Sensibilidade eletrônica: sobre o sentido das substâncias psicoativas na cultura rave



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Os recursos para ir além e a mecânica do juízo: sobre o consumo de substâncias1 como prática cultural jovem nas festas de música eletrônica

Ivan Paolo de Paris Fontanari2

PPGAS – UFRGS


Comunicação apresentada no XVIII ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS

Caxambu, 26 a 30 de outubro de 2004

Seminário temático 014: “Linguagens, sensibilidades, corporalidades: culturas jovens urbanas e novas configurações subjetivas”

Coordenadoras:

Maria Isabel Mendes de Almeida, PUC-Rio

Fernanda Eugenio, MN/UFRJ

Maria Claudia Coelho, UERJ



Resumo
Neste artigo proponho-me analisar e interpretar o consumo de substâncias comumente referidas “psicoativas”, “psicotrópicas”, “tóxicas”, ou “entorpecentes”, nas festas de música eletrônica, como práticas culturais e identitárias de jovens de camadas médias, a partir de dados obtidos no trabalho de campo realizado nas cenas eletrônicas de Porto Alegre e São Paulo. Objetivando o distanciamento em relação às construções produzidas pelo senso-comum sobre estas substâncias, procuro, através da descrição etnográfica, reconstruir alguns dos sentidos a elas atribuídos pelos próprios nativos no contexto local de apropriação e consumo. Entre eles, destaco o sentido ritual, o de marcar distinções sociais e ideológicas no interior da cena, e o de constituir, junto a uma série de outros elementos, uma “identidade eletrônica”, em oposição à “sociedade abrangente”. O consumo e o comércio destas substâncias, principalmente o ecstasy, tem sido o emblema com que a mídia tem marcado este tipo de expressão cultural, enquanto os órgãos oficiais do Estado - com quem os produtores culturais disputam o “controle sobre o corpo” - utilizam-no como justificativa para ações de repressão a algumas festas.

Para analisar e compreender o sentido das práticas de consumo de substâncias na cena eletrônica sugiro que nos “inebriemos” um pouco deste mundo. Podemos começar com umas baforadas de diet: as duas narrativas a seguir tratam de dois fatos relacionados ao uso de substâncias no contexto específico das festas de música eletrônica. Apesar de se referirem a casos “limite”, que não correspondem de modo algum a uma média e muito menos ao todo da diversidade de práticas de consumo de substâncias nas festas de música eletrônica, são bastante expressivas para iniciarmos uma discussão, por tratarem justamente de fatos extraordinários, revelando aspectos que não o seriam de outra forma.

O primeiro fato narrado ocorreu na festa da feira alternativa Mix Bazaar, em agosto de 2002. A feira realiza-se em fins de semana aproximadamente de dois em dois meses, e a festa sempre na noite de sábado para domingo. Nesta ocasião realizou-se no armazém B do Caís do Porto de Porto Alegre, de frente para o rio Guaíba. O segundo fato ocorreu na primeira edição em Porto Alegre da festa rave Xxxperience, em setembro de 2002, realizada exatamente no mesmo local da festa do Mix Bazaar.

(A transmutação)



... eu fiquei sabendo que ele cheirava solvente3 em casa, em casa !!! ... e o cara, segundo o André, tinha contato com outras realidades,... falou que o solvente era a salvação do mundo. ...não, e esse cara era como se fosse um filósofo, ele tinha vários conhecimentos, tudo adquirido através dos inalantes, tá ligado, ele recebia o conhecimento através da viagem do inalante...

[...]

... uma estória engraçada desse cara, que numa festa lá, aquela lá do Mix Bazaar, o cara tomou um teto desse negócio, desse diet4 ai, ai embolotou (caiu no chão), ficou deitado, assim, e parou a festa assim em volta do cara, e ai daqui a pouco o cara pegou e se levantou dançando um break assim, toda festa começou a vibrar assim, a bater palma,... ai o cara me falou que ele tinha morrido e ressuscitado como mestre Lú, tá ligado, e o cara é conhecido como Gô, tá ligado, chamam ele de Gô, só que ele falou que a partir daquele momento ele tinha se tornado mestre Lú,... ai numa festa depois dessa que ele morreu. (Ricardo, em 08/07/03)
__________________

(A transcendência)



...É, eu acho que o cara teve uma parada cerebral, por causa do inalante, no auge da festa, dançando, e cheirando aquele esquema, e eu não cheguei a ver assim, só sei que quando eu cheguei um amigo meu falou que viu um corpo sendo tirado, e depois se ligou que era o cara. [...] Não, o cara,... eu acho que ele... é que eu não convivia muito com ele, eu encontrava com ele em festa...

[...]


...quando eu cheguei em casa, assim, depois que eu vi o cara morrer, no flyer da festa eu li assim: “prepare-se para fazer parte da história”, ai eu me apavorei !!!,... eu olhei e tinha um símbolo Oum assim [no flyer], ai dei mais uma olhada e tinha uma cabeça com umas mandalas, ligando os pontos energéticos da cabeça assim, ai... [...] Ah, eu, bah, me apavorei quando vi o flyer, tá ligado, e tive uma idéia desse desenho que parecia uns espermatozóides entrando num óvulo, tá ligado, ai deu toda uma viagem de nascimento, com o Oum, som primordial, "você vai fazer parte da história", e esse cara foi um dos caras que mais abriu minha mente assim, em termos de visão de mundo, o cara tinha uma visão tri esclarecida do mundo, não era preso a conceitos, em nada assim, e uma mente tri aberta assim, então a morte desse cara, e lendo o negócio do flyer no dia que ele morreu, foi um negócio que bah, caiu minha casa, foi foda assim !!!. [...] Pior que eu não fiquei ruim, na hora eu fiquei normal, só que o negócio foi mais a longo prazo, vira e mexe eu me lembro assim, e é um negócio que eu não consigo aceitar muito, eu me lembro do cara nas festas, dançando, porque o cara chutava o balde assim, tipo, ele entrava em transe mesmo na festa, e eu nunca via o cara pra baixo, ele sempre tinha uma mensagem de otimismo, assim, e sempre pra cima, e depois o cara sumiu, do nada assim, bah, foi uma viagem. (Ricardo, em 08/07/03)
Em relação a esta segunda narrativa, acrescento ainda a menção feita por Ricardo de que Gô teria passado um dia em estado de grande felicidade, aumentada ainda mais no momento da festa. Há registros no E-Ar5, um antigo informativo eletrônico da cena de Porto Alegre, de que esta festa era comentada entre o público com dois meses de antecedência. Revela uma certa extraordinariedade atribuída a esta festa pelos ravers.




Na primeira parte da narrativa podemos destacar o caráter heurístico atribuído ao consumo desta substância, como uma forma de ampliar a percepção da realidade e aumentar o “conhecimento” sobre ela. Nota-se que o narrador atribui à sua personagem um status significativo: desempenharia a função de uma espécie de “guru” entre os participantes de sua rede de relações. Os “conhecimentos adquiridos através de suas viagens com solvente” parecem ter eficácia no convencimento dos participantes quanto ao seu poder intelectual no sentido de “compreensão do mundo”.

O primeiro fato narrado, em que Gô, sob efeito de inalante, desmaia, e em seguida, surpreendendo o público em seu entorno, retoma a consciência, realizando movimentos associados pelo narrador aos dos dançarinos de break, é interpretado pelo próprio Gô como uma transformação repentina de si. Uma mudança de identidade própria de seres com poderes sobre-humanos, capazes de interferirem diretamente sobre a ordem humana e natural, de ultrapassar o limiar da existência e retornar à condição comum com outra identidade, resultado de um ato de “revelação” ou “iluminação”.

O segundo acontecimento, conforme narrado, conecta a personagem Gô a dimensões mais abrangentes da especulação filosófica sobre a “existência humana”: a “história”, o “nascimento”, o “som primordial do universo”. Enfim, aspectos da mesma “grandiosidade” que os poderes previamente reconhecidos a Gô, que se concretizaram na forma de uma transcendência espiritual no momento em que Gô teria obtido o saber universal. A interpretação do evento, realizada por Ricardo, a partir da leitura de símbolos que compunham o flyer de divulgação da festa, conecta uma série de elementos simbólicos disponíveis a partir de um esquema interpretativo bastante particular. Seus elementos componentes expressam, primeiro, uma crença na verdade e eficácia de sua interpretação para os fatos; e segundo, um fenômeno global contemporâneo de bricolagem de práticas rituais e discursivas resultante da combinação de elementos originários de cosmologias religiosas orientais, de outras gerações de culturas jovens, da tecnologia utilizada na produção e ritualização da música eletrônica, e de seus materiais impressos. Uma série de evidências que nos permitem caracterizar a cultura da música eletrônica de pista no campo mais amplo das culturas místico-alternativas descritas por Luis Eduardo Soares em “Religioso por natureza: cultura alternativa e misticismo religioso no Brasil” (1994).

Um dentre vários dos aspectos destacados por Soares, que definiriam as culturas alternativas em geral, seria o das condições de se efetivar o “acesso do ser humano aos segredos universais”. Segundo ele, nos casos mais expressamente religiosos, as vias prioritárias de acesso ao conhecimento seriam os ensinamentos revelados e as experiências místicas, e nos outros, a sensibilização receptiva da intuição. A “razão”, nas culturas místico-alternativas, se adequaria aos constrangimentos impostos pelas demais vias de acesso ao “conhecimento”, limitando-se a apoiar e a traduzir o material apreendido pela via direta das “conexões cósmicas” (Soares, 1994: 194). No caso de Gô, os contatos que teria com “outras realidades” através das “viagens com inalante”.

O acesso aos “segredos universais”, no entanto, teria um caráter restrito – não é qualquer pessoa que tem acesso -, o que resultaria do privilégio conferido à revelação, à participação mística ou à intuição receptiva frente a uma natureza que teria incorporado as propriedades do espírito humano (Idem); como uma forma de legitimação de determinados papéis-sociais-chave na organização interna das culturas alternativas ou religiões - e, porque não, na própria cena eletrônica - , e das próprias culturas e religiões frente à sociedade abrangente.

O fundamento deste privilégio da revelação ocorreria graças a uma “assimetria constitutiva” da relação a partir da qual se dá o acesso ao conhecimento. Haveria um “depositário de verdades”, um “ser supremo”, ou o próprio “cosmos”, que, uma vez espiritualizado, assumiria a posição de sujeito, produtor de sentido, concebido como inteligência ampliada à plenitude do real. "Havendo irredutivelmente assimetria, sendo esta a condição de possibilidade do acesso (aos saberes universais)6, a limitação terá de ser reposta indefinidamente, para que o acontecimento continue sendo possível" (Idem: 195).

Se não houvesse mais limitação, não haveria assimetria, e nem a possibilidade de acesso humano às verdades universais, à inteligibilidade da essência do todo. A limitação de acesso ao conhecimento no caso de Gô teria sido a restrição da própria vida, depois de ter, conforme a interpretação de Ricardo, alcançado a revelação plena. A sua morte corresponderia, no sentido de manutenção da assimetria, em uma forma de garantir a inacessibilidade comum ao conhecimento pleno. Gô morreu, em função de sua transcendência a outra dimensão porque descobriu o segredo da existência, sujeitando-se às “leis” do conhecimento pleno.


Mesmo a situação extrema da revelação plena da verdade absoluta, em que a essência transparente como que divinizaria os homens com sua luminosidade fulgurante, mesmo nessa situação teria de estender, mais uma vez, a assimetria, pois suporia, ainda uma vez, a última revelação, aquela derradeira intuição que informaria o homem iluminado sobre o caráter último e completo de seu conhecimento (Idem: 195).
Como garantia de manutenção desta “assimetria constitutiva” do “conhecimento” nas culturas místico-alternatvas, Gô teria “entrado para a história”, conforme a conexão interpretativa realizada por Ricardo entre o fato ocorrido na festa e a mensagem impressa no flyer, incorporando-se a partir de um movimento definitivo de libertação do corpo, - que, como veremos, é um preceito componente da cosmologia da cena eletrônica, - ao plano cósmico. Os deuses, espíritos, ou forças místicas, onipotentes, oniscientes e onipresentes, geralmente habitam o céu ou são elementos da natureza, e não seres humanos que vivem entre nós.
Para reconstruir e compreender melhor seu sentido, muito mais das narrativas do que os fatos em si – o que seria uma tarefa muito mais complexa e delicada - , é preciso também ter acesso a alguns dos elementos que definem o que podemos chamar de “ideologia da transcendência” na cena eletrônica. Esta ideologia pode ser observada tanto nos discursos quanto nas práticas. A noção nativa de vibe7 é um elemento discursivo que podemos associar a esta ideologia. É freqüentemente usada para se referir à qualidade da festa, corresponde à emoção, à energia, à vibração e harmonia alcançados quando os participantes do ritual de música eletrônica estão individual e coletivamente “sintonizados” com a música, entre si, e com o meio, extasiados e transcendidos do “estado comum” físico, mental e espiritual. Ou mais que isso, uma “perfeita integração entre músicas, máquinas e humanos” (Bacal, 2003).

Nas práticas, a “ideologia da transcendência”, a idéia de “ir além da condição dada” tem seu foco no “corpo” dos participantes. O sentido da música e do ambiente sensorial criado é motivar a mobilidade corporal através da dança, que realizada até a exaustão física provoca a liberação de compostos neuro-químicos que geram prazer. A idéia da estrutura da festa, tanto da dinâmica (diacrônica) quanto do meio ambiente sensorial (sincrônica), é de amplificar estas sensações pela indução de uma experiência “totalizante” de longa duração, que ultrapassa o limiar da noite avançando muitas vezes por boa parte do dia seguinte. As substâncias são consumidas não apenas por seu efeito particular, mas para prover o corpo com mais energia para a amplificação das sensações naturalmente provocadas sem a sua utilização. Para que se possa “ir além”, “transcender”, pelo transe hipnótico, libertando-se do ego e do superego, pela expansão da consciência ou da sensibilidade ao ambiente.

Em síntese, podemos dizer que o alcance da vibe depende de vários fatores. Sem uma ordem de importância: do ostinato da música, reforçado pelas luzes, do processo neuro-químico de liberação de substâncias presentes no corpo humano em virtude do grande esforço físico realizado dançando-se na festa, substâncias que provocam liberações emocionais; do compartilhamento de um mesmo estado com uma grande quantidade de pessoas; do uso de substâncias que reforçam estes estados corporais; e, por fim, da crença na possibilidade de seu alcance, conforme a cosmologia presente na cena eletrônica, cuja narrativa de Ricardo é um exemplo.

Nesta conexão da narrativa expressa por Ricardo com a descrição genérica da cosmologia das culturas místico-alternativas feita por Soares, o consumo de substâncias parece adquirir um sentido, senão para todos, pelo menos para os participantes “estabelecidos” (Elias, 2000) da cena eletrônica que têm incorporado práticas, um ethos e uma visão de mundo que dão sentido ao ato de permanecerem dançando durante horas em ambientes escuros com luzes coloridas, sob o ostinado da música eletrônica em alto volume. A seguir, procuro situar as narrativas sobre o caso de Gô entre algumas questões que parecem ser fundamentais para a análise das práticas de consumo de substâncias na cena.




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