Robert louis stevenson



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O ESTRANHO CASO

DO DR. JEKYLL E DO SR. HYDE
ROBERT LOUIS STEVENSON

Recolhem-se neste volume três das mais terríveis e assombrosas narrativas de Robert Louis Stevenson, valoroso e arrojado escritor escocês que nascera a 13 de Novembro de 1850 em Edimburgo e viria a falecer no outro lado do mundo – o sul do Oceano Pacífico – a 3 de Dezembro de 1894, quase nove anos após a publicação deste seu O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde. À semelhança deste último, também os dois outros textos foram forjados com vista a um então florescente comércio da literatura, que se mostrava particularmente pujante durante o período natalício e para o qual os editores instavam os seus escribas a produzirem a esmo «novelas de tostão».

Stevenson poderia ter tido uma vida de menor arrojo. Pelo lado paterno descendia de uma família de engenheiros que haviam orlado a costa escocesa com diversos faróis. Pelo lado materno, o dos Balfour, derivava de uma linhagem de advogados; o avô, Lewis Balfour, era sacerdote e professor de Filosofia Moral. Na adolescência, como cumpria a um herdeiro, inscreveu-se na Universidade de Edimburgo para cursar Engenharia e seguir o ofício do pai. Mas como uma primeira viagem feita em companhia do progenitor revelou nele um pendor romântico e um espírito em que grassava a turbulência das paixões, cismou que o que verdadeiramente ambicionava era tornar-se escritor profissional e depressa abandonou o curso – para ter uma profissão, inscreveu-se depois em Direito, onde conclui os estudos aos 25 anos, sem que nunca tenha chegado a exercer a advocacia.

Em vez disso, e dada a sua débil saúde (era atormentado por problemas pulmonares, em especial durante o Inverno), com o patrocínio do pai começou a deambular pela Europa em busca de climas mais adequados à sua condição, enquanto ia publicando em revistas os seus primeiros textos – que, nessa fase, eram sobretudo crónicas de viagens. Assim percorreu demoradamente a Bélgica e a França (experiências de que resultariam, por exemplo, An Inland Voyage e Travels with a Donkey in the Cévennes, publicados em 1877 e 1878), com incursões ocasionais na Suíça e em Espanha. Entre viagens, visitava as galerias, os teatros e as mundaneidades de Paris, cidade onde, em 1876, viria a ser atingido por um verdadeiro coup de foudre ao conhecer aquela que mais tarde se tornaria sua esposa: a americana Fanny Vandegrift Osbourne, casada, mas separada do marido que deixara em S. Francisco.

Quando Fanny deixou a cidade-luz e regressou ao lar conjugal, alguns meses depois, Stevenson (que entretanto alterara o seu apelido original, Lewis, para a forma francesa – Louis) não resistiu a segui-la, ignorando os avisos dos amigos e sem sequer avisar a sua família em Edimburgo. Adquiriu uma passagem de segunda categoria no Devonian e alcançou Nova Iorque, a partir de onde procurou chegar à Califórnia de comboio. A viagem deixou-o completamente derreado: quando chegou à costa oeste dos Estados Unidos, meio morto, foi recolhido em Monterey por uns rancheiros que cuidaram dele até ao seu recobro. Só em Dezembro de 1879 conseguiu por fim alcançar São Francisco, completamente depauperado e forçado às ásperas tarefas dos emigrantes comuns para conseguir garantir a subsistência. No início de 1880, durante os meses invernais, a saúde voltou a falhar-lhe. Porém Fanny, entretanto divorciada, não apenas tratou dele como alertou a família em Edimburgo, que prontamente enviou os fundos indispensáveis. Em Maio casaram-se e viajaram durante algum tempo pelo norte da Califórnia na companhia de Lloyd Osbourne, o filho de Fanny. E, em Agosto, embarcaram em Nova Iorque com destino à Grã-Bretanha.

Nos anos seguintes, que foram para ele bastante produtivos, Stevenson passava os meses estivais entre a Escócia e a Inglaterra e, no Inverno, fazia estadias em França. Em 1881 publicou uma colectânea de ensaios, Virginia Puerisque, em 1882 uma colectânea de contos, New Arabian Nights, e em 1883 The Silverado Squatters (onde descrevia a lua de mel que passara com Fanny entre os mineiros da Califórnia), bem como o seu primeiro sucesso: A Ilha do Tesouro. Em 1884 a saúde dele voltara a degradar-se visivelmente e, a instâncias dos familiares, mudou-se para Bournemouth. Foi aí que, enquanto preparava Kidnapped, um romance histórico sobre as aventuras de David Balfour em meados do século xviii, redigiu The Body-Snatcher (O Furta-Defuntos) para publicação na edição de Natal da Pall Mall Gazette. Continuaria trabalhando a bom ritmo – no ano seguinte publicou Prince Otto, The Dynamiter e, no Natal, mais um conto: Olalla, cuja acção decorre em Espanha e possivelmente recupera algumas das impressões que recolhera quando conhecera esse país. Foi, porém, algum tempo antes do Natal, em Outubro desse ano de 1885, que um sonho intempestivo e recorrente o levou a escrever, rescrever e publicar, em dez semanas, segundo conta, O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde. Inicialmente prevista a sua publicação no Natal, o editor decidiu, no entanto, adiá-la e a novela só foi posta à venda em Janeiro de 1886.

Nestas três narrativas, escritas e publicadas no curto espaço de dois anos, o leitor adivinhará facilmente a evolução de um estilo, mesmo no interior do género designado por «literatura gótica». Da memória do folclore urbano de Edimburgo à experiência inumana e traumática ocorrida num lugar ermo de um país distante – e sofrida por um personagem do qual nunca saberemos o nome – e à ousadia científica de um até então ignoto médico londrino vai um passo de gigante, senão no tema, sobretudo na forma: o primeiro conto é-nos apresentado por um narrador anónimo como uma interpretação etílica, mas verosímil, do que poderia ter motivado uma tão estranha e conflituosa relação entre dois antigos estudantes de medicina, integrando-os numa história verdadeira e horrenda que, sessenta anos antes, se tornara tristemente célebre naquela cidade escocesa; a segunda história é-nos apresentada por um outro narrador anónimo, mas que neste caso é também a personagem central da narrativa e, se quisermos, o seu anti-herói; no terceiro e último caso, o tempo da narrativa é fragmentado e o narrador anónimo é, a certo ponto, nitidamente ultrapassado pelos acontecimentos – na verdade, o desenlace da história só é atingido nos dois últimos capítulos, que somente nos dão a conhecer outros tantos documentos redigidos para a posteridade pelos personagens principais, numa manobra sagaz que reforça o apelo ao carácter realista dos eventos descritos.

Notar-se-ão, sem dúvida, algumas semelhanças entre os três textos. O persistente contraste entre os lumes interiores e os negrumes, as friezas e as agrestes intempéries exteriores; a importância do vinho; a noção de que cada indivíduo é habitado por uma pluralidade – ou, pelo menos, por uma dualidade; e a preponderância do corpo, como lugar e centro de mistérios, ocasiões e transformações.

Convém, no entanto, chamar a atenção para algumas subtilezas menos evidentes que poderão passar despercebidas na actualidade. Quando Olalla foi publicado, no Natal de 1885, o naturalista Charles Darwin falecera havia dois anos e meio. Envolto em forte polémica desde a publicação de A Origem das Espécies (1859), procurara responder aos críticos com algumas obras publicadas na década de 1870, entre elas A Descendência do Homem e Selecção em Relação ao Sexo (1871), onde afirmava que «o homem ainda ostenta na sua estrutura física a marca indelével das suas origens primitivas». A frase, como se verá adiante, poderia muito bem servir de epígrafe a Olalla, que glosa a teoria darwiniana da selecção natural e lhe acrescenta, como hipótese, a possibilidade de uma regressão – mas natural ou sobrenatural? E onde se situariam os limites de uma e de outra?

Quanto a O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde, as suspeitas e o olhar reprovador que Utterson, o advogado, lança sobre o seu amigo Jekyll, condensam, de modo subliminar, diversos temas da época que então muito raramente se deviam mencionar em sociedade: a lei da homossexualidade publicada nesse mesmo ano de 1885, que passara a interditar as manifestações públicas de afeição erótica entre homens, até aí comuns; a vulgaridade dos amantes masculinos que chantageavam os cavalheiros seus conhecidos; a sífilis que grassava comummente; a prostituição; os filhos ilegítimos. E é por isso que nos temores e nas hesitações de Utterson se podem encontrar insidiosos duplos sentidos.






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