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A rtigo1

Tema
CEGUEIRA

A EXPERIÊNCIA COM A CEGUEIRA

Ida Mara Freire
Resumo
Quem define o que é cegueira? O texto busca a compreensão da cegueira confrontando as definições e narrativas apresentadas na literatura especializada e no cotidiano. Tenta decifrar a relação entre a cegueira e o mito sobre a túnica de Néssus, primeiro revelando a cegueira como um dos modos possíveis de perceber o mundo e, então, que tanto sua definição quanto sua experiência são indissociáveis da presença do outro em minha corporeidade.

ABSTRACT



Who defines what blindness is? This text searches for the comprehension of blindness by confronting definitions and narrations found both in specialized literature and in daily facts. It tries to decipher the relationship between blindness and the myth about the Néssus's tunic, first revealing blindness as one of the possible ways to perceive the world, and then that its definition as well as its experience are inseparable from the other's presence in my own corporeity.
(...) Quando ia oferecer sacrifícios aos deuses, em honra de sua vitória, Hércules mandou pedir à esposa uma túnica branca, para usar na cerimônia. Dejanira, achando a ocasião oportuna para experimentar o feitiço, embebeu a túnica no sangue de Néssus. Naturalmente, teve o cuidado de eliminar os sinais de sangue, mas o poder mágico permaneceu e, logo que a túnica se aqueceu ao contato de Hércules, o veneno penetrou em seu corpo, provocando-lhe terríveis dores. Frenético, Hércules, agarrou Licas, que levara a túnica fatal, e atirou-o no mar. Ao mesmo tempo, procurava arrancar do corpo a túnica envenenada, mas esta saía com pedaços de sua carne, em que se colara. (...) (BULFINCH, 1999, p.182)

O que é a cegueira? O que é ser cego? Quem define o que é a cegueira? Essas perguntas podem parecer desgastadas, ou mesmo ultrapassadas. Mas, leitor, poderia me dizer o que é cegueira para você, que poderá estar lendo esse texto, em Braille, a tinta, ou ouvindo por meio do programa DOSVOX, ou de uma fita cassete? Se cada um de vocês responder a essa pergunta, tenho a sensação de que todos terão uma resposta muito própria sobre o que é a cegueira. Afinal, será que as pessoas que enxergam definem a cegueira do mesmo modo que as pessoas que não enxergam? As pessoas que enxergam, vêem as coisas do mesmo modo? E quem não vê, não vê nada ou nunca viu? É possível encontrar nas respostas a essas perguntas o surgimento de algumas crenças generalizadas, por exemplo, quem vê sabe tudo, e quem não vê não sabe nada. Essa atitude remete à noção de fé perceptiva proposta por Merleau-Ponty (2000), que constata nessa noção uma obscuridade:



Vemos as coisas mesmas, o mundo é aquilo que vemos - fórmulas desse gênero exprimem uma fé comum ao homem natural e ao filósofo desde que abre os olhos, remetem para uma camada profunda de "opiniões" mudas implícitas em nossa vida. Mas essa fé tem isto de estranho: se procurarmos articulá-la numa tese ou num enunciado, se perguntarmos o que é este nós, o que é este ver e o que é esta coisa ou este mundo, penetramos num labirinto de dificuldades e contradições (p.15).

Meu intuito nesse texto é descrever como a cegueira vem sendo definida, interpretada, estudada, procurando um sentido que muitas vezes as próprias palavras velam. Sei, que assim procedendo estarei revelando minhas próprias concepções e idéias sobre a cegueira. Porém, aprendo que é na experiência do diálogo que se constitui um terreno comum entre mim e o outro. Como examina Merleau-Ponty (1994):



Meu pensamento e o seu formam um só tecido, meus ditos e aqueles do interlocutor são reclamados pelo estado da discussão, eles se inserem em uma operação comum da qual nenhum de nós é o criador. Existe ali um ser a dois, e agora outrem não é mais para mim um simples comportamento em meu campo transcendental, aliás nem eu no seu, nós somos, um para o outro, colaboradores em uma reciprocidade perfeita, nossas perspectivas escorregam uma na outra, nós coexistimos através de um mesmo mundo (p.474).

Portanto, o que se indaga aqui não é somente o que é a cegueira, mas como e por quem ela é percebida. As definições denotam uma percepção de si, do outro e do mundo e "aderem ao meu corpo como a túnica de Néssus" (MERLEAU-PONTY 2002, p.171). Este autor (2002) se refere à túnica de Néssus para descrever a universalidade do sentir, esclarece que "é sobre essa que repousa nossa identificação, a generalização de meu corpo, a percepção do outro" (p.171).

Neste texto esboço a tentativa de buscar uma compreensão da cegueira, partindo primeiramente, das definições utilizadas no contexto educacional. Concomitantemente, tentarei explicitar os aspectos favoráveis e desfavoráveis imbricados nestas interpretações, confrontando-as com narrativas sobre a experiência com a cegueira.

A definição freqüentemente adotada para determinar a habilitação das pessoas categorizadas com deficiência visual para diversos serviços e programas educacionais se pauta em duas características: acuidade visual __ 2/200 a 20/200 __ e campo da visão __ não maior que 20°__ (SCHOLL, 1983). No texto "Percepção, Ação e Conhecimento nas Crianças Cegas", Esperanza Ochaita e Alberto Rosa (1995), partindo de uma perspectiva da psicologia escolar, definem :



A cegueira é um tipo de deficiência sensorial e, portanto, sua característica mais central é a carência ou comprometimento de um dos canais sensoriais de aquisição da informação, neste caso o visual. Isto, obviamente, tem conseqüências sobre o desenvolvimento e a aprendizagem, tornando-se necessário elaborar sistemas de ensino que transmitam, por vias alternativas, a informação que não pode ser obtida através dos olhos. (...) A carência ou a séria diminuição da captação da informação, por um canal sensorial da importância da visão, faz com que a percepção da realidade de um cego seja muito diferente da dos que enxergam. Boa parte da categorização da realidade reside em propriedades visuais que se tornam inacessíveis ao cego, mas isto não quer dizer que careça de possibilidade para conhecer o mundo ou para representá-lo; o que o ocorre é que , para isso, deve potencializar a utilização dos outros sistemas sensoriais (p.183).

Verifica-se que a cegueira vem sendo apresentada como redução ou ausência da acuidade visual. Essas noções têm guiado as proposições presentes nos documentos oficiais e, conseqüentemente orientado a formulação de políticas públicas para o trabalho e a educação das pessoas com cegueira ou baixa visão. No entanto, me parece que no processo educacional o modo pelo qual uma pessoa faz uso de seus sentidos nem sempre pode ser determinado por meio de medidas objetivas. A tentativa de buscar medidas objetivas para a definição da cegueira coloca em evidência os caminhos teóricos que pautam estas definições e também seus autores, alguns exemplificados neste texto. No entanto, compreendermos os pontos de vista uns dos outros é um desafio permanente, pois o mundo que temos em comum pode ser considerado sob infinito número de ângulos e possibilidades.

Sadao Omote (1994), por exemplo, alterca as abordagens centradas na pessoa com deficiência, alegando que essas ignoram um ponto central que é a construção social da deficiência. Admoesta que:

A deficiência não pode ser vista como uma qualidade presente no organismo da pessoa ou no seu comportamento. Em vez de circunscrever a deficiência nos limites corporais da pessoa com deficiência, é necessário incluir as reações de outras pessoas como parte integrante e crucial do fenômeno, pois são essas reações que, em última instância, definem alguém como deficiente ou não deficiente. As reações apresentadas por pessoas comuns face às deficientes ou às deficiências não são determinadas única nem necessariamente por características objetivamente presentes num dado quadro de deficiência, mas dependem bastante da interpretação, fundamentada em crenças científicas ou não, que se faz desse quadro (p. 67).

O que o autor nos alerta é que não se pode ignorar o outro na vida de uma pessoa com cegueira. E isso se evidencia quando pergunto para essa pessoa o que é a cegueira? Suas respostas mostram o outro. A percepção do outro para quem não vê é silenciosa, não se trata de um objeto que está diante de si, mas de um convite, às vezes um confronto, ou ainda, um desafio para que ele se desdobre, se descentre.

Taís, uma adolescente, narrou para mim o seguinte episódio:

Um dia eu estava no centro [da cidade] andando com alguém, daí eu fui para casa. Aí, na hora que encontrei uma pessoa, assim, que chegou em mim, esbarrou em mim e nem pediu desculpa. Eu estava com a bengala, assim sei lá, bengala dobrada... A pessoa nem chegou em mim e nem pediu desculpa. Daí, eu não entendi mais nada... simplesmente. É, fiquei nervosa assim, e fui embora... Ali no corrimão do terminal novo, a gente passa por ali, eles nem pedem desculpas, a gente pede licença e ninguém dá!

Talvez, a indignação de Taís diga respeito a esse outro que ela sente em si. O fato desse outro não exprimir com palavras, ou mesmo um toque afetuoso, um pedido de desculpa, faz com que ela vivencie a opacidade da percepção do outro sobre si mesma. Ela sente o outro, porém o outro silencia o que sente por ela. Deste modo, a cegueira se define nas reações do outro.

Monbeck (1974), examinando o encontro entre pessoas que enxergam com aquelas que não, primeiramente, verificou que pena e simpatia são as reações mais comuns por parte daqueles que enxergam em relação à pessoa que não enxerga. Explicita que a piedade demonstrada às pessoas cegas muitas vezes é desproporcional em relação às limitações impostas ao indivíduo pela cegueira. Infelizmente, as limitações atuais, os reais problemas de ser cego, são geralmente desconhecidos ou incompreendidos pela maioria das pessoas. O que se constata sobre isso é que o fato de se viver sem visão é negligenciado em favor de uma gama imensa e diversa de mal-entendidos e interpretações equivocadas. Em relação às atitudes atuais sobre a cegueira, essas são provenientes da nossa herança cultural. Igualmente, muitas dessas atitudes são identificadas em outras culturas, indicando, assim, algumas experiências humanas em comum, no que diz respeito às nossas reações com a cegueira e com a pessoa cega. Deste modo, atitudes do passado podem desempenhar um papel de reforçar as experiências de hoje em relação à cegueira, como também a predisposição individual para certas reações.

A relação de negação presente entre pessoas que enxergam e pessoas que não enxergam poderia transparecer como uma transformação da pessoa em um objeto. Merleau-Ponty (1994), constata que:



O olhar de outrem só me transforma em objeto se nós dois nos retiramos para o fundo de nossa natureza pensante, se nós dois olhamos de modo inumano, se cada um sente suas ações, não retomadas e compreendidas, mas observadas como ações de um inseto (p.484).

Vejamos se retomarmos aqui o episódio de Taís, e atentarmos para sua queixa, "a gente pede licença e ninguém dá..." podemos observar que, nas palavras de Merleau-Ponty (1994):



(...) a objetivação de cada um pelo olhar do outro só é sentida como penosa porque ela toma o lugar de uma comunicação possível.(...) A recusa de comunicação ainda é um modo de comunicação. A liberdade proteiforme, a natureza pensante, o fundo inalienável, a existência não-qualificada, que marcam os limites de toda simpatia em mim e em outrem, suspendem a comunicação, mas não a anulam. Se lido com um desconhecido que ainda não disse uma só palavra, posso acreditar que ele vive em um outro mundo no qual minhas ações e meus pensamentos não são dignos de figurar. Mas que ele diga uma palavra ou apenas faça um gesto de impaciência, e ele já deixa de me transcender : então é esta voz, são estes os seus pensamentos, eis portanto o domínio que eu acreditava inacessível. Cada existência só transcende definitivamente as outras quando permanece ociosa e assentada em sua diferença natural (p. 484).

Neste caso, há de assumir que somos parte de um mesmo tecido, Merleau-Ponty (2002) refere-se a mordida do mundo, para explicitar a percepção "outro-eu-mundo", tecido de uma mesma carne. Essa aderência incomoda, causa dor, como narrado na história de Hércules. Será esta a constituição intersubjetiva entre quem vê e quem é visto?

Em 1974, Berthold Lowenfeld proferiu uma palestra na Filadélfia, intitulada "What is Blindness?"1 [O que é cegueira?] Em seu texto Lowenfeld buscou, também, conhecer as definições dos especialistas e profissionais com cegueira, atuantes na reabilitação e nas áreas educacional e social. Admite que esses profissionais, em virtude de suas próprias experiências com a cegueira, são mais qualificados para falar sobre os problemas do cego e da cegueira, do que muitos profissionais não-cegos que estão ou se colocam em posição de tomada de decisões. O autor sintetiza que as interpretações de psicólogos e sociólogos cegos mostram que eles consideram a cegueira uma redução que requer adaptação, ajustamento, reorganização ou reprogramação. Lowenfeld constata que, embora a cegueira represente uma demanda especial na vida do individuo, a continuidade de sua existência e sua própria personalidade não foram consideradas por tais interpretações. Identifica que quem tem se ocupado com esses aspectos são os estudiosos não-cegos. Uma primeira interpretação vincula a cegueira com a tragédia e o desastre. O autor critica os escritos do padre Thomas J. Carrol que, corroborado por Dr. Louis S. Cholden, um psiquiatra, referem-se ao sentido de cego deixar morrer a pessoa vidente e ser renascida como uma pessoa cega. Ele encontrou um ponto comum entre aqueles que pesquisam e escrevem sobre a cegueira, todos estudiosos, videntes ou não-videntes, reconhecem que a falta ou perda da visão é uma diminuição sensorial severa que afeta a pessoa como um todo. Salienta que a contribuição que os estudiosos videntes oferecem nessa discussão sobre a condição da cegueira pode ser valiosa, mas parcialmente entendida. Pois, uma compreensão total da cegueira escapa do vidente que não pode se colocar completamente na experiência e na posição ativa de uma pessoa cega.

As interpretações acima delineadas confirmam uma indicação de Lowenfeld, de que em torno do termo cegueira gravita, primeiro, o grau de visão residual; segundo, a idade em que ocorreu a cegueira; terceiro, o tempo transcorrido desde que ocorreu a cegueira , e a causa e o tipo de cegueira. Examinando criticamente a abordagem psicológica da cegueira, Vygotsky (1983) expõe que como em qualquer ciência, é possível equivocar-se de diferentes maneiras, mas para avançar em direção à verdade só é possível por uma via. Sua idéia se resume em apresentar a cegueira, não somente como a falta da visão, ou deficiência de um órgão em particular, mas deve-se considerar que esta provoca uma grande reorganização de todas as forças do organismo e da personalidade. A cegueira, ao criar uma formação peculiar da personalidade, reanima novas forças, muda as direções normais das funções do organismo e de uma maneira criadora e orgânica, refaz e transforma a psiquê e a persona. Portanto, a cegueira não é somente uma deficiência, uma incapacidade, mas, em um certo sentido, uma fonte de manifestação das capacidades, uma força. Por mais estranho e paradoxal que seja.

Parece-me então que para definir a cegueira faz-se necessário ir além daquilo que é dado. Devo me propor conhecer a história daquele corpo como um entrelaçamento do meu próprio corpo. A história de sua vida perpassa a história da minha vida, configurando-se um modo peculiar de ser no mundo. Um ser singular, contribuindo para a pluralidade do mundo. Um ser não-visual, que não usa a visão como sentido prioritário para conhecer o mundo. A cegueira deixa de ser objeto e passa a ser uma experiência perceptiva. Trata-se mais de lidar com a invisibilidade que com a escuridão. A cegueira está para quem não vê , assim como a invisibilidade está para quem vê.

Apresentar a cegueira como uma experiência me possibilita apresentar minha vida aberta ao outro. Quando entrevisto pessoas com cegueira, sinto que minha fala é acolhedora. Quando indago: "poderia me falar sobre sua experiência com a cegueira?" Ao introduzir minha fala dessa maneira, a comunicação acontece, o outro fala de sua experiência de vida, nessa fala faz que eu me reconheça nele, e ele em mim. Somos um no mundo, com a túnica de Néssus sobre nós, a universalidade do sentir nos adere.

Jussara, uma amiga ceramista, me escreveu:

A minha experiência com a cegueira não é traumática e nem dramática. A princípio, quando me descobri cega, é claro que foi difícil, não conseguia entender a minha condição, por que eu? Mas a partir do momento em que comecei a fazer minha reabilitação as coisas foram clareando e aos poucos fui notando que as emoções, sentimentos, vibrações e percepções estavam se aguçando de tal forma, que não ver não era mais um problema. Foi quando redescobri a arte em minha vida, então logo tudo transformou-se e hoje posso dizer que sou realizada e cheia de projetos. Sei que isso não acontece com todos, conheço pessoas que recusam a cegueira e se transformam em pessoas amargas. Outras, mesmo com seus olhos em perfeito funcionamento, não conseguem perceber, sequer o outro ao seu lado. Quem será realmente o cego?

Na fala de Jussara é revelada sua percepção de si, do outro e do mundo. Parece explicitar a constituição intersubjetiva proposta por Merleau-Ponty (1994):

A subjetividade transcendental é uma subjetividade revelada, saber para si mesma e para outrem, e a este título ela é intersubjetividade. A partir do momento em que a existência se concentra e se engaja em uma conduta, ela cai sob a percepção. Como qualquer outra percepção, esta afirma mais coisas do que realmente apreende (...) Da mesma maneira, quando digo que conheço alguém ou que o amo, para além de suas qualidades eu viso um fundo inesgotável que um dia pode fazer estilhaçar a imagem que me faço desta pessoa. É a este preço que existem para nós as coisas e os "outros", não por uma ilusão, mas por um ato violento que é a própria percepção (p.485).

Se por um lado a percepção tem uma característica de nos fazer desejar arrancar a túnica do nosso corpo, em virtude da dor que nos causa, qual será então nosso destino, será o mesmo de Hércules? O contato com o outro, talvez, possa deixar de representar somente a nossa a morte, mas quem sabe, também a nossa libertação. A dança é uma possibilidade de ser um com outro no mundo... Mas, isso já é uma outra história.




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