Resenha do livro: “Penser comme um rat”



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Arendt, R. J. J. Resenha do livro: “Penser comme um rat





Resenha do livro: “Penser comme um rat

Ronald João Jacques Arendt1

Vinciane Despret, (2009). “Penser comme um rat” (Pensar como um rato). Versailles, França: Edições Quae.



O livro “Penser comme um rat” (Pensar como um rato) de Vinciane Despret, publicado em 2009 pelas Edições Quae, Versailles, França é um pequeno grande livro. Pequeno, por ter pouco mais de 80 páginas num formato de bolso de 19 x 12 cm. Grande, por lançar uma série de questões perturbadoras à psicologia e à etologia contemporâneas. Ele faz parte do ciclo de conferências-debate organizadas pelo grupo “Sciences en Questions” (Ciências em Questões), através do Institut National de la Recherche Agronomique (Instituto Nacional da Pesquisa Agronômica) da França, em 2008 e 2009. Seu texto e foi construído em torno dos encontros e reflexões por ele ocasionados. 1

A maioria das questões que Vinciane Despret vem desenvolvendo nos últimos anos está presente neste livro: o tema da influência em pesquisas que envolvem animais, o artifício na psicologia experimental, a investigação contemporânea em etologia, a teoria das emoções. O que faz a grandeza do livro, a meu ver, é a articulação que a autora estabelece entre duas linhas de pesquisa autônomas no que tange à investigação do comportamento animal. A primeira linha envolve o estudo acadêmico do comportamento animal em disciplinas como a biologia ou a psicologia. Há nestas disciplinas uma longa tradição do behaviorismo à etologia que se organiza a partir do estudo do comportamento animal e que se revela decisiva no desenvolvimento de suas bases teóricas e metodológicas. A segunda linha, ao mesmo tempo muito antiga, pois envolve a domesticação de animais e atual, a partir da denúncia de maus tratos infligidos aos animais por seus criadores, se desdobra no estudo do bem estar dos animais. Se a primeira linha atua principalmente em laboratórios e consiste no acompanhamento dos procedimentos experimentais desenvolvidos pelos pesquisadores, a segunda implica no acompanhamento do trabalho cotidiano de tratadores de animais em fazendas ou criadouros. Entendo que importância deste livro reside na maneira como Despret articula estas duas linhas de investigação do comportamento animal e as consequências interessantíssimas e surpreendentes que ela extrai desta articulação.

No prólogo, Despret parte da seguinte questão: em que medida o que o cientista observa num animal constitui uma resposta, um julgamento, uma opinião da parte deste com relação ao que lhe propõe quem o interroga? Enquanto para alguns cientistas esta questão se coloca de forma explícita, para outros ela emerge na forma de uma inquietação cujas consequências poderiam ser fecundas. E se esta questão fosse colocada para os estudiosos do bem-estar animal? Seus trabalhos poderiam testemunhar quanto à mudança de perspectiva identificada entre os cientistas? A questão do que o animal pensa e percebe, a maneira pela qual julga as situações às quais é submetido faria parte do repertório de preocupações em suas próprias investigações? Tal questão não advém por milagre, ela impõe uma mudança de perspectiva na conceituação sobre o que é um animal e sobre o que é “fazer ciência”. Ela participa de uma mudança. Ao ser colocada, a cena das pesquisas se povoa de cientistas e animais mais inventivos e em muitos aspectos mais interessantes.

Despret propõe então ao leitor efetuar um desvio e retornar ao problema da validade das experiências em psicologia experimental dos anos 60 do século XX: os cientistas pensavam que os sujeitos estavam respondendo à questão que lhes havia sido proposta quando, de fato, eles estavam respondendo a outra questão, posicionando-se em relação à pergunta ou protocolo que lhes havia sido dirigido, respondendo àquilo que haviam interpretado como sendo a demanda do experimentador. A análise dos experimentos daquela época permite indicar que os sujeitos experimentais não apenas adivinhavam o que experimentador esperava deles, como também se conformavam de boa vontade aos seus esforços em esconder os propósitos de suas pesquisas. Mas, como abordar estas análises quando as pesquisas envolvem animais? Despret retorna ao trabalho do psicólogo experimental Robert Rosenthal, já explorado em outras obras suas2. Ela nos recorda que Rosenthal havia solicitado a estudantes de psicologia de avaliar ratos provenientes de linhagens cuidadosamente selecionadas a partir do critério de sucesso em testes de labirinto. Havia uma linhagem de ratos “brilhantes” e outra de ratos “medíocres”. Os estudantes submeteram então tais linhagens selecionadas às provas padronizadas de labirinto e os resultados obtidos estavam de acordo com o previsto: os melhores resultados foram efetivamente dos ratos inteligentes e os piores dos estúpidos.

Ocorre que não havia linhagens especiais, os ratos eram ratos comuns. Rosenthal queria testar o quanto o desempenho dos ratos podia ser afetado por um tratamento diferencial, o quanto ratos tratados ou não com amizade ou confiança poderiam obter melhores ou piores resultados em provas de aprendizagem. Despret observa que poderíamos sem dúvida pensar que o mérito de Rosenthal teria sido o de abrir a porta à ideia de que os animais poderiam colaborar nas pesquisas e não sendo indiferentes à maneira de se dirigir a eles. Mas não era este o seu problema, sua pretensão era eliminar totalmente esta afetação e, para garantir o controle e a objetividade, idealmente eliminar todo o contato entre humanos e aqueles que eles interrogam. Apenas experimentadores absolutamente neutros ou indiferentes poderiam garantir ratos neutros ou indiferentes à maneira como são tratados. Estudar as condições da boa aprendizagem estava fora do seu projeto. Pouco lhe importava se os ratos tinham adquirido ou não competências no labirinto e na relação com aqueles que os haviam se comprometido com eles. Rosenthal reduz toda forma de sucessos – ou fracassos programados – a um problema de viés científico, de variações a erradicar. Tal projeto não permite levar em conta o fato de um animal, neste tipo de experimento, poder julgar, avaliar e tomar posição com relação àquilo que lhe é proposto. Os ratos, no experimento de Rosenthal, mediram o grau de cooperação que deles era esperado.

Despret segue descrevendo investigações que, do século passado aos nossos dias, indicam claramente como animais - ratos, macacos, corvos, gatos, cachorros, avaliam a intenção de quem se dirige a eles. A título de exemplo, é importante a menção de Despret ao trabalho de Dominique Guillo, que relata a reprodução, nos anos 1970, das experiências de condicionamento com cachorros. Os pesquisadores constataram que estes manifestavam uma quantidade de comportamentos como batimentos de cauda, latidos, movimentos do focinho, tentativas de brincar, aos quais os cientistas não prestavam geralmente atenção e que caracterizavam condutas sociais que os cães adotam quando solicitam alimento aos humanos. O som da campainha, nas famosas experiências de Pavlov, não indicaria tanto a chegada do alimento, quanto o anúncio de uma interação social com o experimentador.



É pertinente levar em conta o que acontece aos ratos em termos de significações? Despret vai buscar, nas análises do naturalista estoniano Jacob Von Uexküll, as bases teóricas para explorar este ponto de vista. Na contramão das práticas de sua época (Uexküll viveu de 1864 a 1944), sua abordagem considera a totalidade do organismo em relação a seu meio, meio que ele definirá como meio concreto ou vivido, a Umwelt. Nesta concepção, o animal só percebe o que tem para ele uma significação, aquilo que para ele importa. Como as coisas adquirem significação? Despret sintetiza Uexküll: o animal não entra jamais numa relação com um objeto como tal, ele se constitui na ação, sua significação não emerge senão com relação à ação que pode ser exercida. Objetos não são os únicos a propiciar significações. A Umwelt é, ao mesmo tempo, um meio de relações onde significações não estão fixadas uma vez por todas, tributárias de necessidades elementares do organismo, elas são flexíveis, segue a autora, elas podem se ajustar a outros seres e se estender a situações imprevisíveis, modificar-se e até mesmo se inventar e criar novos usos relacionais. A partir da abordagem de Uexküll, Despret pode então reformular sua pergunta: o que pode produzir o fato de traduzir condutas em termos de significações quando se observa ratos? Transcrevo na íntegra um trecho de Uexküll citado por Despret (p. 31):
Durante anos apoiando-se em milhares de experiências efetuadas com toda a sorte de animais que deviam encontrar seu caminho num labirinto, numerosos pesquisadores americanos tentaram determinar o tempo necessário para um animal aprender um percurso dado. Eles, no entanto, desconheceram o problema do caminho familiar (...). Eles não examinaram os caracteres perceptivos óticos, táteis e olfativos e não interrogaram mais sobre a utilização de um sistema de coordenadas pelo animal: o fato que a direita e a esquerda constituem um problema em si não chegou a aflorar. Eles não levantaram também a questão do número de passos, não tendo visto que no animal o passo pode servir para medir a distância.
E a conclusão de Uexküll sobre os experimentos em laboratórios (p. 33):
Os resultados pouco conclusivos destes trabalhos levados com os métodos mais finos de medida e os maiores requintes estatísticos, não importa quem poderia os prever sob a condição de saber que a hipótese implícita sobre a qual eles repousam está errada: o animal não pode entrar em relação com um objeto como tal.
Despret formula então uma série de perguntas. Com base em quais elementos o rato responde quando se submete à exigência de percorrer um labirinto? O que pode significar para um rato este dispositivo particular? Como o percurso do rato se torna, do ponto de vista do rato, o que Uexküll chama de “caminho particular”? Como os ratos, ao pretender responder à questão dos behavioristas – esta questão sendo: qual a relação abstrata de um ser, qualquer que ele seja, a um objeto neutro – respondem, de fato, a outra questão? Porque é disso que se trata, responde Despret, o artefato por excelência. Os ratos respondem a outra questão que aquela que os experimentadores lhe colocam e eles não podem, em nenhum momento, se dar conta disto, pois não tomaram em consideração o ponto de vista que o rato poderia ter da situação.

Quem já observou ratos (especialmente aqueles que invadiram nossas casas) pode constatar que eles se esgueiram pelas paredes, buscando tocá-las. Tentar compreender porque eles agem desta forma poderá dar indícios do que seria o “caminho familiar” para um rato. Despret se reporta então à expressão cunhada por biólogos americanos (Sulivan, 2005): para eles os ratos seriam “haptófilos” (eles gostam de tocar). Eles teriam desenvolvido uma memória sinestésica particular. Pois o rato deve cotidianamente resolver um problema e a haptofilia é uma solução a este problema. Nas peregrinações cotidianas que o levam do ninho aos diferentes locais de exploração que vão permitir que ele se alimente, como poderia ele reencontrar o caminho da volta, pergunta Despret? O rato resolve este problema cartografando seu percurso de outra maneira. Ele inscreve no seu corpo o curso de sua rota, sob a forma de linhas, de curvas, de voltas, rugosidades, texturas, sensações de frio ou umidade – o que sabemos sobre o que pode sentir um corpo de rato, pergunta ela? Não se trata apenas de marcar pelo odor os locais por onde se passa, trata-se também de se fazer marcar pelo espaço, ele mesmo organizado pelo trajeto e incorporá-lo na organização. Estas análises permitem então afirmar que o labirinto dos psicólogos experimentais apaga o acoplamento, o acordo singular que poderia ser tecido entre o rato e a estrutura que lhe é proposta, tornando impensável o evento que o labirinto poderia constituir para o rato: no dispositivo experimental, o rato não responderia à questão da aprendizagem, mas à questão de uma arquitetura que para ele constitui um mundo. Em síntese, a existência de um artefato se acompanha da possibilidade de se considerar o ponto de vista do animal sobre a situação.

Este argumento emerge nas pesquisas sobre as relações entre homens e animais de criação. Não apenas os animais reagem aos observadores, mas os testes indicam que o animal pode com frequência predizer o procedimento que lhe será proposto, isto é, a maneira pela qual cada animal vive os procedimentos em função da percepção que ele tem deles e de suas expectativas, a maneira pela qual ele integra, ativamente, o que dele é esperado. Pareceria, quando se observa a maneira pela qual os animais se comportam, que eles interpretam os dispositivos aos quais são submetidos. Assim, o animal constata a excepcionalidade de um dispositivo, por exemplo, a oferta de alimento e avalia “isto não é como de hábito” ou “isto não vai durar”. Ele percebe que o tempo deste dispositivo experimental não é o mesmo, pois ele se inscreve num tempo provisório e curto (cinco dias de teste, que correspondem a uma semana de trabalho), enquanto o tempo de criação é um tempo de memórias e experiências acumuladas. Ou quando se ensaia uma nova forragem seca a um grupo de vacas e elas veem que o grupo do lado recebe erva fresca e param de comer pensando “nós também vamos receber”. E logo o resultado da experiência é tributário ao que se passa na experiência do lado. Não se pode melhor definir o artefato, afirma Despret: os animais respondem sem dúvida a uma questão, mas não é aquela que lhes foi colocada.

Despret traz o exemplo de um pesquisador que observa ovelhas e cabras. Parte da experiência consiste em avaliar o que elas comem quando colocadas em situações inabituais. O método científico exige que numa amostra aleatória os animais sejam escolhidos ao acaso. Ora, relata o pesquisador, esta escolha poderia ser desastrosa. Na hierarquia do rebanho, um interesse intenso da parte de um humano suscita, em certas cabras, condutas que pretendem suplantar outras cabras, de tomar seu alimento ou criar um tumulto no grupo. Para outra parte, o objeto de atenção do pesquisador provocará a agressividade de suas companheiras, como se o interesse do observador traduzisse a vontade da cabra em mudar de hierarquia, o que produz uma grande confusão no grupo. Não se sabe bem o que se observa, diz o pesquisador: o que come uma cabra em condições naturais ou ao contrário o que come uma cabra que quer mostrar às outras sua superioridade porque subitamente ela pensa que seu status mudou? Estamos lidando com seres que negociam as condições de pesquisa, que se afetam mutuamente, que trocam julgamentos e opiniões, que se modificam reciprocamente e que sabem o que fazem, comenta Despret. Meuret (o pesquisador), segue avaliando a autora, não especula sobre o fato de estar influenciando as cabras ou ovelhas que ele observa, ele pede a elas ativamente de tomar posição com relação a suas proposições e ele se ajusta às delas.

Despret inicia seção seguinte do livro relatando como a primatóloga Barbara Smuts iniciou seus trabalhos de campo com os babuínos no parque Gombé na Tanzânia seguindo as regras prescritas pelo “método da habituação” que consiste em permanecer o mais próximo possível dos animais observados. Tais regras seguem as convenções de uma ciência objetiva: trata-se de não influenciar, de “não estar lá”, de se aproximar dos babuínos buscando recolher informações da forma mais neutra possível. Nesta linha de trabalho, os bons investigadores seriam os que aprendessem a ser invisíveis. Ocorre que quanto mais Smuts ignorava o olhar dos babuínos, menos eles pareciam satisfeitos. Se o procedimento parecia fadado ao fracasso é porque repousava num pressuposto um tanto simplista: ele supõe que os babuínos sejam indiferentes à indiferença. Despret traz uma observação da bióloga Donna Haraway para quem este tipo de pesquisa consiste em se perguntar se os babuínos são seres sociais sem pensar que os babuínos se perguntam a mesma coisa a propósito de seus observadores e devem concluir que não, tendo em vista suas atitudes. É a um tornar-se sujeito que Smuts é convidada quando aprende a responder à resposta dos babuínos, a se deixar habitar, em seu corpo, pelo modo de presença e uso do mundo daqueles que ela interroga. Isto constituirá a condição de seu sucesso. Smuts aprendeu a ser, a viver e a pensar como um babuíno; mas, observa Despret, é para melhor ser, viver e pensar com estes babuínos. Não se trata de saber, do interior, o que pensa um babuíno, o “pensar como” é uma etapa que supera a atribuição de uma subjetividade, a consideração de um ponto de vista.

Para além da abordagem de Jacob Von Uexküll e a partir do relato de Smuts, as reflexões de Despret caminham para um “pensar com o rato”. Ela se pergunta se deveria modificar o título do livro. Mas, trata-se de um trajeto e do que se aprende neste trajeto, do quanto ele importou (e é isto que está no coração do sucesso de Smuts): há que reconhecer então que “pensar com” é um desafio e uma condição de pesquisa.

No comentário que faz do trabalho de Smuts, Haraway conclui que esta teceu com seus babuínos uma relação responsável, uma relação de seres capazes de responder. A questão da resposta envolve respeito e reporta ao fato de olhar, retornar o olhar e responder. Isto não foi sempre o caso nas pesquisas sobre o bem-estar animal, avalia Despret. Estas, por um longo tempo privilegiaram as “reações” do animal antes do que sua possibilidade de “responder”. Para aprofundar a análise deste contraste, Despret vai se referir a um texto de Jacques Derrida consagrado aos animais, mais precisamente a uma passagem onde ele evoca Descartes. Derrida mostra, de forma convincente, que a insistência de Descartes responde a um desafio: ele quer negar ao animal a capacidade de responder3. Em síntese, explica ele, o contraste que Descartes busca colocar é o de “resposta” e “reação”. Descartes insiste no fato de os animais – e dos autômatos que segundo ele são seus modelos – poderem simular o vivente gritando quando são machucados. Todos os exemplos de Descartes - e Derrida viu bem que não se tratava de coincidência, colocam em cena animais caçados, submetidos à dor e à infelicidade. Não são senão reações de medo ou reações a uma perseguição; gritar quando são batidos, fugir quando há ruído; podemos então nos perguntar que mundo o filósofo se cria onde as únicas relações que permitem definir a singularidade do animal de forma decisiva se fazem sob o signo de uma tal violência. Isto não vem por acaso: a filosofia de um só golpe instaura esta violência. Ora, pondera Despret, quando as pesquisas sobre o bem-estar se afirmam para contrariar a opinião segundo a qual os animais não sofrem, ou dito de forma mais justa, não “sofrem deste ou daquele evento” que não se imaginava ser fonte de sofrimento, elas o fazem exatamente em simetria a esta atitude. O animal não é senão reação ao medo e ao sofrimento. Enquanto se permanece no estudo do sofrimento, permanece-se prisioneiro da atitude cartesiana, isto é, de uma atitude que prolonga e legitima o contraste entre “reação” e “resposta”.

Despret não quer negar a imensa importância do fato de enfim ser reconhecida a sensibilidade dos animais, nem esquecer o fato de que as mudanças que ela ambiciona cartografar nas pesquisas contemporâneas constituem uma herança das primeiras pesquisas sobre o sofrimento. Entretanto, precisa ela, o interesse dos pesquisadores pelo sofrimento não responde tanto à demanda social ou a desafios éticos: o sofrimento constitui um bom objeto experimental, mensurável e controlável por índices fisiológicos. Estes, porém, dificilmente podem ser traduzidos como protestos ou julgamentos dirigidos a uma situação marcada por intenções (ela designa sob estes termos as possíveis traduções de “resposta”).

Despret ambiciona ir numa outra direção, colocando uma questão inteiramente nova: será que o contraste montado por Descartes entre “reação” e “resposta” teria podido se manter se fosse necessário abordar outras paixões como a alegria, a amizade, o amor, o vínculo, a admiração? Despret diz que sua questão não é puramente retórica e ela irá tomá-la a sério. Porque aqui reside justamente uma dificuldade de colocação em cena experimental. A questão da felicidade, da alegria, as questões que levantam o fato de não mais definir o “bem-estar” como uma ausência de “mal-estar” não entram tão facilmente no laboratório.

A questão de saber se os animais “estão bem”, justamente por ultrapassar o quadro estreito da “reação”, é uma questão bem mais exigente do que a de saber se os animais sofrem. Ela é consideravelmente mais difícil de avaliar, implica numa maior subjetividade, especialmente porque o corpo do animal testemunha de maneira menos fiável seu estado de bem-estar, do ponto de vista das exigências de medida, do que do stress ou do sofrimento. A questão, afirma Despret, solicita um acréscimo não apenas de atenção, por parte do pesquisador, mas a necessidade de novos referenciais teóricos. O fato de abordar o bem-estar em termos de emoções positivas e não em termos de emoções negativas impõe a invenção de modelos que abordem a alegria ou estados afetivos como a felicidade. Despret relata os resultados de uma investigação que efetuou em revistas de psicologia e etologia animal, de 1975 a 1990, na qual não encontrou nenhum resumo dedicado ao estudo das emoções antes de 1980. O estudo das emoções nos animais não configurava um tema específico de estudos.

A nova concepção do bem-estar se deveu à possibilidade de os pesquisadores levarem em consideração a maneira como o animal julga aquilo que lhe propõem. Tal posição propiciou um terreno fértil para uma teoria que traduz as emoções em termos de julgamentos, que vão das emoções mais simples às mais complexas. Assim, na teoria de Klaus Scherer, que se tornou uma referência importante nas novas pesquisas, segundo Despret, a surpresa ou o espanto são julgamentos que sancionam a novidade de uma situação; estes podem cruzar com outro tipo de julgamento, aquele que avalia o fato de um evento ser desagradável, cruzamento que se traduzirá, por exemplo, pelo medo. As emoções mais complexas implicam quanto a elas avaliações mais elaboradas, como o julgamento que pode ser efetuado na conformidade de um evento com as normas sociais ou pessoais e que então se traduz pelas emoções de vergonha, indignação, cólera ou sentimentos de injustiça ou, porque não, pergunta Despret, se se trata de pensar com os ratos, de desapontamento?

Sem dúvida, tais julgamentos podem sempre ser objeto de experimentações de acordo com o modelo da reação, mas dificilmente este modelo permitirá avaliar o julgamento que o indivíduo efetua sobre o grau de compatibilidade do evento com normas pessoais ou sociais. Assim, galos são atentos ao que se chama “efeito de audiência”: quando o galo encontra seu alimento, ele não chama as galinhas da mesma maneira quando estas lhe são (ou não) familiares, ou quando ele está (ou não) na presença de outro galo.

As palavras mudam e os animais também. Despret traz a palavra de Isabelle Vessier e Bjorn Forkmann: “o foco não mais colocado, no que tange ao bem-estar, na descrição do comportamento animal ou na resposta ao stress, mas antes na compreensão da maneira pela qual os animais fazem experiência do seu mundo”, ou ainda Isabelle Veissier e Alain Boissy, “o estado de bem-estar de um animal é provavelmente o resultado do que ele espera ser seu futuro”.

Fala-se sempre de comportamentos, sem dúvida, diz Despret, mas os comportamentos dos animais e dos pesquisadores se diversificam. Para Jaak Panskeepp, os ratos “riem” em ultrassons quando lhe fazem cócegas, um riso parecido àquele que pode ser ouvido quando eles brincam. Ele encoraja seus colegas a fazer o mesmo, afirmando que, num tempo relativamente curto, qualquer um pode adquirir tal habilidade - ainda que ele tivesse visitado locais de pesquisa onde os cientistas dificilmente obtinham a resposta do riso. Entretanto, nos laboratórios onde os ratos são mantidos cativos em gaiolas próximas às de gatos, ou quando eles são frequentemente punidos, ou ainda quando reinam odores de stress, a operação é impossível. Estamos longe dos autômatos do behaviorismo: estes pesquisadores escutam o riso ou param para prestar atenção ao que eles ouvem. Despret comenta que o fato deste exemplo ser abundantemente citado em artigos sobre o bem-estar mostra bem como este tipo de evento começa a ganhar importância. Ela insiste em lembrar que as emoções positivas são difíceis de avaliar em laboratórios; logo, se os animais começam a rir, isto facilitará grandemente a tarefa dos pesquisadores.

Despret se interroga sobre o que torna os animais felizes. Brincar, fazer o que eles fazem de hábito, estabelecer relações sociais, ficar alegre – a palavra não é utilizada, mas é bem o que descrevem certos autores quando contam que os animais exprimem sua satisfação quando num evento feliz. E principalmente – isto é tão surpreendente neste domínio que Despret entende que deve mencioná-lo - os animais parecem apreciar o fato de serem confrontados a problemas e de encontrar uma solução para eles. O fato de ter desafios a resolver e se mostrarem capazes de resolvê-los parece ser uma fonte de emoções positivas para vacas e porcos. Despret cita Vicki Hearne, a filósofa e amestradora de cachorros frisando o prazer dos mesmos ao serem treinados: como as pessoas, os cachorros têm a maior satisfação de fazer bem o que é difícil.

E o artefato em tudo isto, pergunta a autora, na conclusão do seu livro? Será ele ainda, neste contexto mais alegre, uma referência confiável para sua pesquisa? Esta nova concepção do bem-estar encorajou certos cientistas a oferecer aos animais em situação de confinamento meios enriquecidos. Mas, ao brincar e explorar mais do que usualmente naquilo que se chama de “melhoria” não estaríamos num raciocínio circular? Nós mudamos um meio para promover a exploração e o jogo e nós dizemos então que ele foi enriquecido porque vemos mais explorações e jogos?

Esta inquietação pode testemunhar duas coisas, responde Despret. Ela poderia traduzir o fato de que se coloca a questão do ponto de vista do animal sobre aquilo que o pesquisador lhe propõe: o que para nós importa, importa aos animais? Ou, se a formulamos em termos de artefato: não construímos um dispositivo onde esta era a única resposta possível? Não haveria do seu ponto de vista coisas que lhe importariam mais e que nós não lhe propusemos?

Mas outra versão ligeiramente diferente poderia se apresentar como igualmente possível: a inquietação poderia acompanhar outra versão do artefato, aquela que assombra os pesadelos dos psicólogos que trabalham com humanos: e se tudo o que os sujeitos fazem eles o fazem porque se pediu a eles que o fizessem? O que poderia significar que longe de reagir mecanicamente ao dispositivo proposto, os animais responderiam às demandas do experimentador e o ajudariam, portanto a validar sua hipótese (com o que Despret chama de uma “preferência pelo acordo”). Com certeza eles o fariam por outras razões sobre as quais teríamos que especular – os animais não são sensíveis como nós à autoridade dos cientistas. O que não impede que eles possam ter suas razões de fazê-lo e colaborar a favor da hipótese (não esqueçamos, diz Despret, que podemos estar de acordo sem estar de acordo com as razões de estar de acordo). Ao comentar com a especialista e criadora de porcos Jocelyne Porcher que os ingleses estavam pretendendo verificar a capacidade de mentir dos porcos, Despret conta que ela sorriu e disse: “claro que eles vão mentir! Os porcos têm tanta vontade de fazer prazer que eles farão tudo o que for pedido! Mas fazer os porcos mentir... É uma pena pedir para eles exercerem seu talento justo neste domínio... eles têm domínios de competências que lhe são próprios tão mais interessantes!” Despret gosta da resposta de Porcher não apenas por ela redefinir de maneira plena de humor e humanidade a questão do artefato, mas igualmente porque ela permite manter, ao mesmo tempo, duas proposições inaceitáveis pelos psicólogos herdeiros de Rosenthal, preocupado em erradicar as expectativas do experimentador: o fato de os porcos poderem responder afirmativamente, tendo em vista sua “preferência pelo acordo”, e o fato de que isto não tira nenhum valor da resposta e não a torna suspeita ou falsa. Mas ela acrescenta principalmente que o valor se dirige à questão, sobre o que julgamos interessante, sobre o que tomamos a responsabilidade de propor ao animal. A questão do pesquisador não será tanto “será que eu consegui pensar como um porco?”, mas “como eu posso pensar com o porco?”

O que, aos olhos de alguns, correria o risco de se constituir num desastre do ponto de vista das pressões do “fazer ciência”, poderia, entretanto, traduzir a promessa de uma nova exigência: a de tomar a plena medida de uma situação na qual os seres se respondem, aprendem o que significa “pensar junto” e se “fazem pensar”. Uma situação na qual, principalmente, os seres fazem a experiência de aprender a criar e de se ajustar às significações, conclui Despret.

Recebido: 12/09/2011

Revisado: 15/09/2011

Aprovado: 15/09/2011





1 Pós-Doutorado pela Université de Paris VIII, Professor e Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social do Instituto de Psicologia da UERJ. Endereço para correspondência: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Centro de Educação e Humanidades, Departamento de Psicologia Social e Institucional. Rua São Francisco Xavier, 524 - sala 10019/Bloco F, Maracanã, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. CEP: 20.559-900. Endereço eletrônico: arendt.ronald@gmail.com

2, Para uma análise detalhada do ‘caso Rosenthal’ reporto o leitor à leitura de Despret, V. (2004). The Body We Care For: Figures of Anthoropo-zoo-genesis. Body and Society. Vol 10 (2-3): 111-134.

3 Para Descartes os animais são máquinas cujas engrenagens rangem. Despret dá o exemplo de Malebranche que dizia, enquanto batia em seu cão: “Não, não é sofrimento, Madame, são ruídos mecânicos”.



Pesquisas e Práticas Psicossociais 6(2), São João del-Rei, agosto/dezembro 2011



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