São Bernardo Graciliano Ramos contexto histórico, social, cultural e literário do autor



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5. tempo
Não se sustenta que se possa medir o valor de qualquer romance totalmente em termos de sucesso com que nele seja tratado o elemento temporal. [...] Tudo o que se reivindica, e a reivindicação é grande, é que o elemento temporal em ficção é da maior importância, e que em grande parte determina a escolha e o tratamento por parte do autor, o modo pelo qual este articula e dispõe os elementos de sua narrativa e o modo como usa a linguagem para expressar o seu senso do processo e do significado de viver. (MENDILOW, 1972 p. 263)

Em São Bernardo equilibram-se as tendências cronológicas e psicológicas, embora haja vantagem para as segundas.

A narrativa cobre toda a vida de Paulo Honório até aos 50 anos, idade que tem no presente da escrita, mas o seu andamento no tempo sofre alterações não conhecidas em São Bernardo. Há um primeiro período que vai até aos 18 anos e é relatado em pouco mais de meia página. Um segundo período que se estende até aos 45 anos e abrange mais ou menos 7 capítulos e meio, nos quais são mencionados alguns fatos e personagens que interessam para o enredo: a personalidade de Padilha, a aquisição de São Bernardo, a história de Seu Ribeiro e as intrigas de Mendonça. Por fim, um terceiro período mais curto, dos 45 aos 50 anos, em que ocorrem os acontecimentos que levaram à escrita do romance.

Neste curto período de 5 anos, iniciado com o conhecimento de Madalena, há ainda a assinalar os três anos de vida de casados e, dentro desse tempo, o ano em que os acontecimentos se precipitaram: o ano do ciúme, do suicídio de Madalena e da escrita do romance. Estas etapas definidas representam o tempo dos acontecimentos.

Na primeira fase (até aos 18 anos), o ritmo é vertiginoso, porque se trata de um tempo que deixou na consciência do protagonista poucas marcas. A segunda, que compreende 27 anos é apresentada em andamento vagaroso, sem preocupações cronológicas. A terceira decorre em marcha lenta, com confusões de tempo psicológico e cronológico, abrangendo 25 capítulos.

Considerando que a história começa quando o narrador-protagonista, Paulo Honório, fala desde sua infância, os dois primeiros capítulos são prolépticos.

No primeiro capítulo, três páginas concentram uma boa quantidade de informação. O narrador-protagonista, cujo nome só saberemos no capítulo III apresenta como objetivo escrever um livro e caracteriza sumariamente várias personagens que o ajudariam na empreitada: Padre Silvestre, João Nogueira, Arquimedes, Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, o próprio narrador.

O leitor é jogado em um mundo que desconhece, sem nenhuma palavra que sirva para localizá-lo, nenhuma descrição que lhe permita conhecer de antemão o mundo que vai agora visitar. Só uma voz narrativa, em primeira pessoa, o guia. O ritmo rápido prossegue e logo o leitor fica sabendo das razões do fracasso do projeto de Paulo Honório escrever o livro em conjunto.

No segundo capítulo o narrador-protagonista fala que pretende contar a sua história. Ficamos sabendo que tem 50 anos e que é fazendeiro. Paulo Honório também nos fala sobre sua dificuldade de escrever um livro.

O ritmo dos primeiros capítulos é vertiginoso. No terceiro, Paulo Honório começa a contar sua história. Através de um modo de narrar bastante conciso, ficamos sabendo de fatos decisivos da vida de Paulo Honório: sua infância miserável, o crime que o deixou “três anos, nove meses e quinze dias” na cadeia, os primeiros negócios e violências no sertão.

O episódio do esfaqueamento por causa da Germana é relatado por Paulo apenas no essencial:
Depois botou os quartos de banda e enxeriu-se com o João Fagundes, um que mudou o nome para furtar cavalos. “O resultado foi eu arrumar uns cocorotes na Germana e esfaquear João Fagundes” (RAMOS, 2005, pg. 16).
Com relação à duração, podemos dizer que nos primeiros capítulos do romance predomina o sumário que de acordo com Norman Friedman “é a exposição generalizada de uma série de eventos, abrangendo um certo período de tempo e uma variedade de locais”, portanto imprimindo rapidez à narrativa. Segundo Friedman, diferentemente do que acontece na cena, na qual o acontecimento é mais importante, no sumário o que mais interessa é a atitude do narrador.

O fato de o narrador contar algo que já aconteceu, estar distanciado do tempo dos fatos dá a narrativa um tom objetivo. Paulo Honório seleciona alguns momentos que acha importantes de sua evolução. Podemos falar de uma pseudo-onisciência.

Lafetá em “O mundo à revelia” diz que a objetividade que ressoa em todo o romance se dá também pela marcação obsessiva do tempo, cronometrado com precisão pelo narrador; pela linguagem seca, econômica, brusca e sem rodeios de Paulo Honório, ou seja, pela postura do narrador-protagonista face ao mundo.

Caracterizam ainda a objetividade da história de Paulo Honório as elipses sucessivas que ali se produzem. Paulo Honório nos apresenta muitos acontecimentos como simplesmente consumados como, por exemplo, o nascimento do filho.

Paulo Honório quantifica tudo ao seu redor, até ele mesmo. Para ele tudo é mensurável, catalogado. E movido pelo sentimento de propriedade não mede esforços para conquistar seus objetivos, portanto, o fim justifica os meios.

Principalmente com a morte de Madalena, Paulo Honório começa a não ter mais controle sobre as coisas. É o que Lafetá chamou de “o mundo à revelia”, fora do domínio do narrador-protagonista.

Segundo o autor, a partir daí entramos em uma outra etapa, a vida atual de Paulo Honório. Em contraste com a narrativa, o tempo que se instala agora traz problemas diferentes e, em conseqüência, proporciona mudanças no conteúdo e na composição do livro.

De acordo com Lafetá, a duplicidade temporal – o tempo do enunciado (se refere aos eventos que ocorreram na vida de Paulo Honório) e o tempo da enunciação (o momento em que se escreve o livro) - está ligada ao problema do ponto de vista narrativo.

No presente de enunciação o distanciamento desaparece e tem implicações profundas na narrativa. A linguagem seca do tempo de enunciado cede espaço a uma mais lírica, de lamentação; o ritmo acelerado dá lugar a compassos mais lentos. Paulo Honório abandona a ação e volta-se para si mesmo, buscando na memória de sua vida o ponto em que se desnorteou “numa errada”.

No tempo da enunciação notamos imediatamente a infiltração dos signos da subjetividade, a irrupção do monólogo interior, o abalo do ponto de vista pseudo-onisciente. A narração do tempo que antes aparecia de forma obsessiva e precisa agora parece escapar ao domínio de Paulo Honório:


Uma pancada no relógio da sala de jantar. Que horas seriam? Meia? Uma? Uma e meia? Ou metade de qualquer outra hora? [...] Segunda pancada no relógio. Uma hora? Uma e meia? Só vendo. [...] Ah, sim, ver as horas. Empurrava a porta, atravessava o corredor, entrava na sala de jantar. Sempre era alguma coisa saber as horas. (RAMOS, 2005, p. 181).
A capacidade de controlar o tempo estava ligada à capacidade de ação e domínio. Neste momento, a dúvida, a oscilação, a insegurança simbolizam a incapacidade do narrador de controlar um mundo que já não pode reduzir à objetividade da medida exata, que foge de seu controle.

Mas é de fato no momento em que o tempo da enunciação começa a ser representado, quando Paulo Honório escreve, que a subjetividade aparece com toda força. O capítulo XIX é crucial, bem no meio do romance (que possui trinta e seis capítulos), pois mistura objetividade e subjetividade, memória e presente.

Enfim, Paulo Honório, corroído pelo sentimento de frustração, busca a partir da escritura (e o faz através da memória) se equilibrar, procura um sentido para sua vida. Assim, o narrador-protagonista se aproxima o máximo do ser humano, capaz de refletir, porém, incapaz de chegar a respostas definitivas: “E vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos”.(RAMOS, 2005, p.221).




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