Roberto Schwarz, um leitor radical de Machado



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Dom Casmurro corporifica, na sua protagonista, a condição dos dependentes e dos sem propriedade, pois Capitu representa a cidadania precária e as “parcelas ameaçadas no processo” de transformações substanciais em curso, vítimas da “mistura promíscua de propriedade, autoridade e capricho” que Schwarz descreve em Bento.13 Capitu encarna, dessa maneira, o destino das “moças com talento (...) numa posição de poucos meios”,14 das jovens mulheres de “famílias necessitadas”, que vivem na pele as diferenças sociais e permitem colocar em cena a “matéria brasileira”, definida por Schwarz como o “sistema de relações sociais, pontos de vista, registros de dicção etc. que foi engendrado pela história do país”.15 Assim, sob a aparência de modernidade implícita na existência desse narrador “civilizado à européia e incivil à brasileira”,16 permanece o “substrato bárbaro” de práticas sociais que, na esfera privada, imitam o curso da História, revelando a própria experiência histórica brasileira do séc. XIX.

Diante das conseqüências que Schwarz deriva das conexões entre vida subjetiva e vida material (uma correspondência fundante para um pensador como Adorno) e da força explicativa que ele apreende na estrutura formal da obra em relação à dinâmica específica da sociedade brasileira, é o caso de perguntar quais os ganhos de uma leitura de Dom Casmurro como um tratado de psicologia moral17 ou como uma sondagem da instância do sujeito, ou de sua erosão, com o esperado recurso a conceitos como os de alma e de essência.18 A perspectiva de uma psicologia universalista – esse é o ponto – não enxerga a ironia constitutiva desse romance, que está longe de visar a verdades eternas sobre o ser humano; tampouco o argumento da reconstrução do eu pela memória e pela auto-análise explica, a meu ver, a necessidade de destruição do outro, que é, ao final de contas, o que consegue Bento Santiago.

Ou ainda, a tese de que “o objeto principal de Machado é o comportamento humano” e de que o que lhe interessa é o registro das “reações morais à assimetria” social19, não tendo nada de específico, pouco revela a respeito dos modos de funcionamento das relações interpessoais ou de classe no interior da sociedade brasileira oitocentista. Para além da índole das personagens, é fundamental considerar sua condição: a implicância e o azedume de Prima Justina, por exemplo, não a tornam menos dependente que o subserviente José Dias. E se, para o narrador, “Capitu era Capitu”, que Bosi traduz como “o singular em estado puro”, interpretar a explicação de Bento de que ela era “mais mulher do que [ele] era homem” como uma invocação ao “universal feminino”20 carrega as tintas numa idealização e num essencialismo que nada dizem sobre a situação da mulher brasileira no século XIX. Pôr o acento nas relações que se armam em função das posições sociais das personagens, eu insisto, não significa retirar-lhes a singularidade; ao contrário, é exatamente a tensão entre o particular e o geral que confere ao romance machadiano mais um dos traços de sua complexidade.

A providência recente desse crítico de repor a discussão sobre Dom Casmurro em chave idealista, acompanhada da imputação velada de reducionismo à leitura de Roberto Schwarz, resulta de uma visão estreita do alcance de um trabalho crítico pautado pela dimensão estética da realidade e pela dimensão real do artifício literário. Dessa maneira, a atenção ao “processo de auto-análise do narrador do romance” se apresenta como o antídoto contra “uma crítica esquemática e hiperideologizante, disposta a patrulhar todos os narradores que se lhe deparam” e que, segundo Bosi, faz descer Bento/Dom Casmurro “ultimamente à ingrata condição de bode expiatório”.21

Um bom exercício dialético, bem ao gosto de Schwarz, nos obriga a inverter os termos de uma das interrogações de Bosi e perguntar se é lícito subestimar o fato de Bentinho pertencer a um estrato relativamente abastado do Segundo Império, subordinando-o à reconstrução existencial do narrador.22 No mesmo passo, há sinais de incompreensão, ou má-fé, na avaliação de que essa crítica reduz

Bento Santiago a uma alegoria socioeconômica engessando toda a sua dinâmica psicológica (inclusive os ciúmes bem ou mal fundados) em um esquema maniqueísta pelo qual a dramática relação com a mulher amada desde a adolescência é arbitrariamente descartada em nome de uma suposta conduta senhorial.23


Quantos foram os romances realistas do século XIX, ou, em grau ainda mais alto de generalização, quantas foram as obras literárias que elegeram o casamento, o ciúme e o adultério como seus assuntos? Jogar luz sobre os aspectos universais da questão apaga justamente a historicidade de temas e conceitos e, o que é pior, as especificidades brasileiras, que são o que nos interessa.

Conforme nos mostra Schwarz, Machado é mestre no manejo de temas europeus, entre os quais seus narradores circulam com familiaridade e desenvoltura, mas é a especificidade nacional, que aparece em sua feição negativa, o que confere o caráter revelador da cena brasileira e ilumina as contradições do centro do sistema. A efetividade da sua crítica, portanto, reside na relação dialética que ela estabelece entre o global e o local e na busca do impulso mimético que decanta a história e a realidade social na forma literária, sendo um de seus traços mais notáveis a atenção ao objeto e às suas contradições. Caudatário dos críticos que o precederam e herdeiro da melhor tradição da crítica dialética, Roberto Schwarz demonstra seu fôlego interpretativo e expõe, na forma do ensaio, “as relações sociais inscritas [no] material [do escritor] – situações, linguagem, tradição, etc. – segundo um fio próprio, quer dizer, próprio às relações e próprio ao escritor: um fio que é de livre invenção, mas nem por isso é arbitrário”.24

O que torna possível essa leitura decididamente não-conformista é a adoção de uma postura que segue à risca uma palavra de ordem do romancista de sua eleição, que Schwarz tem traduzido como o sentimento de tempo e lugar. Em “Instinto de Nacionalidade”, Machado de Assis, entrando no debate sobre o que constituiria propriamente o caráter nacional de uma literatura, assinala que

O que se deve exigir do escritor antes de tudo é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.25


Roberto Schwarz atendeu a essa exigência com resultados notáveis: ao tratar de Machado, com as conseqüências do golpe de 1964 em curso, precisou redefinir os termos da “dialética de local, nacional, universal”,26 que já não permitiam harmonização, diante do malogro de qualquer projeto progressista para a nação. A homologia entre escritor e crítico fica clara. No tempo de Machado, “ao contrário do que esperava o otimismo abolicionista, o fim do cativeiro não integrou os negros e os pobres à cidadania, tarefa nacional que ficaria adiada sine die”.27 No horizonte do crítico, enquanto escrevia seus ensaios sobre Machado, também havia motivo para pessimismo. Se a dinamização da economia, com ênfase na industrialização, durante o segundo governo Vargas pavimentou o caminho para uma década de prosperidade que se acentuou com o clima de otimismo que logo mais cercou a eleição de Juscelino Kubitscheck, seu Plano de Metas e a construção de Brasília, as saídas logo iriam se fechar, com o golpe militar de 64 e o sentimento de frustração pela impossibilidade de superar o desnível que nos separa dos países desenvolvidos “por meio de uma virada social iluminada”.28 Diante de quadro semelhante, a Machado não interessava a síntese, como pontua Roberto, mas sim a disparidade, uma atitude e uma escolha que também podemos atribuir ao seu melhor crítico.
Outras fontes:

Bosi, Alfredo. O Enigma do Olhar. São Paulo: Ática, 1999.

Cevasco, Maria Elisa & Ohata, Milton (org.). Um Crítico na Periferia do Capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Schwarz, Roberto. A Dialética Envenenada de Roberto Schwarz (Entrevista). Folha de S. Paulo. Caderno Mais! 1º. de junho de 1997, p. E4-8.

Schwarz, Roberto. Entrevista com Roberto Schwarz (Eva L. Corredor). Literatura e Sociedade, n. 6, 2001-2002, p. 14-37.

Schwarz, Roberto. Entrevista. Revista Cult, n. 72, 2003, p. 8-12.

Schwarz, Roberto. Um Crítico na Periferia do Capitalismo (Entrevista). Revista FAPESP, n. 98, abril 2004.

Schwarz, Roberto. A Viravolta Machadiana. Novos Estudos CEBRAP, n. 69, julho 2004, p. 15-34.




1 Hélio de Seixas Guimarães. O escritor que nos lê. Cadernos de Literatura Brasileira: Machado de Assis. São Paulo: Instituto Moreira Salles, números 23 e 24, Julho de 2008, p. 273-292. O que exponho acima é um resumo e uma simplificação do excelente e detalhado mapeamento realizado pelo autor.

2 Roberto Schwarz. Um Mestre na Periferia do Capitalismo. São Paulo: Duas Cidades, 1990, p. 13.

3 Antonio Candido. Machado de Assis de outro modo. Recortes. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 105-109.

4 Antonio Candido. Esquema de Machado de Assis. Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1970, p. 31.

5 Roberto Schwarz. Entrevista com Roberto Schwarz (Eva L. Corredor). Literatura e Sociedade, n. 6, 2001-2002, p. 21.

6 Roberto Schwarz. Conversa sobre “Duas Meninas”. Seqüências Brasileiras: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 236.

7 Roberto Schwarz. Complexo, Moderno, Nacional, e Negativo. Que Horas São? Ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 124 e 121 respectivamente.

8 Roberto Schwarz. Duas Meninas. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

9 Alfredo Pujol. Machado de Assis. São Paulo: Typographia Levi, 1917, p. 240, apud Roberto Schwarz, Duas Meninas, p. 10.

10 Roberto Schwarz. A Poesia Envenenada de Dom Casmurro. Duas Meninas, p. 30.

11 Para uma explicação de especialista sobre essas relações e as possibilidades de compreensão da própria psicanálise a partir das leituras de Schwarz, ver Tales A. M. Ab’Saber, “Dois mestres: crítica e psicanálise em Machado de Assis e Roberto Schwarz”. In: Cevasco, Maria Elisa & Ohata, Milton (org.). Um Crítico na Periferia do Capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 267-294 [p. 273-274].

12 Plekhanov, in L’ Art et la vie sociale, Ed. Sociales, 1953, p. 216, cit. por Alfredo Bosi. O Enigma do Olhar. São Paulo:Ática, 1999, p. 13.

13 Roberto Schwarz. Conversa sobre “Duas Meninas”. In: Seqüências Brasileiras: ensaios, p. 40.

14 Roberto Schwarz. Conversa sobre “Duas Meninas”. In: Seqüências Brasileiras: ensaios, p. 93.

15 Roberto Schwarz. Conversa sobre “Duas Meninas”. In: Seqüências Brasileiras: ensaios, p. 226.

16 Roberto Schwarz. A Viravolta Machadiana. Novos Estudos CEBRAP, n. 69, julho 2004, p. 28.

17 Eduardo Gianetti no caderno Mais!, Folha de S. Paulo. Completar.

18 Alfredo Bosi. Figuras do Narrador Machadiano. Cadernos de Literatura Brasileira. Machado de Assis. São Paulo: Instituto Moreira Salles, p. 126-161.

19 Alfredo Bosi. O Enigma do Olhar. O Enigma do Olhar. São Paulo: Ática, 1999, p. 11 e 58, respectivamente (em itálico no original).

20 Alfredo Bosi. O Enigma do Olhar. O Enigma do Olhar, p. 30. Vale ressaltar que “a adesão ao essencialismo é adesão aos valores que Bento representa e defende” (A observação me foi feita por Iná Camargo Costa).

21 Alfredo Bosi. Figuras do Narrador Machadiano. Cadernos de Literatura Brasileira. Machado de Assis, p. 137.

22 ‘É lícito subestimar o sentido da reconstrução existencial desse narrador [Bentinho] subordinando-a ao fato de ele pertencer a um estrato relativamente abastado do nosso Segundo Império?”. Alfredo Bosi. Figuras do Narrador Machadiano. Cadernos de Literatura Brasileira. Machado de Assis, p. 138.

23 Alfredo Bosi. Figuras do Narrador Machadiano. Cadernos de Literatura Brasileira. Machado de Assis, p. 138-9.

24 Roberto Schwarz. Conversa sobre “Duas Meninas”. In: Seqüências Brasileiras: ensaios, p. 230.

25 Machado de Assis. Notícia da Atual Literatura Brasileira – Instinto de Nacionalidade (1873). Obra Completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1959, vol. 3, p. 817.

26 Roberto Schwarz. Duas Notas sobre Machado de Assis. Que Horas São? Ensaios, p. 169.

27 Roberto Schwarz. A Viravolta Machadiana. Novos Estudos CEBRAP, p. 28.


28 “As derrotas do nazifascismo na Europa e da ditadura Vargas no Brasil haviam sido momentos de esperança incomum, que entretanto não abriram as portas a formas superiores de sociedade”. Roberto Schwarz. Prefácio com Perguntas. In: Francisco de Oliveira. Crítica à Razão Dualista. O Ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003, p. 11-12.




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