Recrutamento e seleçÃO: como fazer uma entrevista



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Encontro05.03.2019
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Trabalho e estratégias formativas: um exemplo empírico
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Grupos intermediários e informalização e grupos alternativo-ideológicos e formalização
A questão da perda de status coloca-se de forma diversa entre os professores de primeiro e segundo graus. O empobrecimento do setor já ocorreu há um número suficiente de anos para que não seja hoje vivido de forma dramática, além do mesmo processo ter provocado uma mudança na extração social dos docentes que torna essa questão menos perceptível. Tal empobrecimento engloba toda a vida escolar e inclui a nova clientela da escola pública, configurando um todo no qual a venda de produtos pelos professores não destoa do conjunto.
Deve-se ainda mencionar o fato de que ainda é muito forte a associação da atividade docente com aquelas típicas das mães de família e donas de casa, predominando na produção e comercialização de bens e serviços, aqueles que de algum modo se conectam a atividades reprodutivas no âmbito doméstico e nos quais se manifestam conhecimentos e virtudes femininas. Nesse sentido, poderse-ia considerar as atividades paralelas das professoras como formas de “trabalho ampliado” e de “auto-empresariamento”, cujos limites de compatibilidade com o magistério só se colocam quando a produção e comercialização ultrapassam muito os muros das escolas.
As instituições, geralmente constituem uma formidável rede de compra e venda capaz de contra-arrestar não apenas efeitos do empobrecimento, mas também da precariedade de tempo livre para compatibilizar a docência ou o trabalho informal com a “segunda jornada” ou para assegurar a “dupla presença” no lar e no trabalho. O comércio termina por permear os espaços possíveis, compondo um quadro em que ele é resultado e um dos motores da dessacralização do trabalho docente. Esta se dá de uma forma “solidária”, no sentido de que os corpos docentes das escolas, incluindo-se aí as direções, terminam por antecipar o que tem sido pregado como uma “economia solidária” em tempos de pobreza.
As mulheres, transformadas em chefes de família, enfrentam a crescente identificação dos membros de sua família e delas mesmas com grupos que não são mais formados a partir do local de trabalho e da escola, mas de novos meios (como a televisão ou locais de encontro de jovens) mediante os quais, abstratamente, se estabelecem identidades e solidariedades com base em estilos de consumo com poder simbólico suficiente para cunhar o dia-a-dia. Especialmente importantes para os grupos pesquisados (qualificados) são as questões relativas ao computador, além de todas aquelas que giram em torno da moda e dos costumes ditados a partir dos shopping centers.
O trabalho se intensifica, além disso, pelo seu próprio caráter informal, porque a informalidade significa também o desaparecimento de um espaço institucional que naturalmente propicia alguma “gordura” e obriga a provar a excelência do trabalho a cada momento. Informalidade é, assim, também sinônimo de intranqüilidade, de trabalho precário e inseguro, de internalização da responsabilidade por um conjunto de tarefas reintegradas e seu resultado último na forma de ingresso e de condições de reprodução, o que significa que o trabalho termina permeando a totalidade da vida. Há quem hoje defenda a idéia de que, no futuro, todo trabalho será precário. Isto suporia uma redução das instituições e uma polarização extrema dos profissionais, uma vez que somente uma parcela muito pequena de dirigentes restaria institucionalmente ancorada. Suporia também que a retração das camadas médias seguiria seu curso, com maior polarização social e muitas interrogações políticas.
Estas questões estão cada vez mais presentes no debate sobre o significado do trabalho na estruturação da vida dos indivíduos. No entanto, também atividades consideradas alternativas ou complementares àquelas reconhecidas pelo establishment e aceitas como valiosas pelas pessoas comuns – como práticas divinatórias, terapias corporais e alimentares diversas – começaram a sofrer um processo de modificação crescente, sendo demandadas e oferecidas ao mercado de forma diversificada e personalizada. Neste momento de transição, profissões mais tradicionais sofrem forte processo de desvalorização social (como no já referido caso dos médicos e dos professores); profissões e conhecimentos profissionais se desmistificam, perdendo grande parte de seu mistério e glamour ; novas profissões surgem em conexão, seja com as novas tecnologias, seja com a integração de tarefas que elas impõem, ao mesmo tempo em que outras profissões e ocupações desaparecem por força dos mesmos processos.
No espaço aberto pela contração do mercado formal de trabalho e pela ideologia do pequeno empreendimento, somado a necessidades sociais fortalecidas pela incerteza, insegurança e redução das fontes de ingresso e de proteção social, as práticas alternativas buscam firmar o seu lugar como profissões. O estilo de vida alternativo tornou-se uma das possibilidades de consumo dos segmentos que se mantêm integrados, mas que buscam sempre mais o produto não padronizado, artesanal, personalizado, de qualidade elevada. Na medida em que mesmo a grande indústria passou a buscar atender ao gosto individual, enxugando seus estoques e permitindo a escolha pessoal de acessórios como forma de elevar os lucros, os produtos naturalmente fora do padrão tornaram-se uma opção importante para todas as esferas em que a grande indústria não está presente.
Pode-se dizer, neste caso, que eficiência também é griffe, nela se impondo a marca da criatividade ímpar do produtor alternativo por oposição ao produto industrial.
De forma paradoxal em relação a tendências atuais, os praticantes de atividades alternativas, ao se verem confrontados mais diretamente com o mercado, começam a buscar legitimação profissional por um processo que tem como primeira meta a obtenção de um diploma. É como se esta etapa tivesse que ser cumprida para que, mais tarde, se possa colocar em questão os mecanismos formais de legitimação. Os nossos dados empíricos mostram que, de fato, todos querem ao menos um certificado, pelo qual se possam vincular institucionalmente e gozar de reconhecimento profissional. Em busca da formalização, o informal/ alternativo quer, na verdade, um diploma apoiado em currículos e programas legitimados por profissionais reconhecidos (por notório saber, formação em áreas afins e/ou especialização feita no exterior) emitido, seja por uma escola profissional (de segundo grau, por exemplo), seja por uma escola de ensino superior. Para isso estão dispostos a adequar-se ao establishment, o suficiente para aceitar requisitos hierarquizados e formação padronizada sem, contudo, alimentar a perspectiva de uma carreira no que esta tem de tradicional e hierárquico. Controle disciplinar e de recrutamento, aspectos importantes para os grupos profissionais clássicos parecem mais flexíveis nos segmentos alternativos.




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