Retrato 3X4 é a segunda etapa de uma pesquisa quali-quantitativa que foi realizada na Fazenda Modelo entre os meses de dezembro de 1999 e fevereiro do ano 2000



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EXCLUSÃO E IDENTIDADE
Profa Herminia Helena C. Silva
De dezembro de 1999 até fevereiro do ano 2000, realizou-se, na cidade do Rio de Janeiro, uma pesquisa quali-quantitativa, cujo objetivo foi traçar o perfil da população albergada na Fazenda Modelo1, instituição municipal que abrigava famílias que haviam perdido suas casas, e adultos solteiros, antigos moradores de rua. O estudo, financiado pela Prefeitura, e que contou com o apoio do ISER, foi desenvolvido por professores e alunos da Universidade Castelo Branco.

A parte quantitativa sistematizou dados socioeconômicos coletados através de um questionário fechado, que foi respondido pela totalidade dos usuários que se encontravam em condições físicas e mentais favoráveis. Foram levantados dados sobre 1.109 pessoas. A parte qualitativa levantou histórias de vida em busca de representações sociais. Nesta etapa foram ouvidos 39 adultos, selecionados aleatoriamente.

Das 39 entrevistas realizadas, 17 foram com adultos solteiros. Dentre essas histórias, vamos discutir aqui a trajetória de 6 adultos, que saíram da casa dos pais ainda jovens e foram viver na rua, depois, ou mesmo durante, o tempo em que trabalharam em empresas de construção civil, envolvidas em grandes empreendimentos, principalmente, na abertura de estradas de rodagem, e que ofereciam moradia em alojamento2.

O que nos interessa discutir é o papel que as experiências vividas nas situações de trabalho desempenharam na trajetória daqueles 6 adultos em direção à rua e ao abrigo. Isso porque os sujeitos focalizados aqui não se afastaram dos familiares por causa de drogas, ou de qualquer outro conflito. Eles trabalhavam na construção civil e foram se distanciando da sua comunidade de origem na medida em que se adaptavam às condições exigidas pelo trabalho, e ao mesmo tempo em que elaboravam uma justificativa para as dificuldades enfrentadas na vida a partir da idéia de que haviam cometido “erros no passado”. O que pretendemos sinalizar é que, no caso desses sujeitos, o tipo de trabalho executado foi decisivo para o processo que os levou a perder os vínculos sociais e, também, ao envolvimento com diversos problemas, entre eles o alcoolismo.

Esse texto não tem a pretensão de apontar novos rumos para a pesquisa com populações de rua, e, muito menos, quer esgotar o tema proposto. Seu objetivo é sinalizar a situação que mais despertou a curiosidade dos pesquisadores durante as entrevistas. O que se pretende discutir é a relação entre o tipo de trabalho realizado pelos 6 adultos solteiros entrevistados e a vida no abrigo, tentando entender melhor as condições de adaptação desses sujeitos, que deixaram sua famílias nucleares para atuar na construção civil, às relações e situações que caracterizavam o abrigo. Considerando, ainda, que a instituição apareceu nas entrevistas como moradia definitiva e como um lugar satisfatório para se viver3.

Muitas vezes a capacidade de adaptação das pessoas a condições precárias de vida é considerada como uma forma de acomodação. Em outras palavras, acredita-se que os sujeitos preferem aceitar as dificuldades cotidianas, comuns, a enfrentar a incerteza e o esforço que envolvem processos de mudança. Outras vezes, justifica-se a adaptação relacionado-a com atributos individuais subjetivos. Haveria sujeitos, quer em função de coisas vividas na infância ou em função de tendências inatas, mais adaptáveis a condições adversas.

Mesmo acreditando que cada uma das duas vertentes explicativas mencionadas antes, que encontram seguidores até na literatura especializada, possam guardar alguma correspondência com a realidade, elas não conseguem trazer nenhuma luz ao problema em questão. No caso dos 6 adultos solteiros entrevistados, ainda falta entender como e por que sujeitos saudáveis, trabalhadores, oriundos de famílias nucleares que, segundo eles, conseguiam garantir a reprodução social e biológica, não foram capazes de consolidar vínculos sociais mais amplos e consideram a vida isolada no abrigo satisfatória. Ainda que a acomodação desempenhe papel importante na manutenção das condições de vida atuais, falta entender no que essa acomodação consiste. Por outro lado, a representação da instituição como moradia definitiva e satisfatória, apesar de todas as dificuldades apontadas nas entrevistas, convive com uma auto-imagem bastante depreciativa. Os sujeitos envergonham-se da vida que levam e justificam a manutenção do afastamento do grupo doméstico e de uma vida social mais rica, através de afirmações de incapacidade e fracasso, e percebem apenas de forma sincrética as dimensões sociais da problemática que vivem. Os entrevistados, quando tentam explicar o fato de viverem no abrigo, não articulam os rumos que suas vidas tomaram com as instituições e relações dentro da esfera pública, coletiva. As justificativas focalizam a dimensão privada: seus “erros” e os problemas de sua família.

As vertentes explicativas que tentam entender a problemática da população de rua a partir de atributos subjetivos dos indivíduos e de seus familiares, têm como base a separação entre indivíduo e sociedade. Para eles os sujeitos e a coletividade são realidades estanques, que se relacionam, mas que possuem uma existência mutuamente exterior. Nessa relação bilateral, ora o indivíduo é influenciado pelo meio, que existe de forma objetiva, ora é o meio que sofre a ação do indivíduo, motivada por pulsões subjetivas. Essa maneira de encarar o binômio indivíduo/sociedade tem adeptos na sociologia e na psicologia ainda hoje, mas a partir do início do século XX alguns cientistas sociais passaram a tratar os dois pólos desse binômio como indissociáveis. Norbert Elias é um deles.

O ponto de partida desse autor é a crítica às matrizes teóricas sociológicas que partem de uma diferenciação básica entre indivíduo e sociedade para explicar as relações entre estes dois elementos. Segundo ele, não há indivíduo sem sociedade, no sentido de que não existe uma verdade interior natural, e também não há sociedade sem indivíduo, não existem forças supra-individuias ou leis implícitas na sociedade em si. A sociedade é o produto da interdependência dos homens. Ela não existe para além dos sujeitos. Mas, mesmo sendo um produto da interdependência entre os indivíduos, a vida coletiva condiciona cada sujeito em particular.

A percepção de que existe uma separação entre indivíduo e sociedade é um produto do estágio atual do pensamento na civilização ocidental. O individualismo nos impede de pensar a sociedade e o indivíduo da forma real como esses fenômenos se apresentam: indissociáveis. Não há sociedade fora das relações de interdependência dos indivíduos e não há o indivíduo naturalmente dado, como um a priori biológico. A natureza do fenômeno psíquico é, justamente, ser um produto das relações sociais.

O indivíduo não é um dado, um ser natural que guarda uma verdade interior particular e imanente. Os homens se individualizam no contato com a sociedade. O processo de individualização pressupõe a participação de um não-eu próximo e interdependente. A diferenciação dos elementos constitutivos do que atualmente se convencionou chamar de mundo psíquico – ego, id, consciente, inconsciente, razão, emoção, etc. – não é algo naturalmente dado, ela só acontece dentro do contexto das relações entre os indivíduos e do processo civilizatório como um todo. Os “compartimentos psíquicos” não têm com o indivíduo a mesma relação que seu fígado ou coração. No processo de diferenciação da mente, cada elemento que a compõe está referido a outras pessoas e coisas, ou seja, é um produto da interdependência dos sujeitos e funciona como mecanismo de auto-regulação.

O ser humano não é, como faz parecer certa forma histórica de autoconsciência humana, simplesmente um continente fechado, com vários compartimentos e órgãos, um ser que, para começo de conversa, em sua organização natural, nada tem a ver com outras coisas e seres, mas é organizado, por natureza, como parte de um mundo maior. Em certo sentido, ele é um vetor que dirige continuamente valências dos mais diferentes tipos para outras pessoas e coisas (…) Por natureza, ele é feito de maneira a poder e necessitar estabelecer relações com outras pessoas e coisas. (Elias, 1994: 37)


Mesmo depois de adultos, as pessoas moldam-se umas às outras nas suas relações cotidianas, como em uma conversa onde perguntas e respostas vão se acoplando gradativamente até formarem, ao final, uma linha única de pensamento constituída pelas contribuições dos participantes. Da mesma forma, ao moldarem-se mutuamente, os indivíduos elaboram e reelaboram em tempo real as teias que os ligam uns aos outros. A sociedade e o indivíduo estão em constante fazer-se. Por isso, para Elias, as estruturas da psique, da sociedade e da história só podem ser compreendidas completamente se forem estudas em conjunto.

Por outro lado, é o fato do homem elaborar-se nas relações reais que estabelece com os outros – ao lado da independência dele em relação aos condicionantes hereditários, que submetem de forma mais absoluta outros seres vivos – que abre caminho para a liberdade de criação das relações socais de interdependência. Os indivíduos criam a sociedade no momento em que se relacionam, mas estas relações têm uma dinâmica particular que imprime sua marca na vida de cada indivíduo isoladamente. A sociedade e seu curso no tempo são um produto não planejado das relações efetivas que os homens estabelecem entre si.

Os homens não são produtos passivos do meio. Mesmo que para um observador da história seja impossível perceber o papel dos indivíduos isolados dentro do continuum histórico, se pensarmos na vida real, no momento em que as estruturas de funcionamento das relações de interdependência são criadas e recriadas pelos indivíduos, é possível perceber melhor a dependência que o cursos da história têm em relação à atuação do sujeito isoladamente. As sociedades complexas são, ao mesmo tempo, fixas e maleáveis. Existe sempre um espaço para as escolhas individuais.

Para Elias, afirmar que a sociedade possui estruturas, e que o indivíduo está inserido num todo funcional ao qual deve acomodar-se para poder realizar sua individualidade, não significa separar indivíduo e sociedade, justamente porque a estrutura e a funcionalidade que aparecem para o indivíduo como uma forma capaz de condicioná-lo nada mais são do que a estrutura e as funções das relações de interdependência nas quais este indivíduo está envolvido.

A maior expressão da indissociabilidade do indivíduo e da vida em sociedade é o fato dessa última ser produzida através de um processo de monitoramento e regulação recíproca das condutas dos indivíduos nas diversas relações de interdependência que eles estabelecem no cotidiano.

Dentro da psicologia também existem matrizes teóricas que se ocupam de entender no que se constitui a indissociabilidade indivíduo/sociedade. Esse é o caso do psicanalista social Jurandir Freire Costa.

Costa (1986) afirma que o sujeito cria uma imagem de si mesmo que ele precisa acreditar como dada e irredutível para possibilitar sua ação. Mas a identidade, essa auto-imagem, é flexível, atende a necessidades derivadas de situações concretas. Ela é uma vivência do homem, uma atitude que ele toma frente à realidade, movido por interesses da razão utilitária. O homem é o único ser que precisa responder à pergunta: quem sou eu; e a resposta a essa pergunta está ancorada nas situações vividas, nas pessoas, lugares e significados experimentados e compartilhados. Ou seja, o autoconceito é produzido no encontro do psiquismo com a realidade; e da sua construção, e aceitação como dado, depende a capacidade do sujeito de interagir com os outros e com as situações da vida.

“ …a identidade é um amálgama de afetos e representações que o sujeito experimenta e formula como sendo a natureza do seu Eu e do outro, do corpo do outro, do corpo próprio e do mundo de coisas e objetos. Estas representações e afetos são transitivos, móveis e múltiplos. Mudam conforme a posição que o sujeito ocupa nas relações com os outros.” (Freud apud Costa, 1986:85)


Costa usa conceitos freudianos4 para discutir o condicionamento imposto ao psiquismo pelo meio externo, através da análise do ego.

O ego é o representante do mundo no interior do psiquismo porque se deixa moldar através do fenômeno da identificação. A identificação é uma modificação que se dá no sujeito psíquico por causa dos laços que ele estabelece com pessoas, e situações que envolvem pessoas, com as quais se encontra afetivamente ligado. Nesse processo, o sujeito assume características do objeto com o qual se identifica, modificando-se. Além de pessoas, os sujeitos também podem se identificar com grupos. O mundo vive no sujeito, da mesma forma que o sujeito vive no mundo.

A identificação pode surgir a qualquer momento e seu sucesso depende da importância da qualidade compartilhada entre o sujeito e o objeto com o qual se identifica. O sujeito psíquico se enriquece com as propriedades desse objeto. Dentro do psiquismo freudiano, o ego é parte do id modificada pela influência que o meio externo exerce sobre o sistema perceptivo.

Ou seja, os sujeitos precisam criar uma noção de eu para poderem interagir com o meio e com os outros eus. E esta noção de eu vai ser condicionada por esse mesmo meio externo. O representante do mundo, que vive dentro do psiquismo, é, ainda, o elemento que media a relação entre o id e a vida real. Do sucesso dessa mediação e da elaboração da auto-imagem, depende a saúde dos relacionamentos, das interações. Para Costa, o sujeito adoecido é aquele que não consegue representar a sua identidade a partir de significados compartilhados com o grupo social mais amplo. Em outras palavras, aquele que não realizou uma ponte satisfatória com o mundo.

No livro Violência e psicanálise (1986), esse autor usa os conceitos de identidade e identificação para explicar as atitudes de um adolescente envolvido com o mundo do crime. A tese que ele defendeu era a de que ao assumir uma identidade delinqüente o seu jovem paciente estava garantindo a manutenção dos vínculos com a vida. Em outras palavras, diante das circunstâncias adversas vividas, não restou nenhuma outra saída para esse sujeito, na sua tentativa de manter ativo o princípio do prazer, senão contrariar as normas sociais.

Quando os indivíduos se deparam com situações extremamente adversas, precisam adequar as demandas do id às exigências do ego, através da elaboração de um autoconceito capaz de conciliar os princípios do prazer e da realidade. No caso discutido por Costa, ele tenta entender por que um jovem elaborou para si uma noção de eu onde as drogas são a única fonte de prazer. E afirma que, apesar de “ ilusório e efêmero”, o universo da delinqüência possibilitou a elaboração de uma auto-imagem baseada na preservação da saúde mental.

Mas de que maneira os autores mencionados nos parágrafos anteriores iluminam a vida dos 6 adultos solteiros encontrados no abrigo público?

A noção de eu que foi sendo construída na trajetória de adversidades que levou os usuários da Fazenda Modelo da rua até o abrigo não foi a do delinqüente, mas a do fracassado, que não tem utilidade para sua família e que, por isso, merece viver onde vive. A baixa auto-estima5 funciona como uma espécie de justificativa que promove a aceitação da vida como ela é. Se, por um lado, os sujeitos se acomodam no abrigo porque se sentem incapazes de conduzir seus destinos fora da instituição, por outro, da mesma forma que o sujeito analisado por Costa, também foram capazes de manter a saúde mental. Mas que saúde mental é essa?

O autoconceito, que é uma ponte entre o real e o sujeito, é que vai garantir o sucesso das interações do indivíduo com o mundo. Sucesso, neste caso, significa o uso de significados compartilhados pelo grupo social e a manutenção do princípio do prazer. Ou seja, adaptar-se, acomodar-se a situações adversas de forma bem sucedida implica, por um lado, a elaboração de uma auto-imagem adequada à realidade vivida e, por outro lado, uma auto-imagem que possa ser considerada aceitável pelo conjunto de pessoas com as quais se vive. Além disso, é necessário que os sujeitos desejem viver e desejem extrair satisfação do cotidiano e que essa satisfação seja possível de ser atingida. Em outras palavras, os 6 adultos solteiros entrevistados preservaram os vínculos psíquicos com a realidade e com o coletivo de convivência mais próximo.

Do que foi dito até aqui podemos afirmar que não é possível entender a dinâmica social da vida no abrigo sem entender os seus correspondentes subjetivos, e que, no caso dos 6 informantes solteiros, isso implica considerar os efeitos das interações típicas do trabalho na construção civil sobre a personalidade e os rumos que a vida desses sujeitos tomou. Por outro lado, se o sujeito e as interações, as relações sociais efetivadas, são indissociáveis, eles se influenciam mutuamente. Então, a vida nômade de trabalhador da construção civil é peça fundamental para entendermos a identidade que os sujeitos desse estudo assumiram. Se eles estão acomodados na vida no abrigo é porque essa vida está adequada à imagem que fazem de si mesmos. E essa imagem, por sua vez, foi corroborada pelas relações sociais efetivamente estabelecidas: marcadas pelo improviso e incapazes de garantir o acesso e o acúmulo de bens culturais e materiais.

Foi necessário que um grupo de fatores diferentes se combinasse para que cada sujeito encontrado no abrigo perdesse os vínculos sociais e fosse viver na rua, lugar de onde foram recolhidos. Entre os fatores que se combinam, estão a falta de escolaridade e qualificação profissional, o rompimento dos vínculos com o grupo doméstico e o uso de drogas, inclusive o álcool. Nas 39 entrevistas realizadas, encontram-se relatos de abandono e miséria na infância e na juventude, mas também encontram-se relatos de vida familiar organizada. Os depoimentos dos solteiros focalizados nesse artigo, com relação à família original6, revelam um grau de coesão familiar maior do que o que foi relatado pelos entrevistados que vivem no abrigo com seu grupo doméstico.

A família funciona como um elemento de ligação entre o sujeito e a sociedade. Em muitos dos 39 relatos a ida para a rua é precedida do rompimento dos laços familiares7. Entre os 6 adultos solteiros, que saíram de casa para trabalhar e nunca mais voltaram a viver em família, a importância do grupo doméstico original é revelada nos depoimentos que associam esse grupo à idéia de segurança, prazer e expectativas de vida melhor no futuro8. Eles saíram de casa ainda jovens em busca de melhores condições de vida e o fato de atuarem em empreitadas, sem vínculos empregatícios estáveis, indo de um estado para outro à procura de novas obras, dificultou a manutenção dos vínculos sociais e familiares. As condições de vida e os relacionamentos marcados pelo imediatismo lançaram esses sujeitos em uma existência improvisada, onde consolidar laços sociais e afetivos implicava expectativas frustradas. Tudo fica ainda mais difícil quando se consideram a baixa escolarização, a falta de qualificação profissional e as dificuldades socioeconômicas vividas junto à família.

Os 6 adultos solteiros entrevistados aprenderam nas empreitadas a conviver com a instabilidade, com a falta de perspectiva de mudança e com um tipo de sobrevivência que não consegue ir além da solução cotidiana de emergências9. Os dados não nos permitem afirmar que as experiências vividas no trabalho tenham sido suficientes para determinar a situação atual de vida desses sujeitos, mas não podemos deixar de perceber a ligação existente entre o estilo de vida implícito no tipo de trabalho realizado e a permanência no abrigo. Por outro lado, a identidade elaborada por eles, fundada na idéia de fracasso e na crença de que estão pagando por erros do passado10, também foi mais facilmente construída nessas mesmas relações. Mesmo os adultos solteiros, que na época da pesquisa tinham um trabalho regular no abrigo, continuavam se sentindo perdedores e sem condições de oferecer qualquer benefício para seus familiares11.

O fundamental aqui é perceber que esses sujeitos, que viviam em famílias organizadas e saíram de casa muito jovens para trabalhar em obras, que moraram muito tempo em alojamentos, mudando de cidade a cada nova empreitada, tiveram no trabalho um dos constitutivos da sua auto-imagem de fracassado. Além disso, o trabalho, efetivamente, foi o elo entre a vida familiar e a vida na rua, porque sua rotina implicava disponibilidade para o estabelecimento de laços afetivos frágeis, aceitação de condições precárias de vida e de mudanças repentinas de ambiente.

A realidade vivida pelo sujeito, aquela a que o ego deve acomodar o id e suas paixões, foi a realidade das mudanças e da precariedade dos laços afetivos e das condições materiais de vida. Mas apenas os sujeitos que conseguiram realizar este trabalho de acomodação foram capazes de manter a saúde mental. Como foi dito antes, os sujeitos são saudáveis quando as representações que eles possuem para sentir e pensar sua identidade se articulam aos significados socializados e, por outro lado, quando mantêm ativo o princípio do prazer. Ou seja, a adaptação dos adultos solteiros às condições de vida dentro do abrigo, que é vista como acomodação e fraqueza, na verdade, expressa a eficácia da resposta que seu psiquismo deu à adversidade, sendo capaz de mediar o mundo externo e o mundo interno, mantendo o vínculo com os significados e as interações socais das quais participa. Ao contrário do que acontece com alguns moradores das ruas, que vivem isolados num mundo simbólico particular. Ao mesmo tempo, os adultos entrevistados buscavam viver seu cotidiano da forma mais feliz possível, e estabeleciam laços de amor e amizade com outros usuários12.

O abrigo público ofereceu aos sujeitos a segurança perdida13: a certeza de que vão estar aqui amanhã, e por todo tempo que precisarem, ou acreditarem que precisam14. Eles sabem que não vão mudar de casa ou de emprego, nem vão ter que viver na rua. A instituição é uma opção de vida para seus usuários, porque, efetivamente, ela é o lugar onde muitos conseguiram estabelecer uma rotina onde puderam criar hábitos, que são reguladores do cotidiano e diminuem a complexidade da vida15.

Isso não significa dizer que a vida no abrigo é boa, ou mesmo adequada, mas significa dizer que qualquer mudança que se pretenda fazer deve considerar cada usuário como construtor legítimo da sua história, capaz de escolher o melhor para si. Para isso é importante tentar entender o contexto no qual se situaram as escolhas que os moradores da Fazenda fizeram na vida, mesmo que essas escolhas os tenham levado para a rua e, posteriormente, para um albergue para população de rua. Por outro lado, se acreditamos que durante toda trajetória dos indivíduos a identidade que foram assumindo estava adequada às suas condições reais da existência, o trabalho de transformação desses sujeitos, que tem como base o respeito à sua individualidade e à sua condição de ser humano livre, deve começar pela transformação dessas mesmas condições reais de existência – que, aliás, são aquelas que competem ao poder público e à sociedade de maneira geral. As escolhas individuais dizem respeito somente aos indivíduos.



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