São Bernardo Graciliano Ramos contexto histórico, social, cultural e literário do autor



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São Bernardo

Graciliano Ramos



1. contexto histórico, social, cultural e literário do autor
São Bernardo tem sua escritura iniciada em 1932 (LAFETÁ, 19__. p. 219), quando Graciliano Ramos volta de Maceió para Palmeira dos Índios e funda uma escola na Igreja Matriz (fato que também seria aproveitado num episódio deste seu livro).

A publicação de São Bernardo acontece em 1934, entre seu primeiro romance, Caetés (1933) e Angústia (1936), livro mais aclamado pela crítica que os primeiros.

Graciliano é assim classificado como autor pertencente ao Modernismo dos anos 30, de escritores cuja preocupação se atém na “consciente interpenetração de planos (lírico, narrativo, dramático, crítico) na busca de uma ‘escritura’ geral e onicompreensiva, que possa espelhar o pluralismo da vida moderna” (BOSI, 1968, p.388).

Contudo tais temáticas só puderam se reforçar graças às trilhas abertas pelo Modernismo de 22, que promoveu a “‘descida’ à linguagem oral, aos brasileirismos e regionalismos léxicos e sintáticos (op. Cit. p.385) […], o gosto da arte regional e popular, […] [e o] afã de redescobrirem o Brasil” (p.387).

O contexto sóciopolítico também era fértil para escritura destes novos modernistas, “reserva-se toda atenção ao potencial revolucionário da cultura popular” (p.387), diz Bosi. Os escritores aprendiam a se posicionar criticamente ante a política e aos fatos sociais, e se voltavam para a descoberta da identidade do brasileiro, ânsia do modernismo anterior.
As décadas de 30 e 40 vieram ensinar […] por exemplo, que o tenentismo liberal e a política getuliana só em parte aboliram o velho mundo, pois compuseram-se aos poucos com as oligarquias regionais, rebatizando antigas estruturas partidárias, embora acenassem com lemas patrióticos ou populares para o crescente operariado e as crescentes classes médias, que a “aristocracia” do café, patrocinadora da Semana, tão atingida em 29, iria conviver muito bem com a nova burguesia industrial dos centros urbanos, deixando para trás como casos psicológicos os desfrutadores literários da crise. Enfim, que o peso da tradição não se remove nem se abala com fórmulas mais ou menos anárquicas nem com regressões literárias ao Inconsciente, mas pela vivência sofrida e lúcida das tensões que compõe as estruturas materiais e morais do grupo em que se vive. (idem, p.384).

O fim da Primeira Guerra mundial fez a classe média burguesa ganhar força política, o movimento do Tenentismo era grande expressão dessa voz, composta por jovens militares e membros da classe média do nordeste brasileiro. As oligarquias não conseguiam mais se adequar politicamente a tantas revoltas, a política do “café-com-leite” se abalava. Simultaneamente a essas revoltas, se fortalecia a industrialização bem como o operariado, que também iniciava a luta por seus direitos entre 1920-1930.

A quebra da bolsa de Nova Iorque, em 1929, fez decair financeiramente classes dominantes, como aristocracia do café, que pediu proteção financeira do governo de Washington Luís, sendo por ele, recusada. O presidente apóia a candidatura de um paulista, Júlio Prestes, para tentar manter estável a economia. Contudo isso serve de munição para revoltosos contra as práticas do governo, organiza-se a Aliança Libertadora, com o projeto político de incentivar a produção geral do Brasil e não só a do café.

A revolução de 1930 eclode com o assassinato de João Pessoa, candidato à vice-presidência com a Aliança, provavelmente por seus problemas políticos com os produtores nordestinos, como nos descreve Boris Fausto.


A luta de grupos na Paraíba vinha de muito tempo. Eleito governador do estado, João Pessoa tentou realizar uma administração modernizante, submetendo a seu comando os “coronéis” do interior. Uma de suas preocupações consistiu em canalizar as transações comerciais pelos portos da capital e de Cabedelo, com dois objetivos: garantir o recebimento dos impostos devidos e diminuir a dependência comercial e financeira em relação ao Recife. Suas iniciativas se chocaram com os interesses dos produtores do interior – sobretudo de algodão -, os quais negociavam por terra com o Recife e escapavam facilmente à tributação. (FAUSTO, 1995, p.323)

A Aliança Libertadora vence, colocando Getúlio Vargas no poder. Tal passagem da História é citada pelo narrador-personagem de São Bernardo, Paulo Honório. Seu grupo de companheiros provavelmente se posicionava contra os revoltosos, e a vitória deles refletiu na decadência na fazenda do protagonista.


Gondim detestava acordos. Dente por dente, percebíamos? Dava-nos conselhos violentos, a mim, ao Nogueira, às arvores do pomar, e instigava-nos a uma contra revolução (quanto mais depressa melhor) que varresse do poder aquela cambada de parlapatões. Queria um governo enérgico, sim senhor, duro, sim senhor, mas sensato, um governo que trabalhasse, restabelecesse a ordem, a confiança do credor e a subvenção de cento e cinqüenta mil-réis mensais ao Cruzeiro. Como íamos é que não podíamos continuar.

Atirava-nos palavrões encorpados que no jornal lhe serviam para tudo. São Paulo havia de se erguer, intrépido; em São Paulo ardia o fogo sagrado; de São Paulo, terra de bandeirantes, sairiam novas bandeiras para a conquista de liberdade postergada.

- Você fala bem, Gondim, murmurava eu impressionado. Você havia de trepar, Gondim, se o nosso partido não tivesse virado de pernas pro ar. (RAMOS, cap. 34)
A emergência da classe média burguesa acabou por retirar do governo políticos que tratavam a “questão social como caso de polícia” ao modo de Washington Luís, a estabilidade social foi atingida com Getúlio Vargas. Político de extrema habilidade, seguiu ambiguamente (ora apoiando aristocratas, ora o operariado e membros do tenentismo), abafando revoluções e ganhando prestígio popular, até conseguir promover o golpe de Estado (1937), centralizando o poder para crescer economicamente. Contribuiu para sua popularidade a nova Constituição que promovia mais direitos ao trabalhador, promulgada no ano de publicação de São Bernardo.

Bosi alia à idéia deste contexto histórico aos conceitos de Goldmann, que diz que a literatura moderna se volta para o enfrentamento do eu com o mundo, causando abalos nos romances do período.


Houve, sobretudo uma ruptura com certa psicologia convencional que mascarava a relação do ficcionista com o mundo e com seu próprio eu. O Modernismo num plano histórico mais geral, os abalos que sofreu a vida brasileira em torno de 1930 (a crise cafeeira, a Revolução, o acelerado declínio do Nordeste, as fendas nas estruturas locais) condicionaram novos estilos ficcionais marcados pela rudeza, pela captação direta dos fatos, enfim por uma retomada do naturalismo, bastante funcional no plano da narração-documento que então prevaleceria. (p.389)
A arte aqui se mostra como “antena à frente do tempo”, percebendo antes do povo, esperançoso num Brasil melhor com as mudanças políticas, que não se pode crer fielmente em ações regidas por um fundo de interesses. Graciliano Ramos traz neste seu romance as conseqüências da ânsia pelo progresso baseado no capitalismo. São Bernardo dialoga fortemente com seu tempo, sem, contudo, estar preso a ele.



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