Reciclando as adversidades



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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Jung (2007) passou mais de meio século pesquisando os símbolos, a força das imagens arquetípicas e o que há de mais profundo no ser humano. Ele chegou à conclusão de que esse material não é nenhum “absurdo estúpido” (Jung, 1981, p.604). Ao contrário, eles fornecem informações muito interessantes, basta esforçar-se para entender os símbolos. Entretanto, Jung (1981) reforça que os resultados pouco se associam com a compra e venda. Isto é, com os nossos interesses terrenos. Pois, para ele, “o sentido de nossa vida não se esgota em nossas atividades comerciais, nem os anseios da alma humana são saciados pela conta bancária, mesmo que não tenhamos ouvido falar em outra coisa” (Jung, 1981, p.606).

Hillman (1995) acrescenta a importância de dar espaço aos símbolos e imagens que estão dentro de nós. Ele propõe: o modo como imaginamos nossa vida é o modo como iremos continuar a viver nossas vidas. Pois a maneira como contamos a nós mesmos sobre o que está acontecendo é o gênero através do qual os eventos se tornam experiências. Logo, uma imagem não é o conteúdo que vemos, mas uma maneira como vemos.

Certo dia, um garoto catador se dirigiu a mim, parecendo que não conseguia se ver de outra maneira, além de fedido e imundo, não percebendo outras imagens além dessas.

Talvez, para que a vivência com o lixo, na vida destas pessoas, seja experienciada de maneira prospectiva, haja a necessidade de vivenciar essas imagens de outra forma, indo além da visão sombria e suja.

Para poder transcender à referida visão, é necessário, de acordo com Jung (1999), dar espaço à instância que realiza a unificação interior, que não pertence à esfera pessoal, logo não está ao alcance do ego. Ela é hierarquicamente superior, pois, como o Si-mesmo, representa uma síntese do eu com o inconsciente suprapessoal.

Porém, o contato com o fortalecimento interior do indivíduo não se associa a uma forma em nível superior do endurecimento do homem massificado, nem a uma atitude de isolamento espiritual e de inacessibilidade. Muito pelo contrário, ele inclui o próximo.

Nagy (2003) complementa a importância de olhar além da visão da consciência e deslocá-la para o olhar teleológico, onde o Si-mesmo se torna o centro. Isto é, a possibilidade de enxergar além da sombra projetada no lixo, quem sabe reciclar a forma como o vê. E cabe colocar que essa reciclagem necessita ser integrada tanto no mundo externo, como nas “cascas de cebola”, quanto no mundo interno, no qual há resíduos armazenados que necessitam passar por um processo de transformação. Assim sendo, surge “uma realidade com a qual podemos fazer alguma coisa, uma realidade viva, plena de possibilidades”. O processo de individuação depende da capacidade de viver em relação com um sutil centro diretivo além do eu.

Logo, considerando esses jovens, pode-se pensar no quanto é necessário confiar nesta visão, mesmo que em nossas vistas o que se veja não sejam possibilidades. É preciso que o jovem catador de material reciclável olhe para além daquilo que o cerca, confie muito além do que vê; desse modo, poderá, quem sabe, dar espaço para o Si-mesmo se realizar em sua vida.

Sendo assim, vê-se a importância de um trabalho que fortaleça e valorize o mundo interno de cada ser de nossa sociedade, na medida em que, agindo assim, se poderão descobrir outras possibilidades dentro de cada um, que permitam se diferenciar da massificação da psique. Um trabalho de fortalecimento da consciência individual além do lixo. Ou seja, lixo a serviço da individuação, não da massificação. É preciso entender que , quando se vê programas de saúde pública ou de assistência psicossocial, ou da escola com grande evasão ou pouca procura por parte dessa população, não é por que eles “não queiram” ou “porque sejam preguiçosos”. Não há como trabalhar o mundo externo, se as imagens internas que eles carregam dentro de si são as sombrias. Por isso, o trabalho precisa iniciar de dentro para fora: fortalecendo a psique do indivíduo.

Jung (2007) traz na metáfora alquímica a necessidade de transformação para que se possa alcançar a lápis (pedra filosofal). Um dos elementos explorados por ele, nesta analogia, é o Mercúrio. Esse elemento é o unificador das partes. Aprendi com meu colega Fábio, que é o Mercúrio que permite enxergarmos o ouro no processo de garimpar, pois se pingam gotas de mercúrio para que o ouro se diferencie no processo.
Mercurius consiste em todos os opostos possíveis e imagináveis. Ele é uma dualidade manifesta, sempre porém designada como unidade, se bem que suas oposições internas possam apartar-se dramaticamente em figuras diversas e aparentemente autônomas (Jung, 2007, p.228)
Para Jung (2007), ao longo do processo alquímico, o Mercúrio necessita ser reconhecido e integrado em suas diversas possibilidades. Em uma delas, o Mercúrio é conhecido como “Mercurius Obscuro”. Neste momento se predomina o caos originário, a indiferenciação, não há valor. Jung (2007) refere que, em muitos textos, esse Mercúrio era encontrado na latrina, acrescentando a observação: “muitos remexeram a latrina, mas nada retiraram dela” (Rois.phil,in: Art.aurif II, apud Jung, 2007). Nessa condição, de acordo com Jung (2007), o Mercúrio está “trancado”, no sentido de indiferenciado, inconsciente, e com isso se tranca a possibilidade de desenvolver a capacidade de individuação. Cabe colocar que, de acordo com Jung (2007), é dentro que existe a transformação; porém, para a mesma acontecer, necessita estar em relação com o fora, integrando aspectos que, até então, estavam negligenciados.

Assim, pode-se pensar que, na realidade desses catadores, tal momento seja marcado quando eles se “trancam” nesta realidade, não dando possibilidades de vivenciá-la de forma diferente. Se aquele garoto pudesse olhar que, além de “imundo” e “fedido”, ele é um adolescente que parecia ser batalhador, amigo, gentil, honesto, íntegro com o pai,. Enfim, um ser humano riquíssimo em qualidades!.... Junto desse exemplo, como em outros, entendo que a postura solidária se torna uma possibilidade para vivenciar as imagens de outro lugar, podendo emergir a função transcendente e o Si-mesmo se expressar.

Na época dos desabrigados de Santa Catarina, um grupo fez pão para vender e enviar o dinheiro para lá. Eles doavam o que tinham, não o que estava sobrando. Comigo, também, sempre me acolheram, protegeram, ensinaram e ajudaram a entrar em seus universos. Por isso, suas facetas iam mais além do que faces fedidas e imundas.

Jung (2007) acrescenta que, para essa condição mudar o “germe do ouro”, referindo-se ao Mercúrio, precisa ser vivenciada em sua plenitude, o que exige esforço, interação com outros elementos e processamentos, entre outros aspectos. Assim, será encontrada outra faceta do Mercúrio: O Mercúrio Filosófico.


Ele [Mercurius Filosófico] se eleva da terra ao céu e de novo desce à terra e adquire a força do superior e inferior...Não se trata aqui absolutamente de uma ascensão num só sentido em direção ao céu, mas ao contrário do caminho do redentor – Cristo, o qual vem do alto para baixo, e de novo se eleva, o filius macrocosmi inicia sua trajetória embaixo, se eleva e volta de novo à terra, com as forças unidas do superior e do inferior (Jung, 2007, p.227).
Assim sendo, pode-se associar que entrar nesse processo representa o garoto, citado no início do estudo, poder se reconhecer em sua plenitude. Não mudando sua realidade concreta necessariamente, mas sabendo que pode vivê-la de forma mais plena e digna, não esquecendo (ou colocando no lixo) um lindo lado de sua personalidade. Jung (2003) completa:
O homem contém nuclearmente todas as coisas dentro de si, desde as origens, e, por isto, pode as recriar sempre de novo, extraindo-as do seu próprio íntimo. (Jung, 2000, p.528)
Hillman (1995) acrescenta esta compreensão, abordando de forma distinta, mas reforçando esta preposição. Ele coloca a necessidade de o homem re-criar, re-contar, re-pensar suas histórias, vivendo-as de forma criativa e plena consigo mesmo.

A pessoa passa a fazer sua história e aprender sobre a vida pela imaginação, e não somente pelo pensar, sentir ou perceber. Assim, a imaginação passa a ser um lugar onde podemos ser, onde se cria a experiência e dela se faz nossa história (Hillman, 1995).

Portanto, para Hillman (1995) quando alguém mantém um sentido de mundo imaginal, sua existência concreta deixa entrar “seus campos e palácios, seus calabouços e longos navios, aprendendo que seus mundos são criados por palavras e imaginações, não somente por martelos e arames” (Hillman, 1995, p.46).

Nagy (2003) conclui: “o Si mesmo é desconhecido, porém seus efeitos podem ser vivenciados, já que são reais. Mesmo que o eu não o identifique, saiba, conheça, nomine, o Si mesmo acontece em nós, sem controle, já que é algo maior.” Portanto, mantenho a minha esperança na psique para que algo surja de algum lugar, que faça esses jovens sairem de dentro de suas cavernas. Gostaria muito que os pais e seus jovens filhos deste estudo transformassem seus “martelos e arames” e mergulhassem na integração do Mercúrio. Fica a minha fé de eles se permitirem a re-criar, re-contar e re-começar suas histórias, descrevendo-as com outras possibilidades, outros símbolos e imagens, com alma, enfim, com amor. Não há como forçar, como explicar a luz daqui de fora, mas fica o meu desejo para que eles tenham coragem de sair do casulo, se diferenciarem, já que “a causa final em toda a natureza é assim o anseio da plena consumação do ser. Amor de Deus - ou amor do Si-mesmo – é o objetivo último da vida temporal” de Aristóteles, citado por Nagy (2003). Que sejam regidos pela força e desejo do Si-mesmo para trilharem seus caminhos.

Termino este estudo com o meu eterno agradecimento a essas pessoas gigantes de coração, que me ensinaram lições que nenhuma escola é capaz de transmitir.




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