São Bernardo Graciliano Ramos contexto histórico, social, cultural e literário do autor



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6. espaço
As ações do romance São Bernardo se passam predominantemente na fazenda São Bernardo, situada no município de Viçosa, que fica na zona da mata de Alagoas.

De acordo com Luiz Costa Lima (1969, p. 49), a evidente proximidade entre a realidade social e o ambiente de S. Bernardo cria uma confusão de planos deformadora, o que faz com que muitos acabem vendo o romance como um exemplo de realismo fotográfico, ou seja, com peças componentes copiadas da realidade externa. No entanto, é importante lembrar ainda que, se pensarmos no romance como um documento sociológico, fatalmente ele merecerá um lugar secundário, já que o mesmo não conta com dados rigorosos de pesquisa e de estatística.

Na verdade, a natureza sob o modo de paisagem está praticamente ausente da obra. É que as referências à paisagem são escassas. Não temos, como diz Antonio Candido, descrições no sentido romântico e naturalista, em que há visões ou arrolamentos da natureza ou das coisas encaixadas no texto periodicamente. Em S. Bernardo,
[...] surgem a cada passo a terra vermelha, em lama ou poeira; o verde das plantas; o relevo; as estações; as obras do trabalho humano: e tudo forma enquadramento constante, discretamente referido, com um senso de oportunidade que, tirando o caráter de tema, dá significado, incorporando o ambiente ao ritmo psicológico da narrativa. [...]. (CANDIDO, 1992, p. 32, grifo do autor).
Graciliano Ramos exprime o espaço com fidelidade, mas podemos dizer que ele é psicológico porque o mesmo aparece em função do Paulo Honório, narrador de sua memória. As referências ao espaço na narrativa aparecem segundo sua visão. A paisagem exterior é uma projeção do homem nesta narrativa, segundo Álvaro Lins (1967, p.262). Como Paulo Honório é uma personagem prática, objetiva, ele só repara nas coisas que lhe podem ser rendosas. Ele constrói uma escola e uma igreja na propriedade, mas as vê como capital. Neste trecho, em que a personagem relata sua viagem de trem podemos perceber bem essa quantificação do espaço:
Uma coisa que omiti e produziria bom efeito foi a paisagem. Andei mal. Efetivamente a minha narrativa dá idéia de uma palestra realizada fora da terra. Eu me explico: ali, com a portinhola fechada, apenas via de relance, pelas outras janelas, pedaços de estações, pedaços de mata, usinas e canaviais. Muitos canaviais, mas este gênero de agricultura não me interessa. Vi também novilhos zebus, gado que, na minha opinião, está acabando de escangalhar os nossos rebanhos. (RAMOS, 1995, cap. 13, p. 77-8).

Paulo Honório não vê as coisas na sua variedade de formatos, de cheiros, de cores, pois as transforma em quantidades. Ele é como um rei Midas mais modesto, nas palavras de Luiz Costa Lima. Em todo o romance, o narrador abre as portas da memória para se comprazer nos tons da paisagem poucas vezes: quando procura dar expressão panorâmica dos seus sentimentos íntimos, ou seja, da sua alegria vitoriosa após casar-se com Madalena, de maneira rigorosamente indireta e até lírica (MOURÃO, 1971, p.67).


Casou-nos o padre Silvestre, na capela de S. Bernardo, diante do altar de São Pedro.

Estávamos em fim de janeiro. Os paus-d’arco, floridos, salpicavam a mata de pontos amarelos; de manhã a serra cachimbava; o riacho, depois das últimas trovoadas, cantava grosso, bancando rio, e a cascata em que se despenha, antes de entrar no açude, enfeitava-se de espuma. (RAMOS, 1995, cap. 17, p. 94).


Como diz Mourão, como não ficamos sabendo nada sobre a solenidade ou os convidados do casamento, o estado psicológico de Paulo Honório ganha extraordinário relevo através dessa descrição.

Paulo Honório coisifica tudo e se coisifica também. Como lembra Cândido, ele chega ao ponto de incorporar a fazenda S. Bernardo ao seu próprio ser, como atributo penosamente elaborado. Paulo Honório é caracterizado pelo seu exterior. Podemos, inclusive acompanhar sua trajetória através da do estado em que se encontra a fazenda. Quando o narrador adquire a mesma, a propriedade está em cacos e a casa grande com as paredes caídas, apesar de a terra ser excelente. Depois, o narrador enriquece e se torna poderoso, invade as terras alheias deslocando as cercas, e reconstrói a casa. Para ele, S. Bernardo era o lugar mais importante do mundo, mas com sua decadência, encontramos uma fazenda em que desaparecem as diversas culturas, as laranjas amadurecem e apodrecem nos pés, tudo fica abandonado, os marrecos-de-pequim que ele elogiara a Madalena enquanto tentava conquistá-la morrem, as cercas dos vizinhos avançam em seu terreno e a casa, outrora sempre cheia de visitantes, fica vazia.

Em São Bernardo encontramos ainda alguns traços de ambientação. No capítulo 31, na cena da igreja, que antecede o suicídio de Madalena, por exemplo, a mesma aparece como que do outro lado das coisas terrenas. Isso acontece devido ao diálogo que se estabelece, mas também devido à identificação de Madalena com os santos dependurados na parede. Além disso, a vela que se apaga, a escuridão, o vento frio, o gemido da porta, as folhas secas, o relógio parado representam a morte que se aproxima.

No momento da enunciação, ou seja, enquanto Paulo Honório escreve sua história, temos também alguns traços. A atmosfera noturna acompanha o processo de escritura do narrador, e não por acaso, pois é durante a noite que o homem perde um pouco as fronteiras do cotidiano e do racional. Esta é representada na narrativa pela sua maior característica, isto é, a escuridão e por objetos, como as laranjeiras e as corujas. As folhas das laranjeiras, elementos recorrentes no texto, estão ligadas à reflexão e ao processo de escrita:

As corujas, zoomorfização da noite, animais noturnos, portadores de elementos que conotam morte ou tragédia, aves amaldiçoadas como o próprio Paulo Honório o diz, desencadeiam o processo de escritura através do seu pio e o assombram mesmo depois de as mesmas terem sido mortas. Podemos falar ainda do relógio, que acompanha a trajetória de Paulo Honório, pois quando este está no controle das situações, temos indicações na narrativa do horário em que acontecem os fatos, mas quando o protagonista perde este controle, perde também a capacidade de saber as horas.
7. tema
No romance São Bernardo de Graciliano Ramos o tema é a reificação. A personagem Paulo Honório aplica conceitos e práticas capitalistas em suas relações humanas, e tal fenômeno acaba por provocar um drama moral e o homem que conquistou as terras de São Bernardo com este pensamento, vê seu mundo desfeito, a fazenda abandonada e ele mesmo, sozinho.

Sendo assim, escreve suas memórias na tentativa de compreender suas ações, seus motivos e seus erros, que o levaram a esta situação.

De acordo com José Luiz Lafetá (1977, p.187), o conceito de reificação consiste no afastamento e na abstração “de toda qualidade sensível das coisas, que é substituído na mente humana pela noção de quantidade” e tem sua origem no capitalismo que é classificado pelo mesmo crítico como “empreendedor, cruel, que não vacila diante dos meios e se apossa do que tem pela frente, dinâmico e transformador” (op. Cit., p.181), como a personagem de Paulo Honório.

Como a reificação afeta as relações interpessoais, acaba por destituí-las de qualquer valor sensível, criando ilusoriamente um valor de troca. Sendo assim, as relações humanas transformam-se em relações entre possuidor e objeto possuído.

Conforme Luiz Costa Lima (1950, p.53) em “A reificação de Paulo Honório”, “a profundeza, bem como a tragédia de Paulo Honório tem suas raízes na reificação da vida e dos valores estabelecidas pelo seu afã de posse de S. Bernardo”. Porém não se deve pensar na personagem como sendo determinada unicamente pelo meio, como nos diz Antonio Candido (1971, p.104), que chama a atenção para um antinaturalismo presente na obra: “a técnica é determinada pela redução de tudo, seres e coisas, ao protagonista. Não se trata mais de situar uma personagem no contexto social, mas de submeter o contexto ao seu drama íntimo”. O contexto surge, portanto, através da visão do narrador.

Sob a mesmo perspectiva, Otto Maria Corpeaux (1943, p. 348), coloca como chave para a interpretação da obra de Graciliano Ramos a situação de sonho, na qual as personagens são imersos, e que o egoísmo dessa personagem...


É o egoísmo daquele que sonha e para o qual, prisioneiro de um mundo real, só ele mesmo existe realmente. A mentalidade inteiramente amoral do sonho exclui, de certo toda ‘generosidade’; mas a substitui por um sentimento mais vasto de identificação quase místico com as criaturas da própria imaginação.
Paulo Honório acredita que é diferente das pessoas que o cercam e escreve: “coloquei-me acima da minha classe, creio que me elevei bastante”.(RAMOS, 1975, p.195). Na visão dele, os seres humanos são classificados como bichos:
Bichos. As criaturas que me serviram durante anos eram bichos. Havia bichos domésticos, como o Padilha, bichos do mato, como Casimiro Lopes, e muitos bichos para o serviço do campo, bois mansos. Os currais que se escoram uns nos outros, lá embaixo, tinham lâmpadas elétricas. E os bezerrinhos mais taludos soletravam a cartilha e aprendiam de cor os mandamentos da lei de Deus.(RAMOS, 2005, cap 34, p.207).

Contudo, não podemos ignorar a crítica social existente na obra. Ela não está anulada, mas apresentada de modo a adquirir feição artística e literária, ultrapassando os limites do determinismo, pois conforma afirma Luis Costa Lima (1959 p.69):



Nenhuma obra de ciência, nenhuma pesquisa social nos poderia indicar com veracidade a ultimo ponto atingido pela reificação do individuo. As palavras em um romance, não são apenas signos que apontam para a realidade exterior. Ela sem duvida que levam a realidade, mas à uma realidade cuja inteireza não pode ser confundida com a socialmente dada. Por assim dizer, a palavra ficcional, viola a realidade para melhor alcançá-la e então dizê-la.







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