São Bernardo Graciliano Ramos contexto histórico, social, cultural e literário do autor



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4. narrador e focalização
Em São Bernardo, o narrador é o protagonista Paulo Honório, ou seja, é um narrador autodiegético: segundo Reis e Lopes (2002, p. 118), citando Genette, é "o narrador da história que relata as suas próprias experiências como personagem central da história". "Começo declarando que me chamo Paulo Honório, peso oitenta e nove quilos e completei cinqüenta anos pelo São Pedro..." (RAMOS, 1995, cap. 3, p. 10)

Portanto, "[...]o mundo áspero, as relações diretas e decisivas, os atos bruscos, a dureza de sentimentos, tudo que forma a atmosfera de São Bernardo decorre da visão pessoal do narrador" (CÂNDIDO, 1992, p. 77). Assim, a escolha de Graciliano Ramos por um narrador autodiegético também é elemento central na obra. As características pessoais (objetividade, modo prático) de Paulo Honório enquanto narrador de um texto literário saltam aos olhos logo no início do romance: ele declara ter dificuldade para escrever, que preferiria dividir o trabalho de escritura para obter melhores resultados em menos tempo, e que não se preocupa com uma ‘escrita literária’. "Para ele, realizar um romance é apenas contar uma intriga, sem a preocupação da maneira de contar". (LINS, 1967, p.58 )


As pessoas que me lerem terão, pois, a bondade de traduzir isto em linguagem literária, se quiserem. Se não quiserem, pouco se perde. Não pretendo bancar escritor. (RAMOS, cap. 2, p.13)
Essa descrição, porém, só seria aqui embutida por motivos de ordem técnica. E não tenho o intuito de escrever em conformidade com as regras. Tanto que vou cometer um erro. Presumo que é um erro. Vou dividir um capítulo em dois[...]. (Final do cap. 13, p. 78)
"(...) São Bernardo apresenta uma variação de grande importância: o personagem-narrador comparece em cena enquanto se acha ocupado com a composição." (MOURÃO, 1971, p. 35)
Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as idéias não vêm, ou vêm muito numerosas – e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera [...]. ( RAMOS, Cap. 19, p.100-101)
A focalização neste romance é interna fixa, que é a centralização do ponto de vista numa só personagem, Paulo Honório. Por exemplo quando conversa com d. Glória no trem, assuntando sobre Madalena, expõe sua visão acerca de sua objetividade:
"Essa conversa, é claro, não saiu de cabo a rabo como está no papel. Houve suspensões, mal-entendidos, incongruências, naturais quando a gente fala sem pensar que aquilo vai ser lido. Reproduzo o que julgo interessante. Suprimi diversas passagens, modifiquei outras. [...]. (RAMOS, Cap. 13, p. 77).
Segundo Lafetá (1977, p. 186) "Paulo Honório nasce de cada ato; mas, por outro lado, é ele quem deflagra todas as ações, esta interação entre o ser e fazer vão compor a construção do romance." A maneira direta de contar o desejo de possuir São Bernardo e a sua conquista reflete para nós um Paulo Honório que governa o mundo e imprimi-lhe o seu ritmo. A velocidade da narrativa é reflexo de "Paulo Honório que trás a força de tempos novos que surgem, vencendo a inércia e quebrando obstáculos." (LAFETÁ, 1977, p. 181). Os fatos quase sempre são mostrados e não referidos, o leitor é colocado diante de algo parecido com uma representação.

"Amanheci um dia pensando em casar. Foi uma idéia que me veio sem que nenhum rabo-de-saia a provocasse. Não me ocupo com amores, devem ter notado, e sempre me pareceu que mulher é um bicho esquisito, difícil de governar." (p. 57)

Desde o começo do romance, o leitor depara-se com um narrador que sabe exatamente o que quer: enérgico, decidido, que não desanima diante do fracasso. "Há uma voz narrativa que dirige o leitor e dirige o resto também, o que fica para o leitor é a sua força [de Paulo Honório] que domina tudo" (LAFETÁ, 1977, p. 193). Aliás, até mesmo o leitor é empurrado para dentro da narrativa, sem rodeios nem avisos. Exemplo desta força de rolo compressor está quando Paulo Honório fala do jornalista Gondim:
"[...]eu por mim, entusiasmado com o assunto, esquecia constantemente a natureza do Gondim e chegava a considerá-lo uma espécie de folha de papel destinada a receber as idéias confusas que me fervilhavam na cabeça." (p. 6)
Com uma técnica narrativa que marca vigorosamente o tempo, o jogo da velocidade e os recuos temporários, Paulo Honório narra a posse de São Bernardo e de Madalena. Até a posse de Madalena a narrativa segue em linha reta de ação. A partir daí, a narrativa prossegue de forma enovelada: o dinamismo de Paulo Honório encontra-se constrangido, afinal é o momento em que ele se apaixona, mesmo que tenha tentado dizer que era somente para ter um "herdeiro". A ação em linha reta é retomada no desfecho da narrativa. No final do capítulo 35, o estilo revela a impotência do herói; assim finda este penúltimo capítulo:
"E recomecei os meus passeios mecânicos pelo interior da casa. Às vezes empurrava a porta do escritório para dar uma ordem a seu Ribeiro. Parecia-me ver d. Glória malucando no pomar, com o romance. E os meus passos me levavam para os quartos, como se procurassem alguém." ( RAMOS, p. 183)
A objetividade que caracteriza o romance nasce da postura do narrador face ao mundo e do distanciamento no tempo; Paulo Honório lança um olhar sobre sua vida e procura recapitulá-la, contando-a para si e para o leitor. "Ao entrarmos no presente da enunciação, o distanciamento desaparece, o ritmo rápido da enunciação é substituído pelos compassos mais lentos de uma reflexão. Paulo Honório abandona a ação e volta-se sobre si mesmo." (LAFETÁ, 1977, p. 194)

No instante em que o ato de escrever e o tempo da enunciação são concomitantes há a infiltração da subjetividade de Paulo Honório:


Rumor do vento, dos sapos, dos grilos. A porta do escritório abre-se de manso, os passos de seu Ribeiro afastam-se. Uma coruja pia na torre da igreja. Terá realmente piado a coruja? Será a mesma que piava há dois anos? [...]. (Cap. 19, p. 102-103)
A objetividade inicial do romance é aos poucos substituída pela subjetividade do autor-narrador e aparece com mais força em dois momentos da narrativa: no período do casamento e no ciúme, o que retira a segurança do narrador e que o faz duvidar do que vê:
Afastava-me, lento, ia ver o pequeno, que engatinhava pelos quartos, às quedas, abandonado. Acocorava-se e examinava-o. Era magro. Tinha os cabelos louros, como os da mãe. Olhos agateados. Os meus são escuros. Nariz chato. De ordinário as crianças têm o nariz chato. Interrompia o exame, indeciso: não havia sinais meus; também não havia os de outro homem. (RAMOS, p. 137)

 

"[...] Paulo Honório escreve seu livro e busca o sentido de sua vida. [...] São Bernardo romance é a tentativa de encontrar o sentido da vida perdido e encontro final e trágico consigo mesmo e com a solidão" (LAFETÁ, 1977, p. 196-197).


Assim finda o livro: "E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns instantes." (RAMOS, 1995, p. 191)




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