Saúde 105 a experiência de Recepção aos Calouros de Medicina da unirio: iniciando o processo de participação na universidad



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Anais do 2º Congresso Brasileiro de Extensão Universitária

Belo Horizonte – 12 a 15 de setembro de 2004


A Experiência de Recepção aos Calouros de Medicina da UNIRIO: Iniciando o Processo de Participação na Universidade
Área Temática de Saúde
Resumo

Em 1999, um grupo de acadêmicos de Medicina idealiza o Projeto, motivado pelo desejo de receber os calouros com atividades que expressassem a satisfação dos veteranos pela vitória de seus novos colegas e que se constituíssem em um incentivo para a integração e a participação no cotidiano acadêmico. Junto com professores, técnicos e administrativos, interessados nesse processo, organizam suas ações, tendo como objetivos estimular a reflexão crítica sobre a realidade vivida e favorecer o envolvimento progressivo de seus participantes no contexto universitário, na perspectiva da indissociabilidade ensino-pesquisa-extensão. A metodologia participativa é a referência para a construção coletiva do trabalho, com dinâmicas de grupo "temperadas" com humor e descontração, enquanto informações sobre os espaços e a estrutura da universidade são dialogadas e vivenciadas, com inclusão de temas incentivadores para a prática profissional, comprometida com a qualidade de vida e a solução dos problemas de saúde da população brasileira. A avaliação dos participantes durante todo o processo tem indicado o alcance de seus objetivos, bem como a continuidade, o aprimoramento e a ampliação do Projeto, especialmente no sentido da flexibilização de suas atividades com aquelas de ensino e pesquisa das Disciplinas de Psicologia, Comunicação e Parasitologia e com outros Projetos de Extensão.


Autores

Leandro Teixeira de Abreu, acadêmico de Medicina - Bolsista de Extensão

Rafael Neder dos Santos, acadêmico de Medicina - Estagiário de Extensão

Shanna Calvente Reis, acadêmica de Medicina - Estagiária de Extensão

Maria do Carmo Ferreira, Prof. Adjunto do Departamento de Microbiologia e Parasitologia, Doutor em Parasitologia/UFRRJ

Regina Guedes Moreira Guimarães, Prof. Adjunto do Departamento de Saúde da Comunidade, Doutoranda/FIOCRUZ


Instituição

Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO


Palavras-chave: extensão universitária; metodologias participativas; juventude universitária
Introdução e objetivo

As linhas de extensão sistematizadas pelo Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras dimensionam a abrangência da influência da extensão universitária, junto às Políticas Públicas no Brasil. No que se refere à linha de Atenção Integral aos Jovens e Adultos, na Área Temática da Saúde, apontam-se diretrizes com vistas ao planejamento, implementação e avaliação de processos de atenção - educação, saúde, assistência social, etc -, de emancipação e inclusão para a população que vive essa fase do ciclo vital.

Nesse sentido, na perspectiva da construção da identidade profissional coadunada com as necessidades dos Serviços e com as diretrizes curriculares dos cursos de graduação da Educação Superior, iniciativas que promovam a participação e integração de jovens universitários às atividades acadêmicas contribuem para a emancipação daqueles que logo se incluirão no mundo do trabalho.

O Projeto de Extensão "Recepção Comunicativa aos Calouros de Medicina", em andamento desde 1999 e registrado na Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários da UNIRIO, tem como motes o interesse dos alunos "veteranos" sobre a participação na vida acadêmica e o desejo de receberem os alunos "calouros" de uma maneira planejada, integradora e divertida, diferenciada de práticas existentes na cultura universitária, como o polêmico trote ou a habitual aula inaugural. Considerou-se a necessidade de receber os alunos recém-ingressos de modo a fortalecer a confiança e a alegria, sabendo que o universo novo com o qual se deparam gera-lhes, também, ansiedade e insegurança.

O Projeto visa a favorecer a integração dos alunos ingressantes, no curso de graduação em medicina, com os demais colegas e com a sua universidade, desde a matrícula, contribuindo para o envolvimento progressivo de seus participantes à comunidade acadêmica; a reflexão sobre Ensino Médico, inserido no contexto social brasileiro, aproximando os seus anseios com sua escolha profissional e com a Área de Saúde; estimular os alunos a uma reflexão crítica da realidade vivida, incentivando-os à participação e à transformação.

A coordenação do projeto é feita por alunos de diferentes períodos da graduação, trabalhando com professores, técnicos e administrativos, interessados nesse processo de integração. Tem-se o apoio do Diretório Acadêmico de Medicina Benjamim Baptista, do Departamento de Extensão, do Núcleo do Vestibular e de Departamentos de Ensino. O Projeto é oferecido aos 140 alunos de medicina que ingressam na UNIRIO, em dois semestres.

Algumas idéias apóiam a construção da proposta:

- Os vestibulandos, em sua maioria, são jovens entre 17 e 24 anos de idade, muitos dos quais fizeram, pelo menos, duas tentativas para ingressarem no curso universitário pretendido. A dedicação aos estudos e o "mergulho" nos livros é necessária para se alcançar esse objetivo. Se a escolha é por um curso de graduação muito procurado, como os de medicina, essa dedicação torna-se, quase que exclusiva, devido à "competição acirrada" para conseguir a classificação. "Passar no vestibular", então, é uma importante conquista, constituindo-se em um momento de alegria e entusiasmo, mas também de insegurança e ansiedade.

- A vitória de "entrar para a universidade", especialmente a pública, é comemorada pelas famílias, pelos grupos de amigos, que precisaram compreender as muitas "ausências" do vestibulando no cotidiano de suas vidas. Os calouros, por sua vez, aguardam com expectativa o primeiro dia na universidade e se interrogam: Como serão recebidos? Que tipo de trote irão encontrar? Como serão as aulas? Como serão os novos colegas e os professores? Como a universidade está organizada, qual é sua missão, quais são suas atividades, como são suas instalações e em que local ela se situa, como é o acesso a ela?

- De um modo geral, o primeiro contato com o contexto acadêmico se dá na matrícula das disciplinas. Se for realizada em termos puramente burocráticos perde-se uma oportunidade fundamental para incentivar e integrar os recém-ingressos. O mesmo ocorre se o "primeiro dia de aula" se restringir a uma aula inaugural, com apresentação formal dos Cursos, dos Departamentos e das Disciplinas, no clima "higiênico" da "educação bancária", comprometendo a espontaneidade de os "calouros" fazerem perguntas ou tirarem suas dúvidas. A oportunidade ao diálogo e à "troca" com os colegas, professores, técnicos e administrativos, potencialmente existente nos encontros, fica comprometida.

- Por outro lado, a expectativa em relação ao trote é permeada por informações variadas, provenientes da mídia ou dos amigos que já ingressaram na universidade e é conhecida a preocupação, a ansiedade e a polêmica que esta prática, existente na cultura universitária, gera no meio acadêmico. Entretanto, nos espaços acadêmicos, as discussões e reflexões críticas sobre a real natureza do trote, suas conseqüências sobre a formação profissional e sobre a construção da identidade dos sujeitos implicados, não tem sido suficientemente consistentes e competentes. A literatura sobre o tema é escassa, fazendo crer que se tornou um tabu. Somente alguns acidentes brutais suscitam, temporariamente, alguma iniciativa, que logo se "esfria" e se "cai" na consideração de que o trote não passa de brincadeiras dos jovens (ZUIN, 2002).

- O ritmo intenso das aulas, as inúmeras provas e trabalhos logo tomam conta do tempo integral dos alunos e pouco sobra para a conversa, a reflexão sobre o processo educativo e sobre as identidades que estão sendo construídas. A ansiedade se reproduz freqüentemente e não é raro o comprometimento da saúde dos alunos, como conseqüência do stress vivido no cotidiano da vida acadêmica, afetando a qualidade do trabalho desenvolvido no contexto acadêmico (MILLAN, 1999).

- Os jovens ingressantes, em sua busca de identidade, estão "ávidos" por identificações com os modelos que lhes são apresentados. Assim, é importante que predomine o modelo pedagógico, dialógico e participativo, para que se favoreça o desenvolvimento do pensamento crítico do qual o adolescente é capaz e se ofereçam modelos de identificação baseados em idéias e valores fundamentais para o convívio solidário nos espaços acadêmicos.

- Os jovens, já que se encontram na culminância do processo de busca de identidade, estão mais expostos aos fatores de risco à saúde, propiciados por ambientes onde vigoram a irritabilidade e a agressividade; a relação dominador-dominado; a ausência de diálogo; a arrogância; o autoritarismo ou a ausência de autoridade; o pessimismo de professores, quanto à possibilidade de transformação dos sujeitos e do contexto vivido ou quando apontam mais seus aspectos negativos do que suas potencialidades. Desse modo, é fundamental que os espaços de socialização dos jovens os incentivem à emancipação e à autonomia, de modo a contribuir para a consciência crítica e cidadã e para o exercício da compreensão e da solidariedade nos relacionamentos interpessoais (FERREIRA, 2004; GUIMARÃES, 1999).


Metodologia

As diretrizes do Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas, na Pedagogia Crítica, nas Metodologia Participativa e na Psicologia do Desenvolvimento constituem o arcabouço teórico-metodológico do Projeto.

O Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas propõe, para a área temática Saúde, dentre outros objetivos: ser parte interlocutora nos relacionamentos Universidade e Sistema de Saúde; estimular a integração de experiências de extensão em saúde aos currículos de graduação e flexibilizar o processo curricular; colaborar no desenvolvimento de políticas e estratégias de promoção e assistência à saúde; identificar interfaces relevantes e objetos de estudo comuns e atuar de forma deliberada no sentido de que sejam criadas condições para o desenvolvimento dos sistemas formador e prestador de serviços de saúde.

O Plano Nacional de Extensão alinha a primazia de que a extensão é um processo acadêmico definido e efetivado em função das exigências da realidade, indispensável na formação do aluno, na qualificação do professor e no intercâmbio com a sociedade. Deve-se assegurar a participação dos alunos em programas e projetos, como parte essencial de sua formação técnica e cidadã.

O aporte da Psicologia do Desenvolvimento permite compreender que a adolescência caracteriza-se por profundas alterações do desenvolvimento biológico, psicológico e social. O desenvolvimento do ciclo vital ocorre em estágios sucessivos e definidos, que devem ser superados satisfatoriamente, para que não ocorram fracassos que se consolidem na forma de desajuste físico, cognitivo, social ou emocional.

A clientela do Projeto são os universitários, em sua maioria jovens entre 17 e 24 anos. Com o ingresso na universidade, o processo de construção da identidade se particulariza, pois, esses jovens, enquanto processam sua identidade profissional, vão adquirindo cada vez mais "insight" sobre ele, intensificando o processo de internalização. A ampliação da conscientização crítica sobre esse processo pode contribuir para uma autonomia crescente em relação às identificações que estabeleceram com os pais, família, grupo social de origem e o atual, em que ele se insere, construindo sua identidade verdadeira (Guimarães, 1999).

Na adolescência o pensamento se torna abstrato, conceitual e orientado para o futuro, havendo uma notável criatividade, expressa nas artes, esportes e interesse pelas questões humanitárias, morais, éticas e religiosas. O desenvolvimento de uma moralidade é uma importante conquista na juventude, sendo definida como uma conformidade a padrões compartilhados, direitos e deveres, internalizando os princípios éticos e o controle da conduta, até onde servem aos fins humanos, em termos do que é bom para a sociedade em geral. Esse enfoque piagetiano corrobora a relevância de uma intensificação no trabalho educativo relativo à participação e construção da cidadania.

Nesse sentido, a extensão universitária capacita os atores, implicando-os na construção do projeto e no seu desenrolar. Com ela, procura-se obter maior efetividade dos conhecimentos e soluções aos problemas detectados. Discussões e formas de atuação coletivas potencializam o espírito crítico (Thiollent, 2000). Percebe-se que os alunos extensionistas tornam-se mais integralmente sujeitos de seu aprendizado e assumem uma postura crítica frente aos conteúdos que lhes são transmitidos. Estes alunos tendem a abandonar a postura passiva tanto sobre o ensino quanto sobre a relação aluno-professor-universidade-sociedade (Malheiros, 2001).

Tendo a referência de que a atenção integral ao adolescente e ao jovem seja, também, uma questão de identidade e participação, este arcabouço teórico constitui a substância que dá firmeza à metodologia participativa aplicada ao Projeto, possibilitando a concretização de seus objetivos, conduzindo à integração dos alunos do modo pretendido, bem como a aproximação dos seus anseios com sua escolha profissional. Nas relações interpessoais experimentadas durante o Projeto, a reflexão crítica sobre a realidade vivida por todos os que dele participam é incentivo para o planejamento e execução das atividades, qualificando o processo de comunicação e de transformação do aluno e do professor. O processo pedagógico crítico corre o risco de não se concretizar, se as contradições e conflitos dos atores sociais nele envolvidos não forem discutidos e desvelados (Ferreira, 2004; Guimarães, 1999).

No início, em 1999, as primeiras idéias surgiram na reunião de um grupo de acadêmicos de medicina interessado na recepção dos alunos ingressantes e que, posteriormente, se tornou responsável pelas atividades definidas. Estabeleceu-se contato com professores igualmente interessados por este tipo de iniciativa e com as equipes do Departamento de Extensão, do Diretório Acadêmico e do Núcleo de Vestibular da universidade. O projeto também se articulou com outras atividades referentes à recepção do aluno, como a matrícula e aula inaugural. O grupo fez um aprofundamento teórico, investigando sobre outras iniciativas dessa natureza, desenvolvidas em outras instituições.

Da experiência piloto do Projeto "Recepção Comunicativa aos calouros de Medicina / UNIRIO", no primeiro semestre de 2000, chegou-se a novas ações, resultando em uma forma de acompanhamento aos acadêmicos recém-ingressos, muitos dos quais passaram a integrar a equipe do projeto. As atividades foram se flexibilizando com aquelas de ensino e pesquisa das Disciplinas de Psicologia, Comunicação e Parasitologia, bem como com outros Projetos de Extensão.

Sendo uma proposta construída pelos próprios alunos, as dinâmicas de grupo (tais como: reuniões, palestras, cursos, sensibilização, campanhas de promoção à saúde, gincanas de integração, etc.) são desenvolvidas em íntima relação com o cotidiano acadêmico, trabalhando com os conteúdos que permeiam o currículo oculto, desvelando-os e contribuindo para a ampliação da consciência crítica. Para tanto, apoia-se numa pedagogia dinâmica, integradora e transformadora - aproximando-se de uma pedagogia da autonomia, necessária à educação que promova a solidariedade e a cidadania (Freire, 1996).

O primeiro momento do projeto acontece ao final de cada período letivo, em que são realizadas reuniões preliminares para definição das etapas e distribuição das equipes / tarefas. Organiza-se material para o “kit” dos calouros, constituído de uma pasta com agenda da Universidade; “Manual de Sobrevivência dos Calouros” - pequeno panfleto com informações gerais para os primeiros dias na Universidade; folder contendo a programação da semana; Código de Ética Médica (parceria com o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro - CREMERJ); e Jornal da Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina e Jornal do Diretório Acadêmico.

Na segunda etapa, se dá o primeiro momento de "Recepção" aos alunos recém-ingressos, no momento da matrícula, quando os organizadores do Projeto conversam, os convidam e os incentivam a freqüentar a atividade da “Semana de Recepção dos Calouros de Medicina” e distribuem o “kit”, acima referido.

Antecedendo o início do primeiro dia de aula, no terceiro momento, acontece a “Semana de Recepção aos Calouros de Medicina”, com dinâmicas de apresentação dos colegas e de sensibilização. Palestras e mesas redondas discutem o ensino, a pesquisa e a extensão, sendo conduzidas, em alguns momentos, por alunos envolvidos em projetos e, em outros, pela Diretoria do Departamento de Extensão. A apresentação da estrutura da Universidade é conduzida, em alguns momentos, por alunos e, em outros, por um profissional da Universidade. A mesa redonda, sobre Movimento Estudantil, conta com a presença de alunos de alunos de outros cursos da Universidade, do Movimento Nacional de Medicina, do próprio Diretório Acadêmico, além do Movimento Nacional de outros cursos da Área de Saúde, como Nutrição, Enfermagem, quando se realizam atividades em conjunto com outros cursos.

Uma palestra sobre SUS é realizada por profissionais da Universidade ou convidados de outras IES, bem como por alunos de Estágio Nacional de Vivência em SUS. Na dinâmica sobre Ensino Médico, alunos da Coordenação de Ensino Médico do Diretório Acadêmico estimulam os alunos a discutir os motivos que os levaram à escolha da profissão, o que permite perceber esta etapa do processo de formação da identidade médica.

Abordagem sobre a estrutura da Universidade é realizada com o objetivo de estimular sua integração á vida acadêmica. Faz-se uma avaliação sobre as pré-concepções do aluno quanto à Universidade através de um questionário, assim como das mudanças que perceberam em suas vidas desde que decidiram fazer vestibular para medicina.

Outras atividades integram os alunos, nessa semana: visita aos diferentes campi da Universidade; Organização de uma gincana; Campanha para arrecadação de leite para a Pediatria do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG); Realização de trabalho de integração através de peças de teatro, onde cada equipe deve representar um esquete sobre como é um bom atendimento médico e como é um mau atendimento; Gincana cultural; Confecção de flores de papel crepom, para serem distribuídas aos pacientes do HUGG, permitindo a convivência com eles; Exame parasitológico de fezes dos calouros, como parte do acompanhamento da saúde do Estudante de Medicina, conseqüência da flexibilização com a Disciplina de Parasitologia; Festa de Confraternização; Mesa redonda com o tema: “Trote, Rito de Passagem”, com professores, representantes do Movimento Estudantil Nacional e do Sindicato dos Médicos.

Até o momento, em cinco anos de desenvolvimento deste projeto de Extensão, foram realizadas dez semanas de "Recepção", sendo a cada semestre renovadas e discutidas novas estratégias e atividades.

Durante as aulas de Psicologia, os alunos são solicitados a verbalizar as dificuldades que experimentam no cotidiano de suas vidas, desde que ingressaram na universidade. A inclusão de debate sobre as dificuldades dos alunos perante o cotidiano acadêmico favorece a atitude de análise. A avaliação permite a discussão sobre possíveis soluções e o encaminhamento das propostas, inclusive para o Diretório Acadêmico de Medicina Benjamim Baptista, para conjuntamente auxiliar na solução dos problemas apontados.

A Disciplina de Parasitologia participa na montagem e organização do Projeto, com uma visão transdisciplinar da formação acadêmica, efetivada por meio de novas formas de trabalhar a Extensão e Pesquisa, indissociada do Ensino.
Resultados e discussão

Outras atividades, no decorrer do semestre, dão continuidade ao processo de integração e participação: Divulgação do Projeto, como no Encontro e Feira de Extensão, Semana de Debates Científicos, Jornada do Hospital Gaffrée e Guinle, entre outros; Avaliação das atividades da “Semana”, através de questionário, desvelando os significados atribuídos pelos alunos à experiência vivida no Projeto e em sua vida pessoal, relativas à escolha profissional e o período do vestibular. Os questionários indicaram quais as palestras e os palestrantes mais interessantes, a necessidade ou não de redução do tempo das mesmas, assim como, quais as atividades da gincana agradam mais aos recém ingressos.

O desvelamento no grupo sobre as motivações na escolha da medicina como profissão permite a reflexão e a crítica sobre aspectos nem sempre reconhecidos por todos os alunos, facilitando a ampliação da consciência do vivido. O desejo de ajudar às pessoas, a influência dos pais sobre a escolha profissional, o interesse sobre a ciência, em especial a Biologia, são motivos discutidos nas dinâmicas. A menção do motivo relativo à conquista de status social e financeiro, proporcionada pela medicina, é timidamente colocada, atribuindo-se isto à contradição que julgam haver com o aspecto humanitário da Medicina.

Os debates sobre o envolvimento dos alunos com os Diretórios Acadêmicos têm focalizado a dificuldade de participação, atribuída à grande demanda de tempo que sua formação necessita, contribuindo para uma alienação crescente, iniciada no vestibular. A maior parte acentua que deixa de lado o lazer, o tempo com os amigos e com a família, além da falta de tempo para os esportes, aulas de música e outros cursos. É fácil perceber que a maioria tem que "abrir mão" de coisas muito importantes, inclusive de atividades normais e necessárias à sua saúde em seu cotidiano, passando grande parte de seu tempo estudando. Ficam claras as condições de estresse a que são submetidos desde o vestibular, sofrendo enorme “pressão”. Esse é um importante dado em saúde, já que esse estresse se continua durante a vida acadêmica (Milan,1999).

Os alunos esperam que a UNIRIO seja capaz de dar uma formação geral de cidadãos e também a da formação de profissionais competitivos e preparados para o mercado. Uma Universidade democrática é o desejo manifestado por um número expressivo deles e a receptividade e a integração também surgem como aspectos relevantes, assim como a necessidade de que a Universidade seja um bom ambiente para as amizades. Há preocupação com uma boa estrutura física e organizacional, o que sugere, que esses alunos já entram na Universidade com grande carga de informações recebidas sobre o sucateamento das Universidades Públicas.

A análise mostra um quadro paradoxal em que parte dos alunos espera que a universidade possibilite uma formação geral de cidadãos, lembrando o objetivo primário da Universidade - formar pessoas capazes de pensar criticamente a realidade e poder transformá-la e aprender. O outro grupo, igualmente expressivo, fala na formação de profissionais competitivos e preparados para o mercado. A palavra “democrática” surge significativamente nas discussões e respostas dos questionários, mostrando a necessidade e o anseio dos alunos em participar e discutir sua formação e sua participação no processo social.

Desse modo, a metodologia participativa, empregada no processo educativo, permite que os diferentes atores sociais “enxerguem” além de suas vidas particulares, conectando os valores e fatos e compreendendo a rede de relações, que emprestam significados ao conhecimento, às políticas, sociais e econômicas da sociedade, permitindo a participação ativa na mesma. Assim, há necessidade de construção de espaços na escola onde os anseios, os desejos e os pensamentos dos estudantes possam ser ouvidos, diretamente considerados e criticados por eles mesmos, permitindo-lhes a conscientização e autonomia sobre o processo de transformação que estão vivenciando (FREIRE, 1996; GIROUX, 1997).
Conclusões

Do total de 140 ingressantes, o Projeto tem conseguido integrar cerca de 60% dos alunos, pois muitos deles chegam após o início das aulas, devido às reclassificações. Alguns, mesmo com todas as informações, receiam que a "Semana de Recepção" venha a ser um “trote” disfarçado, evidenciando que - apesar da recepção aos alunos ter sido feita na matrícula, estando todos os envolvidos identificados com crachás e toda a comunicação inicial ter sido feita ao lado de funcionários da Universidade responsáveis pela matrícula - isso não foi suficiente para dissolver de todo a angústia da espera pelo trote.

A integração aos outros alunos mostra-se ainda mais importante do que qualquer informação “técnica” sobre o funcionamento da Universidade, indicando que esse deve ser o eixo da atividades. A visita ao Hospital é importante, pela curiosidade que desperta e pela possibilidade de convivência com os pacientes, como uma forma de estar mais próximo de um futuro esperado.

Fica clara a necessidade de que os alunos, ao ingressarem na Universidade, sejam recebidos e tenham espaço para esclarecer suas dúvidas, dividir suas angústias e se integrar de forma diferenciada. Nesse momento, em que a “idealização” do curso médico é latente, deparar-se com a realidade dos problemas da Universidade, sem que haja suporte, pode ser um grande choque para esse aluno, já submetido a cargas tão altas de estresse desde o vestibular, como fica evidente na avaliação dos questionários na matrícula.

O incentivo à prática em Extensão já no primeiro semestre é uma forma de integrar o aluno a outras atividades que não só as do ensino em sala de aula, estimulando sua vivência da universidade como um todo, em todas as suas esferas de formação, todos os seus objetivos e princípios. Permitir ao aluno essa visão é permitir que ele se integre em um só tempo à Universidade e à Comunidade / Sociedade, contribuindo para uma formação mais completa e aproximando-o de seus ideais.
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