São Bernardo Graciliano Ramos contexto histórico, social, cultural e literário do autor



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3. personagens
Paulo Honório, figura de destaque no universo diegético de São Bernardo, surpreende os leitores de uma forma convincente por ser uma personagem complexa. É ele quem narra sua própria história, onde “[...] sente uma necessidade nova – escrever - e dela surge uma nova construção: o livro onde conta sua derrota. Por meio dele obtém uma visão ordenada das coisas e de si [...]” (CANDIDO, 1992).

Seu enredamento psicológico é profundo e se reporta na linguagem seca e simples que utiliza, mas sua capacidade de expressar esse enredamento é superficial.

Paulo Honório não conheceu seus pais, só se recorda de ter sido guia de um cego que lhe puxava as orelhas, e que havia vivido com uma velha negra, miserável e doceira, a quem chamava “Mãe Margarida”. Trabalhou muito durante sua vida, chegando mesmo a trabalhar na fazenda São Bernardo, até que esfaqueou um rival e foi para a cadeia, de onde saiu com uma idéia fixa: ganhar dinheiro.

Com este intuito, ele acaba conseguindo comprar a São Bernardo que para ele “[...] não se podia comparar a outra, era o prolongamento de si próprio; era a imagem concreta de sua vitória sobre os homens e obstáculos, de vários portes, superados e esmagados [...] (CANDIDO, 1992).

Para aprofundar este estudo sobre Paulo Honório, tomaremos por base o ensaio “A reificação de Paulo Honório”, de Luiz Costa Lima (1969).

Paulo quer extrair da vida e do mundo os aspectos quantitativos, e procura durante todo o tempo neste romance, transformar as coisas e as pessoas em lucros e quantidades. E será esta quantificação excessiva que o esmagará.

Até mesmo a afetividade do protagonista, será quantificada e irá até o momento que seu dinheiro começa a ser gasto. Segundo o próprio Paulo Honório, por não ter conhecido o amor, seu mundo foi todo pautado em concretudes regidas pela necessidade, ou seja, Paulo acabava associando tudo o que desejava ou admirava ao sentimento de posse, apesar de em certos momentos, ter fissuras de sensibilidade em seu caráter, momentos de ternura para com aqueles que amava, ou julgava amar. Um bom exemplo disso está no tratamento que ele dá à “Mãe Margarida”: em determinados momentos sente afeição pela velha, mas em outros só pode calcular seu afeto através lenha, luz, cobertor etc., e qualquer coisa que fosse além desses bens necessários, era a seu ver, um desperdício de dinheiro.

Quando Paulo não quantificava as pessoas, ele as animalizava, comparando todos com bichos, especialmente seu capanga Casimiro Lopes. Este trazia em si, certas características animalescas, como a fidelidade cega a Paulo, eliminado inclusive, inimigos de seu senhor. Por ser assim, Casimiro, nunca tinha consciência de sua maldade, ficando satisfeito somente com a afeição e a amizade que Paulo lhe dava. Quando Paulo agia dessa forma para com as pessoas ao seu redor, era sua forma de compreensão de mundo.

Paulo Honório se casa com Madalena, que era uma moça pobre, professora primária que ganhava pouco e ainda tinha que sustentar a tia. Um dia ela é surpreendida pelo pedido de casamento de Paulo, que mais se parece com um contrato de negócios. Idealista, ela tem uma vontade verdadeira de ajudar o próximo, mas é freqüentemente interrompida pelo marido, que não consegue compreender esse sentimento humano. Perseguida, ela desiste até mesmo de cuidar do filho que tem com ele.

Paulo tenta se apossar de Madalena, comum objeto, mas a sofisticação do saber dela o diminuía. Não conseguindo quantificá-la, pois a amava, a admiração que nutria por ela se torna um ciúme doentio, que ao poucos vai acabar com a relação dos dois.

O momento trágico do livro se dá com o suicídio de Madalena. Com a morte dela, o protagonista tem uma clarividência tardia de seus erros e reconhece que poderia ter sido um marido melhor, apesar de confessar que, talvez, se pudesse voltar no tempo faria tudo novamente. Corroído pelo remorso, encontra ainda o verdadeiro culpado pela desgraça que se abateu sobre ele: o modo de vida que levou, o único que conheceu e que o impediu de se humanizar. A conseqüência disso é ver-se desfigurado, como um monstro.

Existem ainda personagens secundários que contribuem para a história e que também foram influenciados pela quantificação: o Bacharel João Nogueira, advogado, que procura mudar seu discurso de acordo com o interlocutor. O Dr. Magalhães, um juiz que representa a integridade, sendo comedido, e nunca sabendo mais do que o necessário para sua profissão. Padilha, o ex-dono da fazenda que depois se torna propriedade de Paulo Honório. Ele gasta sua vida no jogo e bebidas e por fim, acaba indo trabalhar em São Bernardo, como professor primário.

Marciano e Rosa, marido e mulher, ele é maltratado por Paulo durante todo o livro e ele mantém um caso com o patrão; e D. Gloria, tia de Madalena que procura um casamento para a sobrinha.

Dentre eles, Seu Ribeiro, representa mais que um simples personagem secundário na obra, pois sua personalidade faz um contraponto com a de Paulo. Ele havia sido lento e patriarcal quando dono de terras, mas daí aparece o sistema capitalista, a voz dos novos tempos trazida por Paulo Honório, devastando o modo de relações de São Bernardo e o seu sistema anterior.






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