esquecer o quanto sou pobre e devo tudo a você... Já sei de cor que minha bolsa universitária “não cobre nem a energia que gasto no apartamento”. Ok, já cansei de ouvir tudo isso... Então, agradeço mais uma vez tudo que faz por mim, o que está fazendo. Sou grata, muito grata, não me canso de agradecer: thank you, very much! Muito obrigada, mesmo, por tudo que faz por mim!

Ana Beatriz sorriu de forma sarcástica ao ouvi-la falar daquela forma, como quem se sente julgada mal e agora exibe toda sua mágoa.

- É fácil se fazer de vítima, não é, Vanessa? Tão cheia de orgulho e de indignação... Quase me convenci de que não era uma trapaceira. Mas, então, lembrei o quanto essa sua indignação é seletiva. Você nunca recusou nenhum de meus presentes: nem o apartamento ou a moto, as roupas caras, os perfumes... Você aceitou tudo de bom grado... “Muito agradecida”, sim, claro. Você é esperta, Vanessa... Sabe agradecer muito bem, para garantir a sua vida boa.

Vanessa sentiu a mágoa espalhar-se por dentro como uma mancha de óleo incendiária no oceano. Ana Beatriz sempre tinha esse efeito sobre ela. Quando queria magoá-la, simplesmente mergulhava os seus melhores sentimentos na lama suja.

- Sabe o que é cansativo, Ana? Esse seu discurso. Não precisa fica repetindo isso a cada briga. Cada despesa que tem comigo, as contas que paga. Não sou sua puta, como quer insinuar. Espero que lembre as promessas que fez quando me trouxe pra cá. Você me disse: “não se preocupe, eu cuido de você”, lembra? Então, você me deu coisas, algumas coisas que perdi quando sai de casa só com a roupa do corpo...

Vanessa não conseguiu continuar falando, sua voz tinha tropeçado num embargo. Lágrimas teimavam a cair. Mas Ana Beatriz, insensível, tinha adotado uma expressão irônica, parada, em seu pedestal, de braços cruzados e o pezinho, impaciente, batendo o salto-alto no piso de cerâmica. O ruído dessa impaciência afetada machucava ainda mais Vanessa.

- Vai, continua com o teatro, Vanessa. Não me importo, não muda nada do que penso de você: é mal agradecida, isso sim! Uma traidora!

Vanessa passou a mão nos olhos, de forma áspera, espalhando as lágrimas insistentes pelo rosto.

- Ana, quer saber, leve tudo que me deu, não quero nada! Apenas me deixe, por favor!

Ana Beatriz voltou a sorrir, balançando a cabeça e acelerando ainda mais o compasso arrogante de suas pisadas na cerâmica do apartamento.

- Deixar? Vanessa, você não me escutou? Não vou tirar nada daqui, o apartamento é meu. Você é quem vai sair, hoje, já!

- Ana... - Vanessa sentiu o sangue fugir de seu rosto. Não estava mais suportando aquilo. Sua cabeça ia explodir. Sentou-se na cama, afundando o rosto nas mãos. Lágrimas explodiram junto com o choro convulsivo. Quando finalmente se recuperou, olhou para Ana Beatriz com o rosto molhado de lágrimas: - É isso mesmo que você quer? Terminar comigo, desse jeito?

Ana Beatriz continuava fria.

- Só depende de você, Vanessa. Desista de ir, ligue pra ela agora. Diga que não vai mais. Só isso. E voltamos às boas, como era antes.

O silêncio que se fez no quarto pesava toneladas. Vanessa submergiu mais uma vez em pensamentos conflituosos, calculava sem qualquer método os efeitos de sua resposta. Nada do que pensava, naquele desespero, era uma solução, uma boa resposta.

Ana Beatriz estava impaciente. Estendeu o celular para ela, intimando-a com autoridade:

- Pega. Liga pra ela, na minha frente. O que é que está esperando, Vanessa? Vanessa!

Ana Beatriz sabia bem como usar o imperativo com as pessoas. Gostava de mandar, tinha sido criada como princesinha, a herdeira inconteste do império dos Mascarenhas. Usava bem suas habilidades quando queria. Irritava-se de perder o controle de Vanessa para Sophie. Odiava quando ficava em segundo plano.

- Não posso! – finalmente disse em um tom desesperado, desejando convencê-la de que estava equivocada, que não era daquilo que estava pensando. – Eu dei minha palavra, tenho que ir. É um compromisso, entende? Não tem nada a ver com a gente! Eu te amo!

O rosto de Ana Beatriz ficou vermelho. Andou em torno dela, como um animal ferido que se torna ameaçador. Aproximou-se de Vanessa com determinação, uma fúria que explodia.

- Diz por que ela é mais importante do que eu, Vanessa. Diz!

Começou a estapear novamente o rosto da namorada, com força, bigorna batendo no aço. Vanessa interrompeu seu movimento, segurando-a com firmeza. Abriu a boca, segura do que ia dizer, mas de repente, parecia não ter mais certeza, uma resposta convincente a dar. Apenas... precisava proteger Sophie de tudo aquilo. Não aguentava mais vê-la esmagada pela imprensa, pela opinião pública. Abriu a boca e fechou sem que dissesse o que queria. Soltou os braços de Ana Beatriz e disse calma:

- Você sabe que sou tão responsável quanto Sophie pelo que está acontecendo. Apenas isso. Eu devo assumir minha culpa.

- Você se acha culpada pelas merdas que a Sophie faz? Você não deve nada pra essa garota estúpida! Foi ela quem estragou tudo, não você! Foi ela quem jogou o nome da família dela na lama! Você foi só o peão que ela usou, mais nada!

- Você não sabe das coisas, Ana... Nunca quis saber de nada, só julga pelo que a imprensa distorce...

- De novo, Vanessa?! Ainda tem coragem de ficar contra mim pra defender essa menina?!

- Não é isso, Ana... por favor? Você sabe perfeitamente que a mídia está incendiando a situação...

- E não era isso que a Sophie queria? Que o circo pegasse fogo? Essa estúpida não previu que ia pegar fogo junto?! Problema dela!

- Não percebe que eu a ajudei e agora tenho que...

- Ser presa? É isso que você quer? Ser enquadrada? Já se olhou no espelho? Como você acha que isso acaba? Você vai ser o bode expiatório!

- Eu... não é justo, Ana...

- E por acaso a vida é justa? Quem foi que te disse isso, hein? Foi tua família de pobre que disse isso? Que a vida é injusta, mas que o céu é dos bons? Rá, Vanessa! Não me interessa esse paraíso sem graça que a tua família prega. Só me interessa esse mundo aqui, que estou vivendo.

A versão integral da briga? Não valia a pena o festival de baixarias e alegações de toda ordem. E tudo terminava em faroeste caboclo. Ana Beatriz a olhando de cima a abaixo, desferindo um “eu ou ela” definitivo. Sua última bala.

- Você tá fodida, Vanessa!

Ana Beatriz saiu de lá com as passadas firmes, alcançando a bolsa sobre a mesa, saiu batendo a porta, derrubando os quadros da parede da sala. O silêncio que se fez depois dela foi terrível. Um vácuo que a sugou, o choro que irrompeu depois, alto e convulsivo.

O que seria de sua vida sem ela, seu chão?

Não sabia mais quanto tempo tinha ficado ali, deitada, chorando. Quanto tempo ainda restava até embarcar... A passagem estava marcada para oito da noite. Olhou o relógio. O ônibus saía de Fortaleza em pouco menos de quatro horas. Precisava tirar suas coisas do apartamento de Ana Beatriz, correr contra o tempo.

Mas onde iria deixar suas coisas?

Um pensamento lhe ocorreu: Marcola? Sim, talvez ele pudesse ajudá-la.

Foi de moto deixar as coisas na casa dele, amigo desde os tempos em que morava no Meireles. Ainda mantinham contato. Sempre saíam para beber e às vezes, ele a mantinha informada sobre sua família.

O encontro foi breve desta vez. O abraço forte, com batidas nas costas, como fazia com a rapaziada da rua.

- Cara, obrigada por ficar com minhas coisas.

- Não tem problema, Vanessa. Guardo pra ti...

Vanessa ficou com o olhar parado, quase umedecendo. Não ia chorar na frente do Marcola. Ele olhou para ela, coçando a barbicha, queria saber o que foi.

- Ela me deu um ultimato...

- Ultimato? Que diabo é isso?

- Ela me colocou contra a parede, Marcola. Se eu for pra São Paulo, ela disse que vai fazer de minha vida um inferno.

- Eita, mulher furiosa essa que tu foi arranjar, Vanessa... não tinha uma mais calma, não, mermão?

Marcola puxou a fumaça, soltou. Olhou para Vanessa com uma ruga inquieta na testa.

- Tem certeza que tu quer fazer isso? Trocar o certo pelo duvidoso? Deixar essa gata no cio por aquela complicada de São Paulo?

Vanessa sentiu o rosto queimar. Estava farta de tudo aquilo, de todas aquelas insinuações, das pessoas se metendo onde não eram chamadas.

- Marcola, cara...? Não tô trocando a Ana por ninguém! Ela tá com ciúmes, toda irracional, só isso. Depois ela cai na real, volta pedindo desculpas. É a cara dela, não é?

Marcola balançou a cabeça rindo da confusão dela.

- Tu é mais maluca que ela, Vanessa...

***



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