Segredos na Família



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Segredos na Família

Trabalho Apresentado no IX Encontro Nordestino da Abordagem Centrada na Pessoa Abril de 1999


Maria do Céu Lamarão Battaglia1

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Introdução




Terapia de Família Sistêmica

Como uma terapeuta que atua nos moldes da Abordagem Centrada na Pessoa, conheci certa vez outra terapeuta de família que atuava nos moldes da Terapia Sistêmica. Deste encontro nasceu um grande interesse nesta teoria que de alguma maneira possuía pontos em comum com a ACP apesar de diferenças que me deixavam extremamente curiosa por me parecerem incongruentes com o que eu ouvira. Decidi então, que no momento oportuno faria também esta formação que me custou quatro deliciosos anos. Não só pela teoria, mas também pelas pessoas que encontrei tanto no estaff quanto na minha turma ricamente composta por pessoas com formação em: fonoaudiologia, psicopedagogia, educação, arquitetura, musicoterapia, nutrição e psicologia. Esta diversidade de visões nos permitia ter ângulos diferentes e versões diferentes de um mesmo caso. Permitiu também uma colaboração multidiciplinar na área de atuação de cada participante num exercício de levar a teoria sistêmica até seu trabalho individual em lugar de pretender que todas saíssem dali atuando como terapeutas de família, o que aliás seria impossível para a maioria.

Fui para o curso curiosa em relação a sala de espelho: “ Que coisa tão estranha deveria ser. Tão constrangedora...”. Curiosa em relação às prescrições: “Passar dever de casa para o cliente? Como seria isso?”. Tinha ouvido falar sobre técnicas. “ Como seriam elas?” Afinal, na ACP não utilizamos técnicas alem da atitude. Como seria isto então já que tinha tanta coisa em comum?

Tive uma bela surpresa! No Instituto de Terapia de Família (RJ), onde fiz minha formação, o método utilizado é a Terapia Sistêmica Construtivista. A cada aula ia revendo idéias e conceitos bastante conhecidos, mas traduzidos de forma diferente. Percebi uma grande preocupação e cuidado com o significado das palavras. Exatamente num sentido rogeriano da mais pura empatia. No interesse genuíno de entender o outro e também de se fazer entender o mais verdadeiramente, pelo outro. Percebi também o enorme respeito pelo cliente, no cuidado permanente e na consideração positiva incondicional que se traduz na sistêmica quando esta considera e valida as escolhas feitas pela família como sendo o seu melhor, e acredita que elas tenham a capacidade de escolher seu próprio caminho. Aqui, o terapeuta atua como facilitador do processo como se refere o Goolishian. As técnicas, quando utilizadas, sempre o são tomando a relação terapeuta cliente como norteadora destas escolhas. A Teoria Sistêmica nos dá um banho em sua produção teórica e em seus “termos técnicos”, mas me sinto extremamente confortável em trazê-los para ACP e passear de um lado para outro sem constrangimento. Da mesma maneira que a teoria se valeu de teóricos da biologia como Humberto Maturana, da antropologia e cibernética como Gregory Bateson, da física e cibernética como Ilya Prigogine e atualmente com pessoas da sociologia, filosofia e lingüística como Kenneth Gergen, Edgar Morin e Nicholas Luhman, acredito que podemos nos valer de todo este conjunto também.

Visto isso, percebo que dentro da sistêmica, o procedimento terapêutico depende basicamente das crenças particulares do terapeuta. Nisto ela difere da ACP. Mesmo a teoria tendo se desenvolvido, existem dentro da Terapia Sistêmica escolas que continuam atuando nos moldes anteriores, até hoje. Numa breve descrição temos:

Terapia de Família de Primeira Ordem:

Utilizada pelos primeiros terapeutas de família na década de 50. Valiam-se do lado mais mecanicista da cibernética. O terapeuta era visto como observador separado do cliente observado (sujeito-objeto). Era uma terapia basicamente comportamental com ideais de funcionalidade, controle e eficiência. Esta se divide em dois momentos:

1ª Cibernética: Visa a homeostase do sistema

2ª Cibernética: Visa a mudança no sistema
Terapia de Família de Segunda Ordem:

Tem como marco uma publicação no periódico “Family Process” em 1982, com a segunda formulação da cibernética na terapia de família. É nesta época que são introduzidas as idéias de sistemas autopoiéticos não sujeitos a “interação instrutiva” (Humberto Maturana), “ordem através da flutuação” (Mony Elkaim), “estruturas distantes do equilíbrio” (Prigogine) e cibernética de Segunda ordem (Heinz von Foerster).

Aqui o terapeuta é visto como observante-observado. Como participante do processo. É a era do construtivismo e do construcionismo social. O sujeito constrói a realidade e a realidade constrói o sujeito.
Dependendo do estilo do terapeuta, ele vai se situar em algum desses pontos. A partir daí, utilizará determinadas técnicas de maneira diferente e com objetivos diferentes.

Terapeuta de 1ª Ordem:

Tem um modelo próprio de família. Utiliza-se de técnicas para encaminhar a família para o funcionamento ideal. Olha a família de fora, a partir de seu próprio referencial. É detentor do saber. Tem um modelo de atuação bastante rígido com instruções estratégicas visando atingir seus objetivos.

Terapeuta de 2ª Ordem:

Auxilia a família a ampliar seu leque de alternativas e encontrar seu modelo próprio e particular de funcionamento, sem desconsiderar o contexto no qual a família está inserida.

Acredito que em qualquer dos pontos em que nos encontremos sempre temos um modelo de família. O que me parece ser a grande diferença entre o terapeuta de 1ª ordem e de 2.ª ordem é a flexibilidade do terapeuta de 2ª ordem em permitir e confirmar um modelo de família diferente de seu conceito próprio inicial.

Um conceito bastante significativo que encontrei na teoria sistêmica foi o de neutralidade como curiosidade. Visto que na atuação com grupos a questão da neutralidade se faz evidente e freqüente, esta nova visão de neutralidade amplia em muito o conceito. Percebo também que a curiosidade do terapeuta, que me soa como o interesse genuíno na ACP, fomenta a própria curiosidade da família gerando novas descobertas e novas possibilidades de interação. Contribui enormemente com o rescrever a história.

A terapia focada na relação nos leva a trabalhar principalmente com a comunicação em todas as suas nuances: a literal, a postural, a pontuação da fala, a entonação, os silêncios, enfim as congruências e as incongruências em suas expressões.

A maneira de entender o sintoma também se altera quando priorizamos as relações. O sintoma reforça e é reforçado por todo sistema familiar. A partir daí fazemos uma leitura do por que e para que um determinado sintoma ocorre em determinado sistema. Envolvemos e responsabilizamos então todo o grupo no sintoma que inicialmente era apenas de um indivíduo isolado. O “paciente identificado”.

A partir dessa olhar sobre terapia de família, vamos elucidar e discutir uma situação familiar nos utilizando de um conto interessante.





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