Reflexões sobre a visão pós-moderna da educaçÃo e os debates de educaçÃo em ciências. Ronaldo Eismann de Castro1, Maria do Rocio Fontoura Teixeira2


O mito da sociedade do conhecimento



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3. 2 O mito da sociedade do conhecimento

Demonstrando ser um sistema de pensamento amplo e por vezes um tanto complexo, o pós-modernismo também produziu, simultaneamente, outro mito de signo oposto ao seu relativismo: a sociedade do conhecimento.

A partir de um crescimento dos atuais avanços computacionais e tecnológicos e da disponibilidade de informações via Internet, é propagada a ideia de que estaríamos todos vivendo hoje em uma sociedade que teria, finalmente, democratizado o acesso ao conhecimento. Atualmente o conhecimento científico estaria ao alcance de qualquer internauta aliado a um computador e conectado a internet. Este seria um processo histórico de êxito, por incluir todas as classes antes marginalizadas. Tais mudanças significativas e profundas seriam as razões da crise subjetiva da educação moderna (ESTEVE, 2004).

Para Morin (2015) nós acabamos ficando um tanto quanto desconcertados com uma juventude que não cresceu como a nossa, mas que utiliza o computador com muita facilidade e tem em suas mãos uma verdadeira enciclopédia, podendo inclusive confrontar os saberes adquiridos no Google ao saber do seu professor.

Perrenoud (1999) também corrobora com tal diagnóstico quando afirma que não há muita mobilização de boa parte dos professores ou dos estabelecimentos de ensino quando falamos em democratização de ensino.

Assim, é extremamente importante que tanto as metodologias, as dinâmicas, as formas e perspectivas de ensino, bem como os saberes empíricos aplicados pelos professores em geral, estejam de acordo com a demanda desta geração que tem ao seu dispor uma grande gama de tecnologia da informação através de um simples comando de computador.

Dentro desse contexto, o professor se torna imprescindível para que essa enciclopédia virtual não seja explorada de maneira superficial, mecanicista e ineficiente.

Ainda que muitas vezes apareça de forma sutil, esse tipo de posicionamento reflete um julgamento moral da postura de milhões de educadores, uma atitude política que se tornou bastante comum em todos os ambientes educacionais. Tal posicionamento surge, aparentemente, com o objetivo de provocar mudanças e quebrar resistências conservadoras dos educadores. Segundo o teórico da Educação e consultor da UNESCO, Esteve (2004) precisamos romper resistências e nos converter em pós-moderno.

É bastante importante perceber que, neste ponto, está sendo defendida uma ideia de grande força nos debates educacionais; a saber, a de que estaria ao alcance dos professores a solução da complexa e gigantesca crise educacional existente em nossa época. Essa posição busca reduzir toda a crise social que adentra as salas de aula a um problema simples de conservadorismo pedagógico.

Essas ideias estão, há muito tempo, servindo como debate ideológico entre os educadores, que se tornaram vulneráveis diante desse embate. Hoje em dia, pelo volume de elaborações específicas existentes. Vale questionar: será mesmo que, na Era da Informática, vivemos a tal revolução educacional, propagada pelo ideário pós-moderno, e atingimos o estágio de uma sociedade do conhecimento? Será verdade que o conhecimento está hoje à disposição de todos? Se isso é verdade, para que afinal ainda encontramos tantos problemas na educação?

Tal questionamento é importante para todos aqueles que se indaga por quais caminhos avança a educação. No entanto, novamente, uma análise mais cuidadosa evidencia aspectos importantes das elaborações pedagógicas pós-modernas. Mais uma vez, uma hipótese de validade muito específica e parcial é elevada indevidamente ao patamar de uma conclusão de validade universal na educação.

Usar no debate educacional o argumento de que, agora, tudo mudou e de que o conhecimento está à disposição de um simples toque em um teclado de computador, corresponde a ignorar, solenemente, toda a prodigiosa teoria existente sobre o desenvolvimento da personalidade humana. Significa recuar a concepções que consideravam a aprendizagem humana tão somente transmissão de conhecimentos já elaborados.

O papel da educação volta a ser visto como uma simples instrução mecânica. Só que, nessa nova interpretação pós-moderna, ocorre a transmissão de saberes por computadores, não mais por professores. Dessa maneira, de forma empírica e superficial, a aprendizagem mecânica é redimida pelo pós-modernismo no afã de questionar a importância do papel dos educadores na época contemporânea.

Por acaso, as crianças aprendem a língua materna nos computadores? Evidentemente, não. Conforme Piaget (1976, P. 30): “[...] é sempre através de uma ação educativa externa do ambiente familiar junto à criancinha que essa aprende a sua língua, tão apropriadamente denominada materna”.

As operações da lógica, as classificações, as noções de número, de ordem, de quantidade, de movimento e todos os instrumentos de adaptação que a criança desenvolve ao longo de muitos anos podem surgir por absorção passiva diante de um computador? As estruturas mentais fundamentais podem surgir e podem evoluir sem a existência de um meio social que propicie as interações necessárias às suas construções? Não, obviamente não. Ainda segundo Piaget:
[...] o indivíduo não poderia adquirir suas estruturas mentais mais essenciais sem uma contribuição exterior, a exigir um certo meio social de formação, e que em todos os níveis (desde os mais elementares até os mais altos) o fator social ou educativo constitui uma condição do desenvolvimento (PIAGET, 1976, p. 39).
Vale dizer, o desenvolvimento do ser humano e o avanço das formas de conhecimento dependem em essência do exercício de suas funções cognitivas.

A Informática e as tecnologias educacionais modernas, por mais extraordinárias que sejam, não possuem o condão para levar a criança, em qualquer estágio de desenvolvimento, a aprender por si mesma. A existência da família, da escola, dos professores e das tarefas escolares permanece essencial ao desenvolvimento do individuo. A propaganda de uma sociedade do conhecimento vem associada à difusão de um novo mito moderno, que o torna nebulosa a compreensão do princípio básico da epistemologia genética.

O outro aspecto desse conceito, a afirmação de que há uma profunda democratização do conhecimento a partir da massificação do ensino básico, também deve ser visto com ressalvas. Os índices educacionais de praticamente todos os sistemas educativos no mundo tornam evidente que a massificação escolar está ocorrendo de forma limitada e em níveis muito rudimentares do conhecimento. Ao mesmo tempo, as fronteiras do conhecimento científico – monopolizadas pelas instituições de pesquisa avançada – atingem níveis espetaculares e ficam a cada dia mais distantes da instrução média da população. O fantástico progresso científico não se transforma em elevação do nível cultural médio da população. O inverso é que é verdadeiro; está aumentando o distanciamento e a alienação do ser humano comum em relação aos processos desenvolvidos pela ciência.

Tal fenômeno, já no século XX, foi assim descrito pelo historiador Eric Hobsbawm:

[...] novos avanços científicos foram se traduzindo, em espaços de tempo cada vez menores, numa tecnologia que não exigia qualquer compreensão dos usuários finais. O resultado ideal era um conjunto de botões ou teclado inteiramente à prova de erro, que requeria apenas apertar-se no lugar certo para ativar um procedimento que se movimentava, se corrigia e, até onde possível, tomava decisões, sem exigir maiores contribuições das qualificações e inteligência limitadas e inconfiáveis do ser humano médio (Hobsbawn, 2003, p. 509).
Em vista disso, se pode identificar um processo real de monopolização do conhecimento avançado da sociedade contemporânea, e não de sua efetiva democratização. Há um aumento crescente da fragmentação do conhecimento e, igualmente, da dependência do indivíduo perante a complexidade dos sistemas tecnológicos.




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