Ryan adams



Baixar 2,71 Mb.
Página1/118
Encontro30.06.2018
Tamanho2,71 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   118



STEPHEN KING


A HISTÓRIA DE LISEY


Tradução

Faviano Morais


Para Tabby

Where do you go when you're lonely?

Where do you go when you're blue?

Where do you go when you're lonely?

I'll follow you

When the stars go blue.

RYAN ADAMS


Para onde você vai quando está sozinha?

Para onde você vai quando está triste?

Para onde você vai quando está sozinha?

Eu seguirei você

Quando as estrelas ficarem azuis.


baby


babyluv

PARTE 1: CAÇA AOS BOOLS

“Se eu fosse a lua, sei onde iria cair.”

— D. H. Lawrence, O Arco-íris

I. Lisey e Amanda

(Tudo na Mesma)

1
Aos olhos do público, as mulheres de escritores famosos são invisíveis, e ninguém sabia disso melhor do que Lisey Landon. O marido dela havia ganhado o Pulitzer e o National Book Award, mas Lisey dera apenas uma entrevista na vida. Tinha sido para uma conhecida revista feminina que publica a coluna “Sim, Eu sou Casada com Ele!”. Ela gastou prati­camente metade das quinhentas palavras da matéria explicando que seu apelido rimava com “SiSi”. A outra metade quase inteira tinha a ver com sua receita de rosbife ao fogo baixo. Amanda, irmã de Lisey, disse que ela saiu gorda na foto.

Nenhuma das irmãs de Lisey era imune aos prazeres de se jogar o gato no meio dos pombos (“botar pra feder”, como dizia o pai delas), ou de se bater um bom papo sobre a roupa suja de outra pessoa, mas a única de que Lisey tinha dificuldade de gostar era exatamente Amanda. Amanda, a mais velha (e mais estranha) das Debusher de Lisbon Falis, morava sozinha, em uma casa pequena e à prova de intempéries que Lisey lhe arranjara perto de Castle View, onde Lisey, Darla e Cantata podiam ficar de olho nela. Lisey a havia comprado para a irmã sete anos atrás, cinco antes de Scott morrer. Morrer jovem. Morrer Antes do Seu Tempo, como se diz. Ainda era difícil para Lisey acreditar que ele estava morto há dois anos. Parecia ter sido há mais tempo e igualmente há um piscar de olhos.

Quando Lisey finalmente conseguiu começar a limpar o escri­tório dele, uma longa e bem iluminada série de aposentos que antes nada mais era do que um loft em cima de um celeiro, Amanda apare­ceu no terceiro dia, depois de ela ter acabado o inventário de todas as edições estrangeiras (havia centenas delas), mas antes de mal começar a listar a mobília, colocando estrelinhas ao lado daquelas que achava que devia manter. Imaginou que Amanda fosse perguntar por que ela não estava sendo mais rápida, pelo amor de Deus, mas Amanda não perguntou nada. Enquanto ela trocava a questão da mobília para se dedicar — sem fazer listas (e por um dia inteiro) — às caixas de pa­pelão de correspondências empilhadas no armário principal, Amanda parecia continuar concentrada nos impressionantes montes e pilhas de memorabilia que cobriam toda a extensão da parede sul do escritó­rio. Ela ia e voltava ao longo daquele aglomerado serpeante, falando pouco ou nada, mas escrevendo o tempo todo no bloquinho de ano­tações que tinha à mão.

O que Lisey não falou foi: O que você está procurando? Ou: O que está escrevendo? Conforme Scott havia observado mais de uma vez, Lisey tinha aquele que certamente estava entre os mais raros talentos huma­nos: ela cuidava da própria vida e não ligava muito se você não cuidasse da sua. Quer dizer, desde que você não estivesse fazendo explosivos, e, no caso de Amanda, explosivos eram sempre uma possibilidade. Ela era o tipo de mulher que não conseguia deixar de se intrometer, o tipo de mulher que, cedo ou tarde, abriria a boca.

O marido dela tinha ido para Rumford, ao sul, onde eles haviam morado (“como dois carcajus presos dentro de uma calha”, disse Scott depois de uma visita vespertina que ele jurou nunca mais repetir) em 1985. A única filha deles, que se chamava Intermezzo e cujo apelido era Metzie, tinha ido para o Canadá (com o namorado caminhoneiro) em 1989. “Uma foi para o norte, outra foi para o sul, a outra não conseguia ficar de bico calado.” Era assim que o pai delas falava quando eram crianças, e a filha de Dandy Dave Debusher que não conseguia ficar de bico calado era sem dúvida Manda, abandonada primeiro pelo marido e depois pela própria filha.

Por mais difícil de se gostar que Amanda fosse às vezes, Lisey não a queria sozinha lá em Rumford; não confiaria nela sozinha e tinha certeza de que, embora nunca tivessem falado nada, Darla e Cantata achavam o mesmo. Então ela conversou com Scott e encontrou a casi­nha, que sairia por 97 mil dólares à vista. Amanda se mudou para uma distância acessível logo em seguida.

Agora Scott estava morto e Lisey tinha finalmente conseguido co­meçar a esvaziar o local em que ele escrevia. Na metade do quarto dia, as edições estrangeiras estavam todas encaixotadas, a correspondência mais ou menos organizada e ela fazia uma boa idéia de quais móveis iriam embora e quais ficariam. Então por que parecia que fizera tão pouco? Sabia desde o início que aquele era um trabalho que não podia ser feito às pressas. Que se danassem as cartas importunas e os telefone­mas que recebera desde a morte de Scott (e mais do que algumas visitas também). Ela imaginava que, no fim das contas, as pessoas interessadas no material não publicado dele iriam conseguir o que queriam, mas não antes de ela estar pronta para entregá-lo. No começo, eles não foram claros quanto a isso; não estavam caindo dentro, como se diz. Agora, ela achava que a maioria deles estava.

Havia muitas palavras para as coisas que Scott deixara para trás. A única que ela entendia totalmente era memorabilia, mas havia outra, en­graçada, que parecia incuncabilla. Era o que queriam os impacientes, os bajuladores e os nervosinhos — a incuncabilla de Scott. Lisey começou a chamá-los de Incunks.

2
O que ela sentia acima de tudo, especialmente depois de Amanda apa­recer, era desânimo, como se tivesse ou subestimado o trabalho em si ou superestimado (imensamente) sua capacidade de alcançar a inevitável conclusão dele — os móveis restantes guardados no celeiro de baixo, os tapetes enrolados e lacrados com fita, a van amarela na entrada para carros, lançando sua sombra na cerca de tábuas entre o seu jardim e o dos Galloways.

Ah, e não podemos esquecer do triste coração daquele lugar, os três computadores (três que tinham sido quatro, mas o que ficava no “can­tinho da memória” não estava mais lá, graças à própria Lisey). Cada um era mais novo e mais leve do que o anterior, mas mesmo o mais novo era um modelo grande, e todos ainda funcionavam. Tinham senhas, também, e ela não sabia quais eram. Nunca tinha perguntado e não imaginava que tipo de entulho eletrônico poderia estar adormecido nos seus discos rígidos. Listas de compras? Poemas? Pornografia? Ela não tinha dúvida de que ele usava a Internet, mas não fazia idéia das páginas que visitava quando estava lá. Amazon? Drudge? Hank Williams Vive? Chuva Dourada na Torre do Poder da Madame Cruella? Ela não acredi­tava que fosse algo parecido com essa última hipótese e imaginava que teria visto as contas (ou pelo menos um furo no balanço mensal da casa), embora soubesse que aquilo era bobagem: se Scott quisesse ter escon­dido mil dólares por mês dela, o teria feito. E as senhas? O engraçado é que ele talvez tivesse lhe dito quais eram. Ela é que esquecia aquele tipo de coisa. Lembrou de tentar o próprio nome. Talvez depois de Amanda voltar para casa. O que, pelo jeito, não aconteceria tão cedo.

Lisey se recostou e soprou o cabelo de cima da testa. Nesse ritmo, não vou chegar aos manuscritos antes de julho, pensou ela. Os Incunks ficariam doidos se vissem como eu estou indo devagar. Especialmente aquele último.

O último — cinco meses atrás — tinha conseguido não explodir, manter um linguajar muito civilizado até ela começar a pensar que ele talvez fosse diferente. Lisey lhe dissera que, àquela altura, o escritório em que Scott escrevia estava vazio há quase um ano e meio, mas que ela estava perto de juntar toda a energia e determinação necessárias para subir e começar a limpar os cômodos e dar um jeito no lugar.

O nome do visitante era professor Joseph Woodbody, do Depar­tamento de Inglês da Universidade de Pittsburgh. Pitt era a alma mater de Scott e a aula expositiva de Woodbody sobre Scott Landon e o Mito Americano era extremamente popular e extremamente longa. Ele tam­bém tinha quatro alunos de pós-graduação escrevendo teses sobre Scott Landon naquele ano, então era provavelmente inevitável que o guerrei­ro Incunk viesse à tona ao ouvir Lisey falar em termos tão vagos quanto dentro em breve e quase certamente em algum momento deste verão. Po­rém, somente quando ela garantiu a ele que ligaria “assim que a poeira assentasse” foi que Woodbody começou mesmo a se revelar.

Disse que o fato de ela ter dividido a cama com um grande escritor americano não a qualificava a cuidar do seu espólio literário. Falou tam­bém que aquilo era trabalho para um especialista e que, até onde sabia, a sra. Landon não tinha nenhum diploma superior. Recordou-a do tem­po que já havia passado desde a morte de Scott Landon e dos boatos que continuavam crescendo. Supostamente, haveria pilhas de ficção inédita de Landon — contos, romances até. Será que ela não poderia deixá-lo entrar em seu escritório nem um pouquinho? Deixá-lo garimpar um pouco os fichários e gavetas, nem que fosse para acabar com os boatos mais escandalosos? Ela poderia acompanhá-lo o tempo todo, é claro — nem precisava dizer.

— Não — falou ela, levando o professor Woodbody à porta. — Ainda não estou pronta. — Ignorando os golpes mais baixos do ho­mem, tentando, pelo menos, pois ele era claramente tão louco quanto os outros. Só escondia melhor e por mais tempo. — E, quando eu estiver, vou querer olhar tudo, não só os manuscritos.

— Mas...

Ela assentiu com seriedade para ele.

— Tudo na mesma.

— Não entendo o que a senhora quer dizer com isso.

É claro que não entendia. Fazia parte do dialeto interno do seu casamento. Quantas vezes Scott tinha entrado em casa, dizendo: “Li­sey, cheguei. Tudo na mesma?” O que significava tudo bem, tudo legal. Porém, como a maioria das frases de efeito (Scott tinha explicado isso a ela uma vez, mas Lisey já sabia), essa tinha um significado oculto. Um homem como Woodbody jamais entenderia o significado oculto de tudo na mesma. Lisey poderia explicar o dia inteiro e ele continuaria sem entender. Por quê? Porque ele era um Incunk e, no que dizia respeito a Scott Landon, apenas uma coisa o interessava.

— Não tem importância — foi o que ela disse ao professor Wood­body naquele dia, cinco meses atrás. — Scott entenderia.

3
Se Amanda tivesse perguntado a Lisey onde ela havia guardado as coisas do “cantinho da memória” de Scott — os prêmios, placas e coisas do gênero —, Lisey teria mentido (uma coisa que ela fazia razoavelmente bem para alguém que mentia tão pouco) e diria “em um depósito em Mechanic Falls”. No entanto, Amanda não perguntou. Apenas folheava cada vez mais ostensivamente seu bloquinho de anotações, sem dúvida tentando fazer com que sua irmã mais nova abordasse o assunto com a pergunta certa. No entanto, Lisey não fez nenhuma pergunta. Ela estava pensando em como aquele canto era vazio, como era vazio e de­sinteressante, sem tantas das lembranças de Scott. Ou estavam destruídas (como o monitor do micro) ou danificadas demais para ficarem à mos­tra; exibi-las levantaria mais perguntas do que era possível responder.

Finalmente, Amanda desistiu e abriu seu bloco de anotações.

— Veja isso — disse ela. — Só dê uma olhada.

Manda estendia a primeira página. Escritos nas linhas azuis, aper­tados entre as voltinhas que subiam da esquerda até o canto direito da página (como um código daqueles malucos de rua que você sempre encontra em Nova York porque não há mais dinheiro o bastante para instituições psiquiátricas públicas, pensou Lisey com desânimo), havia números. A maioria estava circulada. Alguns poucos estavam dentro de quadrados. Manda virou a página e apareceram duas folhas cheias da mesma coisa. Na metade da página seguinte, os números paravam. O último parecia ser 846.

Amanda fez aquela expressão arrogante, de certa forma hilária, em que olhava de esguelha, com as faces coradas, e que significava, quando tinha 12 anos e a pequena Lisey apenas 2, que Manda tinha Resolvido Alguma Coisa Sozinha, portanto alguém iria chorar. A própria Aman­da, geralmente. Lisey se viu esperando com algum interesse (e um pou­co de medo) para ver o que aquela expressão poderia significar daquela vez. Amanda vinha agindo estranhamente desde que chegara. Talvez fosse apenas o clima feio e abafado. Porém, era mais provável que tivesse a ver com o súbito desaparecimento do seu namorado de longa data. Se Manda estivesse prestes a dar outro tempestuoso ataque emocional por­que Charlie Corriveau tinha rompido com ela, então Lisey achava que era melhor se preparar. Ela nunca tinha gostado de Corriveau ou confia­do nele, independentemente de ele ser banqueiro. Como confiar em um homem depois de entreouvir, no chá beneficente de primavera em prol da biblioteca, que os caras que bebem no Mellow Tiger o chamavam de Shootin’ Beans? Que tipo de apelido era aquele para um banqueiro? O que significava, para começo de conversa? E é claro que ele devia saber que Manda havia tido problemas mentais no passado...

— Lisey? — perguntou Amanda. Sua testa estava bastante franzida.

— Desculpe — disse Lisey —, eu só... fiquei fora do ar por um instante.

— Você sempre faz isso — falou Amanda. — Acho que pegou do Scott. Preste atenção, Lisey. Eu numerei cada uma das revistas, periódi­cos e coisas acadêmicas. Os que estão empilhados lá naquela parede.

Lisey assentiu como se entendesse para onde aquilo iria levar.

— Escrevi os números a lápis, clarinho — prosseguiu Amanda. — Sempre que você estava de costas ou em algum outro lugar, porque achei que, se você visse, teria me mandado parar.

— Não teria, não. — Ela pegou o bloquinho de anotações, que estava mole com o suor da sua dona. — Oitocentos e quarenta e seis! Isso tudo! — E ela sabia que as publicações que corriam pela parede não eram do tipo que ela leria ou teria em casa, tipo O, a revista da Oprah, Good Housekeeping e Ms., mas sim Little Sewanee Review, Glimmer Train, Open City e coisas com nomes incompreensíveis, como Piskya.

— Bem mais que isso — disse Amanda e apontou com um polegar o amontoado de livros e revistas. Quando Lisey olhou bem para ele, viu que a irmã tinha razão. Eram muito mais do que oitocentos e quarenta e poucas. Só podia. — Quase 3 mil ao todo e com certeza não sei dizer onde você pode colocá-las e quem iria querê-las. Não, 846 é o número só das que têm fotos suas.

Isso foi dito de forma tão estranha que a princípio Lisey não conse­guiu entender. Quando conseguiu, ficou encantada. A idéia de que po­deria haver uma fonte tão inesperada de fotografias — um registro tão escondido do tempo dela com Scott — nunca lhe passara pela cabeça. Porém, quando ela parou para pensar, fazia todo sentido. Estavam casa­dos há mais de 25 anos quando ele morreu, e Scott tinha sido um viajan­te inveterado e incansável no decorrer daqueles anos, fazendo leituras, dando palestras, ziguezagueando pelo país quase sem parar quando es­tava entre um livro e outro, visitando até noventa campi por ano e sem deixar cair a peteca em sua aparentemente interminável enxurrada de contos. E, na maioria daquelas perambulações, ela o acompanhou. Em quantos motéis passara o pequeno vaporizador em um de seus ternos enquanto a TV murmurava evangelhos de talk show no lado dela do quarto e sua máquina de escrever portátil não parava de estalar (no começo do casamento) ou o laptop de clicar baixinho (mais tarde) en­quanto ele ficava sentado, olhando para baixo com uma mecha do ca­belo caindo sobre a testa?

Manda olhava para ela emburrada, claramente não gostando da sua reação até ali.

— Os que estão circulados, mais de seiscentos, são aqueles em que você foi tratada com desrespeito na legenda da foto.

— É mesmo? — Lisey ficou bestificada.

— Vou mostrar. — Amanda consultou o bloco, foi até o amon­toado adormecido ao longo de toda a parede, fez outra consulta e se­lecionou dois itens. Um era um bianuário luxuoso de capa dura da Universidade do Kentucky, em Lexington. O outro, uma revista em formato de livreto que parecia feita por estudantes, chamada Push-Pelt: um daqueles nomes inventados por alunos de Inglês para serem char­mosos e não significarem absolutamente nada.

— Abra, abra! — comandou Amanda e, à medida que ela os em­purrava para suas mãos, Lisey sentiu o cheiro forte e acre do suor da irmã. — As páginas estão marcadas com titicas de papel, está vendo?

Titicas. A palavra da mãe delas para tiras. Lisey abriu primeiro o bianuário, virando até a página marcada. A foto dela e de Scott nele era muito boa, muito bem impressa. Scott estava se encaminhando para um pódio enquanto ela estava ao fundo, aplaudindo. A fotografia dos dois na Push-Pelt não era nem de perto tão bem impressa; os pon­tos na imagem matricial eram enormes, como se tivessem sido feitos com um lápis com a grafite gasta, e havia farpas flutuando no papel barato, mas ao olhar para ela, Lisey teve vontade de chorar. Scott esta­va entrando em um porão escuro e barulhento. Estava com um bom e velho sorriso à la Scott na cara que dizia: pode crer, aqui é o lugar. Ela estava a um ou dois passos dele, seu próprio sorriso visível nos restos do que devia ter sido um flash poderoso. Conseguia até ver a blusa que estava usando, aquela Anne Klein azul com a curiosa listra vermelha solitária que descia pelo lado esquerdo. O que usava embaixo estava perdido nas sombras, e ela não conseguia se lembrar daquela noite em especial, mas sabia que tinha sido jeans. Quando saía à noite, sem­pre botava uma calça jeans desbotada. A legenda dizia: A Lenda Viva Scott Landon (Acompanhado da Patroa) Faz uma Aparição no Stalag 17 Club da Universidade de Vermont, no Mês Passado. Landon Ficou Até Altas Horas, Lendo, Dançando e Curtindo. O Cara Sabe Meter Bronca.

Sim. O cara sabia meter bronca. Disso ela estava de prova.

Lisey olhou para todos os outros periódicos e, de repente, foi es­magada pelas riquezas que poderia encontrar neles. Percebeu então que, no fim das contas, Amanda a havia magoado, abrira uma ferida nela que sangraria por um longo tempo. Será que só ele sabia sobre os lugares obscuros? Os lugares sujos e obscuros onde você se sentia tão só e des­graçadamente sem palavras? Talvez ela não soubesse tudo sobre ele, mas sabia o suficiente. Sem dúvida sabia que ele era atormentado e jamais olharia em um espelho — ou qualquer outra superfície refletora, se pu­desse evitar — depois do pôr do sol. E que o amara apesar disso tudo. Porque o homem sabia meter bronca.

Mas chega. Agora o homem estava metido no chão. Tinha feito a passagem, como se diz. A vida dela tinha passado para uma nova fase, uma fase solo, e era muito tarde para voltar atrás.

A frase a fez estremecer e pensar em coisas

(a roxidão, a coisa com o lado matizado)

que era melhor esquecer, então afastou o pensamento delas.

— Fico feliz que você tenha encontrado essas fotos — disse ela com ternura para Amanda. — Você é uma ótima irmã mais velha, sabia?

E, conforme Lisey imaginava (mas não a ponto de ousar esperar), Manda foi arrancada de supetão do seu rebolado arrogante e sarcástico. Ela olhou indecisa para Lisey, parecendo buscar falsidade, sem sucesso. Aos poucos, relaxou, tornando-se aquela Amanda dócil e mais fácil de lidar. Ela pegou o bloco de volta e franziu o cenho para ele, como se não soubesse ao certo de onde ele tinha saído. Lisey pensou, considerando a natureza obsessiva dos números, que aquele poderia ser um grande passo em uma boa direção.

Então Amanda assentiu, como se tivesse se lembrado de algo que nem deveria ter esquecido.

— Nos que não estão circulados, você pelo menos é chamada pelo nome: Lisa Landon, uma pessoa de verdade. Por último, mas nem de per­to menos importante, você verá que alguns números estão dentro de quadrados. São fotos suas sozinha! — Ela lançou um olhar impressio­nante, quase proibitivo, para Lisey. — Essas, você vai querer olhar.

Sem dúvida. — Tentando parecer empolgadíssima quando não conseguia imaginar por que teria o mínimo interesse em fotos suas so­zinha durante aqueles anos tão breves em que teve um homem — um homem bom, um anti-Incunk que sabia como engatilhar — para divi­dir com ela os dias e as noites. Ela baixou os olhos para as pilhas desor­ganizadas e montes de periódicos, que vinham em todos os tamanhos e formatos, imaginando como seria vasculhá-los pilha a pilha e um a um, sentada com as pernas cruzadas no chão do cantinho da memória (onde mais?) caçando aquelas imagens dela e de Scott. E, naquelas que sempre deixaram Amanda tão irritada, ela sempre se veria andando um pouco atrás dele, olhando-o de baixo para cima. Se os outros estivessem aplaudindo, ela também estaria. Seu rosto estaria liso, quase inexpres­sivo, demonstrando apenas uma educada atenção. Seu rosto diria: Ele não me entedia. Seu rosto diria: Ele não me exalta. Seu rosto diria: Eu não colocaria minha mão no fogo por ele, nem ele por mim (a mentira, a mentira, a mentira). Seu rosto diria: Tudo na mesma.

Amanda odiava aquelas fotografias. Ela olhava e via a irmã fazendo o papel de sal para a carne, de engaste para a pedra preciosa. Via a irmã às vezes ser identificada como sra. Landon, outras como sra. Scott Lan­don e, outras — ah, que ódio —, nem mesmo identificada. Rebaixada a Patroa. Para Amanda, aquilo devia parecer uma espécie de assassinato.

— Mandy?

Amanda olhou para ela. A luz era cruel e Lisey se lembrou com um choque real e absoluto que Manda faria 60 anos no outono. Sessenta! Naquele instante, Lisey se pegou pensando sobre a coisa que assombrara seu marido durante tantas noites insones — a coisa que os Woodbody do mundo jamais descobririam, não se as coisas saíssem como ela que­ria. Algo com um lado matizado enorme, algo mais familiar a pacientes cancerosos que olham dentro de frascos sem mais nenhum analgésico; nenhum para tomar até o amanhecer.






Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   118


©psicod.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
santa catarina
Prefeitura municipal
processo seletivo
concurso público
conselho nacional
reunião ordinária
prefeitura municipal
universidade federal
ensino superior
Processo seletivo
ensino fundamental
Conselho nacional
terapia intensiva
ensino médio
oficial prefeitura
Curriculum vitae
minas gerais
Boletim oficial
educaçÃo infantil
Concurso público
seletivo simplificado
saúde mental
Universidade estadual
direitos humanos
Centro universitário
Poder judiciário
saúde conselho
educaçÃo física
santa maria
Excelentíssimo senhor
assistência social
Conselho regional
Atividade estruturada
ciências humanas
políticas públicas
catarina prefeitura
ensino aprendizagem
outras providências
recursos humanos
Dispõe sobre
secretaria municipal
psicologia programa
Conselho municipal
Colégio estadual
consentimento livre
Corte interamericana
Relatório técnico
público federal
Serviço público
língua portuguesa